A cana apodrecida

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Homossexual
Contém 1940 palavras
Data: 02/01/2026 21:53:17

Nova Orleans, 17 de setembro de 1768

Meu estimado Philip,

Escrevo-te em estado que mal reconheço como meu. Há dias em que desperto com a sensação de haver cometido faltas que ainda não sei quais, como se minha consciência se movesse à frente de mim, deixando-me para trás, confuso e ofegante. Tento ordenar os pensamentos, submetê-los à razão, mas eles retornam em círculos, insistentes, febris, sempre conduzindo ao mesmo ponto obscuro que evito encarar. Pergunto-me, com crescente temor, se ainda sou senhor de mim ou apenas um espectador tardio das próprias decisões.

E com esse espírito atormentado fui ao bordel três semanas atrás em busca de prazer, de alguns minutos de alívio dessa realidade opressora em que estou. Ao chegar, primeiramente, solicitei uma garrafa de vinho, pois isso tem me ajudado também no entorpecimento das minhas angústias – pelo menos enquanto o efeito dura.

O lugar fervilhava como de costume: risos ensaiados, perfumes densos, promessas que não sobrevivem ao amanhecer. Naquela noite, não sei bem explicar, mas havia algo estranho no ambiente. Observei que as mulheres estavam mais belas, vestidas como se estivessem em um baile da alta sociedade. Também notei que os homens as desejavam como animais, agarrando-as e beijando seus corpos bem no salão. A própria madame. Mattie Silks, dona do bordel, estava acompanhada de três cavalheiros bastante desejosos de lhe possuir.

Foi ali, entre o rumor dos copos e o ranger das escadas, que o sr. Crowley surgiu. Não me foi surpresa, pois estranhamente já o sentia e também por alguma razão desejava vê-lo. Contei-lhe, depois de algumas palavras, e sem entender por que o fiz, o estado calamitoso de nossas terras. O canavial, Philip… há algo de muito estranho com ele. As folhas secam em pouco tempo, os caules cedem ao toque como carne fatigada, e por dentro a cana está negra como as penas de um corvo e há ali uma substância gosmenta e fétida a qual jamais vi. Niguém até agora tem nos dado alguma explicação sobre tal fenômeno.

Crowley ouviu-me com atenção, mas sem espanto algum, como se já houvesse percorrido aquele campo em pensamento. Disse-me, então, que certas terras, quando exploradas até o esgotamento, cobram seu tributo. E acrescentou algo que me deu uma gota de esperança, num tom tão sereno que me inquietou:

— Há colheitas, meu belo jovem, que exigem sacrifício antes de florescerem novamente.

Suas palavras pousaram em mim como um presságio cuja forma eu ainda não sabia identificar. Ele me falou que tudo pode se resolver, mas que naquela noite eu devia esvaziar a mente das preocupações excessivas. Porém, não tivemos ocasião de prolongar a conversa. Quando o indaguei sobre como fazer isso diante do caos que estava em minha casa, três belas mulheres aproximaram-se dele com familiaridade excessiva. Dentre elas estava a srta. Guillot, usando um vestido vermelho vivo muito bonito e com semblante diferente, com um ar de quem era dona de si mesma — completamente o oposto de quando a conheci quando foi escrava do meu pai. Vi-lhe a mão pousar no braço dele, e algo em mim se contraiu de modo violento e irracional. Não era desejo por ela — disso tenho certeza —, mas uma sensação corrosiva, quase febril, ao vê-la reclamar o que eu julgava, sem jamais ter sido, exclusivamente meu.

O sr. Crowley voltou-se para mim e olhando nos meus olhos disse, com voz baixa, como se compartilhasse um segredo:

— O prazer, Louis! O prazer pode aliviar a mente das preocupações, e há prazeres que não se disputam, … apenas se atravessam. Se quiseres compreender, vem.

Nesse instante não sei se foi pelas várias emoções que eu sentia, se pelo excesso de vinho que tomei antes, ou se havia alguma fonte de luz no salão, mas vi que os olhos do sr. Crowley tinham um brilho estranho, vermelho como fogo que me fizeram tremer de alto a baixo. E me levantei e os segui escada acima. Não por vontade clara, mas porque recusar o convite me pareceu insuportável.

No quarto, Philip, senti-me estrangeiro no próprio corpo. Inicialmente, observei mais do que participei; e quanto mais via, mais um ciúme doentio me consumia. Não pelas mulheres que o cercavam — elas eram quase invisíveis para mim —, mas por ele. Cada gesto seu, cada inclinação da cabeça, cada sombra projetada pela luz trêmula dos lampiões, feria-me como afronta pessoal. Era como se sua atenção, ao não repousar inteira sobre mim, me fosse roubada à força.

A srta. Guillot parecia coordenar as outras duas, como se estivesse instruindo-as no que elas deviam fazer ou não fazer. Ela olhou para as mulheres e em seguida segurou o sr. Crowley pelo rosto e o beijou com tamanha luxúria que pareciam amantes apaixonados. Ele, enquanto a beijava, não tirava os olhos dos meus, e sorria para mim maliciosamente. De repente, senti uma vertigem, um mal estar, que precisei me assentar em uma poltrona até me recuperar.

Enquanto isso, cada uma das outras duas mulheres o beijaram da mesma forma que a srta. Guillot, e nesse instante, esta o despia, primeiro a parte de cima, tirando as peças e as colocando em um cabide, e então tirou seus sapatos e finalmente as calças, deixando-o completamente nu. Por mais que eu tentasse olhar para aquelas três belas mulheres ali, meus olhos estavam fixos no corpo de Alastor, nos seus músculos delineados, no seu peito forte e com poucos pelos, no seu abdômen com músculos marcados, e no seu enorme membro apontando para cima, em uma curvatura pouco acentuada. O tamanho dele e a robustez estranhamente me impressionaram. A srta. Guilhot começou a lamber a glande daquele mastro grande e duro e aos poucos o engoliu, mesmo engasgando-se. As duas mulheres o beijavam e acariciavam seu corpo demasiadamente pálido – só nesse momento eu percebi o quão pálida era a sua pele!

A seguir, as três mulheres revezaram no pênis do sr. Crowley, fazendo-o se contorcer de prazer e dizer algumas obscenidades que não atrevo replicar aqui. Então, ele estendeu o braço e fez um sinal com o dedo me chamando para juntar-me a eles. Eu não tive forças para declinar o convite, meu próprio instrumento duro dentro da minha calça denunciava meu desejo de estar ali com eles. Quando afinal me aproximei, o ambiente pareceu ter sido iluminado por uma luz que não sei de onde vinha. E junto a essa luz, uma névoa sutil pairou no quarto. Não guardo a sequência exata dos fatos... Na verdade, minhas lembranças desse ponto em diante ficaram fragmentadas e confusas. Lembro-me da srta. Guillot me beijar, me despir completamente e fazer carícias no meu membro; lembro-me também de estar completamente nu, sentindo um calor excessivo, e então ouvi vozes que vinham de todos os lados sussurrando algo nos meus ouvidos, mas lembro apenas algumas palavras: escuridão, sacrifício... colheita, sangue, poder...

Na próxima cena que me lembro, as três mulheres se aproximavam de mim, alternadamente, apoiando-se sobre as mãos e joelhos sobre o leito, e o sr. Crowley me conduzia a penetrá-las, vez ou outra segurando minha ferramenta. É estranho e demasiadamente vergonhoso te dizer isso, meu amigo, mas senti o instrumento dele tocar minhas costas, nas minhas nádegas, enquanto ele me acariciava o corpo, estando eu a penetrar as mulheres. Embora tomado de um prazer inigualável, eu me recordo neste momento, do toque gélido do corpo daquele homem... ou talvez minha mente esteja fabricando imagens e sensações como tem acontecido ultimamente. De qualquer forma, em minha mente, lembro-me de tentar resistir e sair dali, mas meu desejo me dominava e me impulsionava a me aprofundar naquele prazer.

Philip, por favor, te peço encarecidamente, que não me julgues como desses homens efeminados que se relacionam com outros homens. Salvo o que tive contigo, que foi meramente por curiosidade e prazer em ser desejado, jamais pensei em fazer essas coisas com um homem. Estou neste momento aos prantos enquanto escrevo esta carta, embora confesse que a lembrança dos fatos, ainda que confusa, me causem uma excitação doentia.

O que vagamente lembro a seguir é que eu estava dentro da srta. Guillot prestes a chegar ao clímax do prazer, quando alguém fez em mim, na minha parte traseira, o que ela faz com a língua no meu orifício. Não sei dizer se fora uma das outras duas jovens ou... não! Só pode ter sido uma delas! Philip, o prazer que senti, disso me lembro bem, foi indescritível, o qual eu não resisti e me derramei dentro dela sentindo espasmos fortes pelo corpo inteiro. Depois que saí da srta. Guillot, todas as três me beijaram enquanto alguém colocou meu pênis ainda bastante rígido na boca e sugou os resquícios de meu sêmen. Então, o sr. Crowley penetrou as três novamente e, sentindo o ápice do prazer, retirou seu membro e se derramou na boca da srta. Guillot. Eu estava jogado no leito nesse instante, e então lembro da srta. Guillot se erguer e vir até mim, segurar meu rosto para me beijar. Tentei resistir, mas não tinha forças.

Philip, eu ainda sinto o gosto daqueles beijos e isso me faz o estômago revirar. Não me alimento e nem durmo direito há dias, sempre com os fragmentos de lembranças vívidos na minha mente. Saí de lá com a sensação de haver ultrapassado um limite que julgava intransponível do que considero como ser homem.

Nos dias que se seguiram, o mundo pareceu-me alterado, como se uma película turva se interpusesse entre mim e as coisas. O relacionamento com meu pai tem se agravado ainda mais. Ele insiste em me acusar de ser portador de mau agouro e me amaldiçoa pelo modo com que trato os escravos. Tenho pensado em deixar a mansão e ir para longe daqui, mas ele tem me negado acesso às finanças, com ameaças de me deserdar caso eu saia de casa. Então, eu ainda permaneço aqui, neste inferno que se tornou esta casa.

Desde aquela noite, ainda não vi o sr. Crowley. Tenho ficado em casa o máximo de tempo possível, sobretudo à noite, por receio de encontrá-lo. Entretanto, as imagens daquela noite me atormentam e meu corpo parece estar sempre em chamas de desejo, deixando meu membro enrijecido em momentos impróprios, de forma que preciso me aliviar com as mãos, às vezes duas, quatro, cinco vezes ao dia. Além disso, por três vezes tive o mesmo sonho. Sonho com a plantação apodrecida, cheia de vermes e insetos... e o sr. Crowley nu e com o membro em riste, sempre estranhamente sereno a me chamar no meio do canavial. Por trás dele, vejo a lua cheia em um céu escuro e sem estrelas. Ao seu lado está a srta. Guillot, igualmente nua, deitada sobre um lençol de brancura extrema. Mas então, me aproximo e começo a fazer amor com ela com vigor, enquanto o sr. Crowley está de pé ao nosso lado, apenas observando. No seu rosto, um sorriso se satisfação e prazer, e na sua boca uma gota de sangue escorre até seu queixo. Porém, olho para a srta. Guillot e percebo o corpo dela coberto de sangue e sem vida. Mesmo assim, me derramo dentro dela. Acordo aterrorizado, suado e com as calças molhadas indicando que cheguei ao ápice do prazer durante o sono. Tenho a sensação de que há alguém me observando todas as noites. Pior do que isso, meu amigo, eu tenho o pressentimento de que sei que ele está a me observar.

Escrevo-te tomado por um cansaço que não é físico. Se houver em ti algum juízo que ainda me falte, rogo que me respondas com alguma sabedoria, algum conselho, alguma explicação satisfatória, ou alguma palavra que me conforte o coração atribulado.

Teu sempre,

Louis M. Devante

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