Nova Orleans, 12 de abril de 1772
Meu caro Philip,
Peço-te perdão pelo silêncio prolongado. Dois anos — escrevo o número e ele me soa irreal. Não foi desleixo, nem esquecimento. Foi medo. Medo de que qualquer palavra minha, ainda que escrita com afeto, servisse de fio para que outro te alcançasse. Hoje, contudo, escrevo porque posso. E porque, talvez pela primeira vez desde que nos conhecemos, nada mais me resta a proteger senão a verdade.
Recebi tua última carta com notícia do segundo filho que esperas. Alegrou-me saber que algo em ti encontrou continuidade. Confesso, não sem vergonha, que senti também uma espécie de dor seca — como quem observa de longe uma vida que poderia ter sido outra. Ainda assim, desejo-te bem. Se ainda o quiseres, penso em visitar-te em breve. Não sei quando. Digo-o assim porque aprendi que o tempo, comigo, raramente cumpre o que promete.
Preciso confessar-te algo que jamais ousei dizer nem escrever: matei meu pai. Não o digo para chocar-te, nem para buscar absolvição. Ele morreu em meus braços, numa noite em que as palavras — como sempre — fizeram mais estrago que os gestos. Mas não o matei num ímpeto. Houve método — e houve palavras.
Descobri que ele havia decidido agir contra mim. Não em fúria, mas com aquela frieza que sempre lhe foi própria. Planejava expor-me, em levar meu nome e minha casa ao escárnio público, em arrancar-me o pouco de dignidade que ainda julgava me pertencer. Chamou-me de erro. Disse, uma vez mais, que eu deveria ter morrido no parto. Disse que por onde passei nada restou ileso.
Mais tarde, quando o silêncio da noite caiu, fui à mansão Devante. Crowley se encarregou de conter o empregado do meu pai fazendo-o cair em sono profundo. Sentei-me à beira da cama enquanto ele dormia, observei o peito subir com dificuldade, como se o próprio corpo já ensaiasse o abandono. Antes de pressionar o travesseiro contra seu rosto, inclinei-me e repeti-lhe, com a calma que ele nunca me concedera, aquilo que me disse pela primeira vez na biblioteca, quando eu ainda acreditava que sua aprovação fosse possível: “Era melhor que tivesses morrido no parto.” Disse-lhe que aquelas palavras nunca haviam me deixado, que haviam crescido comigo como uma doença silenciosa, e que agora voltavam para casa. Quando acordou em sobressalto e tentou afastar minhas mãos, murmurei que ele falhara em tudo aquilo que mais prezara: na autoridade, na linhagem, na ideia de homem que tentou impor-me à força. Disse-lhe que o filho que chamara de fraco, de erro, de vergonha, de degenerado, fora o único capaz de sustentar o nome Devante quando o dele apodrecia na própria saliva. Vi seus lábios se moverem; mesmo abafada, reconheci a tentativa de repetir um insulto — como se ainda tivesse esse direito. Apertei mais. Disse-lhe então que, se eu deveria ter morrido ao nascer, ele morreria agora, pelas minhas mãos, sem escândalo, sem testemunhas, como convinha a um homem que sempre temera o olhar alheio. Mantive a pressão até que o corpo desistisse por completo. Depois, permaneci ali, respirando o ar que já não lhe pertencia, certo apenas de uma coisa: aquela frase, enfim, estava encerrada. No momento, Crowley estava presente. Não tocou em mim. Não tocou nele. Limitou-se a observar, como quem assiste ao desfecho inevitável de uma peça já ensaiada.
No dia seguinte, para tornar pública sua morte, declarei-a como consequência tardia do derrame — falência do fôlego, disseram. A cidade aceitou. Sempre aceita quando a versão convém. E assim, Philip, herdei tudo, menos a paz que achei que teria com a morte dele.
Após isso, o canavial atingiu seu auge. As terras que foram dos Shaw, unidas às minhas, produzem como jamais se viu. O nome Devante circula em salões, contratos, jornais. Sou recebido como exemplo de perseverança e engenho. Venci todas as disputas. E perdi-me por inteiro no processo. Não sobrou em mim ninguém capaz de celebrar.
Crowley permanece ao meu lado. Mais do que isso: governa-me. Escolhe meus horários, minhas aparições, meus silêncios. Nosso vínculo tornou-se ainda mais intenso — o desejo, mais exigente; o prazer, mais fundo; a posse, absoluta. Há noites em que não distingo onde termina minha vontade e começa a dele. Sou tomado, esvaziado, recomposto à imagem que lhe convém. Um cárcere sem grades, feito apenas de corpo, sangue e promessas sussurradas. Para você compreender o mínimo, ele passou a me possuir em locais públicos, nos becos das ruas, atrás das árvores, e nos salões durante as festas de gala que frequentamos.
Tentei morrer, Philip. Mais de uma vez. Não te direi como. Basta saber que nunca fui até o fim. Sempre houve uma interrupção. Crowley surgia — calmo, firme — retirava-me do abismo e, em seguida, tomava-me como quem reafirma propriedade. “A morte não te pertence”, dizia. E eu compreendia que nem o fim me era permitido.
Mas então, soube, por boca alheia, aquilo que me restava ignorar: Guillot teve um filho meu. Saiu da casa de tua família já grávida. O menino foi afastado. Levado. O nome de Crowley surgiu, inevitável, nesse rastro. Confrontei-o. Ele não negou. Disse apenas que foi para meu bem não saber. Não disse se o menino vive. Sorriu — e nesse sorriso compreendi que escolhera por mim uma última vez. Então, pela primeira vez, senti ódio por ele, pelo que fizera comigo durante todo aquele tempo, e aí algo se rompeu dentro de mim naquele momento.
Não soube nomear o que era — apenas senti como se uma névoa densa tivesse rareado. Nos dias que se seguiram, notei pequenas falhas. Crowley perguntava-me sobre acontecimentos que já deveria conhecer. Comentava decisões minhas como se as estivesse ouvindo pela primeira vez. Houve uma tarde em que mencionou um encontro de negócios que eu tivera pela manhã — mas descreveu-o de modo incompleto, ignorando detalhes que, antes, ele teria saboreado com perverso interesse. Não disse nada. Limitei-me a observá-lo. Apesar disso, ele disfarçava bem, agindo como se nada tivesse acontecendo. E eu seguia da mesma forma, entregando-me a ele, satisfazendo seus desejos carnais.
A influência dele não desapareceu de imediato; oscilava. Às vezes eu ainda sentia o peso em minha mente, como dedos pressionando por dentro. Outras vezes — breves, luminosas — havia silêncio. Foi numa dessas horas, numa tarde abafada, que compreendi: ele já não estava inteiro dentro de mim. O laço se rompera. Não enfraquecera — rompera. A decisão veio sem planejamento. Não houve estratégia refinada, apenas um impulso claro como lâmina: matá-lo enquanto dormia.
Ele repousava no quarto principal da casa dos Shaw onde vivíamos. Atrás de grossas cortinas sempre cerradas, repousava o caixão que ele utilizava com ironia quase aristocrática, esperando o cair da noite para erguer-se.
Não esperei. Agi rapidamente. Quebrei uma das cadeiras da cozinha e, com esforço apressado, afiei uma das pernas com uma faca até obter uma ponta irregular, mas firme. Enchi um frasco com óleo de lamparina. Tirei os sapatos. A madeira do corredor estava fria sob meus pés descalços. Cada passo era medido não por coragem, mas por necessidade. O quarto exalava aquele odor denso e adocicado que sempre o precedia. As cortinas impediam qualquer resquício de luz. O caixão repousava ao centro, fechado.
Aproximei-me primeiro com o óleo. Derramei-o sobre a tampa escura, deixando que escorresse pelas frestas, pelas dobradiças, pelo chão ao redor. Minhas mãos tremiam, mas não recuei. Na outra mão, tinha uma vela — pequena, comum, quase ridícula diante do que pretendia — e, por um segundo, hesitei. Comecei a sentir o peso na minha mente, seus dedos adentrando e segurando minha alma. Ele despertava de seu sono vampírico.
Porém, ainda em controle da minha própria vontade, inclinei a chama. O fogo encontrou o óleo com voracidade imediata. As labaredas subiram rápidas, lambendo a madeira envernizada. Houve um impacto violento por dentro — o som de punhos contra a tampa — e então o estalo da madeira cedendo.
Crowley emergiu não como um homem desperto, mas como algo arrancado da própria noite. Os olhos estavam abertos antes mesmo de o corpo se erguer por completo. A expressão não era de surpresa — era de pura fúria. Ele me lançou contra a parede antes que eu pudesse reagir. O ar abandonou meus pulmões. Senti seus dedos fecharem-se em meu pescoço com força inumana, levantando-me do chão. Seus olhos vermelhos encontraram os meus numa tentativa de me subjugar novamente. Enquanto isso, o fogo crescia ao redor, refletindo-se na pele dele como se a luz lhe fosse ofensiva.
“Você ousou”, foi o que pareceu dizer — embora talvez não tenha usado palavras.
Minha visão começava a escurecer. Ele apertou mais. Ouvi madeira ruindo, senti o calor avançando e meu corpo perdendo as forças. Tateei o bolso do casaco. A estaca estava ali, áspera, improvisada. Num último movimento — mais instinto que cálculo — cravei a estaca com toda a força que me restava entre suas costelas. O efeito foi imediato.
O corpo dele enrijeceu, os olhos se dilataram não de dor, mas de incredulidade. Sua pele ganhava uma cor acinzentada, como de um corpo em decomposição, com veias negras marcando-a. Ele tentou arrancar a estaca, mas o fogo já o envolvia. Um som grave escapou-lhe da garganta — algo que não reconheci como humano. Mas então, as chamas encontraram o tecido de suas roupas, os cabelos, a madeira do caixão destruído.
Caí ao chão quando suas mãos perderam força. Ele caiu de joelhos enquanto seu corpo cadavérico era tomado pelas chamas. Arrastei-me para fora do quarto enquanto o incêndio tomava a casa inteira. Um servo veio ao meu encontro e me ajudou a sair de lá.
Do lado de fora, sentado na terra, esperei. Não senti sua mente tocar a minha. Nenhuma palavra. Nenhum sussurro. Apenas o crepitar da madeira queimando — e, pela primeira vez desde que o conhecera, um silêncio absoluto.
Quando os vizinhos vieram, atraídos pela fumaça que se erguia acima das árvores, encontrei em mim uma serenidade que jamais experimentara. Disse-lhes que eu estava na casa apenas com os empregados, e que o incêndio fora consequência de minha própria imprudência — uma lamparina deixada acesa no quarto, próxima demais das cortinas envelhecidas. Falei da madeira seca, do calor acumulado nos últimos dias, da rapidez com que as chamas se espalharam antes que eu pudesse contê-las. Assumi o erro com a sobriedade de quem já se considera punido pela perda, e creio que essa disposição para a culpa bastou para encerrar qualquer curiosidade. Após as chamas serem contidas com a ajuda dos vizinhos e de eu recuperar minhas forças, fui levado pelo servo para a mansão Devante, onde agora habito novamente. Dormi como um bebê com tranquilidade que há muito não sentia.
Nos primeiros minutos do amanhecer, permaneci longo tempo à beira do canavial, observando como a luz fazia cintilar as folhas novas, indiferentes a tudo o que fora feito em seu nome. Pensei em minha mãe a quem não conheci, em Guillot, nos Shaw, em meu pai — nomes que agora só existem como peso — e senti uma tristeza funda, mas estranhamente limpa. Mais tarde fui até o lugar onde estivera com Guillot pela última vez e ali chorei sem contenção, como se o corpo finalmente tivesse permissão para ceder ao luto. Ainda assim, naquela noite em que acreditei estar só, sonhei: eu estava em um quarto escuro, imóvel, à espera de que alguém dissesse um nome que eu sentia prestes a emergir de dentro de mim; acordei no instante anterior à palavra, com o coração em disparada, sem saber se aquilo era o último resíduo do cativeiro. Porém, a resposta se revelou com o passar do tempo, no fato de que eu não mais voltei a sonhar algo assim e não mais senti suas garras na minha mente.
No decorrer dos dias, descobri indícios de que o meu filho com Guillot pode estar vivo. Não sei onde. Não sei em que condições. Mas sei que preciso procurá-lo. Não como redenção — já aprendi que há coisas que não se lavam —, mas como encerramento, ou como oportunidade de algo novo. O que eu tinha não era mais vida. E talvez, ao seguir esse rastro, eu consiga ao menos sair do lugar onde apodreci.
Resta-me cumprir os dias que me forem concedidos — não como homem, mas como coisa adiada, suspensa entre o que fui e o que jamais me será permitido voltar a ser.
Se ainda me quiseres receber, escreve-me. Se não, entenderei.
Teu sempre,
Louis Marshal Devante
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Nota do Tradutor
Concluída a transcrição destas cartas, sinto-me obrigado a admitir que meu envolvimento com o material ultrapassou o âmbito estritamente acadêmico. O que começou como um exercício de ordenação e anotação histórica transformou-se, aos poucos, numa experiência de inquietação contínua, difícil de justificar apenas pela natureza dos fatos narrados.
Há nas palavras de Louis Devante uma progressão lógica que resiste à hipótese de delírio puro. Seus relatos não se desorganizam com o tempo; ao contrário, tornam-se mais precisos, mais contidos, quase resignados. Isso, por si só, já seria perturbador. Some-se a isso o fato — documentado em registros paralelos — de que Philip, o destinatário das cartas, faleceu pouco tempo depois do início do envolvimento de Devante com o indivíduo chamado Crowley. As causas de sua morte permanecem incertas.
Desde que finalizei a leitura integral do conjunto, passei a ser acometido por um sonho recorrente. Nele, estou sempre em um aposento escuro, cuja arquitetura não reconheço, enquanto alguém se aproxima para dizer algo essencial. Sei, com uma convicção estranha, que um nome será pronunciado — um único nome — e que compreendê-lo encerraria o sentido de tudo o que li. Contudo, invariavelmente, acordo no instante anterior à palavra ser dita, com a sensação incômoda de que algo fora interrompido.
Não afirmo que tais impressões tenham valor probatório. Registro-as apenas porque surgiram após o contato prolongado com estas cartas e porque cessam quando me afasto delas por alguns dias, retornando assim que retomo a leitura. Há, ainda, o detalhe de que certos nomes — especialmente aquele que mais se repete — tornaram-se difíceis de articular em voz alta, como se pronunciá-los fosse um ato de convite.
Quanto ao destino final de Louis Devante, os registros, tanto orais quanto documentais, sugerem que fora encontrado morto nas ruínas de uma casa na floresta, no mesmo local onde, anos antes, descobriu-se o corpo da srta. Guillot. Não se sabe as causas da sua morte, mas algo é comum nos relatos coletados: não havia em seu corpo nenhum sinal físico de assassinato e seu semblante era de alguém sereno, quase sorrindo. Além disso, e ainda mais intrigante, na sua mão havia um boneco de pano. Coincidentemente — ou não —, no mesmo dia, a mansão Devante foi consumida por um incêndio de grandes proporções.
Se Louis encontrou liberdade, como escreveu, não ouso afirmar. Limito-me a dizer que, ao concluir este trabalho, tive a sensação persistente de que algo foi devidamente encerrado. Desde então, não mais tive aquele sonho.
Que o leitor julgue por si.
Anselmo Vieira de Castro