ATO I – O SEGREDO
Quarto de casal. Cama arrumada demais, artificial. Um abajur aceso. Antônia deita, ainda suada, lençóis grudados no corpo. Geraldo, sentado na beira da cama, fuma.
ANTÔNIA (virando-se para ele, ofegante)
Amor… eu… eu tenho que falar… minha vergonha… meu pecado.
GERALDO traga fundo, sem mudar o rosto.
GERALDO
Fala.
ANTÔNIA (mãos no rosto, arfando)
Sou… adúltera. Te traí. Mas… acabou. Me perdoa.
Silêncio. O tic-tac de um relógio.
GERALDO (sereno, quase paternal)
Eu sei.
ANTÔNIA (sentando-se, atônita)
O quê?! Como… como sabe?
GERALDO (frio, olhando o cigarro)
Já sabia. Há tempos. Vi no teu telefone. As mensagens. Os encontros.
ANTÔNIA (esbugalhada)
Meu Deus…
GERALDO (agora firme, olhando-a nos olhos)
Por que você acha que eu mudei? Hein? Eu me matei pra ser melhor. Melhor pra você. Não queria te perder.
ANTÔNIA (chorando, soluçando)
E… e não tá com raiva de mim?
GERALDO (apaga o cigarro)
Tô. Mas te amo. E vou passar o resto da vida contigo. Você é especial. Eu só quero merecer.
Luzes diminuem. Fim do Ato I.
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ATO II – O NOME
O mesmo quarto. A cama agora revolta, desfeita. O abajur derrubado. O copo de uísque pela metade. O corpo deles colado, suado.
GERALDO (beijando-a no pescoço, no ombro, sussurra)
Qual o nome dele?
ANTÔNIA (recua, arfando)
N… não…
GERALDO
Fala. Não vou ficar brabo. Só fala.
ANTÔNIA (gemendo, entrecortada)
Ca… Ca…milo…
GERALDO endurece no mesmo instante. Sorri de canto. Continua a beijá-la, a chupar-lhe os seios.
GERALDO (entre uma chupada e outra)
Onde conheceu?
ANTÔNIA (ofegante, gemendo)
Ah… em casa… ele ia… amigo do Hamilton…
GERALDO
Teu primeiro namorado?
ANTÔNIA
Foi…
GERALDO
Primeiro homem?
ANTÔNIA
Primeiro… só ele… antes de ti…
GERALDO desce até a virilha, abre as coxas dela. Aspira. Sorve. Fala com a boca suja do cheiro dela.
GERALDO
Imagina que tá com ele. Onde foi a primeira vez?
ANTÔNIA (gemendo alto)
Na… na praia…
GERALDO
Como foi?
ANTÔNIA (sufocada, contorcendo-se)
A tia dele… tinha casa… fomos… à noite… nas pedras…
GERALDO
Ele te pegou lá?
ANTÔNIA
Não… não queria… tinha medo… certinho… eu que… eu que me esfreguei nele…
GERALDO (enfia a língua fundo, depois ergue o rosto)
Ele te chupou assim?
ANTÔNIA (gritando, gemendo)
Sim… amor… sim… todinha… e eu… eu chupei ele também… todo…
Ela grita o nome.
ANTÔNIA
Ca… Ca…milo… Camilo…
Luzes oscilam como se tremessem. Fim do Ato II.
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ATO III – O DESEJO
Quarto ainda mais devastado. Travesseiros no chão. O lençol suado, empapado. O copo de uísque vazio.
GERALDO ergue o rosto dela, os olhos febris.
GERALDO (baixo, quase um gemido)
Volta com ele.
ANTÔNIA (assustada, sem ar)
O… quê?
GERALDO
Volta com ele. Eu não ligo. Eu adoro isso.
ANTÔNIA
N… não… isso é… loucura…
GERALDO (segura o queixo dela, feroz)
Sem ele… tu não existe. Sem ele… nós não existimos.
ANTÔNIA (chorando e rindo ao mesmo tempo, soluçando)
Eu… eu volto… se tu quiser… eu volto…
GERALDO morde-lhe a coxa, feroz, depois beija. Sorri um sorriso demente.
GERALDO
Vai. E volta. Sempre volta.
O quarto se enche do riso dele, do gemido dela. O nome proibido ecoa como uma oração.
ANTÔNIA (ofegante, repetindo, cada vez mais alto)
Ca… Ca…milo… Ca…milo…
As luzes baixam lentamente. O ventilador para. Silêncio.
CORTINA.