A cozinha amanheceu banhada por uma luz amarela e densa, que parecia destacar cada detalhe daquela nova realidade doméstica. À mesa, o cenário era de um naturalismo que desafiava qualquer convenção: minha mulher e minha filha, praticamente nuas, em trajes mínimos, manuseavam xícaras de café e torradas com a mesma simplicidade de quem veste um vestido de seda. A pele jovem da menina, dourada pelo sol da praia, contrastava com a maturidade plena da mãe, e eu, sentado entre elas, sentia que o ar estava impregnado de uma liberdade que já não tinha mais volta.
Minha filha, com um sorriso de canto de boca enquanto passava geleia no pão, quebrou o silêncio:
— Pelo barulho que vinha do quarto de vocês ontem à noite, parece que a noite foi boa.
Minha mulher soltou uma risadinha cúmplice, encontrando meus olhos por cima da borda da xícara.
— Digamos que a inspiração estava em alta, querida — respondeu a mãe, com uma naturalidade que me fez engasgar levemente com o café.
Rimos os três, um riso leve, sem as arestas do segredo. Logo, o silêncio voltou, mas agora era o silêncio moderno: cada um absorto na tela do seu celular, navegando por mundos distantes enquanto a carne nua se roçava sob a mesa.
— Então — comecei, limpando a garganta e voltando à realidade prática —, o pessoal lá da firma está combinando um churrasco para o fim de semana. Estive pensando... podíamos fazer aqui em casa.
Minha mulher levantou os olhos, interessada.
— Acho ótimo. A casa está precisando de um pouco de movimento, gente nova.
— Tudo bem — retruquei, assumindo meu tom mais sério, embora soubesse que ele já não impunha tanto respeito —, mas com uma condição inegociável: no dia do churrasco, as duas terão que ter o mínimo de recato.
As duas se entreolharam, e o brilho de travessura que cruzou o ar foi quase elétrico.
— É por uma questão de sobrevivência — insisti. — Não quero ter que chamar uma ambulância para socorrer algum diretor com princípio de infarto.
— Fique tranquilo, meu amor — disse minha mulher, passando a mão pela própria coxa nua de forma provocante. — Vamos ser o exemplo da castidade. Pelo menos por fora.
No sábado, a casa foi invadida pelo aroma de carvão aceso e pelo som de caixas de isopor sendo abertas. Meus seis colegas de trabalho chegaram com o arsenal completo: fardos de cerveja trincando, peças de picanha, linguiças artesanais e aquele espírito de confraternização masculina que precede qualquer evento em torno de uma brasa. Assumi meu posto na churrasqueira, o avental sendo minha armadura, enquanto o papo sobre metas e planilhas começava a se dissolver no álcool.
Foi quando elas apareceram.
Minha mulher e minha filha surgiram na varanda como duas visões de um verão eterno. Elas estavam vestidas, mas era uma "vestimenta" que carregava o selo de provocação que se tornara a marca da casa. Ambas usavam vestidos de verão curtíssimos, de tecido tão fino e solto que flutuavam à menor brisa. Pela forma como o pano desenhava os seios e as curvas conforme elas se moviam, tive a certeza imediata, quase um pânico interno: por baixo daqueles florais levíssimos, não havia absolutamente nada. Nenhuma alça, nenhum elástico, nenhuma barreira.
Os homens pararam de falar por um segundo que pareceu uma eternidade. O silêncio foi quebrado por elogios entusiasmados, mas contidos pelo respeito que me deviam.
— Fernando, você nunca disse que tinha uma filha tão bonita — comentou o diretor financeiro, enquanto a menina agradecia com uma jovialidade radiante, circulando entre eles com bandejas de aperitivos.
Senti aquela pontada clássica de ciúme paternal, um instinto de proteção que tentava emergir, mas ele foi rapidamente soterrado por um orgulho vaidoso e proibido. Ver meus amigos, homens sérios do mercado, hipnotizados pelo balanço daquele tecido que escondia tão pouco, me dava uma sensação de poder perverso.
Alguém ligou o som, e um flashback clássico começou a tocar. Minha filha, que parecia vibrar em uma frequência própria, começou a dançar sozinha no meio do pátio. O vestido subia e descia a cada giro, revelando relances rápidos das coxas e sugerindo o que a imaginação de todos já gritava. O ciúme latejava, mas eu não conseguia tirar os olhos dela.
Logo, o clima de festa quebrou a formalidade. Um dos meus colegas, o mais jovem, aproximou-se e começou a dançar com ela. Depois outro se juntou, e um terceiro, mais audacioso, dançava mais colado, a mão pairando a milímetros da cintura onde o vestido floral ondulava. Minha mulher, vendo a cena, não quis ficar de fora; entrou na dança com a mesma desenvoltura, girando entre os homens, o seu próprio vestido revelando a silhueta madura e plena sob a luz do sol.
Ali, no comando da churrasqueira, cercado por fumaça e pelo calor das brasas, eu estava enlouquecendo. Era uma tortura deliciosa. Eu via as duas mulheres da minha vida sendo o centro de um turbilhão de olhares masculinos, provocando com cada movimento, enquanto eu, o guardião do fogo, sabia exatamente o que o tecido daqueles vestidos de verão estava protegendo — ou melhor, oferecendo à imaginação de todos.
O calor da churrasqueira já me fazia suar, mas não era nada comparado ao calor que subia pelo meu pescoço enquanto eu observava a sala de jantar e a varanda. Meus seis amigos, todos sujeitos sérios do escritório, pareciam ter esquecido completamente do mundo.
A primeira a circular foi a minha filha. O vestido de alcinha com pequenas margaridas, era tão curto que qualquer movimento mais brusco deixava o começo das coxas à mostra. E, como eu temia, o balanço dos seios sob o pano fino não deixava dúvidas: ela estava totalmente nua por baixo.
— Aceitam um pedaço de pão de alho? — perguntou ela, inclinando-se para a mesa.
O decote do vestido caiu para a frente e o silêncio foi imediato. O Ricardo, nosso gerente de vendas, quase engasgou com a cerveja.
— Com certeza, querida — disse o Ricardo, tentando manter os olhos no meu rosto, mas falhando miseravelmente ao olhar para baixo. — Fernando, você escondeu o ouro. Sua filha é uma beldade.
— Além de linda, é muito simpática — completou o Moreira, o mais velho do grupo, com um olhar que subia devagar pelas pernas dela. — Quantos anos você tem, moça?
— Dezoito, Moreira — ela respondeu com um sorriso largo, ajeitando o cabelo. — Mas meu pai ainda me trata como se eu tivesse dez. Não é, pai?
— Só estou cuidando do que é meu, filha — respondi, tentando parecer brincalhão enquanto apertava o pegador de carne com força.
— Ela está certa, Fernando — provocou o Marcos, um dos mais novos. — Uma mulher dessas tem que ser celebrada, não escondida. Você dança, não dança? Esse ritmo aí pede movimento.
A música começou a subir. Um flashback de dance dos anos 90 preencheu o quintal. Minha filha começou a balançar os quadris de leve. O vestido acompanhava o movimento, colando na bunda e revelando o contorno perfeito de cada passo. Logo, o Marcos levantou e foi para perto dela.
— Vamos lá, me ensina esses passos — disse ele.
Ela começou a girar. A cada giro, o vestido rodado se levantava, e por frações de segundo, o triângulo de pelos escuros e a pele clara das nádegas apareciam para quem estivesse no ângulo certo. Eu via meus amigos esticando o pescoço, as conversas morrendo. O ciúme era uma ferroada no estômago, mas ver a minha filha sendo o centro daquela cobiça, exibindo-se com uma naturalidade audaciosa, me dava um tesão que eu não conseguia controlar.
Minha mulher entrou na cena logo depois. O vestido dela era um floral azul, um pouco mais longo, mas com uma fenda lateral que subia até o quadril. Ela se aproximou de mim, encostou o corpo suado no meu braço e sussurrou:
— Olha só como eles estão babando, Fernando. Estão todos imaginando o que tem debaixo dessas flores.
— Você está adorando isso, não está? — murmurei, olhando para o Moreira, que não tirava os olhos dos seios dela, que balançavam livres sob o tecido.
— Estou — ela riu, mordendo o lábio. — E você também. Olha só para você.
Ela saiu de perto de mim e foi para a "pista". Agora eram as duas. Minha filha dançava com o Marcos e o Ricardo, que já arriscavam mãos nas costas dela, sentindo a pele nua por baixo do vestido fino. A menina ria, jogava o corpo para trás, e a cada movimento o vestido floral parecia ser apenas uma moldura para o que realmente interessava.
O Ricardo chegou mais perto dela, dançando "juntinho". Eu via a mão dele descendo até o limite do quadril, sentindo que não havia elástico de calcinha ali. Minha filha não se afastava; pelo contrário, rebolava mais perto, provocando com o olhar.
Eu estava enlouquecendo, eu sentia uma mistura de fúria e orgulho. Eles desejavam as minhas mulheres, e elas sabiam disso, usando cada centímetro de pele exposta para mantê-los em transe. Eu era o único que sabia o segredo completo, e ver o desejo deles explodindo em elogios e olhares fixos era a crônica mais intensa que eu já tinha vivido.
— Mais uma cerveja, pessoal? — minha filha perguntou, girando e deixando o vestido subir quase todo até a cintura, quase revelando tudo.
O grito de aprovação dos homens foi geral. Eu fechei os olhos por um segundo, sentindo o calor da brasa e o peso daquela exibição. O calor da churrasqueira tinha me deixado zonzo, mas o que realmente fazia minha cabeça girar era a visão daquelas duas. Pedi licença e entrei em casa, sentindo o suor esfriar sob o ar do corredor. Entrei no banheiro e encostei a porta, buscando um momento de silêncio.
Foi quando ouvi as vozes. Vinham da janela basculante, que dava para o recanto escuro da varanda onde o Ricardo e o Moreira tinham se afastado para abrir mais uma rodada de cervejas.
— Você viu quando o vento bateu naquele vestido? — a voz do Ricardo estava rouca, baixa, como se estivesse confessando um crime. — Moreira, a menina não está usando nada. Nada! O pano colou nela e eu vi tudo: o desenho daquela bunda empinada, a pele lisa... e o melhor, bicho, o volume daqueles pentelhos escuros marcando o tecido. Aquilo ali é uma tentação que não deveria ser legalizada.
— E você acha que eu não vi? — o Moreira respondeu com um estalo de língua. — Eu dancei com ela, Ricardo. Senti o calor da pele dela nas minhas mãos. É puro fogo. Mas a mãe... rapaz, a mãe é um espetáculo à parte. Aquela carne madura e firme, e nem sombra de um elástico de calcinha. Elas estão as duas ali fora, brincando com a nossa cara.
— O Fernando é um santo ou é o maior gênio do mundo — continuou o Ricardo, soltando uma risada abafada. — Imagina chegar em casa e ter essas duas circulando assim? Eu não saía mais para trabalhar.
Os dois riram, cúmplices nas suas obscenidades sobre minha esposa e minha filha.
— Eu passava o dia inteiro enterrado naquela menina gostosinha, ou me perdendo nas curvas daquela mulher. Se eu tivesse uma chance, eu pegava a garota e a mãe depois! — disse o salafrário do Moreira.
Eu ouvia tudo imóvel, a mão apoiada na pia de mármore. A raiva subiu primeiro, um soco no estômago pelo desrespeito, pelo abuso da hospitalidade. Mas, num curto-circuito perverso, a raiva foi sufocada por um ciúme que se transformou em um tesão avassalador.
Ouvir meus amigos — homens de negócios, pais de família — descrevendo a minha mulher e a minha filha como animais de caça, saber que elas estavam sendo "devoradas" por aqueles olhares agia como um combustível escuro. Não me aguentei. Minha mão desceu para a bermuda. Tirei meu pau, que já estava latejando, duro como um cano de ferro. Comecei a me masturbar ali mesmo, num ritmo frenético e silencioso. As frases dos dois ecoavam na minha mente: "carne madura", "matagal escuro", "ficar enterrado nela".
Eu visualizava a cena lá fora: o Ricardo com as mãos nas costas nua da minha filha, sentindo o calor do corpo dela; o Moreira cobiçando o quadril da minha esposa. A cada movimento rápido da minha mão, eu sentia o prazer subir num nível quase insuportável, misturado com o suor e a adrenalina de ser o espectador oculto daquela cobiça.
Eu não queria gozar. Queria manter aquela agonia, aquele fogo que vinha da certeza de que elas estavam lá fora, provocando o caos com cada movimento de seus vestidos sem nada por baixo. Eu gemia baixo, a cabeça encostada no azulejo frio, sentindo o pulsar violento do meu sexo.
Ouvi o som das latas sendo jogadas no lixo e o passo deles voltando para a festa. Respirei fundo, guardei o pau ainda pulsante e lavei o rosto com água gelada. Saí do banheiro com o rosto lavado, mas o sangue ainda fervia. Quando cheguei à churrasqueira, Ricardo e Moreira estavam lá, encostados na mureta, com as latas de cerveja na mão e uma expressão de falsa inocência que me deu náuseas e prazer ao mesmo tempo.
— E aí, Fernando? Estava retocando o visual ou o pão de alho caiu mal? — provocou Ricardo, com um sorriso de canto.
— Nada disso. Fui só garantir que o churrasqueiro estivesse pronto para o segundo tempo — respondi, encarando-o nos olhos enquanto pegava o espeto. — A carne está no ponto, o que estão achando?
— O ponto está perfeito, mas o tempero da casa é que é o diferencial — Moreira completou, lançando um olhar rápido para a pista de dança. — Havia tempo que eu não vinha a um churrasco tão... animado.
A conversa foi interrompida pelo som de uma gargalhada. Viramos o rosto ao mesmo tempo. Minha filha estava no centro do quintal, dançando com o Marcos. O vestido de margaridas subia a cada giro, e ele a segurava pela cintura com uma firmeza que me fez apertar o cabo da faca. Eu via o contraste das mãos dele contra o tecido fino, e a certeza de que não havia nada por baixo me deu aquele soco de ciúmes misturado a uma excitação elétrica.
— Fernando, você tem que admitir — disse Ricardo, agora num tom mais baixo, quase solene. — Sua filha se tornou uma mulher deslumbrante. É impressionante como ela cresceu.
— Realmente, ela herdou o que há de melhor — emendou Moreira, sem tirar os olhos do balanço dos seios dela sob o vestido. — Ela tem uma presença que ilumina o ambiente, uma beleza muito natural, muito autêntica.
— É, ela tem personalidade — respondi, sentindo o latejar na bermuda. — Às vezes até demais para o meu gosto.
— Não seja modesto — Ricardo continuou. — Ela é o tipo de mulher que qualquer um aqui pararia para admirar. Você fez um ótimo trabalho, bicho.
— Um trabalho de mestre — concluiu Moreira, com um brilho de malícia que só eu entendi. — Pode ter orgulho da família que tem.
Eu não aguentava mais aquela pressão. Precisava de um aliado. Procurei minha mulher pela varanda e a encontrei perto da mesa de bebidas. Ela conversava animadamente com o diretor financeiro, o corpo inclinado, a fenda do vestido azul aberta até o limite, rindo de algo que ele dizia enquanto ele, hipnotizado, parecia ter esquecido completamente que era meu chefe.
Minha mulher percebeu o meu olhar à distância. Com um sorriso que atravessou a varanda, ela fez um sinal com a mão, chamando-me para o círculo de conversa com o diretor financeiro. Aproximei-me, ainda sentindo o pau pulsando sob a bermuda.
— Fernando, sua esposa estava me contando sobre as férias de vocês. Que família vibrante você tem! — disse o Dr. Arnaldo, o chefe, sem conseguir disfarçar o olhar que descia pelo decote dela.
— Pois é, Arnaldo. A gente tenta manter o espírito jovem, não é, meu bem? — respondi, sentindo o calor do corpo dela ao meu lado.
— O espírito e o físico, pelo visto! — completou o chefe, soltando uma risada ruidosa. — Esse churrasco está sendo uma verdadeira celebração de vitalidade.
— Sabe o que é, Arnaldo? O Fernando é muito modesto — ela disse, encostando o ombro no meu. — Mas agora eu preciso levar esse churrasqueiro para dentro um minuto. Preciso que ele me ajude a achar o álbum de fotos do nosso casamento, que eu estava te falando.
Olhei para ela, confuso, mas o brilho no olho dela não deixava dúvidas. Aí tem coisa, pensei. Chamei o Moreira, que estava por perto:
— Moreira, quebra essa pra mim? Fica de olho na picanha dois minutos. Não deixa passar do ponto.
No corredor, apressei o passo para alcançá-la. Ela não disse uma palavra. Entrou no quarto, fechou a porta e, num movimento contínuo, subiu na nossa cama. Ficou de quatro, apoiada nos cotovelos, e puxou o vestido azul até a cintura. A visão daquelas nádegas fartas, a carne madura e nua se oferecendo ali, foi o xeque-mate.
— Me fode. Agora — ela ordenou, a voz rouca.
Não houve preliminares. Abri a bermuda, libertei meu pau já duríssimo e a penetrei por trás com toda a força, sentindo o calor úmido de sua intimidade. Comecei a foder vigorosamente, o som da carne batendo ecoando no quarto abafado.
— Eu sei como você está, seu safado... — ela gemia, a cabeça afundada no travesseiro. — Eu vi sua cara olhando para os seus amigos... Você está louco vendo como eles estão babando na gente, não está?
— Você é muito safada, sabia?! — eu dizia, apertando os quadris dela com força, deixando a marca dos meus dedos na pele clara.
— Olha como o Arnaldo me olhava, Fernando... Se pudesse, ele me comia ali mesmo, na frente de todo mundo.
Safada. Eu sabia, ela sabia, e ela sabia que eu sabia.
— Estão todos lá fora querendo foder a gente... querendo sentir o que você está sentindo agora...
— Você adora isso, não adora? — eu estocava com mais violência, sentindo o prazer subir num nível insuportável.
— Eu adoro que eles queiram... mas é o seu pau que eu amo, Fernando! É o seu que está aqui dentro agora! — ela deu um grito abafado, arqueando as costas enquanto chegava ao limite.
Gozei fundo dentro dela, uma descarga violenta que me deixou trêmulo. Ficamos ali por alguns segundos, os dois ofegantes, o cheiro de sexo se misturando ao de fumaça que vinha da janela.
Ela se levantou com uma agilidade surpreendente. Foi ao banheiro, ouvi o barulho da água enquanto ela se limpava rapidamente. Voltou para o quarto, ajeitou o vestido, conferiu o batom no espelho e me deu um tapinha no rosto, com um sorriso de vitória.
— Vamos, Fernando. Você ainda tem um churrasco para fazer. E a picanha não pode passar do ponto.
Saímos do quarto e minha mulher voltou para a roda com uma leveza absoluta, como se os últimos minutos tivessem sido dedicados apenas a uma busca frustrada na estante. O Dr. Arnaldo, que parecia ter contado cada segundo da ausência dela, logo se pronunciou.
— E então? Encontraram as relíquias do matrimônio? — perguntou ele, os olhos percorrendo o rosto dela em busca de qualquer sinal.
— Que nada, Arnaldo. Deve estar em alguma caixa no sótão — ela respondeu, casualmente, com um sorriso enigmático. — Mas chega de poeira. O senhor aceita outra cerveja? Vou buscar duas geladinhas para nós.
No caminho até o isopor, ela passou pela nossa filha, que estava encostada na mureta bebendo água. A menina viu o estado do cabelo da mãe, ligeiramente desalinhado, e o brilho vitorioso no olhar dela. As duas trocaram uma risadinha cúmplice.
O churrasco seguiu seu curso natural. O sol se pôs, a música baixou e a carne deu lugar às conversas mais lentas de fim de festa. Um a um, os amigos foram se despedindo, todos com apertos de mão entusiasmados e agradecimentos que demoravam um pouco mais do que o normal ao se dirigirem às mulheres da casa. O Dr. Arnaldo foi o último a sair, ainda elogiando a “hospitalidade impecável” da nossa família.
Quando a porta finalmente se fechou, ficamos os três na varanda, cercados pelo rastro da festa. Ajudamos a recolher as latas vazias e a organizar os pratos, conversando sobre os episódios do dia.
— O Ricardo quase caiu da cadeira quando você deu aquele giro, filha — comentei, rindo, enquanto dobrava uma toalha.
— E o Arnaldo, pai? Se a mamãe pedisse um aumento hoje, ele assinava em branco sem nem pensar — ela rebateu, fazendo a mãe soltar uma gargalhada.
Mais tarde, já no silêncio do nosso quarto, eu estava deitado, olhando o celular antes de dormir. A porta do banheiro se abriu e minha mulher saiu de lá, inteiramente nua, com a pele ainda úmida e exalando aquele perfume de sabonete que eu adorava. Ela parou ao pé da cama, observando o brilho da tela no meu rosto.
— Que tanto de mensagens são essas, Fernando? O mundo está acabando lá fora e eu não sei? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.
— O pessoal do trabalho... — respondi, dando um meio sorriso e virando o celular para ela ver a enxurrada de notificações no grupo da firma. — Estão todos perguntando quando vai ter churrasco aqui em casa de novo. O Arnaldo até sugeriu que fosse quinzenal.
Ela soltou uma risada gostosa, caminhando devagar até a cama e engatinhando sobre os lençóis em minha direção, os seios balançando livremente.
— Quinzenal? Eles não perdem por esperar — ela murmurou, tirando o celular da minha mão e jogando-o no criado-mudo. — Mas agora, chega de papo com o escritório. Eu quero mais uma rodada do que a gente teve mais cedo. E dessa vez, sem pressa de voltar para a picanha.
Eu a puxei para mim, sentindo o calor do seu corpo nu contra o meu, e percebi que, naquela casa, a rotina nunca mais seria a mesma. A crônica da nossa família tinha ganhado um novo ritmo, e nós estávamos apenas começando a aproveitar cada verso.
