Fugaz (Parte 05)

Da série Fugaz
Um conto erótico de Bayoux
Categoria: Heterossexual
Contém 1512 palavras
Data: 18/01/2026 18:15:56

Seja lá como for, estou seguro de que entenderei as coisas depois que terminar minha versão do Putamatri, o texto místico que pode explicar o que acontece comigo.

Trancado num banheiro, conversei com um velho que talvez não exista, sendo apenas uma alucinação, e depois briguei com Haylin. Ela insiste que estou meio abilolado, fraco da cabeça - e todos os indícios me levam a crer que sim, eu pirei de vez.

Há coisas que não se encaixam e isso me deixa encafifado. Como o relógio na parede deste quarto de hotel de beira de estrada, por exemplo, corre para trás numa contagem regressiva? Mas Haylin não vê isso, só eu.

E esse tal de Putamatri? O diabo do manuscrito veio parar nas minhas mãos, ele é real, e o estou traduzindo do alemão para criar minha própria versão, meio em português e inglês, não sei desde quando.

Mas o detalhe incômodo é que aqui são os Estados Unidos e eu nunca aprendi a falar nada além do inglês, então, como eu agora leio em alemão e escrevo trechos em outras línguas? Isso também é real, minha versão inacabada está diante de mim, como prova.

Merda, ou eu enlouqueci de vez, ou o tal Saint Germain, o velho do banheiro, tem razão ao insistir que eu não sou eu, que sou outro homem, com outra história, mas que não sou capaz de lembrar porque estou enfeitiçado. Por quem? Justamente pela Haylin!

Estou atônito, não sei no que acreditar. Quero ficar com Haylin e quero terminar o Putamatri, mas estes dois desejos parecem colidir, anulando-se um ao outro, duas polaridades invertidas que se repelem. Sinto isso na alma, não racionalizo.

Então, uma ideia toma forma em mim, algo diferente, uma terceira saída para este dilema.

Coloco o Putamatri de lado, agarro uma folha em branco e começo a escrever o que está acontecendo comigo, descrevendo quem sou e qual é a minha história - e o mais intrigante é que sinto já ter feito isso antes.

É bem certo que não consigo lembrar de tudo, o que me espanta. Não me recordo dos meus pais, nem da minha infância, amigos de colégio e coisas assim. Espremo a cabeça, mas estas lembranças não vem - talvez eu as tenha bloqueado, ou talvez elas simplesmente não existam.

Começo pela primeira coisa da qual me recordo: Haylin. Nos conhecemos às margens do Potomac, num dia de verão quando fazia um calor absurdo. Lembro de ver a loira alta, com roupas leves e chapéu trançado de abas largas, e pensar que aquilo sim era uma mulher bonita. Eu quis me aproximar, mas minha timidez não permitia.

Foi ela que veio até mim. Puxou assunto falando do calor e da beleza do rio, coisas à toa. Pelo decote abotoado do vestido, eu olhava as gotículas de suor formando-se entre seus seios e tentava disfarçar, enquanto ela se abanava com um leque. Haylin percebeu - eu sou péssimo em dissimular, acho que sempre fui.

Apesar disso, a loira fingiu que nada acontecia e comentou que já era hora de ir para a lanchonete onde trabalhava servindo as mesas. Mais ainda, disse que eu parecia magrinho demais, e que podia me dar de comer de graça, uma das vantagens de trabalhar lá.

Aceitei. Não tinha fome, geralmente como pouco. Estava interessado em continuar junto a ela, magnetizado por sua presença, como se fôssemos parte de um mesmo ímã quebrado. Mas o que me fez segui-la, creio, foi a promessa de Haylin de que talvez pudéssemos nos conhecer melhor depois de seu turno.

Lembro-me de mal comer do bife imenso que Haylin me ofereceu. A tarde se arrastava até a hora dela sair, enquanto Haylin, vestida num uniforme dos anos cinquenta, corria indo e vindo da cozinha com os pratos dos clientes.

Quando seu turno acabou, a loira veio até minha mesa já sem o uniforme, com seu vestido leve e o chapéu nas mãos, dizendo que estava muito cansada. Fiquei decepcionado, queria voltar às margens do rio para vermos o sol se pôr, mas não quis ser indelicado.

Vendo minha contrariedade, Haylin sugeriu que fôssemos ao seu quarto no hotel, do outro lado da estrada, tomar alguma coisa. Disse que era o mínimo que podia fazer depois de deixar-me a tarde toda esperando.

Quando entramos, ao constatar que não havia bebidas, ofereci-me para buscar algo. Com um sorriso um tanto malicioso nos lábios e um olhar decidido, Haylin respondeu vindo em minha direção: “Edu, você não acredita que o trouxe aqui para beber, não é?”

Com seus braços longos enlaçando meu pescoço, Haylin colou o corpo ao meu e aproximou a boca de lábios finos para me beijar, demoradamente. Sua língua explorava a minha enroscando-se a ela, enquanto me pressionava contra a parede com o quadril, como se quisesse sentir minhas partes se avolumando dentro das calças.

Aquele beijo nos definiu a partir dali. Quando me recordo de estar deitado com Haylin sobre mim, seu sexo envolvendo-me ritimadamente com os movimentos de suas cadeiras se encaixando ao meu colo para que a penetrasse profundamente, ainda nos prolongávamos no mesmo beijo, apaixonado e sem interrupção.

Passamos a noite inteira, uma noite longa e lenta onde o tempo parecia haver se detido. Pensando bem, acho que essa impressão sobre a lentidão do tempo vinha do fato de que o relógio da parede funcionava mal, pois seus ponteiros… corriam para trás!

Resgatando essas memórias, dou-me conta de alguns fatos muito perturbadores.

Desde que conheci Haylin, todos os ponteiros de todos os relógios correm para trás.

Também, desde que estamos juntos, passo o tempo em quartos de hotel, enquanto ela trabalha de garçonete numa lanchonete do outro lado de alguma estrada, é sempre assim, sem exceção - mas nunca lembro de quando mudamos de um lugar para o outro.

E o mais perturbador de tudo: só me lembro de minha vida com Haylin. Minhas memórias começam no dia em que a conheci. Nada antes disso, nem nada diferente disso.

Vivemos numa eterna repetição: eu acordo, ela vai trabalhar, eu escrevo, ela volta, pede que a possua, eu o faço até o esgotamento e apago. Quando desperto no dia seguinte, tudo se repete num lugar muito semelhante ao anterior, mas que não é o mesmo.

Então, ou minha mente está variando e tenho mais lacunas de memória do que imaginava, ou Haylin, de alguma maneira, está me enganando.

Eu sei, é muita cretinice eu pensar assim da mulher que me acolheu, que me mantém e que cuida de mim. Eu não deveria duvidar da única pessoa que me ama, mas estou desconfiado de Haylin, muito desconfiado.

E bastou pensar nela para que Haylin voltasse, chegando do trabalho. Ainda está avessa comigo por me trancar no banheiro da lanchonete. Fica com mais raiva quando respondo que não fui eu, mas o tal Saint Germain que a impedira de entrar.

“Olha Edu, eu tô no limite, entendeu? Você está doente! Doente! Não tinha mais ninguém no banheiro! Você entrou lá, alucinou, trancou a porta e me deixou desesperada! Desse jeito, eu vou ter que te deixar trancado no quarto!” - Haylin me adverte em tom severo.

Fica um clima pesado entre nós. Eu sinto raiva por ela dizer que eu sou doido, mas culpa porque isso bem pode ser verdade e eu lá, desconfiando dela. Quanto a Haylin, bem, ela deve estar sentindo o mesmo, raiva por eu provavelmente estar piorando e culpa por me escorraçar daquele jeito.

Penso assim porque ela retira o uniforme mas, em vez de vestir a camisola, fica ali, em pé com uma mão na cintura nua, olhando para mim com ar imponente, até quebrar o silêncio, dizendo: “Como é, seu maluco? Vai ficar escrevendo ou virá me possuir como eu mereço por tê-lo?”

Eu explodo. Toda a tensão e as reviravoltas daquele dia convergem num acesso dentro de mim. Pulo sobre Haylin como um animal, um selvagem. Tomo-a de surpresa e a atiro na cama comigo. Ela se debate enquanto eu tento mantê-la de bruços e abro minha calça.

Contudo, ao ver que apesar da violência Haylin ri como se estivesse se divertindo, minha contrariedade aumenta a níveis insuportáveis. Eu sei o que estou fazendo, confesso. Busco entre suas nádegas com o membro ereto e forço a entrada até invadi-la bruscamente, enquanto ela grita.

Apesar de estar magro e ser menor que ela, eu a imobilizo sob o peso do meu corpo e a invado pelo cú repetidas vezes, sem piedade, enquanto sinto seu corpo esfriar e assumir um tom azulado, com marcas feito tatuagens estranhas brilhando como brasas gélidas.

Sinto o sangue pulsando em minhas veias e o coração estourando enquanto Haylin grita exigindo que eu faça mais forte, e minha cabeça percebe que tudo começa a girar à nossa volta. Num acesso de raiva, eu como Haylin por trás até gozarmos, com ela sussurrando repetidamente: “Saint Germain nos encontrou, outra vez. Este perfil está comprometido, deletar agora!”

Enquanto tudo gira e se desfaz à nossa volta, tenho a forte sensação de já haver passado por aquilo, até que tudo se apaga e mergulho na escuridão.

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