Minha mãe estava abraçada comigo com uma força que deixava claro o quanto estava sofrendo. Por mais que eu quisesse me afastar para olhar em seus olhos e conversar, ela não me soltava.
Fiz algumas perguntas, mas nenhuma foi respondida. Ela apenas afundava o rosto em meu peito e chorava sem se conter.
Sentei-me no sofá e ela veio junto, aninhando-se no meu colo, como se eu fosse o único lugar seguro que ainda existia para ela. Por um instante, lembrei de Wis. A sensação era estranhamente parecida.
Enquanto se encolhia em mim, pedia que eu a abraçasse mais forte. Ficamos assim até que o choro perdeu força e virou apenas um soluço cansado.
Então, ela disse:
- Sinto como se eu tivesse te encontrado depois de muito tempo.
Sorri timidamente sem saber exatamente por quê.
- Eu sempre estive aqui, mãe.
Ela não respondeu. Apenas se encolheu ainda mais, como se fosse possível desaparecer dentro do meu abraço. Depois de um tempo, murmurou:
- Só não me solta hoje.
O silêncio tomou conta da sala. Não sei quanto tempo se passou. Quando percebi, ela já dormia nos meus braços.
Com cuidado, levei-a até o meu quarto, deitei-a na cama, cobri-a e liguei o ar-condicionado. Antes que eu saísse, ela segurou minha mão, os olhos ainda pesados de sono. Sentei-me no chão ao lado da cama e fiquei ali até ter certeza de que ela tinha adormecido de verdade.
Só então os pensamentos vieram todos de uma vez. Wanda preocupada com o que eu achava dela. O machucado em seu rosto. Adriana descobrindo a traição. Ambas com arranhões. O sumiço de Wis. Agora minha mãe, recém-solteira, dormindo no meu quarto. Tudo parecia estranhamente conectado. E eu não conseguia organizar uma cronologia desses fatos.
Peguei o celular. Havia várias mensagens de Remo e de Érica. Soube que Adriana tinha pedido meu endereço para eles, mas não tinham passado. Se não foram eles, quem foi que passou? Nenhuma resposta me veio à mente.
Wanda também não respondeu mais. Wis continuava em silêncio desde o dia anterior. Aquilo me deixava inquieto.
Mas nada doeu tanto quanto pensar em Adriana.
O tapa que levei parecia ainda marcado no rosto. A culpa veio pesada. Eu tinha machucado a mulher com quem planejava casar. O único consolo era acreditar que, pelo menos agora, não havia mais segredos entre nós.
Voltei para a sala carregando tudo aquilo dentro de mim. Parte de mim queria pensar em Adriana. Outra em Wanda. Até mesmo em Wis. Outra parte, mais silenciosa e mais profunda, sabia que o foco precisava ser minha mãe.
O que ainda não fazia sentido era o motivo dela ter terminado com Trajano e Cecília por… minha causa. A vida era dela. No fundo, não era o formato da relação que me incomodava, mas o medo de vê-la sofrer, ser julgada e se machucar. Sempre fomos só nós dois. Talvez eu ainda carregasse um instinto de proteção exagerado, nascido da ausência do meu pai.
Ou talvez fosse outra coisa. Ciúme. Medo de dividir o lugar que sempre foi só meu. Admitir aquilo me deixou exposto até para mim mesmo. Soava egoísta. Se eu podia amar, errar e recomeçar, por que ela não poderia?
As horas passaram enquanto eu encarava o teto da sala, preso nos próprios pensamentos. O cansaço venceu antes que eu encontrasse qualquer resposta. Acabei dormindo no sofá.
Quando acordei pela manhã, percebi que estava coberto por uma manta. Da cozinha vinha o cheiro de café recém-passado. Minha mãe estava lá, mexendo em alguma coisa no fogão.
Levantei-me do sofá devagar e fui até ela.
- Bom dia – falei, com cuidado.
- Bom dia, filho – respondeu. A voz estava mais firme, mas ainda carregava cansaço.
Sentei-me à mesa. Ficamos em silêncio até que ela terminasse de preparar o café da manhã e colocasse tudo à nossa frente.
Começamos a comer. Nenhum palavra dita. Aguentei o máximo que consegui.
- Mãe… – chamei, baixo – se eu posso me relacionar, por que a senhora não pode?
Ela manteve os olhos no prato.
- Eu pensei muito sobre isso… – continuei – sobre vocês três. Não é um problema para mim. Eu só não quero que a senhora sofra. Se está feliz, isso é o que importa para mim.
O silêncio se estendeu, desconfortável. Estiquei a mão até a dela. Ela me olhou por um instante.
- Se eu fiz parecer que fui contra… por birra ou imaturidade… eu peço desculpas. Talvez eu tenha sentido um pouco de ciúmes também. Talvez eu tenha sido egoísta – fiz uma pausa – Mas eu só quero a sua felicidade.
O sorriso que ela tentou dar veio torto, abatido.
- Você não me quer mais na sua vida, Bruno?
Meu peito apertou.
- Por que pensa isso? A senhora é a pessoa mais importante da minha vida.
- Às vezes eu sinto que sou um fardo… como se estivesse atrapalhando a sua vida.
Engoli em seco, sentindo a garganta apertar.
- Nunca. Nunca mais pense isso.
Levantei-me rápido demais e me abaixei ao lado dela, quase sem pensar.
Segurei suas mãos.
- Eu sempre achei que era eu quem atrapalhava a sua vida com meus problemas. Até minha decisão de me mudar foi pra tentar dar espaço pra senhora viver também. Isso nunca foi falta de amor. Por favor… acredita em mim.
Os olhos dela se encheram de lágrimas antes que o corpo reagisse. Quando finalmente se moveu, virou-se para mim e me abraçou com força.
- Eu sinto sua falta – ela sussurrou.
- Então a gente precisa mudar isso. A senhora sempre foi e sempre vai ser minha prioridade.
Ela respirou fundo antes de sorrir, agora com um pouco mais de vida.
- Seu bobo… eu te amo.
Ficamos abraçados por um tempo, até que nos recompomos.
Voltamos para a mesa ainda meio sem jeito. Reforcei que ela deveria retomar o relacionamento.
- Trajano e Cecília devem estar sofrendo também. – pontuei – E eu me sinto culpado por isso. Eu gosto muito deles.
Ela tomou um gole de café antes de responder:
- Não é só sobre você, Bruno. É sobre mim também. Sobre meu coração. Sobre minha história.
- A senhora tem certeza? – perguntei, apreensivo.
- Tenho.
Respirei, um tanto resignado.
- Então… só me resta confiar na senhora.
- Obrigada.
Ficamos em silêncio mais um tempo, até que uma ideia boba me veio à cabeça.
- Mãe… saiba que cada dia longe deles é um dia a menos de felicidade pra você.
Ela riu sem esforço aparente, mas não respondeu. Em seguida, ficou séria de novo.
- Preciso te contar uma coisa.
Senti o estômago afundar.
- Ontem eu estava na casa deles quando a Wanda chegou toda machucada…
Minha mãe foi me contando aos poucos. A abreviação da lua de mel. A chegada de Adriana no apartamento de Wanda. A discussão. A agressão. E, por fim, a acusação: Adriana acreditava que tinha sido Wanda quem enviara os vídeos para mim.
Então veio a parte que fez sua voz falhar.
- E eu soube – minha mãe continuou, tensa – que em um daqueles vídeos… eu estava beijando Trajano e Cecília.
Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto esperava minha reação.
- Meu Deus… – levei a mão ao rosto. – Então agora tudo faz sentido. A visita delas. Os machucados. A senhora vindo aqui…
- Elas estiveram aqui? – minha mãe perguntou, surpresa.
- Sim. Antes da senhora chegar. Primeiro Wanda. Depois Adriana. Nenhuma das duas me contou o que tinha acontecido de verdade.
Ela suspirou fundo.
- O que mais me machucou foi saber que você me viu daquela forma. Eu sempre tive tanto cuidado com a imagem que passava pra você… agora tenho medo do que você pensou sobre mim. Uma promíscua? Uma destruidora de lares? Uma vergonha?
- Ei… para.
Levantei-me e a abracei antes que ela dissesse mais alguma coisa.
- Sua privacidade foi violada. Isso sim foi errado. O resto foi consentido, foi amor. A senhora não fez nada de errado. Estava vivendo a própria vida. Merecidamente.
Ela respirou fundo, mas ainda estava tensa.
- Mas você surtou…
- Eu?
- Aquela noite. No banheiro. Seu grito me expulsando… aquilo me destruiu por dentro.
O peso no peito voltou com força.
- Foi naquela noite que você recebeu o vídeo, não foi? – ela perguntou.
Não respondi. Não precisava. O silêncio entre nós ficou pesado.
Fiquei alguns segundos paralisados, sem saber como reagir. Dessa vez, não foi impulso. Respirei fundo e me ajoelhei diante dela.
- Marluce Almeida Tavares… minha mãe… me perdoa. Eu descarreguei em você uma dor que não era por sua causa. A senhora nunca foi o problema. Não que isso justifique porque nada justifica o que fiz com a senhora, mas o outro vídeo tinha me dilacerado por dentro. Adriana com… com…
Não consegui terminar.
Não toquei nela de imediato. Quem me puxou para o abraço foi ela.
Chorávamos os dois.
- Eu também errei – disse ela, entre soluços. – Eu escondi coisas de você. Eu sabia da relação dela com Gustavo, Wanda e Vitor. Achei que estava te protegendo. Mas Adriana já tinha terminado com eles antes de te conhecer.
Demoramos um pouco para nos recompor. Ela segurou meu rosto.
- Olha pra mim… Adriana mudou. Eu vi isso. Trajano acreditou nela desde o começo. E ele nunca erra. Ela te ama de verdade. Eu espero que vocês voltem.
Engoli em seco.
- Não acho que isso seja possível. Eu a magoei de uma forma que não dá mais pra reverter.
- O que você fez?
Antes de responder, nos levantamos devagar. Voltamos para a mesa, agora sentando lado a lado.
Suspirei. E contei tudo.
Nova Iorque. A noite com Wanda. A traição. Os vídeos recebidos. A fuga para pensar. O encerramento dela com Gustavo. O término abrupto. O arrependimento depois. O tempo distante. A visita dela. Minha confissão. O tapa.
- Está vendo? – falei por fim. – Quem sou eu para julgar a senhora? Eu fui terrível com a Adriana.
Ela ficou pensativa.
- Então a Wanda resolveu lutar por você…
Olhei-a confuso. Não era bem a conclusão que eu esperava.
- Como assim?
- Os vídeos. Achei estranho ela te mandar o meu também.
Respirei fundo.
- Não foi a Wanda. Foi a Wis.
- A Wis? – o choque dela foi imediato. – Nunca imaginei isso. Será que Wanda contou isso para o pai dela?
- Não entendi.
- Só um pensamento… continue.
Contei como recebi os vídeos, como descobri no casamento de Wanda que tinha sido a Wis, e a justificativa dela: eu precisava saber a verdade.
Ficamos em silêncio por alguns segundos até que minha mãe falou:
- Preciso te contar uma coisa sobre a Wis…
- Mais segredos?
- Não exatamente. Ela teve um amor platônico por você por muito tempo. Quando você se afastou daquela casa, ela culpava a Wanda por tudo. Fez terapia, melhorou um pouco… mas agora vejo que nunca superou.
Fiquei parado, tentando reorganizar a linha do tempo.
- Eu só tenho amizade por ela… – murmurei apressadamente.
- Ela é leal a você acima de qualquer coisa – disse minha mãe, sem emoção nos olhos. – E isso nem sempre é saudável.
- Não acho que ela quis prejudicar você ou mesmo a Adriana.
- Talvez não. Mas foi inconsequente. E eu estou magoada por isso.
Assenti, reconhecendo seu estado de espírito.
Peguei o celular.
- Agora entendo por que a Wis sumiu desde ontem à noite.
- Cecília já deve ter falado com ela agora que tudo veio à tona – respondeu minha mãe.
Ela perguntou sobre a visita de Wanda, e eu resumi como tinha sido.
- Acho que ela perdeu muito tempo presa em um orgulho besta – comentou quando terminei de contar. – Talvez agora seja tarde demais.
- Tarde para quê?
- Para te reconquistar.
Sorri com desdém.
- Wanda está casada, mãe. Está com o amor da vida dela. Nós nos reconciliamos. Podemos voltar a nossa amizade. Estamos bem um com o outro. Isso é o que importa.
Ela me encarou com seriedade.
- Filho… Wanda sente algo muito forte por você. Tão intenso quanto o que Adriana sente. E não é platônico como no caso da Wis. É diferente. Mais maduro. Apesar de tudo que ela fez ao longo dos anos, Wanda é uma boa pessoa.
Fiquei confuso. Ela percebeu.
- Se eu estiver certa, ela não vai dar passo nenhum enquanto não tiver certeza de que Wis, Adriana e Vitor estejam bem.
Continuei em silêncio, tentando processar.
- Aquela garota por quem você teve um amor platônico sempre esteve apaixonada por você. Só que agora ela parou de lutar contra isso. Está tentando aprender a conviver com esse sentimento.
- Você tem certeza disso?
- Tenho – respondeu sem hesitar. – Trajano e Cecília também.
Ela se levantou e começou a recolher os pratos, me deixando sozinho com os próprios pensamentos.
- A verdade é que seus problemas de autoestima sempre foram infundados – disse, já na pia.
Começou a lavar a louça.
- Você me lembra seu pai, meu doce Cristiano. Ele vivia em seu próprio mundinho, sempre focado nos estudos e no trabalho. Mesmo assim, atraía as pessoas sem perceber. Algumas mulheres. Eu também…
Virou-se para mim com um sorriso vitorioso no rosto.
- Fui eu quem o conquistou. E você é o maior presente que ele me deixou.
Rimos. Havia muito tempo que não falávamos dele.
- Você está vivendo algo parecido – continuou. – Três mulheres parecem te querer. Talvez mais. Mais cedo ou mais tarde, você vai ter que escolher. Ou elas vão escolher por você.
- Acho que a senhora está exagerando.
Ela riu, mas não insistiu. Mudou de assunto, reclamando da torneira da pia, como se precisasse escapar daquela conversa.
A revelação sobre Wanda bateu como um impacto silencioso no peito. Mesmo sem querer, sentimentos antigos, enterrados havia muito tempo, ameaçaram voltar à superfície. Preferi ignorar. Não era o momento de lidar com aquilo.
Eu e minha mãe conversamos mais ao longo do dia. Falei mais sobre Adriana, Wanda e Wis. Também mencionei Remo e Érica. Ela percebeu na hora.
- Temos a quarta menina – comentou.
- Não – cortei na hora – Ela me garantiu que não.
- E você acreditou?
Fiz cara de tacho.
- Mas Bruno – ela completou – quem sabe na quinta…
Minha mãe riu, recuperando aquela leveza antiga, tão familiar entre nós.
Fiz cara de confuso, mas logo desconversei.
Aproveitei para perguntar sobre Trajano e Cecília. Como tudo tinha começado, como tinha evoluído. Ela ficou séria por um instante.
- Eu não quero esconder isso de você, filho… mas me dá um tempo para assimilar minha nova realidade. Quando eu estiver bem, eu conto tudo.
- Combinado.
Já no fim da tarde, tomei coragem e fiz o convite:
- Que tal passar uma ou duas semanas comigo aqui? Acho que a gente precisa se reorganizar. Por muito tempo deixamos coisas mal resolvidas entre nós. Talvez esse tempo ajude a lembrar que sempre teremos um ao outro, independentemente dos nossos próximos relacionamentos que vierem pela frente.
Ela sorriu.
- Aceito. E concordo com a justificativa. Só tem um detalhe: estou sem nada de roupa.
Fomos até a casa dela – minha antiga casa – para que fizesse uma mala. Quando voltamos ao meu apartamento, ela fez questão de ficar no quarto de hóspede, mesmo eu oferecendo o meu.
- Além disso – ela enfatizou – não deixe de fazer nada por minha causa, ok?
- Como assim?
- Se quiser trazer alguma garota pra dormir aqui, eu não vou atrapalhar. Nem sair do quarto.
Gargalhamos alto.
- Jamais te daria tamanho constrangimento, mãe. Fique tranquila.
- Eu não me importo – respondeu, ainda rindo.
Nesse meio tempo, Wanda me mandou mensagem no celular.
> Wanda: como está a tia?
> Bruno: bem, na medida do possível. Como você sabe que ela está aqui?
> Wanda: falei com ela.
> Bruno: e seus pais, como estão?
> Wanda: arrasados. Não saíram do quarto ainda. Eu me sinto tão culpada.
> Bruno: não fique assim. Não foi culpa sua.
> Wanda: foi sim. E eles foram bem duros com a Wis ontem à noite… sobre os vídeos que ela te enviou.
> Bruno: deve ser por isso que a Wis sumiu… Ela não fala comigo desde sexta à noite.
> Wanda: provavelmente. Tentei falar com ela, mas também não me respondeu. Só aos meus pais.
> Bruno: vou tentar falar com ela. Preciso.
> Wanda: também preciso.
Eu já estava abrindo a conversa com Wis quando outra mensagem de Wanda chegou. Dessa vez, mais grave.
> Wanda: vou me separar, Bruno.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, sem conseguir digitar nada. Lembrei do que minha mãe tinha dito.
> Bruno: o quê? Mas você acabou de se casar…
> Wanda: sim. E foi um erro. Não quero mais insistir nisso.
> Bruno: mas… e tudo o que vocês viveram? A história que construíram? O casamento… o apartamento novo…
> Wanda: felizmente tenho a herança que meu pai me deixou. Vou arcar com os custos da separação. Vou perder dinheiro, mas não quero que o Vitor tenha prejuízo financeiro.
> Bruno: como ele reagiu?
> Wanda: vou contar para ele amanhã, quando nos encontrarmos
> Bruno: não entendo tudo isso ainda, mas se é o que você quer, conte comigo no que precisar.
> Wanda: obrigada por estar ao meu lado. Vou precisar da sua ajuda nessa parte financeira. Você pode me ajudar?
> Bruno: claro. Vai ser um prazer.
Insisti em saber mais, mas Wanda não entrou em detalhes sobre o motivo real de querer terminar. Senti preocupação com ela e as consequências dessa decisão. Decidi que, antes de qualquer outra coisa, iria ajudá-la no que fosse preciso. Como amigo.
Quando Wanda se despediu, voltei para a conversa com Wis. Ela provavelmente estava sendo julgada de todos os lados, mas eu precisava dizer como me sentia.
> Bruno: soube que muita coisa aconteceu nos últimos dias. Já entendi parte disso. Sei que você tentou me mostrar coisas importantes. Obrigado por isso. Nada muda entre nós. Fala comigo quando puder. Quero saber se você está bem. Gosto muito de você, Wis Nara. 💙
Na segunda-feira, Wis apareceu no horário de sempre. Assim que a chamada de vídeo conectou, pediu que nos concentrássemos apenas na mentoria de investimentos, o que aceitei por respeito a ela.
- Ainda estou assimilando as coisas, Bruno. Preciso de tempo. Depois falamos disso. Eu prometo.
Assenti.
- Eu não vou sair da sua vida – ela acrescentou – se é isso que te preocupa.
- Isso nem passou pela minha cabeça. Juro.
Durante a aula, ela se manteve focada. Não parecia dispersa, apenas mais séria e contida do que de costume. Aquilo me deixou encucado, pois não era o jeito dela, que sempre fora tão leve nas nossas conversas.
Mais tarde, Wanda me mandou mensagem para contar que já tinha falado com Vitor sobre a separação.
> Wanda: ele surtou
> Bruno: ele te ameaçou?
> Wanda: não. Pelo contrário. Chorou. Se ajoelhou. Implorou por perdão e por uma nova chance.
> Bruno: e você está bem?
> Wanda: estou… só cansada
> Bruno: o que ele fez?
> Wanda: te explico depois… quando tudo tiver oficializado. Pode ser?
> Bruno: claro. Quais os próximos passos?
> Wanda: vamos negociar os termos do divórcio
> Bruno: entendi
> Wanda: e… você vai gerir meus investimentos a partir de agora, né?
> Bruno: sim. Estou aqui por você.
> Wanda: 💛
Não fui atrás de Adriana. Depois da minha confissão, sabia que ela precisaria de tempo antes que eu pudesse sequer pensar em ser perdoado.
No meio da tarde, percebi que Trajano não tinha aparecido na PHX. Provavelmente ainda sofria pelo término com minha mãe. No fim do expediente, ele me mandou mensagem:
> Trajano: Bruno, por favor, transfira os portfólios da Wanda que estão na minha carteira para a sua. Ela quer que você gerencie. Como pai, acredito que seja o melhor a ser feito.
Fiz a transferência pelo sistema da empresa, que era rápido e eficiente.
No caminho de volta para casa, meu telefone tocou. Era o Remo.
- Tiver que te ligar, mano.
- Por que?
- Você não responde minha mensagens.
- Foi mal. Aconteceu muita coisa nos últimos dias.
Resumi a situação para ele.
- Entendi. Tua mãe vai ficar quanto tempo contigo?
- Não sei… duas semanas, talvez.
- Então sábado que vem vamos beber no teu apê, ok?
Ri.
- Minha mãe vai estar lá, cara.
- Chama ela para beber com a gente. Ela vai adorar afogar as mágoas.
- Vou pensar nisso.
- Veja e me avise.
Quando cheguei em casa, minha mãe tinha preparado uma macarronada caprichada. O cheiro estava delicioso.
Depois do banho, sentei-me à mesa para comer. Conversamos sobre o dia e contei sobre a decisão da Wanda.
- Não me surpreende – ela comentou.
Passamos o restante da noite assistindo a um seriado coreano e conversando aos poucos. Nós tentávamos, silenciosamente, reconstruir algo que nunca deveria ter sido quebrado.
No dia seguinte, Trajano não apareceu novamente na PHX. No começo da tarde, pedi a Bruna, minha secretária, que cancelasse todos os meus compromissos. Eu precisava sair.
Dirigi até a casa de Trajano. Precisava falar com ele e Cecília.
Ao entrar, depois de ser recebido pela empregada, encontrei Wendy sentada no sofá, mexendo distraidamente no celular.
- Wendy! – chamei, tentando soar leve.
Ela virou-se surpresa.
- Bruno! Você por aqui?
Caminhei até ela e, antes que se levantasse, dei-lhe um beijo rápido no rosto, como sempre fazia ao cumprimentá-la. Era um gesto natural entre nós, depois de tantos anos de convivência entre nossas famílias.
Mesmo assim, algo foi diferente. Ela pareceu hesitar por um instante, rígida demais, como se não soubesse como reagir. Seu olhar prendeu-se um segundo a mais no meu. Aquilo me causou um leve desconforto, difícil de explicar.
- Oi… – disse, um pouco trêmula. – Veio ver a Wanda? Ela não está.
- Não. Vim falar com seus pais. A empregada já foi avisá-los.
- Está tudo bem?
- Está. E se não estiver, a gente dá um jeito.
Sorri para tentar quebrar o clima, mas ela continuou tensa.
- Vou subir para o meu quarto – disse, forçando um sorriso. – Foi um prazer te ver, Bruno.
- Vai lá… o prazer foi meu.
Fiquei alguns segundos parado depois que ela subiu. Ainda tentava entender aquela reação dela. Deu tempo também de pegar o celular e responder algumas mensagens urgentes do trabalho.
Pouco depois, vi Trajano e Cecília descendo as escadas. Como já imaginava, os dois pareciam exaustos. As olheiras profundas denunciavam uma noite difícil.
Após os cumprimentos, eles me convidaram para sentar. Ficaram lado a lado no sofá, de mãos dadas, rígidos, como se precisassem daquele contato para não desmoronar.
Respirei fundo antes de falar.
– Antes de mais nada… minha mãe não sabe que estou aqui.
Nenhum dos dois respondeu. Apenas me observaram, atentos.
– Eu vim ver como vocês estão – continuei, sentindo a garganta apertar. – E sei que, assim como está sendo difícil para ela, também deve estar sendo para vocês.
Eles trocaram um olhar rápido. Trajano pareceu abrir a boca para falar, mas Cecília foi mais rápida.
– O que você veio fazer aqui, Bruno?
Engoli em seco. Não dava mais para recuar.
– Eu me sinto responsável pelo término – falei, finalmente. – E precisava dizer isso olhando nos olhos de vocês. Nunca vi minha mãe tão viva quanto nesses últimos anos. Tão feliz. E isso foi por causa de vocês. Por tudo o que deram a ela. Eu devia esse reconhecimento a vocês. Pelo menos isso.
Os olhos de Cecília marejaram.
– Eu entendo o medo que ela teve – continuei, a voz mais baixa. – O medo de me contar, de me perder. Sempre fomos só nós dois no mundo. Mas ela também tem o direito de viver. De amar. De ser amada.
O silêncio se estendeu, pesado.
– Eu já falei isso para ela – acrescentei – mas mesmo assim ela não consegue voltar. E eu sei por quê. É por minha causa. Enquanto ela achar que eu posso me afastar dela… ela não vai se permitir ser feliz com mais ninguém.
Levantei levemente as mãos, num gesto quase de súplica.
– Por isso eu vim aqui. Para pedir, do fundo do coração, que não desistam dela. O coração dela está aqui. E eu prometo que vou fazer minha parte. Vou provar pra ela que tudo o que quero é vê-la feliz.
Eles se entreolharam novamente.
– Eu sei que vocês a amam – continuei, sentindo o peito apertar. – Sei que talvez eu nem devesse estar aqui. Mas estou envolvido nisso até o limite. Eu só preciso saber… vocês ainda a querem?
Minha voz falhou no final.
– Por favor… digam que ainda a querem.
Cecília respirou fundo antes de responder. Um sorriso triste surgiu em seu rosto.
– Você é um bobo, Bruno. Claro que não vamos desistir dela. Estamos machucados, sim. Muito. Mas não foi só por ela ter ido embora. Foram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.
– Muita coisa mesmo – Trajano completou, com a voz rouca.
– Eu sei – respondi. – Houve muita coisa interligada.
Percebi que eles apertaram as mãos.
– Bruno – Cecília continuou – enquanto ela não sentir, de verdade, o seu amor… ela não vai conseguir se abrir para mais nada.
– Mas ela é a pessoa que eu mais amo nessa vida – retruquei, quase num impulso.
Ela me olhou com calma.
– Nós sabemos disso. Todos sabem. Mas, mesmo assim, ela duvida. E você precisa entender por quê.
Fiquei em silêncio, tentando organizar meus próprios pensamentos.
Trajano falou então, mais contido:
– Existem dores que a gente não consegue curar sozinho. Só aprende a conviver. Mas fico aliviado por essa conversa. Deveríamos ter feito isso há muito tempo.
– Eu sei – interrompi. – Mas ela sempre adiava… tinha medo da minha reação.
– Exatamente – ele corroborou.
Assenti devagar.
– Então dessa vez eu vou agir diferente. Posso contar com vocês para ajudá-la a recuperar a alegria? Não só a dela, mas a de vocês também…
Cecília me deu um sorriso tímido, mas eu vi esperanças ali:
– Agora que nossas filhas estão crescidas… reconquistar Marluce é nosso maior sonho.
Houve um silêncio estranho depois disso. Não era exatamente um acordo. Era mais um entendimento silencioso entre pessoas machucadas.
Nos minutos seguintes, conversamos sobre o que faríamos nas próximas semanas. Nada concreto, apenas intenções, pequenos passos, cuidado.
Mas, acima de tudo, eu tinha uma certeza: minha mãe precisava entender que a felicidade dela também era a minha.
Nos dias que se seguiram, a reaproximação com minha mãe tornou-se mais profunda ainda. Conversávamos mais, perguntávamos mais, dividíamos expectativas. Aos poucos, parecia que tínhamos voltado à época da minha adolescência, quando quase não existiam segredos entre nós.
Um dia, ela tocou em um assunto que eu já tinha esquecido.
- Lembra da viagem que eu disse que faria para visitar meus pais? Aquela que você se prontificou a ir comigo?
- Sim… eu tinha esquecido. Ficou para quando mesmo?
Ela hesitou antes de responder.
- Na verdade… eu nunca tive tanta vontade de ir.
- Mas por quê?
Ela sorriu, cansada.
- Eu só queria saber se você ainda estava comigo.
Olhei para ela de verdade. Com calma. Com carinho.
- Eu nunca vou sair da sua vida. Isso nunca passou pela minha cabeça. Mesmo quando vi aquele vídeo. Eu posso ter sido cheio de defeitos, teimoso, imaturo… mas nunca deixaria de estar ao seu lado. Nem nos momentos difíceis. Nem em nenhum outro.
Ela me observava em silêncio, o rosto apoiado nas mãos.
- O que foi? – perguntei, sentindo o rosto esquentar.
- Você nunca foi muito de demonstrar afeto comigo.
Dei um meio sorriso.
- É… talvez eu nunca tenha percebido essa minha falta. Vou mudar isso. Prometo.
O sorriso dela veio devagar, verdadeiro. O melhor que eu tinha visto em muito tempo.
Voltamos a fazer programas juntos. Saíamos para jantar, passeávamos sem pressa pelos shoppings, fomos ao cinema. Às vezes, eu voltava ao meu apartamento só para almoçar com ela, sem nenhum outro motivo além de estar presente.
Também começamos a fazer planos. Prometi levá-la a Paris, para conhecer a Torre Eiffel, caminhar pela Champs-Élysées, ver de perto tudo aquilo que ela sempre citava com brilho nos olhos.
A culpa quase sempre vinha depois desses momentos. Eu tinha dinheiro de sobra e, ainda assim, passei anos sem pensar em proporcionar esse tipo de tempo com a minha mãe.
Mas ainda existia uma barreira clara quando eu tocava no assunto de Trajano e Cecília.
- Eu não quero falar disso agora, Bruno… me perdoa. Está tão bom assim… – ela dizia, desviando o olhar.
- Tudo bem – respondi. – Só me diz uma coisa: você ainda está em contato com eles?
- Não.
Ela me lançou um olhar breve, quase um pedido para que eu não insistisse.
No sábado seguinte, à noite, depois de muita insistência, Remo e Érica foram ao meu apartamento. Quando contei à minha mãe que eles viriam, ela se empolgou de imediato.
- Sempre quis conviver mais com seus amigos.
Ela se arrumou com cuidado. Uma maquiagem discreta, elegante. Um vestido decotado que realçava suas curvas sem exagero. Quando a vi pronta, fiquei alguns segundos parado.
- Você está linda, mãe.
- Obrigada.
A noite foi leve. Bebemos vinho, rimos, relembramos histórias da faculdade e de saídas antigas. Minha mãe gargalhava com o jeito teatral de Remo contar qualquer coisa simples. Fazia tempo que eu não a via tão solta.
Em um momento, enquanto ela e Remo se entretinham em uma conversa, Érica me puxou de lado.
- E a “simpática” da Wis?
- O que tem ela?
- Você e ela… tem alguma coisa à distância?
- Não. Somos só amigos.
- Sei… então, você continua solteiro.
- Sim.
- Adriana virou passado mesmo?
- Acredito que sim.
Ela sorriu de um jeito que eu já conhecia. Aproximou-se do meu ouvido.
- Me liga qualquer dia desses… amigo.
Sorri de volta. Senti uma agitação leve no corpo. Talvez pelo vinho. Talvez por ver minha mãe relaxada, rindo, tranquila. Talvez pelas duas coisas ao mesmo tempo.
- Quem sabe eu ligo mesmo.
Na hora de ir embora, Remo e minha mãe se abraçaram por mais tempo do que eu consideraria normal. Ainda assim, aquilo não me incomodou. Só me deixou atento.
- Foi um prazer te conhecer, Marluce – ele disse, antes de beijar seu rosto.
- Agora gostei – ela brincou. – Parou de me chamar de senhora.
- Senhora? Que senhora o quê? Você é uma bela dama. O Bruno que ficava te escondendo…
Ela riu, sem constrangimento, confortável em ser vista daquela forma na minha frente.
Levantei as mãos.
- Sou inocente nessa – eu disse.
Quando eles foram embora, minha mãe ficou parada me observando, os olhos brilhando, ainda com a taça de vinho na mão.
- Gostei do seu amigo… e da sua amiga também. Ela parecia bem interessada em você. Eu tinha razão, não é?
Não respondi. Apenas sorri.
- Sei o que você está pensando… – ela disse, depois de alguns segundos.
- Estou pensando que minha mãe é linda. E livre para fazer o que quiser. E que eu vou estar ao lado dela sempre.
Ela me encarou, surpresa.
- E isso inclui até eu dar uns pegas no Remo?
Dei de ombros. E olhando em seus olhos, reforcei:
- Você merece ser feliz, mãe.
Nesses dias, a mentoria com Wis continuava normalmente, profissional até demais. Ela não me deu qualquer abertura que eu pudesse aproveitar e introduzir o assunto pessoal que nos envolvia.
Com Wanda, as conversas por mensagem se tornaram mais frequentes, embora limitadas. Falávamos basicamente dos nossos pais, dos investimentos dela e do andamento do divórcio. Também combinamos de não nos encontrar naquele primeiro momento.
- Acho melhor me preservar enquanto resolvo essa situação com o Vitor – ela me informou, por áudio.
- Concordo integralmente – respondi.
E Adriana… nenhum sinal. Também não fui atrás. Na verdade, não tive coragem de procurá-la, embora pensasse nela o tempo todo.
Na semana seguinte, tudo parecia estranhamente estável. Contínuo.
Minha mãe parecia mais viva. Nossa relação tinha melhorado muito. Eu sentia que ela voltava a confiar nos meus sentimentos e sorria fácil sempre que eu demonstrava carinho.
Na sexta-feira, Wanda me mandou uma mensagem, satisfeita, dizendo que Vitor tinha concordado com os termos do divórcio.
> Wanda: ele entendeu que não tinha mais como continuar.
> Bruno: receio que ele continue insistindo para te reconquistar.
> Wanda: não vai. Ele sabe que acabou de vez. Desejo que ele seja feliz daqui para frente. Infelizmente, não posso dar a felicidade que ele quer.
> Bruno: você está segura disso?
> Wanda: totalmente.
> Bruno: quanto tempo até o divórcio sair de vez?
> Wanda: duas ou três semanas.
> Bruno: rápido.
> Wanda: quando as duas partes concordam, sim
Aquela rapidez me deixou inquieto. Não parecia normal.
Duas semanas depois, o divórcio ainda não tinha saído.
- É só burocracia – ela me tranquilizou por telefone.
Minha mãe, por outro lado, continuava evitando qualquer menção a Trajano e Cecília. Para piorar, não dava sinal algum de que pretendia retomar aquele vínculo – e isso começava a me incomodar mais do que eu admitia..
Eles também não me procuravam. Eu só tinha notícias quando perguntava.
- Estamos levando – Trajano respondia, sempre do mesmo jeito.
Já minha mãe parecia querer sinalizar que estava em outra fase.
- Quando o Remo vem aqui de novo? – perguntava, com aquele sorriso malicioso que eu já conhecia.
- Talvez sábado… – eu respondia, rindo, tentando tratar como brincadeira.
Nesse sábado em questão, no começo da tarde, eu estava no shopping com ela. Minha mãe fazia compras animada. Eu segurava as sacolas, mexendo no celular enquanto esperava.
Vi algumas ligações perdidas do Remo. Em seguida, uma mensagem da Érica.
> Erika: tem algo que eu preciso te contar
Ela começou a digitar. Aquilo me deixou ansioso. Eu já imaginava o assunto. Antes que a mensagem chegasse, minha mãe voltou e me puxou para outra loja.
Quando parei novamente e olhei o celular, a mensagem tinha sido apagada.
> Bruno: oi? O que você ia me contar?
Nenhuma resposta.
Foi então que levantei os olhos.
Um casal vinha em minha direção.
Adriana.
E Denis.
Denis?
Meu estômago afundou.
Adriana caminhava com o peito inflado, postura rígida, o queixo erguido. Segurava o braço de Denis com firmeza. Ele, ao contrário, parecia desconfortável, encolhido, com os ombros tensos e o olhar fugindo do meu, claramente querendo estar em qualquer outro lugar.
Quando se aproximaram, para minha surpresa, foi ele quem falou:
- E aí, Bruno.
- Denis – respondi com um aceno breve. – Adriana.
Ela não respondeu. Não me cumprimentou. Apenas me encarava, sem piscar, deixando evidente toda a mágoa que carregava.
- Fazendo compras? – Denis perguntou, a voz trêmula.
- É… – apontei para as sacolas. – Minha mãe. Estou acompanhando.
- Bom, só vim cumprimentá-lo… a gente já vai indo – ele disse, virando-se para Adriana. – Vamos?
- Sim – ela respondeu, sem tirar os olhos de mim.
Antes que se afastassem, minha mãe parou ao meu lado. Observou a cena em silêncio, sem interferir.
Enquanto os via se distanciando, Adriana não olhou para trás nenhuma vez.
Naquele instante, entendi o que Érica queria me contar. E por que Remo tinha tentado me ligar tantas vezes.
- Quatro semanas depois… – sussurrei.
- Não sabia que Adriana era tão imatura – comentou minha mãe.
Senti-me derrotado.
- Talvez seja a forma que ela encontrou de seguir em frente…
- Não acho que isso seja seguir em frente.
- Não sei… acho que devo perder as esperanças, né?
Minha voz falhou no final. Meus olhos arderam, mas me segurei.
- Vamos voltar pro seu apartamento – minha mãe disse, segurando meu braço de leve – Já deu por hoje.
Desmarquei com Remo e Érica. Eles entenderam e se mostraram disponíveis para conversar, mas eu queria apenas me resguardar.
Minha mãe também não insistiu. Deixou-me quieto no quarto. Eu queria ser forte, mas tudo que consegui foi chorar, sentado no chão, encostado na cama, no escuro.
Não era exatamente dor por Adriana. Era arrependimento. O peso do que eu tinha feito. O tamanho das consequências que agora eram só minhas.
Entendia que não havia mais nada a fazer. Ela estava seguindo em frente. Eu teria que juntar meus cacos e fazer o mesmo.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Estranhamente, não tive medo de desabar. Havia dor, mas não desespero. Talvez fosse isso que chamavam de amadurecer.
Então o interfone tocou.
Não tive coragem de levantar. Pouco depois, ouvi a porta do quarto de hóspede se abrir. Agradeci por minha mãe estar ali.
Alguns segundos depois, uma batida na minha porta.
- Bruno? – era minha mãe – Vem atender… é para você.
- Para mim?
- Sim. Você precisa atender.
Levantei-me quase sem pensar e acendi a luz. Olhei-me no espelho. Olhos vermelhos, inchados. Limpei como pude, mas não havia como esconder.
Quando abri a porta do quarto, ouvi minha mãe se trancando no dela. Estranhei. Dei um passo na direção do seu quarto, mas a campainha tocou.
Fui até a porta de entrada e abri.
Levei um susto.
Era Wanda.
Ela levantou uma embalagem de batatinhas fritas do McDonald’s como se fosse um troféu.
- Surpresa! – ela disse, com uma pompa que não se sustentou. O sorriso não chegou aos olhos.
- Você? – balbuciei.
- Achei que você precisaria de companhia esta noite…
- Então, você sabe…
- Sei.
Sentamos à mesa da cozinha. Peguei um suco de pêssego para acompanhar as batatinhas. Ela aceitou.
- Como você soube? – perguntei.
- Ela postou no Instagram.
- Ah…
Dei um sorriso curto, que não durou.
Comemos em silêncio por alguns instantes. Eu olhava mais para a embalagem do que para ela.
- Eu não sabia se você ia querer falar… – disse Wanda, com cuidado. – Ou se preferia só companhia. Eu topo os dois. Se quiser conversar, conversamos. Se quiser só ficar em silêncio, eu fico também.
Levantei os olhos.
- Obrigado por vir.
O silêncio se alongou entre nós.
- Lembrei daquele dia em que atravessei a cidade pra te levar batatinha frita.
Um sorriso surgiu sem que eu pedisse.
- Acabei conhecendo sua família inteira naquele dia.
- Eu lembrei disso o caminho todo até aqui.
A mão dela encontrou a minha, hesitante, como se pedisse permissão.
- Não queria que você passasse a noite sozinho.
- Nem eu queria – murmurei.
O silêncio voltou, mais denso.
- Dói – falei por fim. – Eu achei que estava preparado… mas não estava.
Ela não respondeu. Só me observava.
- Não é raiva dela. É… consequência. É saber que fui eu que levei a gente até aqui.
Respirei fundo.
- Quando contei pra Adriana sobre nós, ela saiu daqui revoltada. Com razão. Disse coisas duras.
Wanda ficou imóvel.
- Imagino – disse baixo.
- Ela falou de você.
Wanda não perguntou o quê. Eu falei mesmo assim.
- Disse que tudo que ela fez naquele vídeo… você fez também.
Ela engoliu em seco e desviou o olhar.
- Não sei se existem outros vídeos – continuei. – E, sinceramente, isso não muda nada pra mim. Era a dinâmica que vocês tinham naquela época. Eu fiquei com ciúmes quando vi… mas isso foi imaturidade minha. Eu não tinha direito de cobrar nada.
Silêncio.
- Eu nunca vi nada seu. Nem tenho interesse em ver. Não é isso.
Ela levantou o olhar.
- Então o que é?
Pensei antes de responder. Talvez não devesse dizer.
- Eu só… não entendo por que isso importou tanto. Pra você. Pra ela.
Escolhi as palavras com cuidado.
- Vocês brigaram entre si por causa desses vídeos… e por minha causa. Eu só queria entender onde eu entro nisso tudo.
Ela ficou rígida, mas não se defendeu.
- Não estou te cobrando – acrescentei, rápido. – Só… tentando entender.
Wanda demorou a responder.
- Comecei terapia – disse por fim.
- Adriana também.
Ela me olhou surpresa.
- Engraçado… – murmurei, mais para mim do que para ela. – Eu sempre achei vocês duas muito diferentes. Mas, olhando agora… talvez não sejam tanto assim.
O silêncio mudou de peso.
- Eu deveria ter falado com ela sobre o vídeo – continuei. – Na hora em que terminei.
Parei um instante.
- Mas a verdade é que terminei quando soube do encontro dela com o Gustavo. Foi impulso.
Passei a mão no rosto.
- Não foi só isso. Tenho pensado muito nesses dias. Revendo tudo. Acho que… terminei por culpa.
Wanda me olhou com atenção.
- Pela traição. Por nós dois.
Engoli em seco.
- Era como se eu já estivesse esperando que ela fosse embora em algum momento. Como se soubesse que, quando ela descobrisse tudo, não ia conseguir ficar. Então… eu fui lá e fiz primeiro.
Dei um sorriso fraco.
- Um jeito covarde de me proteger. De não precisar encarar o momento em que ela me deixaria.
O silêncio entre nós se adensou.
- Hoje fico pensando que antecipei um fim que talvez nem fosse acontecer daquele jeito. Ou que aconteceria… mas não naquele momento.
Respirei fundo.
- Eu não dei escolha pra ela. Decidi por nós dois. E agora tenho que viver com isso.
- Por nossa causa? – Wanda perguntou, quase sem voz.
Balancei a cabeça.
- Pela minha culpa. Só minha.
Ela abaixou o olhar, visivelmente afetada.
- Ei… – acrescentei, mais suave – Não foi você. Eu fiz escolhas. Você não tinha qualquer chance. Eu que estraguei tudo.
Ela demorou a responder.
- Não é só isso… – disse por fim. – É a forma como você fala daquela época.
- Da época de vocês quatro?
Ela assentiu.
- Mas eu disse que não vejo problema. Vocês estavam em acordo. Era o relacionamento de vocês.
Wanda sorriu, mas o sorriso não se sustentou.
- Você é sempre… gentil comigo.
Silêncio.
Ela parecia querer dizer algo, mas não dizia.
- Eu e a Adriana… – começou.
Parou. Respirou.
- Somos mais parecidas do que você imagina. Na dor… e no amor.
Esperei.
- Não estou entendendo.
Ela abriu a boca para responder, mas ouvimos passos no corredor.
Minha mãe vinha em nossa direção.
Wanda se levantou assim que ela apareceu.
- Tia… eu sinto muito.
Minha mãe não pareceu surpresa. Apenas a abraçou.
- Você já me disse isso, Wanda. Está tudo bem.
Ficaram alguns segundos assim. Um abraço mais de cuidado do que de consolo. Depois se sentaram.
Minha mãe nos observava com uma curiosidade silenciosa.
Eu e Wanda nos entreolhamos, sem saber quem falaria primeiro.
- Desculpa de novo, tia… – Wanda disse por fim.
Minha mãe soltou um suspiro leve.
- Já passou – segurou a mão dela – E, no fim… talvez eu até tenha que te agradecer.
Wanda franziu a testa.
- Por causa disso tudo… eu e o Bruno voltamos a nos aproximar. Sem silêncio. Sem mal-entendido.
Wanda assentiu devagar.
- Fico feliz por isso. Imagino que tenha sido difícil pra senhora.
- Foi… mas não tanto quanto poderia ter sido.
Wanda lançou um olhar rápido para mim e depois voltou para minha mãe.
- Eu torço para que a senhora e meus pais se acertem.
Minha mãe ergueu as sobrancelhas, sem agressividade.
- Torce mesmo?
O tom não era acusatório. Era curioso, o que fez Wanda baixar o olhar por um instante.
- Eu não queria que nada disso tivesse escalado.
- Eu sei.
Minha mãe fez um carinho nas mãos dela.
- E já te disse… talvez eu devesse te agradecer.
Wanda respirou fundo.
- Eu nunca tive objeção ao relacionamento de vocês. Nunca. Por favor, acredite em mim.
O sorriso da minha mãe foi sincero e sereno.
- Eu acredito, meu anjo. Fique tranquila, tá?
O silêncio voltou, mais espesso.
Minha mãe nos observava como quem junta peças. Olhou para mim. Depois para Wanda. Depois para a embalagem de batatinha frita sobre a mesa.
- Acho que interrompi alguma coisa – disse ela.
- Não – respondemos ao mesmo tempo.
Ela sorriu de leve.
- Vou deixar vocês conversarem.
Então, levantou-se. Deu alguns passos e parou, virando-se para Wanda.
- Posso te fazer uma pergunta estranha?
Wanda assentiu, já tensa.
- Você conseguiria viver um relacionamento… com o homem que ama… sabendo que ele também ama outra mulher além de você? E que essa outra mulher ama esse homem com a mesma intensidade que você?
Wanda ficou sem reação. Seu rosto corou.
Minha mãe então olhou para mim.
- E você, Bruno? Conseguiria amar alguém… sabendo que ela também ama outro homem além de você?
Franzi a testa.
- Mãe… o que isso tem a ver?
Ela deu um pequeno sorriso.
- Nada demais. Só curiosidade.
E saiu.
A porta do quarto se fechou com um clique suave.
Eu e Wanda continuamos sentados à mesa. Nenhum de nós se mexeu. Evitei encará-la. A pergunta da minha mãe ainda pairava entre nós, como se tivesse ficado ali, ocupando espaço. Wanda também permaneceu quieta.
O tempo passou sem medida. O bastante para perceber que aquilo não era apenas ausência de fala. Havia coisa demais ali.
- Posso usar seu notebook? – Wanda perguntou de repente.
Olhei para ela.
- Agora?
- Preciso resolver algo.
O tom não era urgente. Era decidido.
Assenti.
- Claro.
Levei-a até o meu quarto. Abri o notebook sobre a mesa e deixei logado, o navegador já aberto. Quando me afastei, ela ainda me observava.
Demorei um segundo para entender.
- Vou te deixar à vontade – falei – Qualquer coisa, estou na sala.
Ela apenas assentiu.
Saí e fechei a porta atrás de mim.
Não sei quanto tempo passou.
A porta do quarto se abriu e Wanda apareceu de volta na sala. Havia algo diferente no rosto dela, não exatamente medo, mas pressa contida.
- Eu preciso ir – disse, sem rodeios.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não. Estou bem. Só… preciso ir agora.
Fiquei em silêncio por um instante, tentando entender.
- Deixei algo no seu notebook – ela acrescentou – Quero que você veja depois.
- Algo pra mim?
Ela assentiu.
- Mas não precisa ver agora. Só… vê.
Aquilo me deixou alerta.
- Espera, eu te levo. Só pegar a chave do carro.
Ela negou com um gesto suave, mas firme.
- Não precisa. Já pedi um Uber. Chega em cinco minutos.
- Wanda…
Ela se aproximou e me abraçou. Um abraço rápido, mas mais forte do que o habitual, como se estivesse tentando me acalmar antes de ir.
- Não esquece de olhar, tá?
- Tá bem.
Ela se afastou, pegou a bolsa e foi até a porta. Não disse mais nada.
Quando a porta se fechou, fiquei parado no meio da sala, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Não perdi tempo. Fui direto ao meu notebook.
Na tela, um documento do Word aberto. Uma… carta. Um texto escrito por ela, endereçado a mim. Atrás da janela do Word, o navegador permanecia aberto. Uma caixa de e-mail estranha, descartável. Vários e-mails listados. A maioria com a palavra “vídeos” ou alguma variação dela.
Mas havia outros: “insanidade”, “aniversário do papai”, “roleta russa”, “nojeira”, “amorzinho” e “estacionamento”.
E muitos mais.
Cliquei em “insanidade”.
Nenhum texto. Apenas um vídeo anexado. O download levou poucos segundos. Pareceram longos demais. O vídeo abriu.
Wanda estava de costas, numa passarela, à noite. Carros passavam lá embaixo. Ruas vazias. Claramente de madrugada.
- É aqui que você quer? – a voz de Vitor, atrás da câmera.
- Sim – respondeu Wanda. A voz carregada de excitação.
Ele levantou a saia preta dela, revelando uma calcinha fio dental vermelha.
- Olha essa minha putinha… a calcinha enfiada no cu.
Vitor puxou a calcinha de lado. Wanda empinou a bunda para trás.
- Me come gostoso, Vitor… – ela virou o rosto por cima do ombro. – Você não queria tesão? Então toma.
Ele começou a se masturbar. O pau, maior e mais grosso que o meu, ocupava a tela.
- Se você for no meu cu, eu vou acordar todos esses prédios – ela riu, ameaçando.
- Não me importo.
- Duvido.
Ele hesitou. Acabou penetrando-a pela bocetinha e começou a estocar com força. Para Wanda, aquilo parecia… comum. A maneira como recebia as investidas. A naturalidade. A intensidade. Havia algo cru ali. Hipnótico.
Ela se retraiu um pouco.
- Vai devagar… tem gente vindo.
Vitor riu.
- Quero que vejam. Essa gostosa quem come sou eu. O amor da minha vida.
A mão dele pousou no ombro dela, como se quisesse mantê-la ali. Ela tentou se soltar.
O vídeo acabou.
Fiquei parado.
Não soube nomear o que senti. Confusão. Algo atravessado. Por que ela queria que eu visse isso?
Hesitei um pouco, mas a curiosidade venceu. Eu veria mais um.
Cliquei em “aniversário do papai”.
Wanda estava de joelhos em um jardim. Algumas plantas ao redor garantiam certa privacidade. Reconheci a casa dela. Foi em um período muito anterior. Ela olhava para a câmera com um ar provocativo.
A câmera virou, mostrando mesas ao fundo. Pessoas conversando. Claramente o aniversário do Trajano. Depois voltou para Wanda.
- Vai, amor. Chupa o pau do teu namorado no aniversário do teu pai.
Ela sorriu, como se aceitasse um desafio. Abocanhou o pau com habilidade. Movimento seguro. Natural. A perícia me lembrou Adriana. “Somos parecidas”.
A imagem era… difícil de ignorar. Havia algo ali, uma dualidade estranha. A princesa e a puta no mesmo corpo. Vitor não demorou. Gozou na boca dela. Ela engoliu tudo.
Fechei o vídeo e respirei fundo.
Mas não parei.
Cliquei em “roleta russa”.
O quarto parecia de hotel. Câmera fixa. Vitor e Gustavo sentados, nus, em cadeiras, frente a frente. Wanda e Adriana se revezavam entre eles.
Elas sentavam. Cavalgavam. Mudavam de parceiro. Riam. Falavam obscenidades. O tesão alto. Uma competição implícita para ver qual deles gozaria primeiro.
- Acho que o Vitor vai ganhar… – disse Adriana, ofegante.
- Também acho – riu Wanda. – O Gustavo tá quase gozando.
Gustavo estava de olhos fechados, tentando se controlar. Vitor, mais relaxado, sorria satisfeito. A dinâmica se estendeu por um tempo, mas não aguentei ver até o final.
Fechei o vídeo.
Minha respiração pesou. Sufocante. Qualquer resquício de excitação desapareceu quando Adriana apareceu na cena.
Afastei a cadeira e me levantei, tentando me recompor.
Eu não conhecia Adriana naquela época. Então por que aquilo me incomodava tanto? Não tive uma resposta rápida. Outros questionamentos apareceram.
Também não entendi por que Wanda queria que eu visse tudo aquilo. Eu já não tinha dito que não me importava? Então por quê? O que ela queria que eu enxergasse ali?
Voltei o olhar para o notebook. A lista de e-mails. Os títulos. A quantidade.
Então percebi o Word minimizado.
Wanda tinha escrito algo para mim.
Aproximei-me de novo. Abri o documento.
O texto era simples. Curto. Direto ao ponto.
“Bruno,
Eu quero muito você. De muitas formas. Sem rótulos. Apenas quero. Só que não posso ter você sem que você saiba quem eu fui. Pode parecer uma loucura te mostrar tudo assim, eu sei, mas não vejo outra forma.
Eu não me arrependo do que vivi. Eu me entrego às coisas, sempre fui assim. Não fui forçada a nada. Por isso, não culpe ninguém além de mim.
Admito que gostei de muitos momentos, sim. Como não gostar? Eu amo sexo. Você falou que eu estava no meu direito, que tudo era de comum acordo. OK! Agora fala isso para o meu coração…
Não estou te cobrando nada. E entendo se depois do que ver, você não quiser mais saber de mim. Porém, não posso viver sabendo que escondo algo de você.
Por que sua opinião importa tanto para mim? Não sei explicar. Só sei que importa.
Wanda”
Quando terminei, senti como se um peso enorme tivesse me atravessado o peito. Fiquei parado diante da tela, sem saber para onde olhar, sem saber o que fazer com as mãos.
A carta. Os e-mails. Os vídeos. Muitos deles.
Reli a carta.
À primeira vista, soava impulsiva. Quase desesperada. Mas, relendo com calma, havia mais ali. Muito mais. Coisas nas entrelinhas. Uma história que não tinha terminado, mas que também não podia avançar do jeito que estava.
Pela primeira vez naquela noite, senti algo diferente do choque.
Responsabilidade.
Ela tinha se exposto. Sem defesa. Sem filtro. E, de alguma forma, aquilo me colocava no centro de algo que eu ainda não compreendia por inteiro.
Levantei-me sem pensar muito. Peguei as chaves do carro. Quando percebi, já estava saindo. Por Wanda. E isso me assustou mais que deveria.
Trafegando pela cidade, liguei para ela. Uma vez. Duas. Na terceira, ela atendeu.
- Onde você está? – perguntei, sem conseguir esconder a pressa.
- Bruno? Mas… o que foi?
- Onde você está agora, Wanda?
Ouvi-a respirar fundo do outro lado da linha.
- Eu… estou voltando para casa.
- Em que ponto?
- Perto.
- Perto de onde? – minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
- Do Centro de Eventos.
Rapidamente me situei.
- Certo. Vai para aquele restaurante italiano onde a gente comeu uma vez. Me espera lá.
- Mas… por quê? O que aconteceu?
- Eu estou indo buscar você.
- Bruno, não pre…
- Já estou a caminho. Me espera.
Desliguei.
Depois daquela carta, eu sabia que ela me esperaria.
Demorou alguns minutos até eu chegar. Estacionei de qualquer jeito. O pneu cantou no asfalto. Nem desliguei direito o carro.
Saí apressado. Procurei com os olhos. Encontrei.
Wanda estava parada perto da entrada, segurando o celular nas duas mãos. Quando me viu, ficou imóvel. Confusa. Sem entender.
Fui até ela com passos largos. Não havia mais o que pensar.
Nossos olhos se encontraram.
Eu a puxei para um abraço.
Forte.
Senti o corpo dela ceder quase imediatamente, o rosto afundando no meu peito, como se já estivesse esperando por aquilo sem saber. Os braços dela me envolveram com uma urgência silenciosa.
- Sua boba… – minha voz falhou antes de terminar. – Sua tola…
Respirei fundo, tentando organizar o que nem eu entendia direito.
- Eu já não tinha te dito que você não ia mais sair da minha vida? – murmurei – Te dei todos os meios para me encontrar.
Senti o ombro dela tremer.
- Eu estou aqui – continuei, mais baixo. – E não vou desaparecer de novo. Não quero passar outros seis anos longe de você. Não consigo mais.
Afastei só o suficiente para olhar o rosto dela.
- Nunca mais, Wanda.
As lágrimas vieram sem resistência. Passei o polegar pelo rosto dela, devagar.
Ficamos alguns segundos apenas nos olhando, respirando o mesmo ar.
- Eu entendo você – falei – Pelo menos… estou tentando.
Ela parecia esperar por aquilo havia muito tempo.
- Você sempre esteve comigo, sabia? – acrescentei – Mesmo quando a gente estava longe. Eu nunca esqueci você. Em nenhum momento.
Engoli em seco.
- Não me importo com rótulos. Não agora. Só sei que você faz parte da minha vida. E eu não vou deixar você se afastar de mim outra vez. Então… vai ter que lidar com isso. Consegue?
O sorriso dela veio misturado com choro.
- Consigo. Consigo demais.
Nos abraçamos de novo. Mais calmos. Mais conscientes.
O mundo em volta continuava existindo, mas eu não liguei.
- Vamos – falei depois de um tempo – Vamos pro meu apartamento.
Ela me olhou, curiosa.
- Confia em mim.
Ela assentiu sem hesitar.
No caminho, paramos num mercantil para comprar algumas coisas básicas. Ela avisou os pais onde dormiria. Não houve questionamento.
Quando já estávamos perto do meu prédio, senti a mão dela procurar a minha. Olhei de lado. Ela sorria de um jeito leve. Aliviado. Como se algo pesado tivesse finalmente se deslocado do lugar.
E, pela primeira vez naquela noite, eu também consegui respirar melhor.
No meu apartamento, ofereci o quarto para Wanda. Ela tentou recusar, mas aquilo não estava em negociação.
Quando entramos, o notebook ainda estava aberto. A carta. Os e-mails. A tela iluminando o quarto.
Ficamos alguns segundos parados, constrangidos diante daquilo que ainda estava exposto.
- A carta e os e-mails são seus agora. Faça o que quiser com eles – ela disse.
Olhei para ela, tentando entender.
- Não me importo mais com eles – continuou – Não tenho mais nada para esconder.
Respirei fundo. Uma ideia começou a se formar antes mesmo de eu entender completamente o que significava.
Sentei-me na cadeira. Aproximei a mão do mouse. Virei o rosto por cima do ombro.
- É meu mesmo?
- É – respondeu, firme.
Voltei-me para a tela. Selecionei todos os e-mails. A lista inteira. O cursor ficou piscando por um segundo. Cliquei. Removi todos. A caixa de entrada esvaziou.
Abri a lixeira. Apaguei de novo. Limpo. Seco. Fechei o notebook.
- Pronto – falei – Não preciso disso. Sei quem você é. Só isso me basta.
Quando me levantei, percebi que ela estava emocionada. Os olhos brilhando, mas em silêncio.
- A carta eu salvei – acrescentei – Essa fica.
Ela assentiu, sem dizer nada.
Apontei para o guarda-roupa.
- Pega uma blusa minha. Fica mais confortável pra dormir. Tem lençóis novos ali embaixo.
Wanda abriu a porta com cuidado, como se estivesse entrando em algo delicado.
- Vou ficar na sala – falei – Qualquer coisa, me chama.
Esperei um segundo. Só o suficiente para ter certeza de que ela estava bem.
Então saí e fechei a porta devagar.
Olhei para a porta do quarto da minha mãe. Fechada. Provavelmente já dormia.
Fui para o sofá e me joguei nele. O corpo inteiro cansado. A cabeça ainda girando.
Tinha sido um dia longo demais. Adriana. Wanda. E uma sensação estranha que não soube nomear.
Tentei organizar os pensamentos, mas não consegui. Tentei relaxar. Também não deu.
O celular vibrou.
> Wanda: vem aqui
Levantei-me e fui até o quarto. Abri a porta devagar.
A luz do celular iluminava metade do rosto dela. Estava deitada no lado esquerdo da cama.
- Deita aqui – disse, batendo de leve no colchão ao lado. – Fica comigo até eu dormir.
Sorri sem perceber.
Enquanto caminhava até a cama, um pensamento atravessou: ela ainda era casada. Em nenhum momento tínhamos falado do divórcio naquela noite. Aquilo me incomodou por um segundo. Afastei a ideia. Não era o momento.
Deitei-me ao lado dela. Frente a frente.
Mesmo na penumbra, conseguíamos nos enxergar.
Ela puxou minha mão e segurou.
Senti vontade de acariciá-la, mas me contive. Não era a hora.
- Se não der certo com a Adriana… – disse ela, de repente – você vai ter muitas pretendentes.
O nome de Adriana ainda doía.
Forcei um sorriso cansado.
- Não é para tanto.
Ela riu baixo.
Fiquei olhando para ela por um momento. Era estranho pensar que estávamos ali, na minha cama, no meu lar.
Isso me fez lembrar por um instante da época em que estudávamos no curso de Jornalismo. Da nossa amizade construída aos poucos com tanto carinho.
- Ainda não sei o que eu quero – falei, num impulso.
Ela pareceu absorver a frase com calma.
- No momento certo, você vai saber.
Assenti.
Ficamos em silêncio.
Aos poucos, senti a respiração dela desacelerar. Os olhos pesando. Quando achei que tivesse dormido, tentei soltar minha mão.
Ela apertou.
- Você vai sair da minha vida? – murmurou, quase dormindo.
Aproximei-me com cuidado e beijei o seu rosto.
- Nunca – respondi, em voz baixa.
Ela se acomodou no travesseiro, ainda segurando minha mão. Pouco depois, dormiu de verdade.
Esperei alguns minutos antes de me levantar. Observei-a por um instante. Ela estava tranquila. Sem a tensão de antes.
Fechei a porta do quarto com cuidado.
Não lembro de ter chegado ao sofá. O cansaço era absoluto. Quando acordei, já era de manhã.
O cheiro de café dominava o apartamento. Vozes vinham da cozinha.
Fui até lá ainda meio cambaleante. Quando me viram, minha mãe e Wanda sorriram, como se aquela manhã fosse absolutamente comum.
- Bom dia, dorminhoco – disse minha mãe.
- Tava te esperando pra me deixar em casa. Pode ser? – perguntou Wanda.
- Claro – respondi, ainda tentando acordar de verdade.
Tomamos café juntos. Conversa leve. Assuntos pequenos. Minha mãe observava mais do que falava.
No caminho até a casa de Wanda, o carro seguiu tranquilo. Não demos as mãos. Não falamos do que tinha acontecido na noite anterior. Ela comentou lembranças antigas. Histórias da faculdade. Coisas leves.
- Lembra quando te levei naquela exposição de games? – perguntou.
- Lembro… por quê?
- A camisa que peguei pra dormir tinha a logo do PlayStation.
Sorri.
- Nem percebi. Tava escuro.
Ela riu baixo.
Quando chegamos à casa dos pais dela, a despedida foi rápida. Natural demais para o que tinha sido a noite passada. Não lembro se trocamos palavras. Só o beijo no rosto. Foi leve. Mas mexeu mais do que eu esperava.
Ela entrou. Antes de fechar a porta, acenou com a mão. Esperei um pouco. Posso jurar que escutei o clique da porta se fechando. Então fui embora.
O restante do domingo passou como um borrão. Meu corpo parecia pesado. A mente, ainda mais. Pensar cansava. Passei boa parte do dia no quarto, dormindo mais do que acordado. Não era fuga. Era exaustão.
À noite, depois do jantar, estávamos na sala. Minha mãe quebrou o silêncio:
- Você estava dormindo tão bem à tarde… preferi não te acordar.
Dei de ombros.
- Gostei disso – ela completou.
Olhei para ela. Entendi o que queria dizer. Não era sobre o sono.
Sorri de leve, mas não respondi.
Ela, por sua vez, pareceu satisfeita e aliviada. Meia palavra bastava.
Na segunda-feira, acordei bem. Cansado, ainda atravessado pelo que tinha acontecido no sábado, mas… bem.
Quando entrei na minha sala na PHX, dei de cara com Denis me esperando. Ele parecia assustado.
- O que faz aqui? – perguntei, mais surpreso do que irritado.
- Cara… eu… me desculpa por sábado. Eu não quis te provocar.
Sentei-me devagar, recostando na cadeira. Observei-o por alguns segundos. Ele não me devia nada. Muito menos Adriana. Ainda assim, estava ali.
- Quando te avistei… – ele continuou, nervoso – eu tentei evitar. Preferi ficar longe pra não criar uma situação desagradável, mas…
- Para, Denis.
Ergui a mão, interrompendo.
Não queria que ele colocasse uma culpa imaginária sobre Adriana. Não era necessário. Também não senti raiva. Só… cansaço.
Ficava claro o quanto ele era inexperiente. E mais claro ainda o quanto estava sendo usado, talvez sem perceber.
Levantei-me e fui até a janela.
Do 18º andar, a cidade se abria inteira diante de mim. Aquela vista sempre me ajudava a pensar em decisões financeiras. Hoje, não.
Sem me virar, perguntei:
- O que você sente por ela, de verdade?
O silêncio atrás de mim durou alguns segundos.
- Eu gosto dela – respondeu, por fim. – Sempre gostei. Nunca tentei nada por respeito a você… ao relacionamento de vocês.
Aquilo me pegou de surpresa. Nunca tinha percebido. Mas também não me abalou como antes teria abalado.
Respirei fundo.
- Você veio pedir desculpas… – falei – Já sei como pode se desculpar.
- Como? – a pergunta saiu rápida, quase ansiosa.
Virei-me para ele. Olhei direto em seus olhos.
- Nunca a machuque, Denis. Nunca.
Fiz uma pausa deliberada.
- Faça ela feliz com tudo que puder. Se fizer isso… aceito suas desculpas. E nada muda entre a gente. Prometo.
Ele demorou a reagir, mas assentiu. A tensão no corpo era visível. Talvez não esperasse aquilo.
Ou talvez entendesse o peso.
Afastei-me da janela.
- Agora vamos trabalhar. Temos muito o que fazer.
Ele respirou fundo, tentando recuperar o eixo.
- Só se for agora, chefe.
Mergulhei no trabalho.
Nunca estive tão focado como naquela semana que começava. Era mais do que disciplina. Era necessidade. Enquanto trabalhava, eu não pensava. Decidi que não haveria luto amoroso que me atrapalhasse.
A mentoria com Wis foi impecável em conteúdo. Ela percebeu minha energia diferente.
- O que você tem? – perguntou – Nunca te vi tão inspirado.
- A vida seguindo… – respondi, tentando soar leve. Talvez enigmático.
Ela me observou por um segundo a mais, como se avaliasse a resposta. Não insistiu. E nem podia. Ela ainda me devia uma conversa.
Wanda voltou a falar comigo ao longo da semana. Os mesmos assuntos de sempre, mas não menos interessantes. Principalmente, o andamento do divórcio. Até que veio a mensagem que me tirou do eixo.
> Wanda: Vitor me pediu pra fazermos algumas sessões de aconselhamento de casal
> Bruno: e você?
> Wanda: não tenho interesse, mas…
Parei olhando para a tela. Sabia o que viria depois. Ela acabaria aceitando. E aceitei isso também, em silêncio. Era um problema dela. O casamento dela. Eu não tinha direito a interferir. Respondi pouco, com cuidado, para não transparecer qualquer incômodo de minha parte.
Denis passou a semana retraído. Andava pelos corredores como se ocupasse menos espaço do que de costume. Alguns perceberam. Outros evitaram comentar. Encontrei-o na copa na quarta.
- Relaxa – falei – Está tudo bem.
Ele me olhou como se ainda esperasse algum julgamento.
- A PHX precisa do seu melhor. Você é capaz, meu amigo.
Sorri de forma sincera. E segui meu dia.
Remo e Érica, curiosamente, não me bombardearam com perguntas.
> Remo: até tentei entrar em contato, mas sua mãe disse que era melhor te deixar quieto
> Bruno: minha mãe?
> Remo: sim, falamos com ela pelo direct do Instagram
> Bruno: interessante
> Erika: queríamos te ver… mas ela disse que você estava bem
> Bruno: estou bem, de fato. Vida que segue. Obrigado pela preocupação.
Minha mãe já entrava na quinta semana morando comigo. De vez em quando, passávamos na casa dela para buscar alguma roupa ou objeto que ainda faltava.
Aos poucos, percebi que ela começava a deixar marcas discretas no meu apartamento – um arranjo diferente na estante, uma toalha nova na cozinha, pequenas presenças que não pediam permissão.
Não me incomodava. Pelo contrário. Ela parecia mais leve ali, mais tranquila comigo.
Ainda assim, eu sabia que aquilo era provisório. Mais cedo ou mais tarde, ela teria de encarar o próprio futuro afetivo. E, quando esse momento chegasse, não seria mais sobre mim.
Na sexta-feira, o que eu já esperava aconteceu.
> Wanda: aceitei fazer dez sessões de aconselhamento com ele
> Wanda: a primeira é amanhã de manhã
> Wanda: depois de tudo que vivemos, acho que é o justo, o mínimo que posso fazer ainda
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
> Bruno: entendo
> Wanda: o que foi? acha que me precipitei?
> Bruno: não, longe disso…
Digitei outra mensagem. Apaguei. Digitei de novo. Apaguei outra vez. Qualquer palavra que viesse carregaria mais do que eu queria mostrar.
Respirei fundo.
Ela era casada. Ainda era. E talvez houvesse, de fato, algo ali que merecesse ser tentado. Eu era um amigo recém recuperado. Era isso que eu precisava ser.
> Bruno: acho que o aconselhamento pode ser bom
> Bruno: se houver algo a salvar, não haverá local melhor para descobrir
> Bruno: aconteça o que acontecer, estarei aqui. Como seu amigo.
Enviei.
A resposta não veio. Nem naquela noite. Nem no sábado. Não insisti. Dei o tempo que ela precisava para lidar com isso.
Porém, constatar o óbvio doeu mais do que eu esperava: por mais que houvesse algo sendo reconstruído entre nós, ela ainda tinha um vínculo enorme com Vitor. E não seria simples romper isso. Não da noite para o dia. Talvez, o subconsciente dela nem mesmo quisesse.
Por outro lado, eu não queria ficar parado. Havia uma energia absurda correndo pelo meu corpo, como se eu precisasse gastar aquilo antes que me consumisse por dentro. A vida precisava seguir. Nem que fosse à força.
Liguei para Remo.
- Qual a boa de hoje? Balada?
- Tenho uma melhor. Vamos beber até amanhecer aqui no meu apê. Eu, você e a Érica.
- Perfeito. Preparem os ouvidos…
- São todos seus.
Começamos cedo. Bebemos. Falamos. Rimos. Contei tudo. Sem filtro. Desabafei bastante. No fim, uma decisão.
- Por uma nova história – falei, levantando o copo – Eu mereço.
Brindamos.
Eles trocaram um olhar entre si. Malicioso. Cúmplice. Percebi de imediato. E, pela primeira vez em dias, senti o desejo subir sem culpa.
Érica estava linda. E disponível.
Não sei exatamente quando começou. Num momento, ela estava no colo do Remo. No seguinte, os dois se beijavam com urgência, línguas duelando, mãos sem freio.
Fiquei olhando, sentindo meu corpo responder.
Ela acariciava o pau dele por cima da roupa. Ele subia as mãos pelas pernas dela. Depois cochicharam algo. Ela riu em minha direção. E se levantou e veio até mim.
- Achou que ia ficar sem beijo?
Érica sentou-se no meu colo e me beijou antes que eu respondesse. Retribuí com fome. Sem pensar. Sem planejar.
Fomos para o quarto de Remo. Ela nos despiu. Nós dois duros. Ela calma, fez um striptease curto, totalmente segura de si. Eu já estava à beira de gozar só olhando.
Começou nos chupando, revezando. Boca quente. Ritmo bom. Remo desceu para entre as pernas dela. Eu senti a respiração dela mudar. Ela me chupava enquanto ele a lambia.
Depois parou. Subiu em mim e começou a cavalgar sem pressa, mas com firmeza.
Remo se aproximou. Ele a puxou pela nuca e enfiou o pau em sua boca. Ela chupava enquanto quicava em mim.
Mudamos de posição. De quatro. Depois de lado. Tudo sem roteiro. Só fluxo.
Eu não pensava. E era exatamente isso que eu queria.
No ápice, ela montou em Remo e olhou para mim por cima do ombro.
- Vem no meu cu.
Fui.
Entrei. Ela arqueou o corpo e gemeu alto, descontrolado.
Remo a segurava pela cintura. Eu empurrava por trás. Ela gritava para não pararmos.
Eles se beijaram. Longo. Íntimo. E por um segundo, tive a sensação estranha de ser convidado numa intimidade que já existia antes de mim. Não me incomodou. Pelo contrário.
Continuei socando e socando, até gozarmos quase juntos.
Enchi o cu de Érica com muita porra e, em seguida, caí de lado na cama. Meu corpo estava leve, a mente vazia. E muito exausto também. Parecia que a quantidade de bebida ingerida estava cobrando o seu preço.
O melhor, pelo menos para mim: não pensei em Wanda. Nem em Adriana. Não pensei em nada.
Só apaguei, satisfeito como nunca.
Na manhã seguinte, acordei sozinho na cama, com uma ressaca pesada e a boca seca. Levantei-me com certa cautela e fui até a cozinha. O cheiro de café forte parecia um oásis.
Érica me viu e sorriu. Ela veio até mim e me abraçou sem cerimônia.
- Dormiu bem?
- Dormi… – respondi, ainda meio grogue.
Olhei ao redor.
- Cadê o Remo?
- Foi na padaria.
Assenti.
- Vou no banheiro. Jogar uma água no rosto.
Ela me soltou. Entrei no banheiro e não consegui fechar a porta. Érica veio atrás e a encostou com o pé. Sem dizer nada, entrou, trancou-a e abaixou minha cueca. Meu corpo ainda lento, mas reagindo.
Quando percebi, ela já me chupava.
O susto virou resposta quase imediata. Em poucos segundos, eu estava duro. Sentei na tampa da privada e ela continuou, concentrada, como se tivesse esperado por aquilo. O boquete era seguro, decidido. Não havia hesitação.
Eu ainda tentava acordar quando o prazer me atropelou. Não demorou e gozei. Ela engoliu tudo com naturalidade e, ao terminar, abriu a boca num gesto quase provocativo.
- Você mereceu essa – disse, tranquila. – Ontem foi… incrível. Era algo há muito tempo desejado por mim.
Fiquei olhando para ela, tentando entender o peso da frase. Não era só sobre a noite anterior. Havia algo ali que eu ainda não tinha alcançado.
Ela percebeu minha confusão, mas apenas sorriu, misteriosa. De repente, sua cara parecia de prazer puro.
- Se a Wis sonhar com isso…
- Vocês precisam parar com isso…
Respondi tentando parecer leve, mas a lembrança me incomodou. Érica não se importou.
- Vai se assear. O Remo já deve estar voltando com o pão.
Ela se levantou, destrancou a porta e saiu como se nada tivesse acontecido.
Fiquei alguns segundos parado no banheiro, ainda tentando acompanhar o próprio ritmo das últimas horas. Minha vida parecia ter acelerado de forma estranha. E eu ainda não sabia se estava correndo atrás… ou sendo levado.
Resolvi tomar um banho.
A água ajudou a organizar um pouco as ideias, mas não completamente. O que tinha acontecido com Érica mexera mais do que eu esperava. Até então, tudo parecia apenas físico, circunstancial. Agora não tinha tanta certeza. Por um instante, passou pela minha cabeça a possibilidade de ela realmente gostar de mim de um jeito diferente. Remo já tinha falado disso antes.
Mas a lembrança dos beijos dela com Remo voltava logo em seguida e desmontava qualquer hipótese romântica. Sempre os enxerguei como um casal em potencial. De algum modo, pareciam certos um para o outro. Talvez fossem. Talvez funcionassem melhor assim, livres. Não era meu papel entender.
Quando saí do banheiro, Remo já tinha voltado com o pão. Sentamos à mesa como se nada tivesse acontecido. E, de fato, não havia peso. Apenas uma leve cumplicidade silenciosa.
- Bem que poderíamos repetir – disse Érica, casualmente. – Se todos estiverem solteiros, é claro.
- Eu topo – Remo foi rápido no gatilho.
Eles me olharam com expectativa.
- Quem sabe… – respondi, rindo.
Não fiquei muito mais tempo no apartamento dele. Tinha prometido almoçar com minha mãe e logo me despedi.
Parado em um sinal qualquer, peguei o celular. Nenhuma mensagem da Wanda. “O aconselhamento deve ter dado resultado”, pensei. “Vida que segue. Sou apenas um amigo.”
Guardei o celular no bolso. A frase parecia madura, correta e necessária. Mas não exatamente verdadeira. Resignado – ou tentando ser – segui o trajeto.
Passei o restante do domingo na companhia da minha mãe. E isso me recuperou mentalmente para a semana que se iniciaria.
Na segunda-feira, mal cheguei à PHX e já estava tentando mergulhar no trabalho quando o celular vibrou. Era uma chamada de vídeo da Wis.
Atendi.
Assim que a imagem abriu, ela apareceu na tela com uma energia diferente. Mais leve. O sorriso chegava aos olhos.
- Quando você vai tirar férias?
Não houve sequer um cumprimento.
- Eu? – ri, tentando parecer casual. – Sou dono. Não tiro férias.
- Tira sim, se quiser – ela retrucou de imediato. – Papai disse que você tem meses acumulados.
- Ele anda bem informado.
Observei melhor o rosto dela. Havia algo ali. Uma tranquilidade nova. Ou uma decisão tomada.
- Por que quer saber das minhas férias? – perguntei.
Ela não hesitou.
- Porque quero que você venha passar uns dias comigo, se hospedando no meu apartamento. Aqui em Nova Iorque… e logo.
O tempo pareceu desacelerar por um instante.
Não sei que expressão fiz. Talvez nenhuma. Talvez tenha ficado imóvel demais. A única coisa que me ocorreu foi um pensamento simples, quase automático.
A vida precisa seguir.
Mas… será?
Continua...
Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.
Obrigado pela compreensão por conta do atraso deste capítulo.