Ela me via só como amigo - Cap. 18

Um conto erótico de Carlos_Leonardo
Categoria: Heterossexual
Contém 12294 palavras
Data: 06/04/2026 08:26:32
Última revisão: 06/04/2026 08:44:29

Seu nome é Wendy Nara – ou simplesmente Wendy. Para ela, nunca fez diferença. Nunca sentiu necessidade de escolher como queria ser chamada – diferente de Wanda e Wis. É a irmã do meio. Era vista como convencional, dócil, serena, calma – a menina que não dava trabalho, em uma família que parecia fazer questão de ser o oposto. Por anos, foi chamada de Mini Me. E, por muito tempo, gostou de caber nesse papel, sem questionar muito o espaço que aquilo ocupava nela.

***

A cidade de São Paulo estava nublada.

Saindo do aeroporto, Lucas e Wendy seguiam para um restaurante. Ainda não tinham almoçado, e a fome começava a incomodar. Ele dirigia seu Lexus com uma mão no volante e a outra no câmbio.

O trajeto seguiu em silêncio.

Wendy observava a cidade pela janela – uma sucessão cinzenta de prédios e árvores alinhadas nas calçadas –, mas sua atenção não estava ali.

- Tá tudo bem? – perguntou Lucas, estranhando a quietude.

- Sim – respondeu ela, rápida demais para sustentar conversa.

Lucas lançou um olhar rápido, como se avaliasse se deveria insistir. Não insistiu. Já aprendera que, quando Wendy se fechava, qualquer tentativa de puxá-la de volta só a afastava um pouco mais, mesmo ela mantendo a postura educada.

A verdade é que Wendy acabara de presenciar o fim de uma história que, em tese, não era dela. Ou assim preferia acreditar.

Wanda e Wis haviam feito a mesma escolha: abrir mão de quem amavam. Wendy compreendia – ao menos na superfície –, mas aquilo ainda a incomodava. Fazia sentido – e ainda assim não descia.

Havia também um resquício de nostalgia. Durante anos, estivera envolvida naquela história mais do que gostaria de admitir. Ajudava, organizava, encobria – sempre com um certo cansaço, sempre revirando os olhos, mas ainda assim presente.

Agora, com o céu pesado anunciando chuva, sentia-se deslocada, como se tivesse chegado tarde a algo que já havia terminado. Não exatamente triste. Não exatamente aliviada. Apenas sem função dentro de algo que, por muito tempo, ajudara a sustentar.

Não haveria mais horas a fio ouvindo Wis falar de Bruno. Nem viagens improvisadas para encobrir o encontro de Wanda com ele em Nova Iorque. Nem recados, nem corridas de aplicativo, nem a necessidade de acompanhar a vida dele para alimentar a curiosidade das irmãs.

Era o fim. E, pela primeira vez, ela não fazia parte dele.

Wendy deixou escapar um suspiro.

Uma imagem voltou com facilidade: Wanda e Bruno, no aeroporto, presos em um beijo rápido que parecia, ao mesmo tempo, despedida e permanência. Havia ali uma proximidade que doía – e uma distância que ninguém parecia disposto a atravessar.

- Você vai mesmo embora? – perguntara Wendy dias antes, enquanto Wanda arrumava sua mala.

- Você sabe que sim.

- Vai deixar pra trás quem ama?

Wanda hesitara.

- O coração dele não me pertence – respondeu, por fim.

- Você não tem como ter certeza disso. Ele te escolheu, te pediu em namoro, vocês namoraram…

- Eu o conheço melhor que você – encerrou Wanda.

Wendy sabia que era verdade.

O peso, entre Wanda e Wis, de amar o mesmo homem, enfim cobrara seu preço. Não existia um mundo em que apenas uma delas ficasse com Bruno. Amavam-se demais para impor essa perda à outra – ainda que, por fora, fingissem aceitar caso acontecesse. Wanda até tentou.

Wendy nunca deixara de se perguntar o que havia em Bruno. O que, exatamente, sustentava aquele tipo de devoção. Para ela, nada. Ou era o que sempre acreditara.

Em um momento quase distraído, chegou a imaginar que seu pai talvez tivesse ferido Marluce no passado. Agora, por uma dessas ironias do destino, era Bruno quem deixava marcas nas irmãs.

“Mas pelo menos agora elas podem ser realmente felizes.”

O pensamento veio pronto – e não trouxe alívio. Pelo contrário, abriu um vazio que ela não queria encarar.

Além disso, havia algo sobre Wendy que nem ela compreendia completamente. Era mais sugestionável do que gostava de admitir. Seus pais sabiam disso – por isso mediam palavras, evitavam certezas. Ideias que, quando plantadas nela, criavam raízes.

E ela lembrava exatamente do dia em que o pai dissera:

“A filha que mais parece com o Bruno é justamente a única que não tem interesse nenhum por ele.”

A frase se instalara com uma facilidade incômoda – e não saíra mais. Desde então, algo havia se deslocado. Logo ela, que sempre se orgulhara de ser imune aos “encantos” de Bruno.

“Devo estar ficando louca.”

Por muito tempo, Wendy acreditou que, para Bruno, ela era apenas a Mini Me. A irmã do meio que aparecia de fora, chamada apenas quando era útil. A menina que brincou de Barbie até os quinze anos – e que, ao decidir crescer, juntou todas e doou, como quem fecha um capítulo sem olhar para trás.

E talvez fosse exatamente assim que ela preferia se ver naquela história: alguém de fora. Que nunca estivera. Mas sempre esteve ali – ajudando, organizando, sustentando – sem se reconhecer como parte. E só agora isso começava a ficar evidente.

E isso a incomodava mais do que qualquer outra coisa.

Ainda mais porque ela sabia que tinha vida própria. Tinha as próprias escolhas, desejos e personalidade. Não era a cópia de Wanda. O cabelo, curto, na altura dos ombros era uma prova disso para ela. Teve um primeiro namorado – Gabriel, seu primeiro amor – com quem viveu tudo no tempo certo. Foi com ele que perdeu a virgindade. O relacionamento terminou durante a pandemia, vencido pela distância, mas sem mágoas.

Depois disso, seguiu em frente como sempre fizera.

Ia a shows, saía com as amigas, se envolvia, experimentava – sem nunca perder o próprio eixo.

Nunca fizera de homem o centro de nada, mesmo namorando Lucas agora, seu segundo namorado.

E, ainda assim, aquilo começava a vacilar.

Não por falta de identidade – mas porque, pela primeira vez, ela não tinha certeza se isso bastava para mantê-la fora daquela história.

A lembrança seguinte veio quase como um eco.

Wis, parada à porta do seu quarto, com o fichário nas mãos.

- Escrevi uma folha sobre você. Leia.

Wendy leu. O carinho não surpreendeu. O final, sim. Ela riu. Gargalhou, para ser mais precisa.

- Isso nunca vai acontecer, Wis Nara.

A irmã deu de ombros.

Agora, aquilo voltava com outro peso.

- Sabe me dizer se o Bruno entregou meu fichário pro papai? – perguntara Wis semanas antes.

- E eu sei? Pergunte a ele.

Mas a pergunta ficara. Wendy se perguntara por que deveria saber. E pior: Bruno poderia estar com os fichários de Wis. Ele teria lido? Leu aquele… final?

Um calafrio percorreu seu corpo. O coração acelerou por um instante. Os pensamentos se desorganizaram antes de voltarem a se alinhar.

“Será que estou com medo? Do que estou com medo?”

- Chegamos – disse Lucas.

Wendy piscou, como quem retorna de longe demais.

- Você parece ter dormido acordada – comentou ele.

Wendy sorriu, discreta.

“Graças a Deus que tenho você.”

Será mesmo?

***

No restaurante de comidas típicas nordestinas, Wendy folheava o cardápio sem realmente ler.

Lucas cumprimentava pessoas ao redor – garçons, o gerente – com a familiaridade de quem gostava de ser reconhecido.

Sentaram-se frente a frente.

- Vai querer o de sempre? – perguntou ele.

- Pode ser.

Ele sorriu, como se já esperasse a resposta.

- Você está quieta hoje.

- Só cansada.

- Por causa do aeroporto?

- Também.

- Foi uma despedida… carregada, né?

Wendy deu de ombros, desviando o olhar.

- Você acha que eles voltam?

- Não.

A resposta saiu rápida, firme.

- Sua irmã não mudou os planos por causa do namorado. Eu admiro isso em vocês… de verdade. Essa independência.

Wendy levantou os olhos por um segundo, o suficiente para não parecer evasiva, e então voltou ao cardápio.

- É a vida deles. Não tem muito a ver com a gente.

Fez uma pausa curta.

- Vou sentir saudade dela, contudo.

Wendy nunca gostou de falar das irmãs com outros homens – menos ainda quando esses homens ocupavam algum espaço afetivo em sua vida.

Lucas a observava mais do que o necessário.

Ele então se inclinou sobre a mesa e tocou a mão dela.

- Ei… vai ficar tudo bem. Eu estou aqui.

Wendy assentiu. Não puxou a mão de volta, mas também não correspondeu ao toque.

- Sendo sincero – ele continuou, com cuidado – eu não queria estar na pele do Bruno.

O estômago dela se contraiu de leve. Wendy puxou a mão e passou o polegar na borda do cardápio, como se precisasse ocupar as mãos com alguma coisa.

Não respondeu.

Lucas recuou um pouco na cadeira.

Pouco depois, o garçom veio e eles fizeram os pedidos. Acabou sendo o de sempre.

- E esse fim de semana? – perguntou ele quando o garçom saiu.

- Vou sair com as meninas.

- De novo?

Wendy esboçou um sorriso leve.

- Ué.

Ele soltou um riso curto.

- Durante a semana você faz duas faculdades… no fim de semana, as amigas…

Fez uma pausa.

- E eu… fico onde nisso?

Wendy inclinou a cabeça, quase divertida, mas sem aprofundar.

- A gente se vê no domingo.

Lucas assentiu, mas sustentou o olhar por um segundo a mais do que o habitual. Wendy percebeu, mas não comentou.

- Pelo menos consegui te ver hoje – disse ele. – Mesmo que tenha sido meio fora do planejado.

Ela sorriu de novo – breve, o suficiente.

A conversa foi rareando até que o silêncio passou a ocupar mais espaço que as palavras.

Lucas ainda tentou puxar outros assuntos – comentários soltos, perguntas leves –, mas Wendy respondia sempre do mesmo jeito: educada, direta, sem abrir espaço.

Quando os pratos chegaram, o assunto já tinha se esgotado. Comeram quase sem falar. A chuva caía lá fora, enquanto os talheres marcavam um ritmo contido à mesa.

Wendy permaneceu ali, presente apenas o suficiente.

O resto dela continuava em outro lugar.

***

Depois do restaurante, Lucas foi deixá-la no SENAC, onde Wendy cursava Hotelaria.

O trânsito seguia pesado, como de costume.

- Eu ainda acho meio absurdo você fazer duas faculdades ao mesmo tempo – comentou ele, olhando a fila de carros à frente. – Ainda mais com esse trânsito dia após dia.

- Já me acostumei.

Wendy deu de ombros, apoiando o braço na porta. Para ela, aquilo já não era esforço – era rotina.

- Você fala isso como se fosse simples – continuou Lucas. – Não é.

Ela esboçou um meio sorriso, sem muita disposição para sustentar o assunto.

- Nunca disse que era.

Ele a olhou de lado.

- E mesmo assim você inventa de fazer duas faculdades. Não que eu seja contra… é que vejo muito cansaço em você.

Wendy não respondeu de imediato.

- Eu já te expliquei – disse, por fim, sem impaciência, mas também sem abrir espaço.

Lucas soltou um pequeno riso pelo nariz.

- Explicou… por cima.

Ela virou o rosto para ele, dessa vez sustentando o olhar por um segundo a mais.

- Eu quero trabalhar com gestão de eventos.

- Eu sei – respondeu ele. – Você já falou isso.

Fez uma pausa curta.

- Mas parece maior que isso.

Wendy voltou a olhar para a rua. Ele não estava errado.

Durante muito tempo, nem ela soubera colocar aquilo em palavras. Administração na USP tinha vindo primeiro – mais por direção dos pais do que por escolha. Passara de primeira, como se fosse apenas mais uma etapa natural.

O ponto de virada veio depois.

No aniversário de sessenta anos do pai, enquanto acompanhava a equipe responsável pelo evento, Wendy percebeu algo que até então não tinha nome. Não era só interesse. Era familiaridade.

Aquilo fazia sentido para ela – mais do que deveria para alguém sem experiência formal.

- Não é só trabalhar com isso – disse ela, finalmente.

Lucas esperou.

- Eu quero ter algo meu.

- Tipo empresa?

- Tipo estrutura – corrigiu. – Um espaço. Evento, hospedagem… tudo funcionando junto.

Ela falava com calma, mas sem hesitação.

Lucas franziu levemente a testa, tentando visualizar.

- E as duas faculdades entram onde nisso?

- Uma me dá base. A outra me dá prática.

Era uma resposta pensada há muito tempo.

O que ela não disse – e provavelmente não diria tão cedo – era que aquilo já tinha forma mais concreta do que parecia.

Seu pai não apenas apoiara a ideia. Já a tratava como um plano. Havia entre os dois um acordo silencioso: quando ela completasse trinta anos, investiriam juntos em um hotel ou pousada, além de um espaço voltado para eventos corporativos – Wendy com parte de sua herança, Trajano com os próprios investimentos.

E mais que isso: ela seria responsável por tudo.

Para Wendy, aquilo não era possibilidade. Era direção.

- Você fala disso como se já estivesse tudo resolvido – comentou Lucas.

- Pra mim… já faz sentido.

A resposta veio segura. Lucas soltou um riso leve, mas não totalmente confortável.

- Você parece sempre tão certa das coisas.

Wendy não respondeu.

Lucas ajustou a mão no volante, pensativo por um instante.

- Espero ter espaço na sua vida quando o grande dia chegar.

Ele disse quase em tom de brincadeira, mas não o suficiente para esconder completamente a intenção.

Wendy virou o rosto para ele, tentando ser o mais simpática possível.

- Sempre vai ter, sim.

A resposta veio imediata – correta demais.

Lucas ajustou a postura, como se aquilo não tivesse sido exatamente o que esperava.

- Passo mais tarde pra te buscar, então? – disse ele, retomando um tom mais leve.

- Combinado.

Ele estacionou. Trocaram um beijo rápido, de despedida.

Wendy saiu do carro sem olhar para trás.

***

Remo e Érica seguiam para um motel luxuoso na Barra Funda.

Ele dirigia com um nervosismo que não conseguia esconder. As mãos firmes no volante contrastavam com a respiração irregular. Ao lado, Érica retocava a maquiagem com uma concentração que ia além da estética – era preparação.

Depois daquela noite, nada seria igual.

- Depois de hoje, você sabe que não haverá mais volta, certo? – disse Remo, sem tirar os olhos da pista.

- Você fala em relação a Bruno?

Ele assentiu.

Havia um peso ali. Um silêncio que não precisava ser explicado.

- Ele não quer mais os benefícios – respondeu Érica, com um dar de ombros que não convencia completamente.

Remo soltou o ar devagar.

- Isso pode ser temporário. Ele pode voltar. Mas se a gente entrar naquele quarto… os benefícios acabarão. Eu… eu não teria coragem. Nunca mais.

- Nem eu.

Ficaram em silêncio por um instante. Eles refletiram muito sobre isso nas últimas semanas. E continuavam a refletir, mesmo se aproximando do destino final que mudaria tudo.

A proposta recebida era tentadora demais para recusar, mas isso implicaria abdicar de Bruno para sempre.

Érica quebrou o silêncio.

- Bruno é certinho demais. E isso não é uma crítica. É o jeito dele. Acho que está pensando em dar um passo adiante. Percebo sua introspecção quanto ao futuro, quanto a forma que se vê daqui uns anos. Ele não é como nós… “abertos”. O que tínhamos a mais com ele sempre teve um prazo de validade. Mas por mim, seria nós três para sempre. Você sabe. Só que ele nunca pensou assim.

- Você acha que ele e Juliana se tornará sério?

- Não sei. Ela quis namorá-lo naquela época, lembra? Bruno não quis…

Ela respirou fundo, como se quisesse medir as palavras.

- O Bruno é meio indecifrável às vezes. Até mesmo para mim… Sabe-se lá o que se passa na cabeça dele. Vai ver o fato de Juliana ter sido o seu primeiro beijo tenha algum significado para ele. Mas se eu fosse ela, não teria muitas esperanças não. Duvido que ele a peça em namoro.

Remo concordou com um gesto silencioso.

Érica continuou retocando a maquiagem, num processo que parecia interminável.

- Aquelas três quebraram ele de forma irreparável – disse Remo, depois de um tempo.

- E vice-versa.

- Sim. Foi uma via de mão dupla. E vai servir de aprendizado pra ele.

- E pra elas também.

Remo deu um sorriso inesperado.

- O que foi?

- Rindo porque você citou Wis sem escárnio, mesmo que implicitamente…

- Fica mais fácil com ela longe de mim – respondeu Érica, com um deboche forçado.

Pouco tempos depois, eles chegaram no motel.

O quarto escolhido era amplo, com dois andares.

Havia piscina, uma cama king size, duas cadeiras eróticas, pole dance, um bar com várias bebidas, espelho no teto e em várias paredes.

E muito mais.

Luxúria e perversão em seu estado máximo.

Remo e Érica se excitaram de imediato.

Ele a olhou mais uma vez e perguntou:

- Tem certeza?

- Tenho. E você?

- Vou te responder de outra forma.

- Como?

- Te amo, Érica.

Ela sorriu e o beijou. Um gesto que traduzia sem equívocos o amor entre eles.

Mas os dois não estavam sozinhos.

No bar, três pessoas acompanhavam aquela cena com evidente curiosidade e desejo.

Trajano, Cecília e Marluce.

Havia neles um sorriso acolhedor e predatório ao mesmo tempo. E um mundo de cumplicidade e companheirismo que estava prestes a se ampliar.

Os cinco se juntaram no bar.

Veio os cumprimentos. A quebra de gelo. Um pouco de formalidade e bebida de leve. Risos. Elogios.

Era, por fim, a consumação daquele acordo tácito.

Para todos, era o início de um novo capítulo. E eles queriam mais que tudo.

Mas havia uma regra. Dolorosa até, mas que valia o risco:

Bruno não poderia saber. Bruno não poderia ser citado durante o ato.

Era pervertido. E excitante para todos.

Não que Bruno fosse se importar, mas ainda assim, sua mãe pedira por isso. Certa vez, ela disse, enquanto chupava Trajano e o plano se formulava:

- Não tenho dúvidas que ele me ama como sua mãe. Não tenho dúvidas que é incondicional. Ainda assim, prefiro que ele não saiba que a pica do seu melhor amigo está me invadindo ou que esse pau monstruoso está arregaçando sua melhor amiga.

- Por que? – murmurou seu, agora, marido.

Marluce não respondeu, preferindo continuar chupando.

Cecília, que observava a distância, com sua mão delicadamente acariciando sua boceta, quem resolveu responder:

- O proibido!

Voltando ao motel, as três mulheres caminharam até o banheiro.

Érica era guiada por Marluce e Cecília, como se fosse um ritual. Havia uma sensualidade no gesto e um tesão incontrolável.

Trajano e Remo, se pudessem, avançariam sobre elas naquele momento. Mas tinham que aguardar. Enquanto isso, tentaram conversar.

- Daremos conta delas, amigo – falou Trajano, dando um tapinha nas costas de Remo, que não conseguia esconder o nervosismo – Tomou o comprimido?

- Sim.

Havia um certo cuidado nas palavras. Afinal, Trajano e Remo era uma amizade que estava em construção. Era Bruno que fazia um confiar no outro.

- Você sempre toma? – perguntou Remo.

- Apenas em noites especiais. E essa é mais que especial.

Pouco tempo depois, as três voltaram vestindo lingeries minúsculas.

Marluce e Cecília exalavam obscenidades. Remo teve que segurar o impulso para não voar em cima delas. Érica estava tentadora e era, claramente, o troféu da noite. O pau de Trajano foi às alturas.

As três subiram na cama e Érica ficou de quatro, o rabo empinado em direção dos tarados.

Marluce e Cecília passaram a acariciar, beijar e estimular todas as partes do corpo dela. Não demorou muito e Érica já estava arfando, arreganhando mais ainda sua bunda.

Cecília puxou calcinha de Érica para o lado, exibindo sua bocetinha raspada, molhada e convidativa. Então, ela olhou pro seu marido e disse:

- Chega a hora. Ela é toda sua.

Trajano sentiu o peso do momento e, mesmo com toda sua confiança, olhou para Remo, como se quisesse a autorização final e definitiva.

- Faça as honras – reforçou Remo, aos sussurros, mal conseguindo controlar sua excitação.

Trajano levantou-se e caminhou até a cama, baixando o zíper e revelando seu pau grosso e veiudo, pronto para o abate.

Ele pincelou a entrada de Érica com cuidado, com prazer, deixando-a louca.

- Mete – ela implorou – mete logo… Me falaram tanto desse pauzão, eu não aguento mais esperar. Enterra em mim.

Trajano parou de judiar e meteu devagarinho, para um gemido dolorosamente delicioso de Érica. Era o maior pau que penetrava sua boceta. Ela estava em êxtase. Preenchida. Completa.

E ele meteu com a experiência que vem de anos praticando, sabendo exatamente o que uma mulher quer. E Érica sentiu um prazer incomparável, viciante, a ponto de gozar duas vezes sem sequer tocar em sua boceta, sem sequer Trajano parar.

Remo, Marluce e Cecília observavam admirados de tesão aquela tomada de posse.

Érica estava quase desfalecida, entregue. Trajano intensificou as estocadas. Seu fôlego era exuberante para a idade. Seus grunhidos selvagens se intensificaram. O gozo dentro dela foi brutal. Um urro que veio do fundo da alma.

Daquele momento em diante, Érica também seria de Trajano. Como Cecília. Como Marluce.

Vendo aquela cena, Remo não sabia precisar o que sentia. Ele, que sempre sentira muito tesão ao ver Bruno transando com Érica, sentia algo além. Inexplicável. Muito potencializado. Sentia-se… completo.

Sua calça estava molhada. Nem percebeu que tinha gozado. Sentiu um pouco de vergonha, mas uma vontade imensa de viver esses momentos mais vezes, não apenas naquela noite.

Quando se deu conta, percebeu Marluce e Cecília vindo em sua direção enquanto Trajano se deitava na cama, com Érica aninhada em seu ombro.

Era a vez de Remo.

Seu pau reagiu.

E mais que isso, um pensamento perverso passou pela sua mente ao entender que comeria a mãe do seu melhor amigo não uma vez, mas muitas. Ela seria sua. E ele não pensava isso como zombaria e sim como uma forma de ser mais próximo ainda de Bruno. Era bizarro, covarde talvez, e ele sabia disso, mas ainda assim, tudo fazia algum sentido para ele.

Ele abriu um sorriso de predador, mesmo com o coração em paz e sem remorso.

Marluce ajoelhou-se, olhando em seu olhos. Cecília abraçou-o por trás, como se fosse a orquestradora dos movimentos.

A mãe de Bruno baixou seu zíper, revelando seu pau duríssimo. Até mesmo ele se espantou com o tamanho que estava. Nunca sentira um tesão tão grande antes.

Marluce começou a chupá-lo devagar, sem tirar os olhos dele. Um queria o outro com uma força que cresceu ao longo de meses e semanas. Eles se desejavam antes mesmo de perceberem isso em um nível consciente.

Remo permitiu-se saborear cada instante. Num rápido momento, olhou de soslaio para Érica, que retribuía o olhar com um amor incontestável, indubitável. E isso lhe deu mais uma resposta definitiva.

Ele pousou a mão na cabeça de Marluce, como se quisesse guiá-la. Ela abocanhava mais ainda, engasgando, cuspindo, babando, verdadeiramente caprichando naquele ato.

Então, ela parou.

Puxou a calcinha de lado. E sentou em cima dele.

Entrou fácil, pois estava muito molhada.

Ela começou a cavalgar. Muito.

Olho no olho.

As mãos dele segurando a bunda dela.

As mãos dela em seu ombro.

Lento.

Acelerado.

Forte.

Um som obsceno ecoando pelo quarto.

Gemidos fortes.

E um beijo rápido.

Depois outro.

Com língua.

E um beijo mais forte, demorado e… sentimental.

De quem se queriam muito e esperavam por esse momento.

Era a entrega final, a quase consumação do acordo.

Se Érica pertencia a Trajano, Marluce pertencia a Remo.

E todos eles queriam isso.

Marluce e Remo gozaram quase no mesmo instante.

E continuaram se beijando.

Até que ela parou, deixando-o um pouco confuso.

A mãe de Bruno saiu de cima de Remo e caminhou até a cama, onde se deitou ao lado de Trajano, também aninhando-se no outro ombro dele.

Ela e Érica passaram a acariciar o peito de Trajano, que a esta altura, estava só de cueca box.

Então, Cecília saiu de trás de Remo e ajoelhou na frente dele.

- Agora é minha vez, mas será você que ganhará um prêmio muito especial.

Remo não entendeu de imediato, mas ver a mãe de Wanda, Wendy e Wis ali, prestes a abocanhar seu pau melado de porra e do mel de Marluce, era algo que transcendia qualquer compreensão.

Ela era linda, mais que Marluce. Tanto de corpo quanto de rosto. Não parecia ter a idade que tinha. E, mais que isso, justificava claramente porque as filhas eram tão belas. Elas puxaram tudo isso da mãe.

Cecília era realmente espetacular.

Ela abocanhou o pau de Remo sem qualquer cerimônia. A sugada era surreal. A melhor que já teve na sua vida. Nada se comparava. Era a verdadeira deusa do sexo. Ela que deveria ensinar todas as mulheres do mundo.

“Por isso que o Bruno é doido pela Wanda e pela Wis. As filhas puxaram a mãe”.

O pau já estava duríssimo de novo.

E ela não parava.

Judiava.

Era incrível para ele.

E para Érica também, que olhava num misto de espanto e admiração, para certa diversão de Marluce e Trajano.

- Vou gozar – balbuciou Remo.

Mas antes que chegasse ao fim, Cecília parou abruptamente. Seu olhar estava carregado de malícia e decisão.

Ela se levantou e foi até um bolsa de onde tirou um lubrificante. Depois, foi até a beirada da cama, ficando de quatro.

- Seu presente é arrombar o meu cu. Você ganhou esse direito. É meu bem mais precioso, algo que só meu marido teve e agora será seu, hoje e para sempre. Vocês nos deu seu maior presente e agora darei o meu. Vem…

Remo estava paralisado. Aquela mulher de quatro era um espetáculo.

- Vem… – Cecília riu com perversidade. Uma predadora. Uma dominadora.

Ele ainda não reagia.

- Vem, gostoso. Amanhã eu quero ter dificuldade pra sentar. Quero ficar toda ardida e dolorida. Amanhã... – ela fez uma pausa teatral – Quero meu maridinho passando pomadinha no meu cu para aliviar o estrago que você vai fazer.

Não havia como recusar, Remo sabia disso.

Ele tirou sua roupa rapidamente. Pareceu até um pouco cômico, o que extraiu risos de Trajano, Marluce e, principalmente, de Érica.

Remo aproximou-se de Cecília.

Acariciou sua bela e apetitosa bunda.

Então, puxou a calcinha de lado e caiu de boca no cuzinho.

Ele chupou, beijou, passou a língua e a enfiou, como se sua vida dependesse disso.

“As filhas têm o Bruno, mas eu tenho a mãe. A deusa. A melhor. Que pena que ela te vê como filho, Bruno, porque tenho certeza que você adoraria estar no meu lugar”.

Remo estava prestes a gozar só de apreciar o cheiro e os gemidos dela, mas não queria ainda. Não era a hora.

Ele parou e pegou o lubrificante, passando uma quantidade considerável no seu pau.

Depois, ele passou um bocado em sua mão e começou a preparar o cuzinho de Cecília.

Parecia bem apertadinho.

E se contraía sem parar à medida que ele enfiava seus dedos, alargando-a.

Cecília olhava para trás. O desejo evidente em seus olhos.

Então, ele posicionou se pau na entrada do seu ânus e foi metendo devagar.

Ela gemeu demoradamente.

- Caralho! Que pica gostosa!

Quando entrou tudo, ele esperou. Queria que ela se acostumasse. Mas ela tinha outros planos.

- Mete! Arromba loga! Soca na tua nova putinha…

Remo obedeceu.

E meteu com um força que nem sabia que tinha.

As estocadas eram fortes, potentes e vorazes.

Érica nunca tinha sido comida daquele jeito, com aquela selvageria.

Mas Cecília era. E estava gostando, em transe.

Érica sentiu um leve incomodo, se perguntou se não estavam indo longe demais, mas quando viu Trajano e Marluce plenamente satisfeitos, relaxou também.

Mas Remo não.

Ele suava, pingava gotas, não parava, sequer respirava, mas dava a Cecília tudo o que ela tinha pedido.

Um cu arrombado e arregaçado.

O seu presente.

- Come esse cuzinho que também será teu daqui pra frente. Come, vai. Come, seu gostoso. Pauzudo.

Remo não estava aguentando.

- Eu vou te encher todinha, sua safada. Amanhã, você não vai sentar.

- Isso. Isso que eu quero. Me arregaça. Destrói esse cuzinho. Pega esse teu presente e toma só para ti…

Remo acelerou e num urro gutural, gozou profundamente dentro de Cecília.

E ficaram assim, ele ainda engatado nela por um bom tempo. Até regularem a respiração.

O acordo estava finalizado. Todos estavam satisfeitos.

E, para melhorar, a noite estava apenas começando.

Os cinco continuaram transando sem parar. Érica também deu seu cuzinho para Trajano, assim como Marluce deu o seu para Remo.

As três passaram por uma dupla penetração, com Trajano e Remo sempre se revezando nas posições.

Em um dado momento, enquanto recuperavam o folego, Trajano perguntou a Remo:

- Tá valendo a pena, amigo?

- Muito. Nossa, muito mesmo. Quero mais vezes. Tenho certeza que Érica também.

- Quando voltarmos de viagem, faremos disso uma nova rotina. Vamos estabelecer nossa dinâmica. O importante é que todos estejam felizes e satisfeitos. A cumplicidade é a chave para fazer dar certo.

Remo e Érica assentiram, como se ouvissem um professor que confiassem muito.

- Isso vai dar certo e só foi possível pelo carinho que vocês têm pelo Bruno – completou Trajano.

- Sei que não devemos citá-lo em momentos assim, mas… o que ele representa para vocês? – perguntou Érica, apontando para Trajano e Cecília.

- É o nosso quarto filho – respondeu Cecília.

Marluce, que escutava em silêncio, sentada no colo de Remo, com quem trocava pequenas carícias, ficou com os olhos marejados.

Era a constatação final de que não seria apenas ela e Bruno no mundo. Havia uma grande família ao redor. Do jeito deles.

Ela e Bruno nunca mais estariam sozinhos.

***

Adriana não melhorou de uma vez. Mas melhorou.

No início, a terapia parecia mais um lugar para repetir o que já sabia. Mesmas histórias. Mesmos erros. Mesmas perguntas sem resposta. Saía das sessões com a sensação de que estava apenas reorganizando o caos – não superando.

Até que, aos poucos, algo mudou. Não foi um insight, mas um cansaço diferente.

Parou de tentar entender tudo e revisitar cada detalhe. Algumas coisas simplesmente… tinham acontecido. E não voltariam atrás.

Aceitar isso não foi leve, mas foi suficiente. Bruno deixou de ser uma possibilidade. Não de um dia para o outro – mas deixou.

E, com isso, Wanda também passou a ocupar outro lugar. Não havia mais raiva constante. Nem necessidade de confronto. Mas também não havia proximidade possível, por mais que tentassem inicialmente.

Wanda lembrava demais a sua maior dor. E ela já tinha decidido que não queria mais viver olhando para trás.

- Quem sabe no futuro possamos viver o que temos de melhor para oferecer à outra – disse Adriana, em tom de despedida.

- Anseio para que esse dia chegue logo – foi o que Wanda conseguiu responder, entre lágrimas.

Na XP, o trabalho ocupou o espaço que antes era ruído.

Reuniões. Entregas. Prazos. Metas. Ali, tudo fazia sentido.

Se fazia bem, era reconhecido. Se não fazia, era ajustado.

Adriana se concentrou nisso. Muito mais do que antes. E isso floresceu.

Colegas começaram a notar. Gestores passaram a confiar mais. Demandas mais complexas passaram a chegar até ela – e ela respondia, com a mesma eficiência de sempre.

Com consistência.

Seu brilho voltou sem aviso. Não o de antes, mas outro. Mais estável. Mais maduro. Mais difícil de abalar.

A atenção veio junto.

Havia olhares demorados nela. Comentários fora de contexto. Convites que não precisavam ser feitos, mas eram. Alguns discretos. Outros, nem tanto.

Adriana via. E ignorava. Não por desinteresse, mas por escolha. Não precisava mais responder a tudo que surgia.

E, ainda assim, havia algo inevitável no efeito que causava. Ela percebia. E, em silêncio, aquilo a satisfazia mais do que gostaria de admitir.

Havia alguém em especial.

Ricardo Dudamel.

O número dois na XP.

Ele sempre estivera ali – mas distante o suficiente para não se impor.

Diferente dos outros, ele não insistia. Não atravessava. Não invadia. Apenas observava. Sempre ético e profissional. Respeitoso. E quando falava, era direto e preciso.

Havia precisão demais nele – e isso, às vezes, dizia mais do que ele mostrava.

Então veio a notícia. Sem preparação.

Ricardo estava se divorciando.

Motivo: diferenças irreconciliáveis.

O assunto percorreu os corredores com rapidez suficiente para que todos soubessem – e rápido demais para que alguém soubesse os detalhes.

Adriana ouviu. E seguiu. Mas… algo nela registrou. Um leve deslocamento interno. Nada que precisasse ser entendido. Ou que lhe fizesse perder noites de sono.

A rotina continuou igual, ao menos na superfície. Aos poucos, porém, deixou de ser.

Houve uma aproximação natural entre ela e Ricardo.

Primeiro, uma reunião mais demorada só os dois.

Depois, outra.

Projetos mais exigentes passaram a cair sob sua responsabilidade – sempre com ele por perto, acompanhando, testando, exigindo, refinando. E, discretamente, protegendo.

Adriana respondeu. E cresceu dentro disso.

O almoço veio depois – como consequência natural de um projeto entregue antes do prazo, que manteve um cliente difícil e superou expectativas.

- Vamos comemorar. Nós merecemos – ele disse, simples.

E ela foi.

A conversa começou no trabalho, mas não ficou nisso. Evoluiu sem esforço.

Ricardo era experiente demais para forçar qualquer direção. Sabia conduzir sem parecer conduzir.

Adriana percebeu, mas não recuou. Nem se intimidou. Havia ali uma segurança nova. Sólida. Consciente.

Depois vieram as mensagens. Primeiro pontuais. Depois mais frequentes. Sem excesso. Sem pressão.

Em algum momento, Ricardo confiou sua intimidade, se abrindo. Ele contou que fora traído. Falou da saudade dos filhos e da nova rotina dividida. Sem vitimização.

Adriana ouviu, sem se apressar em reagir. Ela sentiu sinceridade. E algo mais difícil de nomear.

Quando o convite veio, não foi surpresa.

- Vamos sair? Só nós dois.

Ela aceitou, pois já queria há algum tempo.

O encontro foi direto, sem rodeios desnecessários.

Conversaram. Riram. Se observaram. E, em algum momento, se beijaram. Sem esforço. Sem jogo aparente.

E dali foram para um motel onde tiveram a primeira noite ardente de muitas que viriam depois.

O relacionamento começou assim, sem definição formal, sem confusão.

Ricardo tinha presença e segurança. E controle. Do ambiente. Das conversas. Das pessoas.

E um charme contido – daqueles que não se impõem, mas permanecem.

Adriana reconhecia aquilo. E não ignorava. Mas também não se colocava abaixo. Sabia também o efeito que causava.

- E o Bruno?

A pergunta dele veio em uma noite qualquer, sem peso, mas como quem testa um território.

Adriana não hesitou.

- É passado.

Fez uma pausa curta.

- Perdemos o contato. Que ele esteja bem… porque eu estou.

E estava. Muito. Não da forma que imaginou, mas da forma que precisava.

Inevitavelmente pensou em Wanda.

Ela permaneceu à distância nesse tempo. Não era uma ruptura total, mas não havia reaproximação. Adriana simplesmente não se sentia pronta… ainda. Talvez nunca.

Continuava havendo um espaço silencioso entre duas pessoas que sofreram demais. Talvez um dia voltassem a se encontrar, mas não ainda.

Adriana não voltou a ser quem era. E também não tentou. Somente seguiu em frente. Mais consciente. Mais cuidadosa. E mais… difícil de quebrar.

E, ainda assim, algo nela permanecia em alerta.

No jeito como Ricardo a olhava.

No tempo exato das palavras.

Na precisão com que tudo acontecia.

Adriana percebia. E não ignorava. Mas também não se entregava por inteiro.

Dessa vez, ela jogava sabendo as regras.

Machucar-se de novo… não era mais uma opção.

***

Em Nova Iorque, Wis não se arrependia da decisão que havia tomado – mas também não se sentia completamente leve.

Sentia-se, antes, em um espaço intermediário.

Havia sido conveniente que Bruno comprasse a passagem usando o cartão corporativo da PHX. Seu pai, sem entender o contexto, perguntara se havia um novo encontro sendo combinado.

- Não, papai. Por que me pergunta isso?

- Porque ele comprou uma passagem para Nova Iorque. Pra próxima semana.

Wis entendeu. Seria uma surpresa. E ela não queria. Não naquele momento. Ele havia namorado Wanda. Tinha acabado de sair disso. E, acima de tudo, ela precisava de tempo – não para esquecê-lo, mas para existir fora dele.

No dia em que pediu para Bruno não vir, ficou algum tempo olhando o celular depois de encerrar a ligação. A tela apagou. Ela hesitou por um instante, mas não voltou atrás.

Havia também um pequeno incômodo – não exatamente culpa, mas algo próximo. Mentir não era algo que ela costumava fazer. Tyler? Foi conveniente. E necessário para Bruno não insistir.

Wis não queria vê-lo. Não daquela forma. Por isso, a mentira foi necessária. Assim, ela justificava. E tornava tudo tão… definitivo.

Ela respirou fundo, deixou o telefone de lado e seguiu em frente.

A rotina seguiu.

As semanas passaram com uma naturalidade quase surpreendente.

A rotina da faculdade, os trabalhos, as saídas. Nova York ajudava – tudo parecia sempre em movimento, sempre oferecendo algo novo. Wis acompanhava esse ritmo com facilidade.

As conversas mudaram.

Ou melhor – ela mudou dentro delas.

Passou a responder mais. A sustentar olhares por mais tempo. A não encerrar interações antes do necessário.

Havia algo diferente nela. Pequenas mudanças – suficientes. Uma novidade que não era visível por fora. Uma liberdade no coração.

Um dia, numa chamada em vídeo, Wendy fez uma pergunta que mais cedo ou mais tarde viria:

- Não vai me perguntar nada do Bruno?

Sorriu antes de responder.

- Não dessa vez.

Um silêncio curto veio depois. Não havia esforço na resposta, nem defesa, muito menos desvio. Só… não havia mais urgência.

- Tá – disse Wendy, depois, no mesmo tom leve. – Então me conta outra coisa.

E Wis contou.

Sobre uma aula. Sobre um professor em particular. Sobre uma fofoca envolvendo uma amiga. Sobre um lugar novo que tinha descoberto perto da faculdade.

Bruno não entrou na conversa. E definitivamente não fez falta.

Wanda entrou de outro jeito. Mais presente. Mais próxima. Mais leve.

As conversas entre as duas passaram a acontecer com uma frequência que não existia antes. Sem tensão. Sem território compartilhado. Sem precisar evitar nada por causa da outra.

Bruno deixara de se tornar um assunto comum.

Falavam de coisas novas. De gente nova.

Wanda ria mais. Wis também.

E, em meio a isso, surgiram comentários soltos – observações, sugestões, pequenas provocações que diziam mais do que pareciam dizer.

Wis ouvia. E guardava.

E, às vezes, se pegava ajustando pequenos detalhes – no jeito de olhar, no tempo de responder, na forma de conduzir uma conversa.

Não era imitação. Era observação, escolha e validação. E inspiração em quem merecia.

As amigas – Kelsi, Anna e Brenda – ficaram mais próximas ainda. O que antes orbitava o estudo passou a incluir convivência. Noites juntas, conversas longas, pequenos rituais que se repetiam sem esforço.

Pela primeira vez, Wis acumulava histórias que não passavam por Bruno.

Antes, ela via as coisas acontecendo ao seu redor e ignorava.

Na época, de fato, não fazia sentido olhar para outro lugar. Mas agora fazia, pois tudo era diferente e livre. Não como uma substituição, mas como uma abertura.

Tyler sempre estivera por perto. Mas agora ocupava espaço relevante.

Ele continuava o mesmo – sociável, confiante, arrogante, confortável demais em qualquer ambiente. Ria alto, se aproximava com facilidade, falava como se já tivesse intimidade suficiente.

Mas a diferença não estava nele.

Estava nela.

Wis passou a permitir mais. Aceitava convites. Permanecia mais tempo nos encontros. Interagia mais abertamente. Respondia perguntas e mensagens que antes deixaria passar.

E Tyler respondia de volta. Sempre. Cada vez mais empolgado e interessado. Havia uma insistência leve – quase natural – que, agora, encontrava espaço.

Matt também não era novidade, mas com ele, tudo acontecia de outro jeito.

Mais lento. Mais estável.

Diferente de Tyler, ele já conhecia o apartamento dela. Já tinha dividido jantares, estudos, conversas que avançavam sem esforço.

Era confortável, previsível e fácil de manter.

Era… semelhante.

E assim os encontros seguiram esse ritmo.

As meninas cada vez mais presentes e confidentes.

Tyler puxando para fora – música, gente, movimento.

Matt puxando para dentro – silêncio, proximidade, continuidade.

Três pequenos mundos. E Wis transitava sem dificuldade. Sem precisar escolher.

Ainda.

Em algum momento, percebeu algo.

Matt lembrava…

Não em tudo. Nem de forma direta. Mas lembrava. Na forma de ouvir. No jeito de pensar e de falar. Na maneira como parecia sempre entender antes de perguntar. Em como a olhava.

Mas ela não se demorou nisso. Não era o que queria. Não seria mais sobre isso. Pelo menos não por enquanto.

E Tyler era diferente. Previsível de um jeito confortável.

Wis se interessou por isso. E testou.

Pequenas coisas. Mudanças de tom. Silêncios calculados. Olhares sustentados um segundo a mais.

E ele reagia. Sempre com um sorriso, um comentário ou um gesto, sem perceber muito bem o quanto se ajustava.

Ela tomou nota. E gostou do resultado.

A ideia de que ele pudesse ser como Vitor passou por ela em algum momento. Passou – e não ficou.

Havia diferenças claras. Ele não invadia, nem forçava. E podia comer em sua mão.

Um sorriso confiante – quase desafiador – brotou em seu rosto.

“Sete anos…”

O pensamento surgiu sem aviso, como quem quisesse puxá-la para o chão.

Mas Wis não permitiu. Apenas deixou que passasse, como algo que não exigia decisão agora. E talvez nunca.

Numa noite, o apartamento estava silencioso e organizado como sempre.

Wis terminou de se arrumar com calma. Escolheu a roupa sem pressa. Ajustou o cabelo diante do espelho, observando mais o conjunto do que os detalhes.

Nada exagerado. Nada casual demais. Equilibrado. Ainda assim, cativante. E sedutor.

Seria a primeira vez de Tyler ali. O último dos cinco a ter tamanha honraria.

Era curioso e Wis sorriu de leve ao se atentar a isso.

Caminhou pelo apartamento, ajustando um detalhe aqui, outro ali – mais por hábito do que por necessidade.

Tudo no lugar.

Respirou fundo, tranquila.

Pegou o celular.

> Tyler: tô chegando

> Wis: OK

Deixou o telefone sobre a mesa.

Caminhou até a janela. Observou a rua por um tempo. O movimento constante. Gente indo e vindo. A cidade funcionando, vivendo. E ela também.

Quando o interfone tocou, virou-se sem pressa e foi atender.

Ele havia chegado.

A mentirinha se tornaria verdade.

...com um desconforto que preferia não entender.

Ainda.

***

A decisão de ir para Milão não foi impulsiva. Mas também não foi totalmente racional.

Foi, acima de tudo, aceita.

Wanda já conhecia aquela ideia há anos. Luciana e Ana Paula nunca tinham deixado de insistir.

Desde a época da faculdade, na Universidade de São Paulo, as duas falavam de morar fora como um plano inevitável – não imediato, mas certo. Depois de formadas, foram antes. Primeiro com insegurança, depois com estrutura.

E ficaram.

Milão deixou de ser experiência e virou rotina para as duas.

Elas não viviam com luxo, mas viviam bem.

Dividiam um apartamento funcional, próximo ao metrô, com espaço suficiente para não se sentirem apertadas – e pequeno o bastante para exigir organização.

Luciana trabalhava em uma agência de comunicação e eventos corporativos. Rotina intensa, prazos curtos, clientes exigentes.

Ana Paula escrevia. Produzia conteúdo para plataformas digitais – turismo, gastronomia, cultura. Freelance no começo. Depois, recorrente o suficiente para se sustentar.

As duas construíram aquilo aos poucos, sem facilidade. Mas com consistência.

Wanda sempre fora convidada. Sempre recusava. Até então.

Quando chegou à Itália, não trouxe um plano fechado. Trouxe tempo.

A herança lhe dava espaço. E o pai, como sempre, deixou claro que ajudaria se fosse preciso.

Mas Wanda não queria depender. Queria se encontrar.

Os primeiros meses não ajudaram nisso. Milão era bonita, mas emocionalmente distante.

O idioma exigia atenção constante. As conversas ao redor escapavam em fragmentos. O silêncio dentro do apartamento, à noite, parecia maior do que deveria – mesmo com as amigas por perto.

E Bruno ainda estava lá. Não fisicamente. Mas presente.

Wanda chorava em dias específicos. Sem padrão. Sem aviso.

Às vezes, ao acordar. Às vezes, ao voltar de algum lugar. Mais frequentemente à noite.

O celular iluminava o seu rosto. Via perfis, fotos e stories. Bruno e Adriana. E voltava, repetindo o ciclo.

Havia um ciúme que não fazia sentido. Infantil. Como se, a qualquer momento, os dois pudessem se reorganizar – e ela ficasse de fora.

Ou, pior… Bruno e Wis.

Mas o tempo passou. E nada aconteceu. Nenhum deles voltou para o outro. E aquilo acalmou.

Não resolveu. Mas acalmou.

- Você não vai ficar em casa de novo – disse Luciana, já pegando a bolsa.

- Nem pensar – completou Ana Paula.

Wanda suspirou. Não queria ir, mas foi.

A cidade começou a se abrir aos poucos. Não de uma vez, mas em partes. Primeiro os cafés. Depois baladas. As ruas estreitas. O movimento constante. As conversas que ela começou a entender sem perceber quando.

Então, Ana Paula trouxe os primeiros trabalhos. Textos curtos, diretos. Conteúdo institucional. Revisões. Produções rápidas.

Luciana puxou o resto. Eventos. Bastidores. Organização. Contato com fornecedores.

Wanda começou ajudando. Depois passou a participar. Depois, a assumir partes. Era diferente do que fazia antes. Mas fazia sentido de um jeito que ela não precisava explicar.

A comunicação ali não era só escrita. Era ambiente, experiência e gente. E ela começou a gostar.

Foi em um desses eventos menores – uma ativação de marca em um espaço mais reservado – que Lorenzo Cassano apareceu pela primeira vez.

Não como cliente. Nem como anfitrião. Mas como fornecedor.

Os vinhos eram dele.

Wanda o viu antes de falar. E ele percebeu.

Lorenzo não chamava atenção de forma óbvia. Mas sustentava presença.

Alto. Bonito – mais do que ela estava acostumada a admitir sem pensar. O sorriso tinha um leve desvio, quase irresponsável, que contrastava com a forma tranquila com que se posicionava.

Ele não parecia tentar – e talvez fosse por isso que funcionava.

- Você que organizou isso? – ele perguntou, em inglês, olhando ao redor.

- Uma parte – respondeu Wanda.

A conversa começou ali. E seguiu.

Ele falava dos vinhos como quem conhecia mais do que o produto. Falava do processo. Da escolha. Do tempo.

- Meu pai começou – disse. – Eu só continuei.

Wanda falou pouco. Do básico. Do Brasil. Do trabalho. Não disse tudo. Mas não mentiu sobre nada.

- E você? – ela perguntou, um pouco arrependida depois.

Ele sorriu.

- Estou solteiro.

Pausa leve.

- Faz mais de dois anos.

Ela esperou.

- Descobri que minha ex namorada preferiu outra companhia – completou, sem peso. – Meu ex melhor amigo.

Wanda assentiu. Entendeu sem precisar perguntar.

Os encontros passaram a acontecer com naturalidade. Eventos. Fornecimentos. Algumas visitas à loja dele, sempre com as amigas.

Ela resistia – não por decisão clara, mas por hábito. Bruno ainda ocupava espaço.

Apesar disso, Lorenzo não pressionava, mas também não desaparecia. Estava sempre por perto. Disponível. Interessado. Como se ela fosse uma escolha – não uma oportunidade.

- Ele é lindo – disse Luciana, direta.

- E sabe disso – completou Ana Paula.

- Ele não parece – respondeu Wanda, rindo.

As amigas não insistiram muito, porém.

Numa videochamada, Wendy ouviu e Wis sorriu.

- Dá uma chance – disse a caçula.

- Verdade – completou Wendy.

Wanda não respondeu. Nem que sim, nem que não. O tempo fez o resto.

Bruno não deixou de existir. Mas deixou de ocupar tudo.

Numa tarde, Wanda não foi trabalhar. Decidiu ir até a loja de Lorenzo.

Escolheu a roupa. Ajustou o cabelo. Demorou mais do que precisava.

Quando entrou, sozinha, Lorenzo percebeu na hora. Seu olhar mudou – mais atento.

- Você veio – disse ele.

- Sim.

Ele pegou uma garrafa. Edição nova. Começou a explicar, como sempre fazia.

Wanda ouviu.

O espaço parecia menor, mais silencioso. Ela deu um passo na direção dele.

- Eu não vim só pelos vinhos.

Lorenzo não respondeu. Aproximou-se também. Como quem já sabia.

E a beijou.

Wanda não recuou. Correspondeu.

Mas não deixou de sentir o que tentou deixar para trás.

Só… escolheu continuar.

...com um desconforto que preferia não encarar.

Ainda.

***

Lucas estacionou o carro com cuidado, desligando o motor sem pressa. Por alguns segundos, ninguém falou.

- É aqui? – ele perguntou, olhando para o prédio imenso e luxuoso.

Wendy assentiu.

- É.

O silêncio voltou. Curto. Presente.

Lucas saiu primeiro.

Abriu o porta-malas e puxou a primeira mala. Depois a segunda. Hesitou antes de pegar a mochila– como se aquilo confirmasse algo que ainda não tinha aceitado completamente.

Wendy deu a volta no carro.

- Eu ajudo.

- Não precisa.

Ele fechou o porta-malas com mais força do que o necessário.

Entraram no prédio sem trocar muitas palavras. Na portaria, já havia autorização.

O elevador chegou rápido. Entraram.

O espaço fechado amplificava o que nenhum dos dois dizia.

Lucas olhava para frente.

Wendy para o painel.

- Você tem certeza disso? – ele perguntou, sem desviar o olhar.

Wendy respirou.

- Tenho.

Ele assentiu, mas continuava pouco convencido.

- Você podia ficar lá em casa.

Ela já sabia que viria essa sugestão.

- A gente já falou disso.

- Falou, mas não faz sentido – ele respondeu, agora olhando para ela. – Qual o problema?

- Meus pais não deixam.

A resposta veio simples – direta demais para discussão.

Lucas soltou um ar curto, quase uma risada sem humor.

- Mas deixar você ficar aqui pode?

Wendy hesitou por um segundo. Pequeno.

- Bruno é praticamente da família – disse. – Aliás, sempre foi. Quase um… irmão.

- Irmão…

Havia deboche ali. Wendy ignorou.

O elevador continuou subindo.

- E por que você não fica na sua casa? – ele insistiu.

- Porque aquela casa é grande demais pra uma pessoa só. Já disse isso. Não quero ter que repetir toda vez.

A resposta saiu rápida. Mais curta do que o normal.

Chegaram no andar.

Lucas ajustou a mochila no ombro, as malas nas duas mãos.

- Ainda não faz sentido.

Wendy virou o rosto.

- Nem tudo precisa fazer sentido pra você.

O silêncio voltou. Mais pesado.

O elevador abriu.

O corredor tinha cheiro de novo. Limpo. Brilhante.

Wendy olhou ao redor por um instante.

Era bonito.

Lucas percebeu.

- Ele se mudou pra cá recentemente, né?

Wendy assentiu. E não disse mais nada.

Caminharam. Passos lentos.

- Eu não gosto disso – Lucas disse, sem rodeios.

Wendy parou e virou-se para ele.

- Lucas…

Ele não esperou.

- Você vai morar com outro cara.

Ela sustentou o olhar.

- Não é “outro cara”.

- Não muda o fato de que ele é um homem – ele retrucou, apertando a mandíbula por um instante.

Wendy deu um passo à frente.

Ajustou a mochila no ombro dele, quase sem perceber o gesto.

- Não há nada pra você se preocupar.

Ele não respondeu.

Ela se aproximou e o beijou.

Curto – firme o suficiente para encerrar a conversa.

- Eu sou sua namorada – disse, baixa. – Esqueceu?

Lucas a olhou por alguns segundos. Ainda havia algo estranho ali. Mas ele assentiu.

- Tá.

Respondeu não porque acreditou, mas porque decidiu parar.

Ela o beijou de novo. E mais uma vez.

Caminharam os últimos passos. Pararam diante da porta.

Wendy ficou imóvel por um instante.

Não o bastante para parecer hesitação. Mas suficiente.

Respirou.

Ergueu a mão e apertou a campainha.

O som ecoou pelo corredor.

Um segundoEntão, a maçaneta girou.

***

No começo, Henrique não viu problema algum. Bruna sempre falou muito. Do trabalho, das amigas, da mãe, de coisas pequenas que preenchiam o dia. Era o jeito dela.

Mas, aos poucos, um nome começou a aparecer com mais frequência.

Bruno.

No início, era pontual. Depois, constante.

- Ele fala de um jeito que prende todo mundo – comentou certa vez, durante o jantar. – Não é nem o conteúdo… é como ele constrói o raciocínio. Ele deve ser multimilionário. Os novos clientes preferem ele. Disparadamente.

Henrique assentiu.

- Deve ser bom nisso, então.

- Muito.

Ela continuou falando.

Não com entusiasmo exagerado. Nem com brilho diferente. Apenas… mais do que o normal.

Henrique não comentou. Mas passou a notar.

Vieram outras coisas. Pequenas. Quase nada.

Bruna começou a se arrumar mais para o trabalho. Nada chamativo – só mais alinhado. Mais atento aos detalhes.

- Ambiente corporativo de alto nível – disse, quando ele comentou. – Não dá pra ir de qualquer jeito.

Ela passou a chegar um pouco mais tarde com certa frequência.

- Reunião esticou. O mercado fechou em polvorosa. Viu a nova crise surgindo? – ela justificava.

Ou:

- Fechamento de mês. O relatório estava complicado de concluir.

E também:

- Problema de última hora. Depois te explico.

Tudo plausível. Ao menos aparentemente.

O celular começou a ficar mais próximo dela. Nada explícito. Mas não ficava mais largado pela casa como antes.

Henrique não disse nada. Mas observava cada vez mais atento.

- Você anda falando bastante desse cara – comentou, uma noite, como quem não quer nada.

Bruna riu.

- Você tá implicando.

- Só comentando.

- Henrique… – ela balançou a cabeça, ainda sorrindo. – Ele é meu chefe.

E mudou de assunto, com naturalidade demais para ser questionada.

Henrique esperou. Observou por mais um tempo. E então decidiu verificar.

O celular foi o primeiro. Mensagens. Conversas. Grupos de amigas. Áudios longos. Comentários soltos. O nome de Bruno aparecia – mas diluído, sem destaque evidente. A conversa com ele? Protocolar. Direta. Sem evidência de qualquer mensagem removida.

Nenhum outro indício.

Nenhuma intimidade.

Olhou o backup em nuvem – que ela nem sabia que existia. Nada também.

Contratou um detetive. Nenhuma quebra.

Colocou um gravador de voz na bolsa. Esperou uns dias. Nada. Deixou por duas semanas. Nada que sustentasse a suspeita.

Em frente ao prédio onde ficava a PHX, tudo parecia normal. Pessoas entrando, saindo, a rotina acontecendo sem qualquer anormalidade.

Era sempre ausência. E, ainda assim, não parecia ausência.

Henrique começou a desconfiar da ausência de evidência. Era limpo demais. Controlado demais.

E também passou a se irritar com a própria insistência – mas não conseguia parar.

Uma hipótese veio quase pronta um tempo depois.

A sala dele. Nos horários vazios. No fim de expediente. Ninguém veria.

Quando Bruna avisou que ficaria até mais tarde, ele não respondeu na hora. Apenas anotou.

Naquela noite, ficou de plantão.

Carro estacionado, motor desligado. Esperou. Observou.

Bruno saiu antes. Muito antes. Sozinho. Sem pressa. Entrou no carro e foi embora.

Henrique franziu o cenho.

Ficou mais um tempo. E muito mais tempo. Então, Bruna saiu. Cansada. A mente claramente fervilhando. Uma pilha de papeis no braço. Também sozinha.

Não fechava. Mas também não resolvia.

Ele começou a perceber outra coisa.

Bruna não falava de mais ninguém na PHX. Só de Bruno. Não fazia sentido para ele.

Então, veio o convite algumas semanas depois. Evento de fim de ano da PHX. Ela comentou casualmente.

- Vai ter aquela confraternização da empresa.

Henrique levantou os olhos.

- Ano passado você foi sozinha, né?

- Fui. Você não quis ir, né?

- Esse ano eu vou.

Ela hesitou por um segundo. Curto. Depois sorriu.

- Claro. Vai ser ótimo ter você lá comigo.

Veio o grande dia.

O evento era maior do que ele imaginava. Organizado. Elegante. Gente bem vestida, conversas distribuídas, música no volume certo.

Henrique entrou atento, observando.

Bruna estava diferente ali. Mais formal. Mais contida. Profissional. E muito elegante.

Bruno apareceu em algum momento. Cumprimentou a todos. Educado. Distante. Inalcançável.

- Boa noite – disse ele, simples.

- Boa noite – respondeu Henrique.

Nada além.

Durante a noite, Henrique observou interações e movimentos.

Não havia nada. Nem proximidade. Nem sinal. Bruna mal falava com ele. E vice-versa. Sequer se olhavam.

Quando falavam, era rápido. Protocolar. Como parte do serviço. Como com qualquer outra pessoa.

Henrique começou a se sentir… deslocado.

Bruna voltou à mesa, sentando-se ao seu lado, agindo naturalmente. Havia outros casais ao redor. As conversas seguiam, cruzadas, em temas que ele não acompanhava.

Em um momento, pediu licença, levantou e foi até o bar.

Ficou ali, mais afastado. Observando de longe. Tentando encontrar alguma coisa que fizesse sentido.

Ao dar dois passos para o lado, esbarrou em duas mulheres.

- Desculpa – disse, automático.

Uma delas o olhou com atenção.

- Você é…?

- Henrique – respondeu. – Namorado da Bruna.

A mulher fez uma expressão breve de dúvida.

A outra, no papel de uma assistente, interveio:

- A Bruna… secretária do Bruno.

- Isso – disse Henrique, tentando soar simpático.

- Ahhh… – disse a primeira, agora entendendo.

Ela sorriu e estendeu a mão.

- Prazer. Wendy.

O nome passou rápido. E ficou.

Ela ajustou discretamente um detalhe na mesa antes de voltar a atenção para ele.

- Está gostando do evento? – ela perguntou, com gentileza.

- Sim… está muito bom.

- Qualquer coisa, me chama. Estou por aqui.

Ela disse com naturalidade, segurança e presença.

Henrique assentiu. Mas, por um instante, não respondeu. Estava olhando por tempo demais para denunciar o seu encanto.

- Pode deixar – murmurou, quase sem força.

Wendy sorriu e voltou ao fluxo do evento.

Dava instruções. Ajustava detalhes. Circulava. Falava com pessoas diferentes como se soubesse exatamente o que precisava acontecer para tudo funcionar.

Ela parecia não fazer esforço algum. Como se tudo funcionasse a partir dela.

Henrique permaneceu ali, parado por mais um tempo.

Ainda observando.

Mas não mais Bruna.

E nem Bruno.

Apenas aquela bela organizadora – que, sem precisar, dominava o ambiente.

***

Vitor não vivia, funcionava.

Os dias se repetiam com precisão mecânica. Acordava, vestia-se, respondia, decidia. Cumpria.

Wanda estava em Milão, com outra vida. Outro ritmo. Outro mundo. E sem ele.

Ele tentou aceitar. Repetiu isso a si mesmo até perder o significado das palavras.

Aceitar. Seguir. Focar.

Mas havia sempre uma distorção. Uma insistência.

Se ela ainda estivesse em São Paulo… mesmo com Bruno… talvez ainda existisse alguma fresta. Algum erro. Alguma falha. Mas ela não estava.

E, pela primeira vez, a realidade não oferecia brechas. Nem para alguém como ele.

O pai ocupou o espaço que restava, com sua voz visceral.

- Chega de brincar de advogado, chega de dar dor de cabeça.

Não era um pedido. Nunca foi.

A fábrica tornou-se sua rotina.

Processos. Reuniões. Fiscalizações. Planilhas.

Repetição.

Ao fim do dia, a mente já não retinha nada. Apenas peso. Uma sensação contínua de desgaste sem propósito.

Nos fins de semana, o corpo parava. A mente não.

Ignorava mensagens. Recusava convites. Evitava qualquer possibilidade de interação que exigisse mais do que presença física.

Os contatinhos que antes eram fáceis, acessíveis, quase automáticos – agora pareciam irrelevantes. Nada despertava. Nada preenchia.

Apenas Gustavo, que estava sumido, conseguiu tirá-lo da inércia.

O encontro foi neutro. Um bar comum. Chope gelado. Um jogo do Palmeiras na televisão.

- Como tem suportado? – perguntou Gustavo, com cuidado.

- Não tenho.

Simples. Direto. Sem defesa. Gustavo percebeu.

- Soube que ela foi embora.

Vitor sustentou o olhar por um instante antes de desviar.

- Sabe o que é mais louco? – disse, depois de um tempo – Ela é a mulher da minha vida. Mesmo diante de todas as loucuras que fiz… as que fizemos também… é com ela que eu me via. Envelhecendo, com filhos e netos.

Houve um silêncio.

- Às vezes não é para ser, mano.

Vitor soltou um riso curto. Não era discordância. Era esgotamento.

- O divórcio saiu?

Ele assentiu, com certa melancolia.

- E você? – foi a vez de Vitor questionar – Esqueceu mesmo Adriana?

- Tô em outra. Pensando até em casar.

- Bom pra você.

Outro silêncio.

- Saí daquela vida – disse Gustavo, depois de um tempo – Não valeu a pena.

Vitor ouviu, mas não absorveu.

Assistiram ao resto do jogo sem realmente assistir. O Palmeiras acabou perdendo do Grêmio.

Na semana seguinte, apareceu uma viagem de negócios para fazer de última hora.

Destino: Portugal.

Pelo menos dez dias. Vitor e mais dois supervisores da empresa.

E uma ideia louca lhe ocorreu.

A primeira semana na cidade do Porto transcorreu como se esperaria. O objetivo da visita foi cumprido. Acordos foram reafirmados, com melhores condições.

No fim de semana, Vitor resolveu esticar.

Visitaria Milão.

Era uma decisão impulsiva, sem maiores planejamentos.

Sem Wanda saber. E não teria como ela saber, afinal. Vitor estava bloqueado.

Porém, havia Luciana, a quem ele conhecia.

Mesmo relutante, ela passou o endereço, mas não antes de fazer uma promessa.

> Luciana: Você só vai vê-la de longe, ok? E ela não pode saber de nada. Se fizer algo a mais que isso, eu mesma vou expulsá-lo desse país na base da porrada.

Vitor concordou com os termos.

E foi.

O domingo em Milão estava claro demais. Quase ofensivo.

Ele esperou do outro lado da rua. Sem se esconder. Sem se expor. Apenas… presente.

Quando Wanda apareceu, não houve dúvida.

Era ela.

Mas havia algo diferente. Não no rosto. No peso. Ou melhor – na ausência dele.

Ela estava leve. Inteira. Livre. Sorria com facilidade. Caminhava sem pressa. Observava o mundo ao redor como quem pertence àquilo.

Vitor a seguiu numa distância calculada.

Ela parava. Olhava vitrines. Retomava o caminho. Uma rotina que parecia conhecer bem.

Por um breve instante, algo ainda tentou resistir. Talvez ela pensasse nele. Talvez ainda houvesse algo. Talvez…

Ela parou.

Era uma loja de vinho.

A porta se abriu e um homem saiu de dentro. Seguro. Natural. Com presença e um sorriso acolhedor.

À vontade naquele espaço.

Não foi surpresa para ela. Foi reconhecimento.

Wanda sorriu.

Eles se aproximaram e um abraço caloroso veio fácil, próximo demais, íntimo ao extremo.

A mão dela permaneceu no braço dele por um instante a mais.

E então o beijo. Calmo. Seguro. Sem hesitação. Sem conflito. Sem passado.

Vitor não reagiu imediatamente. Seus olhos registraram. Seu corpo demorou. Como se recusasse a acompanhar. Mas acompanhou. E, quando acompanhou, não houve impacto. Houve silêncio interno e completo.

Que mais ele precisava saber?

Virou-se. Não correu. Não hesitou.

Apenas saiu.

Caminhou sem direção, sem pressa e sem urgência.

Parou numa praça. Sentou-se. O mundo seguia. Pessoas falavam. Riam. Viviam. Pombos voavam próximo.

Mas aquilo não o alcançava mais.

Respirou fundo. Uma vez. Outra. O ar parecia não preencher.

Fechou os olhos. E, pela primeira vez, não tentou argumentar contra a realidade. Não tentou reinterpretar. Não tentou salvar nada. Não havia mais nada a salvar.

Wanda não era mais dele. E nunca voltaria a ser.

Quando abriu os olhos, algo havia sido encerrado. Não curado. Finalizado.

Levantou-se e caminhou em direção ao aeroporto.

Nos primeiros passos, a mente não buscou lembranças.

Ele queria estrutura, ordem e controle.

E encontrou um caminho para isso. Com frieza e simplicidade. E de forma definitiva.

Amor era perda. Vínculo era fraqueza. Expectativa era erro.

E ele não erraria novamente.

Não se colocaria naquela posição outra vez. Não dependeria de ninguém. Não esperaria por ninguém. Não sentiria por ninguém.

O que restava era funcional.

Direto. Controlável. Apenas pelo seu próprio prazer. Sem história. Sem vínculo. E sem nome, se possível.

Mulheres deixariam de ser pessoas em sua vida. Seriam… recursos. Acessos momentâneos de luxúria. Instrumentos de descarga. Nada além disso. Nem depois.

Nenhuma delas pisaria onde Wanda esteve. Nenhuma delas teria permissão para isso. Nunca mais.

O celular vibrou.

> Luciana: conseguiu vê-la?

Ele leu. Por um segundo, considerou ignorar.

Mas não. Resolveu encerrar tudo de uma vez.

Bloqueou ela. E Wanda.

E Gustavo também.

Sem pausa. Sem revisão. Sem retorno.

Guardou o celular.

Viu um táxi se aproximando.

Milão seguia viva e indiferente a ele. Como Wanda.

Vitor fez o mesmo.

E, pela primeira vez desde que a perdeu, não tentou mais alcançá-la.

Nunca mais tentaria.

Ele se transformaria em outra coisa.

E, dessa vez, sem erro.

***

Bruno tinha dito que passaria a noite fora. Mesmo com liberdade, Wendy perguntou se poderia trazer suas amigas – queria fazer uma noite das meninas. Ele riu e disse que ela nem precisava pedir permissão.

Então, elas vieram.

Ana Cristina, sempre direta. Camila, sempre equilibrada. Elaine, a expansiva. E Andréa, a observadora.

- Meninas, uma selfie – pediu Wendy.

Foto tirada e publicada no insta. Legenda simples: “Mais uma noite das meninas”.

As curtidas vieram rápido. Comentários também. As pessoas de sempre, incluindo Bruno com seu simples “❤️”.

O celular vibrou logo depois.

> Lucas: mané ❤️ pra ti hein

> Wendy: 😂😂😂😂

> Wendy: deixa de ciúmes, seu bobo

> Wendy: minhas irmãs também mandaram coração

> Lucas: falou bem… ele não é seu irmão

> Wendy: aff

> Wendy: você é o **MEU** namorado

> Lucas: 🥰

> Lucas: então… domingo é meu né

> Wendy: é 🥰

> Lucas: aí?

> Wendy: aqui não dá 😓

> Wendy: o ap não é meu

> Lucas: 😡

> Wendy: enjoadinho 😚😚😚

> Wendy: vou ficar com as meninas

> Wendy: depois a gente se fala

Wendy largou o celular de lado.

A conversa ainda ecoava em algum lugar.

A noite estava leve demais para caber qualquer estresse.

Petiscos estavam espalhados pela mesa. Smirnoff Ice sendo aberta uma atrás da outra. Na TV, um sertanejo universitário qualquer preenchia o ambiente.

Elas falavam alto. Riam fácil. Interrompiam umas às outras.

Era sempre assim.

Até que, inevitavelmente, o assunto Bruno entrou em pauta.

- E aí – Elaine se jogou no sofá, olhando diretamente para Wendy –, seu colega de quarto ainda tá conhecendo aquela menina? Como é o nome dela mesmo?

- Juliana – respondeu Andréa, sem levantar os olhos.

- Tá esperando pra dar o bote é, sua safada? – provocou Ana Cristina.

Risos.

Camila balançou a cabeça.

- Gente… ele terminou com a Wanda. Foi pesado. Deixem o cara respirar.

- Pode respirar comigo, se quiser – Elaine rebateu, imediata.

- Você não teria chance – disse Andréa, seca.

Elaine virou o rosto.

- Por quê?

- Porque não é assim que funciona.

- Ah, claro. E você sabe como funciona?

- Mais do que você.

Ana Cristina riu.

- Eu só sei de uma coisa… se ele quisesse, não ia faltar opção aqui.

- Isso é verdade – disse Camila, olhando para Wendy. – Você já viu essa tal Juliana?

- Nunca – respondeu Wendy. – Ele nunca falou dela comigo. Só ouvi o nome pela Érica…

- Quem é Érica? – perguntou Elaine.

- Melhor amiga dele. Conheci recentemente.

- Hum.

Elaine pegou a garrafa, deu um gole.

- Então chama ele pra sair com a gente qualquer dia desse.

Wendy não respondeu.

- Quero ver de perto – continuou Elaine. – Se for tudo isso mesmo…

- Lucas vai adorar saber disso – comentou Andréa.

Ana Cristina soltou uma risada curta.

- O Lucas já tá se saindo pior que a encomenda.

- Tá mesmo – concordou Elaine.

Wendy ergueu os olhos.

- Também não é assim.

Ana Cristina se inclinou.

- Não? Cheio de ciúmes exagerados e cobranças chegando além do aceitável…

Wendy respirou fundo.

- Eu entendo ele. Só isso. Não é exatamente comum eu estar morando com… outro homem.

- E mesmo assim você tá aqui – disse Elaine.

- Porque meus pais preferem assim.

- Seus pais – repetiu Ana Cristina, com um sorriso enviesado.

Wendy devolveu o sorriso.

- Vocês me conhecem.

Andréa finalmente olhou direto para ela.

- Conhecemos. Por isso mesmo.

Um silêncio curto se formou.

Foi Elaine quem quebrou, pressionando.

- Então? Vai chamar ele ou não?

Wendy passou a mão no cabelo.

- Falo com ele.

- Boa – Elaine se jogou mais fundo no sofá, satisfeita.

Ana Cristina não deixou passar.

- E se ele quiser ficar com outra?

Elaine virou na hora.

- Com quem?

- Ué… – Ana Cristina deu de ombros – comigo, por exemplo.

- Você nem demonstrou interesse.

- Não precisei.

Camila falou, calma:

- Eu ficaria.

Andréa deu um meio sorriso.

- Se estivesse solteira, eu também.

- Tá vendo? – disse Ana Cristina. – Mercado aberto.

- Menos a Wendy – completou Camila.

- É… menos ela – reforçou Ana Cristina.

Todas olharam para a anfitriã. Sem disfarçar.

- Sério mesmo? – perguntou Elaine, inclinando a cabeça. – Você não ficaria com ele?

Wendy abriu a boca para responder.

Parou.

Demorou um segundo. Mais do que deveria.

A sala pareceu menor.

Uma imagem passou – rápida demais para ser racionalizada.

Ela desviou o olhar.

- Gente… eu namoro.

- Isso não foi a pergunta – disse Andréa.

Silêncio.

Ana Cristina observava. Elaine sorria de lado. Camila esperava. Andréa sustentava o olhar.

Wendy respirou.

- Não – disse, firme. – Jamais.

Pausa.

- Ele tem história com minhas irmãs. E eu não vou me meter nisso.

A resposta veio correta. Pronta. Organizada.

Mas não encerrou o assunto.

- E se não tivesse? – insistiu Elaine, mais baixa. – Só vocês dois aqui… sozinhos… por meses.

Wendy não respondeu.

E foi isso que entregou.

Ana Cristina soltou um riso baixo.

- Olha a cara dela.

- Eu vi – disse Andréa.

Wendy pegou o copo. Bebeu rápido demais.

- Não – repetiu. – Tem tanto homem no mundo. Por que justamente ele?

- Boa resposta – disse Camila.

- Eu ficaria – reforçou Elaine.

- Eu também – Ana Cristina completou.

- Na próxima balada, a gente resolve isso – Elaine concluiu.

- A bola tá com você, Wendy.

Ela assentiu.

- Tá.

Mas não olhou para ninguém.

Pegou o celular. Desbloqueou. Bloqueou de novo.

- Enfim… vocês viram que o paquera da Camila voltou de viagem?

Mudou o assunto rápido demais.

Ninguém insistiu mais, nem esqueceu.

Wendy encostou no sofá, ouvindo as amigas partirem para outro assunto.

Ria quando precisava. Respondia quando chamavam.

Presente o suficiente.

Mas não por completo.

E isso não passou despercebido.

***

A viagem não foi improvisada. Mas também não seguiu um roteiro rígido. Seria apenas um tempo deles.

Trajano, Cecília e Marluce decidiram ir – e foram. E viveram o amor que só existia entre eles.

Primeiro, a Europa. Depois, os Estados Unidos.

Sem pressa. Sem compromisso de cumprir tudo. Sem tempo para retorno. Apenas passando por lugares que, por algum motivo, sempre desejaram vivenciar juntos.

Começaram por Lisboa. Depois seguiram para a Itália.

Milão.

Wanda os recebeu e os levou ao seu apartamento. Ela estava mais madura e estável, colocando-se em primeiro lugar.

Luciana e Ana Paula estavam por perto, reforçando que Wanda nunca estaria sozinha.

O espaço era simples, bem organizado. Nada excessivo. Nada improvisado.

Trajano observou. Cecília também. Sua filha estava bem.

Nos dias seguintes, conheceram Lorenzo Cassano e seus vinhos.

A conversa foi breve. Educada. Lorenzo falava com segurança, sem exagero. Olhava para Wanda com atenção, mas sem invadir.

Depois, apenas um comentário:

– Bom gosto para vinho.

E nada mais foi dito.

Seguiram viagem.

Roma. Florença. Barcelona. Madrid. Londres.

Paris ficou de fora.

- Paris eu vou primeiro com o Bruno – disse Marluce, em tom leve.

Trajano e Cecília entenderam. E respeitaram.

Dos aeroportos europeus, foram para os Estados Unidos.

Nova Iorque.

Wis os recebeu com uma energia diferente – mais solta.

Mostrou o apartamento, a faculdade, os lugares que frequentava. Apresentou seus amigos.

Tyler era o que mais chamava atenção. Matt, por outro lado, era o mais reservado. As amigas de Wis lembravam as de Wendy – próximas, presentes, confiáveis.

Em algum momento, Marluce comentou baixo com Cecília:

- Esse Matt…

Cecília assentiu.

- Lembra um pouco o Bruno.

Trajano ouviu. Concordou também.

A viagem seguiu.

Foram à Filadélfia. Subiram a escadaria do Rocky.

Foram para Boston e assistiram a um jogo do New England Patriots na neve. Trajano gostou mais do que esperava. Marluce, por sua vez, sentiu frio. Cecília riu dos dois.

Foram para Miami, onde compraram mais do que deveriam. E terminaram em Orlando, visitando a Disney.

No retorno para o Brasil, foram recebidos no aeroporto.

Wendy estava lá, com Bruno. E também com Remo e Érica.

A cena era simples. Natural. Mas, por um instante, chamava atenção.

Remo e Érica lado a lado, como sempre. Wendy ao lado de Bruno, sem contato – como irmãos. Nada fora do lugar. Mas também… nada exatamente explicado.

Mas um segundo a mais de silêncio existiu ali.

- Vocês vieram juntos? – perguntou Cecília.

- Viemos – respondeu Wendy, sem detalhar porque Lucas não estava também.

Ninguém comentou.

Vieram os cumprimentos, abraços e conversas leves. Tudo conforme o script.

No caminho para casa, Wendy voltou com seus pais enquanto Bruno foi com sua mãe.

Falaram da viagem. Milão. Nova Iorque. Boston. A neve.

Riram um bocado. Havia leveza.

Afinal, era a filha que não dava trabalho.

A rotina retomava ao seu lugar de origem.

Mais tarde, já em casa, Trajano chamou Wendy. Cecília estava por perto.

- Agora você pode voltar – disse ele. – Sei o quanto deve ter sido difícil para você, meu anjo. Não precisa mais ficar lá no apartamento do Bruno. Agora que voltamos, não devemos viajar tão cedo…

Wendy ouviu.

- Eu sei.

Pausa curta.

- Mas eu prefiro continuar lá.

Silêncio breve.

- Lá? – repetiu Cecília.

- Fica mais fácil pra mim. USP, SENAC… rotina.

Simples. Direto. Convincente.

- E o Bruno tem sido um ótimo colega de quarto.

Ela sorriu. Era genuíno. Não havia malícia. Nem segundas intenções. Nada além disso.

Trajano olhou para Cecília. Depois assentiu.

- Por mim, tudo bem.

Cecília também.

- Se está funcionando, não tem por que mudar.

E ficou decidido.

Sem debate. Sem resistência. Sem qualquer ajuste adicional.

Como se fosse apenas mais uma escolha prática.

E era.

Ou não?

***

Wis já sabia. Wanda também.

Wendy estava morando com Bruno.

Nenhuma das duas falou muito sobre isso. Não porque não fosse estranho. Mas porque, de algum jeito, parecia apenas… neutro.

Era Wendy. E isso bastava.

Anoitecia em Nova Iorque quando Wis voltou para casa com o corpo leve.

O elevador subiu em silêncio, refletindo seu rosto no espelho. O cabelo solto, a maquiagem ainda intacta, um sorriso discreto que insistia em ficar.

Ela vinha de mais uma saída com Tyler. Simples e excitante. Sem peso. Para viver. Como ela queria.

Abriu a porta do seu apartamento. Entrou. Deixou a bolsa no sofá. Respirou fundo. Tudo estava no lugar.

Em Milão, a madrugada se aproximava enquanto Wanda fechava a porta do apartamento com cuidado.

O silêncio indicava que Luciana e Ana Paula já dormiam.

A cidade ainda pulsava lá fora. Ali dentro, havia calma.

Ela encostou a bolsa. Passou a mão pelo cabelo, depois os dedos nos lábios. O gosto do vinho ainda estava ali. E algo mais.

No mesmo instante, o celular de Wanda acendeu, o de Wis vibrou. Ambas olharam. E franziram o cenho.

Wendy.

Ligação de vídeo.

Pararam por um instante.

Wendy quase não ligava. Não assim, meio inesperadamente.

As duas ficaram imóveis. Em lugares diferentes, mas com a mesma sensação estranha.

Algo fora do esperado.

Wis atendeu primeiro.

A imagem demorou um segundo a se formar.

Instável.

Granulada.

Wanda entrou logo depois.

As três estavam na tela.

E o silêncio veio antes de qualquer palavra.

Foi Wanda quem percebeu primeiro.

Algo tinha mudado.

Wis se inclinou. E perguntou:

- Wendy…?

A imagem estabilizou.

E ficou impossível não ver.

Olheiras marcadas.

Rosto cansado.

O cabelo desalinhado.

Mas não era só isso.

Wanda endireitou o corpo, sem perceber.

Wendy tentou sorrir. Quase conseguiu.

Respirou fundo.

E, naquele gesto, havia algo poderoso.

Wis sentiu primeiro um aperto, mas não de medo.

De antecipação.

- O que aconteceu? – perguntou a caçula, voz baixa, rouca.

Wendy não respondeu de imediato.

Olhou para baixo, um tanto trêmula.

Depois voltou.

Os olhos estavam vermelhos. Mas não frágeis.

Firmes.

Era como se tivesse atravessado alguma coisa e ainda estivesse processando.

Wanda falou.

- Wendy…

Mas parou.

Porque percebeu.

Aquilo não era desespero.

Era outra coisa.

Algo que precisava ser dito.

E que não cabia fácil.

Wendy passou a mão no rosto.

Devagar.

Respirou de novo.

O silêncio cresceu.

Mas não pesava. Puxava.

Como se estivesse prestes a abrir algo maior.

Wis apertou o celular com mais força.

Wanda não desviou o olhar.

Nenhuma das duas queria interromper.

Wendy abriu a boca.

Parou.

E respirou mais uma vez.

As palavras ainda não vinham.

Mas não era falta.

Era escolha… do momento certo.

Ela baixou o olhar e ergueu mais uma vez.

E, pela primeira vez desde que a ligação começou, sustentou.

Não em uma.

Nas duas.

Direto.

Sem desviar.

Havia cansaço, sim.

Havia algo ainda difícil de organizar, com certeza.

Mas havia também outra coisa.

Algo que não estava ali antes.

Decisão.

Como se, mesmo no meio do que quer que fosse dizer, ela já tivesse encontrado um jeito de seguir.

E, por um instante, foi só isso que as duas conseguiram ver.

O olhar.

E o que vinha junto com ele.

Três irmãs...

…e a noite que mudaria tudo e definiria a história de todas.

Continua...

Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.

A capítulo final será muito grande, por isso será dividido em duas partes: 19 e 20. O capítulo 20 será o último, mesmo que tenha 20k palavras. Aguardo vocês no fim dessa jornada.

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Comentários

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Osorio, com todo respeito discordo de vc. Foi um capitulo essencial para o término.

Bruno, no pouco que foi mencionado, tivemos revelções poderosas. Ele se tornou um multimilionario segundo Bruna, reconhecido no mercado, saiu do circulo vicioso de todos os relacionamentos passados (Adriana, Wanda, Wis, Erica e Remo).

Wendy apareceu depois de 17 capitulos e aparentemente é ela que vai definir o rumo final.

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Eu realmente me sinto imaturo por não conseguir aceitar que a Adriana esteja namorando um cara que já é pai — não de um, mas de vários filhos. Se ela também tivesse filhos, talvez fosse diferente. Mas, do jeito que está, acredito que isso pode acabar complicando a vida dela no futuro.

Também fico pensando na possibilidade de recaídas com a ex, porque quando há filhos, o vínculo entre o casal nunca desaparece completamente. O passado, de certa forma, sempre permanece presente.

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Mas ele falou que a Ex traiu ele.

Geralmente quando a separação é por traição não tem volta.

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Eu entendo seu ponto, porém se eles tiveram muito anos juntos é difícil esquecer... Não podemos confiar no que um homem diz, vai que na verdade foi ele quem traiu a esposa e abandonou os filhos.

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Concordo 100% eu não acredito em homens em geral, poucos ganham minha confiança.

Estou confiando no julgamento da Adriana, mesmo porque ela está se mantendo distante segura.

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🦯🍯🍯🍯🍯🍯🐝🐝🐝🤷🏻‍♀️

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Estou com a impressão que o motivo da Wendy ligar para as irmãs não foi Bruno, foi Lucas, desde que foi apresentado ele representa um namoro complicado ela ter confiança não significa estar segura.

Ele vinha demonstrando coisas. As amigas falaram o Gustavo falou… A Wendy viu mas não reagiu. Acho que eles brigaram.

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Tudo leva a crer ser Bruno, mas...pela descrição fisica (Olheiras marcadas e rosto cansado) pode ser Vitor. Outra coisa, Bruna o noivo apareceram muito nesse capítulo, não é a toa.

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Henrique o namorado da Bruna está interessado na Wendy.

Um outro ponto é que Bruno está saindo com uma tal Juliana que não sabemos quem é ainda.

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Esse conto merecia a tag Harém.

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Mas veja bem...No que Lucas ou mesmo Vitor mudariam a vida das 3 irmãs? E Henrique, nada a ver. Wendy e as amigas estavam combinando de convidar Bruno para sair. A ultima pagina do fichario, o que dizia? Era sobre Bruno!...Aguardemos.

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Acho que era sobre Wendy e Bruno.

Teajano já falou que ela combina mais com ele, Wanda falou para ele, que a Wendy combina mais com ele, talvez Wis tenha escrito e perdido a mesma coisa.

Não é sobre o Bruno quando pau de mel, é o fato que a Wendy é uma mulher mais convencional.

Wanda, Wis não são convencionais e o Bruno decidiu que não quer a Adriana por que ele não a merece.

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Epero que sim!! Que seja Bruno e Wendy.

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No fim, o coitado do bruno estará hospitalizado ou preso por defender a wendy, e as irmãs retornaram ao Brasil para cuidar dele. Eu gostaria que fosse a Adriana, pois fora ela quem introduziu o Bruno na vida sexual e adulta e, consequentemente, esteve com ele o tempo todo, mas o autor não quis que o coração dele pertencesse a ela. Eu gostaria de uma versão alternativa, até pago para ter esta versão.

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Muito bom Carlos!!!

Tá entre as tops de todos os tempos...

De novo o cara estava tranquilo na dele e arrumaram uma confusão p lado dele...vamo ver o que aconteceu e qual a repercussão...

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tomara que ele se de bem. Com a wendy então... é a bola da vez.

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Carlos do Céu!!!

Que capítulo!! Valeu a pena esperar!

Acredito que vc vai fazer a proeza de nós mostrar nessa reta final um Bruno mais amadurecido, mais consciente de quem é e do que quer!

Adriana seguiu em frente de uma forma bacana a meu ver, Wanda do jeitão dela tá tocando em frente mas a Wis, acho que é ela quem vai se ferrar no final.

Na reta final vc colocou a Wendy com tudo!!! Torcendo por Bruno e Wendy no final!

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No começo, eu perdi o interesse, mas dei uma chance e continuei a leitura, mas, aos poucos, eu fui emaranhado novamente ao conto. Por favor que não removam a Adriana da história. E que não coloquem incesto no conto.

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Cara que suspense maravilhoso.

palpite. Ela transou com o Bruno e vai comunicar as irmãs e isso vai movimentar todo esse tabuleiro novamente e de forma definitiva.

3 estrelas.

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Caralho a cena dos cinco ficou muito excitante, trás mais disso no próximo 😈

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