Travessia

Da série Fora da Ordem
Um conto erótico de Bayoux
Categoria: Heterossexual
Contém 8177 palavras
Data: 17/02/2026 14:55:23
Última revisão: 17/02/2026 16:59:23

O amor é um mistério.

Nunca o compreendemos totalmente. É lindo e alegre, tanto quanto angustiado e sofrido. O amor é um todo, feito dessa amálgama sentimentos. Depois que Ivetinha foi embora, fez-se noite em meu viver e agora, mesmo depois de cinco anos sem vê-la, esse amor impossível assumia seu lado mais sombrio.

Eu fazia de tudo para distrair meus pensamentos e tentar não sentir essa dor, mas ela sempre estava ali, ao meu lado, cada vez mais intensa. Foi por isso que precisei me anestesiar, entrando para o movimento anarquista na faculdade de história. Não que eu fosse realmente engajado, aquilo era só uma maneira de sentir que continuava vivo enquanto o tempo passava. Jamais imaginei que me tornaria uma celebridade da esquerda.

Já no primeiro encontro do nosso pequeno grupo depois da fatídica noite em que enlouqueci e colei cartazes subversivos na sede do DOPS, dava para perceber a mudança. Os caras me tratavam com uma mistura de respeito e inveja, principalmente o Wilsinho, que vivia colado na Tereza. Já ela, por mais que pregasse o amor livre, sem compromisso nem amarras emocionais, se esforçava para não dar na pinta, mas ainda assim eu notava uma leve expressão de raiva quando eu ficava com Mayara.

Eu me deixei levar, os elogios das garotas remendavam minha auto-estima esfacelada pelo casamento de Ivetinha com o tenente Machadinho, o pulha que comia a própria sogra. Como ele podia? Como podia ter em sua cama aquela garota que era tudo para mim, e ainda assim fazer pouco disso, tendo um caso com a mãe dela? Ainda por cima, ele era um militar que trabalhava no DOPS, ou seja, eu o odiava por uma ou por outra razão.

Por isso, eu agora estava entrando de cabeça no movimento, não por política ou ideologias. Se meu adversário estivesse de um lado, eu estaria do outro, fazendo de tudo para incomodá-lo. Mas eu sentia que aquilo de fazer discursos e conscientizar os outros estudantes sobre o risco de haver um golpe de estado era pouco. É certo que incomodava o DOPS, mas eu queria algo que acertasse o peito do meu alvo: Machadinho.

Não havia como saber, mas enquanto remordia minha ferida amorosa, o tenente vivia seu próprio calvário. Sua obsessão por Margot desaguava num ciúme sem freios, ainda mais agora que ele suspeitava que sua amante tinha um caso… comigo!

Por mais que Margot reiterasse que sequer me conhecia, ele não acreditava. Tudo porque, nas duas vezes em que Machadinho me viu, ela estava perto. Atormentado, ele se vingava forçando-a a chupar sua rola de maneira humilhante, com a sogra ajoelhada ante seus pés, recebendo tapas no rosto e puxões de cabelo enquanto era xingada de vadia. Não é que ele gostasse disso. Diferentemente do que se passava com Ivetinha, ele amava Margot.

Tratar mal a esposa na cama era um jogo entre eles e a garota se divertia com isso. Contudo, tratar mal a Margot era uma auto-agressão para ele, mas seu ciúme praticamente o obrigava a fazê-lo para que sentisse domínio sobre a amante de alguma forma. Mas as ausências de Machadinho quando se encontrava com Margot não passaram despercebidas aos olhos atentos de Ivetinha. Ela nem fazia idéia de que a amante de seu marido era sua própria mãe, mas já desconfiava que havia uma outra mulher na vida do tenente.

Isso não lhe provocava ciúmes, Ivetinha não era disso, tinha uma mente aberta e era bem liberal, mesmo porque aquele casamento, para ela, era uma simples conveniência social regada a algumas bizarrices na cama. E se o marido tinha uma amante, melhor ainda, pois assim ela poderia infernizar ainda mais seus pais por tê-la obrigado a se casar.

Vivendo de maneira morna com a ausência do tenente, Ivetinha lamentava que eu não tivesse aceito o convite descabido que um dia me fez para sermos amantes depois de seu casamento. Aquela falta de emoções fortes não era para ela, a deixava inquieta, e sua mente divagava pensando mil maneiras de ultrajar a seus pais ou ao marido.

Essa era sua vingança por ter sido forçada a casar com o tenente. Seu plano era parecer uma puta o máximo possível, e já ia em curso desde que revelou com crueldade à Margot tudo a que se submetia fazer com o tenente na cama. Ivetinha pensava em mim para ajudá-la nisso, mas eu não estava mais disponível. Quem então seria o melhor candidato?

Bem, havia alguém muito próximo que adoraria essa ideia. Alguém que gostaria de se vingar de Machadinho tanto quanto eu. Alguém com o ego marcado não só pelo caráter autoritário do tenente, como também pelo fuzil que ele carregava entre as pernas: Pindamonhangaba, ele mesmo, o Pinda. Depois de anos sendo obrigado a comer a porra de Machadinho no Instituto Militar de Engenharia, Pinda conseguiu se formar como subtenente. Contudo, encheu a cara durante a festa de noivado do tenente e Ivetinha - e fez uma cena que ninguém jamais esqueceria, levantando dúvidas sobre a masculinidade do tenente.

Vingativo, Machadinho rebaixou o Pinda a sargento e o obrigou a servir como seu ajudante de ordens, fazendo da vida do rapaz um inferno. Dessa maneira, Pinda vivia entrando e saindo da casa de Ivetinha para cumprir mandados corriqueiros, desde lavar seu carro até levá-la à feira para carregar sacolas. Na prática, Pinda tornou-se tornou o esparro oficial de Ivetinha, ou “dona Machadinha”, como a chamava. E agora que o tenente parecia ocupado demais com seu cargo na polícia política e sua amante, e que Ivetinha precisava de um inocente útil para seu plano, mais uma vez, o papel de bucha de canhão sobraria para o Pinda.

Voltando à célula anarquista Guajira Guantanamera, enquanto o grupo planejava mais cartazes e discursos, eu me tornei a voz dissonante. Eu queria plantar uma bomba no DOPS, explodir o Machadinho. Ou sequestrar alguém iminente, como o coronel, pai do Machadinho.

Ninguém sabia que todas as minhas ideias revolucionárias eram movidas por uma dor de cotovelo inconfessável. Esse era meu segredo, meu segredo de liquidificador, remexendo tudo à minha volta sem que os demais soubessem o que estava realmente no fundo. O mais engraçado era que essa sede de vingança soava intrépida. Meu ciúme secreto parecia coragem. Minha inveja contida era vista como valentia. Meu rancor pelo amor perdido se travestia como revolucionário.

E isso só fez se acirrar quando o golpe fatal foi desferido: Os militares depuseram o presidente e criaram uma junta para assumir o governo. Começavam os anos de chumbo – e essa mudança abrupta na política exigia ações mais concretas de nós. Mas ali, no grupo anarquista, todos eram meros estudantes de classe média brincando de ser revolucionários, e minhas propostas de ação em campo eram repetidamente rechaçadas por serem consideradas agressivas demais.

Enquanto nos perdíamos em discussões inócuas, o inimigo não descansava. Machadinho, por uma coincidência extrema, também estava de olho em mim por motivos muito pessoais, achando que eu era o amante de sua amante, Margot. Eu tentava usar o movimento anarquista para atingi-lo, mas ele estava usando seu cargo no DOPS para me eliminar do jogo. E quando digo “eliminar”, estou sendo bem literal. Com os militares era assim, não havia negociação nem acordos, só extermínio.

E quem também não fazia acordos era Ivetinha. Enquanto eu e Machadinho estávamos distraídos com nossa guerra fria e silenciosa, a esposa do tenente agia provocativamente sobre o Pinda, sedenta de vingança.

Pinda vinha notando com estranheza como a mulher de seu superior andava displicentemente despudorada. Ela aparecia só de penhoar para mandá-lo ir comprar coisas nada urgentes, desfilava pela casa sem roupa íntima por baixo da camisola como se ele não estivesse ali, tomava banho de mangueira enquanto ele lavava o carro, usando um biquíni de bolinha amarelinha tão pequenino para nosso tempo que chegava a ser chocante.

Ele se esforçava ao máximo para desviar o olhar. A última coisa que ele desejava era se meter com a mulher de Machadinho, mas já estava ficando difícil. Ele podia ser subserviente, um verdadeiro capacho, mas era homem. Pinda suava frio, bastava ouvir Ivetinha gritando seu nome que o sargento já sabia: lá vinha alguma provação. Até que, numa tarde especialmente quente, após um banho demorado, Ivetinha estava cuidando de sua beleza quando teve a idéia que desencadearia tudo.

Com um creme facial verde no rosto e uma toalha enrolada na cabeça, Ivetinha vestiu um roupão branco atoalhado e desceu até a sala.

– Pindaaaaa! Pindaaaa! Vem aqui já, sargento! – ela ordenava imperativa.

– Sim senhora, dona Machadinha. O que deseja?

– Esqueci meu estojo de manicure no quarto. Vai buscar!

Ivetinha esperou sentada no sofá com os pés sobre uma almofada. Quando Pinda voltou, ela o mandou subir novamente, atrás de uma pedra esfoliante. E depois outra vez, para buscar o óleo de côco. É mais uma, à procura de algodão. Pinda estava esbaforido, subia e descia as escadas correndo e Ivetinha ali, escarrapachada no sofá, de máscara facial e toalha na cabeça, usando só o roupão que deixava suas pernas morenas de coxas roliças evidentes, gritando seu nome com novas ordens.

– Limpa meus pés, sargento.

– Hein? Mas dona Machadinha, eu não sei fazer essas coisas de mulher.

– Você está se recusando a me obedecer? Quer que eu fale com o tenente?

– Não senhora, por favor, não! É que eu nunca fiz isso e…

– Mas é um incompetente mesmo! Anda, sargento, deixa de ser cagão!

– Mas dona Machadinha, eu nem sei por onde começar!

– Pega a pedra-pome, passa no óleo de côco e esfolia, sua besta!

Os pés de Ivetinha pareciam de princesa, não precisavam de cuidado algum. Ela exigia aquilo só para humilhar o sargento e ria por dentro. Como ele podia sentar-se ante uma mulher de máscara verde e de toalha na cabeça, ficar ouvindo desaforos, e ainda se conter? Mais que isso, Pinda tentava cumprir as ordens cheio de delicadeza, mal passava a pedra nos pés da garota, temendo machucá-la. E fazia um esforço enorme para não olhar para ela, ainda que estivesse sentado a seus pés.

– Aí! Você me machucou, seu bosta!

– Mas dona Machadinha, eu mal encostei na senhora! Vou buscar um curativo e…

– Curativo uma ova! Lambe o machucado! Agora!

– Como é? A senhora quer que eu lamba o seu pé?

– Sargento Pinda, você fez tudo errado! Meus pés estão ardendo, seu merda! Anda, lambe aí, é o que você merece!

Constrangido, o sargento começou a passar a língua pela sola dos pezinhos de Ivetinha, que agora se recostava no sofá e estirava bem as pernas.

– Lambe entre os meus dedos… isso, lambe direitinho.

– Sim senhora. Só não conta pro tenente que eu lambi seus pés, por favor.

– Só não conto se você me obedecer direitinho. Você vai se comportar, Pinda?

– Eu juro dona Machadinha! Juro! Mas não fala pro tenente!

– Chupa meus dedos.

– Sim senhora.

– Isso, Pinda, chupa gostoso o meu dedão. Se você caprichar, eu não conto nada.

Pinda tinha os olhos fechados e se surpreendeu quando Ivetinha colocou meio pé dentro de sua boca, o que disparou alguma coisa em sua mente. Era estranho, mas aquilo era tesão, puro e duro como seu pau, que subiu em disparada. Ivetinha à sua vez também sentia a excitação tomando conta de seu corpo, mas não era tanto por ter os pés na boca do Pinda. Seu tesão vinha de sentir-se poderosa, dominando aquele homem corpulento e mantendo-o humilde e servil como um cachorrinho.

O comichão tomava conta de Ivetinha, que enfiou a mão por entre o roupão e começou a tocar-se, friccionando suavemente o grelo com a ponta dos dedos e suspirando sem vergonha. Pinda não resistiu, tomou coragem e abriu os olhos. Desde a borda do sofá, lambendo os pés de Ivetinha, ele viu suas pernas morenas afastadas e o roupão entreaberto, deixando à mostra a buceta úmida da jovem patroa com o grelo já em pé pelo açoite de seus dedos.

Depois de anos sendo obrigado a chupar pau ajoelhado, ver uma bela buceta era um vislumbre do paraíso. O sargento começou a chorar, com lágrimas de alegria escorrendo pelo rosto enquanto ele mesmo começava a masturbar-se também. Por trás de sua máscara verde, Ivetinha quase gozou ao perceber o choro de Pinda. Essa era a prova de que ela podia ser tão má quanto o marido, e a excitava mais ainda.

Num impulso, empurrou Pinda com os pés e o fez cair no chão. Com um sorriso perverso, pôs-se em pé e deixou o roupão vir abaixo, revelando toda a beleza de seu corpo jovem, pequeno, moreno e sinuoso, com as marquinhas do biquíni escandaloso apontando como uma seta para sua bucetinha.

– Sargento Pinda, de joelhos! Chupa a xoxota, viado!

– Mas dona Machadinha… você… você tem certeza? O tenente…

– O tenente que vá para a puta que o pariu! Você é meu, está ouvindo, seu cagãozinho? Meu!

– Sim senhora, eu sou seu! – ele respondeu assumindo de vez uma postura subserviente, ajoelhando-se aos pés de Ivetinha.

– Agora seja um bom esparro e limpe a xoxota da sua dona! – ela gritou afastando as pernas e abrindo com os dedos suas vergonhas para deixá-las ainda mais evidentes.

Pela primeira vez na vida, Pinda chupou com verdadeiro prazer. Masturbando o pau duro, ele lambeu cada pedacinho daquela buceta, indo do grelo aos lábios, até meter a língua e sentir o gozo de sua dona fluindo para sua boca enquanto ela apertava a cabeça do homem contra seu sexo. Neste mesmo momento, Pinda gozou. Os jorros de porra saiam em jatos, voando descontroladamente sobre os pés e as pernas de Ivetinha, que sentia o calor do sêmem sobre sua pele misturando-se aos calores do orgasmo que a dominava.

– Sargento… ah, sargento, bom garoto! Para um idiota, você chupa muito bem!

– Obrigado senhora. Eu faço de tudo para agradá-la.

– Mas olha só, você fez uma lambreca danada. Quem vai limpar tudo isso?

– Eu limpo, senhora. Eu limpo tudo…– ele respondeu, tomando o roupão do chão para limpar as pernas da patroa.

– Mas vai limpar com o meu roupão predileto? Não senhor, nada disso, vai estragá-lo!

– Mas… mas patroa…

– Pinda, limpa minhas pernas com a língua! Anda, lambe a própria porra!

– Eu… sério mesmo?

– Na minha festa de noivado, você disse que eu ia aprender a comer porra, lembra? Então, agora quem vai comer porra é você!

– Ah não, isso não, por favor. Outra vez não!

– Sargento, lambe isso das minhas pernas! Senão eu conto tudo o que você fez para o tenente!

Satisfeita, Ivetinha quase gozou outra vez vendo como o Pinda, humilhado e enojado, lambia copiosamente a própria porra que despejara em suas pernas. Agora sim, ela tinha um brinquedinho para atormentar e se divertia imaginando a cara do marido, quando um dia ela contasse o que fazia com o Pinda. Contudo, para todos os outros, aqueles tempos definitivamente não estavam sendo nada divertidos.

Diversas batidas da polícia política ocorreram nas faculdades e a nossa não era uma exceção. O primeiro alerta foi quando o DOPS levou Wilsinho, Mayara e Maraisa para interrogatório. Ao voltar, eles resumiram para o grupo o que ocorreu.

– Eles estão atrás de nós. Querem saber do Guajira Guantanamera. Foram os malditos cartazes na sede do DOPS. Entramos no radar da ditadura antes mesmo do golpe – contou Maraisa.

– Em outras palavras, fudeu – complementou Wilsinho, um tanto angustiado.

– E vocês contaram algo? Se disseram, temos que saber. Precisamos estar preparados – Teresa perguntou num tom grave.

– Eu me fiz de garotinha tonta, como se fosse moça de boa família tradicional. Colou, não entreguei nada – Mayara se adiantou.

– Sério? Não te deram uma dura, Mayara? Você estava comigo na noite dos cartazes, eles devem ter sua descrição - eu observei, custando a acreditar.

– Jôpa, a única pessoa que deu uma dura nela foi você, lá no beco, depois dos cartazes – disse Wilsinho com sarcasmo. Todo mundo ali sabia que meti o pau no cú da Mayara naquela noite.

– Mayara está limpa. Não perguntaram por ninguém em específico. Eles só queriam saber do grupo – continuou Maraísa.

– Para mim não importa. Eles me levaram e eu quase me caguei de medo. Eu tô fora – falou Wilsinho, como se retirasse uma tonelada das costas.

– Gente, se um de nós sair, o resto está comprometido – pontuou Teresa. – Isso aqui não é mais seguro, a casa caiu!

As palavras de Tereza assustaram a todos, principalmente aos demais caras. Sabíamos que nós seríamos o alvo, mais que as garotas. Nos porões do DOPS, as mulheres sofriam, mas os homens morriam, era o que se dizia. Naquela mesma noite, dissolvemos o Guajira Guantanamera. Nos conhecíamos bem, sabíamos o nome e o endereço uns dos outros, se um caísse, caíam todos, como Tereza disse. Coisa de amadores. Antes que eu saísse, a loira esguia ainda quis falar comigo.

– Companheiro, você vai ter que tomar muito cuidado. Mais que os outros.

– Que se fodam! Não tenho medo… – eu tentava me convencer.

– O que ouvimos aqui hoje não foi tudo. Preciso que você volte aqui amanhã, para acertarmos alguns detalhes.

Enquanto eu me despedia de Tereza, lá na zona sul, mais um jantar de família na casa de Ivetinha estava a ponto de tirar Margot do sério. Machadinho andava descuidado, seu ciúme por causa do suposto e inverídico caso que sua amante tinha comigo já beirava o insuportável. O tenente não respeitava mais o acordo de se encontrar com ele somente às quartas-feiras e a buscava a toda hora para verificar onde e com quem estava.

Mais que isso, sempre exigia novos favores, a tratava com rudeza, judiava de seu corpo até a exaustão, não importava onde estivessem. Há apenas alguns minutos atrás, a fizera seguí-lo até o banheiro da área de serviço, antes do jantar, com toda a família presente.

No pequeno cubículo, Machadinho obrigou que ela se debruçasse sobre a privada, subiu sua saia e afastou a calcinha, permanecendo por vários minutos ajoelhado atrás dela a admirar seu objeto de desejo. A buceta bem depilada de Margot o hipnotizava sempre, não importava quantas vezes já estivera ali. Ela a idolatrava como um troféu, mas sentia uma dor lancinante ao fazê-lo: Margot não lhe pertencia e jamais seria só dele. Nessas horas, Machadinho agia como uma criança mimada que não admite dividir o brinquedo e é capaz de esborrachá-lo por puro egoísmo e possessividade.

Os anos à frente do DOPS se encarregaram de sulcar ainda mais profundamente em sua personalidade os traços sádicos e perversos que sua criação e os anos na caserna desenharam, e Margot era testemunha disso. Com a cabeça da rola do tenente roçando entre os lábios da buceta, a sogra esperava numa angústia muda e paciente que ele decidisse penetrá-la de uma vez para que pudesse fugir dali, mas Machadinho sentia prazer em torturá-la e, repetidamente, se afastava, abria seus lábios, cuspia ali dentro, enfiava-lhe os dedos devagar até o fundo e voltava com a rola, só de leve, deslizando na entrada.

Margot o odiava, talvez mais do que eu, mas por um motivo diferente: ela não conseguia resistir. Por mais que tentasse parecer indiferente, as carícias preliminares do tenente sempre terminavam por dominar seu corpo, que deixava de obedecê-la. Seu coração disparava de ansiedade, sua respiração se entrecortava entre gemidos involuntários e as pernas começavam a tremer de desejo incontido, para o deleite de Machadinho. Só nesses breves momentos, nos segundos em que percebia a confusão que causava em sua vítima já prestes a ceder, ele sentia verdadeiro prazer.

Como se possuísse um sexto sentido, Machadinho captou esse tal momento e, com uma estocada abrupta e tão firme como um golpe certeiro, meteu tudo de uma só vez e ali permaneceu, imóvel, ocupando o espaço que abrira dentro dela. Os olhos de Margot se arregalaram ao sentir-se invadida, um pequeno grito escapou de sua boca com a surpresa que aquilo lhe provocara e o primeiro orgasmo veio assim, de sopetão, sem aviso nem preparação. Só então o tenente começou a fodê-la de verdade.

Com as mãos agarrando a louça fria, Margot foi retida pela cintura pelas garras firmes do tenente para receber entre as pernas as investidas daquele pau duro e implacável, que continuou açoitando suas intimidades já inundadas de prazer. Um a um, ele foi arrancando à força sucessivos orgasmos da mulher, até deixá-la esgotada, entregue, sem nenhuma outra reação que os tremores tomando posse de seu corpo inteiro.

Quase atingindo clímax e satisfeito com o estrago emocional que provocara, Machadinho retrocedeu e com um puxão forte a fez vir ao chão. Trazendo-a pelos cabelos, ainda a obrigou a ajoelhar-se e abrir a boca, fazendo-a esperar pela já tradicional carga de porra, a qual ele sempre exigia que ela engolisse.

– Abre a boca, puta. Quero ver se comeu tudo direitinho – ele ordenou segurando-a pelo queixo com força.

– Engoli tudo, tenente. Agora vai andando, senão Ivetinha vai desconfiar.

– Ela que se foda, não estou nem aí. Caiu um pouco no seu rosto. Limpa.

– Sim, vou me assear depois que você sair do banheiro. Você me desarrumou toda, preciso de um tempo. Senão vão perceber o que estávamos fazendo.

– Não quero que se lave, você vai ficar cheirando a Machadinho hoje à noite. Limpa o resto da porra com o dedo e chupa. Quero que você engula tudo.

– Pronto, tenente – disse ela após recolher da face os fios de porra e chupar os dedos olhando-o diretamente nos olhos com ódio. – Está satisfeito agora? Sai logo daqui, homem, que os outros já devem ter notado nosso sumiço!

– Não importa. Vou dizer que estava mostrando minha pistola pra você, o que não deixa de ser verdade, não é?

– Seu doido.

– Agora, quero que limpe o meu pau também, quero que sugue até a última gota de porra. Deixa ele brilhando, que nem você faz com aquele negão.

– Ah não Machadinho! Outra vez essa história? Já disse que eu não tenho outro amante!

– Puta mentirosa. Eu sei que você fode com ele. Sei que deixa aquele puto meter a rola na minha buceta.

– Não seja infantil, não tem negro nenhum, está entendendo?

– Fica mentindo aí, tudo bem. Eu já estou fechando o cerco. Vou achar esse cara e cortar o pau dele fora. Daí te dou de presente, uma lembrancinha pra você nunca mais esquecer a quem pertence.

– Seu doente.

– Sou mesmo, doente por você. Eu te amo, Margot.

E assim seguiam os dois praticamente todas as vezes que se encontravam. Margot já não o fazia por gosto, nem por tesão, como antes. O fazia por puro medo de que ele cometesse uma loucura sem ela, medo que ele revelasse à família que eles tinham um caso, medo de que o tenente voltasse a maltratar sua filha na cama, querendo vingar-se dela… Um medo sem fim.

Quando Margot finalmente conseguiu sair do banheiro, foi até a cozinha ver como estava Ivetinha e o preparo do jantar, enquanto os homens tomavam um scotch na sala. Sua filha fumava um cigarro, um hábito recentemente adquirido que a incomodava. Aliás, várias coisas na filha vinham incomodando Margot ultimamente. Ivetinha cada vez menos se portava como uma esposa dedicada, e cada vez mais parecia dada a bizarrices e estranhezas sexuais.

– Filha, não entendo porque você está se comportando assim.

– Ora mãe, eu só faço o que quero. A única pessoa que me obriga a algo hoje em dia é o Machadinho, quando ele quer foder. Aí já sabe, tem que ser do jeito dele, com tapas na bunda, pau enterrado no fundo da xota e puxão de cabelo. O maior tesão.

– Mas… ele não havia prometido que iria respeitá-la na cama?

– Fui eu quem não quis. Não vou passar a vida fodendo com respeito, é sem-graça. Depois que comecei, já não quero parar. Mas eu ando meio desconfiada, sabe…

– Desconfiada? Como assim? O que está acontecendo?

– O Machadinho já não me procura tanto. E vive trabalhando, fazendo hora extra.

– É o cargo dele no DOPS, filha. Aquilo lá não deve ser fácil.

– Nada disso, mãe. Eu desconfio que ele está de caso com alguma puta.

– Um caso? Não, filha, não é possível. Aposto que, se você passar a exigir mais respeito dele e corrigir um pouquinho essa sua petulância, ele volta a prestar mais atenção em você! -– Margot falou sem muita convicção, visto que o tenente realmente tinha um caso… com ela!

– Não importa mãe. Sério mesmo, não importa. Porque agora quem está tendo um caso sou eu!

– Você? Essa não! Filha, isso é muito errado!

– Não é bem um caso, não precisa ficar alarmada. É só uma diversão.

– Ivetinha, uma mulher casada não se diverte por aí!

– Fale por você. Eu sou diferente, sempre fui. E agora mais do que nunca.

– Filha, é melhor encerrarmos essa conversa. Prefiro nem saber o que você está aprontado!

– Não? Não quer saber que eu arranjei um brinquedinho novo? Ele é como um cachorrinho, só que tem duas pernas e sabe lamber mínima xoxota como ninguém, o safado. E depois que o treinei, ficou muito obediente, faz tudo o que eu mando!

– Ivetinha, isso tem que acabar, antes que termine em tragédia! Se o tenente descobre… não quero nem pensar no que ele é capaz de fazer!

– O tenente não vai fazer nada. Aos poucos vou contar pra ele, até ele terminar aceitando que comigo é assim, sem exclusividade!

– Eu… eu nem sei o que dizer!

– Não diga nada. Cuide de sua vida que eu cuido da minha. Agora, vamos servir o jantar!

Margot chegou ao fundo do poço com aquela conversa. Ela traía o marido e a filha com o genro, permitindo que ele a usasse como uma desclassificada só para proteger Ivetinha, mas nada daquilo estava adiantando pois a desclassificada de verdade era… sua própria filha! Ela tinha muito pra falar, mas não havia com quem. Seus sonhos de um futuro feliz para Ivetinha eram feitos de brisa, mas a garota se tornara um vendaval que veio terminar com tudo. Agora, ela sofria ainda mais, sempre calada, e não sabia mais o que fazer para acabar com aquele enredo em que meteu a si mesma e à sua família.

Margot via o casamento de Ivetinha se esfacelando, sem poder agir. E pensar que, há alguns anos atrás, isso era tudo o que eu desejava, um desquite entre Ivetinha e Machadinho. Mas meus planos também estavam mudando, como tudo mais em nossas vidas, sem que eu pudesse alterar os rumos da situação.

Quando voltei ao alojamento número cinco após a dissolução do Guajira, Tereza estava recolhendo em silêncio suas coisas e os minutos se arrastavam para mim. Era triste ver que nosso grupo terminava, mas era mais angustiante ainda esperar pelo que ela tinha a dizer.

– Eu tô indo embora. Vou entrar pra clandestinidade de vez.

– Mas e a gente, Tereza? Como ficamos? Posso ir com você?

– Não, Jôpa, é muito arriscado. Se você entrar pra clandestinidade também, não pode ser junto comigo, nós conhecemos nossas verdadeiras identidades.

– Merda. Você diz isso porque eu tô marcado, não é?

– Mais do que você pensa, mas eu também estou. Não aparece mais na faculdade. Queima essa sua roupa de playboy dos anos cinquenta e desmancha a lambreta.

– Então é isso? Me fodi tanto assim?

– É para a sua segurança. Olha, eu tenho uns contatos, vou mandar alguém te procurar lá na oficina que você trabalha, fica escondido. Eles podem te ajudar, não vou te abandonar assim. Mas entre a gente, acabou.

– Acabou mesmo? Não vou mais te ver?

– Tem que ser assim, querido.

Tereza me deu um beijo de despedida, e eu sofria pensando que aquele seria o último entre nós. Sussurrando em meu ouvido, pediu que eu me lembrasse dela. Depois, mandou eu esperar cinco minutos antes de ir, só para despistar, e saiu pela porta. Fiquei processando aquilo. Eu não tinha mais nada. Perdi a faculdade e, se não quisesse complicar a vida dos meus pais, tinha que sair de casa e da oficina. Minha casa não era minha e nem era meu aquele lugar. Não seria mais um profissional nem um mecânico. Meu plano para um dia reconquistar Ivetinha tinha ido para o ralo, e isso era o que mais doía.

Foi então que ouvi ruídos lá fora, como passos e sussurros. Meu coração disparou, fiquei alerta e meus olhos correram pelo quartinho do alojamento estudantil à procura de qualquer coisa que eu pudesse usar para me defender. Pus-me em pé, estático, com um abajur na mão, esperando enquanto a maçaneta da porta girava. Eles iam me pegar, mas eu não iria me entregar sem briga. Nessa hora, senti até alívio por Tereza já ter saído, ao menos ela escaparia das garras do DOPS. Quando abriram a porta, fui partindo para cima, mas estanquei ao ver quem estava ali: eram Mayara e Maraisa.

– Calma lá, Jôpa! Vai bater na gente, é?

– Caramba, garotas! Eu achei que já era a polícia! Que susto! Afinal, o que estão fazendo aqui? É arriscado!

– Nós só voltamos porque a Tereza pediu. Você não desconfiou? Não achou meio abrupto desmanchar o Guajira assim, cada um pra o seu lado?

– Não, ora bolas. Nós estamos na mira e…

– Playboy, a gente só colou uns cartazes. No máximo, iam fichar cada um de nós como subversivo. Tem outros grupos por aí planejando coisa pior para o DOPS se preocupar!

– Não sei não. Conheço a Tereza, ela estava realmente preocupada.

– Estava sim, mas por outro motivo. Você. É por você que ela está sendo tão radical em acabar com tudo.

– Eu? Como assim? Tereza não é de se apaixonar, ela é revolucionária!

– Ela pediu pra gente voltar aqui e te contar uns detalhes do que aconteceu no DOPS. Aquilo não era toda a verdade.

– Não? Mas porque não falaram tudo de uma vez?

– Não dava. O Wilsinho estava presente. Os ânimos podiam se acirrar e dar merda entre vocês.

O Wilsinho. Era possível que Tereza estivesse terminando o grupo por conta dos ciúmes de Wilsinho? Não, ela era mais forte que ele. Eu era mais forte que ele. O Wilsinho não tinha esse poder sobre nós. Isso não fazia sentido.

– O Wilsinho? Mas o que tem a ver, ele é um cagão!

– O Wilsinho foi levado pro porão por um tal tenente Machadinho, o chefe de lá. Interromperam o interrogatório da gente e só voltaram depois de liberar o cara – disse Mayara.

– E daí pra frente, esse tenete só ficava perguntando pra Mayara sobre um tal João Paulo, um negão vestido de playboy numa lambreta vermelha… sacou? – completou Maraisa.

– O filho da puta do Wilsinho me dedurou!

– É o que parece. Eu estava bem ali, na frente dele, e o tenente nem parecia se interessar por mim! Ou seja, ele já sabia que eu preguei os cartazes, mas só perguntava de você! – terminou Mayara.

– Merda, agora eu entendo porque a Tereza acabou com tudo. Foi mesmo pra me proteger!

Foi como se todo o meu sangue parasse de correr. Eu sentia formigamento nos pés e nas mãos. Bateu até uma tontura repentina. Tive que me sentar na cama. Elas vieram também, cuidando de mim, cada uma de um lado. Tratei de me recompor. Era muito pra pensar. O fim do Guajira, a Tereza indo embora, a traição do Wilsinho e o DOPS na minha cola.Tudo se desmanchava e o perigo era mais iminente do que eu havia calculado.

– Jôpa, isso tudo mexeu comigo. Tô naquele estado que você sabe, pura adrenalina.

– Tá louca Mayara? O DOPS deve estar vindo aqui agora mesmo e você quer tomar no cú?

– Isso é o que me excita, correr perigo. Vamos lá, uma última vez… – Mayara dizia já chegando seu corpo magrinho de seios pequenos e pele muito branca próximo ao meu.

– Não Mayara, isso é doideira, a polícia…

– Ai Mayara, agora eu entendo o que você dizia, correr risco dá uma espécie de tesão… – interveio Maraisa, também se chegando pelo outro lado pra cima de mim, com um corpo moreno um tanto mais voluptuoso que o de sua amiga.

– Era disso que eu falava. A adrenalina do medo de sermos pegas, a urgência do momento, o coração palpitando… Vamos lá, é a despedida do Guajira Guantanamera!

– É Jôpa, vai ser nossa despedida especial, uma festa de arromba!

Minha mente dizia pra fugirmos dali o quanto antes, estávamos brincando com fogo, mas esse mesmo fogo era irresistível e meu corpo me traía, sem conseguir reagir. Tudo ao redor estava ruindo e, apesar disso, eu estava prestes a entrar numa orgia.

Sim, tudo estava ruindo, Margot era obrigada a ver a filha agindo como uma puta enquanto ela mesma tinha que dar de formas aviltantes para seu próprio genro, Ivetinha ficava cada vez mais doida querendo parecer uma vadia para maltratar a todos que a cercavam, e o tenente Machadinho cada vez mais obcecado por Margot enquanto me procurava por todo lado para me exterminar do mapa.

O Pinda, que não tinha nada a ver nessa história, agora estava apaixonado pela “dona Machadinha” e a deixava fazer dele gato e sapato, só para ter um pouquinho de sua atenção. E até eu me perdia, me afastando dos planos infantis para mergulhar na realidade confusa em que estava imerso, enquanto Mayara e Maraisa me beijavam o pescoço.

Um arrepio subiu pela minha espinha, sentindo como suas línguas deslizavam provocativamente pela minha pele. Suas mãos delicadas me buscavam e apalpavam, à medida que tiravam minhas roupas, uma nos botões da camisa e a outra abrindo o fecho da calça. O perigo rondava aquela cama e isso tornava tudo urgente. Bocas, línguas e mãos se entrelaçavam e se confundiam em meio aos gemidos e sussurros trocados nas carícias entre nós três.

Quando dei por mim, já estava deitado com as garotas nuas sobre mim, revezando-se em chupar o pau que, como era de se esperar, se via duro como um mastro negro ereto entre os lábios das duas. Mayara se ajeitou para que eu lambesse sua bucetinha, o que fiz com gosto, saboreando de baixo até em cima, já aproveitando para lubrificar o ponto onde eu sabia que ela desejava que a penetrasse. Quando ela trocou com Maraísa, contudo, a coisa era bem outra. Eu nunca havia estado com essa garota e sua buceta era… Caralho, sua buceta era algo rechonchudinho de lábios gordinhos e muito apertadinha, com um sabor doce escorrendo de lá que eu ainda não havia provado em nenhuma das garotas com quem estivera até então!

Eu mergulhei de cara, em êxtase, entre as pernas de Maraisa. Em segundos, ela se pôs a rebolar sentada em meu rosto, enquanto Mayara seguia com meu pau enfiado na boca. Maraisa se tremia toda e dava uns gritinhos, era um tanto cedo para isso, mas ela já começava a gozar com minha língua pressionando seu clitóris e passeando entre aquela delícia de buceta que ela tinha.

Maraisa caiu de lado, rindo e chorando pelo orgasmo repentino e Mayara, já acostumada a estar comigo, aproveitou para assumir sua posição predileta, de quatro na cama, oferecendo o cú para que meu pau mergulhasse entre suas nádegas. Era uma bunda pequena com um cú minúsculo, mas acostumado a levar ferro - principalmente, o meu. O bicho foi entrando e abrindo caminho, Mayara mordia o lençol para não gritar e chegava a bunda para trás, tentando fazer com que eu terminasse de me meter.

Quando isso ocorreu, talvez pelo tesão extra que Maraisa me despertara, eu não medi consequência nenhuma dessa vez. Meti, meti e meti naquele cú, como se fosse uma máquina de foder, sem descanso, até fazê-lá arriar de prazer ao sentir o sangue dissipar sua adrenalina e o gozo tomar conta de seu corpo, agora com Maraisa encaixada embaixo dela, chupando seu sexo e lambendo o meu enquanto a penetrava.

Caímos na cama logo em seguida. Eu ainda estava teso, mas a preocupação com a polícia não me saía da cabeça e me forçava a fugir o quanto antes do alojamento. Já Mayara parecia estar em outro mundo, leve e descontraída, após seu orgasmo.

– Maraisa, você tem que experimentar. O pauzão do Jôpa no seu cú é algo que você nunca vai esquecer.

– Querida, você sabe que eu só curto mulher. Isso de tomar pau no cú… Não é pra mim. Desculpa aí, Jôpa, mas você me entende?

– Entendo sim, Maraisa. Sexo é diferente pra cada um e ninguém é obrigado a fazer o que não quer. E sobre pau no cú, confesso que às vezes até que eu queria algo diferente.

– Diferente, é? Fiquei curiosa. O que você tem vontade de fazer? – perguntou Mayara, agora parecendo voltar à terra.

– Muita coisa. Tem muita coisa que nunca fiz. Toda a minha experiência na cama foi com você e a Tereza. Sempre correndo, sempre urgente, sempre afoito. Nunca fiquei de carinho nem nunca penetrei ninguém de forma convencional. Nunca me deitei com a garota que eu amo, e muito provavelmente isso nunca acontecerá.

– Nunca comeu uma buceta? Como assim? Com um pauzão desses? – agora era Maraisa que estava curiosa.

– É como eu disse, nunca. Eu estava me guardando para o dia em que pudesse ter a tal garota que eu amo. Mas isso já foi, ela casou com outro e eu tenho que aceitar, seguir em frente.

– Bem, eu não sou a garota que você ama e nem curto isso de pau no cú, mas… – Maraisa interrompeu a frase num recurso dramático. Seus olhos brilharam por um instante e um sorriso de canto surgiu em sua boca. Sua voz saiu sensual, convidativa. – Essa sua história me deu pena. Se quiser, deixo você comer minha bucetinha.

– Valeu Maraisa, mas obrigado. Eu tenho lá meu orgulho. Não preciso de caridade.

– Não Jôpa, não é isso… Merda cara, eu fiquei com tesão. Sou tão virgem quanto você, em certo sentido. Nunca fiz sexo com homens, só garotas. E agora que o Guajira acabou, nem sei quando vou ter outra oportunidade para experimentar.

Pois bem, colocando as coisas assim, era bem difícil de recusar. Eu ainda vacilava, lembrando-me de Ivetinha, quando Maraisa veio sentando por cima de mim com seus peitos no meu rosto e se ajeitando no meu colo. Mayara, assanhada com a ideia de perdemos juntos a virgindade, segurava meu pau e ficava pincelando a cabeça entre os lábios da buceta da amiga, só na torura, até que Maraisa não resistiu mais ao desejo e à curiosidade e começou a sentar devagarinho, escorregando aos poucos pela rola grossa demais para ela, toda apertadinha, até forçar a pele do hímen e deixar-se cair de vez no pau, arregalando os olhos com aquilo atolado entre as pernas.

Sinceramente? Cú é bom, mas uma bela buceta é inigualável! Foi feita pra isso, o encaixe e a lubrificação eram naturais, o pau entrava e saía como se ela fosse feita de manteiga e tinha tantos pontos erógenos ali que a garota parecia eletrizada – e o prazer que vi estampado no rosto de Maraisa quando ela começou a gozar de novo, deslizando frenética sobre mim, cravando as unhas nos meus ombros e mordendo o meu pescoço, era a prova mais cabal disso.

Contudo, nem bem Mayara terminou de receber na boca a carga que despejei ao ser chupado por ela ainda com Maraisa toda molinha e esparramada sobre mim, ouvimos o som de sirenes se aproximando lá fora. Foi por pouco, quase fomos presos, mas deu tempo de escaparmos do alojamento. Tive que abandonar a lambreta vermelha por lá, era dar bandeira demais fugir naquilo. Depois de uns ônibus até a zona norte, pensando que os militares deviam estar de tocaia na casa dos meus pais, me refugiei na oficina mecânica, onde passaria os próximos dias.

A primeira coisa que fiz foi trocar de roupa. Vesti um macacão sujo de graxa, coloquei minha clássica roupa com a jaqueta de couro num tonel, joguei gasolina e pus fogo. Senti que um pedaço de mim morria, mas eu tinha que encerrar aquela etapa, esquecer meus sonhos juvenis e fechar o meu pranto - e o único jeito era matar aquela parte de mim. E assim, o Jôpa playboy da periferia deixava de existir para dar lugar a um novo homem.

Depois de dois dias escondido na oficina, uma ruiva musculosa que usava calças americanas com boca de sino e óculos escuros apareceu por lá num calhambeque, buzinando na porta e perguntando pelo “mecânico negão com pinta de playboy”. Eu estava super desconfiado, bem podia ser uma armadilha, mas tampouco podia continuar me escondendo ali pra sempre. Daí, me lembrei que Tereza havia dito que uns conhecidos me buscariam por lá e resolvi arriscar para ver do que se tratava.

– Oi. Eu sou uma amiga da sua amiga. Ela pediu para eu vir te buscar.

– Sei, sei… cadê Tereza? – Fui direto ao ponto.

– Regra número um, sem nomes, camaradinha.

– Tudo bem, sem nomes. Cadê a sua amiga, posso saber?

– Regra número dois, sem endereço certo, companheiro.

– E como espera que eu confie em você assim, sem me dizer nada?

– Regra número três: não confie em ninguém! Nossa, você não sabe nada, não é?

– Não mesmo. O que você quer?

– Sobe aí. Vamos dar uma volta.

– Nesse calhambeque? Não é muito chamativo não?

– É sim, mas é melhor que uma lambreta vermelha. Anda, sobe aí de uma vez. A gente pode estar sendo vigiado agora mesmo.

Bem, aquela conversa era suficientemente estranha para provar que a tal ruiva sem nome estava no movimento. Tereza havia mesmo dito que pediria a seus contatos para me ajudarem, então eu subi e o calhambeque arrancou depressa. Depois de dar infinitas voltas para ver se não estávamos sendo seguidos, a ruiva tomou a estrada rumo ao Recreio dos Bandeirantes, praticamente uma zona rural naquela época. Paramos na frente de uma porteira, eu desci e abri para ela entrar com o calhambeque, e então seguimos sacolejando por uma longa estradinha.

Pelo caminho, na rádio soava um sambinha clássico que me inspirava, com Noite Ilustrada cantando os versos “reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá volta por cima!” Não podia haver situação mais apropriada para eu escutar aquela música. No meio do nada, eu soltei a voz na estrada, livre de preocupações.

– Você tem uma voz bonita, grave. Já sonhou em ser cantor?

– Cantor? Não, acho que não é pra mim. Meu caminho é de pedras, como posso sonhar?

– Entendo, se mandaram eu te buscar, é porque estamos no mesmo barco. Mas olha, para onde vamos é diferente… Lá não tem as menininhas da faculdade que um cara boa pinta como você está acostumado.

– Não importa. Um dia eu vou querer amar de novo, mas, se não der, não vou sofrer. Já tive garotas demais como as que você fala. Além disso, hoje eu estou mais focado é na política, na revolução.

– Acho que então você vai gostar da gente. Lá ninguém sonha, mas fazemos as coisas acontecerem com nossos próprios braços.

Nossa breve interação terminou quando avistamos uma casinha ao final da trilha, com uma latrina e chuveiro de um lado e um telheiro do outro, que parecia um curral meio desmantelado. Escondemos o calhambeque no telheiro e entramos na casinha, onde dois sujeitos com cara de poucos amigos esperavam por nós fumando como chaminés.

– Tudo limpo, Corisco? – Um senhor mal vestido com barba branca e meio careca perguntou para a ruiva.

– Limpeza total, Velho. Rodei bastante para ver que não éramos seguidos. Aqui está a encomenda da Flor – ela respondeu apontando pra mim.

– Fala aí, irmão. Foi você que fez a baderna no DOPS? – O outro, um jovem de olheiras escuras e cabelos precisando urgentemente de shampú e uma tesoura perguntou me olhando de cima a baixo.

– Os cartazes? Fui eu sim.

– Maneiro. A Flor falou bem de você. Pode ficar aqui na geladeira com a gente, até a poeira baixar. Eu sou o Maravilha.

– Maravilha?

– É, como o Fio Maravilha, o melhor camisa dez do mengão de todos os tempos. Me chamam assim porque só gosto de jogar no ataque, se é que me entende.

– Entendo sim. A Tere… Quer dizer, a “Flor” vai vir aqui?

– Não, aqui vamos ser só nós quatro. Mas ela está bem, não se preocupe.

– Eu quero entrar no movimento. É com vocês que eu falo?

– Se chegou até aqui, é porque você já está dentro, “Seu Jorge”.

– Seu Jorge?

– É. Tive uma epifania assim que te vi. Negão, altão e com esse macacão de mecânico, tu tem cara de Seu Jorge. Esse vai ser seu codinome – respondeu o Maravilha, rindo.

Os dias que se seguiram na geladeira foram lentos. Não havia nada para fazer além de fumar e conversar - é só tinha um assunto: como o levante da esquerda unida conseguiria derrubar a ditadura militar. Rapidamente, dei-me conta de que, se eu era considerado muito radical entre os anarquistas do Guajira, na geladeira eu era como uma criancinha. O Maravilha sonhava em assaltar bancos com metralhadoras e financiar a revolução, o Velho falava sobre táticas de guerrilha urbana que aprendera com o próprio Che em Cuba e a Corisco me ensinava a armar temporizadores de explosivos com cigarros. Só gente fina.

Para me entreter nas muitas horas vagas, desmontei o motor do calhambeque e montei de novo. O pessoal ficou espantado, eles pensavam que o macacão de mecânico era só um disfarce. Acharam o máximo, eu devia ser o único proletário de verdade no movimento, que era basicamente composto por estudantes e intelectuais. Assim, me tornei o membro que faltava ali, pois sabia como abrir carros e fazer ligação direta, desenvolvia técnicas de sabotagem em veículos e detinha uma habilidade especial: direção em alta velocidade. Quem diria que minhas habilidades de mecânico-playboy seriam úteis à revolução? Acho que, lá no fundo, quando Tereza-Flor me alistou ela já antevia tudo isso.

Corisco, a ruiva musculosa e meio hippie, era capaz de passar horas me olhando mexer no calhambeque, fazendo perguntas sobre as várias partes que eu ia revisando. Às vezes, para testar a máquina, saímos os dois na estradinha até a porteira, acelerando fundo. Ensinei a garota a dar cavalo-de-pau e meio-breque, quase capotamos umas três vezes. Ela ria sempre, achando divertido. Isso era comum entre o pessoal do movimento, vivíamos no limite e amávamos a adrenalina, então fomos ficando mais próximos.

Em retribuição, comecei a treinar com ela uns truques de combate pessoal. Eu não era de briga, nunca havia me metido nesse tipo de confusão e, apesar do meu tamanho, apanhei muito até ficar esperto. Geralmente, terminava o dia todo sujo de terra, ia para o cercadinho do banheiro ao lado da casa e tomava um banho gelado olhando o pôr do sol. Depois, nos reuníamos como uma estranha família e ouvíamos o noticiário vespertino no rádio. Obviamente que as notícias eram todas controladas com uma versão pasteurizada das coisas, mas ajudava a matar o tempo, mesmo que fosse tudo uma mentira cor-de-rosa sobre os feitos “grandiosos” do governo ditatorial.

Parecia que estávamos fora do tempo ou do espaço, os quatro ali encerrados naquele sítio longe de tudo, enquanto o tempo passava lá fora. Mas a realidade sempre chega. Um dia, ouvimos no noticiário uma saudação ao Tenente Machado, que estava sendo alçado a Capitão do exército devido ao excelente trabalho à frente do DOPS. Depois, o locutor de voz grave lhe desejava o mesmo sucesso à frente do novo departamento que estava sendo criado para defender o Brasil dos interesses externos e espúrios dos comunistas. Machadinho agora seria o comandante do Centro de Operações de Defesa Interna no Destacamento de Operações de Informações. Em outras palavras, o agora capitão Machadinho ia plantar o terror na frente do novíssimo DOI-CODI.

Aquilo era real. Estávamos em plena ditadura e eu havíamos feito nossas travessias. Machadinho deixava de ser um bosta qualquer e se tornava um capitão à frente da perseguição aos comunistas. Ivetinha deixava de ser a menininha mimada da zona sul e se transformara numa devassa dominadora de homens. Quanto a mim, eu já não era mais um playboy da periferia e me tornara um verdadeiro revolucionário subversivo. Deixamos todos de ser jovens e nos tornamos adultos, capazes de enfrentar o der e vier.

E o que vinha, fatalmente faria com que nossos caminhos se cruzassem novamente. Só que agora, o sangue latino do homem que eu me tornei pulsava forte nas veias e essa era minha única vantagem, contra tudo e contra todos.

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Esta parte do conto foi escrita para o “desafio pirata 2: Música” e foi inspirada pelo sucesso "Travessia", composto Fernando Brant e gravado pela primeira vez por Milton NascimentoPara o desafio, planejei uma história maior e queria usar algumas músicas, de forma que terminei fazendo esta série de cinco partes chamada “Fora da Ordem”, título de uma música fantástica de Caetano VelosoOs capítulos até agora vão nessa ordem:

- “Estúpido Cupido” de Celly Campelo"Quero que Vá Tudo pro Inferno" de Roberto Carlos e Erasmo CarlosTravessia" de Fernando Brant, gravada por Milton NascimentoAh, sim, em todas as partes da série existem referências sobre muitas outras músicas, mas isso eu deixo para vocês descobrirem. Espero que se divirtam ao ler, tanto quanto eu me divirto ao escrever.

E aquele abraço!

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