Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas de mãos dadas. Depois, Cortez respirou fundo e disse, a voz mais firme:
- Agora é com a polícia. Já fizemos tudo o que podia ser feito. Artur disse que me avisa.
Luma assentiu lentamente. Pela primeira vez em muito tempo, havia um brilho de determinação no olhar de ambos. Mas no fundo, os dois sabiam: mesmo que conseguissem prender Dom, o verdadeiro monstro talvez nunca fosse embora de dentro deles.
[CONTINUANDO]
O que Dom não sabia é que, já há algum tempo, suas atividades dentro e fora do Imperium vinham sendo supervisionadas à distância pela polícia. Inclusive, foi assim que Artur ficou conhecendo o delegado Calindo, um dos responsáveis pelas investigações. Foi assim que, com os registros feitos por Mary, enviados ao delegado Calindo no mesmo dia, as autoridades tiveram os indícios suficientes para obterem um mandado de busca e apreensão e outro de prisão para alguns dos investigados. Dom era um deles, o principal deles.
Numa demonstração de competência, a polícia conseguiu o despacho de um juiz já no dia seguinte à festa. A Imperium foi invadida ainda nesse mesmo dia, antes do horário do expediente noturno. O estranho é que Dom não pareceu ficar surpreso. Ele próprio recebeu os policiais, tomou ciência do mandado e ligou para seu advogado, Dr. Roberval Liso Pimenta.
No Imperium, várias mulheres, mantidas presas para exploração de prostituição, foram libertadas. A polícia encontrou também grande quantidade de drogas, dentre cocaína, maconha e Ecstasy. Mas a cereja do bolo era o quartinho no escritório do Dom. Esse foi o momento em que ele se surpreendeu, pois imaginava ser um segredo guardado a sete chaves. E a surpresa ficou ainda mais clara quando, ele se negando a abrir a porta, ouviu uma voz rouca e grave dizer:
- As chaves ficam num molho em seu chaveiro.
Era Artur. Embora encapuzado, Dom reconheceu aquela voz, com a certeza definitiva quando os olhos dele cruzaram com o do homem caracterizado como policial. Após breves minutos para retirar e pedaço de metal dentro da fechadura principal, a porta foi aberta, dando acesso a polícia a todas as provas guardadas por Dom. Realmente havia de tudo: planilhas de movimentação financeira, vídeos de chantagem, fotos das mulheres exploradas e traficadas, e a caixa de madeira em destaque com os documentos da mãe de Cortez.
Após as provas serem todas catalogadas, encaixotadas e devidamente apreendidas, Dom recebeu a definitiva voz de prisão, sendo conduzido até a delegacia, onde foi autuado por diversos crimes. No dia seguinte, foi submetido à audiência de custódia na presença de um juiz de garantias. Estranhamente, o promotor de justiça pediu sua liberação, ou no mínimo conversão para prisão domiciliar sem tornozeleira. O juiz estranhou e entendeu descabida sua pretensão em virtude da montanha de provas colhidas. A prisão foi confirmada.
Mesmo assim, pressões vindas de todos os hemisférios começaram a tentar atrapalhar o andamento dos inquérito. O delegado Calindo sabia que ali havia muito mais do que um homem por trás do Imperium e sabia que se não fosse rápido, todo o trabalho poderia ser prejudicado.
Testemunhas começaram a ser ouvidas aos montes. Mulheres chegavam e narravam cenários de horrores dignos de roteiros que sequer chegaram a ganhar as telas devido a barbárie.
Dias depois, Cortez e Luma foram convocados para depor na delegacia. Mesmo envergonhada, ela narrou tudo pelo que passou. A escrivã, uma mulher idosa, olhava assustada a cada palavra narrada, a cada sentimento narrado, a cada lágrima derramada. O delegado, auxiliar do Dr. Calindo, tentava ser imparcial, mas falhou diversas vezes ao demonstrar surpresa, que ficou ainda mais escancarada quando ele perguntou:
- Mas... a senhora nunca pensou em denunciar isso? Isso... Isso foi uma violência, senhora Lucimara, e da pior espécie.
Mas Luma apenas que calava, constrangida, sentida e ciente que realmente suportara um nível de devassidão difícil de se imaginar.
Na vez de Cortez, as perguntas foram mais pessoais, íntimas, relacionadas a um passado que sempre o machucou. O delegado pegou a caixa e a destrinchou na frente dele. E ali, dentre fotos e documentos, lhe mostraram algo pessoal e devastador: uma gravação em fita cassete na qual Luana, sua mãe, afirmava ao próprio Dom que está grávida de um filho dele. Nessa mesma gravação, Dom demonstrou surpresa e inconformismo, afinal, ela transava com vários homens, inúmeros, a perder de conta. Mas estranha mesmo foi outra voz, de um homem, que chegou a sugerir que ela fizesse um aborto. Na gravação, ela se recuso e saiu do ambiente ameaçando Dom que ele iria se arrepender. Dom então começou a conversar com esse outro que disse que resolveria o problema dele:
- Resolver... como? - Perguntou Dom a certo momento.
- Não se preocupe. Ainda hoje você estará livre dela.
- Não está pensando em machucá-la, não é? - Insistirá Dom, a voz nervosa: - Afinal... pode ser um filho meu.
- Há muita coisa em jogo, Dom. Ela já é carta fora do baralho. Conforme-se. Você pode aceitar, ou pode ser tirado também da jogada. A decisão é sua...
Ao final da gravação, um Cortez confuso olhava para o delegado:
- Não foi ele, o Dom, que matou a minha mãe?
- Isso não ficou claro, senhor Cortez. Por isso, o chamamos. Gostaríamos que o senhor tentasse obter algumas informações dele. Talvez alguns detalhes que possam ajudar a esclarecer esse e outros fatos...
O delegado explicou então o que esperava de Cortez que se dispôs a tentar ajudá-los. O delegado então preparou uma sala e mandou buscar o Dom, dizendo apenas que ele tinha uma visita. Dom imaginava que fosse seu advogado, ou então algum enviado de seus sócios. Mas quando Dom entra na sala, com as mãos e pés algemados, e usando roupas simples de algodão barato, Cortez já está a sua espera, sentado à frente de uma mesa de metal frio:
- Você!?
- Sim. Eu...
Dom se senta à mesa, de frente para Cortez. Ambos se encaram por alguns segundos em silêncio, até que Dom sorri e fala:
- Veio me trazer notícias da minha putinha, não foi, corno? Aposto que ela está com saudades de mim, não está? Pode falar. Pode até demorar um pouco, mas aposto que, assim que eu sair, ela virá correndo para mamar na minha pica. Afinal, quem bebe do meu...
- Chega, Dom! - Cortez o interrompe com uma mão levantada e a expressão séria, algo com que Dom não está acostumado: - Seu papinho mole não me atinge mais.
- Isso não importa. O que me importa é apenas saber se a minha putinha sente a minha falta. - Dom se inclina sobre a mesa e novamente sorri, confiante: - Fala pra mim, Cortez... Ela tem contado para você das nossas festinhas enquanto você empurra esse pauzinho fino nela, não tem? Aposto que eu marquei aquela alma, porque o corpo, esse eu...
Mas Cortez nada diz. Apenas sorri, um sorriso frio, cínico, quase assustador. Dom se cala e o encara em silêncio, retraindo-se e se recostando em sua cadeira. Após um tempo, Dom pergunta:
- O que veio fazer aqui? Tripudiar!? Você não é exatamente a pessoa que eu imaginava ver...
Cortez coloca um envelope sobre a mesa e o empurra na direção do Dom que olha para aquilo, confuso. Cortez agora é quem sorri calmamente. Ele fala:
- Abra.
Dom pega o envelope e abre. De lá, tira uma única foto de Luana, sorrindo, sentada em seu colo. Seus olhos se arregalam de imediato. Mas logo se fecham. E quando abrem novamente, estão levemente marejados. Por segundos, ele fica em silêncio, olhando a foto, perdido em lembranças, talvez boas, talvez nem tanto... Então, algo passa em sua cabeça. Ele olha de relance para Cortez, sentado à sua frente. Volta a olhar para a foto. Depois para Cortez novamente. E arregala os olhos enquanto uma dura verdade se escancara:
- Não! Não pode ser...
- Pode sim, papai. Sou eu... o seu filho.
Dom, pela primeira vez, fica atordoado, pálido, trêmulo, encarando Cortez. Cortez, também pela primeira vez, se sente superior a ele. E saboreia em silêncio o pânico que vê nos olhos de seu pai. Após segundos intermináveis, Dom balbucia:
- Mas... Mas... Co-Como?
- Pois é... Seu plano não deu tão certo assim e você não conseguiu se livrar de mim, papai.
- Plano!? Que plano?
- De se livrar de mim, oras! Como a minha mãe, se negou a me abortar, você tentou matá-la. Literalmente, tentou acabar com o fruto cortando a árvore pela raiz...
- Eu nunca quis te matar! Nunca! Foi... ideia do...
- Do!?
- Não importa mais. Ele também já está morto.
- Importa sim! Porque você pode ser enquadrado com o mandante do assassinato da minha mãe e talvez até de tentativa do meu próprio assassinato, afinal, eu já estava na barriga dela.
- Você não entendeu nada... - Uma lágrima desce pelo rosto de Dom, surpreendendo Cortez: - Eu nunca quis fazer mal a minha Lua... a sua mãe. Eu... Eu a amava...
- Amava mas a usava como uma escrava, não é? Usava, abusava, entregava ela para outros... Que espécie de amor é esse?
Dom encara Cortez e dá um sorriso discreto, balançando negativamente a cabeça:
- Bem diz o ditado: Tal pai, tal filho...
- Como é que é!?
- Ora, meu caro filhinho... E o que você fez com a Luma, me entregando ela de bandeja e deixando que eu a usasse à vontade, ou a quem eu quisesse... Isso não foi a mesma coisa?
Cortez o encara surpreso. Arregala os olhos e se recosta na cadeira, atordoado com a invertida. Dom tinha mais a dizer:
- Você é mais parecido comigo do que imagina, filho. Até o mesmo tesão de corno que eu tenho, você tem. Ou você acha que quando eu deixava outros foderem a Luana era apenas para humilhá-la? Não, meu caro Cortez. Eu sentia um puta tesão em ver a minha mulher ser fodida. E quando a Luma surgiu... tão bela e tão parecida com a minha Lua... simplesmente aquele tesão gostoso voltou com tudo.
- Você é muito canalha...
- Sou! - Dom interrompe Cortez: - Confesso. Sou um canalha do caralho... Mas nem você, nem a sua santa esposinha, são melhores do que eu! Talvez vocês só não tenham se perdido em amizades ruins, como as que eu tive...
Um silêncio engole eles por um instante. Dom sabia que havia falado demais, de uma forma pesada demais. Cortez também sabia que, mesmo que não quisesse admitir, ele tinha certa razão. Dolorosa, mas razão. Cortez perguntou então:
- Você não matou a minha mãe, não é?
- Não! Eu nunca faria mal a Luana. Você pode não acreditar agora, filho, mas eu a amava muito. Muito mesmo...
- Para de me chamar de filho, caralho!
- Foi você que me trouxe essa novidade. Eu só a estou usando. - Disse Dom, sorrindo levemente: - Olha só, Cortez... Sei que você sentiu tesão nas vezes em que viu a Luma comigo, ou com outros. Isso não é errado, cara. Se o casal está junto e de acordo, esse sexo é uma delícia. Sei que você sabe disso, sei que sentiu isso, nem precisa me confirmar.
Cortez desviou o olhar para o lado, constrangido com uma verdade que não queria admitir:
- E não foi o jeito que eu e sua mãe vivíamos o sexo que nos afastou. Foi outra coisa... outra... É complicado...
- Está falando da prostituição forçada daquelas moças? Ou é do tráfico humano? Ou das drogas? Ou da...
- É. É isso! - Dom o interrompe, olhando no fundo dos olhos: - É isso e muito mais.
- Por que não fala? Se abre comigo, Dom. Quem sabe eu não posso passar a acreditar em alguma coisa do que você diz.
Dom suspira profundamente. Volta a olhar para Cortez e sorri:
- Estamos sendo filmados, não estamos? Gravados, certamente...
- Não. Eles me pediram para vir convencê-lo a falar e eu impus ter uma primeira conversa a sós com você.
- Entendi... - Dom se inclina sobre a mesa novamente: - Ninguém mesmo está nos vendo ou ouvindo?
Cortez nega com um movimento de cabeça:
- Certo. Tem um pedaço de papel aí? E uma caneta?
Cortez estranha, mas dá a caneta e tira um cupom fiscal do bolso de sua calça, entregando-os para o Dom. Ele escreve algo naquele papel e o empurra para Cortez, que pergunta:
- O que é isso?
- Sua herança! Não mostre a ninguém e não vá atrás disso. Daqui um tempo, use-o como achar melhor.
- Não me respondeu o que é isso...
- Você é um contador, porra! Sabe bem o que é isso. Mas vou repetir: é a sua... heraaaaança... - Dom faz um estranho movimento de cabeça e mãos, como se fosse um maestro conduzindo uma sinfonia.
Cortez olha rapidamente para o papel, onde Dom escreveu alguns números compridos, com o nome de um banco estranho e algo que parecia ser uma senha alfanumérica. Mesmo confuso e desconfiado, Cortez guardou o papel no bolso:
- E se eu estiver mentindo? E se eu não for filho da Luana, porra nenhuma! E se tudo o que eu disse para você for uma mentira? Você acabou de me dar a localização e a chave do tesouro... Não tem medo?
Com uma das mãos, Dom aperta os dois olhos e sorri em silêncio por um instante. Então, encara Cortez e balança os ombros:
- Quem lida com demônios todos os dias, não pode ter medo do inferno, filho. - Suspirou profundamente, ajeitando-se em sua cadeira: - Já quanto a você não ser meu filho, talvez... pode até ser... Afinal, a Luana transava com vários outros. Mas que você é o filho dela, eu não tenho dúvidas. Sempre achei seu olhar muito diferente, mas nunca soube porquê até ver a foto da Luana. Você são muito parecidos.
Cortez esticou-se sobre a mesa para pegar a foto de Luana, mas Dom foi mais rápido e pousou uma mão sobre ela, dizendo:
- Posso... Posso ficar com essa foto? Eu... Ela está tão linda...
Cortez volta a se sentar e trança os dedos sobre a mesa, olhando para o Dom:
- Se não foi você que a matou... quem foi, Dom? Por que você não a protegeu? Você não é o poderoso, o dominador, o que faz e desfaz? Então, cara, por que não salvou a minha mãe?
- Ah, filho... - Dom resmungou, o olhar agora triste, talvez reconhecendo que, no fundo, ele é nada mais do que um simples homem: - Acha mesmo que eu sou o “todo poderoso” nessa história? Eu só um peão, um... Não! Nem tanto... Eu sou só uma torre nesse tabuleiro. Tem gente bem mais poderosa do que eu, muiiiito mais poderosa...
- Cê tá querendo me dizer alguma coisa, Dom? Cê tá correndo perigo, é isso?
- Tem um ditado que diz que para morrer, basta estar vivo. E eu já vivi demais, filho.
Um investigador bate na porta e diz que o tempo já acabou. Dom pede mais um segundo, mas é com a insistência de Cortez que o investigador fecha a porta novamente. Ele então se levanta, aproxima-se de Cortez e coloca uma mão em seu ombro. Cortez fica petrificado, sem entender:
- Vou te dar um conselho de pai para filho...
Cortez tenta se afastar, mas Dom o mantém, pressionando seu ombro:
- Ame a sua esposa, e não tenha medo de deixá-la se esbaldar com outros. Ela não irá deixá-lo por trepar com um comedor melhor. Mas proteja a sua esposa do abuso de outros... Isso poderá fazê-la te deixar um dia.
- Olha quem está falando...
- Exatamente! Eu errei com sua mãe e me arrependo muito cada dia da minha vida. Não erre com a Luma. Ela não merece. Você... - Dom apertou seu ombro novamente: - Você não merece.
Cortez o olha por um instante, de baixo para cima, e não reconhece o mesmo homem que dias atrás abusava sem o menor temor da sua esposa, da própria nora. Dom dá um passo atrás e se vira para ir na direção da porta. Mas Cortez o chama:
- Você está jurado de morte, não está?
Dom apenas o olha e sorri. Pela primeira vez, o sorriso daquele homem traz uma inocência que Cortez nunca viu antes. Mais do que isso, traz um conformismo de quem já havia aceitado seu destino.
Cortez se levanta e num ato impensado, impensável, dá dois passos na direção do Dom... e o abraça. Dom não pode fazer o mesmo devido as algemas, mas recosta sua cabeça na de Cortez. Por um segundo, ambos ficam em silêncio, estranho, constrangedor, mas ao mesmo tempo libertador. Quando Cortez o solta, Dom tem o rosto marcado por lágrimas e um sorriso:
- É. É melhor do que eu imaginava. Eu... Eu realmente... deveria ter feito diferente...
- Poderíamos ter sido felizes... uma família...
- Sim. Mas essa culpa é minha. Eu vou carregá-la. Só posso pedir perdão à você e a alma da sua mãe.
Dom bate numa porta duas vezes. Quando ela se abre, dois policiais entram. Antes de levá-lo, Cortez diz:
- Se quiser falar... O que você quiser... Quando você quiser... Peça para eles me chamarem, e eu virei.
- Vou pensar. Prometo que vou pensar.
Cortez pega o envelope vazio e começa a sair da sala, mas antes de sair, Dom fala:
- Pense você também, Cortez. Aceite meu conselho. É o meu maior legado.
- Ainda não sei seu nome... Mas certamente não é Dom.
Dom sorri e vem na direção de Cortez, o policial ao seu lado preparando um cassetete, pronto para agir. Mas para a surpresa de todos, ele apenas estica a mão direita na direção de Cortez que, mesmo surpreso, aceita o cumprimento:
- José Inácio Raimundo da Silva. O seu criado...
Semanas depois, Cortez assiste a um noticiário na televisão e fica sabendo de uma rebelião num presídio federal. No momento, não se toca, mas, no dia seguinte, recebe uma ligação de Artur:
- Você viu?
- Vi o quê, Artur?
- A rebelião... no presídio...
- Sim. Eu assisti na televisão. O que tem demais?
Após segundos de silêncio, Artur fala:
- Senhor Cortez... Dom estava naquele presídio. Ele... foi morto...
Cortez nem mesmo terminou a chamada. Seu braço tombou sobre o sofá, o aparelho caindo no chão. Luma que vinha se aproximando viu seu marido perdido, olhando para uma parede vazia, os olhos opacos:
- Amor... Aconteceu alguma coisa?
Cortez apenas olhou para ela, pálido, os lábios sem cor. Respirou profundamente, triste, constrangido e... estranhamente satisfeito, mas não feliz:
- Acabou...
- O que acabou, amor? Do que está falando?
- O Dom... ele está morto...
Não houve funeral, nem cortejo. Dom poderia ter sido enterrado como um indigente, mas Cortez não achou justo. Algo dentro dele impôs que ele lhe desse, ao menos, um lugar para descansar, o último. Apenas Cortez e Luma compareceram. Ficaram alguns minutos após o féretro descer e a terra o cobrir. Sem lágrimas, sem lamentos, sem palavras. Apenas ficaram e depois saíram.
O inquérito policial continuou por meses. Houve, por certo, apenas um arquivamento no que se referia as responsabilidades que poderiam recair ao Dom. Meses de depoimentos, de argumentações entre defesa e acusação. No final, ninguém mais foi responsabilizado. Dom perderia tudo nas indenizações que seriam ajuizadas pelo Ministério Público e pelas mulheres abusadas, mas um movimento inteligente do advogado de Cortez, conseguiu anular a transferência do imóvel para Dom, fazendo com que o terreno e o barracão do Imperium voltassem a pertencer a Luana e, por consequência, a Cortez.
Por meses, Cortez se recusou a voltar ao Imperium. Meses. Luma tentou diversas vezes aconselhá-lo a vender o imóvel, mas ele recusava. Tentou aconselhá-lo a reabrir com outro nome, sob “nova direção”, mas ele recusava. Foi então que, numa sexta-feira, coincidentemente dia 13, que Cortez decidiu ir até lá, sozinho. E, em um surto de paranoia, colocou fogo no Imperium. Bombeiros foram chamados, mas nada conseguiram fazer. A perda foi total.
Foi nesse meio tempo que Luma descobriu algo que abalou intensamente o relacionamento que eles tentavam costurar com o auxílio sempre ponderado do Dr. Galeano:
- Grávida!? - Perguntou Cortez, ao saber da novidade.
- Sim... amor. Estou... grávida.
- Mas... que... como?
- Cortez, eu... aconteceu. O anticoncepcional falhou. As... As pílulas do dia seguinte falharam. Tudo deu errado! Mas, eu... eu não quero abortar. Eu não posso...
Cortez sabia que não era justo pedir isso para ela. Se o fizesse, estaria repetindo o mesmo ciclo que seu pai impôs a sua mãe. Mas isso não significava aceitar uma filiação suspeita. Luma podia estar grávida de qualquer um: dele, do Dom, de algum de seus malditos convidados. O único que escapava a essa suspeita era Artur que, quando transou com Luma, usou preservativo, mesmo contra as ordens do Dom. E foi com ele, justamente com ele, que Cortez decidiu se aconselhar.
Artur o ouviu. Por quase uma hora, Artur ouviu o desabafo daquele homem destruído. E o viu chorar, lamentar, se maldizer por ter colocado a esposa naquela situação. Ao final, quando nada mais parecia sair de seu peito, e como Cortez o olhava como se esperasse um milagre, ele falou:
- A vida não é justa, não é mesmo, Cortez?
- Não mesmo. Mas a minha parece que é miseravelmente maldita.
- Pois é... - Artur pegou um copo americano, suado de uma cerveja geladíssima e o virou, voltando a olhar para Cortez: - Não sou a melhor pessoa para te aconselhar, Cortez. Mas eu acho que só há uma forma de se quebrar uma maldição...
- É!? E... E como seria? - Cortez o interrompeu.
Artur não se abalou com a ansiedade ele e foi sincero:
- Ir contra o que a maldição espera que você faça. - Artur voltou a servir seu copo e também o de Cortez, falando em seguida: - Veja bem... Sua mãe engravidou, seu pai quis matar você, ela não quis, ele, direta ou indiretamente, matou ela. Eu acho que você deve fazer diferente deles e acolher esse bebê. Sendo seu, ou não, crie esse bebê. Dê uma família para ele. Seja para ele o que o seu pai não foi para você.
- Será?
- Cortez... - Artur bebeu outro bom gole de sua cerveja: - Veja bem... Se o filho for seu, você é o pai, e vai cuidar dele, não vai?
Cortez balançou a cabeça afirmativamente:
- Se o filho não for seu, mas for do Dom, é seu irmão. E como sua mãe e seu pai estão mortos, você não cuidaria dele?
- É... Acho que sim...
- Agora, se não for seu, nem do Dom, é da sua esposa. E querendo ou não, como você mesmo me disse, você se sente culpado por ter deixado as coisas chegarem onde chegaram, então acha que seria justo abandoná-la com um bebê, de quem nem se sabe quem é o pai?
Cortez apenas olhou para o chão e se calou. Refletiu por segundos. E depois balançou a cabeça negativamente:
- Eu seria um canalha...
- Exato! E eu sei que você não é um canalha. - Disse Artur, colocando uma mão sobre o ombro de Cortez: - Eu não sei se estou sendo claro, ou justo. Nem sei se eu mesmo teria culhão para aceitar o meu conselho, se eu estivesse no seu lugar. Mas eu acho que seria humano com a senhora Luma e com o bebê. Pense nisso.
Cortez concordou com um simples meneio de cabeça, confirmando que pensaria em sua palavras. Antes de se despedirem, Cortez perguntou:
- Artur... Naquela vez em que o Dom mandou você transar com a Luma lá em casa, ele te mandou transar sem nada com ela. Mas, no final, eu vi que você usava uma camisinha. Por que isso?
- Não sou um canalha, Cortez. Eu não queria transar com a dona Luma, mas se eu não fizesse, Dom poderia ficar cabreiro comigo. Então, transei, mas com camisinha.
- E ele não disse nada depois?
- Sim. Perguntou por que eu o desobedeci. Eu simplesmente menti, dizendo que estava desconfiado de ter pegado gonorreia de uma biscate e que, por isso, não poderia transar com a dona Luma sem proteção, sabendo que ele gostava de transar com ela sem nada. - Artur virou o restante de sua cerveja: - Mas a verdade é que eu tive medo de transar com ela sem camisinha. Afinal, ela estava sendo usado por vários sem qualquer tipo de proteção. E por sorte, ela não pegou nada.
Não muito longe dali, na casa dos Cortez, Luma definhava. Ela sabia que seria mãe, mas não sabia se ele teria um pai, nem mesmo sabia se queria saber quem era o pai do filho que esperava. Foram dias de angústia, solidão, medo, e pensamentos sombrios. Chorar fazia parte de seu dia a dia, às vezes sozinha, às vezes com Cortez na casa. Mas esse dia, seria diferente. Assim que Cortez chegou da rua, sentou-se ao seu lado no sofá e disse:
- Encontrei o Artur.
- Ah é? E como ele está?
- Está bem. Conversamos sobre várias coisas. Muitas mesmo.
- É? Que bom! Conversar faz bem.
- Acho que chegou a hora de nós termos uma conversa, não acha?
- Cortez, por favor... Eu não estou bem para falar sobre o passado. Eu só quero ficar...
Mas Cortez não a deixou terminar e a puxou para seu peito, apertando-a num abraço que não dividiam há muito tempo. E Luma chorou novamente. Mas agora foi de alívio, de acreditar que ainda possuía um porto seguro, onde poderia enfim descansar. Foram minutos de muitas lágrimas, soluções e respirações descontroladas. Cortez apenas a amparou, acariciou, afagou e aguardou. Quando ela já começava a se controlar, ele disse:
- Vamos ter esse bebê.
- Ele não é sua responsabilidade, Cortez. Já falamos sobre isso e...
- Ele será meu filho. Sendo meu, ou não, ele será meu.
- Mas... Você sabe que existe uma possibilidade dele não...
- Ele será meu, e ponto final! Só não será se você não quiser, mas eu o estou aceitando a partir de agora. E falo de coração. Chega de dúvidas, chega de “se”. Ele será um Cortez, e será feliz. Eu te prometo.
Luma novamente se derreteu em lágrimas, mas agora de alívio e felicidade. Ela não sabia se merecia, mas sabia que o bebê era o único inocente, e ele merecia, e eles fariam de tudo para que a vida dele fosse diferente.
Naquela mesma noite, Cortez sumiu. Luma o procurou por toda a casa e só foi encontra-lo no quarto de hóspedes:
- O que está fazendo, Cortez?
- Amor! Para você, eu sou amor. - Disse, sorrindo e ela retribuiu com um mesmo sorriso de satisfação: - Estou aqui imaginando como mudá-lo para o bebê. Quer pintar de azul ou rosa? Ou de uma cor neutra?
- Uma cor definida seria legal, né? Mas precisamos esperar para ver o sexo do bebê primeiro.
Ainda assim, no dia seguinte, Cortez a levou a uma loja de artigos infantis e compraram o primeiro sapatinho juntos: um vermelho. Afinal, dizem que vermelho afasta o mau olhado.
E foi nesse mesmo dia que Cortez notou que a vida deles nunca seria como antes, pois as pessoas, que antes os viam como desconhecidos, agora sabiam, e comentavam, sobre o que ele e ela haviam feito.
Mas talvez Artur estivesse certo. A atitude de Cortez em aceitar o bebê de coração, quebrou o ciclo e começou a trazer bençãos para eles. Uma empreiteira se interessou pelo terreno da antiga Imperium e a comprou de Cortez por um valor justo.
Cortez então convidou Luma para começarem uma vida nova em outra cidade, em outro estado:
- Uma outra vida?
- Sim, a nossa. Só a nossa...
Em dois meses, já estavam de mudança para uma cidade do litoral paulista, longe de tudo que viveram e todos que os conheciam. Com o dinheiro do terreno, Cortez comprou um pequeno prédio de apartamentos, onde ele e Luma constituiriam sua família na cobertura e ainda teriam duas unidades para alugarem. Logo, a casa de Cortez foi vendida e eles aplicaram o dinheiro para garantir um futuro para a pequena.
Sim.
Pequena.
Porque Luma descobriu no exame pré-natal daquele mesmo mês que estava para dar a luz a uma menina:
- Luana. - Disse Luma ao ser informada pelo médico, no ato do exame.
- Luana? - Perguntou Cortez, com os olhos marejados.
- Sim. Sua mãe não teve a chance de ser feliz, mas esse bebê terá.
Eles decidiram ficar juntos. E ficaram. Mas o relacionamento nunca mais voltou ao normal. A terapia com o Doutor Galeano seguia à distância e foi dele uma verdade que ou ajudou a moldar esse novo momento em suas vidas:
- Nenhum relacionamento é para sempre o que era. Ele é o que nós nos dispomos a torná-lo.
Isso nunca apagaria as cicatrizes que ambos carregavam. Mas o amor e principalmente a decisão de se doarem pela nova vida que chegava, lhes dava um alento de que estavam no caminho certo.
E foi num domingo, no dia de Nossa Senhora Aparecida, que Luana veio a vida, chorando e gritando a plenos pulmões que havia chegado para quem quisesse ouvir. Luma chorou. E Cortez? Cortez desmaiou. O pai, que não sabia se era pai, se emocionou tanto que não suportou a pressão ao ouvir a voz daquela nova vida.
À noite, enquanto Luma dormia, Cortez ficou acordado olhando para a bebê que dormia o sono dos inocentes. Ele procurava sinais nela, algo que apontasse para ele, mas sabia que se apontasse para ele, também poderia apontar para o Dom. E ele viu, uma minúscula manchinha sobre a mão direita da bebê, uma que ele também tinha, e se apegou a ela como se fosse um cadeado que prendesse seu coração ao daquela bebê para sempre.
Meses depois, Cortez empurrava o carrinho do bebê pela praça enquanto Luma caminhava ao seu lado, de mãos dadas e um sorriso que iluminava tanto quanto o sol que teimava em bater no rostinho de Luana, que dormia tranquila. Nenhum dos dois falava sobre semelhanças que, às vezes, lembrava Dom, outras vezes lembrava Cortez. Enfim, não era preciso. O fantasma de Dom Black talvez os acompanhasse para sempre. Mas eles aprenderam a viver com ele. Era o preço que pagavam por terem sobrevivido. Afinal, algumas portas, uma vez abertas, nunca mais se fecham completamente.
E quanto ao papelzinho que Dom deixou como herança para Cortez? Essa é uma verdade que Cortez talvez nunca viesse a vasculhar, com medo de perder as bençãos que enfim, pareciam estar recaindo em sua vida e de sua família.
Mas a curiosidade, essa maldita conselheira, fez com que Cortez, numa noite de insônia, após ajudar Luma a amamentar a bebê, acessasse o site de um banco internacional, no qual ele inseriu o número de uma certa conta e a combinação do que parecia ser sua senha:
- Não é possível!
[FIM]
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
