Nova Orleans, 12 de novembro de 1769
Meu estimado Philip,
Perdoa-me o longo silêncio. O tempo, quando se torna excessivo em acontecimentos, deixa de obedecer à escrita. Oito meses passaram-se desde os últimos eventos que me atrevi a confiar-te, e só agora encontro ânimo — ou talvez necessidade — de retomar esta correspondência. Li, mais de uma vez, tua última carta, e confesso que me comoveu saber que em breve serás pai em breve. Há notícias que parecem vir de um mundo paralelo ao meu, como se a vida comum ainda seguisse um curso possível para alguns de nós. De qualquer forma, desejo-te o melhor desta vida no cuidado do teu filho. Quanto ao Joseph, continuas ainda a vê-lo secretamente?
Aqui em Nova Orleans, muitas coisas aconteceram nesses oito meses. Para começar, o canavial cresceu com uma rapidez que desafia qualquer explicação razoável e produz abundantemente. Tivemos uma colheita em apenas cinco meses, o que gerou bastantes rumores pela cidade. Teve até que falou sobre algum tipo de pacto ou mesmo bruxaria. Ao falar com Crowley sobre isso, ele me disse que não podemos perder tempo em responder às fofocas, mas como que para me deixar mais calmo, tratou logo de espalhar uma notícia de que importamos uma variedade nova, uma descoberta científica. Isso pareceu, pelo menos ao que me parece, ter silenciado os tais boatos.
Somei às minhas posses as terras que outrora pertenceram aos Shaw, e, com isso, meu nome voltou a ser pronunciado com entusiasmo quase religioso. Sou recebido em salões com sorrisos largos, brindes excessivos e promessas de alianças comerciais. Chamam-me — não sem exagero — o maior produtor de cana-de-açúcar da região. Curiosamente, o nome Shaw já quase não circula. Nos primeiros meses, houve rumores, cochichos mal contidos, suspeitas ligando o desaparecimento da família à ascensão dos Devante. Mas o tempo, aliado ao lucro, é um excelente apagador de memórias. A cidade prefere celebrar o que floresce a interrogar o que apodreceu.
Resido agora na antiga mansão dos Shaw, ao lado de Crowley. A casa permanece sempre em uma penumbra constante com cortinas pesadas e escuras em todas as janelas. Há noites em que a casa parece respirar — e não sei dizer se nos acolhe ou nos observa. Ouço ruídos e até vozes sussurrantes que me causam grande pavor.
Por influência de Crowley, frequentamos bailes, jantares e reuniões da mais alta sociedade desta cidade, e percebo — com desconforto crescente — que minha fama se confunde cada vez mais com a presença dele. Porém, aonde vou, sussurram, e algumas vezes insinuam, com jogos de palavras, sobre a natureza real do nosso relacionamento. Não ignoro os comentários. Fala-se de nossa proximidade com demasiada liberdade. Alguns insinuam uma amizade excêntrica; outros, algo menos nomeável. Tudo isso me causa muito desconforto e até certa raiva, mas Crowley, sempre habilidoso na sua fala, trata logo de lhes responder à altura, inferindo coisas que as fazem se calar e saírem envergonhadas. Mais tarde ele mesmo me faz saber que se trata dos segredos pessoais deles, ou até mesmo de segredos que, se revelados, podem arruinar seus negócios e suas vidas.
Meu pai permanece na mansão dos Devante, cuidado por um único criado, o sr. Hector, que ainda continua servindo a meu pai desde a nossa infância. Visualmente, meu pai continua enfermo, com o corpo limitado e a fala contida. Contudo, algo nele me inquieta. Seus olhos, sem muito foco, agora me observam com atenção calculada. Em uma visita recente, cheguei sem aviso e o surpreendi erguendo-se e caminhando com desenvoltura que não deveria possuir. Ao notar minha presença, voltou imediatamente à encenação da fragilidade. Não sei se se recupera em silêncio ou se prepara algo que ainda me escapa.
Há, porém, um encontro recente que me perturba mais do que todos os outros sinais. Três dias atrás, seguia eu por uma estrada secundária, tratando de negócios, quando reconheci a carruagem da srta. Guillot. O acaso — ou algo que se disfarça dele — colocou-nos frente a frente. Conversamos. Insisti em me reaproximar dela, como já o fizera tantas outras vezes nos últimos meses. Não te escondo, Philip: ainda a amo demasiadamente. Ela resistiu, mas a resistência era frágil, cansada de tantas negativas. Por fim, cedeu.
Ali mesmo, dentro da carruagem, entregamo-nos com uma urgência que não admitia delicadeza. Aos beijos, eu ergui seu vestido vermelho pomposo e abaixei minha calça até os joelhos. Penetrei-a com um movimento certeito, como se meu membro conhecesse o caminho. A srta. Guillot gemia de forma contida a cada investida minha dentro de sua vagina quente, sem se importar com o condutor da carruagem. Como eu senti falta de estar ali naquela gruta quente e úmida que sempre envolveu tão bem meu pênis! Me excito agora mesmo enquanto te escrevo. Enfim, foi ardente, quase desesperado, como se ambos buscássemos provar a nós mesmos que ainda éramos livres. Derramei meu gozo dentro dela e senti seu corpo todo tremer pois também a fiz chegar ao clímax. Quando tudo cessou e nos recompúnhamos, notei marcas em seu pescoço. Reconheci-as de imediato pois eram iguais às minhas. Porém, nada disse.
Naquele instante, compreendi o que vinha evitando: sua ascensão repentina como proprietária do bordel, a morte da antiga dona, tudo isso talvez não lhe pertença por mérito próprio. Senti um medo frio, calculado, que não nasce do desconhecido, mas do reconhecimento. Ao me despedir, percebi que ela, assim como eu, sentia o mesmo.
Desde então, temo que Crowley saiba. Não porque eu ou ela lhe tenha confessado, mas porque ele tem me dito coisas. Metáforas lançadas ao acaso. Frases enigmáticas, aparentemente desconexas, que parecem contornar meus pensamentos antes que eu os formule. Ontem à noite, enquanto estávamos na sala, ainda nus e eretos após ele ter me possuído, envoltos naquela intimidade que já não distingo do cativeiro, ele inclinou-se a mim e sussurrou:
“Há caminhos que toleram desvios apenas enquanto são ignorados. Quando o viajante insiste em deixar pegadas fora da rota, a própria estrada trata de apagá-las — junto com tudo o que as produziu.”
Me encontro em extrema perturbação. O mundo me celebra, a terra floresce, meu nome cresce, mas nunca me senti tão próximo de perder aquilo que ainda ouso amar. Temo por ela. Temo por mim. E temo, sobretudo, por já saber que nada disso basta para me afastar dele.
Penso nos teus conselhos, meu amigo, mas me parece que cada um deles perde a aplicação a cada situação nova que surge à minha frente. Só me resta contar com a sorte, se é que tenho alguma ainda.
Teu sempre inquieto,
Louis M. Devante