Capítulo 1: Engrenagens e Artigos

Da série L&T
Um conto erótico de L
Categoria: Trans
Contém 1018 palavras
Data: 15/03/2026 13:17:26

O pátio central da universidade era um ecossistema caótico, onde o cheiro de café barato se misturava ao som de discussões acaloradas sobre política e o tilintar metálico vindo dos galpões de engenharia. Foi ali, entre o concreto bruto e a efervescência acadêmica, que os olhos de Lucas e Thiago se cruzaram pela primeira vez.

Lucas, do quarto ano de Engenharia Mecânica, carregava sempre uma mancha de graxa esquecida em algum lugar do rosto e um par de óculos que insistia em escorregar pelo nariz. Ele era o tipo de pessoa que via o mundo como um conjunto de peças que precisavam se encaixar perfeitamente. Naquele dia, ele tentava equilibrar uma maquete pesada e três livros técnicos enquanto buscava uma mesa vaga.

— Ei, cuidado! — A voz era suave, mas firme.

Lucas sentiu uma mão firme em seu cotovelo, impedindo que a maquete de um motor a combustão virasse sucata antes mesmo da apresentação. Ele olhou para cima e deu de cara com Thiago.

Thiago era estudante de Direito, calouro, mas com uma presença que parecia ocupar todo o espaço. Ele vestia uma camisa de linho bem cortada, o cabelo perfeitamente alinhado e carregava um Vade Mecum que parecia pesar mais do que a dignidade de Lucas naquele momento. Mas o que realmente paralisou Lucas não foi a ajuda, foram os olhos de Thiago: profundos, gentis e adornados por cílios que pareciam longos demais para alguém que ainda não sabia o poder que tinha.

— Obrigado... eu sou um desastre ambulatorial — Lucas conseguiu gaguejar, sentindo as bochechas esquentarem.

— Sem problemas. Engenharia? — Thiago sorriu, e Lucas sentiu como se uma engrenagem essencial tivesse acabado de encontrar o seu lugar no peito. — Eu sou o Thiago. Direito.

— Lucas. E sim, mecânica. Dá pra notar pelo cheiro de querosene, né?

Thiago soltou uma risada cristalina, um som que Lucas decidiu, naquele exato segundo, que queria ouvir todos os dias.

— É um cheiro honesto. Quer ajuda para levar isso até aquela mesa? Eu estava indo estudar, mas acho que a Constituição pode esperar dez minutos por um cavaleiro em apuros.

Eles se sentaram. O que deveria ser um agradecimento rápido se transformou em duas horas de conversa. Thiago falava sobre justiça social com uma paixão que fazia Lucas esquecer as leis da termodinâmica. Lucas explicava o funcionamento de turbinas com uma empolgação quase infantil, movendo as mãos grandes e calejadas de forma expressiva.

Havia algo ali. Uma eletricidade silenciosa que não vinha de fios ou baterias. Era o jeito que Thiago inclinava a cabeça para ouvir, ou como Lucas desviava o olhar, tímido, toda vez que Thiago elogiava sua inteligência.

— Você tem mãos de artista, Lucas — Thiago disse em certo ponto, tocando levemente os dedos de Lucas que estavam sobre a mesa. — É estranho dizer isso de um engenheiro?

O toque foi leve, quase acidental, mas Lucas sentiu um choque percorrer sua espinha. As mãos de Thiago eram macias, as unhas bem cuidadas, e Lucas sentiu uma vontade súbita e inexplicável de protegê-las, de segurá-las.

— Acho que ninguém nunca me disse isso — Lucas sussurrou, a voz subitamente rouca. — Geralmente dizem que são mãos de quem não tem medo de se sujar.

— Isso é bom — Thiago respondeu, mantendo o contato visual. — Eu gosto de pessoas que se entregam ao que fazem.

Os dias seguintes foram uma sequência de "encontros casuais". Lucas começou a frequentar a biblioteca de Direito, fingindo ler manuais de cálculo enquanto observava Thiago sublinhar artigos com canetas coloridas. Thiago, por sua vez, aparecia nos treinos de robótica com sanduíches naturais e um sorriso que desarmava qualquer estresse pré-prova.

O primeiro beijo aconteceu em uma sexta-feira chuvosa, sob o abrigo de um ponto de ônibus vazio dentro do campus. A chuva caía pesada, criando uma cortina de isolamento do resto do mundo.

— Você tá tremendo — Thiago comentou, aproximando-se. Ele não parecia com frio. Ele parecia... ansioso.

— É a chuva — mentiu Lucas.

— Não é, não.

Thiago deu o passo final, eliminando a distância. Ele levou as mãos ao rosto de Lucas, os dedos longos acariciando a mandíbula ainda áspera de barba por fazer. Lucas fechou os olhos, entregando-se ao toque. Quando os lábios se tocaram, não houve pressa. Foi um beijo exploratório, doce, com gosto de menta e expectativa.

As mãos de Lucas desceram para a cintura de Thiago, puxando-o para mais perto, sentindo a delicadeza do corpo dele contra o seu. Thiago soltou um suspiro baixo contra a boca de Lucas, um som que misturava alívio e desejo. Naquele momento, no meio de um campus universitário frio e úmido, algo muito quente começou a arder entre os dois.

Lucas sentiu uma ternura imensa transbordar. Ele não sabia explicar, mas sentia que Thiago era alguém que ele queria cuidar, mas que também tinha o poder de desestruturar todas as suas certezas. E Thiago, aninhado nos braços daquele rapaz de ombros largos e mãos fortes, sentia-se, pela primeira vez, verdadeiramente visto.

— A gente devia sair daqui — Lucas murmurou entre selinhos, a voz carregada de um carinho profundo.

— Para onde? — Thiago perguntou, os olhos brilhando na penumbra.

— Para qualquer lugar onde eu possa continuar te beijando sem parar.

Eles não sabiam ainda, mas aquele era o primeiro capítulo de uma história que transformaria não apenas suas rotinas, mas suas próprias identidades. O amor deles estava apenas começando a ser rascunhado, e o papel era um convite em branco para tudo o que o futuro guardava.

Lucas olhou para Thiago e sentiu uma pontada de algo novo. Uma admiração pela suavidade dele que o fazia querer ser mais forte, mas que, secretamente, também o fazia se perguntar como seria sentir aquela mesma suavidade na própria pele. Mas isso era um pensamento para depois. Por agora, havia apenas o calor do abraço e a promessa de um próximo encontro.

No dia seguinte, Thiago enviou uma mensagem: "Acho que esqueci meu coração naquele motor que você estava montando. Pode conferir se ele ainda está lá?"

Lucas sorriu para o celular, o coração batendo descompassado. O engenheiro e o advogado. As peças estavam começando a se mover, e o encaixe parecia, pela primeira vez na vida de ambos, absolutamente perfeito.

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 93Seguidores: 69Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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