Minha vida virou de ponta cabeça, desde que me envolvi com Bubba.
Essa pequena jovem ruiva que chegou com a horda de refugiados da transilvânia e que Hanna, minha esposa, fez questão de adotar, exerce um poder absurdo sobre mim.
Logo eu, que sempre fui à igreja com a família, que sempre teve um código de ética estrito e que nunca sequer havia cogitado trair Hanna, dediquei-me a chafurdar às escondidas como um devasso.
Eu não consigo resistir. Por mais que tente, quase todas as noites eu fico sem dormir e vagueio pelo castelo, até que a infeliz me encontre e me use, ou melhor, me faça usá-la. Há algo sobrenatural nisso, ou então enlouqueci de vez devido à falta de sono.
Se me levanto em meio à escuridão e sinto uma necessidade inexplicável de ir ao estábulo, é porque Bubba está lá, esperando-me, uma égua ruiva em meio aos cavalos, desejosa de ser coberta.
Permanece em pé, inclinada sobre as traves, nua, as vergonhas abertas para que eu venha e a tome por trás, a indecente. Como uma vadia, exige que golpeie suas nádegas com minha masculinidade, quer ouvir o ruído de minha carne contra a sua, leva minhas mãos aos seios pequenos de auréolas vermelhas como duas brasas para que os aperte e belisque, até fazê-la entrar num êxtase.
Os cavalos ficam arredios à nossa volta, relincham e se inquietam. Até eles sabem que aquilo não é natural. Sim, possuir Bubba como ela exige é tudo, menos natural. Não porque a garota tenha metade da minha idade, nem porque eu seja um homem já estabelecido no matrimônio. É uma sensação, um clima profano, proibido, chega até a ser demoníaco.
Vago pelo castelo e subo a longa escadaria da torre norte, desde os vãos nos muros de pedra cinza tenho ímpeto de me atirar e acabar com minha sina, mas Bubba chega em seguida e me abraça, me segura nesta vida, impedindo que eu desista.
Com trovões ressonando ao redor da torre, ela vem nua e senta-se sobre mim, prendendo nossos corpos um contra o outro, enquanto nossas carnes se abrem, se eriçam e se unem em atrito e fricção até que o gozo chegue e que ela receba a única coisa que me resta a oferecer: minha semente em devoção, como se ela fosse uma santa.
A santa puta, a santa devassa, a santa do inferno, essa deve ser Bubba. E eu gosto e não resisto, não consigo e nem quero, só desejo tê-la em minhas mãos e possuí-la com selvageria. Não luto mais contra isso, é imensamente maior que eu. Não resisto a nada.
Ela me chama para a floresta, encontro-nua numa clareira rodeada de tochas, Bubba ordena, pede e suplica que eu leia um escrito místico, enquanto se ajoelha diante de mim e me sorve o membro, lambendo e sugando, engolindo-me voraz e despudorada.
Entre seus cabelos cor de fogo, percebo seus olhos azuis transformando-se, os ideogramas que vejo girando em suas íris quando ela goza começam a esparramar-se, escorrendo pela pele branca como tatuagens vivas que se contorcem pelas curvas do corpo jovem até que os olhos já não possuam cor, somente dois orifícios escuros como pérolas negras opacas, fitando-me desde abaixo, enquanto termino de ler o manuscrito e ejaculo uma vez mais em sua boca.
Esse é o ritual que me prendeu definitivamente a ela e permite que, a cada coito surreal, a cada gota de semente dedicada à garota, minha vitalidade se debilite e a dela aumente, até que não sobre mais nada de mim que lhe sirva.
Desde então, os dias parecem andar para trás, com o sol se pondo nas manhãs e ressurgindo nos entardeceres. Ninguém percebe, só eu. É como se, a partir dali, eu vivesse num tempo separado de mim mesmo, sonhando acordado com coisas que não entendo.
Um dia sou um autor renomado, estou num casebre estranho sobre um morro, há tiros e uma guerra sem exércitos ao redor, mas não me preocupo com isso, atormentado à espera de Bubba. Contudo, quem aparece em seu lugar é uma jovem de tez morena chamada Jojo, que se oferece a mim e me possui sem pudores nem reservas, pedindo em alguma língua latina que o faça com brutalidade para seu prazer.
Já no dia seguinte sou um escritor errático, máquinas monstruosas aceleram num caminho negro em frente ao quarto desprovido de charme em que me encontro, novamente à espera de Bubba. Mas não, ela não vem. Quem chega todas as noites é uma loira chamada Haylin, de ossos largos e porte alto, que numa língua anglo-saxônica me seduz e me degusta, tomando minha carne e me consumindo na cama até a última gota de minha semente.
Quando acordo e me distancio destas ilusões, volto a ser eu mesmo. Mas não exatamente o mesmo. Na vida do castelo na Alemanha onde conheci Bubba, vivo catatônico, sem reação, vegetativo. Quem está vivo é meu corpo, eu só vivo de fato na ilusão, quando estou escrevendo e amando alguma daquelas mulheres de formas nada convencionais.
E agora que Bubba simplesmente desapareceu, começo a perceber ao meu redor coisas que não notava antes. O fato de parecer somente um móvel esquecido num canto da sala, faz com que as pessoas me ignorem - e se revelem na minha presença como nunca antes o fizeram.
Hanna, minha adorada esposa, se esquece de mim por dias num canto e parece feliz com a situação, tendo assumido os negócios e distribuído ordens aos vassalos que cuidam dos campos, exigindo-lhes partes cada vez maiores das colheitas para acumular moedas.
Acolheu em nossa casa um outro homem, a quem trata com muita deferência e, creio, paga uma razoável quantia por seu aconselhamento. Ele a possui, eu sei, eu vi. Vi quando ele levantou seu vestido e a usou, fazendo-a inclinar-se enquanto estava de pé com ele por atrás, investindo naquele sexo que, até então, somente era oferecido a mim.
Tenho raiva e pena de minha esposa ao mesmo tempo. Pobre Hanna, em seu desespero talvez ela não saiba, mas o pior deste estranho em nossa casa é sua influência sobre nossas filhas.
Heidi e Charlotte, meus anjos, chegam acompanhadas do homem à sala onde meu corpo foi depositado e realizam estranhos rituais sob seu comando, onde se entregam a ele. O fazem juntas na minha frente, como se quisessem se vingar da minha condição inerte.
O tal homem, apesar de mais velho, as possui com volúpia e faz cosas aviltantes com as duas bem ali, à minha frente. Heidi se põe de quatro e aceita calada e subserviente que ele lhe meta pelo rabo, enquanto Charlotte lhe concede as vergonhas para que ele lamba e enfie seus dedos imundos dentro dela.
Vejo com meus olhos como ele se refestela fazendo-as ter repetidos orgasmos, vejo sem poder fazer nada, vejo inerte e imobilizado desde a cadeira no canto, vejo minhas filhas se rebaixarem e se conspurcarem com aquele homem que macula tudo o que herdei e o que eu construí durante minha vida.
Por isso, era como se fosse uma benção desligar-me dessa existência vil para viver as ilusões noturnas. Mesmo que nelas eu sofresse a agonia da ignorância, nada se compara ao que presencio quando estou nesta realidade que um dia já foi minha.
Sinceramente? Me arrependo.
Não por haver cedido a Bubba, não por ter deixado que lançasse sobre mim seu feitiço, talvez isso tenha sido a única coisa verdadeira que tive, essa entrega, essa troca de favores carnais entre nós.
Meu arrependimento é que justo terminei com as ilusões em que ela me mantinha preso, ao haver começado a escrever minha versão do Putamatri e, durante momentos de agonia, haver tomado notas sobre cada uma das realidades falsas criadas por Bubba.
Foi esta ideia que permitiu eu ter clareza de que tudo aquilo era falso. Foi essa maldita consciência que acabou com meus sonhos, e eles eram o que de melhor me restava, junto a Jojo, a Haylin e outras personagens que Bubba inventava para me distrair.
Agora, minha única esperança de que algo mude e eu me liberte dessa condição humilhante é que a própria Bubba desista de mim e me devolva a capacidade de reagir, enfrentar aquele velho e retomar minha vida original, a verdadeira, num castelo na Alemanha do século dezessete, junto ao que restou da minha família.
Mas porque ela o faria, se está justamente se alimentando de mim? Bem, talvez haver acabado com as ilusões tenha sido uma boa estratégia. Só assim posso obrigá-la a me esquecer, agora que já me pode mais usar.
Se ao menos Bubba voltasse, se ela ao menos me visitasse uma vez que fosse, tenho certeza de que poderia resolver essa situação aviltante que se estabeleceu ao meu redor.
Justo quando penso nisso, quando sinto esse desejo de rever Bubba com honestidade e clareza, lá no fundo do meu ser, é que tudo em volta começa a girar e desfazer-se, como nas ilusões que vivia antes, até que a verdadeira realidade desapareça.
Em vez de angústia, eu vou feliz. Sei que agora vou rever Bubba. O que ela terá inventado para distrair-me? Qual artifício usará desta vez para que eu não perceba que ela está me consumindo? Não importa, não estar aqui é tudo o que desejo.
