Os dias seguiram, e aquela pequena angústia que repousava sobre o meu peito foi, aos poucos, crescendo. Naquele momento, eu não via motivos, mas a verdade é que eu estava me negligenciando há muito tempo. Eu sabia disso, mesmo sem encarar de frente. Eu não estava fazendo acompanhamento psicológico, muito menos psiquiátrico. A medicação, que fazia parte da minha rotina, simplesmente deixou de existir aos poucos. Não foi planejado; as coisas foram acontecendo e eu fui deixando.
Meu corpo também sentia essa ausência de cuidado. Eu não estava me exercitando — não da forma que eu sabia que precisava para ficar bem, não com a disciplina que eu acho tão prazerosa. Eu tinha consciência do que funcionava para mim, mas, ainda assim, ignorava. Eu só trabalhava e pensava no nascimento do bebê. Tudo girava em torno disso, como se fosse o suficiente para me manter inteira, quando, na verdade, eu estava me fragmentando aos poucos.
E o mais estranho era que, mesmo com tudo indo bem, existia dentro de mim uma inquietação constante. Uma necessidade quase urgente de voltar antes do tempo para a filial, de me aproximar ainda mais do projeto, de estar presente em cada detalhe, como se a minha ausência pudesse colocar tudo a perder. Isso ia completamente contra o roteiro que eu e Juh tínhamos preparado para a gestação, contra tudo o que a gente tinha combinado com tanto cuidado.
A sensação não passava.
Era como se eu estivesse à beira de um fracasso iminente, mesmo sem ter nenhum sinal concreto de que algo daria errado. Pelo contrário, tudo apontava que estava dando certo. Porém, dentro de mim, essa certeza simplesmente não existia.
Foram dias péssimos, daqueles que não precisam de grandes acontecimentos para serem ruins. E, no meio disso tudo, a única coisa que realmente me deixava bem era estar com Júlia. Nossos momentos na cama, fazendo nada ou aprontando tudo, eram o meu refúgio. Ela sabia que eu não estava bem, mesmo quando eu não dizia, e fazia de tudo para me animar. O jeito que ela cuidava de mim, o carinho constante, os toques, a atenção em cada detalhe… foi descomunal. Eu a via tentando por nós duas. Juh foi o pilar que me sustentou.
As aulas já tinham começado e, mais ou menos no terceiro dia, fui buscá-los. Diferente do que já estava se tornando habitual, todos entraram no carro em silêncio. Não me parecia um silêncio confortável, nem aquele cansaço típico de fim de turno… estava estranho. Juh entrou com um sorriso meio torto, como se estivesse tentando disfarçar alguma coisa que eu ainda não sabia o que era e, vez ou outra, deixava escapar uma risadinha fora de hora. Milena e Kaique, por outro lado, pareciam tensos demais para quem geralmente voltava contando mil coisas ao mesmo tempo.
Aquilo me acendeu um alerta na hora.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Não! — Mih exclamou.
A resposta veio rápida demais, alta demais e robotizada demais.
Olhei pelo retrovisor, tentando capturar alguma reação mais espontânea; contudo, os dois evitaram meu olhar. Juh, do meu lado, mordeu o canto da boca, segurando outra risada, o que só deixava tudo ainda mais suspeito.
— Ué, vocês estão voltando tão empolgados e hoje estão todos calados… não foi legal hoje? — questionei.
— Eu fiz um gol hoje, mãe — Kaká me informou.
Aquilo quebrou um pouco da tensão, mas não completamente. Ainda assim, entrei no assunto, tentando puxar o fio dali.
— Como? — quis saber.
— De cabeça!!!! — ele exclamou.
O jeito que ele falou, finalmente animado, me arrancou um sorriso automático. Dei uma risadinha enquanto ele começava a explicar o lance com empolgação, usando as mãos, se inclinando no banco, reencenando cada detalhe como se ainda estivesse em quadra.
Mas, ainda assim… tinha alguma coisa ali. Eu sentia, sobretudo quando desviava o olhar para Milena.
Chegando em casa, decidi andar com Brad pelo condomínio. Eu vinha ensaiando, há dias, a tentativa de voltar a correr, de retomar pelo menos um pouco daquilo que eu sabia que me fazia bem, e levá-lo junto parecia um bom começo — quase como um primeiro passo sem tanta cobrança.
Eu ainda estava pegando a guia quando minha gatinha apareceu na porta.
— Amor, não demora muito, porque Mih quer conversar contigo depois — Júlia me disse, antes de sair.
Ela se aproximou e cruzou os braços na minha nuca, me puxando de leve. O olhar dela era de “nem me pergunta, porque eu não vou dizer”. Não parecia preocupação exatamente, mas eu também não conseguia decifrar do que se tratava. Era o tipo de expressão que ela fazia quando sabia de algo e estava se segurando para não contar. E, claramente, Juh se divertia com isso.
— Ela aprontou alguma coisa, foi? — tentei.
— Não… quer dizer… ah, deixa ela mesma contar — Juh respondeu.
Estreitei os olhos, analisando aquele teatrinho mal disfarçado, balancei a cabeça negativamente e soltei um suspiro meio desacreditado.
— Brad, eu acho que sua mãe está passando pano, e você? — perguntei, olhando para o nosso dog.
Ele me encarou com aquela cara de sempre, completamente alheio a qualquer tipo de tensão emocional humana, só interessado no passeio que claramente estava prestes a acontecer.
Júlia riu e me deu um beijinho rápido, como se aquilo encerrasse qualquer tentativa minha de investigação… e, de certa forma, encerrava mesmo.
Brad curtiu o percurso que fizemos e eu decidi que me forçaria a correr com ele na orla todos os dias.
Para mim, era estranho esse pensamento de me forçar a correr, justamente porque sempre foi algo que eu amei fazer. Mas, já que me fazia bem e, ainda assim, eu não estava conseguindo voltar no automático, começar como uma obrigação — ou até como uma boa ação para o meu cachorro cheio de energia — pareceu uma boa ideia.
Kaká foi colocar ração para Brad quando chegamos, e eu fui direto para o quarto tomar um banho. Dei de cara com Milena e Júlia conversando baixinho na cama. A conversa era tão sigilosa que, quando entrei, as duas se assustaram e acabaram rindo.
— Huuum… cheias de segredinhos… — comentei.
— Vai tomar banho e volta aqui — Juh respondeu, rindo.
E foi o que eu fiz. Nem demorei muito, porque todo aquele suspense estava começando a me incomodar.
Deitei de lado na cama, de frente para as duas. Milena estava claramente nervosa e envergonhada, com a cabeça apoiada no peito de Júlia. Ela se virou de um jeito que eu só conseguia ver metade do rosto, tentando se esconder de qualquer maneira em Juh.
— Assim você vai se fundir com sua mamãe — brinquei para aliviar, e só então ela percebeu.
— Mãe… — Mih começou, em lamento, mas não prosseguiu.
— O que foi, amor? — perguntei, chegando mais pertinho.
— Não fica brava comigo, por favor — ela pediu.
— Pode falar, filha… — Juh a incentivou, fazendo carinho em seu cabelo.
— Eu… hoje eu beijei na boca — ela falou de vez e fechou os olhos rapidamente.
No mesmo instante, me apoiei no colchão e sentei, rápido, como se o meu corpo tivesse reagido antes mesmo da minha cabeça conseguir processar o que tinha acabado de ouvir.
Piscar algumas vezes não foi suficiente. Eu só conseguia encarar as duas, tentando encaixar aquela frase em algum lugar que fizesse sentido…
Não era possível que eu tinha entendido direito.
— Você… o quê? — perguntei, mais devagar.
Meu cérebro parecia ter travado. Era como se alguém tivesse embaralhado todas as informações ali dentro e eu estivesse tentando, desesperadamente, reorganizar.
Milena ainda estava escondida no peito de Juh, imóvel, como se qualquer movimento pudesse piorar a situação. Júlia estava com uma expressão de divertimento contido, claramente segurando a própria reação.
E eu… eu só conseguia olhar para elas, porque, na minha cabeça, Milena ainda era muito nova para aquele tipo de frase existir.
— Acho que não entendi direito — confessei, passando a mão no rosto, tentando ganhar alguns segundos. — Você pode repetir, devagarzinho, só para eu ter certeza de que o meu cérebro não inventou coisa?
Mas, no fundo, eu sabia… sabia exatamente o que ela tinha dito, e era justamente isso que estava me deixando completamente sem reação.
— Porque eu levei você para o colégio e você volta dizendo que… beijou na boca? — continuei.
— Amor, calma… deixa ela terminar de contar… — Juh pediu.
— Tá bom, tá bom… — confirmei e sentei na cadeira da penteadeira, de frente para as duas.
— Beijei uma menina — Mih completou, e não conseguiu evitar um sorrisinho.
— Ah… uma menina? — perguntei, tentando assimilar aquele tanto de informação.
— Mamãe, me ajuda — ela pediu para Júlia.
— Você quer que eu conte o que eu vi? — Juh perguntou, e ela confirmou, ainda nervosa.
Achei melhor sentar próximo delas novamente.
— Vem cá, fica aqui no nosso meio — pedi, e ela veio, mordendo o dedo indicador.
— Não quer contar? Prefere mesmo que eu conte? — Juh se certificou, e ela novamente confirmou com a cabeça.
— Você não está com medo de mim, não é? — perguntei.
— Não, estou nervosa e com vergonha — ela disse, entrando nos meus braços.
— Vamos conversar, porque eu quero entender — falei e dei um beijo no topo da cabeça dela.
— Eu a vi entrando no banheiro e pensei em dar um sustinho quando ela saísse… mas Mih não saiu, mesmo depois de um bom tempo. Resolvi conferir se estava tudo bem e a vi dando uns beijinhos, tão distraída que nem me viu chegar. Pedi para a… garota… ir para a sala de aula e chamei Milena para conversar… — Júlia contou.
— Fugindo da aula, filha? — perguntei.
— Oh, mãe… eu… a gente não tem outro lugar… — ela tentou explicar.
Respirei fundo. Definitivamente, não esperava ter aquela conversa naquele dia.
— No banheiro da escola… — falei, reflexiva. — Seu primeiro beijo foi no banheiro da escola…
— Não… foi mais cedo, na biblioteca, só que eu quis mais um — Milena deixou escapar, de um jeito muito empolgado.
— Meu Deus do céu… você está indo para o colégio estudar ou beijar na boca? — questionei.
— Mih, conta quem é a menina — Juh pediu.
— Eu conheço, é? — quis saber.
— É a Lalá — Milena me informou.
Não parecia um nome estranho, mas eu não me recordava.
— Não sei quem é — disse, tentando puxar na memória.
— A minha amiga que não pode vir aqui — Milena continuou.
E, em um estalo, eu lembrei.
— A menina que não pode vir aqui porque a família é homofóbica?????? — questionei, e Juh e Mih começaram a rir da minha reação.
— Sim! — Milena exclamou.
— Imagine a minha surpresa em dobro vendo isso — Júlia comentou.
— Eu preciso de um tempo para absorver tudo isso… vocês deveriam ter me preparado antes, é muita coisa de uma vez só — falei, andando de um lado para o outro.
— Amor… você sabia que isso ia acontecer uma hora ou outra — Juh disse.
— Só não esperava que fosse hoje — respondi no automático.
— Mãe, desculpa… — Mih pediu, com a voz trêmula.
Parei de andar aos poucos, como se o meu corpo estivesse tentando me obrigar a desacelerar, mas a minha cabeça não acompanhava. Era informação demais, sensação demais, tudo acontecendo ao mesmo tempo e, no meio de tudo aquilo, uma consciência muito incômoda começou a se formar: eu não estava bem. E talvez fosse justamente por isso que aquilo estivesse me atingindo daquele jeito. Não era só sobre o beijo de Milena, não era só sobre ela estar crescendo, vivendo coisas novas, atravessando fases que eu sempre soube que chegariam em algum momento. Era sobre o fato de isso estar acontecendo naquele dia, exatamente naquele dia, quando eu me sentia instável, vivendo uma onda de negligência comigo mesma, tentando me equilibrar em um lugar onde eu já não tinha tanta firmeza.
Eu vinha de dias ruins, de uma ansiedade que só aumentava, de uma sensação constante de que eu estava falhando em algum lugar, mesmo sem saber exatamente onde, e, de repente, a vida me colocava diante de uma situação que exigia presença, escuta… e eu só conseguia pensar que talvez eu não estivesse inteira o suficiente para isso.
Levei a mão até a nuca, apertando de leve, sentindo a tensão acumulada. Milena… minha menininha… beijando alguém… crescendo, se descobrindo. E, por mais natural que fosse, por mais esperado que um dia fosse acontecer, ainda assim me pegava despreparada, porque eu não tinha percebido que esse “um dia” já tinha chegado.
Fechei os olhos por um instante. Aquilo me atravessava de um jeito muito específico. Eu queria proteger, orientar, estar por perto e, ao mesmo tempo, sabia que não dava para controlar tudo — até porque isso nem é possível, nem necessário.
E então vinha a outra camada: a Lalá. A menina que não podia ir à nossa casa porque tinha uma família homofóbica.
Soltei o ar devagar, sentindo um peso diferente se instalar no peito, porque ali deixava de ser só uma descoberta adolescente e passava a ser sobre o mundo real — sobre a forma como o mundo reage, sobre o tipo de coisa que machuca de verdade. Eu sabia que a reação daquela família não seria boa. Não era nem um palpite, era quase uma certeza baseada no pouco que a gente já sabia. E isso abria uma série de preocupações que iam muito além de um beijo escondido no colégio.
Até onde aquilo podia ir? O que poderia acontecer se descobrissem? Como essa menina seria tratada? Como a Milena seria afetada?
Eu não tinha controle sobre aquilo, e isso me angustiava profundamente, porque, por mais que eu quisesse colocar a minha filha dentro de uma bolha segura, o mundo lá fora existia — e ele nem sempre é gentil com quem está só tentando ser quem é.
Passei a mão no rosto outra vez, respirando fundo, tentando organizar minimamente aquele turbilhão. E, no meio de tudo aquilo, uma coisa começou a se firmar com muita clareza dentro de mim: eu não queria que aquilo fosse uma memória ruim para a Milena. Não queria que o primeiro beijo dela, que já vinha carregado de nervosismo, descoberta e coragem, fosse marcado por medo, vergonha ou rejeição — muito menos dentro da própria casa.
Porque, se lá fora o mundo podia ser duro, sob o nosso teto não existia essa possibilidade. Aqui seria o lugar seguro dela.
Mesmo que eu estivesse bagunçada por dentro, mesmo que aquele não fosse o melhor momento para mim, mesmo que eu ainda estivesse tentando me reencontrar no meio do meu próprio caos… ainda assim, meus filhos são a prioridade.
— Então quer dizer que a senhorita gosta de meninas? — perguntei, rindo, e fui até ela.
Milena abriu um sorrisão e me agarrou quando eu fui para cima dela, enchendo-a de beijinhos.
— Como foi que vocês se aproximaram dessa maneira? — perguntei, voltando a deitar ao lado dela.
— A gente estava sempre conversando no WhatsApp e, quando não conseguia, eu sentia muita, muita, muita falta mesmo. Começamos a fazer videochamada e a gente ia brincando, falando do quanto nós nos gostamos e como estávamos ansiosas para o retorno das aulas — Mih foi explicando.
— Ahhhhh, por isso toda aquela pressa e aquele escândalo quando eu propus esperar que passasse a semana de adaptação… — comentei, ligando um fato ao outro, e ela riu.
— Não, eu estava com saudade de todos os meus colegas — Milena respondeu, ainda em meio à risada.
— Seeeei — falei, ironicamente.
— Ontem a gente quase não se desgrudou de um abraço na hora de ir embora e, hoje, nós duas estávamos muito nervosas… falei que queria dizer algo para ela na biblioteca e, quando confessei que estava gostando dela de outro jeito, a Lalá segurou minha mão e disse que ela também estava. Não tinha mais nada para falar — quer dizer, eu nem estava conseguindo dizer mais nada —, aí a gente se beijou — Mih contou.
— Põe uma câmera lá, amor — falei para Juh, que sorria ouvindo a história.
— Já tem — Júlia respondeu.
— Mas foi no ponto cego, todo mundo usa — Milena falou, com naturalidade.
— Meu Deus… — soltei, surpresa.
— Mas é o que já conversamos. O colégio não é lugar para isso. O único problema foi o lugar que vocês escolheram — Júlia comentou.
— Onde mais a gente ia se ver? A mãe dela nem deixou ela entrar para o jiu-jitsu… — Milena comentou, tristonha.
— No colégio não vai ser, filha — falei.
— Aquela conversa de mais meninas no jiu-jitsu já foi por estar sentindo interesse nela? — Júlia questionou.
Mih ficou em silêncio por um instante.
— Eu desejava que ela participasse, porém também queria minhas outras amigas — ela concluiu.
Eu queria muito aconselhar sobre diversas coisas, mas achei melhor deixar para depois. Não queria tornar o momento pesado. Queria que ela tivesse uma memória boa.
— A gente sempre vai estar com você, tá bom, amor? — falei, e nos sentamos na cama.
Ela voou nos meus braços, vibrando de felicidade, e Juh se juntou a nós. Ficamos trocando carinho por um bom tempo.
— Você gosta muito dela? — perguntei.
— Gosto MUITO — Milena enfatizou.
— Então daremos um jeito de, da maneira certa, esse lance… fluir… — falei.
— É, Mih… da maneira certa. Nada de colégio! Não quero que haja uma próxima vez, porque, senão, eu vou precisar agir, e não vai ser de uma maneira satisfatória para vocês — Júlia complementou.
— Vai ter que chamar os pais dela — Milena disse, triste.
— E sem esperteza de ponto cego — falei.
— Está bem… — Milena concordou. — Agora deixa eu atualizar Kaká!!!!
— Que já sabia de tudo, imagino — disse.
— Desde sempre — Milena respondeu, rindo, e saiu do quarto.
— Diz para ele que foi um surto médio, contudo muito engraçado de observar — Juh gritou.
— Vocês estavam palpitando sobre a minha reação??? — questionei, em tom bem-humorado.
— Achei que seria pior — Júlia falou, se aproximando de mim até encaixar nossos corpos.
— Eu também! — Mih exclamou, lá de fora.
— Mas foi engraçado — Juh continuou, toda convencida, e me beijou.
— Ah, mãe… é nesse final de semana que o papai vem me buscar, não é? Me ajuda a contar para ele? — ela pediu.
— Ajudo, amor — confirmei.
Quando ela saiu, fechei os olhos e suspirei. Ainda tinha essa parte: contar para o pai de Milena.
— Ele não vai gostar de saber — Juh falou, ao perceber minha reação.
— Não… acredito que vá me culpar, e espero que não passe disso. Não quero que a Mih se machuque… — respondi.
— Que chato… — Júlia lamentou.
— Trate de reportar que essa biblioteca precisa de mais câmeras — brinquei, para quebrar o clima.
— Amor… ela é igualzinha a você… — Juh zoou.
— Ah, não, amor… não é, não fala isso — falei, e ela começou a rir.
— Se fosse você no meu lugar… aquele colégio ia ficar pequeno — Júlia continuou.
— Eu ia desmaiar vendo minha filhinha, desse tamanhozinho, beijando na boca… que saco, viu?! — desabafei.
— Até porque você nunca beijou ninguém na escola, não foi, amor? — ela questionou, irônica.
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra — respondi, rindo.
Enquanto eu seguia deitada, Juh sentou em cima de mim, apoiando as costas na minha perna.
— Tirando essa novidade de hoje, como você está? — Júlia perguntou.
— Andar com Brad me fez bem. Vou tentar correr com ele na praia — comentei.
— Faz isso… você ama correr, não sei por que parou — Juh falou.
— Também não sei… — respondi, um pouco triste por realmente não entender o que estava acontecendo comigo.
— Tenho algo que vai te animar — Juh disse.
— É? — perguntei, apertando as coxas dela com firmeza.
— Não é issssso! — Júlia exclamou, rindo.
Ela pediu que eu fechasse os olhos, e assim eu fiz. Senti ela colocando algo macio em minhas mãos, bem peludinho, e imaginei que fosse algo para Dom.
— Pode abrir — ela disse.
Era um ursinho de pelúcia e, quando Juh apertou o pezinho dele, ouvimos as batidas do coração do nosso neném.
— Aaaaaah… que coisa mais linda, gatinha… igual ao de Maya — falei, e sentei para dar um beijinho nela.
— Sim, já era para ter te entregado, mas só tive tempo de ir buscar hoje — ela disse, e me beijou.
Fomos ao quarto do nosso filho e posicionamos os dois ursinhos lado a lado em uma prateleira. Para estar tudo pronto, faltavam apenas duas coisas: a pintura de Milena na parede do berço e lavar as roupinhas. Ainda assim, o ambiente já estava lindo, com tudo em seus devidos lugares, à espera do nosso caçula.
— Quando chega o molde do nome dele? — perguntei.
— Amanhã — Juh me informou.
— Vixe, então amanhã mesmo Milena começa — falei, rindo.
E foi exatamente assim. À noite, medi com uma trena para que o nome ficasse centralizado. Mih sentou no degrau mais alto da escada e passou quatro horas escrevendo uma palavrinha de três letras à mão livre, pois achou o molde muito grosseiro para o que pretendia e o usou apenas para ter noção do tamanho. Ela se atentou, com delicadeza, aos mínimos detalhes, e o resultado final ficou uma verdadeira obra de arte.
