Os dias, semanas e meses seguintes foram de completa desolação mental e sentimental. Pela primeira vez, não tentei refletir sobre o que havia acontecido. Eu sabia exatamente onde isso me levaria. Pensaria nas três, me perderia em hipóteses, embaralharia lembranças e terminaria pior do que comecei. Só ampliaria o vazio que já existia.
A verdade é que eu estava cansado de ser assim. De racionalizar tudo em excesso e, no fim, colher apenas sofrimento. Também não queria me colocar no papel de vítima, nem me absolver da minha parcela de culpa. Parecia mais simples não sentir. Focar no concreto. Deixar a vida seguir.
Então fiz o que sabia fazer de melhor: mergulhei no trabalho.
Àquela altura, a PHX já superava os R$ 500 bilhões em ativos sob custódia, consolidando um crescimento vertiginoso desde a década anterior. Desse montante, quase 40% passava diretamente por mim. Não por acaso, praticamente todas as decisões relevantes chegavam à minha mesa. Minha vida pessoal seguia um desastre silencioso, mas a empresa prosperava sob minha liderança.
Bruna tornou-se peça crucial na minha rotina profissional. Virou uma secretária executiva de altíssimo nível, sempre atenta à agenda, às prioridades e às demandas que se multiplicavam sem parar. Com o peso crescente das responsabilidades, tê-la ao meu lado foi decisivo.
Fora do trabalho, não me enclausurei graças a Remo e Érica. Eles se mantiveram presentes o tempo todo, fosse me chamando para sair, fosse aparecendo no meu apartamento. Às vezes eu também ia ao deles. E não demorou para que velhos hábitos retornassem.
Houve semanas em que Érica praticamente ficou comigo no meu apartamento. Transávamos antes de eu sair para trabalhar e novamente à noite, quando voltava. Ela gemia meu nome, dizia no auge do tesão que largaria tudo – até mesmo Remo – para ficar comigo. Eu não levava aquilo ao pé da letra. Já aprendera que, em certos momentos, as pessoas dizem qualquer coisa para incendiar ainda mais o desejo.
Ainda assim, depois, eu me sentia mal.
Apesar da minha proximidade com Érica, Remo fazia questão de demonstrar, em atitudes concretas, que nada mudaria entre nós. Muitas vezes saíamos apenas eu e ele, como sempre fora. Ainda assim, havia algo constrangedor em passar horas com ele num bar, tomando chope e conversando trivialidades, depois de ter estado dentro da namorada dele poucas horas antes.
Percebendo meu desconforto, ele me deu uma dura certa noite.
- Meu relacionamento com ela não é convencional. É aberto. Quantas vezes vamos precisar repetir isso? Temos regras nossas, que não vêm ao caso. Só saiba que vocês podem continuar transando. Sei que ela me ama. E te ama também. E eu também te amo, meu amigo. Sou muito feliz por ter você na minha vida.
Aquilo me relaxava um pouco, embora não apagasse totalmente o incômodo. E, ao que tudo indicava, ele também tinha seus próprios encontros.
Por duas vezes, ainda houve ménage após muita insistência dos dois. Érica se esbaldava nessas ocasiões. Dizia sentir-se a “rainha mais puta de São Paulo”, nas palavras dela. A satisfação que demonstrava parecia inesgotável, mesmo com seus buracos deflorados por mim e Remo.
Com minha mãe, a relação seguiu cada vez melhor. Tivemos muitos momentos nossos: jantares, passeios, cinema. Às vezes apenas uma refeição em casa e um filme por streaming. Também marcamos para o ano seguinte nossa viagem para Paris.
Sobre o elefante no meio da sala, porém, ela quase não tocava no assunto. Provavelmente esperava que eu o fizesse. Mas, diferente de outras épocas, não parecia preocupada comigo.
- Não estou desatenta ao que aconteceu, viu? – disse certa vez. – Mas sei que você vai lidar com isso da melhor maneira possível.
Apenas assenti, agradecido.
Eu realmente não queria falar sobre aquilo. Mas, ao contrário das outras vezes, não era porque estivesse guardando tudo para mim. Eu simplesmente estava exausto. Só queria seguir em frente.
Nesse período, mudei de apartamento.
Fui para um maior, de quatro quartos, próximo da PHX, numa área nobre de São Paulo. Do meu andar, eu tinha uma vista ampla da cidade. Muitas vezes ficava observando aquela imensidão por longos minutos, e isso, de algum modo, me acalmava.
Entreguei a decoração para minha mãe, mas ela fez apenas o básico.
- Futuramente – explicou – isso será tarefa de alguém que realmente queira cuidar daqui.
Estranhei a frase. Ela apenas deu de ombros, e deixamos o assunto morrer. O apartamento refletia meu próprio estado interno: amplo, funcional e vazio.
Também troquei de carro por uma Range Rover Sport preta e blindada. A recomendação partira de Trajano. Segundo ele, havia contratado segurança especializada para nossa “família estendida” – expressão que usava para se referir à família dele somada a mim e à minha mãe.
Quando pedi detalhes, desconversou.
- Só confie, Bruno. Concentre-se no que faz de melhor. Estamos na metade do caminho para um trilhão, e isso se deve principalmente a você. Deixe a segurança comigo.
Sem saber explicar exatamente por quê, aquilo me tranquilizava. Nunca vivi qualquer situação realmente preocupante em São Paulo.
Enquanto isso, Érica e Remo me perguntavam o tempo todo quando iríamos “inaugurar” minhas duas novas conquistas: o apartamento e o carro. Eu sempre adiava, tentando não parecer deselegante.
Na verdade, algo crescia dentro de mim. A necessidade de viver uma nova história. Todas aquelas mudanças, no fundo, eram para isso.
Nesse período, acabei me reconectando com Juliana.
Ela foi a primeira mulher que beijei. Chegamos perto de namorar no passado, mas não aconteceu porque, à época, eu não me sentia pronto para algo sério. Depois que qualquer possibilidade entre nós se encerrou, ela seguiu a vida e começou um relacionamento com outro homem.
Foi ela quem me reencontrou.
Achou meu perfil no Instagram e me mandou um simples “oi” por mensagem privada. A partir dali, começamos a conversar sem pretensão alguma. Aos poucos, percebemos que ainda compartilhávamos muitos interesses em comum. O diálogo fluía com naturalidade, como se tivéssemos apenas retomado uma conversa interrompida anos antes.
Não demorou para marcarmos um almoço.
Ela continuava linda. A pele morena tinha um brilho próprio, e os cabelos lisos, agora mais longos do que eu lembrava, chamaram minha atenção de imediato. Havia nela uma beleza mais madura, segura de si, sem esforço algum para impressionar.
A conversa correu fácil.
Falamos das nossas trajetórias, do trabalho, das mudanças que o tempo impõe sem pedir licença. Descobri que Juliana era esteticista e atuava com tratamentos faciais e corporais em uma clínica relativamente conhecida na cidade. O modo como falava da profissão denunciava domínio técnico e orgulho sincero pelo que construíra.
Também falamos sobre relacionamentos.
Trocamos experiências, impressões e aprendizados sobre a vida a dois. As conversas eram profundas, mas respeitavam limites silenciosos. Algumas dores eram apenas sugeridas, nunca escancaradas. Havia entre nós um entendimento maduro de que compreender importava mais do que detalhar feridas.
Ela contou que estava divorciada havia quase um ano. Citou diferenças irreconciliáveis e deixou o assunto seguir adiante. Não insisti.
Da minha parte, mencionei um namoro recente e breve.
Juliana recebeu a informação com um sorriso sereno, como quem prefere acolher o presente em vez de disputar o passado.
- Não sabia que você tinha namorado alguém depois da Adriana – comentou.
- E você sabe de Adriana? – devolvi, surpreso.
Ela sorriu.
- Você não é tão anônimo assim, Bruno. Eu só não te seguia no Instagram, mas às vezes olhava seu perfil quando ele estava aberto.
Fiz um leve aceno de cabeça, um pouco constrangido.
Continuamos conversando nos dias seguintes. Vieram outros almoços, mensagens frequentes e uma sensação agradável de continuidade. Havia entre nós uma expectativa crescente, porém tranquila. Nada atropelado. Nada carente. Apenas duas pessoas se redescobrindo no tempo certo.
Num sábado, convidei-a para jantar em um restaurante.
Juliana apareceu usando uma roupa que valorizava suas curvas com elegância. Notei de imediato, embora tenha preferido agir com discrição. O clima entre nós já tinha calor suficiente sem precisar de pressa.
Ainda assim, escolhemos ir devagar.
- Estou querendo muito isso – confessou ela. – Mas sofri bastante. E imagino que você também. Vamos deixar acontecer naturalmente e ver, mais lá na frente, se realmente combinamos como casal. Pode ser?
- Claro. Também prefiro assim. Mas saiba que tem sido muito bom estar com você.
Ela assentiu. Quando a deixei em casa, nos beijamos. Uma década depois, o beijo de Juliana continuava tão bom quanto eu lembrava.
No dia seguinte, chamei Remo e Érica para irem ao meu apartamento. Disse apenas que precisávamos ter uma conversa importante.
Chegaram horas antes do combinado, tomados por uma ansiedade que nem tentaram esconder.
- Do jeito que você falou, eu não aguentei esperar – explicou Remo. – Preferi vir logo.
Os dois se sentaram no sofá, tensos, como quem já esperava uma notícia ruim. Não prolonguei.
- Saí com a Juliana ontem.
Remo franziu o cenho.
- Juliana? Aquela Juliana? Minha amiga?
- Sim.
- Faz tempo, hein... Não sabia que vocês tinham voltado a se falar. Muito menos saído juntos.
Expliquei por alto como havíamos nos reencontrado e retomado contato. Os dois me ouviam com atenção incomum, como se cada detalhe escondesse algo maior.
Foi Érica quem chegou ao ponto central.
- Você quer acabar os benefícios de novo, não é?
Olhei para os dois, desconfortável. Não era uma conversa simples.
- Eu entendo e respeito a forma como vocês vivem o relacionamento de vocês. Mais do que isso, admiro a honestidade que existe entre vocês. Vocês são meus melhores amigos, e eu torço de verdade pela felicidade dos dois.
Fiz uma pausa curta.
- Mas a verdade é que não quero mais continuar com os benefícios. Eu me sinto constrangido com tudo isso... e preciso ser totalmente sincero.
Remo cruzou os braços.
- Você acha que vai namorar a Juliana?
- Não sei. E não estou falando isso por causa dela. Estou falando por nós três. Pelo que existe entre a gente. Tenho a sensação de que, se continuarmos assim, acabaremos nos perdendo.
Érica levantou-se e veio sentar ao meu lado. Segurou minha mão.
- Me conta a verdade, Bruno. A gente fez algo errado? Te machucamos de algum jeito? Porque, se aconteceu, fala. A gente se explica. A gente pede desculpa. Você é importante demais pra nós.
Balancei a cabeça.
- Não, Érica. Não aconteceu nada. Vocês não erraram comigo.
Respirei fundo antes de continuar.
- Sou eu. Eu não me sinto confortável. Gosto demais de vocês dois. Torço por vocês. E, no fundo... sinto como se estivesse traindo os dois ao mesmo tempo.
Remo me encarou por alguns segundos.
- Tem certeza de que é só isso?
- Tenho. Juro. Ou prometo. O que soar melhor.
Eles entenderam, embora o abatimento fosse evidente. E aquilo também me atingiu.
O restante do encontro seguiu estranho. Tentamos conversar como sempre, rir como sempre, agir como se nada tivesse mudado. Mas todos sabíamos que algo encerrava ali.
Remo e Érica reforçavam o tempo todo o quanto gostavam de mim, o quanto valorizavam nossa amizade, o quanto não queriam se afastar. Havia sinceridade nisso, mas também medo.
Em certo momento, precisei ser direto.
- Vocês não precisam forçar nada. Vou continuar amigo de vocês do mesmo jeito. Eu preciso da amizade de vocês. Isso não muda.
Érica trocou olhar com Remo antes de responder.
- Não estamos forçando, amigo. Só temos uma grande devoção por você.
Remo concordou em silêncio.
Quando os dois finalmente foram embora e fechei a porta, senti um alívio silencioso seguido por uma tristeza difícil de definir.
Érica me proporcionara momentos intensos. Remo, uma lealdade rara. Mas eu sabia que não podia oferecer algo maior àquele arranjo. Nem eles a mim.
Minha vida começava a seguir em outra direção. Uma direção ainda sem nome, mas inevitável.
Minha mãe veio dormir no meu apartamento nos dias seguintes. Demonstrava um carinho e um cuidado acima do habitual. Talvez Remo e Érica tivessem conversado com ela. Talvez estivesse preocupada com alguma nova situação. De todo modo, pareceu relaxar quando contei que sairia com Juliana.
- Quem é? – perguntou, sem esconder a curiosidade. – Você nunca me falou dela. Quando vai trazê-la para eu conhecer?
- Calma lá, mãe – ri da pressa dela. – Estamos nos conhecendo. Ainda não existe status nenhum. E... também não tenho pressa.
Ela se levantou do sofá apenas para tirar um fiapo da minha blusa, num gesto automático de mãe.
- O que você sente por ela?
Pensei por um instante.
- Gosto de conversar com ela. É agradável. As horas passam rápido.
Minha mãe me observou com atenção.
- É sempre bom ampliar nosso leque de amizades, sabia?
Agora eu sabia que estava sendo sondado.
- Estamos nos conhecendo, mãe. É cedo demais para definir qualquer coisa. Só existe uma certeza: eu te amo.
Ela sorriu.
- Não tenho dúvida disso. Eu também te amo. Mas não é desse amor que estamos falando.
O elefante na sala.
Ela pousou a mão no meu peito, na altura do coração. O olhar não era acusatório. Parecia mais o de alguém tentando me lembrar de algo que eu próprio evitava encarar.
- Algumas histórias ficaram no passado – respondi, firme.
- Ficaram?
- Se ainda não ficaram, vão ficar.
Ela sustentou meus olhos por alguns segundos e depois sorriu, satisfeita ou resignada – talvez ambos.
Beijou meu rosto.
- Divirta-se com a Juliana.
A saída com minha nova paquera foi tão boa quanto a primeira. Conversa inteligente, leve, estimulante. Juliana tinha uma lucidez tranquila que me chamava atenção.
Nas semanas seguintes, passamos a sair sempre aos sábados. Nossas rotinas atribuladas durante a semana dificultavam encontros em outros momentos, mas nenhum dos dois parecia reclamar. Aqueles jantares e almoços acabaram virando uma válvula de escape. Quando estávamos juntos, éramos apenas nós dois. Eu ainda não conhecia o mundo dela, nem ela o meu. E, por enquanto, aquilo parecia funcionar.
Foi também nesse período que descobri que as três haviam seguido em frente.
Tyler passou a surgir com frequência no Instagram de Wis. Wanda publicou uma foto romântica ao lado de um italiano chamado Lorenzo. E, por comentários de bastidores, soube que Adriana estava namorando Ricardo Dudamel, número dois da XP e homem de fortuna quase bilionária. Não demorou para que ela oficializasse a novidade nas redes sociais.
Ao ver aquelas imagens, senti um aperto silencioso no peito. Não era exatamente tristeza. Tampouco arrependimento. Era apenas a constatação de que todas aquelas histórias haviam realmente terminado.
Ainda assim, houve momentos em que quase cedi à introspecção. Em certos dias, me vi perto de revisitar erros antigos, de imaginar se algo poderia ter sido diferente, de procurar caminhos de volta onde já não havia estrada.
Mas minha vontade de seguir em frente crescia à medida que o tempo passava. E, nesse processo, Juliana, Remo e Érica – esta última agora definitivamente apenas amiga – tiveram papel importante.
Numa noite, saímos os quatro para jantar. Juliana pareceu satisfeita em se reaproximar de Remo e Érica. A conversa fluía bem, leve, espontânea.
Em dado momento, Remo perguntou, apontando para mim e para ela:
- Quando vocês vão começar a namorar?
Juliana respondeu antes de mim, com natural firmeza:
- Ainda não sei. Estamos indo com calma.
Remo me olhou em seguida, esperando complemento.
- Tem sido muito legal assim – respondi com cuidado. – Estamos nos conhecendo melhor, mas ambos tivemos términos complicados e algumas coisas ainda precisam se assentar.
Juliana assentiu.
- Eu estou recém-separada, e Bruno saiu de um relacionamento faz pouco tempo. Melhor deixar a poeira baixar primeiro.
Remo pareceu entender, embora ainda houvesse confusão no olhar dele. Érica não comentou nada, mas seu silêncio carregava uma inquietação difícil de ignorar.
Depois, já em casa, recebi mensagem privada de Remo.
> Remo: já transaram?
> Bruno: kkkk que pergunta é essa?
> Remo: responde po
> Remo: quero provar um ponto
> Bruno: que ponto?
> Remo: Érica disse que não
> Remo: eu acho que sim
> Bruno: Érica venceu
> Remo: 😱
> Remo: tá esperando namorar?
> Bruno: não sei
Remo ainda insistiu em saber os motivos, mas deixei sem resposta. Felizmente, ele entendeu o silêncio e parou.
Eu também não tinha uma explicação clara. E Juliana tampouco parecia desejar apressar esse lado da relação.
Não me preocupei muito com isso. Mais cedo ou mais tarde, algo mais íntimo aconteceria entre nós. Ao menos era o que eu imaginava.
Ainda faltava bastante para o fim do ano quando Trajano marcou uma reunião comigo e os demais sócios da PHX para tratar da festa de encerramento anual. A proposta dele era entregar a organização do evento para Wendy. Ela cursava Hotelaria e Administração ao mesmo tempo, e gestão de eventos era exatamente a área em que desejava trabalhar.
Todos concordamos sem resistência.
Semanas depois, num domingo ensolarado, fui almoçar na casa de Trajano. Segundo ele, faria o convite formalmente à filha e aproveitaria para comunicar outras decisões importantes.
- Em família – disse.
Minha mãe e Cecília também estariam presentes. Ao ouvir isso, senti o velho incômodo e um frio discreto no estômago ao imaginar que Wanda ou Wis poderiam aparecer de surpresa.
No dia marcado, fui mesmo assim.
Minha mãe já estava lá, pois havia dormido com eles.
A mesa estava farta. Trajano ocupava a cabeceira, com Cecília à direita e minha mãe à esquerda. Eu me sentei ao lado da minha mãe, enquanto Wendy, curiosamente, ficou à minha frente.
O almoço transcorreu leve e agradável. As conversas entre minha mãe e os pais dela dominaram quase todo o tempo. Eu e Wendy participávamos apenas com comentários pontuais e algumas risadas. Pouco ou nada se falou sobre Wanda ou Wis, o que considerei um alívio.
Não queria testar se eu realmente havia superado.
Antes da sobremesa, Trajano pediu atenção. Levantou-se e olhou diretamente para a filha.
- Wendy, tenho acompanhado sua dedicação nessas duas faculdades. Sei o quanto sua rotina tem sido puxada, mas vejo propósito e entusiasmo em você. Nas nossas conversas, percebo o quanto está comprometida. E também vejo talento. Então, queria te fazer um convite…
Ela arregalou os olhos, tomada pela expectativa.
- Que convite?
- O que acha de organizar a festa de fim de ano da PHX?
Wendy abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
- Nos últimos anos contratamos agências externas – continuou ele. – Desta vez, quero colocar tudo nas suas mãos. Não tenho dúvida de que você é capaz.
- Pai... eu...
- Confie. Eu e Bruno estaremos ao seu lado no que for preciso. Talvez o Bruno ainda mais, porque entende a empresa por dentro e acompanha esse tipo de evento de perto. Então, o que me diz?
Todos a observávamos sorrindo. Era impossível não notar o brilho no rosto dela. Aquilo não era apenas surpresa. Era vocação.
- Eu aceito – respondeu, mais rápido e com mais firmeza do que eu esperava.
Minha mãe e Cecília soltaram pequenos gritos de comemoração e incentivo. Quando o entusiasmo diminuiu, Wendy expôs sua preocupação:
- Mas... vocês vão estar comigo, né? – perguntou, olhando primeiro para mim e depois para o pai. – É a primeira vez que vou liderar algo assim. Antes, em outros eventos, eu era assistente. Você sabe disso, pai. Estou feliz... mas com medo também. É muita responsabilidade. Vou precisar de vocês dois.
Trajano sorriu com absoluta confiança.
– Você vai dar conta, minha princesa. Quantas vezes preciso repetir isso?
Resolvi reforçar:
- Vou te ajudar em tudo que precisar, Wendy. Não hesite em me procurar, certo?
Ela apenas assentiu. Parecia assustada, mas decidida a não recuar.
Trajano então retomou a palavra.
- Esse almoço também tem outro motivo. E afeta diretamente vocês dois.
Apontou para mim e para Wendy. Nós nos entreolhamos, confusos.
- Eu, Cecília e Marluce vamos viajar em algumas semanas. Pretendemos fazer um mochilão pela Europa e depois pelos Estados Unidos. No mínimo dois meses fora. Talvez mais. Queremos conhecer lugares, experimentar culinárias novas... e visitar Wanda e Wis também.
Fez breve pausa.
- Então gostaria que vocês cuidassem das coisas por aqui enquanto estivermos fora.
Olhou para mim.
- Bruno, quero que você assuma ainda mais responsabilidades na PHX durante esse período. Isso aconteceria cedo ou tarde de qualquer forma. Na verdade, já vem acontecendo.
Assenti.
Não seria problema. E, mesmo que fosse, pedidos de Trajano sempre tiveram algo de irrecusável.
Depois ele se voltou para Wendy, que agora parecia genuinamente apreensiva.
- Filha, também pensamos em você. Essa casa é grande demais para uma pessoa só. Há empregadas, contas, manutenção... Não queremos que seus estudos sejam prejudicados por responsabilidades nossas.
- Pai... – ela interrompeu. – Não quero que deixem de viver por minha causa. Vocês merecem essa viagem. Quero que seja incrível.
- Você é sempre tão doce – comentou Cecília.
Trajano sorriu.
- Justamente por isso pensei numa solução melhor.
Wendy se inclinou para frente.
- Que solução?
- O que acha de morar com Bruno enquanto estivermos viajando?
- O quê?
Ela me olhou imediatamente. Eu estava tão surpreso quanto ela.
Trajano prosseguiu:
- Bruno acabou de se mudar para um apartamento grande, de quatro quartos, e fica mais perto das suas faculdades. Você não ficará sozinha. E nós viajaremos tranquilos. Tenho certeza de que Bruno não verá problema nisso.
Todos voltaram os olhos para mim.
Minha mãe tinha um sorrisinho impossível de ignorar. Havia felicidade evidente em seu rosto, como se aquela ideia resolvesse algo antigo dentro dela.
Mas isso pouco importava naquele instante.
Apesar de nunca termos sido íntimos, Wendy e eu sempre nos tratamos bem ao longo dos anos. E, pensando em segurança, fazia sentido que ela ficasse comigo.
- Por mim, tudo bem – respondi. – Tem espaço de sobra para você, Wendy. E, quando estiver lá, sinta-se em casa como eu e minha mãe sempre nos sentimos aqui. Como diz o ditado: mi casa es su casa.
Mesmo assim, Wendy permaneceu hesitante. Ela nos olhava com aflição contida. Cecília percebeu.
- O que está te incomodando, meu amor? Não confia no Bruno?
Wendy hesitou. Olhou para baixo, depois para mim, e por fim para a mãe.
- Não é isso. Eu confio no Bruno. Nos conhecemos há muitos anos. Ele é praticamente da família... quase como um irmão. É que...
Parou de novo.
Observei Cecília. Havia paciência em seu olhar, mas também algo mais sutil: como se soubesse exatamente o que a filha queria dizer e aguardasse que ela criasse coragem.
Wendy respirou fundo.
- Eu namoro, mãe. Acho que o Lucas não vai ficar nada confortável com isso.
- Ah, é só isso? – respondeu Cecília, com leve escárnio. – Se Lucas não consegue entender uma situação dessas, talvez não seja o namorado certo para você.
- Mãe...
Sem palavras, Wendy voltou-se para o pai.
- Sua mãe tem razão – disse Trajano. – Essa casa é grande demais para você ficar sozinha. Entre todas as opções possíveis, Bruno é a melhor. Eu confio nele. Sua mãe também. Você confia na gente? Alguma vez quebramos essa confiança?
As palavras dele tiveram peso. Wendy permaneceu em silêncio por alguns segundos, assimilando tudo. Então me encarou.
- Posso mesmo ficar no seu apartamento? Não vou atrapalhar?
- Não vai me atrapalhar. Prometo.
Sorri da melhor forma que consegui, embora eu mesmo ainda não soubesse se aquela ideia seria excelente... ou desastrosa.
Minha mãe entrou na conversa:
- E você pode dar vida ao apartamento do Bruno. Aquele lugar está precisando.
Olhei para ela, rindo.
- Lembro que a senhora ficou de me ajudar nisso.
- Eu lembro de ter dito outra coisa – retrucou, divertida.
O restante do almoço foi gasto nos detalhes práticos da mudança.
Aos poucos, Wendy pareceu relaxar. Passou a me perguntar sobre o tamanho do quarto, rotina do condomínio, vagas na garagem e horários de silêncio do prédio.
Combinamos também um jantar no sábado seguinte, para que ela conhecesse o apartamento e se ambientasse.
Antes de irmos embora, minha mãe se aproximou de mim e perguntou em voz baixa:
- Além de nós cinco, pensei em levar dois amigos. Posso?
Estranhei.
- Remo e Érica. Quem você pensou que fosse?
A simples lembrança dos dois ali me trouxe um desconforto que não soube explicar. Olhei para Trajano e Cecília, mas ambos pareciam perfeitamente à vontade com a ideia.
Ao que tudo indicava, só eu via estranheza.
Assenti.
- Por mim, tudo bem.
No sábado seguinte, eu aguardava Wendy no meu apartamento. Minha mãe, Remo e Érica estavam comigo. Eu sentia uma ansiedade difícil de explicar. Se perceberam, ninguém comentou.
Pouco depois das dezenove horas, Wendy chegou com Trajano e Cecília.
Após os cumprimentos iniciais, comecei a mostrar o apartamento. Wendy seguia ao meu lado, enquanto os demais vinham logo atrás, como uma comitiva curiosa. Mostrei o quarto que seria dela e deixei claro que poderia transformá-lo como quisesse.
- Não se preocupe comigo. Deixa do seu jeito.
Ela assentiu em silêncio, denunciando certo nervosismo.
Depois apresentei meu quarto, o escritório e o quarto extra que eu usava como depósito.
- Esse aqui também pode virar seu escritório, se um dia precisar.
Foi quando ela riu.
- Não é como se eu fosse morar aqui por tanto tempo, Bruno – respondeu de um jeito doce. – Mesmo assim, obrigada pela preocupação.
Mostrei ainda cozinha, banheiros, área de serviço e despensa. Wendy observava tudo com atenção incomum, como se medisse espaços e imaginasse possibilidades. Estava claro que todos ali a observavam também, talvez até mais do que eu.
Trajano quebrou o silêncio:
- Seu apartamento é excelente. Espaçoso, bem localizado. Você escolheu bem.
- Remo me ajudou a procurar.
Meu amigo então iniciou um longo relato sobre visitas, bairros descartados e corretores enrolados. O monólogo serviu para relaxar o ambiente. Wendy, aos poucos, voltou a olhar para cada canto com mais liberdade.
Cecília então perguntou diretamente:
- E você? O que achou?
Wendy hesitou.
- Um pouco vazio, mas... – olhou para mim – acho que vai dar certo.
Não sei por quê, mas a forma como respondeu me agradou.
Aproximei-me dela.
- Sou péssimo com decoração, admito. Já recebi críticas severas, inclusive daquela senhora ali.
Apontei para minha mãe, que ria.
- Se você trouxer vida para esse lugar com seu toque pessoal, eu ficarei grato.
Minha mãe entrou na brincadeira:
- Agora vai, Bruno.
Todos riram.
Ficou decidido que eu compraria os móveis do quarto dela. Ela escolheria. Wendy resistiu, disse que podia usar os próprios ou dividir custos. Argumentei que, depois, tudo ficaria como quarto de hóspedes.
Ela acabou aceitando.
Também acertamos que a mudança definitiva ocorreria duas semanas depois, pouco antes da viagem dos pais dela e da minha mãe.
O jantar que se seguiu foi, no mínimo, curioso.
Surpreendeu-me o quanto Remo e Trajano se deram bem. Não que isso me incomodasse, mas eu não esperava tanta afinidade imediata.
Num momento em que Remo foi buscar outra cerveja, Trajano comentou comigo:
- Por que nunca me apresentou esse rapaz antes? Parece ser um bom sujeito. Você tem esse dom de atrair gente boa ao redor.
Assenti.
- Fico feliz que tenham gostado um do outro.
- E ela também parece ótima – continuou, apontando para Érica.
- É sim. Minha amiga.
Quando Remo voltou, a conversa entre os dois recomeçou como se não houvesse pausa. Falaram de política, futebol, esportes radicais, rodeios e, em algum momento inexplicável, da baleia-orca como predadora de tubarões.
Enquanto isso, observei o resto da sala.
Érica e Wendy conversavam como velhas conhecidas. Riam com facilidade, numa sintonia inesperada para quem acabara de se conhecer. Perto delas, minha mãe e Cecília pareciam absortas num universo próprio.
Na hora de ir embora, minha mãe voltou com Wendy e os pais dela. Aproveitei para perguntar a Érica:
- Você e Wendy se deram bem, né?
Ela riu.
- Nossa, nem te conto. Ela é muito diferente da Wis. Nem se compara. Acho que vamos nos dar muito bem.
- Que bom que gostou dela.
Ela me lançou um olhar malicioso.
- Acho que vocês vão se dar muito bem aqui.
- Não viaja.
Os dias seguintes foram de preparação.
Comprei cama, guarda-roupa e outros móveis para o quarto dela, seguindo indicações que a própria Wendy me enviou. Ela insistiu em ajudar nos custos. Recusei. Também sugeriu, mais uma vez, trazer móveis da casa dos pais. Recusei de novo.
Dias antes da mudança, o quarto estava pronto e impecável. Na verdade, só consegui porque minha mãe, Remo e Érica assumiram quase tudo. Eu me escondi atrás do trabalho.
Duas semanas depois, num sábado à tarde já quase escurecendo, a campainha tocou.
Abri a porta.
Lá estava Wendy.
Com Lucas.
Senti incômodo imediato, embora tentasse disfarçar.
Convidei os dois a entrar com cordialidade excessiva. Wendy ainda parecia visita. Eu, por dentro, me sentia estranho dentro da própria casa.
- Bom... você já sabe qual é o quarto. Estou resolvendo umas coisas do trabalho no escritório. Qualquer coisa, me chama.
Fiz um aceno breve e me retirei.
Eles também pareciam desconfortáveis.
Não sei o que fizeram depois que me tranquei no escritório e coloquei o fone com cancelamento de ruído. Tentei ler relatórios, mas só vaguei pelo YouTube sem prestar atenção em nada.
Horas depois, quando saí, encontrei Wendy sozinha na sala, olhando o celular.
- Está tudo bem? – perguntei com cuidado.
Ela se assustou levemente.
- Sim. Está. Você... ainda vai trabalhar?
- Não. Estava vendo umas coisas. Precisa de algo?
Ela hesitou.
- Não. Quer dizer... queria conversar sobre a festa de fim de ano da PHX. O que me espera lá, essas coisas. Você ficou de me ajudar, lembra?
- Lembro sim.
- Quer comer algo antes?
- Quero.
Preparei duas lasanhas congeladas. Por um instante, achei que ela criticaria a escolha pouco saudável. Não criticou.
Havia nervosismo nela. Provavelmente em mim também.
Conversamos apenas sobre a festa, fornecedores, cronogramas e imprevistos possíveis. Quando percebemos, já era quase meia-noite.
Ela sorriu de leve.
- Acho que está na hora de dormir, né?
A forma doce como falou tornava qualquer frase mais agradável.
- Concordo. Tô desabando de sono.
Fomos dormir.
Cada um no seu quarto.
Esse e os dias seguintes foram de ajuste. Por mais que eu tentasse deixá-la confortável, Wendy parecia andar pelo apartamento como quem pisa em ovos.
- Ei, sinta-se em casa – reforcei. – Considera isso aqui como seu também.
- Nós sabemos que não é.
- Para mim, é.
Ela baixou os olhos, desconfortável. Pensei um pouco antes de insistir.
- Então faz o seguinte: decora a sala. Olha isso aqui. Continua vazia, como você mesma disse. Me ajuda a arrumar. Dá seu toque pessoal. Eu pago.
- Não sei, Bruno...
- Por favor.
Nos olhamos por alguns segundos. Ela parecia me estudar.
- Tá. Vou ver o que posso fazer.
Alguns dias depois, cheguei do trabalho e encontrei a sala transformada. Mais acolhedora. Mais viva. Mais humana. Ela fizera tudo sem me avisar.
Chamei por Wendy, mas não estava em casa. Peguei o celular e mandei mensagem.
> Bruno: adorei, viu?
Ela visualizou rápido, demorou a responder e o aplicativo mostrava que digitava algo. Então veio a mensagem de resposta:
> Wendy: ❤️
Não era exatamente o que eu esperava. Ainda assim, me trouxe um estranho conforto.
Depois daquele dia, começamos a nos ajustar de verdade. As conversas passaram a surgir naturalmente. Falávamos sobre o trabalho, sobre as faculdades dela, sobre coisas banais do cotidiano. O silêncio entre nós já não parecia desconfortável.
Apesar disso, certos assuntos permaneciam proibidos.
Ela não falava de Wanda nem de Wis. Eu sequer sabia como estava a relação entre elas.
Eu não falava de Lucas, que quase nunca aparecia no apartamento. E, para ser honesto, aquilo me parecia ótimo.
Quanto à festa de fim de ano da PHX, Wendy se dedicou profundamente ao evento. Com Trajano ainda viajando pelo mundo, eu e ela acabamos nos aproximando bastante naquele período. Falar sobre a festa parecia ser o momento em que se sentia mais confortável comigo.
O evento aconteceu num salão luxuoso de São Paulo. Sem Trajano, então coube a mim e aos outros sócios receber funcionários, convidados e parceiros estratégicos. Gente importante do mercado compareceu, inclusive representantes do BTG e da XP.
Entre eles, estava Ricardo Dudamel.
Por um instante, senti o corpo tensionar. Imaginei que viesse acompanhado de Adriana, mas estava sozinho.
Nos cumprimentamos cordialmente, embora ele apertasse minha mão com força além do necessário. Certamente sabia quem eu era, assim como eu sabia quem ele era – e nenhum dos dois pensava em investimentos naquele momento.
Ainda assim, conseguimos sustentar uma conversa socialmente aceitável antes que eu precisasse atender outras pessoas.
Mais perto do fim da noite, após premiações e discursos – inclusive o meu – procurei alguns minutos de isolamento. Subi para uma área mais elevada e discreta, de onde se via quase todo o salão.
Tudo funcionara muito bem.
Procurei Wendy com os olhos.
Ela não parava um segundo. Caminhava de um lado para outro, resolvendo detalhes, falando com fornecedores, checando horários, corrigindo pequenos desvios. Trazia no rosto aquela tensão típica de quem organiza eventos e só relaxa quando a última luz se apaga.
E, sinceramente, a festa estava melhor do que muitas produzidas por empresas que costumávamos contratar.
Fiquei feliz por ela. Talvez até orgulhoso.
Enquanto pensava nisso, uma figura corpulenta se aproximou. Eu o cumprimentara mais cedo, mas não lembrava quem era.
- Pegando um ar? – perguntou, oferecendo-me uma cerveja que recusei. – A festa foi muito boa. A PHX está ficando cada vez mais famosa no mercado.
Observei-o em silêncio, tentando lembrar.
Ele percebeu.
- Opa, você esqueceu quem eu sou. – pigarreou, apoiou o copo num batente e estendeu a mão. – Henrique. Namorado da Bruna, sua secretária.
Lembrei na hora. E, imediatamente, tive má impressão dele.
- Prazer, Henrique.
Apertamos as mãos, mas eu já queria que a conversa terminasse.
Não terminou.
- A PHX está crescendo bastante, né? A Bruna trabalha demais. Não para de falar da empresa... e do chefe dela. Ainda bem que vim hoje e vi que tudo aqui é bem profissional. Senão eu podia pensar besteira.
Ri por educação, embora irritado.
- Bruna é excelente profissional. A empresa está muito satisfeita com ela. Vejo um futuro promissor para ela aqui.
Ele sorriu sem simpatia.
- Isso é segredo ou posso contar pra ela?
Soltei um riso curto, cansado.
- Não sei o que você imagina ou de onde tirou essa ideia, mas minha relação com Bruna é estritamente profissional.
Henrique levantou as mãos em falso sinal de paz.
- Calma. Eu sei disso.
Voltei a olhar para o salão. Ele permaneceu ao meu lado.
- Bom, vou indo. De todo modo, com aquela bela organizadora ali... – apontou para Wendy – duvido que você tenha olhos pra minha Bruna.
Meu sangue ferveu.
Antes que eu respondesse, ele se afastou.
Meu maxilar travou. O punho fechou sem que eu percebesse.
Fiquei observando-o por algum tempo. Circulava entre as pessoas sem realmente conversar com ninguém. Deslocado, mas confortável na própria inconveniência.
Mais tarde, vi ele abordando Wendy.
Falava algo, insistia, e ela demonstrava nítido desconforto. Em seguida, entregou o celular a ela. Wendy digitou alguma coisa e devolveu o aparelho.
Comecei a andar na direção dos dois, pronto para intervir. Mas Wendy saiu antes.
Henrique me viu, sorriu de forma cínica e seguiu para o lado oposto.
Aquilo me preocupou de verdade.
Procurei Wendy e só a encontrei quando saía do banheiro feminino. Ao me ver, pareceu estranhar minha expressão.
- O que foi, Bruno? Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. Com você.
Ela arregalou os olhos.
Contei sobre Henrique, sobre a conversa que tivemos e sobre o incômodo crescente que ele me causara. Depois perguntei o que havia sido a cena do celular.
Wendy riu.
Havia doçura ali, mas também algo divertido em me ver daquele jeito.
- Eu também não gostei dele – respondeu. – Ele estava insistindo no meu número, dizendo que queria me contratar para organizar um evento de um familiar. Uma história sem pé nem cabeça.
Deu de ombros.
- Percebi suas segundas intenções. Então escrevi um número falso. Problema resolvido.
Sorri, aliviado. Ela percebeu.
- Eu sei me defender, Bruno. Mas... obrigada pela preocupação.
Não pudemos conversar muito mais. Wendy ainda tinha metade do evento nas costas.
Circulei mais um pouco e, pouco depois, Bruna e Henrique vieram se despedir.
- Bruno, nós já vamos – disse Bruna, estendendo a mão. – Foi tudo ótimo. Parabéns. Até segunda.
- Até mais, Bruna. Obrigado por toda sua ajuda.
Ela assentiu.
Se percebeu o sorriso cínico de Henrique para mim, nunca soube. Talvez estivesse acostumada ao jeito dele. E essa hipótese me causou calafrios.
- Até mais, campeão – disse Henrique, também me oferecendo a mão.
Limitei-me a um pequeno aceno. Sem resposta.
Ele sustentou o gesto por um segundo além do normal, como se medisse território, depois recuou e saiu abraçado com Bruna.
Foram embora cochichando. Bruna ainda olhou para trás por cima do ombro. E desta vez, havia aflição no rosto dela.
Pensei que comentaria algo comigo na segunda-feira seguinte, mas não o fez.
Eu nunca mais veria Henrique. Embora as ações futuras dele viessem a impactar profundamente a vida de Bruna... e a de Wendy.
De volta ao apartamento, já de madrugada, reencontrei Wendy na cozinha.
Eu estava sentado à mesa. Ela, em pé, apoiada no balcão, bebia um copo d’água.
Minha preocupação ainda não passara.
- Sugiro que você conte ao seu namorado sobre Henrique também – falei. – Quanto mais gente souber, melhor.
Ela me encarou como quem achava meu alarme exagerado.
- Você não acha que está se preocupando demais? Eu entendo sua intenção, mas não acho que ele vá fazer nada. E, sinceramente, acho que nunca mais vamos vê-lo. Lembra? Dei um número falso.
- Eu sei... mesmo assim, zelo pela sua segurança. Somos família, esqueceu?
Wendy sorriu. Parecia satisfeita.
Pousou o copo na pia e veio até mim. Depois me deu um beijo na testa. Não havia sensualidade nem ambiguidade. Era apenas carinho. Ainda assim, aquilo me trouxe paz imediata.
- Não vai acontecer nada comigo. Você vai ver – disse, convicta, já caminhando para o quarto.
- Você não pode ter tanta certeza assim, Wendy.
Ela parou e se virou.
- Posso, sim.
- Como? Por quê?
Sorriu daquele jeito doce que me desmontava.
- Porque tenho você para me proteger.
Engoli em seco. Ela percebeu o efeito.
- Gostei disso – completou.
E foi para o quarto, deixando-me sozinho na cozinha.
Naquele momento, eu não pensava em romance entre nós. Nem cogitava algo parecido.
Mas não pude deixar de notar como Wendy – assim como suas irmãs – mexia comigo de um jeito difícil de explicar. Como se fossem, todas elas, algum tipo de ponto fraco meu. Minha criptonita.
O assunto Henrique acabou se dissolvendo com o tempo, e o ritmo na PHX e no meu apartamento seguiu como vinha sendo. Havia intimidade e confiança entre mim e Wendy, mas não exatamente proximidade. Passávamos mais horas afastados do que juntos. Nas minhas folgas, eu costumava estar com Remo e Érica, e às vezes com Juliana. Em algumas ocasiões, apenas com Juliana. Wendy, por sua vez, dividia o tempo livre entre as amigas e o namorado.
Certa vez, ela apareceu no meu escritório claramente sem graça. Parecia reunir coragem para me pedir algo simples demais para justificar tanto nervosismo.
- Você se incomodaria se eu fizesse uma noite das meninas no próximo sábado?
- Noite das meninas?
- É... você sabe. Algumas bebidas, fofocas, risadas. Só eu e minhas amigas.
Seria a primeira vez em semanas que haveria gente nova no apartamento além de mim e dela. E, antes da viagem, minha mãe às vezes.
- Claro, Wendy. Nem precisa pedir permissão. Combina com elas e aproveitem bastante.
- Eu não quero te atrapalhar.
- Não vai atrapalhar nada. Pode ficar tranquila.
Ela assentiu, aliviada.
Antes que saísse, reforcei:
- Sempre que quiser marcar algo, sinta-se à vontade. Só me avisa antes. Eu durmo na casa da minha mãe e deixo vocês livres.
- Não! Não é isso. Não quero te expulsar do seu próprio apartamento.
Gesticulava com as mãos enquanto falava, aflita e doce ao mesmo tempo.
Levantei da cadeira e me aproximei. Coloquei as mãos em seus ombros. Notei seus olhos percorrendo meus braços antes de subirem para o meu rosto. Foi a primeira vez que ficamos tão próximos fisicamente desde que ela se mudara.
- Quantas vezes preciso te dizer para se sentir em casa?
- É que...
- O quê?
Os olhos dela encontraram os meus. Havia um pequeno tique nervoso nela. Ela alternava o olhar entre um olho meu e o outro, como se houvesse algo importante demais para ser dito com facilidade e aquilo fosse a forma dela reunir coragem. Ou de não desabar diante de mim.
- O quê? – insisti.
- Não quero que você deixe de viver sua vida por minha causa.
- Não estou deixando. Por que acha isso?
Ela baixou os olhos.
- Você nunca trouxe ninguém aqui. Uma paquera, namorada, sei lá... Nem mesmo seus amigos. Às vezes sinto que estou atrapalhando.
Naquele instante, percebi que ela se culpava pela minha introspecção das últimas semanas. Eu seguia no automático, e ela atribuía aquilo à própria presença.
Pensei rápido.
- Então vamos combinar assim. No próximo sábado, você faz sua noite das meninas. No sábado seguinte, será a noite dos amigos do Bruno. Você inclusa. Combinado?
- Não quero atrapalhar – repetiu, quase como mantra.
- Vai atrapalhar se não estiver presente. Então... combinado?
Ela assentiu.
Um sorriso quase nasceu em seus lábios, mas ela tratou de escondê-lo.
A noite das meninas aconteceu sem maiores problemas. Aproveitei para sair com Juliana, mas, como já vinha acontecendo, o encontro foi morno. Parecíamos distantes mesmo sentados à mesma mesa. Ela passou mais tempo no celular do que conversando, e eu, no pouco que olhei o meu, só tive tempo de curtir e comentar uma foto de Wendy e as amigas no meu apartamento.
Acabei dormindo sozinho na casa da minha mãe.
Voltei no dia seguinte, no fim da tarde, e o apartamento estava impecável. Parecia impossível que tivesse havido festa ali na noite anterior. Wendy estava trancada no quarto. Preferi não incomodá-la.
Durante a semana, nos cruzamos às pressas entre compromissos e horários desalinhados. Ainda assim, não deixei de lembrá-la:
- Não vai faltar no sábado, hein? Traz seu namorado também.
- Certo – respondia, tentando soar natural.
Chegou a noite dos amigos do Bruno – nome que inventei apenas para deixá-la mais confortável.
No fim, estávamos apenas eu, Remo, Érica e Wendy.
Ela olhou em volta.
- Pensei que viria mais alguém.
- Quem? – perguntei, genuinamente confuso.
- Ah, sei lá... você é tão famoso.
- Eu? – ri, incrédulo.
Érica interveio sem piedade.
- Ela está falando da Juliana, Bruno.
Senti um constrangimento imediato. Eu não havia mencionado Juliana para Wendy. Nem sequer tinha percebido isso até aquele momento.
Wendy também pareceu sem graça.
Como ela sabia?
Érica e Wendy se davam bem demais. Será que conversavam sobre mim quando eu não estava por perto?
Os três agora me olhavam com curiosidade aberta.
- A gente nem se falou essa semana – respondi.
Remo e Érica trocaram um olhar rápido. Wendy continuou me encarando.
Antes que viessem mais perguntas, desviei o foco.
- Pensei que seu namorado viesse, Wendy.
Ela arregalou os olhos.
- É... eu chamei. Quer dizer... falei com ele. Mas surgiu um compromisso e ele não pôde vir.
Não me pareceu convincente. Também não me pareceu ruim.
- Que pena – disse Érica.
Mas havia satisfação demais no tom da minha amiga para soar sincera.
A noite seguiu leve. Conversamos bastante. Remo e Érica faziam questão de contar histórias antigas minhas para Wendy, quase como se montassem um dossiê afetivo.
Ela ria sem parar.
- Não sabia que você era tão divertido, Bruno.
Nunca soube se aquilo era verdade ou ironia.
Em certo momento, fiquei com Remo na sacada enquanto Wendy e Érica continuavam na sala, entretidas numa conversa animada. Era impressionante como as duas se entendiam tão bem. Havia uma sintonia sempre crescente entre elas.
E, estranhamente, isso me agradava.
Percebendo que eu me perdia naquela cena, Remo comentou:
- Não sabia que Wendy era tão leve.
- Como assim?
- Só posso comparar com as irmãs dela. E, sendo honesto, as irmãs me pareciam carregadas demais.
Entendi o ponto, mas senti necessidade de defendê-las.
- Sendo justo com Wanda e Wis, talvez sua visão esteja enviesada porque você é meu amigo.
- Pode ser. Pode ser...
Seguimos observando as duas. Depois de um tempo, ele sorriu.
- Lembra quando eu disse que queria conhecer Wendy?
- Lembro. E agora conheceu.
- É... mas ela não é pra mim...
Virei na hora. Ele estava com um sorriso aberto de orelha a orelha.
- Nem pense em completar essa frase – apressei-me em dizer.
- Que foi? Não insinuei nada, amigo.
- Sei...
Rimos juntos.
Pouco depois, ele perguntou em tom mais sério:
- O vazio continua, né?
Eu sabia do que falava.
- Continua. Mas acho que está diminuindo. Faz semanas que minhas noites de sono melhoraram.
- Eu até imagino por quê.
- Não é por esse motivo.
Ele me olhou com a convicção de quem não acreditava em uma palavra.
Desviei o olhar para a cidade.
- Sei... – murmurou.
Instantes depois, Érica e Wendy vieram até nós.
- Meninos, Wendy nos convidou para uma balada no próximo sábado. Ela vai com as amigas e o namorado. Vamos também?
Havia entusiasmo demais na voz de Érica. O desejo de sair saltava dos olhos dela.
- Adorei a ideia. Tô dentro – respondeu Remo de imediato.
Todos olharam para mim.
Hesitei.
- Vamos, Bruno – insistiu Érica. – Leva a Juliana, se for o caso.
Franzi o cenho ao ouvir aquilo.
Olhei para Wendy.
Ela me encarava com uma tensão contida, como se aguardasse algo importante na minha resposta. O olhar dela estava diferente. Muito diferente.
- Tudo bem. Vamos.
Érica e Wendy trocaram um olhar cúmplice, com satisfação quase visível.
Remo me deu um tapinha nos ombros.
- É isso aí. Você está precisando de novidade nessa sua vida divertidamente monótona.
Elas riram.
Esbocei um sorriso discreto.
No fundo, começava a admitir que Remo tinha razão. Minha vida não estava apenas monótona. Estava parada. E Juliana nunca fora exatamente um recomeço.
Dias antes da balada, porém, Juliana entrou em contato comigo. Disse que precisávamos conversar. Resolver nossa vida, nas palavras dela. Marcamos um almoço num restaurante próximo da clínica onde trabalhava.
Ela chegou serena, mas havia tensão no modo como segurava a bolsa e organizava talheres sem necessidade. Percebi que trazia algo ensaiado por dentro.
Depois de poucos minutos de conversa protocolar, foi direto ao ponto.
- Peço desculpas pelo nosso último encontro. Eu estava dispersa. Você deve ter percebido. É que algumas coisas têm acontecido na minha vida ultimamente.
- Você não me deve nada, Ju.
Estendi a mão sobre a mesa e toquei a dela. Ela aceitou o gesto por um instante antes de recolher os dedos devagar.
- Eu sei. Nem dá pra nomear direito o que a gente teve... ou tem. Mesmo assim, eu não me sentiria bem se não tivesse essa conversa com você.
Respirou fundo.
- Eu e meu ex temos nos reaproximado nos últimos tempos. Primeiro por mensagens. Depois nos encontramos algumas vezes, mas não aconteceu nada. Não te traí.
Assenti em silêncio.
- Quando contei que estava saindo com alguém, ele pareceu entender. E ficamos nisso... como amigos. Só que você sabe como certas coisas são. Alguns sentimentos não morrem com facilidade.
Olhei para ela com calma.
- Você quer dar outra chance pra ele?
Juliana demorou um pouco a responder.
- Sinceramente? Não sei. E não estou aqui por causa dele. Estou aqui por você.
Os olhos dela enfim me encararam de verdade.
- Não quero te magoar. Estou confusa, e não quero te puxar pra dentro dessa confusão. Não é nada com você. Você tem sido incrível comigo. É só que...
A frase morreu sozinha.
Eu poderia ter ficado frustrado. Poderia ter me ressentido. Mas senti alívio. Havia semanas que eu e Juliana não estávamos mais na mesma frequência. Continuávamos saindo mais por inércia do que por impulso genuíno. Eu percebia isso. Talvez ela também.
Pensei em perguntar sobre o ex-marido, sobre motivos, recaídas, expectativas. Preferi não invadir.
- Eu entendo – respondi. – Fica tranquila. Acho que eu também não estou no meu melhor momento. Quem sabe no futuro.
Ela relaxou visivelmente.
- Que bom que você entende. Isso tira um peso enorme de mim.
Sorri de leve.
- Então já valeu a conversa.
Nos despedimos com cordialidade e sem dramatização. Houve carinho sincero, apenas não havia direção.
Naquela noite, contei sobre o almoço para Remo e Érica. Para minha surpresa, ambos pareceram satisfeitos demais com a notícia.
- Nunca achei que isso fosse dar certo – disse Érica, com a franqueza habitual.
- Pelo menos agora você está livre pra conhecer as amigas da Wendy – completou Remo, exibindo um sorriso malicioso.
Érica revirou os olhos, mas não rebateu o comentário dele. E aquilo me pareceu fora do normal.
Na noite da balada, Wendy saiu cedo com Lucas. Eu permaneci mais algum tempo no apartamento. Quase desisti de ir. Cheguei a ensaiar desculpas mentalmente, qualquer uma que justificasse minha ausência. Ainda assim, acabei indo. Saí quase duas horas depois.
O local estava lotado e escuro. Luzes de neon cortavam a fumaça artificial enquanto refletores giravam sobre a multidão. O grave da música vibrava no peito e engolia qualquer tentativa de conversa. Pessoas dançavam, pulavam e se chocavam sem parar, num calor sufocante de perfume, suor e bebida derramada. Circular ali exigia esforço.
Mesmo assim, comecei a abrir caminho procurando o pessoal. Pensei em mandar mensagem, mas mal conseguia mexer os braços naquele aperto. Preferi seguir no instinto.
Acabei esbarrando em alguns conhecidos dos tempos de escola. Trocamos cumprimentos rápidos, lembranças soltas e passei meu telefone para um deles. Foi quando senti alguém me agarrando pelo pescoço num quase mata-leão.
- Te achei, safado.
Era Remo.
Ele me soltou rindo, o corpo frouxo e o olhar perdido demais para disfarçar o quanto já havia bebido.
- Vamos, cara. As meninas tão te esperando.
Despedi-me dos antigos colegas e prometi reencontrá-los em outro momento.
Enquanto me guiava no meio da multidão, Remo foi falando das amigas de Wendy em frases entrecortadas.
- Ana Cristina... Camila... Elaine... e Andréa. É só escolher, mano. Todas lindas. Bem... Andréa tá com o namorado. Ela não pode. As outras, sim.
A fala vinha arrastada, mas cheia de entusiasmo.
- É hoje que começa sua nova história, Bruninho.
Então me deu um beijo no rosto. Sim, ele estava completamente bêbado. Parou de repente e segurou meu braço.
- Mas ei... um aviso.
Tentou focar os olhos em mim.
- A Érica pediu pra falar com ela antes. Tá?
Olhei sem entender.
- Tá? – insistiu.
- Tá.
- Bom rapaz. Bom rapaz.
E voltou a me arrastar por aquele mar de gente.
Quando enfim nos aproximamos da turma, antes mesmo que eu pudesse identificar rostos ou entender quem estava onde, ouvi um grito agudo, espalhafatoso e familiar.
- BRUNO!
Era Érica.
Ela veio correndo na minha direção, saltitante como se a noite dependesse da minha chegada. Me abraçou com força, o corpo colado ao meu por um instante, enquanto meus braços responderam por reflexo.
Então senti sua boca perto do meu ouvido.
- Aconteça o que acontecer, não fica com ninguém hoje. É uma ordem. Só me obedece e pronto.
Afastei-me alguns centímetros, encarando-a sem compreender absolutamente nada. Ela percebeu minha expressão e caiu na risada.
- Só me obedece – repetiu, me dando um beijo rápido na bochecha. – Vem. Vamos conhecer o pessoal, interagir, essas coisas...
Segurou minha mão e me puxou de volta para a roda.
Foi então que vi quem mais estava ali.
Wendy estava com Lucas. Cumprimentei os dois de forma cordial e protocolar. Lucas, inclusive, parecia mais simpático que o habitual. Suspeitei que já tivesse bebido além da conta.
Também conheci as amigas de Wendy.
Fui apresentado primeiro a Andréa. Ela estava com Daniel, o namorado. Os dois me pareceram simpáticos. Andréa falava pouco, mas observava tudo ao redor com atenção discreta, como quem registrava detalhes sem esforço.
Depois vieram Ana Cristina e Camila. Ana Cristina tinha um jeito direto, sem cerimônia, daqueles que já dizem o que pensam logo de início. Camila transmitia impressão oposta: serena, equilibrada, falava com calma e parecia levar consigo certa paz improvável para aquele ambiente.
Ambas foram agradáveis e cordiais nos cumprimentos.
Por fim, conheci Elaine.
Foi a mais expansiva de todas.
Quando apenas estendi a mão para cumprimentá-la, ela ignorou o gesto e me puxou para um abraço forte e espontâneo, como se já nos conhecêssemos havia anos.
Todas eram bonitas.
Elaine era loira e tinha um corpo que naturalmente chamava atenção. Andréa, Ana Cristina e Camila eram morenas, diferentes entre si no tom de pele, nos traços e na presença. Ainda assim, nenhuma superava Wendy em beleza.
Conheci outras pessoas que circulavam com a turma. O grupo era grande, disperso e mutável, como costuma acontecer em baladas. Aos poucos, porém, acabei me fixando numa roda com Ana Cristina, Camila e Elaine.
A conversa fluía fácil.
Falamos de festas anteriores, gafes alcoólicas, histórias de relacionamentos mal resolvidos e comentários rápidos sobre quem parecia interessado em quem naquele lugar. Havia leve provocação o tempo todo. Elas estavam claramente animadas. Principalmente Elaine.
Em dado momento, durante uma música mais acelerada, Elaine me puxou para dançar.
No embalo da pista, tentava se aproximar mais do que o necessário, deslizando o corpo no meu sempre que encontrava oportunidade. Eu recuava em pequenos movimentos, fingindo naturalidade, tentando manter certo respeito.
E também lembrando do aviso de Érica.
Dancei com Camila algum tempo depois. Com ela foi diferente: tudo leve, divertido, sem intenção aparente. Rimos mais do que dançamos.
Para não fazer desfeita, também chamei Ana Cristina. Ela recusou na hora.
- Não sei dançar – justificou-se, aos risos. – Não quero queimar meu filme com você.
Rimos juntos.
Nos poucos momentos em que observei ao redor, Wendy e Lucas permaneciam entretidos um com o outro, fechados no próprio mundo e alheios ao restante da pista.
Érica e Remo pareciam no mesmo clima, entre risos íntimos e cumplicidade automática.
À minha volta, tudo seguia leve, caótico e agradavelmente simples.
Então, mais algumas pessoas chegaram à nossa turma. Entre elas, Larissa.
- Bruno, é você? – perguntou ela, com a voz tomada por euforia.
- Larissa? Do Jornalismo? UAU. Quanto tempo, não é?
Trocamos um abraço mais caloroso do que o protocolo pedia. Só depois notei o homem ao lado dela. Estava próximo o bastante para que eu devesse cumprimentá-lo de imediato. Virei-me, estendi a mão e comecei a falar:
- Opa. Prazer. Sou Bruno. Estudei com a Larissa na…
Então encarei seu rosto.
Gustavo.
O ex de Adriana. Aquele.
Um frio desceu pela minha espinha. Ele também pareceu sentir o impacto. A rigidez no semblante denunciava isso. Ficamos em silêncio por alguns segundos, engolidos pela música alta e por uma tensão que, para mim, parecia maior que a própria pista.
Foi ele quem reagiu primeiro. Um sorriso surgiu em seu rosto – impossível decifrar se cordial, irônico ou apenas defensivo. Também estendeu a mão.
- Prazer, Bruno. Sou Gustavo.
Alternei o olhar entre ele e Larissa. Era evidente que escolhia agir como se nunca tivéssemos nos visto ou tido qualquer contato. E, se pensar bem, ele tinha razão. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Larissa se adiantou:
- Ah, que bom que vocês se conheceram.
Não soube dizer se ela percebeu a estranheza entre nós. Não demonstrou. Continuava eufórica, tomada pela própria alegria.
- Bruno, eu e Gustavo estamos noivos. Vamos casar.
- Sério? – perguntei, tentando soar apenas surpreso.
- Pedi ela em casamento hoje – disse Gustavo, e havia orgulho claro em sua voz.
- Nossa… fico muito feliz por vocês. Torço para que sejam felizes. De verdade.
Falei com sinceridade, olhando mais para ele do que para ela.
- Valeu, cara.
Conversamos mais um pouco, até que os dois se afastaram para falar com Wendy e Lucas. Pouco depois, Elaine surgiu ao meu lado e comentou, num tom casual demais para ser inocente:
- Larissa e Lucas são primos.
Fiz apenas um leve aceno de cabeça.
- Interessante – limitei-me a dizer.
A noite seguiu seu curso. Havia muitos casais na nossa turma, e cada um parecia absorvido no próprio momento. Eu permaneci com Elaine, Ana Cristina e Camila, enquanto a conversa seguia leve e espontânea. No fundo da mente, porém, ainda ecoava a “ordem” de Érica. O álcool, por sua vez, conspirava contra mim. Eu me sentia cada vez mais inclinado a ficar com Elaine, e ela se insinuava de um jeito perigosamente tentador para alguém já sem pleno domínio dos próprios sentidos.
Ainda assim, ficamos por algum tempo naquele jogo de aproximações e recuos, como se ambos soubéssemos onde aquilo terminaria, apenas adiando o instante. Em certo momento, Ana Cristina e Camila se afastaram discretamente, deixando espaço entre nós. Elaine não desperdiçou a chance.
- Você está demorando demais. Eu quero muito te beijar.
Ri sem conseguir evitar. A bebida me deixava leve demais.
- Não foi pra rir – disse ela, agora mais séria.
- Não vim pra beijar. Quero só me divertir.
Era mentira. Eu já queria ficar com ela. Algo casual, de uma noite só. A essa altura, mal me lembrava do que Érica havia me pedido. Elaine, porém, pareceu interpretar minha resposta como recusa. Fechou a expressão, embora continuasse perto de mim. E, realmente, fui bem desagradável na resposta.
Eu já estava decidido a mudar de postura e ficar com Elaine quando ouvi gritos. Vozes exaltadas cortaram a música. A confusão surgiu de repente, como incêndio em palha seca. Pessoas começaram a se afastar às pressas, abrindo espaço no meio da pista. Copos caíram, alguém tropeçou, cadeiras arrastaram. O tumulto vinha de muito perto.
Então vi, de relance, Gustavo e Lucas trocando socos no centro da roda que se formava.
E Wendy no chão.
Estava sentada sobre os calcanhares, a cabeça baixa, os ombros trêmulos. Quando ergueu o rosto, havia lágrimas e um desespero nu em seus olhos. Todo o resto desapareceu para mim naquele instante.
Não sei o que me deu. Talvez instinto. Talvez algo que já vinha crescendo sem que eu admitisse. De repente, o álcool sumiu do corpo, a névoa saiu da mente, e tudo ficou duro, nítido, urgente. A música já não importava. A briga já não importava. Nada importava além dela.
Atravessei a confusão ignorando empurrões e gritos. Abaixei-me à sua frente, na altura dela, e estendi a mão.
- Vamos sair daqui. Eu te levo. Eu… te protejo.
Seus olhos encontraram os meus. Veio junto aquele pequeno tique que sempre me desmontava. Ela não respondeu. Apenas colocou a mão na minha.
E eu a tirei dali.
Fui abrindo caminho pela multidão, segurando-a com firmeza. Ela me seguia sem hesitar, os dedos apertados nos meus como se, naquele instante, eu fosse a única coisa estável ao redor. Aos poucos, a pista foi ficando menos densa, o ar menos sufocante, os gritos mais distantes. Quando alcançamos a saída, não parei para pensar. Apenas a conduzi para fora.
Do lado de fora, a noite pareceu silenciosa demais depois de tanto barulho. Wendy respirou fundo, como quem emergia debaixo d’água. Seus olhos me buscaram de novo, e neles percebi que era exatamente aquilo que ela queria: distância, abrigo, paz.
Encontrei meu carro rapidamente. Abri a porta para ela e afivelei seu cinto com mãos ainda tensas. Quando terminei, nossos rostos ficaram próximos por um segundo a mais do que deveriam. Ela me observou em silêncio. Eu também não sabia o que dizer.
Entrei no carro e arranquei. Segui em direção ao meu apartamento.
- Para lá, não – disse ela, com uma urgência que não deixava espaço para discussão.
Olhei de relance em sua direção. Havia medo ali. Algo que ela não queria encarar ainda.
- Ok. Vamos para a casa da minha mãe. Tenho a chave.
Wendy assentiu de leve.
E seguimos em silêncio pela cidade vazia, cada qual mergulhado nas próprias reflexões, enquanto a mão dela permanecia pousada entre nós, a poucos centímetros da minha.
Na casa da minha mãe, Wendy sentava-se acuada no sofá. Fui buscar um copo d’água para ela. Quando entreguei, comentou num tom que tentava soar natural:
- Parece que há gente morando aqui.
- Venho aqui de vez em quando para ver se está tudo em ordem. E uma faxineira limpa a casa toda semana.
- Entendi.
Ela bebeu um gole. As mãos ainda tremiam, embora menos.
- Por que não quis ir pro apartamento? – perguntei com cuidado – Não se sente protegida lá?
- Não é isso. Nada a ver com proteção. É que... não quero falar com o Lucas hoje. Sei que ele vai me procurar lá.
- Entendo. Na verdade… não entendo o que houve. Por que Lucas e Gustavo estavam brigando?
Ela baixou a cabeça. Uma lágrima caiu.
- Eu sou muito idiota. Os sinais sempre estiveram lá. Ele nunca esqueceu a prima…
- Oi?
- Eu nunca fui suficiente. Tudo nele era fachada. Agora ficou claro.
Aproximei-me e fiquei de joelhos diante dela.
- Não fala assim. Você é mais do que suficiente para qualquer homem. Ele é que não te merece.
Wendy esboçou um sorriso triste, mas sem a mesma fragilidade de antes.
- Lucas sempre teve animosidade com Gustavo. Nunca entendi. Até hoje. Agora vejo que era ciúme. Sempre quis a prima, mas ela não quer mais saber dele. A família nunca aceitou os dois. Achavam incestuoso. Larissa seguiu em frente. Menos ele.
Ela enxugou o rosto com as costas da mão e respirou fundo antes de continuar.
- Me sinto boba por não ter percebido antes.
Esperei em silêncio.
- Ele surtou quando soube que Gustavo pediu Larissa em casamento e ela aceitou. Descobrimos isso lá mesmo. Depois mudou comigo. Ficou frio... tenso... com raiva. Aí foi até Gustavo e cochichou algo no ouvido dele. Gustavo partiu pra cima na hora.
- O que ele disse?
A voz dela quase sumiu.
- Coisas obscenas. Disse que Gustavo nunca daria prazer a Larissa. Disse que ele mesmo já tinha ficado com ela milhões de vezes... até recentemente. Na cama. Nessas palavras.
Limpei uma lágrima que escorria, mas notei que sua respiração agora estava mais regular.
Falei quando senti que ela estava mais recomposta.
- Sei que deve ter sido muito ruim descobrir isso. Entendo agora porque não quis ir para o apartamento. Provavelmente ele vai te procurar lá para querer explicar o inexplicável.
- Não tem explicação.
Dessa vez, sua voz saiu firme.
- Não, não tem – concordei. – Vamos dormir aqui. Você fica no quarto da minha mãe. Eu durmo no meu antigo quarto. Amanhã você pensa com calma no que fazer.
Ela me olhou com uma serenidade repentina.
- Não tem o que pensar. Acabou. Amanhã mesmo aviso a ele. Mereço mais.
Concordei com a cabeça.
- À propósito – continuou, pegando o celular – Vou desligar isso.
Houve alívio mútuo naquele gesto.
- Faz bem.
No dia seguinte, almoçamos ainda na casa da minha mãe. Pedi comida por aplicativo. Estávamos os dois com a mesma roupa da noite anterior, amarrotada pelo sono improvisado e desconfortável da madrugada. Falamos pouco. Wendy parecia recolhida, mas não abatida. Havia nela uma concentração serena, como quem já sabia exatamente o que precisava fazer.
Depois voltamos para o apartamento. Ela entrou no quarto e só saiu no fim da tarde. Eu estava na sala, mexendo no celular sem realmente ver nada, quando a porta se abriu. Wendy surgiu pronta para sair. Arrumada, firme, composta demais para alguém prestes a encerrar um relacionamento turbulento.
- Eu vou sair. Lucas vem me buscar. Vamos conversar – disse, sem rodeios.
Levantei na mesma hora.
- Você quer que eu vá? Quer que eu fique por perto?
Ela riu, tocada com minha reação.
- Não precisa, mas obrigada. Eu sei me defender.
A segurança com que falou me desconcertou. Eu, porém, só conseguia lembrar da noite anterior: os gritos, a briga, Lucas e Gustavo trocando socos, Wendy chorando no chão. Nada daquilo combinava com a tranquilidade que via.
- Mesmo assim... – comecei.
- Vai ficar tudo bem, viu? Eu volto logo.
O celular dela vibrou com uma mensagem. Wendy olhou a tela, respirou fundo e guardou o aparelho.
- Ele chegou. Até mais, Bruno.
- Até.
Fiquei parado ouvindo seus passos se afastarem pelo corredor. Depois o silêncio tomou conta do apartamento inteiro.
Não consegui me sentar em paz. Nem respirar direito. Sentia um frio insistente nas mãos, enquanto a cabeça imaginava cenários cada vez piores. Lucas exaltado. Lucas tentando manipulá-la. Lucas perdendo o controle. Lucas fazendo alguma loucura.
Pensei em avisar aos pais dela. Desisti. Wendy me odiaria por isso.
Pensei em mandar mensagem. Desisti também. Soaria invasivo, possessivo, ridículo.
Restou esperar.
Tentei ver televisão, uma série qualquer no Netflix, mas não me concentrava.
O celular permanecia na minha mão o tempo todo, como se pudesse tocá-lo e arrancar notícias dali. A cada vibração de notificações inúteis, meu coração disparava à toa.
Depois de duas horas, eu já estava à beira do desespero. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum sinal.
Comecei a andar pelo apartamento. Da sala à cozinha. Da cozinha ao corredor. Do corredor de volta à sala. Abri a porta do quarto dela e fiquei olhando para dentro, como se a ausência tivesse forma física. Nada me acalmava. A ansiedade apertava meu estômago e fazia o suor frio nascer na nuca.
Quando a terceira hora já passava, ouvi a chave na porta.
Meu coração falhou uma batida.
Wendy entrou. Inteira. Serena. Quase leve.
Foi só então que percebi o quanto eu havia prendido a respiração.
- Acabou. Estou... solteira.
Apoiei a mão no encosto do sofá para não demonstrar o alívio que quase me desmontou. Forcei naturalidade.
- Você... passou esse tempo todo com ele?
- Não. Nossa conversa foi rápida. Eu disse que queria terminar e expliquei meus motivos. Ele tentou me dissuadir, mas eu estava decidida. Ele chorou um pouco, depois aceitou que era o fim. Sem volta.
Falava com calma, sem tremor algum.
- Depois pedi que me deixasse no shopping. Fiquei andando, pensando.
- Que bom – balbuciei.
Ela soltou um riso leve, como se enxergasse em mim algo que eu mesmo ainda tentava esconder.
- Quer dizer... fico feliz que você esteja em paz com essa decisão – corrigi.
Wendy me observou por um instante e então se aproximou. Quando percebi, estávamos perto outra vez. Meu corpo inteiro ficou alerta, enquanto ela parecia absolutamente tranquila.
Então me abraçou.
Havia apenas carinho e gratidão naquele gesto. Nada além disso. E talvez justamente por isso ele me atingiu tanto.
- Obrigada por ontem. Obrigada por tudo. Eu sempre confiei em você, mas agora... eu realmente confio em você.
- Eu garanti isso ao seu pai – respondi, sentindo a voz falhar. – Prometi cuidar e te proteger.
Wendy riu, e o som do seu sorriso me desarmou por completo.
- Eu sei. E você me protegeu.
Para ela, aquele momento tinha algo de fraterno. Para mim, porém, começava a abalar estruturas que eu nem sabia mais como sustentar.
Nos dias seguintes, minha proximidade com Wendy aumentou consideravelmente. Sem Lucas, ela passou mais tempo no apartamento. Compartilhávamos conversas, jantares improvisados e episódios aleatórios na TV. Não havia declarações, nem qualquer tentativa evidente de ultrapassar limites. Por fora, éramos apenas dois colegas de quarto convivendo bem.
Por dentro, eu já não saberia definir com tanta facilidade.
Nos fins de semana, às vezes ela saía com as amigas. Em outros, ficava comigo, Remo e Érica até altas horas, entre bebidas, risadas e assuntos que nunca acabavam. Os momentos que a envolviam iam se tornando, aos poucos, os melhores da minha rotina.
Certa vez, ela me perguntou se Elaine e Ana Cristina poderiam passar o fim de semana conosco. Dormiriam no quarto dela. Resolvi ser sincero.
- Não vejo problema. Porém... sua amiga se insinuou bastante comigo na festa e eu não quero magoá-la, caso ela esteja esperando algo a mais. Não me sinto preparado para um relacionamento sério agora.
- Qual delas? – perguntou ela, com a voz rouca.
- Elaine.
Wendy soltou o ar devagar, como se a resposta apenas confirmasse algo que já suspeitava.
- Eu falo com ela...
- Por favor, não fala. Não quero criar problema. Qualquer coisa, fico na casa da minha mãe. Quero que você aproveite seus bons momentos com suas amigas.
Ela me observou por um instante, daquele jeito silencioso que às vezes parecia ler mais do que eu dizia.
- Para com isso, Bruno. O apartamento é seu. E eu não vou deixar a Elaine ficar te importunando.
- Não é isso. Nossa... – baixei o olhar. – Fico até constrangido.
Wendy riu e falou em seguida:
- Eu não quero que ela tenha nada com você. Melhorou?
Ergui os olhos, confuso.
- Acho que sim. Não sei – foi o que consegui responder.
Ela pareceu satisfeita demais com minha resposta.
As meninas vieram no fim de semana e ficaram por lá. Elaine não se insinuou em momento algum. Se Wendy falou algo com ela, nunca soube. Minha relação com todas foi cordial, limitada aos momentos em que nos cruzávamos entre sala, cozinha e pedidos de comida.
Semanas depois, durante o jantar, Wendy puxou um assunto que claramente vinha adiando.
- Nossos pais voltam em três dias. Está ansioso por isso?
- Indiferente para mim – respondi com sinceridade. – Espero só que tenham aproveitado.
- Penso igual.
Ela mexeu no prato sem necessidade. Havia inquietação ali.
- Tem algo te incomodando? – perguntei.
- Tem. E depende de você.
- De mim?
- Sim.
Wendy me olhou por tempo demais. Parecia hesitar não pelo que ia falar ou perguntar, mas pela possibilidade da minha resposta. Então baixou os olhos, tornou a me encarar, e o pequeno tique surgiu outra vez.
- É que... eu queria continuar morando contigo.
Meu corpo reagiu antes da mente.
- Tô adorando essa ideia de colega de quarto – continuou. – Me sinto adulta, independente. Não sei se teria isso voltando para a casa dos meus pais. E ainda não me sinto pronta para alugar algo só para mim.
Fez uma pausa curta.
- Mas também não quero atrapalhar sua vida. Nem ser um peso se você vier a namorar.
Engoli em seco ao ouvir aquela palavra.
- Eu não estou namorando – respondi rápido demais.
Wendy quase sorriu.
- Eu sei. Ainda assim, me preocupo de você estar se fechando por minha causa.
- Não é por sua causa. Eu garanto.
Ela baixou o olhar. Parecia sem força para insistir. Foi então que percebi algo simples e óbvio: eu também não queria que ela fosse embora.
- Eu adoraria que você continuasse aqui – falei. – Como você mesma disse: como colega de quarto. Esse lugar ganhou vida com a sua presença.
Ela ergueu os olhos devagar.
- Sabia que tirei uma foto da sala antes e depois de você? A mudança foi pequena... mas significativa.
Wendy riu, surpresa.
- Sério? Você fez isso? Me mostra depois.
- Mostro. Mas, sinceramente... se seus pais permitirem, eu não só adoraria. Eu realmente quero que você fique.
O sorriso que veio nela foi tímido, quase contido. Vi uma tentativa de morder os lábios antes que desistisse. Seus olhos passearam entre os meus daquele jeito particular que me encantava, como se dissessem algo que sua voz não diria.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Nenhum dos dois pareceu com pressa de quebrá-lo.
- Eu vou falar com meus pais – disse por fim. – Essa vai ser a parte mais fácil. Você vai ver.
Apenas assenti. Se falasse mais, talvez dissesse o que não devia.
Dias depois, fomos receber minha mãe e os pais dela no aeroporto. Voltaram felizes, cercados de malas e histórias. Eu estava lá com Wendy, Remo e Érica, que fizeram questão de ir.
Na saída, Wendy seguiu com os pais. Eu fui com minha mãe para a casa dela. Remo e Érica foram no carro dele. No caminho, minha mãe perguntou:
- Como foi com Wendy?
- Normal.
Ela poderia ter insistido. Seria típico. Mas preferiu falar da viagem, dos lugares que conheceu, e curiosamente evitou mencionar Wanda e Wis.
Eu ainda estava lá quando o celular vibrou. Era Wendy.
> Wendy: deu certoooo
> Wendy: vou continuar morando contigo
> Wendy: meus pais entenderam e concordaram com minha explicação
> Wendy: IUPI !!!!!
> Bruno: que maravilha
> Bruno: quer que eu compre comida pra gente?
> Wendy: sim, leva sushi
> Wendy: tipo, bem muito
> Bruno: fechado
Fiquei olhando a tela por alguns segundos depois da conversa acabar. Não queria admitir, nem para mim mesmo, o quanto aquela notícia tinha melhorado meu dia. O vazio estava sumindo.
Nossa rotina pouco mudou depois da confirmação de que Wendy ficaria morando comigo por tempo indeterminado. O que mudou foi outra coisa: a naturalidade entre nós. Sem Lucas, e com minha solteirice já assumida, a convivência virou intimidade silenciosa. Passamos a recorrer um ao outro quase sem perceber. Ela me contava sobre as amigas, conflitos pequenos da faculdade, planos para o futuro, inclusive o grande sonho que dividia com o pai. Eu falava do trabalho, das pressões, de coisas que raramente dividia com alguém.
Em algum momento, sem anúncio formal, nos tornamos a primeira pessoa a quem o outro procurava.
Suas irmãs, Adriana, Juliana, Lucas e até seu primeiro namorado continuavam temas proibidos. Eu não citava. Ela também não. E, curiosamente, esse silêncio nos servia bem. Às vezes eu me perguntava o que Wanda e Wis pensavam do fato da irmã do meio morar comigo. Mas a curiosidade durava pouco. A verdade é que eu não devia mais nada a elas. Nem elas a mim.
Meu apartamento passou a ter movimento constante. Remo e Érica apareciam sempre, e era bonito ver a amizade crescente dela com Wendy. Minha mãe também surgia com frequência, assim como Trajano e Cecília. Todos nos tratavam com absoluta normalidade. Sem perguntas enviesadas. Sem insinuações. Sem aquele olhar de quem espera um romance nascer diante de si. Eu dizia a mim mesmo que apreciava isso.
As amigas de Wendy também estavam sempre por perto. Às vezes passavam o dia inteiro no apartamento. Nos fins de semana, eu interagia mais. Havia brincadeiras e algumas insinuações leves, sobretudo de Elaine, mas tudo num tom facilmente contornável. Eu entrava na graça da situação e percebia que Wendy raramente se incomodava. Pelo contrário: observava tudo com um sorriso calmo, às vezes divertido demais para ser neutro. Muitas vezes ela dizia:
- Gosto de saber que você e minhas amigas se dão muito bem.
- Elas são legais – eu respondia.
- Elas acham o mesmo de você.
Pequenos hábitos começaram a surgir entre nós. Eu já sabia como ela gostava do café da manhã. Ela sabia quando eu tinha tido um dia ruim só pelo jeito como largava as chaves na mesa. Eu comprava algo de comer pensando se ela gostaria. Ela favoritava séries para vermos juntos à noite ou no fim de semana. Coisas mínimas. Coisas perigosamente fáceis de naturalizar.
No aniversário de cinquenta e nove anos de Cecília, houve uma comemoração simples na casa dela, para poucos convidados. Estavam Trajano, minha mãe, eu, Wendy, Remo e Érica. Intrigava-me como esses dois últimos haviam se tornado íntimos da minha mãe e dos pais de Wendy com uma rapidez quase profissional.
Em dado momento, Cecília se afastou para uma chamada de vídeo com Wanda e depois outra com Wis. Fiquei reflexivo por alguns instantes, mas logo passou. Minha mente e meu coração pareciam finalmente aceitar o que havia terminado.
Depois da comemoração, Remo e Érica nos convidaram para jogar boliche. Relutei por puro costume. Acabei cedendo, muito por insistência de todos – especialmente de Wendy, que parecia a mais animada.
Fomos nós dois no meu carro. A conversa no trajeto fluiu como sempre vinha acontecendo: sem esforço, sem pausas constrangedoras, sem necessidade de assunto grande para preencher o tempo. Às vezes eu me pegava esperando por momentos assim mais do que o próprio destino.
Jogamos por horas, em dupla. E vencemos Remo e Érica com folga. A cada jogada boa, Wendy comemorava como se estivéssemos decidindo um campeonato mundial. Ria alto, provocava os dois, me batia no braço quando eu errava pouco e exigia concentração quando era sua vez. Era competitiva, como Wis, mas de um jeito diferente. Mais saudável, talvez.
Quando a vitória se confirmou, ela se atirou nos meus braços antes que eu pudesse reagir. Instintivamente, a ergui e a rodei ali mesmo na pista. Por um segundo, o resto do lugar pareceu desaparecer.
- Eu e você somos a dupla perfeita – disse, ainda rindo. – A dupla perfeita!
- Somos imbatíveis – comemorei.
Ela demorou um instante a mais para se afastar. E eu demorei mais do que deveria para me livrar da sensação dela nos meus braços. Remo e Érica pareciam satisfeitos, mesmo derrotados.
Não havia mais vazio. E foi preciso mais algum tempo para perceber isso.
Tudo mudou num sábado à noite.
Remo e Érica viriam para passarmos a noite conversando, bebendo e comendo alguma besteira, como tantas outras vezes. Porém, desmarcaram em cima da hora, alegando um compromisso inesperado e inadiável.
Tudo já estava pronto à espera deles, que não viriam mais. Eu e Wendy nos entreolhamos.
- É... vai ficar pra gente mesmo. Topa? – perguntei.
Ela riu. Havia entre nós uma cumplicidade crescente.
- Topo demais.
E ficamos.
Bebemos muito. Mais do que o habitual. O tipo de noite em que a bebida primeiro solta o riso, depois a língua, depois as reservas. Conversamos sobre banalidades e, sem perceber, escorregamos para assuntos íntimos. Medos, frustrações, sonhos, lembranças que normalmente se guardam.
Ela falava e eu gostava de ouvir. Eu falava e ela escutava de verdade. O sorriso dela me aquecia de um jeito perigoso.
Depois cantamos algum sertanejo que ela gostava e passava na TV. Erramos letras, rimos um do outro e brindamos por motivo nenhum. Em seguida, tentei lhe mostrar Beatles. Ela ouviu duas músicas com paciência até interromper:
- Quero uma mais animada.
Escolhi Twist and Shout.
E nada no mundo explica direito o que senti ao vê-la dançando. Ela parecia pertencer àquela música. Solta, viva, sensual, vibrante. Como se tivesse nascido para noites assim.
- Você já ouviu e dançou isso antes? – perguntei.
- Já. Eu e minhas amigas sempre dançamos nas nossas noites das meninas.
- Uau.
🎵 shake it up, baby, now 🎵
- Danço bem?
- Bem? Você é... incrível.
- Incrível?
- Incrível e muito mais.
Ela sorriu. Dessa vez havia malícia ali. Clara, assumida, irresistível.
- Vem.
Juro que quis pensar nas consequências. Mas já havia bebida demais no sangue e verdade demais no ar.
- Vem dançar comigo.
- Não sei dançar.
- Só deixa o corpo ir.
Ela colocou a música no repeat.
Aproximou-se até quase me abraçar. As mãos tocaram minha nuca. O perfume dela embaralhou ainda mais meus sentidos. Então começou a se mover junto de mim, lenta e perigosamente.
No refrão, virou de costas e roçou o corpo no meu. Meu membro reagiu antes que qualquer prudência pudesse intervir.
Quando a música terminou, ela olhou por cima do ombro e provocou:
- Viu? Nem foi difícil.
Não consegui responder.
Ela foi ao banheiro, e eu fiquei parado no meio da sala, tentando organizar um mundo que já não obedecia mais a nenhuma ordem.
Quando voltou, parecia mais contida. Ou talvez só parecesse. A energia entre nós continuava alta demais para caber naquele apartamento.
Sentamos no sofá e voltamos a conversar.
Não lembro exatamente sobre o quê.
Lembro da sensação.
Do calor da sala. Das pernas dela encostando nas minhas sem se afastar. Do jeito como me olhava entre uma frase e outra. Da minha vontade crescente de esquecer prudência, passado e qualquer promessa feita a mim mesmo.
Em certo momento, eu estava na poltrona e ela sentada no braço, inclinada perigosamente na minha direção.
Sussurrou no meu ouvido:
- Minhas amigas estão chateadas comigo, sabia?
- Sério? – fingi surpresa. – Por quê?
- Porque nunca mais te chamei para uma festa com elas.
- Ah, é? Me chama na próxima que eu vou.
- Vai? Por quê? Tá interessado em alguma delas?
- Não é isso.
- Não se interessou por nenhuma?
- Não é isso, repito.
- Então o que é?
- Não sei. É… não estou interessado.
Ela me estudou por um instante.
- Acho que entendi.
- Entendeu?
- Quem te interessa não mora no Brasil, né?
Fiquei sério. Ela também. Por um instante, pareceu que toda a bebida saiu do meu corpo.
- Não tem nada que me interesse fora do Brasil – respondi, olhando dentro dos olhos dela.
Ela não disse nada. Mas um brilho surgiu. E seu tique nervoso também.
Depois disso, houve silêncio. Um silêncio cheio demais para ser vazio.
Naquela hora, entendi algo que talvez ela já soubesse antes de mim: nós dois vínhamos nos escondendo atrás da amizade, da rotina, das visitas, das brincadeiras, da conveniência.
Era o meu silêncio refletido no dela. Como se tivéssemos chegado ao mesmo lugar por caminhos diferentes.
Ao mesmo tempo, nos inclinamos.
Um beijo.
O beijo.
O melhor de todos.
Não sei descrever exatamente o que aconteceu dali em diante. A memória me devolve mais sensação do que fatos.
Lembro das mãos dela no meu rosto. Da forma como me conduzia e se entregava ao mesmo tempo. Do gosto da bebida ainda em seus lábios. Da urgência crescendo sem violência. Do alívio quase doloroso de finalmente acontecer.
Eu a beijava como quem recupera algo perdido. Ela me beijava como quem já havia escolhido.
Fomos para o meu quarto entre risos baixos, passos tortos e beijos que interrompiam qualquer tentativa de caminhar em linha reta.
Em algum momento, as roupas não existiam mais. Em outro, uma novo mundo se abria para mim.
- Eu queria isso há muito tempo – ela sussurrou no meu ouvido.
- Eu também.
Lembro do cuidado, do desejo, da entrega, de nada parecer errado, nem precipitado, muito menos imprudente.
Tudo parecia apenas certo.
Depois disso, minha memória se dissolve em fragmentos: pele, mãos entrelaçadas, penetrações, respirações sem ritmo, o nome dela na minha boca, o meu na dela, uma felicidade quase absurda.
Gozei.
Ou talvez tenhamos apenas desaparecido juntos por alguns instantes.
Não sei se apaguei por causa da bebida, do cansaço ou da rara sensação de me sentir completo. Só sei que, naquela noite, dormi diferente de todas as outras.
Acordei assustado e tomado por um vazio tremendo e paradoxal. Todas as sensações incríveis da noite anterior haviam evaporado. As certezas tinham virado dúvidas. O encanto dera lugar ao peso. “O que foi que fiz?”, perguntei a mim mesmo vezes demais.
Sentei-me na cama e observei Wendy dormindo ao meu lado, completamente nua, entregue ao sono mais sereno que já vi. Tão linda. Tão próxima. Tão... proibida.
Eu não devia nada a ninguém. Essa era minha realidade. Ainda assim, não conseguia me livrar da sensação de que havíamos atravessado alguma fronteira invisível.
Cobri-a com o edredom, com o máximo cuidado. Ao sentir a coberta, ela se aconchegou instintivamente, sem acordar. O rosto transmitia paz. Quase satisfação. Isso me afligiu ainda mais.
Vesti uma roupa e fui para a cozinha.
Minha cabeça latejava. Tomei um analgésico e um antiácido ao mesmo tempo. Sentei-me à mesa, esperando algum alívio que não vinha. A dor física era simples perto da confusão mental.
Sem conseguir ficar parado, comecei a preparar café da manhã. Sabia exatamente do que Wendy gostava. Era o mínimo que eu podia fazer depois de tudo.
Quando terminei de arrumar a mesa, sentei-me de novo e esperei.
A cabeça seguia pulsando. Os pensamentos também.
Demorou algum tempo até Wendy surgir na cozinha, enrolada no edredom. O alívio imediato que senti ao vê-la bem morreu no mesmo instante em que notei sua expressão.
Ela carregava o mesmo desespero que existia dentro de mim.
Sentou-se à mesa devagar. Ficamos os dois de cabeça baixa, como cúmplices de algo que não poderia ter acontecido. O silêncio pesava demais.
Coube a mim rompê-lo.
- Eu sinto muito. A culpa é toda minha.
Ela ergueu os olhos na mesma hora. Havia concordância ali.
- Nós dois erramos.
Voltou o silêncio.
Algum tempo depois, ela respirou fundo e tocou no assunto que pairava entre nós desde que acordamos. E desde muito tempo, para ser mais exato.
O elefante na sala.
- Não devíamos ter feito aquilo. Você teve uma relação com minhas irmãs... e eu ainda estou me recuperando do fim do meu namoro.
Assenti devagar, mas também quis esclarecer as coisas.
- Não tenho mais nada com suas irmãs... ainda assim, concordo que passamos do ponto. Eu peço desculpas por ter levado as coisas adiante.
- Já te disse que nós dois somos culpados. Eu quis... também.
As últimas palavras saíram baixas, quase envergonhadas.
Não falamos mais nada por um bom tempo. A distância entre nós, apesar da mesa pequena, parecia enorme.
- E agora? – ela perguntou, nervosa.
Respirei fundo antes de responder.
- Eu gosto muito de você, Wendy. Muito mesmo. Tenho adorado sua presença aqui. Você trouxe vida a este apartamento, e eu não quero perder isso.
Ela me ouviu sem se mover.
- Não quero que o que existe entre nós seja destruído por causa de uma noite... por mais especial e complicada que ela tenha sido. Então, por favor... vamos colocar isso no passado. Vamos seguir em frente e preservar as coisas boas que construímos um com o outro. Pode ser?
Wendy me encarou por longos segundos. Havia tristeza ali. E alívio também. Talvez ela quisesse exatamente a mesma saída e tivesse medo de eu discordar.
- Pode – respondeu, quase num sussurro.
Estendi as mãos sobre a mesa, procurando as dela. Depois de um instante de hesitação, Wendy correspondeu. Seus dedos estavam frios, mas firmes ao se entrelaçar aos meus.
- Obrigado. Prometo não decepcionar você.
Olhei-a com toda a convicção que consegui reunir.
- Eu prometo – reforcei.
Ela fez um pequeno aceno de cabeça, aceitando aquele acordo silencioso. E, naquele momento, nós dois fingimos acreditar que seria simples esquecer.
Nos dias seguintes, tentamos resgatar a normalidade que existia entre nós.
No começo foi difícil. Havia hesitação dos dois lados. Cuidado excessivo em gestos simples. Silêncios onde antes havia espontaneidade. Distâncias calculadas demais para parecerem naturais. Tive a impressão de que seus pais e minha mãe perceberam algo estranho no ar, mas, por delicadeza ou prudência, nada comentaram.
Na semana seguinte, porém, já agíamos com mais leveza. O sorriso dela recuperara vida. E isso aquecia meu coração de um jeito que eu evitava analisar para minha própria paz de espírito.
Voltei a comprar suas comidas favoritas. Ela escolheu novas séries para assistirmos juntos. A distância entre nós parecia finalmente ajustada: nem perto demais, nem longe demais. O suficiente para nos satisfazer.
O que acontecera naquela noite não fora mais citado por um bom tempo. Ficou enterrado em algum lugar fundo da memória. Talvez tivesse sido um sonho ruim. Ou bom, dependendo da perspectiva.
Quatro ou cinco semanas depois – não sei precisar – tive um dos maiores dias da minha carreira na PHX. Angariamos novos clientes com patrimônio na casa dos bilhões. Estratégias que eu ajudara a construir anos antes entregavam rendimentos acima de quinze por cento ao ano. Meu nome circulava entre sócios, gestores e gente importante do mercado.
Eu estava em êxtase.
Voltei para o apartamento querendo contar aquilo a Wendy.
Especificamente para Wendy.
No carro, pensei nisso mais de uma vez. Por que justamente a ela? Por que minha primeira vontade era dividir aquela notícia com Wendy?
Um frio discreto passou pelo estômago.
Afastei o pensamento. O dia havia sido grande demais para ser estragado por perguntas internas. Eu só queria chegar em casa e comemorar com ela.
Simples assim.
Mas, ao abrir a porta, algo me travou.
O apartamento estava escuro demais.
Havia apenas um pequeno abajur aceso na sala, lançando uma luz baixa e amarelada que deformava os contornos dos móveis. O restante dos cômodos estava na mais absoluta escuridão.
O ambiente parecia suspenso, como se esperasse alguma coisa.
No sofá, Wendy estava encolhida. A cabeça repousava sobre os braços dobrados.
Vestia um agasalho largo e um edredom cobria suas pernas. Ela estava pequena. Quieta. Frágil de um jeito que eu nunca a tinha visto antes.
Meu entusiasmo morreu na mesma hora.
Aproximei-me devagar, sem fazer barulho. Agachei diante dela, apoiado sobre os calcanhares. Meu coração já batia acelerado sem que eu soubesse por quê.
- Ei... – falei baixo.
Ela se virou lentamente.
- Oi – respondeu num sussurro.
Havia chorado.
O rosto estava inchado, pálido. Os olhos cansados. O cabelo desarrumado.
Senti um medo imediato, bruto, irracional. Seria uma doença? Um luto? Alguma tragédia?
Em uma das mãos, ela segurava um pequeno aparelho laranja. Parecia um termômetro simples.
Instintivamente, toquei sua testa. Fria. Estranhei.
Peguei o objeto de seus dedos e olhei para ele. A tela mostrava dois traços.
Franzi o cenho.
Virei de lado. Depois de cabeça para baixo. Talvez fosse um modelo novo. Talvez precisasse apertar algum botão. Talvez estivesse descarregado.
- Bruno... – ela chamou.
Continuei encarando o aparelho, tentando entendê-lo.
- Bruno... – repetiu, agora mais firme.
Ergui os olhos.
Ela me observava com uma mistura de medo e ternura. Como se esperasse o impacto antes mesmo de causá-lo.
- Preciso te dizer uma coisa.
Engoli em seco.
- Fala.
Ela respirou fundo. A mão deslizou até o próprio ventre, como num gesto inconsciente.
Os olhos marejaram.
O tempo parou.
E minha vida mudou para sempre.
- Você...
…vai ser pai.
Continua...
Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.
É isso. Agora só falta mais um capítulo. O fim está chegando…
No capítulo final, descobriremos com quem Bruno terminará. Será que o final está tão óbvio assim? Por quem torcem?
Também teremos casamento, Tyler e Lorenzo Cassano no Brasil e Bruno e “suas” cinco mulheres no mesmo ambiente. Sairá faíscas? WOW!