Durante toda aquela semana, eu carregava uma expectativa que não cabia direito no corpo. Não era só ansiedade simples, aquela que já é característica minha... Era uma antecipação física, quase dava para tocar, como se cada dia fosse preparando, camada por camada, aquilo que inevitavelmente estava para nos envolver.
Tudo naquele dia foi preparado para ser agradável, um dia bom, uma noite especial, gostosa. Mas, no fundo, eu já sentia que seria algo ainda mais forte.
Sempre via ela se arrumando. Mas nesse dia eu a vi se preparando, mas de um jeito diferente.
E há algo profundamente íntimo em observar alguém nesse momento, quando a pessoa ainda não está “pronta” para aparecer para o mundo, mas já se basta, já é completa. Ela hidratava cada cacho dos cabelos lindos dela, com um cuidado quase ritualístico, e os fios iam se desenhando sobre os ombros como se tivessem sido pensados um a um. Não era só beleza. Era presença. Feminilidade de um jeito natural, espontâneo. E eu lá, devotado, admirando.
Aquela boca carnuda, bem desenhada, sendo tingida de batom, que acentuava aquele tom natural dos lábios dela... para mim havia ali uma promessa silenciosa. O brilho daqueles lábios já me fazia como que um “pré-convite”, que nem precisava ser dito.
E aquele cheiro dela.
Ela passou o seu perfume, delicioso, sem dúvida, mas ainda assim insuficiente diante do que realmente me fisgava. O cheiro natural da pele dela… adocicado, envolvente, um traço único, inconfundível. Um cheiro que nem sei descrever, só reconhecer. Que permanece na minha memória como uma assinatura dela.
Ela ficou pronta.
O vestido, metade preto, metade marrom creme clarinho, moldava o corpo dela de um jeito que não era apenas estético, era provocativo na medida exata. O decote sugeria muito mais do que mostrava. Eu sabia, com uma certeza quase física, da maciez, da suavidade e do calor e da suavidade que havia ali, sob aquele tecido. A sandália preta, de salto médio, fazia ela caminhar com aquela elegância natural, uma altivez que não era construída, era própria dela. Feminina, segura, poderosa e delicada como uma deusa grega.
Saímos de mãos dadas.
E havia um sorriso persistente nela — um sorriso de quem está vivendo algo fora da rotina. Eu também sorria, mas havia em mim algo além: um orgulho silencioso de estar ali com ela, de apresentá-la ao mundo como minha. Minha linda namorada.
No show, nos sentamos, conversamos, rimos. Mas, sobretudo, nos tocávamos.
Sempre havia um contato agradável.
Minhas mãos encontravam as dela, às vezes pelos dedos, às vezes pela palma inteira. Eu encostava minha mão esquerda nas coxas dela com uma casualidade que da minha parte não nada era casual. Abraçava ela por trás do encosto das costas da cadeira, de leve, sentindo a respiração dela próxima à minha. Pequenos gestos, carregados de carinho sim, mas também de intenção.
E enquanto o som do show preenchia o ambiente, havia outra trilha acontecendo dentro de mim.
Eu olhava para as pernas dela. Para as coxas. Para o decote dela. Para o contorno que o vestido desenhava.
E imaginava.
Imaginava o depois.
Eu estava ali com ela, vivendo cada instante, mas ao mesmo tempo projetando, construindo mentalmente o que poderia ser quando chegássemos na casa dela. Como se o presente e o futuro se sobrepusessem, criando uma tensão, quase elétrica, deliciosamente contínua.
Quando finalmente saímos e chegamos em casa, não houve intervalo, não existiu espaço.
Mal fechou a porta, o clima mudou.
Não houve palavra que anunciasse, mas tudo já estava dito. O ar ficou denso, quente, quase palpável. Não deixei nem ela tirar os sapatos, foi vontade incontida, foi instinto. Minhas mãos encontraram o corpo dela com uma urgência que vinha sendo construída há horas. O tecido do vestido subiu, cedeu, revelou. O toque não era exploratório, era reconhecimento, fome, desejo cru.
Ela tirou os sapatos já ofegante, até riu tensa, perguntando se eu não ia nem esperar entrar direito em casa... mas no final ela também já estava entregue àquele campo que se formava entre nós.
Havia algo de lascivo, sim, mas também inevitável.
Encostei ela contra a parede, de costas para mim. A respiração próxima ao ouvido dela. O corpo dela reagindo, respondendo, acolhendo a minha intensidade que não pedia licença.
O tempo ali se comprimia.
Foram instantes, ou mais, difícil medir, raciocinar. Apenas existiu. E foi poderoso.
Então saímos dali.
Não lembro exatamente como fomos parar no sofá, apenas que fomos.
Ali, algo mudou de eixo.
Ela me empurrou, firme, decidida, e disse, com uma segurança que me atravessou: que eu ficasse sentado. Que ali ela comandaria.
E havia, naquele momento, uma inversão que não era apenas de posição, era de energia.
Ela de costas, conduzindo o ritmo, criando um movimento que era ao mesmo tempo corporal e visual. Ela dançou, lânguida, com cada curva voluptuosa de seu corpo se desenhando. Eu via as costas dela, a silhueta do corpo, o desenho vivo que se movia com intenção de me hipnotizar, que fluía um mel que eu conhecia muito bem e ansiava provar, me lambuzar. Ela olhava de canto, com um sorriso quase provocativo, consciente de cada efeito que me causava.
Era impossível não se perder naquilo.
Em determinado momento, ela me pediu para buscar um colchão no quarto dela. A cena parecia quase doméstica, mas ao mesmo tempo, absolutamente carregada de desejo. Levei o colchão. Enquanto isso, ela ligou a televisão.
E então o vermelho surgiu.
Ela, já realizando o que estávamos vivendo naquelas alturas, escolheu uma playlist no YouTube, com músicas muito sensuais, envolventes, e com aquele fundo vermelho que tingia todo o ambiente, cada elemento, inclusive os nossos corpos. A sala inteira se transformou. Não era apenas a cor da luz: era uma imersão em uma atmosfera. O sofá, o chão, nossas peles, tudo banhado pelo rubro cor de fogo, desejo, paixão.
Sob a luz do vermelho, tudo parecia mais intenso.
Mais próximo.
Inevitável.
Nos movemos entre o sofá e o colchão, como se o espaço fosse apenas um detalhe diante daquilo que acontecia ali entre nós. Havia um clima de exploração, não no sentido de descoberta inicial, mas de aprofundamento, de conexão com intensidade. Como quem mesmo conhecendo, ainda assim, se admira.
A música guiava sem impor, testemunha de dois corpos se satisfazendo, dois amantes saciando a vontade de dar prazer, para si e para o outro.
E o tempo… o tempo simplesmente deixou de importar.
Houve momentos de riso, de breves pausas, de troca de olhares. Momentos em que o ardor parecia suspenso apenas para voltar ainda mais forte.
Ela atingia o ápice como em ondas sucessivas, crescendo, explodindo, recuando... depois retornando com ainda mais força. E havia em mim uma espécie de fascínio silencioso diante disso pois, afinal, cada instante é único e não se repete.
Até que o meu tudo e os vários “tudos” dela começaram a convergir.
Não de forma abrupta, mas como algo progressivo e inevitável. Algo que se acumula e encontra seu ponto de ruptura.
E naquele instante que antecedeu nosso final, não havia mais separação clara entre corpos, vozes, som ou luz. O vermelho, a música, a voz, respiração, tudo integrado em um único campo.
Momentos em que se fez silêncio.
Um silêncio que gritava.
Um silêncio que ecoava nas nossas mentes e corpos.
Como se o universo, naquele instante, parasse para assistir.
Era silêncio, sim, mas não vazio.
Um silêncio repleto, denso, ainda vibrante.
Ficamos ali, próximos, respirando, assimilando. Ofegamos. Conversamos só o mínimo, palavras em tom suave, quase desnecessárias. Carícias que prolongavam o que já havia sido dito sem necessidade de linguagem.
Havia satisfação, admiração, gratidão.
Havia até um certo espanto diante do quanto sentimos.
E havia, sobretudo, uma certeza: de que aquilo não foi apenas o fato, o momento.
Foi um dia realmente especial.
Coroado com algo que não se reduz somente ao ato, mas se expande como experiência: o desejo com força e imponência, manifesto claramente, com entrega mútua, com presença absoluta.
Eu senti que o que houve ali não se apagaria da minha mente.
Afinal, certas experiências não somem, não se apagam.
Simplesmente ficam.
De vez em quando elas voltam e incendeiam mente e corpo, aceleram o coração.
E o corpo reage.
Aí, a mente novamente arquiteta planos, tem ideias, faz projeções, cria cenários para mais um dia bom, uma noite especial, gostosa...