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Ela me via só como amigo - Cap. 21

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Um conto erótico de Bruno (por Carlos_Leonardo)
Categoria: Heterossexual
Contém 9965 palavras
Data: 27/07/2026 10:00:23

Fotos e mais fotos foram tiradas. Eu e Wendy. Nossos pais. Suas irmãs. Remo, Érica, Bruna. Depois vieram os parentes mais distantes. O fotógrafo mal dava conta dos pedidos enquanto celulares registravam tudo para lembranças e, provavelmente, para as redes sociais.

Aos poucos, o momento da revelação foi ficando para trás. Pessoas voltavam para suas mesas. Garçons passavam para servir uma nova rodada de bebidas e petiscos enquanto o jantar era preparado.

Cansei de contar a quantidade de congratulações que recebi. Algumas foram bem intrigantes e reveladoras.

- Vocês combinam tanto – disse uma tia distante de Wendy.

- Quando casam? – perguntou outra tia, essa bem idosa, mas mais presente.

Wendy olhou para mim. Não estava corada, muito menos tímida. Havia um sorriso no rosto. De cumplicidade, talvez.

- Primeiro deixa a Aurora nascer.

- Quero ser convidada, ouviu bem?

- Claro, tia – respondeu a mãe da minha filha, com uma risada gostosa de ouvir – Claro!

Nos entreolhamos depois que sua tia saiu.

- Tia Leila não tem jeito.

E rimos, mas não sei bem porquê. Instintivamente, ela voltou a me abraçar.

- Cansada? – perguntei.

- Um pouco – ela respondeu, o rosto enterrado em meu peito.

- Senta um pouco. Descansa. Tá? Vou fazer uma social com seu pai.

Ela assentiu e foi sentar-se à mesa que estavam também minha mãe, Cecília, Érica, Remo e Bruna. Rapidamente, se entreteve com a conversa que se desenrolava.

Eu aproveitei para conversar com pessoas que conheci através de Trajano. Embora ele tivesse me aberto muitas portas, há muito tempo eu já caminhava com as próprias pernas.

Um tempo depois, Remo apareceu ao meu lado com empolgação evidente em seu rosto. Queria me mostrar algo no seu celular.

- Acabei de comprar pra Aurora.

Um berço portátil.

- Você não é de viajar muito, mas a Wendy é. Então, agora você não tem mais desculpa para não viajar…

Sorri e agradeci com um abraço caloroso.

Depois ficamos observando o evento em silêncio por um instante. Minhã mãe, Marluce e Érica escutavam com atenção algo que Bruna falava. Wendy, dessa vez, aproveitava alguns minutos ao lado das melhores amigas. Não demorou muito para se levantar novamente e voltar a circular entre os convidados.

Numa mesa mais afastada, Wanda e Wis conversavam algo em particular, ao pé do ouvido. Tyler e Lorenzo pareciam confortavelmente deslocados, às vezes trocando alguma impressão entre si, mas mais observando que qualquer outra coisa. De vez em quando, um dos dois olhava discretamente em minha direção.

Remo percebeu.

- Sobreviveu à mesa internacional? – ele fez um gesto em direção à mesa “poliglota” – Ninguém precisou de tradutor?

Revirei os olhos, mas respondi rápido.

- Sim. Tudo certo.

Escutei o sorriso do meu amigo como se não acreditasse muito no que eu dizia. Quando olhei para ele, deu de ombros.

Voltei a circular.

Acabei parando na mesa das amigas de Wendy. As quatro me felicitaram pela Aurora e deixaram claro a empolgação em serem tias também. Elas contavam algo engraçado, gargalhavam e faziam a conversa fluir de forma leve. Eu não poderia esperar outra coisa delas. Era impossível não rir junto.

Meu olhar voltou para Wendy. Percebi que o das meninas também.

Ela andava de mesa em mesa, sorrindo, abraçando um convidado, ouvindo outro e encontrando assunto para todos como se aquela festa ainda estivesse só começando.

Ninguém precisava chamá-la. Era ela quem encontrava as pessoas. Parava em cada mesa como se cada convidado ali fosse importante.

Ana Cristina sorriu.

- Você não faz ideia do inferno que foi organizar isso.

Ri baixo, mas antes que pudesse falar, Camila disse:

- Ela refez a lista de convidados umas seis vezes.

- E a decoração do bolo mudou três vezes – continuou Andréa.

- E os guardanapos? E a cor das toalhas de mesa? – completou Elaine – Ela quase teve um treco porque um fornecedor trouxe um dourado diferente do outro.

Fiquei surpreso.

- Eu nem sabia desses detalhes. Eu pensei que ela tinha deixado tudo na mão de vocês.

- Tu acha? – respondeu Ana Cristina – Ela até tentou, mas… organizar eventos é a alma dela.

Andréa riu.

- A gente era mais braço do que cabeça.

- Quando você não estava por perto, Wendy praticamente não largava o celular um minuto sequer - disse Camila. - Resolvia fornecedor, decoração, buffet... tudo.

Franzi o cenho.

- Ela me disse que vocês tinham assumido tudo.

As quatro se entreolharam. Elaine foi a primeira a responder:

- Ela mandou a gente não te contar.

- Por quê?

- Porque sabia exatamente o que você faria.

As quatro caíram na risada. Balancei a cabeça, vencido.

- Ela me conhece mesmo...

Ana Cristina sorriu de lado.

- Mais do que você imagina.

Houve um pequeno silêncio. Aquela resposta ficou ressoando na minha cabeça mais tempo do que deveria.

Andréa olhou para Wendy, depois voltou para mim.

- Ela sempre cuida de tudo.

Assenti.

- É verdade.

Elaine então perguntou:

- E quem cuida dela?

Nem pensei para responder.

- Eu.

Nenhuma delas respondeu de imediato. Apenas trocaram um rápido olhar entre si. Então, Elaine abriu um sorriso de canto.

- É bom mesmo.

Meu sorriso diminuiu um pouco. Wendy seguia completamente alheia à nossa conversa.

- Ela dá muito trabalho, viu? – brincou Camila.

Não consegui evitar um sorriso.

- Já percebi.

Elaine balançou a cabeça.

- Não. Você ainda não percebeu nem a metade.

Elas riram, claramente se divertindo com minhas novas descobertas. Pela primeira vez, tive a impressão de que Wendy ainda guardava partes de si que eu nunca tinha conhecido.

Permaneci mais alguns minutos ali, ouvindo as meninas falarem da festa. Depois me despedi e voltei a circular entre os convidados.

No meio do caminho, Wendy passou por mim. Não diminuiu o passo. Apenas encontrou minha mão por um instante, apertou meus dedos de leve e continuou andando, já sorrindo para outro grupo de parentes.

Fiquei olhando ela se afastar. Era um gesto tão simples que talvez nem tivesse percebido semanas atrás. Agora parecia natural.

Sorri sozinho e continuei caminhando entre os convidados.

Recebi mais abraços, ouvi novas felicitações e agradeci presentes que sequer sabia que já tinham sido entregues. Em algum momento, Trajano me puxou para apresentar um casal de amigos antigos. Minha mãe, por sua vez, foi até mim para mostrar as primeiras fotos que já circulavam nos grupos da família.

Algum tempo depois, encontrei Wendy conversando com as irmãs.

Wanda falava alguma coisa, exagerando nos gestos. Wis balançava a cabeça em negativa, mas um pequeno sorriso denunciava que também estava se divertindo. Wendy alternava o olhar entre as duas, rindo sem parar. E eu… apenas observava.

Eram apenas três irmãs. E nenhum passado parecia pesado o bastante para separá-las. Apesar disso, vendo as três juntas, tive a impressão de que ainda existia uma parte da Wendy que só elas conheciam.

O jantar começou a ser servido. Pequenas filas se formavam diante do buffet. Eu conversava com um convidado quando percebi minha mãe numa mesa próxima, conversando com Trajano e Cecília. Havia uma certa tensão na expressão dela.

Fui até eles e me sentei à mesa, ao lado de minha mãe.

- Aconteceu algo?

Minha mãe respirou fundo antes de responder.

- A Bruna nos contou o que aconteceu com ela. Os detalhes… eu estou enojada.

Olhei para Cecília, depois para o marido dela. Ambos tinham a mesma expressão fechada. Cecília parecia abatida; Trajano, apenas cansado.

Já minha mãe procurou os olhos de Trajano, como se precisasse ouvir a mesma resposta mais uma vez.

- Você tem certeza que esse Henrique é um problema resolvido?

Trajano deu um sorriso cansado, apenas com o canto da boca.

- Sim. Já te disse. Henrique não será mais problema.

Ele segurou as mãos da minha mãe.

- Confie em mim, meu amor.

Em outras situações, o gesto me incomodaria. Naquele momento, parecia algo natural, como se fosse um costume até mesmo para mim.

Minha mãe, por sua vez, apenas assentiu, embora estivesse longe de parecer tranquila.

- Eu confesso que o relato da Bruna me incomodou bastante – falou Cecília, depois de um tempo de silêncio. – As fotos que ele enviou para o celular falso que minha filha deu…

Mesmo a situação tendo sido resolvida, Trajano e eu evitamos comentar os detalhes do quão horrenda havia sido a atitude de Henrique tanto com Bruna quanto com Wendy. Felizmente, conforme Trajano garantira, Henrique nunca mais foi um problema, tendo sumido completamente da nossa vida.

Nunca entendi de onde vinha aquela segurança. Nem me preocupei em perguntar. Anos depois, Trajano me entregaria o mesmo peso que carregava nos ombros.

Wendy surgiu atrás de mim e apoiou as mãos nos meus ombros. Bastou olhar para a mesa para perceber que havia algo estranho.

- O que houve?

Trajano esperou um instante antes de falar.

- Chega.

Ele ergueu os olhos para Wendy.

- Hoje é dia de falar da Aurora. Não vamos estragar o chá da minha neta.

Ela franziu o cenho enquanto olhava para os rostos silenciosos da mesa, incluindo o meu. Minha mãe não conseguiu guardar aquilo para si quando seus olhos encontraram os de Wendy:

- Foi imaginar tudo o que a Bruna passou naquelas horas... com aquele traste. E perceber que você estava no meio de tudo isso.

- Eu nunca fui com a cara dele.

Wendy deu de ombros.

- Por isso inventei um número de telefone – respondeu com um sorriso cansado.

Trajano respondeu com calma.

- Foi justamente isso que nos deu tranquilidade quando descobrimos.

Eu completei:

- Foi aí que percebemos que ele nunca chegou perto dela de verdade.

Minha mãe não parecia convencida.

- Mesmo assim… Eu fiquei imaginando você passando por isso estando grávida.

Depois segurou a mão dela e falou apontando para mim.

- Acho que agora vou cuidar de você tanto quanto cuido desse cabeça dura aqui.

Todos rimos, mas ergui as sobrancelhas, como se perguntasse em silêncio onde exatamente eu era cabeça dura. Minha mãe apenas sorriu para mim e voltou a olhar para Wendy.

- Você está carregando minha neta. Você também passou a ser minha responsabilidade.

O olhar de Wendy se suavizou.

- Claro que pode cuidar de mim, tia. Como a senhora sempre fez. Prometo facilitar um pouquinho.

Sorri sozinho. Talvez eu nunca tivesse parado para observar a profundidade daquela relação.

- Agora o cansaço resolveu aparecer.

Ela suspirou e finalmente se sentou ao meu lado.

Aos poucos, Henrique deixou de ocupar espaço na mesa. Passamos a imaginar com quem Aurora se pareceria, quem a estragaria primeiro e qual dos avôs seria o mais permissivo. Depois a conversa derivou naturalmente para a decoração, o jantar e as lembranças dos convidados. Até que tia Leila apareceu para se despedir.

- Mas já, tia? – questionou Wendy, um pouco triste.

- Moro longe, minha filha. Você sabe… e quero ir embora antes do motorista ficar com sono.

Ela deu uma piscadinha. Depois se abraçaram.

- Minha sobrinha vai vir com muita saúde. Você vai ver.

- Amém.

Abraçaram-se novamente.

- Ah, Wendy, não largue esse menino – ela apontou para mim, me fazendo corar de imediato – Ele nasceu pra você, não pras suas irmãs desajuizadas.

Procurei desviar o olhar. Só queria que a tia Leila resolvesse ir embora logo. Eu já não sabia onde enfiar a cara.

- Ah, lembrei de algo, tenho uma coisinha pra senhora, tia. Esqueci no quarto. Vou lá buscar…

Antes que Wendy saísse, interrompi.

- Espera, Wendy. Eu pego.

- Não precisa.

- Você está cansada.

- Não estou. Eu já volto.

Tia Leila não perdeu a oportunidade:

- Gosto desse menino.

Minha mãe tentou me ajudar.

- Precisa sim, minha filha.

Cecília também.

- Escuta esse menino…

Wendy estava encurralada e reagiu com surpresa, com tanta gente se preocupando.

- Gente…

- Dessa vez você perdeu – Trajano riu.

- Onde está? – perguntei.

Wendy me olhou.

- Em cima da cômoda. É uma caixa pequena, rosa.

- Vou indo.

Virei-me e fui em direção ao seu quarto, mas quase sempre esbarrando com um ou outro convidando, trocando cumprimentos. Quando, enfim, estava entrando na casa, senti alguém entrelaçando o braço no meu. Olhei de lado, assustado, pensando que fosse Wanda ou Wis.

Era Wendy.

E um sorriso que parecia dizer muitas coisas ao mesmo tempo.

- Quero ir com você.

- E te deixaram sair da mesa?

Ela deu uma olhada para trás.

- Aproveitei que todo mundo estava distraído.

Fez uma pequena pausa.

- Achei injusto você conhecer meu quarto sem mim.

Sorri. Aquela justificativa fazia sentido. Ou pelo menos era boa o bastante para que eu não fizesse mais perguntas.

- Justo.

Ela desviou os olhos para a casa.

- Faz tempo que não entro lá.

Assenti em silêncio.

O quarto dela ficava no segundo andar. E era a primeira vez que eu entraria ali. Muitos anos antes, eu só entrava no quarto de Wanda.

A casa estava deserta. Subimos as escadas em silêncio. Quando chegamos em frente à porta, ela me soltou, pôs a mão na maçaneta e, antes de abrir, anunciou com certa pompa:

- Bem-vindo ao meu antigo refúgio.

A primeira sensação ao entrar no quarto foi a de... vazio.

Havia tudo. Cama, armário, guarda-roupa, escrivaninha, mesinha de cabeceira. Tudo organizado e limpo, mas sem a própria essência que fazia Wendy ser quem ela era. Não lembrava em nada o quarto que ela montara no meu apartamento.

Ela pareceu perceber minha confusão.

- Levei praticamente tudo que importa para meu novo cantinho.

“Óbvio”, pensei. “Que tonto eu sou”.

Sorri de leve, assentindo.

- Ah, achei.

Ela foi até uma mesinha de canto, onde repousava uma caixa rosa. Por um instante, conferiu se estava tudo em ordem.

Enquanto ela conferia a caixa, parei diante da escrivaninha. Quase não havia objetos em cima, exceto por algumas fotografias e dois porta-retratos.

Em um dos porta-retratos, Wendy estava com os pais diante das longas cataratas de Foz do Iguaçu. Ela segurava um mapa dobrado enquanto Trajano sorria para a câmera e Cecília apontava para o horizonte.

No outro, ela e as irmãs apareciam abraçadas na Disney. Wanda fazia pose. Wis fazia uma careta. Wendy ria das duas.

Não soube dizer de quando eram, mas pareciam ser as únicas lembranças de que aquele quarto um dia pertencera a Wendy.

Quando já ia sair, percebi outra fotografia. Estava sozinha, quase toda escondida sob uma pasta.

Tirei a fotografia dali para observá-la.

Era recente. Não devia ter mais de um ano.

Wendy estava sentada numa poltrona de aparência imponente. Tinha a postura ereta, um sorriso firme e usava um vestido elegante. Atrás dela, com uma mão em seu ombro, estava Cecília, também muito elegante.

Estremeci.

Nunca tinha percebido o quanto elas eram parecidas. Não de fisionomia – nisso Wendy lembrava muito mais Wanda –, mas na postura, no sorriso, na forma como ocupavam o espaço.

- Ah, essa foto…

Wendy aproximou-se e olhou a fotografia nas minhas mãos.

- Acho que meu pai sempre imaginou fazer esse tipo de foto com um filho homem.

Olhei-a confuso, mas não disse nada.

A voz da tia Leila chegou até o quarto. Pela janela, vimos ela conversando com nossos pais. Pelo jeito que gesticulava, parecia estar dando um sermão.

Observei Cecília.

Ela estava ao lado de Trajano, de mãos dadas com ele, olhando concentrada para tia Leila.

Será que Wendy…

Engoli em seco com o que eu quase me questionei. Nesse momento, tia Leila olhou para nós, nos vendo na janela.

- Vamos, Wendy. Já tenho que ir…

Wendy sorriu para ela e fez um gesto para avisar que estava descendo.

- Vamos? – ela me perguntou.

Eu ainda estava com a foto na mão, intrigado. Ela percebeu. E propôs algo diferente.

- Me aguarda aqui. Eu vou lá deixar essa lembrança. Depois quero te mostrar outra foto…

- Tá – foi o que consegui dizer.

Quando ela saiu, sentei-me na cama. Continuei olhando para a fotografia. Quanto mais olhava para ela, menos conseguia compreender o que significava.

Depois de um tempo, inclinei-me sobre a cama, olhando para o teto. Wendy não voltava. Lá embaixo, eu escutava gargalhadas. Muitas. Uma dessas certamente era da espalhafatosa tia Leila.

Não aguentei esperar muito e resolvi voltar à festa. Deixei a fotografia sobre a escrivaninha. Respirei fundo e saí.

Fechei a porta com cuidado. Ergui os olhos. Vindo pelo corredor, ela.

Wanda.

Ela também parou.

Fiz um leve aceno, ao qual ela me correspondeu com um sorriso discreto.

Voltamos a andar. Quando passamos um pelo outro, escutei:

- Sinto sua falta.

Fiquei imóvel.

- O tempo todo.

- Eu também.

Minha resposta saiu impulsiva.

Ela esperou alguns segundos.

- Você esqueceu?

Não soube exatamente o que ela perguntava.

- Não.

E não dissemos mais nada.

Ouvi a porta do antigo quarto dela se fechar. Respirei fundo e desci as escadas.

Em vez de ir para o jardim, dei meia volta e fui para um banheiro que ficava depois da cozinha. Coloquei água no rosto e procurei me acalmar. Só nesse momento, senti o impacto da curta conversa que tive com Wanda.

“Por que respondi o que respondi?” Não encontrei uma resposta.

Procurei me acalmar. Pouco tempo depois, saí. Ao passar pela cozinha, outra surpresa.

Wis.

Escorada em um móvel, de braços cruzados, claramente me esperando.

- Que susto – eu disse.

- Com essa idade, você ainda se assusta?

Sorri sem graça, um pouco travado. O olhar dela não desviava de mim um instante sequer.

- Como você tá?

- Ótima.

Assenti.

- Bom, vou voltar lá fora.

Virei-me para sair.

- E meus fichários?

Parei. Voltei a encará-la.

- Acho que entreguei pro seu pai.

- Não entregou não.

“Não?”

Demorei alguns instantes para responder.

- Me perdoe, Wis Nara. Vou procurar e entregar ao seu pai. Farei isso na segunda-feira.

- Entregue pra Wendy. É mais fácil… vocês já moram juntos mesmo.

Fiquei sem reação.

Ela passou por mim rumo ao jardim, exibindo um sorrindo debochado. Antes de sair da cozinha, virou-se:

- Você não leu, né?

- Não. É sua intimidade. Não tinha esse direito.

Wis apenas balançou a cabeça, como se não acreditasse em mim.

- Eu lembro de ter autorizado você a ler.

Não soube o que responder. Ela saiu e eu permaneci ali por alguns instantes antes de voltar para o evento.

Quando reencontrei Wendy, ela ainda se despedia da tia Leila, que estava bastante emocionada.

- Então é isso, minha filha. Eu vou guardar com bastante carinho essas… como é mesmo o nome que chama?

- Colagens.

- Isso. Colagens. Vou sempre olhar pra essas fotos. É melhor do que ficar olhando Instaface, TokTok, essas coisas que vocês jovens adoram.

Wendy ria fácil, mas sua expressão ficou um pouco preocupada quando me viu. Fui até ela e entrelaçamos os braços mais uma vez.

- Vocês são tão lindos juntos.

Tia Leila não parava.

E tivemos que passar vários minutos escutando ela explicar por que fomos feitos um para outro.

Porém, uma hora ela se foi.

- Ufa.

Não consegui esconder minha satisfação.

- Não liga, Bruno. Esses momentos valem ouro pra ela.

- Eu sei.

Ela soltou meu braço e ficou de frente para mim.

- Você está bem? Voltou com uma cara estranha. Foi por que demorei aqui e te deixei esperando no meu quarto?

Franzi o cenho, mas logo desconversei.

- O quê? Não, Wendy. Nada a ver com isso. Só senti um pouco de mal estar. Acho que foi da bebida…

Felizmente, ela pareceu aceitar minha explicação. Talvez porque o evento estivesse caminhando para o fim e houvesse mais interações para se fazer.

Wendy e eu ainda conversamos com alguns convidados, nos despedimos de outros, entregamos lembranças e agradecemos a presença. Àquela altura, já estávamos no automático, mesmo quando envolvia Remo, Érica, Bruna, Wanda, Wis e seus namorados.

Ao final, Wendy estava muito cansada. Pedi licença a todos para levá-la embora. Nossos pais e as amigas dela concordaram e garantiram que cuidariam de toda arrumação pós-evento.

Wendy ainda tentou dar algumas ordens como o que fazer com a comida que sobrou ou como guardar as toalhas, mas eu tive que puxá-la pela mão.

- Já chega, vamos.

Embora eu parecesse mais incisivo que o normal, ela pareceu gostar. O sorriso em seu rosto denunciava isso.

No carro, ela inclinou levemente o banco e rapidamente adormeceu, deixando a barriga ainda mais evidente. Mesmo dirigindo, era difícil resistir à vontade de tocar sua barriga. De massageá-la. Só não me sentia no direito.

O sinal fechou.

Sem pensar muito, tirei uma das mãos do volante e estiquei até sua barriga. Faltavam poucos centímetros. Ainda assim, relutei. Wendy se remexeu em seguida e eu recolhi minha mão imediatamente.

Respirei fundo e voltei a dirigir.

Pouco depois, chegamos ao meu apartamento. Ela acordou ainda sonolenta assim que estacionei o carro. Fomos andando devagar, com ela apoiada sobre mim.

Assim que entramos, coloquei-a em seu quarto, na cama. Cobri-a com o lençol e saí.

Voltei para a sala e sentei no sofá. Fechei os olhos. Não adiantou. Toda vez que tentava descansar, a imagem da barriga da Wendy voltava.

Ela estava linda. Não que eu tivesse qualquer parâmetro para comparar. Nunca convivi com uma grávida daquela forma. Ainda assim, era impossível enxergá-la de outro jeito. Mais de uma vez, quase falei isso para ela. Não consegui.

- Bruno.

Escutei meu nome e logo fiquei alerta.

- Bruno, vem aqui.

Saí em disparada da sala e fui ao quarto dela.

- Que foi, Wendy? Aconteceu algo?

Ela sorriu, surpresa com meu desespero.

- Calma, Bruno. Só te chamei pra vir aqui…

Senti meu coração batendo forte e toda aquela descarga de adrenalina.

- Deita aqui comigo.

Fiquei parado. Ela esperou.

- Anda. Deita.

- Eu… eu vou trocar de roupa.

- Não!

- Não?

- Deita do jeito que está mesmo.

- Mas…

Vencido, deitei ao lado dela, com todo cuidado e respeito.

- Me dá tua mão.

Ela pegou minha mão e a guiou até sua barriga.

- Wendy?

Ela sorriu para mim.

- Você é o pai. E você tem livre acesso a minha barriga a hora que quiser…

Eu a encarei. Seu tique nervoso apareceu de novo.

Movimentei minha mão devagarinho e com um cuidado exagerado, como se eu tivesse com medo de quebrar algo muito sensível.

- Isso está muito bom – ela disse.

De repente, um movimento inesperado. Depois outro. Nos olhamos ao mesmo tempo, congelados.

- Você sentiu, Bruno?

- Senti. Aurora… está ativa.

- Está mesmo.

E rimos em êxtase.

Aurora voltou a se mexer. Depois parou. Wendy e eu prendíamos a respiração, esperando outro movimento. E ele vinha.

Quando nossa filha finalmente pareceu se acalmar, aproveitei para passar hidratante na barriga dela. Minha mão deslizava devagar, enquanto ela permanecia em silêncio, apenas acompanhando o movimento.

Aos poucos, suas pálpebras começaram a pesar.

- Se eu dormir, me faz um favor? – perguntou ela.

- Claro. O que seria?

- Dorme aqui comigo?

Não sei se consegui esconder minha felicidade. E nem ela com minha reação.

Apenas assenti.

Pouco tempo depois, dormiríamos juntos na mesma cama pela segunda vez na vida. Agora na dela. Aurora entre nós.

Acordei cedo no dia seguinte. Era um domingo que prometia ser ensolarado. Demorei alguns segundos para lembrar onde eu estava. E como eu estava. Minha posição parecia desconfortável, mas eu estava plenamente confortável.

Wendy dormia profundamente. Ela tinha os braços escorados sobre o meu enquanto minha mão permanecia sobre sua barriga. Aurora ainda estava entre nós, quieta e tranquila. Sorri sem perceber.

Levantei com cuidado. Wendy ajustou sua posição sem perder a serenidade do seu sono. Juro que até vi um pequeno sorriso. Seus sonhos deveriam estar excelentes.

Depois de fazer minha higiene matinal e trocar de roupa, fui preparar o café da manhã. Quando estava terminando, o celular de Wendy tocou estridentemente. Fiquei me perguntando quem ligaria tão cedo. Olhei para o relógio e já era quase 10h da manhã. “Ok, não tão cedo assim”.

Fui até o quarto de Wendy para silenciar seu aparelho, mas ela acordou.

- Alô? Ah, oi…

Só de escutar sua voz, não consegui conter outro sorriso. Voltei à cozinha para terminar a mesa. Não demorou muito e ela apareceu, andando devagar, ainda sonolenta.

- Nossa! Dormi tão bem e… dormi tanto.

Rimos.

Ela sentou-se à mesa antes de elogiar minha preparação.

- Daqui a pouco vou querer isso todo domingo.

Corei um pouco.

- Está me dando água na boca, Bruno.

Comemos e conversamos sobre o chá de revelação, relembrando momentos. Depois falamos sobre Aurora, que continuava silenciosa. Alinhamos coisas que ainda deveríamos fazer em relação ao quarto da bebê.

- Pretende fazer alguma coisa hoje? – perguntou ela.

Eu estava para dizer “nada”, mas lembrei de algo.

- Preciso procurar os fichários da Wis Nara. Pensei que já tivesse entregado ao seu pai, mas agora não faço a menor ideia de onde os deixei.

Wendy arregalou os olhos, mostrando um pouco de desconforto. Porém, mudou de assunto.

- É que eu queria tirar algumas coisas das embalagens, jogar algumas caixas fora, separar as roupinhas da Aurora pra mandar lavar. Queria sua ajuda.

- Eu faço tudo. Você só me diz, certo?

- Assim você vai me deixar mal acostumada…

A conversa prosseguiu com ela detalhando como planejava a decoração do quarto de Aurora. Eu estava muito interessado. Empolgado, até.

De repente, depois de um momento de silêncio entre nós, ela perguntou:

- Você chegou a ler?

- O quê?

- Os fichários.

- Ah… não. Eu…

Ia explicar por que não tinha lido, mas ela me interrompeu.

- Ah…

Wendy ficou alguns segundos olhando para a mesa. Depois sorriu.

- Lembrei. Véu.

- Véu?

- Temos que comprar véu para o berço da Aurora.

- E não compramos?

- Não.

- Amanhã faço isso.

- Tem uma loja onde quero comprar.

- Comprarei nela, então.

Ela explicou o tipo de véu que queria, passando as medidas que eu não poderia errar ou os pernilongos acabariam entrando no berço mesmo assim. Fiz o possível para memorizar tudo. Ainda assim, mais tarde ela me entregou as medidas anotadas num papel. Também se certificou de tirar uma foto e me enviar por mensagem.

- Ah, esqueci de te falar…

- O quê?

Notei que Wendy ficou um pouco tensa, embora tentasse esconder.

- Wanda me ligou agora pela manhã. Ela perguntou se podia almoçar com você amanhã.

- Comigo?

Não consegui esconder minha surpresa. Wendy assentiu antes de continuar.

- Sim. Disse que tem algo importante pra conversar. Eu disse a ela que não precisava da minha autorização.

Eu parei por um instante. Lembrei da minha conversa com Wanda. Da confissão de saudade. De imediato, senti um frio na barriga.

- Olha, Wendy, não sei se isso será uma boa…

- Aurora vai nascer e a Wanda vai continuar existindo, Bruno.

Engoli em seco. Não respondi imediatamente. Wendy continuou.

- Vocês ainda vão se encontrar muitas vezes. Um almoço não deveria ser motivo de problema. Concorda?

Assenti lentamente, apesar de não estar convencido. Wendy não tirava os olhos de mim. Não parecia estar me avaliando ou medindo minha reação. E isso me confundiu um pouco.

Dei-me por vencido mais uma vez. Talvez esse almoço realmente precisasse acontecer.

- Vou combinar com ela, então.

Wendy me deu um meio sorriso e logo mudamos de assunto.

O restante do dia se resumiu a montar o quarto de Aurora e procurar pelos fichários de Wis. Wendy me ajudou nas duas coisas, na medida do possível. Eu fazia questão dela não se esforçar muito, mas nem sempre conseguia.

- Teimosa – eu reclamava.

- Você ainda não viu nada – ela retrucava.

No final da tarde, confirmei o almoço com Wanda. Ela disse que iria sozinha. Não questionei por quê. Wendy, por sua vez, não pareceu demonstrar qualquer incômodo quando avisei da confirmação.

Já tarde da noite, o quarto de Aurora tinha uma organização melhor. Porém, nada dos fichários.

- Será que você não os deixou na casa da sua mãe?

- Boa. Vou falar com ela pra confirmar.

Mandei uma mensagem para minha mãe, mas ela não respondeu. A última visualização era de uma hora atrás.

- Ela deve estar dormindo. Amanhã passo lá antes de ir pro escritório.

Wendy parecia querer dizer alguma coisa, mas apenas assentiu.

A segunda-feira amanheceu chuvosa. Acordei cedo. Deixei preparado o café da manhã de Wendy, que ainda dormia, e saí. Fui primeiro a casa da minha mãe.

Quando entrei na rua, tive a impressão de que o carro de Cecília estava saindo. Ao tentar estacionar em frente, notei que o carro de Remo também estava lá.

Eu até imaginava o que tinha acontecido, mas de modo algum fiquei surpreso. Minha mãe, Cecília e Trajano nunca foram convencionais. Remo e Érica também não. Talvez fosse inevitável que aqueles dois mundos acabassem se encontrando. Nessa, eu não ignorei os sinais.

Entrei na casa com a chave que já tinha.

- Mãe?! – anunciei num tom mais alto que o normal.

Ao caminhar, parei na cozinha. Minha mãe, sentada à mesa, e Remo, em pé e sem camisa, me olhavam assustados. Numa cadeira, um suéter, que reconheci ser de Cecília.

Dei um meio sorriso, inevitavelmente constrangido.

- Eu vim procurar algo no meu quarto. Já volto.

Minha mãe apenas assentiu, sem conseguir responder.

No meu antigo quarto, rapidamente encontrei o que procurava. Os fichários. Fiquei tentado a foleá-los, mas resisti. Não era minha intimidade. Talvez fosse isso que me impedisse de abrir os fichários.

Respirei fundo e retornei à cozinha.

Remo já tinha vestido uma camisa. Minha mãe, em pé, parecia inquieta. Ninguém falou nada por um momento. Coube a mim romper o silêncio.

- Bom. Tenho que ir. Muita coisa pra fazer no escritório.

- Eu te acompanho, cara – respondeu Remo, de imediato.

Assenti.

Antes, fui até minha mãe e lhe dei um beijo na testa.

- Fica bem, mãe.

Quando estava saindo, minha mãe falou:

- Remo, vai na frente. Quero falar algo com Bruno em particular.

Meu amigo assentiu e saiu. Quando escutamos o clique da porta, ela falou com urgência nas palavras:

- Você me aceita como sou e como quero viver?

- Sim – respondi sem pestanejar.

Ela baixou o olhar por um instante. Depois, voltou a me encarar.

- Eu estou feliz, filho. Todos estamos. Os cinco. E prometo a você que ninguém vai me impedir de ser feliz.

Sorri.

Fui até ela e fiz um carinho em seu rosto.

- Confia em mim, Bruno?

- Precisa nem perguntar.

Seus olhos marejaram um pouco depois que seu semblante relaxou.

- A senhora dedicou anos da sua vida para me criar. Eu sou muito grato por isso. Não tenho o direito de dizer como a senhora deve viver. A única coisa que me interessa é saber se a senhora está feliz. E se alguém te machucar, vai se ver comigo.

Minha mãe sorriu.

- Você anda tão protetor com quem ama.

- Sempre fui.

- Obrigada.

Dei um abraço apertado na minha mãe e saí. Quando voltei para meu carro, Remo me esperava, escorado.

- Acho que vou querer uma carona pro meu apartamento – ele disse.

- Por quê? Seu carro está aí…

- Prefiro ir de carona com você.

Nos olhamos por um instante. Eu sabia o que ele queria.

- Tá bom. Então vamos – eu disse.

No caminho, ele estava quieto. Bem diferente do Remo que eu conhecia. Quando parei em um sinal e olhei de lado, vi que ele enxugava uma lágrima. Depois de um tempo, ele perguntou:

- Vou perder sua amizade?

- Depende.

- De que?

- Se machucar minha mãe, eu acabo com você.

Ele riu. Eu também.

- Eu te amo, Bruno – ele disse – Aliás, todos nós. O que aconteceu hoje, não vai se repetir. Te peço desculpa pelo constrangimento. E eu juro a você: nunca faltei com respeito a Marluce…

Ficamos em silêncio por um instante, até ele completar.

- E nem com a Érica. Nem Trajano. Nem Cecília.

Apenas assenti.

Não trocamos mais nenhuma palavra até chegar no apartamento dele. O silêncio continuou depois que estacionei o carro. Então, ele perguntou:

- Por que você continua tenso?

Olhei para frente, querendo saber por onde começar.

- Wanda…

Parei por um instante antes de completar.

- E os fichários da Wis Nara.

Ele arregalou os olhos.

- Ainda elas?

- Não nesse sentido.

- Em qual, então?

Contei a ele sobre a curta conversa com Wanda no chá de revelação. Depois sobre os fichários. Também falei do meu incômodo com a curiosidade de Wis Nara e de Wendy sobre se eu os li.

- Vamos por partes – me interrompeu, Remo – Os fichários são esses que estão no banco de trás?

- Sim.

- Uau. Vamos ler agora?

Fuzilei-o com o olhar.

- Certo. Sem leitura. Agora, estranho... a Wendy deixar você ir num encontro com Wanda depois de tudo. Acho que ela é mais complexa do que eu imaginava.

- Eu e Wendy não temos nada a não ser a co-parentalidade de Aurora.

- Sei.

Na verdade, nem eu sabia por que fazia tanta questão de repetir aquilo.

- Então, você vai no almoço?

- Já está marcado.

- Boa sorte, então. Vou ficar indignado se Wanda destruir minha aposta.

- Aposta?

- É… apostei que você e Wendy ainda se casarão.

- Apostou com quem?

Surpreendentemente, vi Remo engolir em seco com minha pergunta. Até imaginei com quem ele andou apostando.

- Com a Érica. Só com ela…

Defensivo demais para o meu gosto.

- E a Érica acha que eu vou casar com quem?

- Ora com quem… casar com ela, né?

Gargalhei alto.

- Ela nunca vai deixar de sonhar contigo. Você já devia saber…

Fiz um aceno com a cabeça, em discordância. Pouco depois, Remo saiu do carro. Em vez de entrar no seu apartamento, ele ficou parado.

- Não vai subir? – perguntei.

- Estou pedindo um Uber.

- Pra quê?

Ele abriu um sorriso amplo.

- Pra buscar meu carro.

Fez uma pausa.

- E depois buscar Érica.

- Vacilão.

- Pode até ser, mas pelo menos mantive meu melhor amigo…

Depois de nos despedirmos, dei partida no carro.

Depois de tudo o que tinha acontecido naquela manhã, achei que passaria o resto do dia pensando na minha mãe. Ou em Remo.

Ou em Wanda.

Ou nos fichários de Wis.

Mas não.

Tudo voltava para elas.

Wendy e Aurora.

Horas mais tarde, entrei cerca de quinze minutos atrasado em um restaurante de comida japonesa no Jardins. A atendente rapidamente me conduziu até a mesa reservada e informou que minha acompanhante já havia chegado. De longe, eu a avistei.

Wanda estava sentada de cabeça baixa, com as mãos ao redor de um copo intocado de água. Seus dedos roçavam a lateral do copo, inquietos. Quando me aproximei, ela levantou os olhos e respirou fundo. Fiz um leve aceno ao me sentar de frente a ela.

“Quantas vezes já fizemos isso?”

Lembrei das duas vezes que nos encontramos em um shopping afastado, no McDonald’s. Nas duas vezes, não terminamos bem nossa conversa. Desta vez, eu me esforçaria para ter um final diferente. Uma promessa.

Sustentei o olhar. Ela tentava, mas não conseguia. O copo d'água parecia seu único refúgio; tanto suas mãos quanto seus olhos permaneciam presos a ele. Por um instante, achei que fosse falar, mas desistiu e tornou a baixar a cabeça.

Eu aguardei pacientemente. Não porque eu estivesse por cima, mas por ela. Eu não iria mais negar nem esconder o quanto ela foi e continuaria sendo importante para mim. Sem mais culpa por pensar assim.

Ela voltou a erguer os olhos. Respirou fundo e então falou:

- Olha, eu… eu quero te pedir desculpa. Não fui justa com você e, pior, eu poderia ter estragado o chá de revelação da Aurora.

Continuei observando-a.

- Eu não queria isso. Eu juro. Sei que você está com Wendy agora, vão ter a Aurora…

Não quis corrigi-la.

- A verdade, Bruno, é que me sinto angustiada.

Ela apertou o copo entre as mãos.

- Veio tudo de uma vez. Saber que você morava com Wendy. A gravidez. Ela me contando. Eu chorei…

Seus olhos começaram a lacrimejar.

- Chorei muito, Bruno. Lembrei da minha própria história. Do aborto espontâneo. De que poderia ser eu a carregar um filho seu. Do que poderíamos ter vivido. Bruno, a verdade é que...

Tentei interrompê-la.

- Wanda.

Ela continuou tentando falar.

- ...eu não quero ser um peso pra vocês.

Falei mais firme.

- Wanda.

Então, ela parou. Ficou de olhos arregalados. Surpresa.

- Calma.

Pousei minha mão sobre a dela. Ela olhou para nossas mãos. Talvez não entendesse aquele gesto. Eu também não. Aos poucos, seus dedos envolveram os meus.

- Vem.

Ela me olhou confusa.

- Vamos sair daqui.

- Como assim?

Coloquei cinquenta reais na mesa e me levantei, estendendo a mão para ela. Ela hesitou por um instante. Depois me deu a mão.

Conduzi ela até a saída do restaurante.

- Vamos pra onde?

- Ainda não decidi. Só vamos sair daqui...

No carro, depois de alguns minutos sem ter ideia de onde ir, acabei decidindo.

- Vamos pro shopping.

- Shopping?

- Preciso comprar umas coisas e você vai me ajudar.

- Eu?

Olhei para ela e sorri.

- Sim. Você mesma. A pessoa perfeita para isso.

Ainda confusa, ela apenas assentiu.

No shopping, fomos primeiro ao McDonald’s. Comprei a batatinha frita que ela sempre gostou.

- Bom, ainda acho que você goste…

Ela riu. Foi o primeiro sorriso genuíno que ela me deu.

- Amo.

Depois caminhamos pelo shopping devagar enquanto comíamos. Talvez fosse só impressão minha, mas aquela porção estava deliciosa. E pela forma como Wanda comia, provavelmente achava o mesmo.

Ela acabou primeiro e pegou uma batatinha da minha porção. Depois outra.

- Eu deveria ter comprado outra para você – forcei uma lamentação.

- Deveria mesmo.

Ainda assim, ela me “ajudou” a terminar minha porção mais rápido do que o normal.

No shopping, a vida estava em movimento.

Passamos por lojas e quiosques. Ajudamos uma senhora a se levantar depois de tropeçar com as próprias compras. Numa vitrine de perfumes, Wanda parou por um segundo.

- Ainda usa aquele mesmo perfume?

Cheirei minha camisa. Ela parecia não acreditar no meu gesto, apesar de ter gostado.

- Acho que sim.

- Reconheci de longe.

Depois, um poodle passou por nós vestido de forma mais chique que qualquer mulher no shopping. Foi impossível não rirmos.

Então, paramos diante de uma loja de bebê.

- Preciso comprar véu pro berço.

Enquanto Wanda via os diferentes tipos de véu, eu abria meu celular.

- Antes, preciso saber as especificações que a Wendy me mandou.

- Ela te mandou apenas pelo celular?

Isso me pareceu uma pergunta de quem conhece muito bem a irmã.

- Não. Também escreveu num papel que deixei na minha carteira e me fez decorar as medidas por uma hora ou mais.

Wanda riu.

- Essa é a irmã que eu conheço.

Quando saímos da loja, depois de comprar o véu – dois, na realidade –, Wanda parou por um instante, me encarando com certa seriedade.

- Por que estamos aqui, Bruno?

- É o nosso almoço, esqueceu?

- Mas…

Aproximei-me dela.

- Vamos continuar andando. Teremos tempo pra tudo hoje. Agora, precisamos ir numa loja de brinquedo.

- Brinquedo?

A incredulidade no olhar dela era divertida de ver.

- É… você vai me ajudar a comprar a primeira Barbie da Aurora.

- Mas ela nem nasceu.

- É justamente por isso. Quero ter tempo para escolher a certa.

Na loja de brinquedo, a quantidade de Barbies diferentes me desanimou. Wanda riu da minha surpresa.

- Você nunca entrou na área das meninas, né?

Confirmei com um aceno.

Parei diante de uma prateleira inteira.

- Todas parecem iguais.

Wanda me olhou como se eu tivesse cometido um crime.

- Você acabou de ofender milhões de meninas.

Levantei as mãos em sinal de rendição. Ela riu. Depois me explicou:

- Olha aqui, Bruno. Essa é médica. Essa é cantora. Essa é astronauta. Tem pra todos os gostos.

- Ah… então precisamos escolher a Barbie investidora do S&P500.

Wanda riu. Eu também, apesar de não estar nada convencido.

Continuamos procurando uma que nos agradasse. Isso deixava as coisas cada vez mais divertidas, principalmente porque não entrávamos em acordo em momento algum.

Foi enquanto comparávamos mais uma Barbie que Wanda comentou:

- Se meus pais te levassem pra comprar as Barbies da Wendy, ela não teria nenhuma.

Sorri.

- Para, vai… eu não sou tão carrasco assim.

Um tempo depois, ela apareceu com uma Barbie gigante, clássica. Tive um déjà vu no mesmo instante.

- Acho que a Aurora vai gostar dessa – disse Wanda.

- E a Wendy também.

- Lembrou, né?

- Não tinha como esquecer. Eu vi uma parecida no dia que conheci sua família.

Wanda abriu um sorriso diferente.

- Vai ser essa – decidi.

Na fila do caixa, que mal avançava, Wanda quebrou o silêncio, sorrindo.

- Nem acredito, sabia?

- No quê?

- Eu estava preparada pra desabafar, chorar e estou aqui, olhando pra você segurando essa Barbie e sentindo uma vontade imensa de rir.

Sorri de volta.

- Acho que era exatamente isso que a gente precisava.

- Será?

- Você vai ver quando nosso almoço terminar.

Ela me olhou nos olhos. Dessa vez, não havia confusão. Apenas expectativa.

Após comprar a Barbie, levei Wanda numa sorveteria. Ambos pedimos um pote imenso de chocolate. Nos sentamos em uma mesa mais afastada do estabelecimento. Ela comia mais relaxada. Havia ainda uma tensão, mas não mais aquele peso de quando nos encontramos no restaurante. A verdade é que ela me lembrava a Wanda do primeiro ano de Jornalismo, quando éramos carne e unha. A diferença, dessa vez, é que eu não estava sentindo o peso de vê-la como meu primeiro amor.

- Eu tenho algo para te contar – eu disse.

Ela me olhou, curiosa.

Então, falei sobre a PHX. Contei como a empresa havia crescido no último ano e como esse crescimento também havia mudado minha carreira. Ela ouviu tudo com atenção. Quando disse que estava considerando participar de podcasts e palestras, ela vibrou.

- Meu pai sempre disse que você tem muito conhecimento, Bruno. Você não pode guardar isso só para si. Você me avisa quando entrar em um podcast? Eu quero assistir.

Wanda voltou ao sorvete antes mesmo de eu responder. O entusiasmo dela era contagiante.

- Pode deixar. Eu te aviso.

Também contei o problema que Bruna enfrentou com o ex-namorado. O que mais chamou atenção dela foi Wendy querendo visitá-la e se tornando amiga da minha secretária.

- Wendy é assim mesmo. Expansiva. Em um ano ela faz amizades que eu demoraria décadas para fazer.

Sorri, orgulhoso.

Aproveitei para empurrar o pote um pouco mais para o lado dela. Já fazia algum tempo que eu tinha desistido de disputar aquele sorvete.

Depois, foi a vez de Wanda.

Ela me contou mais sobre a vida na Itália. Trabalhava numa pequena, mas crescente empresa de publicidade. Falou das suas colegas de quarto: Ana Paula e Luciana. E, claro, dedicou bastante tempo a seu namorado Lorenzo Cassano.

Era inegável que Wanda gostava de Lorenzo e isso, de alguma forma confusa, me deixou contente. Seus olhos não tinham o brilho intenso que eu conheci anos atrás, mas, apesar disso, o italiano fazia bem a ela. Pela forma como ela falava dele, não havia maiores promessas, apenas presença e dia a dia.

Ele trabalhava com vinhos. E o conhecimento de Wanda sobre esse assunto me surpreendeu positivamente.

- Já sei com quem falar quando precisar de um vinho especial.

Wanda riu.

- Pode contar comigo.

Wanda raspou o fundo do pote com a colher. Ficamos alguns segundos sem dizer nada. Depois de uma pausa que não era desconfortável, Wanda perguntou sobre Adriana.

- Vocês… se falaram?

Olhei para o pote vazio por alguns segundos antes de responder.

- Não.

Wanda suspirou.

- Eu tentei algumas vezes. Em todas, ela respondeu que ainda não estava pronta pra falar comigo.

Adriana ainda era um peso não resolvido para mim, embora eu tentasse negar.

- Acho que eu e ela tivemos o nosso encerramento naquela noite…

Foi que consegui dizer. A lembrança daquela noite ainda doía.

- Você acredita mesmo nisso?

Wanda tocou no ponto certo.

- Eu acho que sim.

Mas hesitei por um instante.

- Sabe… Remo e Érica saíram com ela e o namorado recentemente.

- O Ricardo, né?

Assenti antes de continuar.

- Ela estava bem. Seguindo em frente. Eu acredito nisso… não vejo por que Remo mentiria.

- Vejo as fotos dela pelas redes sociais, mas ter uma confirmação de alguém próximo a você é melhor.

Ela olhou para o pote vazio.

- Eu só queria ter um encerramento com ela também.

- Só isso?

Agora foi a vez de Wanda hesitar. Demorou alguns segundos antes de responder.

- Ainda não falamos tudo o que tínhamos que falar uma para outra.

Peguei a sacola da Barbie e dos véus, preparando-me para sairmos da sorveteria.

- Vocês terão esse momento. Você vai ver…

Depois que saímos da sorveteria, caminhamos lado a lado. Eu segurava as sacolas, mesmo Wanda se oferecendo para levar uma.

No shopping, a vida continuava. Pessoas passando. Famílias. Crianças. Casais. As escadas rolantes. Nós não falamos nada durante vários metros.

Então, quebrei o silêncio:

- Wanda… eu nunca precisei te perdoar.

Ela parou de andar. Parei também e me virei para ela.

- Você fez a escolha que acreditou ser a certa.

Olhei no fundo dos seus olhos.

- Eu sofri. Muito.

Ela fechou os olhos por um instante.

- Mas nunca achei que você tivesse feito aquilo para me machucar.

Ela ficou sem reação. Depois disse baixinho:

- Obrigada. Você não imagina o quanto eu precisava ouvir isso.

Nenhum dos dois parecia ter pressa de voltar a andar.

- Posso estar errado, mas acho que sei o que te trouxe aqui.

Fiz uma pausa.

- O medo.

As palavras ficaram entre nós por alguns segundos.

- Medo de dar um passo atrás.

Ela riu nervosamente e disse:

- Eu tinha medo exatamente disso.

Assenti devagar.

- Eu sei como é essa sensação. Também levei muito tempo pra encontrar a minha resposta.

Ela não desviou o olhar.

- Mas uma coisa ficou muito clara pra mim nesse tempo.

Respirei fundo.

- Você foi o meu primeiro amor. Isso nunca vai deixar de ser verdade.

Dei um passo em sua direção.

- Hoje… eu consigo olhar para isso com carinho.

Ela me olhou de um jeito diferente.

- Você não deu um passo atrás.

Ela piscou algumas vezes, tentando conter as lágrimas.

- Você seguiu em frente. E está bem.

- Você acha?

Sorri para ela e continuei:

- Hoje tento viver um dia de cada vez. Acho que isso já dá trabalho suficiente.

Ela devolveu o sorriso. Parecia mais leve.

Permanecemos em silêncio por alguns segundos, enquanto enxugava discretamente os olhos.

- Quando… você ficou tão sábio? – perguntou ela.

- Sábio? Para com isso.

Fiz um aceno discordando da avaliação dela. Respirei fundo outra vez.

- Posso te confessar uma coisa?

- O quê?

- Sempre tive medo de nunca ter ocupado na sua vida o lugar que você ocupou na minha.

Ela me encarou por alguns segundos, sem conseguir esconder a surpresa.

- Bruno... você realmente acredita que eu atravessaria um oceano inteiro pra ter essa conversa com alguém que não foi uma das pessoas mais importantes da minha vida?

Rimos. E ficamos sem saber o que dizer. Mas pela primeira vez naquele dia, o silêncio já não pesava.

- Bom. Acho que está na hora de te deixar no hotel, né? Haja assunto para um almoço de mais de quatro horas de duração.

- Nossa… verdade.

Retomamos a caminhada em direção ao estacionamento.

Minutos depois, eu dirigia calmamente pelas ruas e avenidas da cidade de São Paulo. Destino: o hotel onde Wanda estava hospedada. No banco do passageiro, nunca a tinha visto tão leve e absorta, observando a paisagem naquele entardecer agora ensolarado de segunda-feira.

- São Paulo parece ter mais verde do que da última vez que vi – disse ela.

- Não vivemos numa cidade só de pedra, como dizem.

Escutei o som do seu sorriso.

Eu também estava leve. Acho que finalmente haveria paz entre Wanda e eu. E que, enfim, poderíamos começar uma nova história.

- E a Wendy?

A pergunta dela me tirou de um devaneio.

- Que tem ela?

- Você sabe…

Não. Eu não sabia. Ninguém disse uma palavra até pararmos num sinal fechado. Olhei para Wanda e falei:

- Somos pais de Aurora. E moramos juntos por causa dela.

Wanda apenas assentiu. E quando o sinal abriu, continuei dirigindo.

A paisagem continuava passando. E quando menos esperei, Wanda iniciou uma espécie de monólogo.

- A Wendy… Acho que você ainda não percebeu como ela funciona. Às vezes acho que dá pra guardá-la num potinho.

Ela deu outro sorriso.

- Ela é como um jardim, sabe? As borboletas vêm até ela. Você já deve ter percebido isso.

Na realidade, não entendia onde Wanda queria chegar, mas optei por continuar quieto.

- Sabe… o Gabriel, o primeiro namorado, era alucinado pela Wendy.

A menção ao nome dele me causou um pequeno incômodo. Instintivamente, apertei o volante, mas logo procurei relaxar. Não queria que Wanda percebesse. E parece que não percebeu, pois continuou a falar sem qualquer interrupção.

- Todo mundo achava que eles iam casar. E olha onde eles estão agora? Terminaram na pandemia e Wendy está grávida de você. Tudo pode mudar num estalar de dedos.

Fiz um leve aceno com a cabeça. Não que eu concordasse. Apenas deixei-a ciente de que estava prestando atenção.

- O Gabriel… ele demorou anos para conquistá-la. E ainda assim, sequer chegou perto de conquistá-la por completo.

Franzi o cenho, mas acho que ela não percebeu. Ambos estávamos olhando para a frente.

- Eu entendo a confusão que ela está passando nos últimos tempos. Ela não me disse nada ainda, o que é curioso, pois sempre foi aberta comigo. Mas eu sei…

- O que você está querendo dizer, Wanda? Confusão?

Ela me deu outro sorriso, mais complacente dessa vez.

- É o seguinte… pra Wendy, você precisa apenas… do tempo.

- Tempo?

Wanda não respondeu.

Continuei dirigindo e a palavra “tempo” ficou martelando.

Insisti, já ansioso.

- Como assim… tempo?

Ela sorriu de canto, como se já esperasse aquela pergunta.

- Ah, Bruno… se eu contar detalhadamente, perde a graça. Aposto que você terá prazer em descobrir o significado disso.

Queria olhar para ela. E queria insistir mais ainda, mas percebendo isso, ela pousou a mão sobre a minha. Não era um gesto romântico.

- Confia na sua amiga, pode ser?

Demorei a responder. Dessa vez, foi ela quem insistiu.

- Pode ser?

- Você sabe que sim.

Wanda pareceu satisfeita. O que ela falou não parecia provocação, mas conselho. E definitivamente eu não queria reforçar que Wendy e eu éramos apenas co-pais, o que deixava tudo mais confuso para mim.

- Agora é minha vez de te fazer uma confissão – disse ela, me enchendo de expectativa.

- O quê?

- Uma semelhança entre eu e Wis é que podemos abrir mão de algo pra outra ser feliz.

Estranhei. Não era como eu via as coisas.

- Wis?

- Pois é… Wis é muito mais parecida comigo do que você imagina.

Pensei em dizer algo, mas me faltou coordenar as palavras e a ideia. Ela continuou:

- Wendy já não é assim. Ela não abre mão.

Minha mente acelerou. Havia informação demais para processar de uma vez.

Percebendo minha confusão e, talvez, aproveitando que estávamos a poucos quarteirões do hotel, Wanda finalizou:

- Se pensar direitinho, talvez tudo isso que te falei seja uma ótima notícia para você.

Na mesma hora, o sinal fechou. Rapidamente, me virei para ela, que exibia um sorriso convencido, mas sem malícia. Havia carinho ali. E isso me desarmou. De alguma forma que não entendia bem, ela parecia querer me ajudar mais do que eu poderia merecer.

Ao chegar no hotel, saí do carro para acompanhar Wanda até a recepção. De frente para as portas deslizantes, não sabíamos o que dizer. De repente, havia uma timidez estranha entre nós.

- Então, é isso, né? – disse ela, não muito convencida dessa vez.

- É sim – foi o que me limitei a dizer.

Ficamos visivelmente sem graça, mas não me senti desconfortável. Isso parecia coisa do passado.

Permanecemos nos olhando por alguns segundos. Nenhum dos dois queria dar o primeiro passo para finalizar aquele reencontro.

E, mais uma vez, não parecia nada romântico. Era… engraçado.

Então, fiquei mais sério. Ela percebeu e acompanhou a mudança no meu olhar.

- Que bom que você voltou, Wanda.

Falei com sinceridade.

Ela assentiu devagar.

Depois me perguntou:

- Você me quer na sua vida, Bruno? Como sua amiga?

- Sempre. – Depois enfatizei – Sempre.

- Conseguiremos fazer isso dar certo?

- O que você acha?

- Eu te conheço tão bem…

Aguardei por um instante. Ela mesma concluiu o raciocínio.

- Eu acho que sim.

Ficamos apenas ali, e aquilo já bastava.

Então, abri os braços num gesto acolhedor.

- Um abraço pro nosso enésimo recomeço?

- Enésimo, exagerado?

- Já desisti de muita coisa na vida. Da nossa amizade, eu nunca vou desistir.

Ela riu e correu para me abraçar.

Foi um abraço apertado, carregado de tudo o que tínhamos vivido e que eu nem mesmo entendia por completo.

Quando nos afastamos, ela chorava e sorria ao mesmo tempo.

Limpei suas lágrimas com cuidado.

Ela repetiu meu gesto e enxugou minhas lágrimas. Não tinha percebido que eu também estava chorando.

- Obrigada pelo dia normal – disse ela.

- Nossos dias normais sempre foram os nossos melhores dias.

- Tão sábio...

- Não zomba de mim.

Ela riu, mais recomposta. Então completou:

- Que venham mais dias normais.

- Virão…

Ela concordou.

Depois, ela se virou e começou a caminhar em direção à recepção. Assim que as portas se abriram, voltou-se para mim e acenou.

Retribuí o gesto.

E aos poucos, vi-a sumir do meu campo de visão.

Dei um suspiro fundo.

Sentia-me mesmo em paz. E aliviado. Cumprira o que prometi a mim mesmo: dessa vez, faria diferente. E eu sentia que Wanda e eu caminharíamos para um novo capítulo sem as mágoas e os desarranjos do passado.

Voltei para meu apartamento com alguma dose de adrenalina que não sentia havia muito tempo. Wanda tinha me feito muito bem. Até mais do que eu conseguia imaginar.

Quando cheguei, encontrei Wendy no quarto de Aurora. Ela estava suada, sinal de que continuava organizando as coisas.

- Você não para quieta, né? – retruquei, rindo.

- Ainda não se acostumou?

Então, ela olhou para as sacolas em minha mão e depois para os fichários debaixo do meu braço. Por um instante, ela pareceu em dúvida sobre o que perguntaria primeiro.

Eu aproveitei para tomar a iniciativa.

- Aqui os fichários da Wis.

Entreguei em suas mãos. Ela fez menção de abri-lo, mas desistiu.

- Aqui os véus. Do jeito que você pediu.

Ela instruiu que eu colocasse sobre o berço, o que fiz.

- E, por fim, esse é o meu primeiro presente para Aurora.

Wendy sorriu quando percebeu que era uma Barbie que eu tirava da sacola.

- Igual a Mila.

Ela entendeu de imediato o significado. Isso me deixou muito contente.

- Sabia que ia gostar. Só fico curioso pra saber qual nome Aurora dará a ela.

- Ih, Bruno… isso vai demorar alguns anos.

- Verdade.

Ela ficou olhando para Barbie por um instante.

- Lembro quando a gente se conheceu. Eu disse que a Mila gostou de você.

Sorri ao lembrar. Fazia tanto tempo.

Wendy pegou a Barbie e colocou ao lado do guarda-roupa, com cuidado. E voltou a olhar para os fichários com evidente interesse.

- O que você vai fazer agora no quarto? – perguntei.

- O quê?

Ela pareceu sair de um pequeno transe. Claramente, os fichários mexiam com ela. Eu só não conseguia entender o motivo.

- Sim – reforcei – No quarto? O que pretende fazer agora?

- Ah… mudar o berço de local. Para aquela posição… – apontou ela.

- Eu faço isso. Espera só eu trocar de roupa.

- Certo. Eu vou guardar isso aqui…

Ela saiu para o quarto dela com os fichários em mãos. E eu fui para o meu.

Não foi proposital, eu juro, mas ao trocar de roupa, fiquei apenas de calção e sem qualquer camisa. Eu nunca fiquei sem camisa na frente de Wendy por respeito a ela, exceto naquela noite… mas ali, eu tinha esquecido completamente dessa regra que eu mesmo tinha me atribuído.

Saí do meu quarto e chamei por Wendy.

Quando ela saiu do seu quarto, me olhou surpresa por um instante, mas não lhe dei muito cabimento. Puxei-a pela mão e levei-a novamente até o quarto de Aurora.

- Vem. Senta aqui.

Puxei um banco para ela.

- O que é isso, Bruno? – Wendy me perguntou confusa.

- Agora, você só dará as ordens e eu faço o trabalho braçal – eu disse.

Ela riu, um pouco incrédula.

Comecei a mudar o berço de posição.

Fui removendo alguns objetos do meio, afastando outros e movendo o berço com cuidado. Enquanto fazia isso, observei Wendy que me olhava com mais atenção que o normal.

- Que que foi? – perguntei.

Ela demorou para responder. Estava de boca aberta e até tentou balbuciar algo.

Franzi o cenho, confuso.

- Nada... Eu só... estava olhando.

Ela deu um meio sorriso.

Por um momento, achei que eu estivesse fazendo algo errado. Olhei ao redor e nada parecia fora do que eu planejava fazer. Depois olhei para mim.

Sem camisa.

Engoli em seco.

- Desculpa, vou vestir uma camisa.

Falei apressado, querendo sair do quarto o quanto antes, mas Wendy me interrompeu antes que eu desse outro passo.

- Nã, nã, não precisa… está quente hoje. Pode ficar assim, não me incomodo.

Ela respondeu depressa demais.

- Tem certeza?

- Tenho.

Ela desviou o olhar em seguida. E… pareceu corada.

Sorri de leve.

Talvez fosse só impressão minha. Ainda assim... não pude evitar um sorriso contido.

Continuei empurrando o berço, ajustando cada detalhe da posição que Wendy havia imaginado. Entre um móvel e outro, precisei abrir espaço, afastar caixas e reorganizar algumas coisas.

O esforço começou a pesar nos braços. Manobrá-lo naquele quarto apertado dava mais trabalho do que eu imaginava.

Pouco a pouco, o ambiente começou a ganhar outra configuração.

Quando voltei meu olhar para Wendy, ela baixou o celular depressa.

Estranhei.

Mas depois percebi que a câmera estava apontada para mim.

- O que você estava fazendo? – perguntei curioso.

Ela mordeu o lábio antes de me responder.

- Nada.

Mas nem ela mesma se convenceu disso.

Então, digitou algo e depois gravou um áudio.

- Wanda, o que foi que você fez com ele, hein?

Deu uma risada gostosa de escutar. Ri também.

Em seguida, ela esperou uma resposta, que não demorou a vir. Wendy colocou para eu escutar também. A voz de Wanda ecoou cristalina:

- Agora você tem mais uma pessoa pra mandar. Deveria me agradecer.

Wendy esbanjou um sorriso de orelha a orelha.

Eu, atônito, fiquei sem reação.

O vínculo entre aquelas as irmãs era difícil de explicar. Complexo. Profundo. Muitas vezes, parecia desafiar qualquer lógica. Mas havia uma coisa da qual eu já não tinha mais dúvida:

Era inquebrável.

No dia seguinte, Érica bateu o pé querendo almoçar comigo. Disse que era importante. Não pude recusar. Até imaginava o que ela teria para dizer.

No restaurante, depois de fazermos nossos pedidos, ela tentou se explicar sobre o que eu tinha visto no dia anterior envolvendo minha mãe, Cecília e Remo, mas eu tratei logo de resolver de uma vez por todas.

- Isso está resolvido, Érica. Aliás, já estava resolvido muito antes.

- Nossa. Tão decidido.

Mas um pensamento me veio à mente. Algo que, inclusive, estava me incomodando.

- Na verdade, tenho apenas uma pergunta.

Érica me olhou com atenção.

- A Bruna está fazendo parte de um trisal com vocês dois?

Ela gargalhou alto. Pessoas da mesa ao lado até se viraram para nos ver. Fiquei um pouco constrangido.

- Quem você acha que somos? – questionou ela. – Não somos… como posso dizer... “aliciadores”. Não é assim que funciona.

- Eu sei, mas… precisava saber.

- A Bruna é como você… como a Wendy… como as amigas da Wendy. E ela vai encontrar alguém legal. Eu garanto.

- Isso me alivia.

Ela me olhou com curiosidade.

- Por que a preocupação repentina por Bruna?

- Não é repentina. E não é bem uma preocupação no sentido que você está imaginando.

- Não estou imaginando nada.

- Eu te conheço, mocinha.

Érica não conseguia me enganar.

- Então o que é? – ela insistiu.

- Sinto-me responsável. Henrique quase a quebrou, mas ela foi forte ao procurar ajuda o quanto antes. E nós demos a ela o direito de ter uma nova história.

- Eu sei, bobo. Só estava tirando onda contigo, seu certinho.

Conversamos sobre outros assuntos enquanto a comida chegava. Em dado momento, ela me fez uma pergunta inesperada:

- Como você enxerga a Wendy? Uma mulher própria ou uma cópia de Wanda?

Pensei por um instante.

- Tudo ainda se resume apenas a Aurora.

Externalizar isso me trouxe uma leveza que eu nem sabia estar procurando.

Érica pareceu me entender.

- Acho que você não está fazendo nada errado. Você não vai conquistá-la da noite para o dia, se realmente quiser isso.

Ela recostou-se na cadeira, me encarando.

- Wendy é especial, mas com ela, as coisas precisam ter o seu tempo.

Mais uma vez o “tempo”. Será que foi combinado?

Ela continuou:

- Mas preciso te dar um conselho: não deixe o tempo avançar demais. Apesar de você ser muito especial, Bruno, outras pessoas especiais também existem nessa vida.

Engoli em seco.

Um nome surgiu em minha mente.

Gabriel.

O primeiro namorado.

O relacionamento que terminou bem, apenas por culpa da pandemia.

O homem que Wendy acreditou ser o amor da vida dela.

Pela primeira vez, senti que o tempo poderia jogar contra mim.

Porque talvez eu estivesse chegando tarde demais.

Continua...

Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.

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Comentários

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Quase 10 mil palavras! Rapaz, vc trabalhou pesado! Muito bom! Aguardando o que vai ser da Adriana, o segredo do fichário! Acho que o Bruno será surpreendido com a decisão das irmãs em dividirem ele com a Adriana…(mesmo ele não merecendo). Ele vai superar o Trajano e o Remo com um harém! Hahaha

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Carlão!!

Achei esse capítulo complexo! Vc judiou para valer!

Muitas informações, um tom de mistérios no ar. Claramente uma grande transição para o final.

Na minha visão vc conseguiu fazer Bruno "começar" a andar, devagar mas começou!

Assunto Trisal + Remo e Erica resolvido, de forma simples e objetiva!

Bruno com Wanda foi ótimo! Bruno surpreendeu!

Parabéns meu amigo!! Vc é sensacional!!

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