Primal Fear ( As duas faces de um crime) – Capítulo 3

Da série Primal Fear
Um conto erótico de Ryu
Categoria: Heterossexual
Contém 3447 palavras
Data: 11/04/2026 18:32:13

Segunda-feira de manhã, Eduarda chegou ao escritório, seus passos ecoavam firmes pelo corredor. Não houve o habitual cumprimento animado, nem o sorriso rápido para a recepcionista. Seu rosto estava fechado, tenso, um tipo de seriedade que não combinava com ela.

Sem bater, abriu a porta da sala de Murilo.

Ele ergueu os olhos surpreso.

— Bom dia, Eduarda.

Ela não respondeu. Nem um aceno, nem um olhar mais demorado. Apenas caminhou até a mesa com determinação, então, sem aviso, lançou um pen drive em direção a ele.

Murilo reagiu por reflexo, pegando o objeto no ar antes que caísse na mesa.

— O que é isso? — perguntou, franzindo a testa, já sentindo que não era algo trivial.

Eduarda finalmente falou, a voz baixa, mas carregada de peso:

— O motivo.

Murilo visivelmente confuso.

— Motivo?

Ela sustentou o olhar dele, firme.

— O motivo de Misael ter matado Rushmond.

— Você tem certeza disso? — perguntou, mais cauteloso agora.

Eduarda não hesitou.

— Eu assisti tudo.

Uma pausa.

— E você vai querer ver também.

Murilo abriu o vídeo que estava no pendrive:

{[ O vídeo iniciou com uma gravação de Rushmond fazendo um discurso, em seguida chamou Lidiane e mandou que ela tirasse a roupa, em frente da câmera.

Lidiane, uma linda morena, obedeceu ao Arcebispo e visivelmente constrangida começou a se livrar das roupas.

— Misael! Ajude Lidiane tirar as roupas — Ordenou Rushmond autoritário.

Misael surge no vídeo e ajuda Lidiane a tirar o sutiã e a calcinha.

— Agora é a sua vez, põe esse pau pra fora, pra Lidiane chupar – Ouvia-se no fundo a voz do Arcebispo.

Lidiane se ajoelhou na frente de Misael e apesar do constrangimento, começou a fazer um boquete guloso.

A câmera se moveu para filmar Rushmond, que estava nu sentado numa cadeira, assistindo a cena e se masturbando.

— Ahhh! Isso ... assim! Tá gostoso de ver! Agora vira a bundinha Lidiane, pro Misael colocar no te cu! — Disse Rushmond parecendo um diretor, comandando a cena.

Misael colocou o pau na entradinha da bunda de Lidiane:

— No cuzinho não, por favor! —Lidiane pediu, quase num choro, a voz embargada, dissolvendo-se em pequenos gemidos contínuos.

— É rápido, você vai gostar, e é o único jeito de expulsarmos os demônios – Explicou Rushmond.

Misael começou a introduzir o pênis.

— A-ah… Misael… cuidado… — A voz falhando de Lidiane. — Eu… não… tô… — a frase se perdeu, interrompida pela dor.

— Aguenta Lidiane — Insistiu o Arcebispo — Você vai gostar

Mas Lidiane mal conseguia responder. Sua voz vinha em fragmentos, entrecortada por gemidos e pausas involuntárias, como se cada palavra precisasse atravessar a dor antes de ser pronunciada.

— Mais rápido agora – Ordenou Rushmond

— Por favor… — ela repetia, quase sem voz agora, cada palavra cortada por uma respiração irregular. — Tá… doendo…

— Só mais… só mais um pouco… — murmurou Rushmond, se masturbando, a voz baixa, falhando junto com o fôlego.

— Tá… doendo…! — ela conseguiu dizer entre um espasmo e outro de ar, a voz quase irreconhecível.

— AAAH! — Gemeu o Arcebispo, assistindo a cena, e gozando com a masturbação — Pode tirar o pau do cu dela Misael! Termina do jeito que eu gosto!

Misael tirou o pau, Lidiane se posicionou e ele ejaculou nos seus seios!

Fim da gravação]}

Murilo permaneceu alguns segundos imóvel diante da tela já escura. O vídeo havia terminado, mas as imagens pareciam continuar projetadas dentro da sua cabeça. Sua respiração estava irregular, e a mandíbula travada denunciava o esforço para conter a náusea e a raiva que cresciam ao mesmo tempo.

Ele passou a mão pelo rosto, como se tentasse apagar o que tinha visto, mas não funcionou. Nada daquilo desaparecia.

Virou-se abruptamente para Eduarda.

— Como você conseguiu isso? — A voz saiu mais dura do que ele pretendia

Eduarda, que o observava com atenção desde o início do vídeo, manteve a compostura. Havia tensão no olhar dela, mas também uma espécie de certeza fria.

— Foi o Clayton — respondeu. — Ele disse que existem mais vídeos. Muitos mais. Estão escondidos na casa do arcebispo. Ele sabe onde.

Murilo franziu o cenho, tentando organizar os pensamentos.

— Clayton… — repetiu, ainda assimilando. — Então foi por isso que ele tentou entrar lá escondido?

Eduarda assentiu lentamente.

— Exatamente. Estava tentando pegar os outros vídeos.

Murilo começou a andar de um lado para o outro, inquieto.

Então parou de repente.

— Nós temos acesso à casa — disse, virando-se para ela. — Como representantes de Misael, podemos entrar lá. Podemos pegar esses vídeos.

Eduarda o encarou por alguns segundos, avaliando. Havia algo de decisivo naquele momento, como se uma peça finalmente se encaixasse.

— Esse era o motivo que faltava — afirmou, com firmeza. — Agora não resta mais dúvida.

Murilo ficou olhando para ela, esperando a conclusão.

Eduarda não hesitou:

— Foi o Misael. Ele é o assassino.

Murilo não disse mais nada. O silêncio que se instalou depois da afirmação de Eduarda parecia prestes a explodir. De repente, num gesto brusco, ele pegou o paletó sobre a cadeira.

Vestiu-o enquanto já se movia, passos rápidos e desordenados, seus dedos tremiam levemente ao ajeitar a manga, mas ele ignorou. Precisava agir.

Eduarda percebeu a mudança imediata.

— Murilo, espera — chamou, indo atrás dele.

Ele já atravessava o escritório, pegando as chaves sem sequer olhar para trás.

— Onde você vai?

Murilo abriu a porta com mais força do que o necessário. Parou por um breve instante no batente, respirando fundo, como se tentasse conter o turbilhão dentro de si — sem sucesso.

— Eu preciso falar com o Misael — disse, a voz tensa, quase cortante. — Agora.

Eduarda se aproximou mais rápido, preocupada.

— Eu vou com você.

Ele se virou, carregado, inquieto.

— Não.

— Murilo, você tá nervoso demais pra dirigir — insistiu ela, firme, mas cuidadosa. — Deixa eu ir junto.

Ele balançou a cabeça, já chegando no carro.

— Eu disse que não.

Havia algo definitivo no tom, uma mistura de urgência e irritação que não deixava espaço para discussão. Ele abriu a porta do veículo, entrou quase de forma abrupta e bateu a porta com força.

O motor rugiu, Murilo segurava o volante com força, o olhar fixo à frente, mas distante.

Eduarda permaneceu ali por alguns segundos, vendo o carro desaparecer, com a sensação crescente de que aquela decisão, impulsiva e solitária, ainda traria consequências.

Ao chegar na detenção, Murilo atravessou o corredor da ala com passos apressados, o som dos sapatos ecoando de forma seca contra o chão frio. Seu semblante ainda carregava a tensão do que havia visto, os olhos inquietos, buscando respostas.

Ao se aproximar da cela, ele diminuiu o ritmo — Misael não estava sozinho.

Roberta estava ali, de pé diante dele, em uma conversa aparentemente séria. Os dois se voltaram ao mesmo tempo quando perceberam a presença de Murilo.

Por um breve instante, ninguém disse nada.

Então Roberta quebrou o silêncio.

— Murilo, ainda bem que você chegou. Eu preciso falar com você. É importante.

Ele mal a olhou direito. Seu foco já estava completamente em Misael.

— Depois a gente fala — respondeu, seco, dando mais um passo à frente. — Eu preciso falar com ele agora.

Roberta franziu a testa, sem sair do lugar.

— Não, Murilo, você não está entendendo. Isso aqui é urgente!

— Eu disse depois.

A interrupção veio mais dura, mais alta. Murilo finalmente virou o rosto para ela, impaciente, os nervos à flor da pele.

— Eu falo com você depois. Agora, me deixa a sós com o meu cliente.

O tom não era apenas firme — era cortante.

Roberta hesitou por um segundo, claramente contrariada. Seus olhos passaram rapidamente de Murilo para Misael, como se ainda considerasse insistir. Mas havia algo na postura de Murilo que desencorajava qualquer novo confronto.

Sem dizer mais nada, ela soltou um suspiro contido, virou-se e saiu da cela, seus passos ecoando pelo corredor até desaparecerem.

O silêncio voltou a tomar conta do espaço.

Agora, restavam apenas Murilo e Misael. E tudo o que precisava ser dito entre eles.

Misael percebeu imediatamente que havia algo errado. O olhar duro, a respiração pesada, a energia quase agressiva no modo como ele se posicionava.

Misael recuou instintivamente, os ombros encolhendo.

— Do-do -doutor…? — chamou, hesitante.

Murilo não respondeu de imediato. Ficou alguns segundos em silêncio, encarando-o, como se estivesse medindo cada palavra — ou tentando conter algo prestes a explodir.

Mas não conteve.

— Você confia em mim?

A pergunta veio abrupta, com o tom elevado, quase exigindo uma resposta imediata.

Misael piscou, surpreso.

— Si-si-sim… eu co-co-confio totalmente no senhor, doutor.

Murilo deu um passo à frente.

— Mas eu não confio em você.

O silêncio caiu pesado.

— E sabe por quê?

Misael abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O medo já começava a tomar conta do seu rosto.

Murilo não esperou resposta.

— A juíza já aceitou a denúncia. O júri já foi marcado. E a gente tá perdendo o caso.

Ele gesticulava enquanto falava, a voz cada vez mais carregada.

— E sabe por que a gente tá perdendo?

Misael engoliu em seco, os olhos arregalados. Tentou falar, mas Murilo avançou mais um passo, invadindo completamente seu espaço.

Apontou o dedo diretamente para o rosto dele.

— A gente tá perdendo porque o imbecil do meu cliente tá mentindo pra mim!

O impacto das palavras foi imediato.

Misael recuou ainda mais, praticamente encostando na parede, o corpo encolhido.

— Não… eu n-n-não menti, do-do-doutor Murilo — disse, a voz trêmula, quase quebrando.

Murilo não cedeu.

— Mentiu, sim. Eu vi a gravação, Misael. Eu vi!

Cada palavra parecia um golpe.

— Você disse que admirava o Rushmond. Que ele era como um pai pra você. Que não tinha motivo pra matar.

Ele se inclinou levemente, o olhar fixo, implacável.

— Mas eu vi a gravação!!

O mundo de Misael pareceu desabar naquele instante.

Os olhos dele se encheram de pânico, de vergonha, de algo que já não conseguia mais esconder.

— Nã-nã-não… não! — gritou, a voz falhando.

Ele levou as mãos ao rosto, como se pudesse se esconder daquilo tudo, e então cedeu.

Deslizou até o chão, sentando-se de frente para a parede, curvado sobre si mesmo, tentando desaparecer.

— N-n-não… — repetia, agora mais baixo, sufocado.

O corpo tremia.

Murilo continuava exaltado, a voz ecoando pela cela enquanto despejava sua revolta.

— Você acha que isso é brincadeira? — gritava. — A sua vida tá em jogo!

À sua frente, Misael permanecia no chão, encolhido, chorando compulsivamente, as mãos cobrindo o rosto como um escudo frágil contra tudo aquilo. Seus ombros tremiam, e a respiração vinha em soluços descontrolados.

— Eu confiei em você! — continuou Murilo, a frustração transbordando. — E você—

Ele parou.

Algo mudou.

Foi sutil no início. Os soluços cessaram de forma abrupta, como se tivessem sido desligados. O tremor no corpo de Misael desapareceu. O silêncio que tomou o lugar do choro era… estranho.

Lentamente, Misael abaixou as mãos do rosto.

Mas não era mais o mesmo olhar.

Havia algo diferente. Frio. Firme.

Ele respirou fundo, ajeitou levemente a postura ainda sentado no chão… e então falou, em um tom completamente distinto.

— Para de chorar, seu merdinha!

Murilo franziu o cenho, sem entender.

Misael não estava falando com ele.

— Cala a boca… — continuou, agora mais alto, mais firme. — Deixa que eu resolvo.

Murilo ficou imóvel.

O que quer que estivesse acontecendo ali… não era normal.

Então, com calma — uma calma perturbadora — Misael se levantou.

Sem pressa.

Sem hesitação.

Quando ficou de pé, sua postura era outra. Ombros alinhados, queixo levemente erguido, o corpo relaxado de uma forma confiante — quase dominante. Nada restava do rapaz assustado de segundos antes.

Ele encarou Murilo diretamente nos olhos. Sem medo ou culpa e sem qualquer traço de fragilidade.

E falou — claro, firme, sem gaguejar:

— Quem é você?

Murilo não respondeu. Estava completamente atônito, tentando processar o que via.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Misael inclinou levemente a cabeça, como se o analisasse.

— Ah… — disse, com um leve ar de reconhecimento. — Você deve ser o tal advogado.

Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca.

— Você se chama Murilo, né?

Uma pausa.

— O Misael me falou de você.

Por mais estranho que fosse, naquele instante, Murilo percebeu que não estava mais falando com a mesma pessoa.

Murilo deu um passo para trás, como se precisasse de espaço para respirar — ou para entender.

O olhar dele percorria o rosto do homem à sua frente, tentando encontrar qualquer traço do Misael de antes. Mas não havia hesitação, não havia medo… não havia nada familiar.

— Eu… tô confuso — murmurou, passando a mão pelo cabelo, visivelmente abalado. — Quem é você?

A pergunta saiu mais baixa dessa vez, carregada de incredulidade.

O homem à sua frente inclinou levemente a cabeça, como se achasse a reação quase curiosa.

— Ah… — disse, com naturalidade. — Desculpa, eu nem me apresentei.

Um pequeno sorriso apareceu, controlado, seguro.

— Eu sou o Roy.

Murilo permaneceu imóvel, tentando manter o controle enquanto encarava aquele homem — ou o que quer que ele fosse agora.

— Roy? — repetiu, ainda incrédulo. — Mas… onde está o Misael?

Roy sustentou o olhar dele sem hesitação, como se estivesse saboreando a confusão de Murilo.

Então, inclinou levemente a cabeça, aproximando-se um pouco, sem quebrar o contato visual.

— O Misael?

Uma breve pausa.

O canto da boca se curvou em um sorriso frio.

— Ah… ele tá por aí ...

Roy deu mais meio passo à frente, agora falando mais baixo — mas com uma firmeza que atravessava o silêncio da cela.

— Choramingando em algum canto! (risos)

Disse isso olhando diretamente nos olhos de Murilo.

Naquele instante, qualquer dúvida que ainda restava desapareceu.

Murilo não estava mais diante do mesmo homem.

Murilo respirava pesadamente, tentando processar o que ouvia. A cela parecia encolher ao redor deles com a intensidade das palavras de Roy.

— Roy… me diga uma coisa — começou Murilo, a voz trêmula — foi o Misael que matou o Rushmond?

Roy riu, um som frio, controlado, olhando diretamente nos olhos de Murilo.

— Claro que não! Meu Deus, de onde tiraram você? O Misael choramingão não consegue nem machucar uma mosca. Quem matou o porco do Rushmond fui eu, entendeu?

Murilo engoliu em seco, tentando absorver aquela revelação, o cérebro girando, mas ele continuou ouvindo.

— Se o Misael tivesse feito tudo conforme eu mandei, a gente tinha escapado. Mas ele se desesperou… e fomos pegos.

A confissão atingiu Murilo como um golpe, deixando-o completamente abalado. Ele respirou fundo e, mesmo assim, buscou continuar a conversa.

— Roy… me fale sobre a Lidiane.

Roy encolheu os ombros, desdenhoso.

— Lidiane?! Quem se importa com aquela piranha?

— Eu me importo — disse Murilo, firme, mas tentando manter a compostura.

— Ela era só mais uma putinha, liberou a buceta pra todo mundo — continuou Roy, com desprezo — e fez o trouxa do Misael acreditar que eram namorados. Um dia ela saiu da casa… e nunca mais voltou.

Murilo franziu a testa, preocupado.

— Será que ela sumiu por causa das gravações?

Roy fechou o rosto, a expressão endurecendo, Ele avançou um passo e desferiu um soco no rosto de Murilo, que caiu no chão!

— Filho da puta! — gritou Roy — você viu as gravações? Eu falei pro Misael dar um jeito, destruir as gravações.

Murilo respirava ofegante, a boca sangrando pelo soco. Num impulso levantou-se, firme, encarando o homem à sua frente.

Roy avançou rapidamente, segurando Murilo pelo colarinho da camisa, aproximando seu rosto do dele.

— Não deixe ninguém mais ver as gravações — disse, a voz baixa, firme, carregada de ameaça.

Murilo ficou atordoado, incapaz de responder.

— E se você der uma de “machão” de novo com o Misael… — continuou Roy, a tensão no tom de voz— eu volto para te dar outra surra.

O barulho da discussão atraiu atenção. Roberta entrou na cela com um guarda, os olhos arregalados diante da cena.

— Roy, por favor… acalme-se — pediu Roberta, tentando interpor-se entre eles.

Roy apertou a mão na própria cabeça, como se algo doesse intensamente dentro dele. Um tremor percorreu seu corpo; ele se curvou levemente, os ombros caindo. O ar pareceu vibrar ao redor, carregado de uma energia estranha e intensa.

Então, num instante a mudança aconteceu.

Os traços de Roy desapareceram, os gestos e a postura se suavizaram. Os olhos que antes o encaravam com frieza agora revelavam medo e vulnerabilidade. A figura imponente e ameaçadora deu lugar ao Misael que Murilo conhecia — o mesmo jovem inseguro, agora de volta diante dele.

Murilo ainda tentava processar o que acabara de acontecer. O Misael diante dele parecia menor, frágil… mas ainda assim, a tensão permanecia no ar.

Misael recuou um passo, os olhos arregalados, e percebeu o rosto de Murilo, machucado e sangrando. Um arrepio percorreu sua espinha.

— O que a-a-aconteceu? — perguntou, a voz baixa, quase trêmula.

Murilo olhou para ele, a expressão cansada, ainda atordoado.

— Você… não se lembra de nada? — perguntou, a tensão na voz evidente.

— Não… — respondeu Misael, com sinceridade e confusão, balançando a cabeça. — Não le-le-lembro de na-nada.

Murilo virou o olhar para Roberta, buscando alguma explicação, alguma confirmação do que acabara de testemunhar. Ela manteve o olhar firme, mas com uma ponta de reprovação e paciência.

— Eu te disse — disse Roberta, calmamente, quase com um suspiro contido — que precisávamos conversar.

O silêncio tomou a cela. Murilo engoliu em seco, ainda processando tudo. Misael permanecia ali, confuso e assustado, tentando entender o que tinha acontecido.

Murilo e Roberta saíram da cela.

— Quer ir a uma lanchonete próxima? — Murilo sugeriu, a voz baixa. — Precisamos conversar com calma.

Roberta assentiu, e os dois caminharam até um estabelecimento simples nas redondezas. Sentaram-se em uma mesa afastada, longe da movimentação do local, e pediram algo rápido para comer.

Enquanto mordia um sanduíche, Roberta começou a falar, a voz calma, mas carregada de seriedade.

— Durante os atendimentos ao Misael, eu descobri que ele desenvolveu outra personalidade. Chama-se Roy.

Murilo ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Você viu ele se transformar em Roy?

— Sim — respondeu Roberta, olhando para Murilo com firmeza. — Durante uma entrevista, perguntei por que Lidiane, namorada dele, não tinha vindo visitá-lo. Ele se sentiu pressionado, desconfortável. Eu insisti, continuei pressionando… e então ele chamou o Roy. Eu vi a transformação acontecer.

Murilo engoliu o que restava do lanche, processando as palavras.

— Foi o que aconteceu no caso do arcebispo — disse ele, mais para si mesmo do que para Roberta. — Rushmond abusava dele, e então ele chamou Roy para fazer o trabalho.

Roberta concordou, a expressão séria:

— Exato. O Misael é inofensivo. Ele tem muitos traumas, é completamente indefeso. Então ele criou essa segunda personalidade, Roy… que ele invoca quando precisa de alguém que o defenda.

Murilo permaneceu em silêncio por alguns segundos, o olhar distante. A realidade do que tinham descoberto parecia pesada demais para digerir de imediato.

— Então… tudo que aconteceu, toda a agressividade que vimos… não era o Misael — murmurou, a voz carregada.

Roberta apenas assentiu, sem precisar de palavras, e comentou:

— Você poderia alegar insanidade… isso poderia livrar o Misael.

Murilo franziu a testa, mexendo levemente no guardanapo à sua frente.

— Não é tão simples assim — respondeu, a voz baixa, mas firme. — Para alegar insanidade, eu teria que ter usado essa estratégia desde o início. Não posso simplesmente trocar agora. Até aqui, eu estava alegando que não foi o Misael, que havia uma terceira pessoa no recinto que matou o arcebispo.

Roberta respirou fundo, observando-o com atenção.

— Mas agora sabemos que não havia terceira pessoa — disse calmamente — foi o Misael, em sua forma de Roy, que cometeu o crime.

Murilo assentiu, pensativo.

— Você poderia me fornecer um diagnóstico por escrito? — perguntou. — Eu tentaria ainda inserir no processo.

Roberta balançou a cabeça, séria.

— O diagnóstico é multidisciplinar. Seria necessário que eu, mais um neurologista e um psiquiatra com a palavra final, participássemos do processo.

— Quanto tempo isso levaria? — Murilo perguntou, olhando para ela atentamente.

— Meses… talvez anos — respondeu Roberta, com um suspiro.

Murilo olhou para fora da janela da lanchonete, os pensamentos acelerados. O júri estava marcado para 10 dias. Um plano começava a se formar em sua mente.

Eles terminaram o lanche em silêncio. Murilo se levantou, e ambos saíram.

De volta ao escritório, Eduarda já os aguardava.

— Estive na casa do Rushmond — disse ela, quase sem fôlego — e encontrei os outros vídeos escondidos, exatamente onde o Clayton indicou. Consegui pegar tudo.

Murilo respirou fundo e começou a contar a ela, de forma rápida e precisa, tudo o que havia ocorrido: a transformação de Misael em Roy, a confissão de Roy, o risco que corriam e as implicações legais.

Eduarda ficou atônita.

— E o que você pretende fazer agora? — perguntou preocupada.

Murilo se aproximou do computador, digitou com rapidez, acessando o sistema processual eletrônico.

— Vou juntar os vídeos ao processo — disse, firme.

Eduarda arregalou os olhos, assustada.

— Você quer dizer que estará entregando o motivo do crime de bandeja para o Ministério Público!

Murilo virou-se para ela, o olhar intenso, mas tranquilo.

— Tenho uma ideia… uma estratégia — disse, com confiança. — Confia em mim.

Eduarda hesitou, mas acabou assentindo, a preocupação ainda evidente em seu rosto. Murilo voltou-se para a tela, o plano começando a tomar forma em silêncio.

{ Série baseada no livro Primal Fear de William Diehl}

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