O Cadeirante - A Proposta e a Surpresa (Pt. 03)

Da série O Cadeirante
Um conto erótico de tessy
Categoria: Heterossexual
Contém 3875 palavras
Data: 13/01/2026 00:31:47

## A Proposta

Lúcia me encara do chão onde está ajoelhada, rosto manchado de lágrimas e rímel borrado, boca entreaberta em choque. A proposta paira no ar entre nós como veneno gasoso—invisível mas letal.

— Você... você tá falando sério? — ela finalmente consegue articular, a voz saindo num fio áspero e quebrado.

— Completamente — respondo, e minha voz tem aquela qualidade plana e fria que desenvolvi nas últimas semanas. Não é raiva. Raiva é quente, descontrolada. Isso é cálculo. — Pensa bem, Lúcia. Você não me ama mais. Eu descobri que também não te amava. Mas você precisa de mim. Do meu seguro de invalidez. Dos vinte e três mil reais mensais que pagam esse apartamento, tua comida, tuas roupas, e ainda sobram oito mil que você guarda na poupança. Já conferi.

Ela engole seco. Seus olhos se arregalam com a menção específica dos valores, da poupança que ela achava secreta.

— E eu preciso de você — continuo, cada palavra medida e deliberada como peça de xadrez. — Porque nenhuma clínica vai me dar o cuidado personalizado que você dá. Porque contratar enfermeira particular custa quinze mil por mês e ainda assim teria qualidade inferior. Porque legalmente, enquanto você for minha esposa, você tem acesso a todas as minhas contas, meu plano de saúde, minha reabilitação. Divórcio complica tudo. Cria burocracia. Demora anos. Custa caro.

Levanto a mão esquerda—a que não treme—e conto nos dedos:

— Então aqui está a proposta: Você fica. Continua sendo minha esposa no papel e na prática de cuidado. Mas três vezes por semana, digamos segunda, quarta e sexta, das vinte horas às vinte e duas, Thiago vem aqui. Não para fisioterapia. Para te foder. Na nossa sala. Enquanto eu assisto.

O silêncio que segue é tão denso que consigo ouvir o zumbido do refrigerador na cozinha, o tique-taque do relógio de parede, a respiração irregular dela.

— Você... quer assistir? — ela sussurra, e há algo no tom—não apenas horror, mas também confusão genuína, como se estivesse tentando decifrar um idioma alienígena.

— Não quero — corrijo. — Preciso. Porque se vai acontecer—e nós dois sabemos que vai—então acontece onde eu posso VER. Onde eu existo. Onde vocês dois precisam me olhar nos olhos e lembrar que eu ESTOU AQUI. Que cada gemido seu, cada penetração dele, cada orgasmo, acontece sob minha supervisão. Sob minhas REGRAS.

Ela continua me encarando, e vejo o cérebro dela processando, calculando. Lúcia não é burra. É enfermeira formada, passou em concurso público antes de pedir demissão para me cuidar. Ela consegue fazer as contas.

— E o Thiago? — ela pergunta. — Você acha que ele vai aceitar isso? Transar comigo com você... assistindo?

Sorrio. É um sorriso torto, vazio de calor.

— Ah, Lúcia. O Thiago vai aceitar. Porque eu também tenho uma proposta para ele. E aposto minha perna morta esquerda que ele vai dizer sim.

***

Thiago chega na terça-feira às quatorze horas para a sessão de fisioterapia regular. Ele veste o uniforme de sempre—calça de moletom preta, camisa polo azul marinho com logo da Fisio Vita bordado no peito, tênis branco impecável. O cabelo está penteado com gel, a barba aparada perfeitamente rente ao maxilar, o sorriso profissional já no lugar quando Lúcia abre a porta.

— Boa tarde, Dona Lúcia! — ele diz, aquela voz grave e quente que imagino usando nela quando gemem juntos. — Como está o Rafael hoje?

— Está... bem — Lúcia responde, e ouço a hesitação na voz dela. Porque eu contei. Contei ontem à noite que hoje, durante a sessão, eu faria a proposta para Thiago. Ela implorou para eu não fazer. Chorou. Disse que era humilhação demais. Eu ignorei.

Thiago entra no quarto onde estou deitado na cama em posição supina, vestindo apenas shorts adaptado, o peito nu exposto para os exercícios. Ele coloca a mochila no chão, tira o tapete de exercícios, e se aproxima com aquele sorriso que já vi em cem sessões anteriores.

— E aí, Rafael! Pronto para trabalhar hoje? Vamos focar em fortalecimento de core, o que acha?

— Acho que a gente precisa conversar primeiro — digo, e meu tom—totalmente diferente do habitual—o faz parar a meio metro da cama.

O sorriso vacila. Só um segundo, mas vacila.

— Conversar? — ele repete, cauteloso. — Sobre a reabilitação? Alguma dor nova?

— Senta — ordeno, apontando para a poltrona. — Isso vai demorar.

Ele olha para Lúcia, que está parada na porta do quarto, braços cruzados sobre o peito, rosto pálido. Ela desvia o olhar. Thiago franze a testa, confuso, mas obedece. Senta na poltrona, as mãos grandes e calejadas repousando sobre as coxas musculosas.

— Eu sei — digo, sem preâmbulo, sem delicadeza.

O rosto dele não muda. Ainda está levemente confuso, levemente sorridente, mas vejo a rigidez que entra nos ombros, a forma como os dedos se contraem imperceptivelmente contra o tecido da calça.

— Sabe... o quê? — ele pergunta, e a voz saiu meio segundo devagar demais. Ele está ganhando tempo.

— Que você fode minha esposa — respondo, calmamente, como se estivesse comentando o clima. — Sei há nove dias. Vi vocês. Primeira segunda-feira de dezembro, por volta das vinte e duas horas, no tapete da sala. Você por trás, ela de quatro, duraram dezesseis minutos. Ela gozou. Você também, imagino, embora não tenha visto porque você se retirou antes de ejacular. Dentro de camisinha, provavelmente. Você parece do tipo cuidadoso.

O sangue drena do rosto de Thiago. Ele fica cinza, literalmente cinza, como se toda a hemoglobina tivesse abandonado os capilares da pele. A boca abre. Fecha. Abre de novo.

— Rafael, eu... — ele começa, e a voz é rouca agora, toda aquela confiança profissional evaporada como álcool em chama. — Puta merda, eu posso explicar, não foi—

— Planejado? — completo por ele, e sorrio. — Eu sei. Li o diário da Lúcia. Vocês não planejaram. Foi espontâneo, urgente, dois adultos miseráveis buscando consolo na carne um do outro. Muito romântico.

Ele se levanta da poltrona num movimento brusco, as mãos indo para os cabelos, os dedos se enterrando nas mechas escuras.

— Caralho. Caralho. — ele murmura, andando de um lado para o outro no pequeno espaço entre a poltrona e a cama. — Eu vou ser demitido. Vou perder minha licença de fisioterapeuta. Relacionamento com paciente... porra, ESPOSA de paciente... isso é violação ética nível—

— Senta — ordeno novamente, a voz mais dura agora. — Senta e me escuta.

Ele para. Me olha. Há pânico real nos olhos castanhos dele, aquele tipo de pânico de animal encurralado que pode tanto fugir quanto atacar. Por um segundo tenho medo—medo real de que ele perca o controle, pule em cima de mim, enfie um travesseiro na minha cara e sufoque o homem paraplégico que sabe demais. Seria fácil. Eu não poderia resistir.

Mas ele não faz isso. Ele respira fundo, três vezes, e senta de novo. As mãos tremem levemente quando repousam sobre os joelhos.

— O que você quer? — ele pergunta, e agora a máscara profissional caiu completamente. É apenas um homem de vinte e oito anos, assustado, culpado, esperando o machado cair. — Dinheiro? Não tenho muito, mas posso parcelar. Você quer que eu saia da vida de vocês? Eu saio. Transfiro você para outro fisio, invento desculpa, nunca mais chego perto. O que você quer?

Inclino a cabeça, estudando-o. É interessante, a forma como seres humanos entram em modo de negociação quando encurralados. Como ficam dispostos a dar qualquer coisa, prometer qualquer coisa, apenas para escapar da consequência.

— Não quero dinheiro — digo. — E não quero que você saia. Quero exatamente o oposto. Quero que você fique.

Confusão substitui o pânico no rosto dele.

— Quero que você continue fodendo minha esposa — continuo, e observo como a confusão se aprofunda, as sobrancelhas se franzindo, a boca se abrindo em incompreensão. — Mas não escondido. Às claras. Três vezes por semana, segunda, quarta e sexta, das vinte às vinte e duas. Aqui, nesse apartamento, na sala. Enquanto eu assisto.

O silêncio que segue é absoluto. Thiago me encara como se eu tivesse acabado de falar em aramaico antigo. Vejo o cérebro dele travando, reiniciando, tentando processar.

— Você... quer me pagar para transar com sua esposa... enquanto você assiste? — ele finalmente articula, cada palavra saindo devagar, testando se entendeu corretamente.

— Não — corrijo. — Já te pago pelas sessões de fisioterapia. Isso seria adicional, sem custo extra. Considere um... arranjo mutuamente benéfico. Você ganha acesso continuado e legitimado a Lúcia. Ela ganha continuidade do que a está mantendo mentalmente estável. Eu ganho controle sobre uma situação que já estava acontecendo de qualquer forma.

Thiago balança a cabeça, como se tentasse desalojar água dos ouvidos após mergulho.

— Isso é... isso é loucura — ele sussurra. — Rafael, você bateu a cabeça? Trauma craniano que não diagnosticaram? Porque isso que você tá falando não é—

— Racional? — interrompo. — É perfeitamente racional. Olha os fatos: Lúcia precisa de sexo. Você provê sexo. Ela precisa do meu dinheiro e da minha estabilidade financeira. Eu preciso dos cuidados dela. Você precisa... bem, isso me leva à segunda parte da conversa.

Cruzo os dedos sobre o peito, assumindo postura quase professoral.

— Joana Cavalcanti — digo, e vejo o sobressalto. — Vinte e três anos. Estudante de enfermagem. Sua namorada há dezenove meses. Você não posta foto com ela desde novembro do ano passado. Por quê? Porque está traindo ela com Lúcia e a culpa não deixa você fingir felicidade nas redes sociais. Joana é boa garota, cristã, batista, acredita em casamento, em futuro, provavelmente já está escolhendo nome de bebê na cabeça dela. E você? Você tá fodendo paciente casada.

Thiago está branco de novo, as mãos apertando os joelhos com força suficiente para os nós dos dedos ficarem brancos.

— Se eu contar para Joana — continuo, a voz suave mas carregada de ameaça implícita — ela te deixa. Imediatamente. Menina batista não perdoa traição, ainda mais traição com mulher casada. E ela não vai ficar quieta. Vai contar para a família, para os amigos da igreja, e a comunidade evangélica de São Paulo é pequena, Thiago. Muito pequena. Em duas semanas todo mundo vai saber.

— Você não faria isso — ele diz, mas não há convicção na voz.

— Não faria — concordo. — Se você aceitar minha proposta. Segunda, quarta e sexta. Vinte às vinte e duas. Você chega, cumprimenta, e fode minha esposa enquanto eu assisto da cadeira de rodas posicionada a três metros do sofá. Depois você vai embora, Lúcia me coloca na cama, e todos seguimos com nossas vidas. Simples.

Thiago fica em silêncio por tempo longo. Vejo a mandíbula trabalhando, os dentes rangendo. Ele olha para Lúcia, que ainda está na porta, e há pergunta muda no olhar dele: *Você concorda com isso?*

Ela dá de ombros. Gesto minúsculo, derrotado.

— E se eu disser não? — Thiago finalmente pergunta, virando de volta para mim. — E se eu simplesmente levantar e ir embora? Cortar contato com vocês dois? Você conta para Joana, eu perco ela, mas pelo menos mantenho alguma dignidade?

Sorrio. É um sorriso horrível, eu sei. Vazio e frio como olho de peixe morto.

— Então eu envio os prints das suas conversas de WhatsApp com Lúcia para o Conselho Regional de Fisioterapia — digo, e vejo o último resquício de resistência morrer no rosto dele. — Relacionamento sexual com esposa de paciente sob seus cuidados é violação do código de ética profissional, artigo 2º, inciso VII. Você perde a licença. Permanentemente. E fisioterapeuta sem licença é... o quê? Instrutor de academia de terceira categoria? Ganhar dois mil e quinhentos por mês dando treino para tiozão com hérnia de disco?

Thiago fecha os olhos. Respira fundo. Quando abre de novo, há algo diferente ali. Algo que não consigo identificar imediatamente—resignação, talvez, mas também... também algo mais escuro. Algo que fica nas bordas, observando.

— Segunda, quarta e sexta — ele repete, a voz monótona agora. — Vinte às vinte e duas. Você assiste.

— Correto.

— E se eu fizer isso, você não conta para Joana. Não envia nada para o conselho. Deixa eu seguir minha vida.

— Correto — confirmo.

Ele ri. É um som baixo, amargo, sem humor.

— Você é um monstro — ele diz, e não há raiva na voz. Apenas constatação factual, como se tivesse observado que o céu é azul.

— Sim — concordo, sem hesitar. — Mas pelo menos sou monstro honesto. Agora levanta e faz teu trabalho. Meu core não vai se fortalecer sozinho.

***

A primeira segunda-feira sob o novo arranjo chega como guilhotina—inevitável, fatal, observada por todos mas impedida por ninguém.

Lúcia passou o fim de semana inteiro numa espécie de dissociação funcional. Ela cozinha, limpa, troca minhas fraldas, administra medicamentos, mas faz tudo em silêncio absoluto, os olhos vazios como boneca de porcelana. Tentei conversar duas vezes. Ela não respondeu. Apenas olhou através de mim, como se eu fosse mobília, e continuou suas tarefas.

Às dezenove e quarenta e cinco, ela toma banho. Ouço a água caindo por vinte minutos. Quando sai, veste camisola simples de algodão—nada sexy, nada performático, apenas tecido azul claro que cobre do pescoço aos joelhos. Ela não se maquia. Não penteia o cabelo além do básico. É anti-sedução, uma recusa silenciosa de participar da teatralidade que estou impondo.

Às dezenove e cinquenta e cinco, me transfere para a cadeira de rodas e me empurra até a sala. Posiciona a cadeira a três metros do sofá, exatamente como especifiquei. A TV está desligada. As luzes estão acesas—luz fria de LED que deixa tudo clínico e exposto. Não há romantismo possível aqui. Apenas anatomia e mecânica.

Às vinte horas em ponto, a campainha toca.

Lúcia abre a porta. Thiago está ali, vestindo jeans escuro e camiseta preta básica. Sem uniforme de trabalho. Isso não é sessão de fisioterapia. Ele carrega uma garrafa de vinho tinto na mão esquerda—Cabernet de cinquenta reais, vejo pelo rótulo.

— Oi — ele diz, e a voz sai estranhamente normal, como se fosse visita social comum.

— Oi — Lúcia responde, o tom igualmente neutro.

Ele entra. Fecha a porta. Caminha até a sala e me vê sentado na cadeira de rodas, mãos repousando nos apoios de braço, rosto completamente inexpressivo.

Nossos olhos se encontram. Algo passa entre nós—desafio, talvez, ou reconhecimento mútuo de predadores dividindo território.

— Rafael — ele diz, acenando com a cabeça.

— Thiago — respondo.

Ele coloca a garrafa de vinho sobre a mesinha de centro e se vira para Lúcia, que ficou parada a dois metros dele, os braços cruzados defensivamente sobre o peito.

— Você... quer vinho? — ele oferece, e há algo quase cômico na normalidade da pergunta dado o contexto absolutamente anormal da situação.

— Não — ela responde.

— Tudo bem — ele diz.

Silêncio se instala. Pesado, sufocante. Ninguém sabe como começar. Como se inicia sexo performático sob supervisão de marido paraplégico sociopata? Não há protocolo social para isso.

— Vocês vão ficar parados a noite toda? — pergunto, quebrando o silêncio. — Porque se for assim, eu volto pro quarto. Isso é entediante.

Thiago inspira fundo. Olha para Lúcia. Dá um passo em direção a ela. Estende a mão, tocando levemente o braço dela. Ela estremece mas não recua.

— A gente não precisa fazer isso — ele sussurra, baixo o suficiente que quase não ouço. — Podemos fingir. Você geme, eu finjo, ele não vai saber a diferença—

— Eu vou saber — interrompo, alto o suficiente para cortar a conspiração pela raiz. — E vocês dois sabem que eu vou saber. Então parem de enrolar e FAÇAM.

Algo muda no rosto de Thiago. A máscara de desconforto e relutância racha, e por baixo vejo... raiva. Raiva real, pura, direcionada a mim. Seus olhos estreitam. A mandíbula se aperta.

— Você realmente quer isso? — ele pergunta, virando-se para me encarar completamente. — Quer assistir outro homem foder sua esposa? Quer ver ela gemer meu nome? Quer contar cada penetração, cada posição, cada segundo que ela prefere estar comigo do que com você?

— Sim — respondo, calmamente. — Quero exatamente isso.

Ele ri. Aquele riso baixo e amargo de novo, mas agora há borda cortante nele. Algo perigoso.

— Então assiste — ele diz.

E num movimento fluido, ele puxa Lúcia contra si, uma mão na nuca dela, e a beija. Não é beijo gentil. É dominante, agressivo, a boca dele tomando a dela com força, a língua forçando entrada. Lúcia resiste por meio segundo, as mãos empurrando o peito dele, mas então—então ela derrete. O corpo relaxa, os braços sobem para circular o pescoço dele, e ela retribui o beijo com igual intensidade.

Eles se beijam por minuto inteiro. Vejo as línguas se movendo, vejo a saliva brilhando nos lábios, vejo as mãos dele descendo pelas costas dela até agarrar a bunda por cima da camisola. Ela geme—som baixo e gutural que sai do fundo da garganta.

Meu pau morto não responde. Claro que não. Lesão medular em T12 destruiu a inervação que permite ereção. Mas algo no meu cérebro responde—algo químico, primitivo, uma mistura de humilhação e raiva e, estranhamente, excitação intelectual. Porque eu CAUSEI isso. Eu orquestrei. Eu tenho o controle.

Ou pelo menos é o que penso.

Thiago quebra o beijo e olha diretamente para mim enquanto suas mãos encontram a bainha da camisola de Lúcia e a puxam para cima, expondo as coxas pálidas dela, a calcinha branca de algodão, a barriga levemente flácida de mulher de trinta e dois anos que já não se preocupa com academia, os seios pequenos sem sutiã balançando livres quando o tecido passa sobre eles.

Ele joga a camisola no chão e recua meio passo, observando o corpo dela como quem avalia mercadoria. E então, ainda me olhando nos olhos, ele fala:

— Ela é linda, Rafael. Pele macia. Seios que cabem perfeitamente na minha mão. Boceta sempre molhada quando eu toco. E sabe o melhor? — Ele sorri, e o sorriso é cruel. — Ela geme meu nome. Nunca gemeu o seu, nem quando transavam antes do acidente?

A farpa atinge. Foi projetada para atingir. Mas não reajo. Mantenho o rosto neutro, as mãos estáveis nos apoios da cadeira.

Thiago tira a própria camiseta, revelando o torso musculoso, os abdominais definidos, os ombros largos. Fisioterapeuta que malha religiosamente, corpo que funciona perfeitamente, tudo que o meu não é mais. A comparação é implícita e devastadora.

Ele guia Lúcia até o sofá e a deita de costas, o corpo dela agora completamente exposto sob a luz clínica de LED. Ajoelha-se entre as pernas dela, as mãos grandes deslizando pelas coxas, afastando-as. Ela arqueia levemente, os olhos fechados, a respiração acelerada.

— Olha, Rafael — Thiago diz, e há veneno na voz agora, crueldade nua. — Olha como ela já tá molhada. Nem encostei direito e ela já tá pronta. É assim que mulher fica quando quer de verdade. Você ainda lembra como é?

Ele enfia dois dedos dentro dela sem aviso. Lúcia grita—surpresa e prazer misturados—e o quadril se ergue do sofá. Thiago bombeia os dedos com ritmo brutal, a outra mão pressionando o baixo ventre dela, e vejo o momento exato em que ela goza—o corpo inteiro se contraindo, a boca se abrindo num "oh" silencioso, as unhas se cravando no estofamento do sofá.

— Primeiro orgasmo — Thiago anuncia, quase casual. — Três minutos. Você alguma vez fez ela gozar em três minutos, Rafael?

Não respondo. Porque a resposta é não, e nós três sabemos disso.

Ele continua. Tira a calça jeans, a cueca boxer, e o pau dele surge—grosso, ereto, veias saltadas ao longo do comprimento. Ele não olha para Lúcia quando enfia a camisinha que tira do bolso da calça. Olha para MIM. Me desafiando, me provocando, transformando o ato sexual em ato de guerra.

E é quando percebo: eu cometi um erro.

Porque Thiago não é vítima relutante dessa situação. Ele está GOSTANDO. A humilhação que pensei estar impondo nele—ele a inverteu. Transformou em arma. E agora está usando essa arma contra mim com precisão cirúrgica.

Ele penetra Lúcia num movimento fluido, e ela grita de novo, as pernas se enrolando ao redor da cintura dele, as unhas riscando as costas musculosas. Thiago fode com ritmo brutal, os quadris batendo contra ela com força que faz o sofá ranger, cada estocada arrancando gemido. E ele não para de falar:

— É assim que ela gosta, Rafael. Forte. Profundo. Você não conseguia dar isso pra ela mesmo antes de quebrar a coluna, conseguia? Você era morno. Rápido. Egoísta. Ela me contou. Me contou tudo. Como você brochava depois de dois minutos. Como nunca fazia oral. Como dormia logo depois de gozar sem se importar se ela tinha gozado.

Cada palavra é tapa. Cada frase é punhalada. E o pior—o PIOR—é que parte disso é verdade. Eu era amante medíocre. Sei disso. Sempre soube.

Thiago muda de posição, virando Lúcia de bruços, puxando os quadris dela para cima até ficar de quatro. Penetra de novo, uma mão agarrando os cabelos dela, puxando a cabeça para trás, arqueando a coluna dela em ângulo que parece doloroso mas que pelo gemido dela é qualquer coisa menos.

— Olha essa bunda, Rafael — ele diz, e a mão livre desce num tapa forte na nádega direita dela. O som ecoa na sala—CLAP—e a marca vermelha aparece instantaneamente na pele pálida. Lúcia geme mais alto. — Ela adora apanhar. Você sabia? Claro que não. Você nunca perguntou o que ela gostava.

Outro tapa. CLAP. Outra marca vermelha. Lúcia está gemendo continuamente agora, o rosto pressionado no estofamento do sofá, o corpo inteiro tremendo.

E Thiago continua olhando para mim. Sorrindo. Aquele sorriso cruel e vazio que espelha o meu próprio. É quando entendo completamente:

Ele é pior do que eu.

Eu sou sociopata que manipula para controlar. Mas Thiago? Thiago é sádico que manipula para DESTRUIR. A diferença é sutil mas fundamental. Eu quero manter o equilíbrio de poder. Ele quer desintegrar completamente.

A sessão dura uma hora e quarenta e sete minutos. Thiago faz Lúcia gozar quatro vezes. Ele goza uma vez, dentro da camisinha, mas continua por mais vinte minutos depois apenas para provar que pode. Quando finalmente termina, Lúcia está exausta, deitada no sofá, o corpo coberto de suor e marcas vermelhas, respirando como se tivesse corrido maratona.

Thiago se veste calmamente, os movimentos medidos. Pega a garrafa de vinho intocada da mesinha.

— Acho que vou levar — ele diz. — Afinal, ninguém bebeu.

Caminha até minha cadeira de rodas. Para diretamente na minha frente, tão perto que consigo cheirar o suor e o sexo na pele dele.

— Mesma hora na quarta? — ele pergunta, e a voz é suave, quase educada.

— Mesma hora — confirmo, e odeio que minha voz saiu um pouco rouca.

Ele sorri. Inclina-se para perto do meu ouvido e sussurra, baixo demais para Lúcia ouvir:

— Você acha que tá no controle. Que orquestrou isso. Mas você não entende ainda: eu QUERIA que você descobrisse. Eu QUERIA que você fizesse essa proposta. Porque agora eu posso fazer o que sempre quis— destruir você lentamente, na frente dos seus olhos, e você não pode fazer nada. Você me deu permissão. Você me convidou pra dentro. E agora, Rafael, eu vou tomar tudo.

Ele se afasta. Acena para Lúcia.

— Até quarta, Lú.

E sai.

A porta fecha atrás dele com clique suave. Lúcia e eu ficamos em silêncio. Ela continua deitada no sofá, ainda nua, ainda tremendo levemente. Eu continuo na cadeira de rodas, três metros de distância, o coração—meu coração FUNCIONANTE—batendo rápido demais.

E pela primeira vez desde o acidente, sinto medo real.

Porque eu não tenho controle algum.

Nunca tive.

****

>> Oq acharam dessa reviravolta? Quem é pior aqui? Quem é o mais sadico? Os dois são monstros?

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