O dia começou com aquele cheiro de café passado que, em qualquer outra casa, significaria conforto. Aqui, não. Para mim, o cheiro do pó de café fresco logo cedo se tornou o gatilho de um serviço mecânico. Eu ficava ali, sentado na ponta da mesa, observando o vapor subir da xícara, enquanto o silêncio da cozinha era cortado apenas pelo barulho dos talheres batendo na louça. Era um som seco, rítmico, que parecia contar os segundos de uma pena que nós dois estávamos cumprindo.
Eu olhava para a Adriana e o que eu via me sufocava. Ela estava impecável. O cabelo preto, que eu tanto gostava de ver bagunçado no travesseiro, estava preso num coque firme, sem um fio um fora do lugar. A roupa estava alinhada, passada, sem um vinco sequer. Ela se movimentava pela cozinha com uma precisão cirúrgica, colocando o açúcar, arrumando os guardanapos, me servindo como se eu fosse um rei e ela uma serva devota. Mas eu sabia que aquilo era uma fachada. Cada gesto dela — o café pronto no horário exato, a camisa branca esticada na cadeira — não era carinho. Era pagamento. Ela estava tentando quitar uma dívida invisível, uma conta que nunca fechava, e ver aquela "esposa perfeita" diante de mim me dava um nó no estômago. O nosso lar tinha virado uma penitenciária onde ela era a detenta tentando reduzir a própria pena através do bom comportamento.
— O café está bom, Adilson? — ela perguntou, sem me olhar nos olhos.
— Está, Adriana. Como sempre — respondi, e a minha própria voz me pareceu estranha, desprovida de qualquer calor.
Eu não conseguia parar de pensar na noite passada. A memória voltava como um soco, e o gosto que ficava na boca não era o do café, mas algo amargo. No quarto, sob a luz fraca do abajur, eu a tratei com a rispidez que vinha se tornando o nosso novo normal depois da segunda traição. Eu a queria, o desejo por ela ainda queimava como brasa escondida, mas era um desejo sujo, misturado com uma raiva que eu não sabia onde colocar.
Lembrei da forma como segurei seus pulsos, da pressão que exerci, buscando nela uma reação que não fosse apenas submissão. E o que eu encontrei me destruiu. Ela resistiu no começo, eu sentia a tensão nos músculos dela, a respiração presa, o corpo rígido como se estivesse esperando um impacto. Vi quando ela mordeu o lábio inferior com tanta força que achei que fosse sangrar, tudo para não deixar escapar um gemido sequer. Ela queria se manter fechada, queria que aquele ato fosse apenas a punição que ela achava que merecia.
Mas o corpo dela... o corpo dela é um traidor.
No meio daquela brutalidade contida, eu vi o exato momento em que o prazer involuntário a atingiu. Foi como uma ofensa pessoal para mim. Vi as pupilas dela dilatarem, o arco das costas se contrair e aquele gemido que ela tentou sufocar contra o travesseiro. Ver que ela conseguia sentir prazer enquanto eu a tratava daquele jeito me fez sentir um monstro e ao mesmo tempo um otario. Quando eu saí de cima dela, o silêncio que se instalou no quarto pesava mais que o teto. Ela virou o rosto, tentando se esconder nas sombras, e eu fiquei ali, olhando para as minhas próprias mãos, sentindo o latejar do meu sangue nos ouvidos.
Eu sabia o que aquilo significava. Ela estava se matando por dentro, se anulando, aceitando ser usada como um objeto para tentar consertar o que tinha quebrado naquela sapataria maldita. E quanto mais ela tentava ser "perfeita", mais eu sentia vontade de quebrar tudo eu sentia. O prazer dela na cama não era uma vitória para mim; era o lembrete constante da traição, e agora ela aceitava qualquer coisa para não me perder.
Empurrei a xícara de café, ainda pela metade. O cheiro agora me causava náuseas.
— Precisa de mais alguma coisa antes de eu sair? — ela perguntou, a voz trêmula, enquanto começava a recolher a mesa.
— Não — eu disse, levantando-me brusco. — Não preciso de mais nada.
Saí da cozinha sem olhar para trás, mas sentia o peso do olhar dela nas minhas costas. Eu sabia que ela continuaria ali, limpando cada migalha, lustrando cada superfície, tentando deixar a casa tão limpa quanto ela queria que a consciência dela estivesse. Mas a mancha estava lá. Estava no jeito que ela não sorria mais, na forma como ela evitava o meu reflexo no espelho e, principalmente, na sacola de couro que eu tinha visto escondida no canto da sala, trazida pelos meus sogros dias atrás. Aquela sacola era um cadáver que a gente estava fingindo que não sentia o cheiro, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que lidar.
Parei no corredor e respirei fundo. O ar parecia ralo. Eu amava aquela mulher, ou achava que amava o que tinha sobrado dela, mas a dúvida era um bicho que roía por dentro. Eu olhava para a Adriana e me perguntava: onde terminava a esposa arrependida e onde começava a mulher que ainda guardava o calor do toque de outro homem?
A cada passo que eu dava em direção à porta, a imagem do sapateiro, com aquele martelo batendo rítmico, vinha à minha mente. Ele não estava aqui, mas era como se fizesse parte da mobília. Ele estava no café, estava no lençol, estava no silêncio entre nós. E eu sentia que, enquanto eu não enfrentasse aquele cheiro de cola e couro novamente, eu nunca mais conseguiria sentir o gosto de nada sem sentir o gosto do sangue que ela mordia nos próprios lábios para não gritar.
A sacola que mencionei apareceu na nossa sala como um presságio de mau gosto. Meus sogros vieram nos visitar no domingo — uma daquelas visitas protocolares onde todo mundo finge que a vida é um comercial de margarina, enquanto eu tentava não deixar transparecer que o meu casamento estava por um fio. Eles trouxeram uma sacola de couro pesada, cheia de sapatos velhos, sandálias com o salto gasto e botas que precisavam de graxa.
— Adriana, minha filha, você que mora perto daquele sapateiro bom, leva isso lá pra nós? — minha sogra pediu, com aquela naturalidade que me fez querer rir por dentro de puro desespero.
Adriana aceitou. Ela deu um sorriso, daqueles que não chegam nem perto dos olhos, e pegou a sacola. Vi quando ela a colocou no canto da sala, atrás da poltrona, como se estivesse escondendo um cadáver. E ali a sacola ficou por três dias. Três dias em que aquele amontoado de couro morto virou o centro gravitacional do nosso apartamento. Toda vez que eu passava pela sala, eu sentia a presença dela. Era como se a sacola estivesse gritando o nome do Ricardo, lembrando a Adriana — e a mim — de que o mundo dele ainda estava a poucas quadras de distância.
Na quarta-feira, o cheiro do couro começou a se misturar com a minha insônia. Adriana não tocava no assunto, não olhava para o canto da poltrona. Ela agia como se, ignorando a sacola ela fosse sumir, o sapateiro deixasse de existir. Mas eu não sou de ignorar fantasmas. Eu prefiro olhar nos olhos deles para ver se eles ainda assombram.
Peguei a sacola sem avisar. O peso dela no meu braço era maior do que o volume sugeria. Saí de casa decidido, sentindo o sangue pulsar nas têmporas. Eu precisava ver o rosto daquele homem novamente, não como o corno que descobriu a traição, mas como o dono da casa que ele tentou destruir.
O caminho até a sapataria pareceu mais curto do que eu pensava. À medida que eu me aproximava, o ar ia ficando diferente. O cheiro de cola de sapateiro, aquele aroma químico e ardido, começou a invadir o meu nariz, trazendo memórias que eu tentei enterrar nos últimos meses. E então, ouvi o som.
Tum. Tum. Tum.
Era o martelo de Ricardo. Um som rítmico, constante, quase provocativo. Ele batia no couro com uma precisão que parecia uma mensagem. Parei na porta e o vi. Ele estava curvado sobre a bancada, a mesma bancada onde minha esposa tinha dado para ele.
Entrei e o sino da porta anunciou a minha presença. Ricardo não levantou a cabeça de imediato. Ele deu mais três marteladas lentas, deliberadas, antes de pousar a ferramenta e limpar as mãos num pano sujo de graxa. Quando ele finalmente olhou para mim, não houve surpresa. Não houve medo. Houve apenas um reconhecimento silencioso, um olhar que durou o intervalo de uma respiração profunda, mas que carregava todo o histórico que nós três dividíamos.
— Pois não? — ele disse, com a voz rouca, fingindo que eu era apenas mais um cliente.
Coloquei a sacola em cima do balcão. O barulho dos sapatos batendo na madeira soou como um desafio.
— Tenho esses sapatos e sandálias que precisam de conserto — eu disse, mantendo a voz o mais firme que consegui.
Ricardo puxou a sacola para perto de si. Ele começou a tirar os sapatos um por um, examinando-os com uma calma que me irritava. Ele pegou uma sandália de couro preto, passou os dedos grossos e ásperos pela borda do salto e deu um sorrisinho de canto, algo quase imperceptível.
— Couro bom esse aqui — ele comentou, sem tirar os olhos do objeto. — Mas dá pra ver que foi muito usado. Quando o couro é muito exigido, ele cede, sabe? Fica mole, perde a forma original. Precisa ser domado de novo, com jeito e com força, senão não presta mais pra andar.
Eu senti o meu estômago revirar. Sabia que ele não estava falando da sandália. Ele estava falando da Adriana. Estava falando da forma como ele a tratou naquelas tardes em que eu não estava. As indiretas dele entravam na minha pele como agulhas.
— É só fazer o seu serviço. Sem filosofia — eu retruquei, fechando os punhos ao lado do corpo.
Ele finalmente me encarou. O olhar dele era pesado, carregado de uma arrogância de quem sabe que deixou uma marca impossível de apagar. Ele não se alterou com a minha rispidez. Pelo contrário, parecia se divertir com a minha raiva contida.
— Serviço de sapataria exige paciência, rapaz. Não dá pra apressar o que foi estragado por tanto tempo — ele disse, voltando a olhar para os sapatos na mesa. — Isso aqui vai dar trabalho. O couro está ressecado em algumas partes, em outras está gasto demais por dentro.
Ele pegou um sapato masculino, provavelmente do meu sogro, e apertou a sola.
— Já vou avisar que isso aqui demora. Vem buscar daqui a três dias. Eu gosto de entregar o trabalho bem feito, sem pontas soltas. Gosto que o cliente sinta a diferença no toque quando recebe de volta.
— Três dias é muito tempo — eu disse, querendo pegar a sacola de volta e sair dali.
— É o tempo necessário pra eu deixar tudo bem arrumado — ele respondeu, agora olhando fixamente para mim. — Se quiser levar agora, leva do jeito que está: estragado e sem serventia. Mas se quiser que eu dê um jeito... vai ter que esperar o meu tempo.
— Três dias, então — eu murmurei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
— Três dias — ele repetiu, pegando o martelo novamente.
Ele não esperou minha resposta. Voltou a bater no couro, o som metálico preenchendo o espaço entre nós. Tum. Tum. Tum. Saí da sapataria fervendo. O ar da rua parecia frio contra a minha pele suada. Eu sentia um ódio que me cegava, mas, acima de tudo, sentia uma derrota amarga. O ritmo do martelo dele continuava ecoando na minha cabeça, como se estivesse batendo diretamente nos meus nervos.
Eu caminhava de volta para casa e cada passo que eu dava parecia um lembrete do que ele disse: "o couro precisa ser domado". Eu pensava na Adriana me esperando no apartamento, com aquele coque perfeito e aquela submissão silenciosa, e a raiva se transformava em algo mais perigoso. Eu ia chegar em casa mas agora a sombra do Ricardo não estava mais no canto da sala. Ela estava caminhando ao meu lado, rindo do meu esforço em tentar consertar o que ele tinha se orgulhado de quebrar.
Abri a porta de casa com o corpo tremendo. O som do martelo do Ricardo ainda batia dentro do meu crânio, uma pulsação constante que me cegava. O apartamento estava impecável, como sempre, com aquele cheiro de lustra-móveis que agora me dava asco. Adriana estava na sala, dobrando uma manta com uma calma que me pareceu um insulto. Quando ela me viu, as mãos dela pararam no ar. Ela leu o meu rosto em um segundo — ela sempre soube ler a minha raiva.
— Adilson? Onde você foi? — ela perguntou, a voz saindo pequena, quase um sussurro.
Eu não respondi de imediato. Caminhei até o centro da sala e parei, sentindo o peso do silêncio que a gente vinha cultivando.
— Fui levar a sacola — eu disse, e a palavra "sacola" pareceu um tiro. — Fui levar os sapatos dos seus pais para o seu amigo Ricardo.
Vi o sangue fugir do rosto dela. Adriana soltou a manta, que caiu murcha no sofá. Ela abriu a boca, as mãos buscando o próprio pescoço como se faltasse ar.
— Eu... eu ia levar Adilson. Eu só estava... eu ia levar, eu juro. É que a semana foi corrida e... — a voz dela travou na garganta. Ela começou a gaguejar, tentando montar uma desculpa logística para algo que era puramente emocional.
— Você ia levar Adriana? — eu gritei, e o som da minha própria voz me assustou. — Você não levou porque tem pavor daquele lugar! E tem pavor porque sabe que, se entrar lá, aquela máscara de esposa perfeita cai no chão junto com a sua calcinha!
— Não fala assim... por favor — ela pediu, as lágrimas começando a inundar os olhos castanhos.
— Eu falo como eu quiser! — dei um passo em direção a ela, a frustração de meses transbordando. — Você sabe o que ele disse? Ele falou que o couro foi "muito usado" e que precisava ser "domado". Ele se sente seu dono, Adriana! E o pior é que eu me sinto um agressor nessa casa. Eu te trato mal, eu te uso na cama, e você aceita tudo em silêncio e ainda goza. Isso está me matando!
Adriana desabou no sofá, escondendo o rosto nas mãos. O choro dela não era aquele choro contido de antes; era um soluço ruidoso, de quem não aguentava mais sustentar o peso do próprio corpo. Eu parei de gritar. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio diferente, mais limpo. Olhei para ela ali, encolhida, e senti uma pontada de uma humanidade que eu achei que tinha perdido.
— Sabe o que é o pior, Adriana? — minha voz baixou, ficando rouca e confessional. — Eu sei que você está sendo sincera agora. Eu sei que você se arrepende. Porque você é burra o suficiente para nunca ter escondido a merda que fez. Nas duas vezes, você me contou. Você não sabe mentir direito, e isso é a única coisa que ainda me faz acreditar que existe uma saída, já que você sabe o que fez e não deixou eu descobrir depois já contou na hora. Mas essa sua tentativa de pagar uma dívida todos os dias... essa rotina de santidade... isso é uma prisão pra nós dois.
Ela levantou o rosto, os olhos inchados, a maquiagem leve borrada.
— Eu não aguento mais, Adilson — ela desabafou, a voz embargada. — Eu me sinto um lixo. Sinto que sou um objeto que você usa com força porque tem raiva. Eu acordo e durmo tentando ser a mulher que você merece, mas eu sinto que, quanto mais eu tento, mais eu me perco. Essa perfeição é uma mentira! Eu errei, eu sou fraca, eu fiz aquela sujeira... mas eu não sou esse robô que você quer que eu seja agora. Eu prefiro terminar do que continuar vivendo nessa penitência de ser "perdoada" um pouquinho por dia.
Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. Ela tinha razão. Eu estava agora transformando o nosso casamento em uma tortura lenta.
— Eu não quero ser o homem que te machuca, Adriana — eu admiti, sentindo minhas próprias defesas caírem. — Mas a dúvida... a dúvida é uma cicatriz que arde. Eu olho pra você e vejo a minha esposa, mas no segundo seguinte eu vejo a mulher que me traiu.
— Então me olha agora — ela disse, levantando-se e vindo até mim, parando a centímetros do meu peito. — Não olha pra esposa, nem pra mulher que te traiu. Olha pra mim. Eu sou a Adriana. Eu estou aqui. Eu estou exausta de ser usada por culpa ou por desejo alheio. Eu só queria ser amada de novo, sem ser um objeto.
O choro dela agora era de exaustão absoluta. Eu vi a fragilidade ali, a verdade nua que a máscara escondia. Eu não vi a "puta" e nem a "santa". Vi novamente a mulher que eu pedi em casamento, toda quebrada, pedindo para ser resgatada do abismo que nós dois cavamos. Minha mão, ainda trêmula da raiva da sapataria, subiu devagar e tocou o rosto dela, limpando uma lágrima com o polegar. A pele dela estava quente.
— Eu também estou no limite — sussurrei.
Naquele momento, o ar no apartamento parou de pesar. A verdade tinha sido dita, sem filtros, sem a falsa cortesia do café da manhã. Estávamos ali, dois destroços tentando entender se ainda podiam formar um lar.
O silêncio que ficou depois da nossa conversa não era mais pesado; era elétrico. Eu olhava para a Adriana e não via mais a "detenta" que me servia o café de cabeça baixa. Vi a mulher que me fez perder o sono aos vinte anos. A raiva que eu trouxe da sapataria, começou a ser abafada por uma chama mais antiga, mais limpa.
Aproximei minha mão do rosto dela, mas não foi um toque de posse. Meus dedos tocaram a lateral do pescoço dela, sentindo a pulsação acelerada, o sangue correndo vivo ali. Adriana fechou os olhos e inclinou a cabeça, entregando-se ao meu toque. Eu senti o tremor dela, mas era um tremor de expectativa.
— Adriana... olha para mim — sussurrei.
Quando ela abriu os olhos, estavam úmidos, mas brilhantes. Eu não esperei. Puxei-a pela nuca e a beijei. Não foi aquele beijo punitivo das últimas semanas, seco e sem alma. Foi um beijo de verdade, profundo, com gosto de saudade. Minha língua buscou a dela com uma sede que me surpreendeu, e a resposta dela foi imediata. Ela me abraçou pelo pescoço, colando o corpo no meu, e soltou um gemido baixinho contra a minha boca que fez meu pau latejar instantaneamente.
— Adilson... meu amor... — ela murmurou entre os beijos, e ouvir aquele "meu amor" sem o peso da obrigação me deu um tesão absurdo.
Minhas mãos desceram pelas costas dela, sentindo o tecido daquela roupa alinhada que eu queria arrancar. Eu a puxei para mais perto, sentindo o volume dos seios dela contra o meu peito. Eu conhecia cada curva daquele corpo, cada reação. Sabia que, quando eu apertava a cintura dela daquele jeito, ela arrepiava. E ela arrepiou.
— Eu senti tanta falta disso — confessei, minha voz saindo rouca, enquanto eu descia os beijos pelo pescoço dela, parando bem ali, no ponto atrás da orelha que eu sabia que era o ponto fraco dela.
— Então não para — ela pediu, a voz carregada de uma vontade que eu não ouvia há meses. — Me faz sentir que eu sou sua, Adilson. Mas não como uma coisa... como sua mulher. Por favor.
Eu a peguei no colo. O peso dela era familiar e excitante. Caminhei até o quarto, e a cada passo a gente se beijava com uma urgência de quem tinha passado anos no deserto. Deitei-a na cama, a mesma cama que tinha sido palco de tanta frieza ultimamente, e comecei a despi-la. Mas desta vez, eu admirei o processo.
Fui tirando peça por peça, beijando a pele que ia ficando exposta. Quando ela ficou só de calcinha e sutiã, parei. A luz do corredor desenhava o contorno daquelas coxas morenas, da barriga lisinha. Ela estava linda. E o jeito que ela me olhava, com as pernas levemente abertas, as mãos agarrando o lençol, mostrava que a Adriana submissa tinha ficado na sala. Aquela ali era a minha Adriana, cheia de fogo.
— Você está maravilhosa — eu disse, e vi as bochechas dela corarem, o que só a deixou mais excitada.
— Vem logo, Adilson... — ela esticou os braços para mim, e o convite nos olhos dela era tudo o que eu precisava para esquecer o resto do mundo.
Eu tirei minha roupa com pressa, sentindo meu pau duro. Quando me juntei a ela na cama, o calor do encontro foi quase insuportável. Nossas pernas se entrelaçaram, pele com pele, e eu senti a boceta dela contra a minha coxa. Ela não estava apenas pronta; ela estava desesperada.
Eu me senti como um homem que volta para casa depois de uma guerra longa e injusta. Estar ali, com a Adriana nua sob o meu corpo, sentindo o calor que emanava da pele morena dela, era o meu verdadeiro lugar. Eu não queria mais o domínio bruto que vinha exercendo a semanas; eu queria a conexão que só nós dois tínhamos. Comecei a beijar o colo dela, sentindo o perfume do pescoço, aquele cheiro que era só dela e que nada no mundo conseguiria apagar.
Minhas mãos, que antes agiam com uma força punitiva, agora reconheciam cada curva com uma adoração renovada. Desci os beijos até os seios dela. Adriana arqueou as costas, oferecendo-se para mim. Os mamilos dela, escuros e já rígidos como pedras, imploravam por atenção. Eu os abocanhei com vontade, primeiro um, depois o outro, usando a língua para contornar a aréola antes de sugar com força.
— Ahhh, Adilson... — ela soltou um gemido alto, livre, que ecoou pelo quarto.
Não era o silêncio de quem aceita uma pena. Era o som de quem está viva. Ela enterrou as mãos nos meus cabelos, me puxando para mais perto, apertando meu rosto contra o peito dela. Eu sabia o quanto ela sentia falta desse meu lado. Eu sabia como a Adriana gozava fácil quando se sentia realmente desejada, e ver que ela estava respondendo assim, com os quadris já começando a balançar sob os meus, me deixou com um tesão que chegava a doer.
— Você está tão molhada... — sussurrei, descendo minha mão por entre as pernas dela.
— É você, Adilson... é só você que me deixa assim — ela respondeu, a respiração curta, os olhos entreabertos me devorando. — Eu estava com tanta saudade do seu jeito, da sua boca.
Minha mão encontrou a bocetinha dela, e o que senti foi um dilúvio. Ela estava ensopada, fervendo. Comecei a trabalhar o clitóris dela com o dedo, num ritmo que eu sabia que a levava à loucura. Adriana não ficou parada. Ela começou a morder o próprio lábio, mas desta vez não era para esconder a dor ou a vergonha; era para tentar conter a onda de prazer. Ela começou a falar coisas no meu ouvido, palavrões e palavras carinhosas ao mesmo tempo, pedindo para eu não parar, dizendo o quanto o meu toque era o único que importava.
— Sente como eu estou, Adriana — eu disse, pegando a mão dela e levando até o meu pau, que latejava entre nós.
Quando ela fechou os dedos quentes em volta, eu quase perdi o controle. Ela começou a me punhetar com uma técnica que só quem conhece o parceiro há anos possui, olhando direto nos meus olhos, com um sorriso de satisfação ao ver minha cabeça pendendo para trás.
— Eu quero você dentro de mim agora, Adilson. Do seu jeito. Quero sentir que você ainda é o dono de tudo — ela disse, e a voz dela tinha uma autoridade nova, uma vontade de se satisfazer junto comigo.
Eu não aguentava mais esperar. Afastei a calcinha dela que ainda estava pendurada em um pé e me posicionei. Olhei bem no fundo dos olhos dela, querendo que ela visse o Adilson de sempre, mas com um fogo que a dor só tinha feito aumentar. Quando eu entrei, devagar, sentindo o aperto maravilhoso daquele boceta, Adriana deu um grito que não continha nenhuma sombra. Era puro êxtase.
— Isso... meu Deus, Adilson... sim! — ela gritou, cravando as unhas nas minhas costas e me puxando para um beijo de língua desesperado enquanto eu começava as primeiras estocadas.
O encaixe foi tão perfeito que por um segundo o mundo lá fora deixou de existir. Não havia sapataria, não havia passado, não havia culpa. Havia apenas o calor úmido da Adriana apertando o meu pau como se estivesse dando as boas-vindas ao dono da casa. Comecei a me mover com aquela lentidão provocante que eu sabia que ela adorava, sentindo cada nervo da minha cabeça roçar nas paredes internas dela, que latejavam em resposta.
— Adilson... meu Deus, como eu senti falta de você assim... — ela gemia, com a voz embargada, enquanto enterrava as unhas nos meus braços.
Eu a puxei para um beijo voraz, nossas línguas lutando por espaço enquanto eu acelerava o ritmo. Eu não era mais o agressor das últimas semanas; eu era o Adilson que a conhecia desde menina, o homem que sabia que, se eu batesse o quadril contra o dela com um pouco mais de força, ela perderia o fôlego. E foi o que fiz. Comecei a dar estocadas profundas, sentindo o som da nossa pele batendo uma na outra — aquele som de carne com carne que é a música mais honesta que existe.
Adriana estava em transe. Ela jogava a cabeça para trás, os cabelos pretos espalhados pelo travesseiro como uma moldura de fogo. Ela não estava mais em silêncio. Ela gemia alto, pedia "mais", dizia que eu era o único homem dela, que ela me amava. E o mais excitante era ver que ela também buscava o prazer dela. Ela não estava ali apenas para me satisfazer como uma obrigação; ela subia o quadril para me encontrar, ela se esfregava em mim, buscando o ângulo exato que a fazia delirar.
— Isso, meu amor! No fundo... bate no fundo! — ela gritou, as pernas agora subindo e se prendendo na minha cintura, me puxando para ainda mais dentro.
Eu a virei de quatro com um movimento ágil, mas cheio de desejo. Olhei para aquela bunda morena, tão familiar e tão desejada, e não contive a vontade de dar um tapa firme em uma das nádegas. A marca da minha mão ficou vermelha na pele dela, e o som do tapa pareceu um gatilho. Adriana soltou um grito de tesão puro, empurrando o quadril para trás, oferecendo-se para mim.
— Você gosta assim, não gosta? — sussurrei no ouvido dela, enquanto entrava por trás, sentindo o aperto ainda mais intenso nessa posição.
— Eu gosto de você, Adilson! Gosto de como você me conhece... Ahhh!
Eu segurei os cabelos dela com uma mão, mantendo o rosto dela virado para o lado para que eu pudesse ver o prazer estampado nos traços dela. Com a outra mão, desci por baixo da barriga dela e encontrei o clitóris, que estava inchado e pulsando. O contraste entre a penetração de quatro e o toque rápido na frente foi o golpe final.
O corpo da Adriana começou a ter espasmos. Eu sentia as paredes dela se contraírem em volta do meu pau como se estivessem tentando me sugar para dentro. Ela começou a gemer de prazer, o corpo tremendo tanto que eu tive que segurar firme na cintura dela para não perdermos o equilíbrio.
— Eu vou gozar, Adilson! Vou gozar com você! — ela berrava, sem nenhum pudor, entregue ao êxtase que a gente não compartilhava há tanto tempo.
Ver a Adriana gozando daquele jeito, de forma livre, barulhenta e desesperada, me deu o empurrão que eu precisava. Senti o jato quente começar a subir. Eu não queria sair. Eu queria despejar tudo dentro dela, selar aquele pacto de reconciliação com o que eu tinha de mais íntimo. Dei as últimas estocadas, rápidas e profundas, e descarreguei dentro dela, sentindo cada pulsação do meu orgasmo se misturar com os tremores do dela.
Caímos exaustos um sobre o outro, o suor misturado, os corações parecendo que iam saltar pelo peito. Ficamos ali, abraçados na penumbra do quarto, enquanto a respiração voltava ao normal. Adriana se virou e me beijou com uma doçura que eu achei que tinha morrido.
— Obrigada por me amar de novo, Adilson — ela sussurrou, encostando a testa na minha.
O quarto estava naquela meia-luz de fim de tarde, e o silêncio, pela primeira vez em muito tempo, não parecia uma briga. A Adriana estava grudada no meu peito, com a respiração pesada. Eu olhei para ela, ainda meio ofegante, e uma lembrança de como a gente era antes me veio à cabeça.
— Sabe de uma coisa, Adriana? — eu disse, dando um sorrisinho de lado. — Acho que errei a pontaria. Te dei a sua vitamina na boca errada.
Como eu não tinha gozado na boca dela, ela entendeu a piada na hora. Sempre costumávamos brincar um com outro, quando tudo era leve. Ela deu um tapa de leve no meu peito e soltou uma risada gostosa, uma risada que eu não ouvia há meses.
— Idiota! Você não presta, Adilson — ela disse, rindo e limpando o canto do olho.
Mas o sorriso dela era largo, de quem estava aliviada por me ver brincar de novo. Ela parecia radiante por ver um lampejo do "velho Adilson" ali. Mas eu logo mudei o tom, ficando um pouco mais sério, e ela percebeu.
— Olha... eu sei que o que a gente tinha antes, a gente não vai ter mais — eu comecei a dizer, e vi o sorriso dela sumir na hora. Ela ficou me olhando atenta, com um brilho de medo nos olhos, achando que eu ia desistir de tudo ali mesmo.
Eu dei um sorriso suave para tranquilizar ela e continuei:
— Mas do jeito que a gente estava também, sendo um o carrasco do outro... a gente também não vai ficar mais. Eu não quero mais aquilo. Se você quiser, Adriana, eu estou disposto a gente criar uma relação nova. Quase do zero. Uma que a gente goste, que seja de verdade. Eu definitivamente agora quero salvar o nosso casamento, mas de um jeito que a gente consiga respirar.
Pela primeira vez, eu fui sincero com ela sobre querer algo de verdade. Sem ameaças, sem agressividade. Adriana me olhou com os olhos cheios d’água e me apertou mais forte.
— Eu te amo, Adilson... Eu sempre estive disposta. Eu nunca quis outra coisa a não ser salvar a gente — ela sussurrou, com a voz embargada.
Ela deu um suspiro de alívio, se aninhou no meu peito com um sorriso sereno e fechou os olhos. Comecei a fazer um cafuné nela, sentindo os fios de cabelo entre os meus dedos. Não demorou muito e a respiração dela ficou lenta; ela tinha dormido, finalmente em paz.
Eu continuei ali, fazendo o carinho, mas meu olhar se perdeu no vazio do quarto. Olhei para a Adriana dormindo, tão confiante agora, e o pensamento maldito voltou:
A gente vai tentar, Adriana... Eu vou tentar. Mas eu me conheço. E eu me pergunto: se amanhã você passar por aquela sapataria e ouvir o martelo dele batendo no couro... se você ficar sozinha com o Ricardo de novo, sem ninguém olhando... será que esse nosso amor novo vai ser o suficiente pra você resistir? Será que você não vai querer sentir ele de novo?
Parei o cafuné e senti um calafrio. A paz era real, o sexo tinha sido do caralho e o nosso papo foi sincero. Mas a cicatriz ainda estava lá, latejando embaixo da pele. O fantasma do sapateiro não tinha ido embora e eu sabia que, por mais que a gente tentasse, a gente nunca mais ia estar sozinho de verdade nessa cama, mas eu realmente estava disposto a tentar superar tudo, finalmente eu também queria salvar nosso casamento.