O daddy - parte 1

Um conto erótico de André
Categoria: Homossexual
Contém 3961 palavras
Data: 12/05/2024 21:15:38

Verão de 2018.

Era um domingo absolutamente igual a todos os outros em Porto Alegre. Eu estava apenas de cueca deitado na minha cama, após o terceiro banho gelado naquele dia em que os termômetros marcaram 37ºC. O calor do verão (úmido, pegajoso, como só os janeiros daquela cidade conseguem ser) abrasava as paredes, tornando o ambiente abafado e sonolento. Entre um bocejo e outro, o som característico de uma notificação do Grindr rompeu o silêncio do meu quarto. Com um suspiro, peguei meu celular ao lado da cama e desbloqueei a tela. Seria mais um perfil sem rosto? Mais uma mula sem cabeça? Mais algum baitola que só fala e fala, mas não tem coragem de marcar um encontro real? Seria mais um enrustido, que esconde a situação de casado, noivo ou comprometido?

O perfil que me enviou a mensagem era um tal de "MachoTesudo69". Ele não tinha foto alguma (novidade!!!), mas o nome - nada original, diga-se de passagem - já deixava bem claro o que esperar. Mas fazia dias que ninguém me mandava nada, e eu estava ardendo de tesão, louco pra trepar. Mesmo um perfil em branco e lacunoso me faria perder meu tempo, nem que fosse para aplacar um pouco o tédio.

"E aí, tudo na boa?", dizia o texto simples, mas direto.

Respondi prontamente. "Tudo tranquilo por aqui. E contigo?".

MachoTesudo69 decidiu dar um passo a mais na interação: uma notificação anunciou a chegada de uma foto. Com uma expectativa palpável, abri a imagem. Meu coração deu um salto ao ver um homem mais velho, com cabelos grisalhos no peito, músculos salientes e um sorriso malicioso nos lábios. Tinha também uma tatuagem de águia que cobria boa parte do seu peito, e um piercing inusitado no mamilo esquerdo. Seus olhos e nariz estavam cortados na foto, mas a boca relativamente carnuda era puro tesão, e só adicionava mais tempero à visão daquele corpo quase desnudo. Ele vestia uma espécie de bermuda que chegava até metade dos seus joelhos, num estilo meio “velho surfista”, e estava de chinelos. Delícia. Era uma visão que instantaneamente despertou meu desejo.

Engoli em seco, sentindo o calor subir em minhas bochechas.

O que será que aquele cara gostoso tinha visto em mim, para que iniciasse uma conversa do nada, já mandando foto?

Diferentemente dele, meu perfil era praticamente um livro aberto. “Pedro94” era o nick, nada de novo sob o sol. Pedro, meu primeiro nome. 94, o ano em que eu nasci. Optei por não colocar fotos mais ousadas porque eu era muito inseguro em relação ao meu próprio corpo, e o Grindr sabia estatelar a auto-estima de qualquer gay que escapasse minimamente do padrão. Minha foto: eu, um jovem de 24 anos, barba preta e rala, cabelos negros e pelos relativamente densos pelo corpo, constituição relativamente magra, ombros um pouco mais largos de quem pratica natação três vezes por semana, barriguinha nascente, de camiseta de mangas curtas verde e bermuda de listras, num ambiente meio praiano (praia dos Ingleses, em Floripa).

Nas informações adicionais, constavam minhas características: 1,70m (sim, baixinho), etnia: latino-americano, peso: 65kg, posição: versátil, status de relacionamento: solteiro, tribo: lontra. Por algum motivo ridículo, coloquei nas expectativas: ficadas e…. relacionamento. Relacionamento? A quem eu queria enganar? Eu só queria fuder bem gostoso, dar o meu rabo ou chupar uma rola de uma vez.

Resolvi responder à mensagem de uma vez, antes que ele saísse do “on”, e a gente perdesse o fim da meada.

Pedro94: “Caralho, recebi tua foto. Tá foda, hein?”

MachoTesudo69: “Porra, gostou? Tô tentando manter essa barriga longe. O que tu achou?”

Pedro94: “Porra, tá gostoso pra caralho. E essa tatuagem aí, de onde é?”

MachoTesudo69: “Valeu, mano! É uma águia, saca? Representa liberdade e tudo mais. E aí, curtiu o que viu também?”

Pedro94: “Porra! E aí, o que achou de mim?”

MachoTesudo69: “Porra, você é bonito pra caralho. Tem um sorriso daqueles que faz qualquer um perder a linha. Tô afim de perder uns bons momentos contigo. O que acha?”

Pedro94: “Caraco, sério? Que bom que você curtiu, mano. Tô a fim de te fazer perder o fôlego também. Que tal nos encontrarmos e ver onde isso nos leva?”

Esperei alguns segundos a resposta de “Macho”. Eu só queria fuder de uma vez, que ódio de mim.

MachoTesudo69: “Pode ser, caralho. Tô doido pra te conhecer melhor. Vamos marcar algo logo então. Mas antes, me manda uma foto tua também, sem camisa.”

Eu não tinha uma pasta no celular com nudes minhas. Gostava de tirar a foto no calor do momento, enviar para o destinatário, e depois apagar do celular. Aproveitei que já estava só de cueca, com o começo de uma ereção, e tirei uma selfie de longe (tapando meu rosto, é óbvio), para preservar um mínimo de privacidade. Eu estava suado, o que adicionou um toque de safadeza a maior.

Pedro94: “Caralho, tô mandando. Olha lá!”

MachoTesudo69: “Porra, que volume é esse? Tô ficando de pau duro só de olhar. Você curte uma putaria?”

Não respondi de imediato, pois bem na hora minha mãe bateu na porta, e perguntou se eu não queria tomar o lanche. Respondi que ainda estava sem fome.

Nesse meio tempo, uma nova notificação iluminou a tela do meu celular. Era uma foto de uma rola grossa, exibida com orgulho na frente de um fundo escuro. O membro era robusto, com veias salientes percorrendo toda a extensão. A glande estava inchada, e a pele ao redor estava esticada, denotando uma excitação crescente. Não parecia ser uma ereção total, mas tampouco o pênis estava mole. Era uma visão direta e crua, sem rodeios, apenas pura provocação carnal.

Pedro94: “Porra, mano. Você que pergunta? Olha só o tamanho desse mastro. Tô doido pra te ver pessoalmente e fazer um estrago.”

MachoTesudo69: “Caralho, que delícia! Mal posso esperar pra te ver. Vamos deixar isso acontecer logo, macho.”

Pedro94: “Tô contando os minutos, parceiro. Vai ser uma noite pra não esquecer, pode apostar. Onde tu mora? Tu quer marcar uma cerveja, um date. Quero te conhecer. Manda foto do rosto!”

Deixei o celular de lado por um tempo, vesti uma bermuda e fui para cozinha buscar um rango. Minutos depois, com a barriga já saciada, voltei ao quarto e peguei meu smartphone. Zero resposta. MachoTesudo69 não estava mais offline e, para piorar, ele havia me bloqueado!!!

“Puta que pariu!”, pensei. “Só mais um idiota querendo bater uma punheta a custas de fotos dos outros. Por que não entra num site pornô, punheteiro?”.

Fiquei decepcionado, e até pensei em excluir os apps de pegação do celular. Mas já estava acostumado com aqueles silêncios, com as conversas cortadas pela metade. Eu tinha era que sair do virtual e focar em alguma coisa real na minha vida. Mas a vida real era tão, tão… chata, né?

Cheguei aos meus vinte e quatro anos sem muitas conquistas. Eu estava terminando uma faculdade de Direito na federal (iniciada um pouco mais tarde do que o normal, após ter flertado com um curso de Design Gráfico durante dois anos), havia passado num concurso público relativamente cedo, mas ganhava pouco, apenas o suficiente para pagar aluguel, alimentação, uma outra diversão. Mas eu me virava. Na verdade, eu não tinha outra opção a não ser me virar. Minha mãe era idosa, não tinha conseguido se aposentar, e não tinha nenhuma fonte de renda formal. No final das contas, eu era o sustentáculo financeiro da casa, uma tarefa que me foi incumbida muito cedo por aquele salafrário do meu pai, que saiu de casa quando mais necessitávamos dele, e desde então pagava pensão apenas quando queria e nos termos e condições que ele mesmo impunha.

Eu e meu pai nunca tivemos uma relação minimamente decente. Ele era uma figura autoritária, crítica e, ao mesmo tempo, ausente. Morava em outro estado, quase não nos víamos. Era eu quem normalmente fazia esforço para ter um mínimo de convivência com ele. Ele: só aparecia na minha vida de vez em quando, e sempre para me julgar acerca de alguma decisão que eu havia tomado, sem nunca ter dado suporte material para isso. Eu tentei por um longo tempo agradá-lo, ser o filho perfeito e sem defeitos, mas uma hora cansei - momento em que eu decidi me afastar dele e seguir meus próprios caminhos.

Minha rotina, naquela época, era bastante restrita: acordava 5h30, pegava o busão, chegava no trabalho (um órgão público no Centro Histórico de Porto Alegre), ficava até 16h30, ia para natação, depois para a faculdade, voltava para casa e dormia.

Como um hamster preso numa esteira, todos os dias pareciam se repetir sem grandes emoções. Claro, eu tinha alguns amigos e ocasionalmente me aventurava na vida noturna de Porto Alegre. De vez em quando, dava uma passada no Cabaret, na Casa do Lado, no Cucko... Também tinha encontros aleatórios com caras que conhecia nos aplicativos de paquera, embora não fosse uma rotina muito frequente para mim. Já tinha tido um namoro breve, mas aos 24 anos, estava solteiro, livre, desimpedido e… um tanto solitário.

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Eu tinha recentemente trocado de setor dentro do órgão público onde eu trabalhava (não vou dizer o nome, vocês que imaginem aí hehe), para algo mais relacionado à minha formação jurídica. Iria começar a mexer com processos administrativos disciplinares, fazer parte de comissões de sindicância e PAD, isso praticamente em regime integral, sem cumular com outras atividades. Como o órgão público possuía muitas agências espalhadas pelo interior do estado, e muitas denúncias de irregularidades, seria natural que, a partir do meu exercício naquela nova função, eu tivesse que viajar para cidades do interior do Estado, tudo custeado pelo trabalho.

Meu novo chefe, Rodrigo, era um cara bastante na dele. Era um sujeito comum à primeira vista, mas havia algo nele que o tornava intrigante. Com seus 1,75m de altura, ele não se destacava na multidão, mas seus cabelos grisalhos conferiam um ar de distinção ao seu semblante.

Ninguém sabia muito sobre a vida pessoal dele. Boatos de que era gay… Aparentemente, ele não tinha uma esposa, uma namorada, já que ele sequer possuía uma aliança nos dedos.

Sua escolha de roupas era impecável, embora discreta. Ele se vestia com elegância, mas sem chamar muita atenção para si. No entanto, quando deixava os botões da camisa social um pouco mais abertos, era impossível não notar os pelos que pareciam subir pela gola. Eram pelos densos o suficiente para criar uma sugestão de virilidade escondida sob aquela aparência sóbria.

Eu sempre tive uma certa obsessão por pelos. Talvez seja apenas uma fantasia, uma projeção dos meus desejos mais profundos. Ou talvez seja apenas uma fixação estranha, um fetiche bizarro que me faz diferente dos outros. De toda forma, o contraste entre a pele suave e os pelos ásperos, e a ideia de poder afundar meus dedos num emaranhado de pelos sempre despertava algo profundamente sexual em mim.

Sua voz era levemente anasalada, o que combinava com seu porte, não tão imponente. Eu, particularmente, achava o tom de voz dele (doce) um charme à parte. A foram com que ele falava comigo, num tom quase paternal [daddy issues gritando aqui!], me deixava balançado, não nego.

Mas, além da atratividade do chefe, havia outra coisa que mudou completamente minha forma de enxergá-lo.

O café da manhã no departamento era sempre um momento de alívio para mim. Depois de uma longa viagem de ônibus, nada como uma xícara de café forte para acordar os sentidos e preparar para mais um dia de trabalho. Como de costume, eu estava lá na copa, mergulhado em um livro, quando o Rodrigo apareceu.

- Aí, Pedro, tomando café de novo? Tu tinha que ser mesmo um servidor público de tanto café que toma. - ele soltou, com um sorriso sacana.

Eu ri, balançando a cabeça: "Pode apostar que sim, chefe. Mas fazer o quê, né? É o jeito de aguentar o tranco nesse mundo de papelada e reuniões infinitas.

De repente, ele apontou para o meu livro e me questionou:

- Pedro, o que você tá lendo aí? - ele perguntou, com um sorriso curioso.

Eu levantei os olhos do livro:

- É um livro do Philip Roth… Complexo de Portnoy. - não queria entrar em detalhes sobre o livro e nem tinha expectativas de que ele o conhecesse.

Rodrigo se serviu de café.

- Que interessante, cara. Roth é um dos meus autores favoritos. Gosto especialmente de 'Pastoral Americana'. Mas 'O Complexo de Portnoy'... Ah, esse livro é incrível.

- Fiquei genuinamente surpreso com a revelação. Nunca imaginei que o Rodrigo, com toda sua seriedade no trabalho, compartilhasse dos meus gostos literários. Aquela descoberta inesperada criou uma nova dinâmica em nossa relação, mostrando que havia mais em comum entre nós do que eu poderia imaginar.

- O Complexo de Portnoy, não é aquele com a temática..." Rodrigo começou, e então fez uma pausa, parecendo refletir. "Bem, você sabe, sobre masturbação e relacionamentos familiares complicados?

- Sim, exatamente.

- Ah, lembrei. - ele refletiu. - Você já leu aquela parte em que… bem não vou estragar a surpresa - disse quase que maliciosamente. - Bora voltar pro trabalho?

Aquela conversa ressoou em minha mente enquanto eu observava o Rodrigo se afastar. Senti um arrepio percorrer minha espinha, uma mistura de excitação e curiosidade.

E foi assim que eu percebi que, sim, eu achava meu chefe um tesudinho (e ainda inteligente). "Não cague onde você come", diz o velho ditado. Mas essas fantasias corriam soltas apenas na minha cabeça, nunca que iam se concretizar…

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Já fazia dois meses que eu trabalhava no setor quando descobri que iríamos começar a fazer viagens de trabalho na próxima semana. Isso se tornaria algo bastante corriqueiro naquele ano, mas, até então, era uma grande novidade. Em alguns dias, estaríamos indo para Santo ngelo, para participar de uma instrução de um PAD.

Eu estava tentando entender como conciliar as viagens com minhas outras responsabilidades, quando Rodrigo entrou na sala com sua costumeira expressão séria, mas com um brilho travesso nos olhos.

- Pedro, olha só o que eu trouxe. - ele estendeu o calendário para mim, com um gesto de empolgação. - Viagens e mais viagens. A vida de um servidor público é uma aventura, não é mesmo?

Eu sorri, concordando.

- Com certeza. Parece que não vamos ter muito tempo para descanso nos próximos meses.

Rodrigo assentiu, e então sua expressão se tornou mais séria.

- Por falar nisso, precisamos organizar as diárias para a viagem para Santo ngelo. O problema é que o valor que o órgão paga é fixo, independentemente do valor da diária do hotel. Acho que poderíamos economizar um pouco se dividirmos o quarto, o que acha?

A sugestão me pegou de surpresa. Eu não esperava que ele fosse propor algo do gênero. Mas ao mesmo tempo, a ideia de passar mais tempo com ele fora do ambiente de trabalho era intrigante.

- É uma ideia interessante - respondi, ponderando sobre as possibilidades. - Vou dar uma olhada nos hotéis disponíveis e ver o que podemos fazer.

Rodrigo assentiu, satisfeito.

- Ótimo. E enquanto você faz isso, vou te contar sobre um livro que li recentemente. É do Paul Auster, um dos meus autores favoritos. Você já leu 'A Trilogia de Nova York'? - iniciou Rodrigo, colocando suas mãos nos meus ombros. Fiquei surpreso com aquele toque inesperado, e senti um fio de eletricidade percorrer meu corpo.

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Cheguei em casa naquele dia com a pulga atrás da orelha. Tomei um banho, jantei, vesti um calção folgado, conversei brevemente com minha mãe, e me tranquei no quarto, estafando-me na minha cama. A primeira coisa que fiz foi pegar meu celular e abrir o Grindr. Atualizei as minhas preferências de pesquisa para que eu localizasse homens na faixa dos 40 a 55 anos, e aumentei o raio de abrangência para abarcar toda Porto Alegre. O Rodrigo era apenas legal ou, se, de fato, meu pressentimento estava correto, ele estava dando em cima de mim? Afinal, ele era um homem solteirão, sem alianças, mas nunca havia comentado nada no trabalho sobre parceiras, namorada, esposa; provavelmente era só mais um enrustido. Não?

Como eu havia dito, Rodrigo não era necessariamente o daddy mais atraente da face da Terra. Ele era só um cara comum, que se vestia bem e tinha uma voz anasalada. Mas sua atitude em relação a mim, a auto-confiança e a sua aparente inteligência me deixaram quebrado. Eu precisava tirar essa dúvida.

Enquanto eu deslizava meu dedo sobre a tela do celular, tentava prestar atenção nos rostos que apareciam no Grindr, buscando um rosto com alguma semelhança física ao de Rodrigo. Nada. Além disso, abundavam perfis sem foto alguma (maduro73, no.sigilo… o mesmo de sempre), ou com fotos de torso ou abdômen de maduros. Decepcionado, fechei o aplicativo.

Resolvi mandar a foto de perfil do WhatsApp de Rodrigo (que consegui obter no grupo do trabalho) para Leonardo, afinal, ele já conhecia metade do público gay de Porto Alegre e poderia me auxiliar. Não era uma foto muito reveladora, apenas um rosto barbeado, um cabelo mais grisalho do que preto e um sorriso tímido. Ele vestia camiseta de mangas curtas, foto meio borrada, de celular ruim, e tirada de uma distância significativa do fotógrafo. Escrevi: “ei, vc já ficou com/viu esse cara em algum lugar?

Leonardo era meu melhor amigo e (surpresa!) meu primeiro namorado. A gente se conheceu num aplicativo de pegação, bem na época em que eu estava saindo do armário. Nosso namoro foi relativamente longo para o universo gay (1 ano e meio), fomos muito felizes juntos - se é que posso dizer isso -, mas acabou que a nossa história não seguiu em frente porque, enfim, éramos dois putos e queríamos muito ter outras experiências sexuais. Na cama, as coisas esfriaram rápido, e já não nos satisfazíamos um com o outro, muito por culpa de mim, que nunca fui tão atraído nele, mas que deixou as coisas se tornarem sérias porque gostei do que ele me proporcionava. Durante o namoro, a gente até tentou abrir o relacionamento, mas os ciúmes e as inseguranças acabaram minando tudo. Complexo, né? Vontade de fuder adoidado + um pouco de sentimento deu nisso. O engraçado é que depois que a gente terminou, descobrimos que nos dávamos melhor como amigos mesmo, sem aquela neura de ter que transar, morar juntos e viver um romance.

O Leo, porém, era ainda mais puto do que eu. Antes de nos conhecermos, ele já tinha ficado com vários caras - mesmo não sendo a maior beldade do mundo - e continuava achando rolinhos. Com essa expectativa de que Leo o conhecesse, poucos segundos depois os dois vistos verdes apareceram na tela do celular. Ele me respondeu: “não, nunca vi mais branco”.

“Affe”, respondi.

“Por quê?”.

“É um daddy do meu trabalho. Tô sentindo uma vibe estranha ultimamente. E ele convidou pra dividirmos o hotel numa viagem de trabalho”.

“Que delicinha. E vc aceitou?”

Comecei a rir. Leo era apenas um safado.

“Não sei ainda. Eu quero economizar com as diárias, mas gosto da minha privacidade numa viagem. Queria aproveitar pra fuder bastante numa viagem dessas, e com ele no quarto, como vou fazer isso? E... O que vc achou dele?”

“Não dá pra ver pela foto. Ele parece gato. Achei misterioso. Daria tranquilamente pra ele”.

“Você daria até pra uma parede se ela tivesse um perfil no Grindr”, rebati, com dois emojis de risada.

“Pau no cu você. Mas ele tem um olhar que parece que já viu e fez de tudo na cama. Se eu fosse tu, aproveitava muito”, acrescentou Leonardo.

“Tu acha que ele curte uma rola?”, perguntei com sinceridade.

“Tá na cara, não? Como foi a conversa entre vocês dois?”.

E daí eu acabei resumindo a nossa curta interação. Leonardo concluiu com absoluta certeza que eu tinha sido sorteado na loteria, achou daora eu ser seduzido por um velho. Eu lhe respondi que não tinha sedução, só uma leve desconfiança minha acerca da sexualidade do meu chefe. Além do mais, o que eu ia querer com um chefe?

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Acabou que, sim, nós decidimos dividir o hotel. As diárias estavam caras pra caralho, considerando que teríamos de reservar com menos de uma semana de antecedência, eu era um pobre fodido, e, bem, eu estava curioso com aquela situação. Eu mesmo reservei o quarto, e, por óbvio, optei por um ambiente com duas camas de solteiro. Não havia por que fantasiar algo que não existia, embora minha mente sexualizada teimasse em fazer isso e querer que se desenrolasse ali um grande plot twist com direito a muito tesão e putaria.

Apesar de o trabalho disponibilizar passagens de ônibus para viagens desse porte, meu chefe fez questão de ir dirigindo. Santo ngelo estava a 6 km de distância de Porto Alegre, e teríamos que ir numa segunda de tarde para chegarmos de noite, pernoitar lá, e estar prontos para a primeira rodada de audiências, na manhã seguinte. Sugeri de dividir os gastos com combustível, mas Rodrigo recusou, disse que gostava de dirigir e que não iria despender um valor exorbitante, ficasse eu tranquilo.

A viagem no Fiat Argo de Rodrigo foi uma jornada tranquila, embora longa para caramba. As horas se arrastavam lentamente enquanto o asfalto se estendia diante de nós, o sol do verão escaldante acentuando o calor dentro do carro. Enquanto eu tentava acompanhar a paisagem através da janela, a monotonia da estrada acabou me vencendo, e acabei cedendo ao cansaço, mergulhando em um sono intermitente.

O balançar do veículo e o som constante do motor me embalavam para um estado de relaxamento, e em breve meus olhos se fecharam, entregando-me ao sono profundo. Eventualmente, fui despertado pelas piadas de Rodrigo, que brincava com meu sono pesado, tirando sarro da minha incapacidade de manter os olhos abertos.

Após horas de viagem, finalmente chegamos ao nosso destino. Antes de seguirmos para o hotel, decidimos fazer uma parada rápida para comer alguma coisa. Paramos em um pequeno café à beira da estrada.

Ao adentrarmos o quarto do hotel, nos deparamos com uma surpresa. Em vez das duas camas de solteiro que esperávamos, só havia uma cama de casal, desafiando nossas expectativas. Rodrigo lançou-me um olhar de perplexidade, suas sobrancelhas arqueadas em uma expressão de confusão, surpresa e… malícia?

- Ué... será que é esse quarto mesmo? Não teria que ter duas camas?.

- Deveria.. - murmuro, sentindo o rosto esquentar de vergonha. Eu tinha reservado o quarto, afinal. Mostro na tela do celular a confirmação da reserva. Ele entende, assente, visivelmente cansado.

- Fica tranquilo, Pedro. A gente dá um jeito nisso - ele tranquiliza, colocando uma mão em meu ombro e me fazendo sentir um arrepio percorrer minha espinha.

Decididos a resolver a questão, descemos para falar com a gerência do hotel. Porém, para nossa surpresa, fomos informados de que o hotel estava completamente lotado e não havia mais nenhum quarto disponível.

Com um suspiro resignado, voltamos para o quarto. Rodrigo pareceu não se importar muito com a situação, afinal, estava cansado demais para se incomodar.

- Então, acho que é isso mesmo... A gente vai ter que dividir essa cama - comenta ele, dando de ombros enquanto se encaminha para o banheiro.

- Tem razão - murmuro, observando-o tirar primeiro os sapatos, depois a camisa, antes de se dirigir ao banheiro.

Enquanto me acomodo na cama, desfazendo a mala com um sorriso bobo nos lábios, percebo que a pele morena de Rodrigo brilha à luz do quarto. Seus pelos grisalhos destacam-se levemente contra a pele. Os músculos, levemente definidos, revelam uma forma física bem cuidada para sua idade, mas não exageradamente trabalhada.

Surpreendentemente despojado, Rodrigo não parece se importar em ficar seminu na minha frente.

E então, enquanto acomodo minhas coisas na cama, tentando disfarçar minha fascinação com seu corpo, algo chama minha atenção: uma tatuagem. Uma águia majestosa, com as asas estendidas em voo livre, adornava o peito de Rodrigo.

Um arrepio percorre minha espinha quando faço a conexão.

ESPERA!

Uma águia?????

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Comentários

Foto de perfil de Jota_

Heeeey que conto gostoso da porra!! Haha já tô envolvido e querendo mais 😉

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