Adriana veio até mim. Sem dizer nada, segurou minha mão e me conduziu até a cama. Começou a tirar minha roupa com calma.
Wanda nos observava em silêncio, os dedos deslizando lentamente pelo próprio corpo.
Adriana expôs meu membro e começou a chupá-lo.
A lembrança veio de imediato: o calor de sua boca, a vontade que ela imprimia, a sucção apertada.
Fechei os olhos por um instante, absorvendo a sensação.
Quando os abri, mirei Wanda, que olhava com um misto de tesão e raiva, desejo e competição.
Ela se posicionou atrás de Adriana, segurou seus cabelos e passou a guiar seus movimentos, enterrando a boca dela cada vez mais no meu pau, fazendo-a se engasgar mais de uma vez.
Wanda me fitava como se estivesse me estudando.
Em certo momento, também coloquei minha mão na cabeça de Adriana, puxando-a mais para mim enquanto aproximava meu rosto do de Wanda, perigosamente próximo.
Um instinto de proibido subiu dentro de mim, como em Nova York, como nas vezes em que eu comia Adriana pensando que tinha traído Wanda.
Senti como se fosse uma nova traição, e isso me deixou ainda mais duro.
Adriana engasgou novamente, tossindo e babando muito.
- Nossa, Bruno… nunca vi tão grande.
Então ela se afastou um pouco e olhou para Wanda.
- Sua vez.
Wanda veio e abocanhou meu pau.
Era a primeira vez que Wanda – meu amor platônico por tanto tempo – fazia aquilo comigo.
Meu membro encaixou-se com perfeição em sua boca. A habilidade dela era claramente superior à de Adriana.
Wanda chupava como se sua vida dependesse disso.
A sucção era muito mais apertada que a de Adriana. Parecia que sugava algo muito além do meu corpo.
Passei a movimentar o quadril, enquanto ela trabalhava meu pau com a boca.
Diferente de Adriana, Wanda suportava mais. Engasgava como se fosse parte do processo, e isso me excitava muito mais.
Eu estava perdendo completamente o controle, mas lembrei de Adriana ao lado.
Quando olhei para ela, estava vidrada. Espantada. Chocada. Mas também excitada.
Seus dedos trabalhavam nervosamente em sua boceta.
Puxei Adriana para mim enquanto pressionava a cabeça de Wanda, fazendo meu pau entrar mais fundo em sua boca.
Comecei a beijar Adriana e tentei, de forma desajeitada e apressada, tirar seu sutiã e sua calcinha.
Queria ela nua. E ela correspondeu.
O beijo intenso e familiar me cobriu de memórias quentes e afetivas.
Ela tinha sido minha namorada por seis anos, e nossa química sexual ainda estava ali… abalada, mas viva.
Depois posicionei Adriana deitada na cama, aberta para mim, e rapidamente mirei em sua boceta nua, penetrando com força e pressa.
Wanda deitou-se de lado, admirando e nos acariciando simultaneamente.
Não havia falas. Apenas gemidos e murmúrios inaudíveis.
Adriana estava muito molhada e seu corpo parecia sensível. Ela se contorcia como se estivesse vivendo sensações novas.
Então Wanda deitou-se sobre ela, de costas para mim.
Começou a acariciá-la nos seios e no rosto, enquanto se olhavam.
Adriana também a encarava.
As duas se olhavam em silêncio.
A bunda de Wanda também me deixou maluco. Sua bocetinha e seu cuzinho rosado ficavam cada vez mais empinados enquanto eu arregaçava a boceta de Adriana.
Comecei a acariciar aquela bunda, aquela perdição.
Coloquei meu polegar em seu cuzinho.
Ela reagiu empinando ainda mais.
Conseguia ver sua pele arrepiada.
Adriana também se inclinava mais.
Quando olhei para frente, elas estavam se beijando delicadamente.
As mãos de Adriana conduziam o rosto de Wanda.
E meu tesão aumentou ainda mais.
Estava prestes a gozar quando parei e me afastei um pouco, para admirá-las de certa distância.
Elas não perceberam imediatamente e continuaram se beijando.
Adriana foi a primeira a notar.
As duas olharam para mim.
- O que foi? Já cansou? – perguntou Wanda.
Adriana disse:
- Come ela agora, Bruno. Sei que é isso que você quer.
Sorri.
Meu sorriso deve ter sido cruel.
Adriana me lançou um olhar indecifrável.
Wanda me encarou com luxúria.
Aproximei-me delas e penetrei a boceta de Wanda.
Era mais apertada.
Cheguei até a me questionar sobre algo, mas deixei isso de lado. Era hora de aproveitar.
Estoquei com força. Parecia que estava rasgando.
Wanda gemia alto.
Minhas mãos cravadas em sua bunda enquanto eu beijava as pernas de Adriana.
Adriana voltou a beijá-la.
As duas cochichavam baixinho, provocando-se.
E a bocetinha de Wanda parecia apertar e soltar meu pau ritmicamente. Como sua boca.
Era irresistível.
Eu não ia durar muito.
Tentei me controlar, mas não estava conseguindo.
Tirei de uma vez e enfiei no cu dela, quase sem preparação.
Wanda soltou um grito avassalador:
- Aaahhh! Meu cu… ele botou no meu cu!
Adriana respondeu:
- Não era o que você queria? O pau do meu namorado? Ele comeu meu cu mais de mil vezes. Agora aguenta, sua vagabunda.
Adriana deu um tapa em Wanda enquanto ela respirava ofegante, tentando se acostumar ao meu pau enterrado em seu cu.
Eu também me controlava.
Não queria gozar ainda.
O paraíso não podia acabar ainda.
Adriana segurava Wanda pelos cabelos e pelo rosto. Lambia e mordia sua face.
Estava ficando difícil para mim.
O cuzinho de Wanda era muito apertado. Parecia até que nunca tinha dado, mas eu sabia que isso era impossível. Ela amava sexo.
Quando Wanda finalmente se acostumou, olhou para trás.
- Come, Bruno. Come a mulher que você sempre desejou. O amor da sua vida. Mostra para mim que você sempre quis.
A humilhação foi tremenda.
Vi o choque nos olhos de Adriana.
Wanda olhou para ela e a beijou, não deixando que ela processasse.
Meu pau endureceu ainda mais, se isso fosse possível.
Um remorso tentou surgir, mas eu o empurrei para longe.
Meti com força, minha mão cravada nos seus ombros de Wanda, puxando-a para mais perto de mim.
A cama rangia.
Elas se amassavam, gemiam, grunhiam, mas eu não me importava.
Wanda ainda me provocava, apertando habilidosamente o esfíncter.
Então injetei meu sêmen com raiva.
Meu grito ecoou pelo condomínio inteiro.
Tirei meu pau enquanto alguns jatos ainda jorravam sobre sua bunda.
Ainda sem pensar direito, ofegante, posicionei Wanda de quatro na cama e puxei Adriana pelos cabelos, enterrando o rosto dela na bunda de Wanda.
- Agora chupa minha porra no cuzinho dela.
Dei um tapa em sua bunda como sinal para começar.
Afastei-me um pouco, observando a cena.
Wanda suspirava enquanto a língua de Adriana parecia entrar profundamente.
Meu pau não amoleceu.
Aproximei-me novamente e me posicionei abaixo de Adriana, passando a castigar sua bocetinha com minha boca.
Ela passou a gemer junto com Wanda.
Adriana se remexia, esfregava a boceta em meu rosto, grunhindo algo abafado.
De repente, Wanda gritou que estava gozando.
Um grito alto, desesperado.
- Goza, sua puta – falou Adriana.
Intensifiquei meus movimentos em Adriana.
Ela colocou a mão em meus cabelos, como se quisesse me guiar.
Até que também gozou forte, em gritos exasperados, encharcando meu rosto inteiro.
Respirei fundo e me levantei. Não queria perder tempo. Não iria.
Wanda estava deitada de bruços na cama, tentando controlar a respiração, o rabo limpo pela boca de Adriana.
Adriana estava sentada no chão, escorada na cama, não muito diferente.
Por um momento quis refletir sobre aquilo. Mas que se foda. Não era o momento.
Fui até Adriana, levantei-a e a posicionei de quatro.
Ela parecia entregue, aceitando todos os meus comandos.
- Vou te enrabar, Adriana, para você entender de uma vez por todas que você é minha. Só minha. Que eu te conquistei e tenho todo direito sobre você.
Wanda nos observava com atenção.
Posicionei meu pau no cuzinho de Adriana e entrei.
O encaixe foi perfeito.
Anos fazendo aquilo faziam nossas peles se reconhecerem.
Puxei seus cabelos. A outra mão cravada em sua bunda.
Estocadas sem parar.
Gemidos.
Palavrões.
Ordens.
Obscenidades.
Éramos nós, como sempre fomos.
- Vai, Bruno… come… vai… que saudade, meu amor… saudade de você, do seu pau no meu cu, de você em cima de mim, me dominando, metendo, me batendo, me fazendo sua… só sua… é você quem sempre procurei para me dominar… me mostra que sou sua… me diz que você é meu…
- Sim, Adriana. Você é minha. Só minha. Eu te conquistei. Adquiri posse sobre você. Fiz você minha putinha e farei de você minha putinha para sempre, até quando eu quiser.
- Sim, amor… eu juro… serei sua para sempre.
Era como se o tempo tivesse recuado.
Eu e ela.
Não queria sair de dentro dela nunca mais.
Gozei muito, injetando meu sêmen profundamente em suas entranhas. O suor pingava de nossos corpos.
Ficamos engatados por alguns segundos, apreciando a sensação.
Então olhei para Wanda.
Ela estava chupando o dedo, olhos arregalados, exalando tesão.
Saí de Adriana e fui até ela.
- Agora é sua vez.
Levantei Wanda pelos cabelos e a guiei até Adriana.
- Quero que beba minha porra vazando do cuzinho da sua amiga. Vai.
Dei-lhe um tapa na bunda.
E ela foi.
Deitei-me na cama, encostado na cabeceira, observando a cena.
Meus olhos encontraram os de Adriana.
Primeiro a vi como objeto.
Depois vi dor em seus olhos.
Mas logo passou.
Um peso tentou surgir em mim, mas novamente o afastei.
Quando prestei atenção de novo, Adriana estava entregue.
Seu olhar só tinha tesão.
Quando Wanda terminou, puxei as duas para mim, abraçando-as sobre meu corpo.
Ficamos nos beijando devagar, sem pressa, sem palavras.
Ora eu e Adriana.
Depois eu e Wanda.
Depois as duas.
E por fim nós três ao mesmo tempo.
Foi nosso momento mais carinhoso. Como se pensássemos apenas no que havia de bom entre nós.
Mas meu pau logo reagiu novamente.
E eu queria mais.
Logo nos posicionamos outra vez.
Adriana sentou-se sobre meu rosto enquanto Wanda começou a me chupar.
Passei a trabalhar com a língua e os dedos na bocetinha e no cuzinho de Adriana.
Wanda fez outra sucção espetacular – melhor que a anterior.
Depois trocamos.
Passei a chupar Wanda, sua bocetinha em meu rosto, enquanto Adriana me chupava.
Fluidos eram trocados sem parar.
Depois Wanda se virou de frente Adriana, que se sentou em meu pau, cavalgando.
As duas começaram a se beijar e se tocar.
Wanda esfregava ainda mais a boceta em meu rosto.
Adriana castigava meu pau com cavalgadas cada vez mais intensas.
Depois elas mesmas trocaram de posição: Wanda foi para meu pau e Adriana ficou com a boceta em meu rosto.
A luxúria era total.
E Wanda era insana.
Eu me impressionava com o encaixe perfeito do meu pau em sua bocetinha.
Não consegui resistir.
Com Wanda, simplesmente não dava.
E gozei muito dentro dela.
Gemi forte, urgente, selvagem.
Mas elas não pararam.
Wanda continuava a rebolar firme. Adriana continuava se esfregando em meu rosto, como se quisesse arrancar mais de mim, mesmo quando eu já não tinha mais nada para dar.
Só pararam quando gozaram.
Primeiro Adriana.
Depois Wanda.
E eu… estava completamente inerte.
Então ficaram se beijando como se eu não existisse.
Foi quando ouvi:
- Te amo.
- Também te amo.
Não sei quem falou primeiro. Nem quem respondeu.
Mas a declaração veio de um lugar profundo demais para ser fingida.
Puxei as duas para um banho.
A água caiu quente sobre nossos corpos ainda tremendo. Beijos voltaram. Toques também.
Ensaboamo-nos devagar, explorando novamente aquilo que parecia inesgotável.
Wanda chupava meu pau enquanto Adriana me beijava. Meus dedos desciam e penetravam Adriana.
Depois trocamos.
Adriana passou a me chupar enquanto eu castigava Wanda.
Elas se beijaram novamente.
Eu então passei a comer alternadamente a bocetinha de uma e depois da outra, por trás, sempre apertando suas bundas com força.
O desejo ainda estava vivo.
Insaciável.
Depois puxei Adriana contra uma parede. Seus braços esticados. A bunda empinada.
Meti com força.
O som da bunda dela batendo no meu quadril ecoava obsceno pelo banheiro.
Abaixo, Wanda se ajoelhou e passou a brincar com os seios de Adriana.
Logo gozei. Um urro saiu de mim.
Wanda se abaixou rapidamente, tirou meu pau da boceta de Adriana e o levou à boca, capturando os últimos jatos.
Voltamos para a cama. Em silêncio. Aliás, o silêncio tinha sido a marca daquela entrega inteira.
Deitei-me. Cada uma se acomodou de um lado.
Ninguém dizia nada. Só respirávamos.
Por um momento tive a sensação de que Wanda e Adriana conversavam apenas pelo olhar.
Aquilo me lembrou Wis.
Uma onda de nostalgia tentou me invadir. Afastei. Não era hora.
Foi Adriana quem quebrou o silêncio.
- Quero ver vocês dois transando.
Wanda riu, leve.
- Já transamos hoje.
- Não comigo participando.
Olhei para ela, atônito.
Wanda respondeu:
- Só vale a pena se for com você.
Adriana continuou:
- Não é isso… você disse que foi terrível em Nova York. Bruno deve achar isso também. E vocês se amam… está claro. Vocês merecem um momento de verdade. Só de vocês. Para apagar aquilo.
Ela respirou fundo.
- E eu quero ver.
Não esperou resposta. Levantou-se. Foi até minha cadeira da mesa do computador e sentou-se. Pernas abertas. A mão descendo lentamente até a boceta. O olhar cheio de tesão. E de algo mais difícil de nomear.
- Vamos. Estão esperando o quê? Quero me excitar com vocês. O tesão está me consumindo.
- Adriana… – sussurrou Wanda.
Mas meus pensamentos já tinham escurecido.
Eu queria Wanda.
Mais do que tudo naquele momento.
E fazê-lo diante de Adriana despertava algo perigoso em mim.
Era o proibido.
A traição definitiva.
O fundo do poço.
E meu corpo queria aquilo.
Puxei Wanda.
Nos olhos dela havia dor. Mas também havia entrega.
Aquilo não era mais entre mim e ela. Era entre mim e Adriana.
Wanda era apenas o campo onde aquela guerra entre mim e Adriana iria se travar. Ela não teve chance mais uma vez.
O olhar de luxúria que eu e Adriana lançávamos sobre ela era forte demais.
Wanda se entregou.
E então aconteceu.
A transa mais brutal da minha vida.
Quase uma hora.
Sem pausa.
Sem freio.
Amor. Raiva. Mágoa. Ódio. Paixão. Tesão. Tudo misturado.
Meu pau saiu esfolado.
Minha pele arranhada.
Chupões no pescoço.
Meu rosto ardia dos tapas que ela me deu.
Wanda estava vermelha.
A bunda marcada pelas minhas palmadas.
A boceta inchada.
O cuzinho esfolado.
Quando terminou, estávamos deitados lado a lado. Tremendo. Olhando para o teto. Nenhum de nós conseguia olhar para Adriana.
Minha última gozada tinha sido enorme.
Tantas vezes naquela noite.
Parte no cuzinho de Wanda. Parte na barriga. Parte na bunda.
Adriana percebeu. Mesmo eu sequer olhei para ela. Não sei o que passou por seu rosto.
Quando ela finalmente se levantou, pegou um lençol. E saiu do quarto.
Só então os pensamentos começaram a voltar.
Pesados.
Culpa.
Vergonha.
Desolação.
Olhei para o lado.
Wanda estava com os braços cobrindo os olhos.
Seus lábios tremiam enquanto ela tentava conter as lágrimas.
Percebi que chorava. Em silêncio.
Aquilo me rasgou por dentro de um jeito que nenhum prazer tinha conseguido antes.
Demorei um pouco a reagir, mas me aproximei dela.
Afastei delicadamente seus braços.
Seus olhos estavam vermelhos.
Beijei sua testa.
- Desculpa.
- Você não tem do que se desculpar.
- Tenho. Muito.
- Não tem… acredite. Você não fez nada errado. É que…
- O quê?
Ela não respondeu.
Apenas me deu um selinho.
- Eu te amo. Isso não mudou.
Fiquei em silêncio.
Levantei.
- Vou falar com Adriana. Precisamos resolver isso.
Wanda apenas assentiu.
Quando cheguei na sala, Adriana estava sentada na poltrona com um olhar perdido. Ela estava enrolada em um lençol, nua por baixo, mas o clima não era para tentação.
Sentei-me na poltrona do lado e ficamos assim, em silêncio que durou minutos. Eu não sabia o que dizer, muito menos como iniciar a conversa que precisávamos ter.
Ela parecia indiferente à minha presença. Ao olhá-la, tive a sensação de estar diante de uma estátua.
Fiquei inquieto na poltrona, sem saber para onde olhar ou mesmo como posicionar meus braços. Sentia-me perdido.
Mas precisava agir.
Respirei fundo.
- Adriana, eu…
Ela me interrompeu.
- Eu me arrependo…
O olhar continuava vago, perdido. Não ousei falar.
- Me arrependo de ter ido naquele aniversário do Seu Trajano. Eu sentia que algo muito ruim ia acontecer. Eu sabia – a voz dela embargou um pouco. – Me arrependo de ter conhecido o Gustavo, de ter me prestado àquele papel com Vitor e Wanda, de tanta coisa…
Subitamente, ela parou. Parecia mais um pensamento em voz alta que uma comunicação comigo. Aguardei. Ela não continuou.
Dessa vez, ousei falar.
- Não mudaria nada, Adriana.
Ela deu um sorriso triste.
- Tinha esperança que você me desse uma resposta diferente…
Infelizmente, não tinha. Não poderia mentir.
- Só me resta aceitar que pessoas boas fazem coisas ruins – ela disse.
Também não podia negar isso. Era como me sentia. Baixei o olhar por um instante.
- Veja eu…
Voltei meu olhar para ela.
- Veja o que fiz com o Denis. Acabei sua amizade com ele. E provavelmente ele não será mais funcionário da PHX até o final do mês. Eu me sinto tão terrível.
A informação sobre Denis me pegou de surpresa. Mas o momento não era sobre ele.
- Dói demais, Bruno. Mesmo hoje, mesmo depois do que fizemos, dói demais. Eu… não sei se consigo. Ver você e Wanda se tocando me faz muito mal. Isso me fez voltar aos meus dias sombrios onde imaginava mil vezes como tinha sido em Nova Iorque, vocês rindo de mim enquanto se entregavam um ao outro…
Uma lágrima brotou em seu rosto. Quis limpá-la, mas não me atrevi.
- É uma dor dilacerante.
Em um impulso, piorei a situação.
- Foi a pior transa da minha vida. Wanda acha o mesmo.
Adriana riu com certo desdém.
- Isso é o quê? Pra me consolar?
Engoli em seco. Ela continuou:
- Isso não muda nada. Você me traiu. Vocês… mas talvez eu merecesse.
- Por quê? – perguntei, confuso.
- Porque eu também traí Wanda.
Senti um nervosismo. Será que ela tinha me traído com Vitor? Ela percebeu. E riu, já se explicando.
- Foi antes de te conhecer. Foi quando tudo acabou entre eu, Gustavo, Vitor e Wanda. Quebrei o acordo e fiquei com Vitor três vezes. Senti-me suja com isso. Minha mãe descobriu. Foi por isso que acabei com Gustavo e me afastei de todos eles. Foi quando procurei algo diferente para minha vida.
Não queria, mas senti uma pitada de alívio. Falei com cuidado:
- Mesmo assim, você não merecia o que fiz. Eu quebrei sua confiança… e sei que nunca me perdoará.
Ela ficou em silêncio, pensativa. Continuei:
- Dói me dizer isso, Adriana, mas no seu lugar, não sei se me perdoaria também. Me sinto até egoísta só de cogitar que você me perdoe e que a gente dê certo quando eu mesmo, no seu lugar, não sei se conseguiria fazer isso. Seria muita hipocrisia de minha parte.
Adriana me encarou. Parecia me analisar. Então, falou:
- Traição é traição. Eu poderia te denunciar. Fazer da sua vida um inferno. Informar para a cidade inteira que você me traiu com a filha do seu sócio. Poderia acabar com sua credibilidade, destruir sua reputação e afetar seu negócio. É isso que você faria no meu lugar? É isso que quer?
Senti um arrepio na espinha. As consequências da minha transgressão poderiam ter sido muito piores. Adriana provava, implicitamente, que era uma pessoa muito melhor que eu. E que eu não a merecia mais. Só me restou baixar a cabeça.
- Você se arrepende? – ela perguntou.
- Muito – respondi de imediato, mirando-a por um instante. – Todos os dias.
Ela continuava me analisando. Eu não conseguia sustentar meu olhar.
- Eu acredito em você – ela disse, por fim – mas…
Ela respirou fundo antes de prosseguir.
- O que aconteceu entre vocês teve sentimento envolvido. Você fala em transa terrível, mas seu coração não estava completamente comigo como o meu estava com você. Porque se tivesse, você não teria feito o que fez.
Olhei para ela, mas ela já não me olhava mais. Parecia estar pensando em voz alta.
- Não foi algo acidental, um dia de bebedeira além da conta ou uma fuga pra relaxar. Isso também seria terrível, mas me entenda, você me traiu com quem amava no passado, com quem sempre teve um amor platônico, com quem… com ela, com Wanda.
Sua voz embargou de novo. Ela teve que se controlar para poder continuar.
- A gente tinha… eles meio que forçavam uma rivalidade entre a gente e eu sempre perdia pra ela. E quando soube que você ficou com ela, foi como se eu tivesse tido a maior derrota da minha vida. A maior humilhação. A maior dor. Eu perdi completamente o controle, Bruno. Não conseguia pensar, raciocinar e refletir. E isso ficou tão sufocante que tive que procurar Wanda, a minha rival, porque eu queria jogar tudo nela, desabafar, até agredi-la mais uma vez, mas… mas doeu tanto que não consegui. E ela, mesmo eu a odiando, conseguiu me acolher no desespero.
Saber que ela se sentia assim em relação a Wanda me encheu de culpa e de remorso. O impacto da minha traição foi muito mais profundo do que tinha imaginado anteriormente. Suas atitudes pós descoberta passaram a fazer todo sentido. E eu poderia ter feito muito mais para não deixá-la cair nessa espiral perigosa.
- O que aconteceu hoje – ela continuou – só aconteceu porque Wanda quis provar um ponto: que você me ama. Que o amor é entre nós dois e que ela poderia ser o vínculo que fortaleceria mais ainda esse amor. Eu achei interessante. Eu me excitei com isso. Uma ideia de nós três… parece uma reviravolta surpreendente, não é? Me lembrei de dias mais antigos, dias em que, apesar da raiva, ela também me excitava. A entrega dela… mas Bruno, o que vi lá no quarto foi diferente. Você mudou. Seu coração sempre foi meu e agora não é mais.
Um incômodo surgiu. Lembrei-me daqueles trinta dias. Fui sincero com ela:
- Eu realmente não sei onde está meu coração agora.
- Talvez esteja com Wanda ou… com a ninfetinha de Nova Iorque.
Ela sabia de Wis. Ela sabia. Meu coração acelerou, mas fiquei sem reação.
- Eu te conheço com a palma da minha mão, Bruno. Você foi o meu maior estudo de caso. Descobri nos últimos dias que Wanda também é assim. Ela sabe tudo sobre você também. Estou te falando isso porque eu percebi uma coisa e aposto que ela também percebeu o mesmo que eu: durante nossa transa, você não disse “te amo” nenhuma vez.
Eu realmente não sei se falei. Foi tudo tão intenso, tão carnal. Apenas tinha me entregado.
- Foi muito arriscado o que fizemos hoje. Poderíamos nos machucar mais ainda. Mas sendo um pouco egoísta também, agora sinto um pouco de paz. Eu tinha muitas dúvidas, algumas bem recentes, e acredito que tenho respostas para todas elas.
- Quais? – perguntei, quase sem forças.
- Que eu te perdi. E que você me perdeu.
Ela esperou um pouco, talvez para eu assimilar o impacto daquelas palavras. Nenhum de nós falou nada por alguns segundos.
- Que… eu não consigo voltar pra você, mesmo se fosse num relacionamento a três com a Wanda. Especialmente com a Wanda. Mas não a culpe. Meu problema, nesse caso, é apenas você. Não consigo mais confiar, ainda mais num cenário onde você estará próximo a ela.
Ela enxugou o rosto com uma mão. O silêncio ficou denso entre nós. Pouco tempo depois, ela se levantou.
- Eu vou arrumar minhas coisas e ir pra casa.
Era de madrugada ainda. Temi que ela fosse sozinha.
- Posso te deixar…
- Não precisa, você sabe disso.
Ela já caminhava em direção ao quarto quando me levantei também.
- Adriana, espera…
Ela parou, de costas para mim. Aproximei-me e, com relutância, pousei minha mão em seu ombro. Ela não reagiu, nem negou meu toque.
- Dri, você tem razão em tudo. O que fiz não foi um simples erro. Eu agi como um covarde. Você me deu seis anos incríveis sendo a namorada mais perfeita que eu poderia ter e eu estraguei tudo por não ter a maturidade de superar um sentimento… que não estava devidamente encerrado. Sinto muito pelo sofrimento que te fiz passar. Você não merecia nada do que aconteceu. Por isso, sei que não mereço seu perdão. Eu… não consigo nem olhar em seus olhos. A dor existente neles me faz pequeno e mostra que você sempre foi uma pessoa melhor que eu. Não deixe o que aconteceu apagar o que existe de bom em você.
Adriana se virou lentamente. Nossos olhos se encontraram, mas ainda estava difícil para sustentar.
- Você nem ao menos tentou reatar… – constatou, ela.
- Eu te disse antes… tento me colocar no seu lugar. Mesmo que a gente volte, a sombra da desconfiança sempre pairá sobre nós. A verdade é que… traição não tem perdão. E que não mereço mais alguém como você. Eu realmente… preciso lidar com as consequências da minha escolha.
Ela não respondeu. Sua expressão ficou indecifrável. Então, ela se virou novamente e foi para o quarto sem dizer mais nada.
Eu queria dizer que tirei um peso das costas, mas nada mudou. Nada que eu pudesse falar apagaria o que fiz com Adriana. Era uma dor e uma vergonha que eu carregaria para sempre. Só me restava admitir isso e torcer para que ela encontrasse a felicidade, mesmo que não fosse comigo. E pensar assim, me corroeu de ciúmes antecipados.
Voltei cambaleante para a poltrona e fiquei lá, imerso em pensamentos desconexos.
Não sei quanto tempo passou quando Adriana reapareceu, agora vestida com calça jeans e uma blusa branca. Ela caminhou em direção a porta e parou, virando-se para mim.
- Adeus, Bruno.
- Adeus é muito forte – murmurei, vacilante.
Ela riu. Foi o sorriso mais leve que ela deu naquela noite.
- Então… tchau.
Hesitei por um instante. Ela pareceu esperar minha resposta, que não veio de imediato. Levantei-me e fui em sua direção. Ficamos frente a frente. Havia um sentimento de resignação no ar. Coloquei as mãos em seus ombros mais uma vez, olhos fixos nos seus.
- Te amo, Adriana. Nunca duvide disso. E não tire conclusões apenas por hoje. Se cuida e seja feliz.
Ela assentiu levemente, os olhos querendo marejar, mas se segurou.
- Obrigada – sussurrou.
Sua mão encostou na maçaneta.
- Obrigada por me deixar dizer tudo que estava engasgado.
Então, ela abriu a porta e se foi.
“Eu quem te perdi, Adriana, e não o contrário”, pensei depois que a porta se fechou. Uma rasa tentativa de aliviar a dor de ter destruído algo que nunca mais voltaria a ser o mesmo.
Fiquei encostado na parede por um tempo. Sentia-me anestesiado, inundado por sentimentos ruins sobre mim mesmo. Precisei reunir forças para voltar ao quarto, para ver Wanda.
Ela estava sentada na cama, encostada na cabeceira. Seus olhos estavam inchados, indicando que tinha chorado bastante. Ver aquilo me fez sentir pior, como se ainda fosse possível.
Ficamos alguns segundos em hesitação.
- Você não fez nada de errado – repetiu ela o que tinha falado antes.
Respirei fundo, desanimado.
- Não é como me sinto. Acho que estraguei tudo, não é?
- Não acho. Você foi… apenas você.
- A pior pessoa.
Esbocei um sorriso.
- Precisávamos saber o que somos hoje e o que temos – disse Wanda, medindo as palavras. – Por um momento, imaginei que nós três poderíamos ser felizes.
Olhei para ela com atenção.
- Você sente algo pela Adriana?
- Não do jeito que você está pensando – ela não titubeou – Nós compartilhamos sentimentos. Amor e dor. Mas a dor é diferente… A dor de Adriana rasga ela por dentro.
Baixei o olhar, me sentindo terrível.
- Eu sei – falei, respirando fundo mais uma vez – E sua dor por mim, Wanda?
- Foi por você ter me abandonado muitos anos atrás.
- Me desculpe por isso – apressei-me em responder. – Se pudesse, eu queria ter feito tudo diferente. Eu queria ter… me declarado para você na frente de todo mundo: Vitor, seus pais e suas irmãs. Meu coração era inteiramente seu.
Seu olhar brilhou um pouco. Um pequeno sorriso triste brotou em seu rosto.
- Eu teria conquistado o mundo se isso tivesse acontecido. Eu seria a mulher mais feliz do mundo.
Naquela época, eu era completamente diferente do que sou hoje. Tinha baixa estima sobre mim. Será que realmente seríamos felizes com aquele “eu”?
- Onde está seu coração agora? – a pergunta dela interrompeu meus pensamentos.
- Não sei – respondi sinceramente.
Uma lembrança de Wis estremeceu meu corpo inteiro. Torci para que Wanda não percebesse.
- Se eu tivesse que chutar – continuei – diria que está aqui – eu mesmo não acreditava nisso. – E seu coração, Wanda, onde está?
Ela hesitou um pouco.
- Também chutaria que está aqui, nesse quarto.
O silêncio voltou entre nós. Havia tanta coisa ainda por dizer, para esclarecer, mas só consegui ficar parado. Ela não parecia muito melhor.
- Você… falou da Wis pra Adriana? – perguntei, mudando de assunto.
Wanda desviou o olhar, o suficiente para eu entender que sim.
- Eu e ela falamos de tantas coisas. Falamos de você. E sim, ela soube da sua viagem.
Assenti.
- Mas e você? Como se sente sabendo que viajei pra passar trinta dias com sua irmã?
Vi o impacto da pergunta em sua expressão. Era algo que, claramente, ela queria evitar.
- Você não me deve nada, Bruno. Nem mesmo durante essa viagem.
- Eu… me sinto mal mesmo assim. Não consigo evitar.
Wanda se levantou e veio em minha direção. Ficamos frente a frente.
- Pense assim: estamos quites.
Olhei-a confuso. Não entendia a lógica. Ela me deu um sorriso complacente, mas que logo morreu diante da minha expressão.
- O que você quer? – ela perguntou mais séria – Que eu te xingue? Brigue com a Wis Nara? Fique mal de vocês? – respirou fundo – Não sou assim. Tenho minha parcela de culpa em toda essa história.
A resposta dela não me confortou. Eu continuava sem entendê-la. Sem entender aquela dinâmica entre irmãs.
- Eu não sou convencional, Bruno. Nem a Wis. Se quer uma mulher convencional, procure alguém como a Wendy.
- Não é isso… nem eu sei o que é pra falar a verdade.
- É tudo tão confuso mesmo.
Wanda aproximou-se mais um pouco. E mudou de assunto.
- Vocês tiveram a conversa, não é? Você e Adriana?
- Sim – sussurrei.
- E foi um encerramento… né?
- Sim. Não havia mais como. O dano foi irreparável e meu coração… Eu não quero magoá-la nunca mais. Ela é especial demais.
Wanda concentrou-se em meus olhos, como se estivesse analisando.
- Você chorou?
A pergunta dela me fez hesitar por um instante.
- Não.
- Isso vai destruí-la mais ainda.
Escutar isso me deu realmente a vontade de chorar que não tinha tido antes. Suspirei fundo.
- Eu me senti anestesiado. Era como se eu estivesse esperando um impacto… como um saco de pancadas, pronto para receber, merecidamente, toda a fúria dela. Sinceramente, eu não tinha direito a nada. Jamais enganaria ela de novo. Isso nunca mais.
- Bruno…
Nos abraçamos.
Não havia carinho nem segundas intenções. Era mais o compartilhamento de uma dor comum: a de termos machucado Adriana.
- Você quer que eu te leve pra casa? – perguntei.
- Você quer que eu vá pra casa? – retrucou, ela.
- Não.
- Quer transar mais uma vez?
A pergunta dela me pegou desprevenido. Rimos juntos, de forma contida.
- Não. Estou cansado. Acho que… só quero dormir. De preferência, abraçado contigo.
Ela assentiu sem dizer nada.
Fomos para cama e deitamos lado a lado. Ela se aninhou em meu peito, sua mão fazendo carinho em meu rosto, sua perna sobre as minhas. Não falamos mais, mas demoramos um pouco para dormir. Ficamos imersos em pensamentos, temendo, talvez, o que viria pela frente.
Ela dormiu primeiro. Apesar da montanha russa das últimas horas, seu rosto estava sereno. Havia algum tipo de paz ali. Beijei sua testa e acariciei sua face. Mesmo depois de anos, ela ainda me impactava.
- Te amo, Wanda – declarei, baixinho.
Não falei no momento que queriam, mas eu tinha, sim, muito amor por elas. Tanto amor que me confundia ou… que me fazia sentir culpado por não encarar o que realmente queria.
Dormi. E não foi muito bom.
Acordamos tarde. Passava do meio-dia. Nos arrumamos e fomos almoçar em um restaurante próximo. Não houve conversas profundas sobre a noite anterior. Parecíamos sem forças, desconversando sempre. Deixei-a em casa depois. Na despedida, ela hesitou um pouco antes de sair do carro.
- Você está bem? – perguntou.
- Ainda estou mexido com tudo isso.
- Também – Wanda fez um leve aceno e saiu.
Passei o resto do dia em casa. Não conseguia fazer muita coisa. Nem mesmo refletir sobre tudo o que tinha acontecido. Eu não fazia ideia do que fazer a seguir. E cansado demais para procurar respostas. Entreguei-me ao tédio, que me consumia por completo.
Minha mãe apareceu à noite apenas para pegar algumas roupas. Disse que ia dormir na sua própria casa. Ela parecia vacilante, escolhendo cada movimento com cuidado. Eu sabia que algo a incomodava. E tinha a ver comigo. Fui até ela, interrompendo-a do que estava fazendo.
- Ei… olha pra mim, mãe. Fiz algo de errado? A senhora parece incomodada.
- Não é nada. Só impressão sua.
- Eu sei que não é só isso…
Ela se desvencilhou de mim e continuou guardando algumas roupas, mas tomando o cuidado de deixar outras.
- Eu trouxe tudo para cá… olha o tanto.
De fato, parecia que ela tinha se mudado completamente para meu apartamento, mas não entendia porque ela estava tão nervosa naquele momento. Resolvi mudar de tática.
- Quer jantar antes? Posso te deixar em casa.
- Não precisa, meu amor. Trajano e Cecília foram resolver algo aqui perto… – minha mãe hesitou um pouco, parecendo arrependida, mas depois continuou – eles vêm me pegar já já.
Sorri. Minha mãe ainda parecia preocupada. De repente, entendi o que estava acontecendo. Aproximei-me dela, dando-lhe um abraço forte, que a deixou sem reação.
- Mãe… a senhora não tem jeito, não é? – falei, agradável – Meu apartamento sempre será seu também. Continue com a chave e venha sempre que quiser, no ritmo que for bom pra senhora. E eu também vou voltar à minha antiga casa também, agora que estou vendo que vai voltar a passar um bocadinho de tempo lá.
Ele enterrou o rosto em meu peito.
- Eu estou realmente sem roupas – ela falou, um pouco mimada – Ainda fico com medo de você achar que estou te abandonando de novo.
- Para de besteira, Dona Marluce Almeida Tavares. A senhora nunca me abandonará. Nunca permitirei isso. E você também nunca fugirá de mim.
Beijei sua cabeça.
- A senhora sempre será minha prioridade, mas isso não quer dizer que a senhora não deva viver sua própria história. Tem que viver e eu farei questão de enfatizar isso.
- Obrigada por dizer isso, Bruno Almeida Tavares.
Ri por dentro. Era estranho ouvir nosso nome completo naquele momento.
Aos poucos, minha mãe foi se acalmando e passou a guardar suas roupas com mais cuidado, sem qualquer peso devido a nossa relação.
Nos despedimos e prometi que almoçaria com ela durante a semana, na nossa casa.
- Então, vou caprichar e fazer os pratos que você mais gosta.
- Por favor – respondi, o sorriso largo no rosto.
Por ela, sempre.
O domingo chegou e o tédio continuou. Eu não conseguia me concentrar em nada.
A semana iniciou e nada parecia mudado, muito menos resolvido. Eu havia transado com duas das mulheres que mais mexeram na minha vida e aquilo parecia completamente vazio para mim. Muitos se orgulhariam de ter as duas, principalmente o Vitor, mas eu só me sentia deprimido.
Fiquei ansioso para a mentoria com Wis. Queria vê-la, conversar com ela, fugir da normalidade e do roteiro engessado que tínhamos tido nas mentorias anteriores. Eu precisava dela.
Mas ela não deu qualquer brecha. Sua postura continuou impecável, totalmente focada nos objetivos da mentoria. Não pude fazer nada de diferente sem parecer inconveniente, sem me sentir constrangido. Foi péssimo para mim.
Pensar em Wanda me deixava aflito também. Ela tinha se esforçado tanto por uma ideia, mas eu e Adriana estávamos tão quebrados que não tinha como seguir com isso. Não procurei puxar contato, porque sentia-me envergonhado também. Ela também não veio atrás. Cogitei também a ideia dela estar lidando com a burocracia do seu divórcio ou mesmo ocupada no trabalho.
Também continuava bloqueado por Adriana. Em todos os lugares. Mas agora isso não doía tanto quanto antes. Havíamos tido uma conversa. Talvez um encerramento, apesar de não ter certeza.
Certeza era algo que não tinha de nada.
E como Adriana tinha comentado, Denis pediu sua demissão. Foi uma situação triste para mim, especialmente. Nossa conversa final foi protocolar e distante, em nada lembrando a amizade que tivemos por anos.
- Obrigado pela oportunidade, Bruno – disse ele, estendendo a mão - Até mais ver.
- Nós que agradecemos, meu amigo. Até mais, Denis. Boa sorte daqui pra frente!
Bruna veio na minha sala depois que ele se foi.
- O que quer que tenha acontecido, mudou ele completamente. Ele não é mais o mesmo. Parece ter perdido a alegria de viver.
Minha voz demorou a sair.
- Espero que ele encontre o que procura – foi o máximo que consegui responder.
As coisas indefinidas e ruins pareciam se acumular. Eu me sentia preso em um beco sem saída. Procurei Remo. Mas entendi que ele e Érica viviam uma nova fase, o excitante começo que todo namoro tem. Respeitei e procurei não parecer desesperado. Por telefone, ele disse:
- Aparece lá no meu apartamento no sábado. A gente terá tempo para conversar.
- Combinado.
O que compensou nesses dias foi almoçar com minha mãe. A pequena sombra do sábado anterior havia desaparecido. Ela parecia leve. E isso foi um conforto imenso para meu coração. Pensei em falar sobre Wanda e Adriana, mas ela não pareceu interessada.
Diferente de outras vezes, ela sequer soltou indiretas. Parecia confortável em me deixar livre para lidar com meus problemas, como se, enfim, reconhecesse que eu era um adulto e podia tomar minhas próprias decisões.
“Com quase 30 anos”, ri de mim mesmo.
No sábado seguinte, estava com Remo e Érica. Contei tudo a eles sobre o que aconteceu no meu aniversário. Eles ficaram boquiabertos.
- Sortudo – exclamou Remo.
- Jamais imaginei que elas topariam isso – falou Érica, um tanto espantada.
Depois que terminei tudo, Érica disse:
- Sinto muito pela Adriana. Torcia por ela e pela reconciliação de vocês. Ela te ama muito.
Baixei a cabeça. Remo tentou entender o meu lado.
- Mas pelo menos ele foi sincero. Teria sido pior se ele retomasse o namoro sem retribuir os sentimentos dela. Sem dúvida, deve estar doendo muito nela, mas agora ela sabe da verdade. Isso liberta e permite seguir em frente.
Érica assentiu. Remo continuou, olhando para mim:
- Não se sinta tão mal assim, amigo.
A verdade era inegociável. Isso eu sabia. Mas não confortava.
- Você já pensou de quem gosta realmente?
Se não conhecesse Remo há tanto tempo, pensaria que a pergunta seria capciosa e provocativa. Mas era genuína. De preocupação comigo. E completamente válida.
- Não sei – respondi, com sinceridade.
- Quem são as opções? – perguntou, Érica.
- Wanda e Wis, não? Quem mais teria?
Olhei para Remo com desespero. Ele percebeu.
- O que foi, mano?
- Não sei… elas são irmãs. É uma situação complicada para mim.
- Depende. Só pensar… quem mexe mais contigo? Quem faz teu coração errar as batidas? Você sente essas coisas? Você é um humano?
Ri, mas sem humor.
Érica interveio.
- Nem sempre a resposta é preto no branco, amor. – Ergui as sobrancelhas para ela, que percebeu me dando um sorriso cúmplice antes de continuar: – Normalmente, somos pessoas paradoxais. No campo emocional, muita coisa pode não fazer sentido para a lógica que aplicamos no dia a dia.
- Explique melhor – insistiu, Remo.
- O que quero dizer é que Bruno pode estar amando as duas, ou uma e tem medo de admitir isso para não magoar a outra. Ou então… – ela fez um suspense – ele me ama e você tem um sério problema, Remo.
Gargalhamos alto.
- Eu viveria um trisal com vocês dois sem problema – apressou-se a falar o meu amigo e havia verdade nisso.
- E eu também – complementou ela e também havia verdade nisso.
Antigamente, me assustaria com tais afirmações, mas hoje, entendo que é parte do relacionamento deles. É o que faz funcionar.
- Vou te ajudar, mano. Acho que você ama a Wanda.
Olhamos para Érica, que pareceu hesitar.
- Já eu… e digo isso com muita infelicidade no coração... – ela limpou a garganta – acho que ele ama mesmo é… a enjoadinha de Nova Iorque.
- Ela tem nome – brincou Remo.
- Prefiro não dizer. E se Bruno namorar ela, tenho medo dele se afastar de mim.
Intervi.
- Isso jamais, Érica. Você nunca sairá da minha vida.
Um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto.
Conversamos por mais um tempo sobre meu dilema. Foi bom porque me ajudou, de alguma forma, a organizar meus pensamentos. Num dado momento de fuga, agradeci pela sorte de tê-los como amigos.
Por fim, uma frase de Remo, dita em outras ocasiões, me pegou de jeito:
- Joga no par ou ímpar. Se for par, escolhe a Wanda. Se for ímpar, a Wis. E segue com essa escolha. Decidido. Cabeça em pé…
Ele falou brincando, claro. Mas me ajudou a pensar. Entendi que tinha receio de escolher uma, ser rejeitado, e ir para outra. Me sentiria um covarde se fizesse isso. Indo mais longe, queria não ter que fazer isso por receio de ficar sozinho, sem ninguém.
Mas a verdade é que eu já começava a saber o que queria fazer.
Duas semanas depois, num sábado ensolarado, convidei Wanda para almoçar e passar a tarde e noite comigo. Eu cuidaria de todo o roteiro do encontro.
Ela aceitou sem pestanejar.
Quando fui buscá-la em casa, ela apareceu linda, usando uma roupa social em tons mais escuros e uma maquiagem que denunciava todo o cuidado que teve para aquele encontro.
No carro, tivemos pouca conversa. Parecíamos… tímidos. Havia uma expectativa silenciosa no ar. Provavelmente, ela sabia o que viria.
Escolhi um restaurante intimista no jardins que servia frutos do mar. Era chique, mas não era isso que importava. Tinha pesquisado e gostei da forma como ficávamos reservados, sem distrações.
Ela sorria de forma contida, desviando um olhar, como se estivesse a ponto de extravasar. Seu olhar evitava os meus, mas não era por desconforto. Era pelo que viria.
Ela sabia.
Comemos. Bebemos. Conversamos sobre muita coisa. Por um momento, aquilo me lembrou nosso primeiro ano na faculdade de Jornalismo, quando cada dia que passava aprendíamos mais sobre o outro. Foi doce ter essas sensações novamente.
Aos poucos, seu sorriso foi ficando mais aberto. Sua postura mais leve. O olhar passou a sustentar com o meu. As horas passaram quase sem percebermos e nossa conexão continuou intacta. Havia muita química.
Quando saímos do restaurante, a guiei ao meu carro com a mão em suas costas. Ela agia como uma verdadeira dama da sociedade paulista. Mas eu queria mais. Muito mais do que aquilo.
No carro, não abri a porta. Que mal educado eu fui. Mas ela gostou. Ela se encostou, entregue. E convidativa. Não resisti e a beijei. Com vontade. De língua. Nos entregando um ao outro.
Encostei meu corpo do dela. Meu pau duro em sua barriga. Quem estivesse vendo de longe, certamente sentiria inveja de mim. Eu a tinha. O meu amor platônico.
Quando a soltei, ela ainda ofegante, me perguntou:
- Que foi isso?
- Algo que queria há muito tempo… e algo que deveria ter acontecido há muito tempo.
- Quer só isso?
Sorri, bem maquiavélico. Ela também, bem maliciosa.
Fomos para um motel. Chique também. O espaço era bem maior que meu apartamento. Engraçado pensar que Wanda nunca foi muito de exibir sua riqueza… era um contraste excitante para mim.
Nos entregamos ardentemente a nossa terceira vez.
Nos possuímos.
Nos conectamos com até mais intimidade do que naquela vez, com Adriana nos vendo.
Meu pau se encaixava perfeitamente nela, não importando a posição.
Sua pele, macia e cheirosa, se arrepiava com meu toque, com a intensidade do meu contato.
Ela gemia, mordia os lábios. Fazia carinha de dor e de prazer ao mesmo tempo. Botava a carinha para trás. Arfava de prazer.
Enlouquecia e me enlouquecia.
Ela era minha. Minha namorada, finalmente.
Gozamos algumas vezes, não contei. Nada parecia importar, exceto a nossa conexão antes perdida, que agora estava reestabelecida. Com anos de atraso.
Era como se eu tivesse desenterrado toda a paixão que ainda sentia por ela. Como se nada tivesse se perdido com o tempo.
- Sim – ela me disse na porta da sua casa – espera aqui. Eu já volto.
Aguardei do lado de fora. Olhando para o céu e para a paisagem ao redor. “Por que não entrei?”, pensei. Não devia nada a ninguém. Mesmo assim, fiquei do lado de fora. Ela também não reclamou.
Uns quinze minutos depois, ela saiu com uma mochila nas costas. A combinação era no mínimo divertida. Sapeca, até. Enquanto fechava a porta, pude escutar uma voz feminina falando:
- Vai dormir onde?
Wanda respondeu, em alto e bom som:
- No apê do meu namorado.
Ela veio correndo até mim, me beijando e depois me puxando para o carro. Ela parecia mais empolgada que eu. E olhe que eu estava até demais.
Tudo parecia um verdadeiro encanto naquele momento. O fim que parecia destinado à nós.
No meu apartamento, não perdemos um segundo e nos entregamos ao amor. E pelos dias seguintes também. Estive dentro dela de todas as formas possíveis e imagináveis. Nenhum cômodo ficou sem a nossa presença.
E quando não transávamos, nossa intimidade era deliciosa de viver. Dávamos comida um na boca do outro. Tomávamos banho juntos. Assistimos séries. Tentei ensinar a ela a jogar videogame, mas, infelizmente, ela é muito ruim mesmo.
Saíamos para o trabalho com muitos beijos e juras de amor. E voltávamos cedo para nos entregarmos novamente.
Conheci e beijei cada parte do seu corpo. Suguei sua intimidade tantas vezes que perdi a conta. Dei a ela muitas massagens, passei óleo em sua pele e a vi se arrepiar inteira quando brinquei com gelo.
Meu pau, duro, não se cansou de gozar dentro da bocetinha dela. E no cuzinho também. Em um momento até pensei que se ela engravidasse, eu seria o homem mais feliz do mundo.
E ela me chupou bastante também. Principalmente antes de irmos trabalhar. Seja na cama, no sofá, na mesa da cozinha, no carro, não importava, ela sempre queria e pedia. E eu sempre deixava e adorava.
- Enfim nos encontramos – eu disse certa vez.
Ela apenas assentiu e me beijou, reconhecendo que aquele era o nosso momento.
Não tinha avisado a ninguém do namoro. As pessoas a meu redor também não insistiram muito em saber como eu estava. Talvez, eles soubessem por Wanda, mas não fui atrás de confirmar. Nada me interessava além ela.
A mentoria com Wis, do jeito como tinha ficado, passou a ser conveniente para mim também. Assim, não precisávamos conversar algo constrangedor.
E assim as semanas passaram e nosso relacionamento foi se normalizando. E com o tempo, uma sombra começou a voltar. Não conversávamos muito sobre futuro. Nem sobre passado. Nem sobre o dia a dia. Parecia que escondíamos problemas um do outro para não estragar a suposta magia que vivíamos.
Mas eu podia sentir no olhar dela, aos poucos, a dúvida se instalando. E pior, em mim também. Passei a me questionar se tudo aquilo era forçado. Com boa vontade, mas forçado. Será que não estávamos nos enganando?
Senti um frio percorrer minha espinha quando constatei que lembrava mais das coisas que tinha vivido com Wis, muitas semanas antes, do que com Wanda, de dias antes.
“Não pode ser. Devo estar ficando louco. Desconfiado, talvez”, pensei, tentando ignorar o pensamento.
Um dia, quando estava indo trabalhar, ao sair do meu condomínio, avistei Vitor do lado de fora, encostado em seu carro. Quando me viu saindo, levantou-se e me encarou. Por um instante, pensei que ele estivesse ali esperando Wanda, mas ela já tinha saído faz tempo. Só podia estar esperando por mim.
Estacionei meu carro no quarteirão seguinte. Voltei andando. Eu sabia que ele me esperaria.
- Vamos caminhar um pouco – falei quando passei por ele, sem diminuir o passo. Ele me seguiu.
Passamos um tempo em silêncio. Até que ele falou:
- Você achou mesmo que eu ia agredir Adriana?
Não respondi.
- Vou te contar uma história. Você deve saber que eu e Wanda, sua namorada agora, fazíamos aconselhamento. Quão grande foi minha surpresa quando descobri que vocês tinham me traído em Nova Iorque.
Não me surpreendia que Wanda tivesse aberto a verdade para ele.
- Não esperava isso dela. Muito menos de você, companheiro. Eu nunca fui atrás de Adriana, sequer conversei com ela enquanto vocês namoravam. Exceto, claro, no aniversário do Trajano, mas ali foram apenas cumprimentos educados.
Continuei em silêncio.
- E então, Wanda disse que não queria mais o aconselhamento, colocando ponto final no nosso casamento. Minha única explicação para isso tudo foi você. Você foi o culpado. Você acabou com meu relacionamento com Wanda, com a mulher que eu amo.
Pessoas passavam por nós, alheio àquele drama se desenrolando.
- Eu fiquei muito revoltado. E não achei justo com Adriana também. Ela merecia saber. Fui atrás dela na XP porque ela rejeitou todas as minhas tentativas de contato, mas… encontrei ela, depois você e tudo aquilo que aconteceu.
- Você disse algo diferente para o Seu Trajano na delegacia – quebrei meu silêncio.
- Sim. Apesar de tudo, não queria manchar o nome da Wanda.
Aquilo não fazia muito sentido, mas não deixei transparecer. Que ele falasse tudo e encerrássemos aquilo de uma vez por todas.
- Na delegacia, eu soube que Adriana já sabia da traição. Que você tinha confessado. Você deve ser o homem mais estúpido do mundo para ter confessado uma traição.
Ele soltou uma risada irônica.
- Não bastasse isso, você não deixa nem meu divórcio terminar primeiro para ficar com minha futura ex-mulher. A verdade é que posso ter mil defeitos, mas você não fica muito longe de mim. Você e Wanda são dois traidores. E se merecem por isso.
Aquilo me atingiu em cheio e me deu muita raiva também. Parei e o encarei.
- Você também tem telhado de vidro, Vitor. Adriana confessou pra mim e Wanda que a traiu por três vezes, todas com você.
Ele hesitou, não esperando por isso. Pude perceber o exato momento.
- Ah – continuei – você pode dizer que ela está mentindo, mas pela sua hesitação, sabemos que é verdade.
Vitor desviou o olhar. Ficamos olhando a paisagem acinzentada de prédios, garoa e carros aos montes, além de pessoas indo e vindo com suas rotinas.
- Eu e Adriana… não considero traição.
Olhei para ele, atento. Fiquei curioso por essa argumentação, por como ele explicaria isso.
- Sim, eu queria a Adriana também. Eu queria ter as duas, como um trisal. Como Trajano vive o seu próprio relacionamento a três…
A lembrança implícita da minha mãe me queimou por dentro. A raiva subiu, mas me controlei, deixando-o terminar.
- Eu ia fazer isso por Wanda. Eu percebia como ela gostava de fazer as coisas com Adriana. Elas se davam bem…
Levantei a mão, pedindo que ele parasse. Ele deu um sorriso sarcástico, mas parou. Se ele soubesse…
- Eu também não te entendo, Bruno. Você poderia ter a melhor de todas. A Wis. Ela sempre pareceu ter uma queda por você. Poderia viver com ela nos EUA. Todos teriam inveja de você. Mas… preferiu estar com Wanda, roubando-a de mim, por quê?
- Eu não a roubei de você. Ela quem quis sair do relacionamento. Não me culpe pelos seus problemas e pelo que você fez de errado.
Vitor não retrucou. Ele era inteligente. Sabia dos seus próprios erros e se insistisse, passaria um a um em sua cara. E também parecia não lidar bem com confronto, o que me foi uma surpresa.
- Eu realmente amei a Wanda – ele continuou, agora com a voz embargada. – Ainda a amo. E só fui atrás de Adriana porque percebi que Wanda também gostava dela…
Olhei em seus olhos. Era inegável seu amor por Wanda. Tanto quanto eu. Talvez até mais. E isso me deu um frio na barriga.
- Acho melhor pararmos por aqui. Dei espaço para você desabafar. Agora preciso ir.
Comecei a caminhar de volta para meu carro quando ele falou uma última vez, atraindo minha atenção. Parei, mas não me virei.
- Quer saber o que perguntei pra Wanda no passado? Perguntei se ela namorava você. E se ela gostaria de namorar você. Se ela via vocês como um casal. Sabe o que ela me respondeu? “Não”. Ela respondeu “não” para tudo.
Hesitei por um segundo. Talvez ele esperasse que eu reagisse. Talvez, não. A realidade é que não havia mais nada a dizer. Não me virei, não me despedi. Apenas segui meu caminho. Aquela foi a última vez que falei com Vitor.
À noite, no meu apartamento, não contei para Wanda sobre meu encontro com Vitor. E nem nos dias seguintes. Tentávamos manter uma rotina. Muito sexo, muita sedução, muitas conversas paralelas, mas nada profundo. Aos poucos, comecei a perceber que tínhamos uma conexão excepcional no sexo, mas… apenas isso.
Ainda assim, eu a queria. Queria muito. E me dedicava. Ligava para ela. Mandava mensagem carinhosa. E ela também fazia, embora menos.
Quando perguntei se gostaria que marcássemos um jantar com nossos pais para, entre outras coisas, oficializar nosso namoro perante eles, percebi que ela hesitou. O sorriso que ela me deu já não parecia tão sincero. E a resposta me pareceu falsa.
- Vamos sim.
Enquanto eu planejava datas, ela sempre encontrava um jeito de mudar de assunto. Talvez ela confiasse que eu não fosse entrar em conflito. E, infelizmente, estava certa. Eu aceitava e adiava o assunto.
Porém, ela foi mudando e eu, sempre atento, percebi. O olhar disperso, passando mais tempo no celular, o jeito vacilante que se portava quando eu me aproximava dela nesses momentos. Ela passou a chegar mais tarde, sempre dizendo que era devido a trabalho e conversas com amigas. Eu não a questionava. Nunca tinha feito isso com Adriana, por que faria com Wanda? Procurei me confortar dizendo a mim mesmo que elas eram pessoas diferentes e que eu precisava respeitar isso.
Continuei evitando falar do assunto com as pessoas mais próximas a mim: minha mãe, Remo e Érica. Eu me dedicava tanto ao relacionamento com Wanda que nos afastamos um pouco, principalmente dos meus amigos. Eu, principalmente. Porém, eles continuavam falando comigo aqui e ali, sempre por mensagens, sempre sendo carinhosos e garantindo que nossa amizade estava intacta.
Após cerca de dois meses, sentia que tudo estava mais instável que nunca. Praticamente, insuportável. Eu não conseguia me concentrar no trabalho. Logo eu, que sempre fui um workaholic. Naquele dia, Wanda disse que trabalharia de casa. Algo raro. Primeira vez.
Aproveitei a oportunidade para ter uma conversa definitiva com ela. Uma tentativa de reajuste de rota, de deixar tudo mais leve, de confessar que o amor que tínhamos era o mais importante.
O nosso destino.
As ironias do destino.
Cheguei no meu apartamento no exato momento que Wanda saía em um carro de aplicativo. E o que fiz, não foi nada bonito. Eu a segui.
Minutos mais tarde, eu estava de frente para uma praça mais afastada de onde eu morava. Estava bem movimentada para aquele horário da tarde. Muitos idosos caminhando, aproveitando-se das sombras que as árvores faziam. Não precisei sair do carro. Eu tinha uma boa visão.
Wanda caminhou até um banco mais afastado onde alguém já a esperava.
Vitor.
Não me surpreendi, mas meu coração acelerou. E não sei mais o que senti, mas era algo novo.
Ela se sentou ao lado dele, um pouco afastada. Pareciam conversar. Wanda evitava olhar para ele, seus olhos pareciam se concentrar em algo no chão. Vitor falava mais, gesticulava. Eu não fazia ideia do que conversavam, mas o assunto parecia sério, baseado na expressão que faziam. Vitor era claramente o mais aflito.
Conversaram mais um pouco até que ficaram em pé. Pareciam se despedir, pois Wanda estendeu a mão. Vitor não retribuiu o gesto. Ela falou algo a mais e se virou, começando a se afastar dele.
Vitor permaneceu estático, exceto porque começava a chorar forte, pouco se importando com quem estava ao redor. Então, em um gesto desesperado, ele correu até ela, que parou, sem se virar. Ele estendeu a mão para tocá-la, mas parou o movimento no meio do caminho, com cuidado.
Ela se virou para ele e seu olhar era de.. compaixão.
Fiquei muito confuso. Será que Vitor pediu uma nova chance e Wanda negou. Ou havia um segredo entre eles que eu não estava sabendo. Um segredo que impedia o avanço do meu namoro. Aguardei mais um pouco.
Eles continuaram conversando, alheios a tudo e a todos. Wanda limpava as lágrimas dele, com certo carinho que me encheu de ciúmes.
Então, para meu choque total, ela deu um selinho nele. Rápido, parecido por pena. Assim pensei inicialmente. Mas depois veio outro e mais outro. E um abraço forte. E mais beijos, sempre rápidos.
Ela também chorava, mas de forma mais contida que ele. Eles ficaram um bom tempo abraçados. O rosto dele enterrado no ombro dela. Pelo movimento do corpo dele, ele continuava chorando. Forte, copioso. Lembrei do que ele me falou: “eu realmente amei a Wanda”. E o sofrimento que ele demonstrava diante dela era real demais para ser mentira.
Eventualmente, eles se separaram, se despediram e Wanda se foi. Eu ainda continuei observando. Vitor voltou para um banco próximo e se sentou, com a mão no rosto. Ele continuava chorando sem parar.
O que quer que tenha acontecido, não foi bom para nenhum dos dois. E também não foi para mim. Eu deveria me sentir aliviado, mas fiquei exatamente o contrário. Algo estava acontecendo e eu precisava descobrir o quê.
Não tinha mais nada o que fazer ali. Aquela foi a última vez na vida que vi o Vitor.
Quando voltei ao meu apartamento, Wanda já tinha chegado. Ela estava sentada no sofá, de pernas cruzadas, e usando a mesma roupa do encontro com Vitor. Seu rosto não denunciava o choro que eu tinha visto antes
Caminhei até a poltrona mais próxima e a puxei para sentar de frente para ela. Respirei fundo, pronto para falar, mas ela me interrompeu com um olhar decidido. Curiosamente, não havia desafio.
- Você viu, não é?
Assenti, ainda que hesitante. Não tinha como negar.
Também não consegui sustentar seu olhar. Me sentia como um invasor de privacidade. Então, escutei sua voz me fazendo uma proposta surpreendente.
- Vamos sair mais tarde.
Fiquei imóvel, aguardando. Não quis demonstrar minha confusão. Enquanto eu imaginava uma conversa séria e definitiva para nós; ela combinava uma saída.
- Vamos em um restaurante, primeiro. Dessa vez, eu escolho. Depois, vamos numa balada, nos divertir. Depois... num motel, reafirmar o nosso amor. Precisamos disso. Quando voltarmos pra cá, você vai entender tudo.
- Tudo bem. Faremos do seu jeito hoje.
Ela se levantou e foi para o quarto. O nosso quarto. O que eu esperava, eu achava, que continuasse assim, apesar de não ter mais certeza de nada. E até o momento de sairmos, a tensão entre nós era quase palpável.
O restaurante que Wanda escolheu era italiano. Só mais tarde eu entenderia o significado disso. Não era intimista, nem mesmo romântico. Estava cheio. Mas ela garantiu que a comida era boa. E de fato era.
Nossas conversas começaram frias, desconexas. Era a calmaria antes da tempestade. Eu estava ficando impaciente e ela percebeu. O que faltava nela, talvez, fosse coragem. Ou o peso de me magoar fosse grande demais e ela quisesse saborear os últimos momentos antes do fim.
- O que você sente pela Wis Nara? – perguntou ela, de repente.
Olhei para ela por um instante. Estudei cada parte do seu rosto, da sua expressão. A maquiagem, que parecia mais simples, denunciava uma espécie de cansaço.
- Carinho – respondi com cuidado.
- Às vezes acho que seu coração está lá e não aqui.
- Meu coração está aqui.
- Será?
Voltamos a nos encarar. Eu com desafio claro. Dediquei-me os últimos dois meses a ela. Será que isso não era prova suficiente? Ela, por outro lado, continuava decidida a algo. Mas o quê?
- Ok. Mesmo que você acredite nisso, eu não a mereço.
Assim que falei, me arrependi.
- Por que não?
- Ela merece viver os anos que não viveu por nossa culpa, Wanda. Só depois disso, se ainda tiver algo, se eu realmente amá-la, quem sabe…
Wanda não demonstrava emoções, ainda.
- Ela disse que vocês fizeram uma promessa, mas não me disse o que é.
A promessa. “Sete anos”. Fiquei em silêncio.
- E pela sua cara – ela continuou – não vai ser você quem vai me dizer.
Respirei fundo.
- Por que estamos falando da Wis? Em Nova Iorque, eu estava solteiro. Ela também. Não tínhamos compromisso. Por que trazer isso agora, depois de dois meses de namoro? O que você quer, Wanda?
A postura dela vacilou um pouco. Ela baixou os olhos. E eu fiquei na expectativa.
- O que acabou com Adriana, naquele dia, foi sua intimidade comigo.
Franzi o cenho. Adriana?
- E o que acabou comigo foi não reconquistar o seu coração.
Sorri de descrença. Era tão absurdo o que ela falava.
- Wanda, eu te amo. É você com quem eu quero estar, quem eu sempre sonhei.
- Você se sente bem comigo?
- Claro que sim, mas que pergunta…
- O sexo bom não quer dizer que todo o resto está bom.
Aquilo tudo parecia surreal.
- Você quer terminar comigo, Wanda?
Ela baixou o olhar, hesitante. Aquilo me deu a resposta que eu precisava. Depois de um tempo, falei:
- Tudo bem. Eu tentei. Juro que tentei fazer dar certo. Dei meu melhor pra você. Por você. Mas não posso te obrigar a ficar quando não está satisfeita. Na realidade, me sinto péssimo e a pior pessoa do mundo por não te fazer feliz.
- Nós fizemos o nosso melhor. Eu dei meu máximo. Eu juro também.
Wanda esticou a mão, encontrado a minha. Deixei.
- Tem outro? Vitor?
Ela riu, com certo escárnio.
- Você acha que eu trocaria você pelo Vitor?
- Eu tinha que perguntar porque não consigo entender.
Então, ela se ajeitou na cadeira, como se preparasse para soltar a bomba.
- Eu vou embora… Pra outro país. Pra criar uma nova história. Do zero.
- Emb… embora?
- Sim. Pra Itália. Milão. Vou morar lá.
Olhei-a perplexo, tentando entender o que acabara de ouvir.
- Sei que parece repentino, mas é um desejo que venho alimentando nos últimos anos. Duas amigas dos tempos de faculdade estão lá. E estão bem. Falam bem da cidade. Da moda. Estamos nos falando muito ultimamente. A verdade é que... estudei e amadureci tanto essa ideia a ponto de me decidir. Eu preciso ir, Bruno. Você precisa me deixar ir.
- E se eu não quiser deixar?
- Aí eu fico com você, morrendo a cada dia…
Engoli em seco.
- E quando vai?
- Em um mês, mais ou menos.
- Seus pais sabem?
- Sim.
- E o divórcio?
- Meu pai ficou de resolver os trâmites finais.
- E o emprego na Folha?
- Pedi demissão ontem.
Eu ainda não conseguia entender. E não entendo até hoje. Tudo estava resolvido e esclarecido, menos comigo. Eu fui o último a saber. O aviso final.
Além disso, claramente ela não estava feliz comigo. Talvez nunca estivesse. Mas o que mais eu poderia fazer? Eu sabia que era o fim.
- Bruno, eu te amo. Nunca duvide disso. Eu te amo tanto mas infelizmente nós reconhecemos isso na hora errada, no momento inoportuno. Perdemos a chance quando esteve em nossas mãos. Eu também não consigo ser quem você merece que eu seja. E, sendo sincera, pode ser que um dia eu volte, provavelmente, arrependida talvez, rastejando aos seus pés, mas mesmo assim, eu preciso ir.
Ficamos em silêncio. Ambos com olhos marejados. A dor visível entre nós.
- Não vá, por favor – supliquei, como uma última tentativa em vão.
Ele não me respondeu, apenas me deu um sorriso triste, mas decidido.
Lembrei do encontro dela com Vitor. Provavelmente, eles se encontraram para ela contar sua decisão a ele também. Um sinal de que o coração dela não era e nunca foi inteiramente meu.
Não falamos muito mais depois disso. Degustamos os pratos no mais absoluto silêncio. A comida descia pesada. Eu e ela ficamos imersos em nossos pensamentos, refletindo as implicações da decisão que ela tomou.
Não teve balada e nem motel depois. Não havia mais clima. Sinceramente, como ela poderia pensar nessas coisas com a notícia que queria me dar.
Ainda voltamos para o meu apartamento. O silêncio entre nós era sepulcral. O pouco que falei foi para pedir que ela dormisse no quarto mais essa noite, no conforto. Eu disse que ficaria na sala.
- Não. Não vai. Dorme comigo só mais essa noite. Por favor, eu imploro – ela pediu, entre choro e súplicas.
Inerte, assenti.
Mas, infelizmente, eu brochei completamente, naquele que foi o segundo momento mais constrangedor da minha vida. Agora com Wanda.
Desolado, vesti minha cueca box enquanto ela se deitou ao meu lado, a cabeça repousando em meu ombro.
- Tudo bem. Essas coisas acontecem…
Não respondi. A vergonha se juntou a tristeza em toda sua totalidade.
Pouco tempo depois, ela começou a chorar muito. Um choro forte, sofrido, do fundo da alma. Ela não falou, apenas deixou sair tudo. Eu continuei ali, chorando também, abraçado a ela, deixando que o calor do nosso corpo nos acolhesse mutuamente da forma que fosse possível.
O restante da noite pareceu interminável. E a madrugada também. Não dormi. Acho que nem ela. De manhã, ela arrumou suas coisas, todas elas, e foi para a casa dos seus pais por um carro de aplicativo. Ela não me deixou ter um último gesto de gentileza. Recusou minha carona. Disse que não merecia isso mesmo com meus apelos.
Os dias e semanas seguintes passaram como um borrão. Não lembro de nada. Vivi no automático, sem pensar muito. Só lembro de ter recebido a visita de Remo e Érica. Mais uma vez, contei a eles tudo. Remo parecia compreender minha situação; já Érica foi mais sincera.
- Agora, vendo de uma perspectiva mais ampla – falou Érica – eu preciso ser sincera contigo. Acho que você acabou magoando as três de formas diferentes. Wanda não esperava sua entrega em Nova Iorque. Adriana não esperava sua entrega com Wanda na frente dela. E Wis não esperava que você escolhesse Wanda para namorar, principalmente depois de tudo que o vocês viveram nos Estados Unidos. Eu só consigo imaginar o quanto elas sofreram por você, cada qual com sua própria dor. Mas reconheço a provável dignidade que elas tiveram de te deixar para a outra, em prol da sua felicidade.
- Falando assim, só corrobora o que penso de mim mesmo: sou a pior pessoa do mundo.
- Não seja tão dramático assim.
Ela se aproximou de mim, me abraçando de lado, enquanto eu me segurava para não chorar na frente deles.
- Você não é uma pessoa ruim. Você errou e isso é um fato. E provavelmente perdeu quem realmente amou de verdade.
Fechei os olhos por um instante.
- Ela vai morar em Milão – sussurrei.
Érica me lançou um olhar paciente, quase pedagógico, como se estivesse prestes a me explicar os princípios mais básicos dos relacionamentos.
- Bruno, perceba uma coisa, mas já adianto que posso estar errada, ok?
Assenti.
- Você começou sua vida amorosa com um amor platônico por Wanda. Um amor não correspondido porque ela escolheu Vitor. Você sofreu por anos até que conheceu Adriana. Ela fechou quase todas as lacunas deixadas por Wanda. Você foi amado de verdade, mas ainda assim, a sombra de Wanda nunca se dissipou porque vocês não tiveram um encerramento. E pior, vocês acabaram caindo em tentação. Vocês traíram Adriana. E a parte de tudo isso, apareceu Wis, que sempre teve um amor platônico por você. Eu não gosto dela, você sabe disso, mas a construção entre vocês foi sincera, natural e cuidadosa. Foi real. Mas envolvido com o que aconteceu com Wanda e Adriana, você não percebeu quem realmente amava.
- Wis – exclamou Remo – Mas agora, você pode tê-la perdido para sempre, mano, apesar de que acho que ainda há uma chance. Sinceramente, a saída de cena de Wanda foi porque ela se convenceu realmente de que você ama a irmã caçula e mais, pode ter sido uma dica de que Wis também te quer. Pense nisso.
Talvez fizesse sentido, mas minha cabeça não estava em perfeito funcionamento.
- Lembrando – concluiu Érica – podemos estar errados. Não tome nossa opinião como verdade absoluta. Reflita e tira suas próprias conclusões. Você é capaz, principalmente porque é o mais inteligente entre nós. Seja qual for sua decisão, estaremos com você até o fim.
Sempre foi difícil reconhecer os próprios erros, mas juro que tentei. Refleti por dias sobre os motivos para Wanda me abandonar. Eu não estava arrependido de tê-la escolhido. Era ela quem eu queria. Foi minha decisão.
Apesar disso, porém, a conclusão de Remo ecoava em meus pensamentos. E se tudo fosse, na verdade, sobre Wis? Lembro das sensações que ela me proporcionou, do término em paz que tivemos em Nova Iorque. Foi até emocionante. E se fosse isso o que eu precisasse? E se ela fosse a resposta?
Por outro lado, não demorei a reconhecer o dilema em que me encontrava. Com que cara eu poderia pleitear algo com Wis depois de ter escolhido Wanda, de ter me dedicado de corpo a alma a sua irmã mais velha? Como eu me pareceria perante ela? Como alguém que só a escolheu depois de ter sido dispensado pela outra?
As nossas mentorias continuavam, apesar de tudo. Frias e profissionais como ficaram acostumadas a ser. Sem brechas ou aberturas que eram tão comuns antes de Nova Iorque. Será que era o jeito de Wis me comunicar, implicitamente, que tinha seguido em frente e que tudo deveria ficar no passado?
Mesmo sofrendo pela partida de Wanda, decidi arriscar. O pior que eu poderia receber era um não, pensei comigo.
Comprei uma passagem para Nova Iorque para a semana seguinte. Eu faria uma surpresa para Wis Nara.
Dois dias depois, Wis apareceu diferente na mentoria. Ela queria… conversar. Tão logo a chamada de vídeo estabilizou, ela foi direta ao ponto.
- Eu soube que você comprou uma passagem para vir me ver em Nova Iorque.
Fiquei completamente em choque. Como ela soube? Quem contou? Eu não tinha falado disso para ninguém.
- Por favor, não venha. Eu e o Tyler… estamos nos conhecendo melhor. Acho que vai rolar algo entre nós.
Não consegui responder. Saber de Tyler foi como um déjà-vu. Foi exatamente a mesma sensação que tive quando vi Vitor descendo as escadas na década passada.
Eu ainda processava quando ela continuou:
- Além disso, eu agradeço imensamente pela mentoria. Eu nunca poderia aprender tanto se não fosse por você. Acho que me sinto capaz de seguir sozinha e cuidar dos meus próprios investimentos. Então, quero encerrar tudo por aqui. Acabei de fazer meu último pagamento. Depois confira na sua conta.
- Tudo bem – respondi vacilante, após um leve momento de hesitação – Estou às ordens se precisar.
- Obrigada. Até a próxima, Bruno.
E desligou.
Limpo. Reto. Seco. Final.
Esse foi o terceiro momento mais constrangedor da minha vida. Com Wis Nara.
Nos dias seguintes, eu apenas existi. E apenas para o trabalho. Não tive coragem de comentar com ninguém sobre meu fracasso com Wis. Nem mesmo minha mãe. Sentia-me envergonhado. Tentei fingir naturalidade. Se alguém percebeu, não comentou comigo.
Tive alguns lapsos de memória, mas graças a Bruna, consegui manter todos os meus compromissos. Ela foi de uma grande ajuda.
Wanda me mandou uma mensagem depois de semanas em silêncio:
> Wanda: vou viajar em três dias
> Wanda: gostaria que você fosse ao aeroporto se despedir de mim
> Bruno: vou tentar
Esses três dias foram mais terríveis ainda. Não consegui dormir. Muito menos comer direito. Emagreci. Não era colapso, mas era uma mistura entre a angústia pelo fim que chegava e a tristeza por algo que fora perdido. Eu me sentia completamente perdido.
Chegou o dia. Minha mãe me ligou perguntando se poderia ir comigo ao aeroporto, para se despedir de Wanda. Se ela sabia da minha indecisão sobre ir, eu nunca saberia. Ou talvez soubesse e forçou o pedido para garantir que eu fosse. Eu poderia ter ficado com raiva, mas não tinha forças para isso. E minha mãe era inocente. Ela não merecia isso. O erro foi meu.
- Passo na sua casa em uma hora – foi o que respondi.
O caminho ao aeroporto foi silencioso. Minha mãe não parecia preocupada comigo. Seu olhar denotava confiança… em mim. Por um instante, senti-me grato por isso. Reconfortado até.
No aeroporto, encontrei Wanda e seus pais. Além deles, estavam Wendy e um rapaz que não conhecia.
Wanda parecia bem. Muito melhor que eu. Ela percebeu meu semblante e vi que o seu se encheu com um pouco de dor e de culpa também.
Os cumprimentos foram cordiais, protocolares. Wanda me deu um abraço mais demorado do que eu esperaria. Trajano e Cecília foram agradáveis comigo. Assim como Wendy. Também conheci o rapaz. Chamava-se Lucas. Era o namorado dela.
Jogamos conversa fora. Eu não. O resto do pessoal. Fiquei calado o máximo de tempo possível, fazendo algo parecido como uma cara de paisagem.
Veio o momento do embarque. Wanda despediu-se dos seus pais, da irmã e da minha mãe com abraços efusivos, chorosos e emotivos. Tive que me conter para segurar minhas lágrimas.
Então, ela veio em minha direção abrindo os braços. Seu rosto havia um misto de lágrimas e um sorriso sincero. Ali ela parecia me amar de verdade, mas que não era para ser.
Nos abraçamos.
- Fica, por favor – supliquei uma última vez.
- Oh meu amor…
E demos um beijo rápido, mas significativo, na frente de todos.
Eu soube que era o fim.
Ela me soltou e despediu-se mais uma vez dos seus pais antes de ir.
A vi entrando pela sala de embarque, saindo completamente do meu campo de visão.
Ainda fiquei mais um tempo no aeroporto. Pedi que minha mãe fosse com os pais de Wanda para casa. Ela apenas assentiu.
Rapidamente encontrei a aeronave que ela viajaria. Por algum senso de encerramento bizarro que eu pudesse ter, eu queria ver o avião partindo.
Posicionei-me em um lugar de onde podia ver a pista. Era uma área aberta. O céu estava nublado. Se chovesse, eu provavelmente me molharia todo. Mas não me importei.
Fiquei mais de uma hora ali até que a aeronave que ela estava começou a taxiar pela pista.
Havia um pequeno congestionamento de aeronaves. Cinco no total. A dela era a quarta.
A chuva começou a cair. Talvez por isso os pilotos estavam esperando a autorização da torre de controle.
Então, o primeiro foi, subiu e sumiu entre as nuvens carregadas.
Depois o segundo. E o terceiro.
E veio a vez da aeronave que Wanda estava.
A aceleração.
A subida.
Pegando altitude.
As nuvens se aproximando.
A chuva caindo.
E por fim, o avião cruzando rumo ao céu azulado no topo do mundo.
Fugindo da minha vista.
E foi ali que eu tive uma certeza…
...no fundo da minha alma
…no fim das contas
…ela me via só como amigo.
Continua...
Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.
O fim do final está chegando. A jornada de Bruno terá, enfim, o seu encerramento. Faltam mais dois capítulos apenas. Agora é (quase) oficial. O próximo será em terceira pessoa e o último derradeiro, na visão de Bruno.