Nova Orleans, 22 de março de 1769
Meu caro Philip,
Escrevo-te como quem confessa a um túmulo aberto. As palavras que seguem não buscam absolvição — buscam apenas existir fora de mim, pois temo que, se nelas permanecerem encerradas, terminarão por me enlouquecer. Sinto-me dividido entre o horror do que fiz e a estranha serenidade que se instalou após os acontecimentos, como se o mundo, saciado por sangue, tivesse decidido conceder-me um breve silêncio.
Dias depois — doze, para ser exato — de ter-me dito que era preciso encerrar a existência dos três homens da família Shaw, Crowley apareceu em meus aposentos e, depois de ter-me possuído de forma intensa, me compartilhou seu plano para acabar com os Shaw e ao mesmo tempo tomar deles tudo o que era do meu bisavô. Sim, meu amigo, Crowley sabia que as terras deles eram do meu bisavô e que foram tomadas por meio de trapaças — o que gerou essa rivalidade que dura gerações.
Crowley apresentou o plano como quem descreve uma peça já encenada inúmeras vezes. Disse-me que os Shaw jamais aceitariam perder suas terras por força direta; era necessário fazê-los acreditar que estavam vencendo, que o engano mais eficaz não é aquele que se impõe, mas o que se oferece como oportunidade.
Primeiro, espalhou — por bocas escolhidas a dedo — a notícia de que os Devante estavam à beira da ruína final. Não foi difícil: os engenhos parados, as dívidas em alta, meu pai cada vez mais instável... tudo isso já é fato. Crowley tratou de alimentar a narrativa com pequenas confirmações: um contador “independente”, documentos deliberadamente incompletos, rumores de que estávamos dispostos a vender parcelas de terra para cobrir dívidas imediatas. Tudo isso ele já tinha feito desde que a praga destruiu as lavouras. Os Shaw, orgulhosos como sempre, morderam o anzol com avidez.
O segundo movimento foi mais sutil. Crowley redigiu um conjunto de escrituras e contratos que aparentavam ser instrumentos de compra, mas que, na verdade, operavam como cessões condicionais e permuta reversa, apoiadas em cláusulas antigas, herdadas de códigos coloniais que ninguém mais se dava ao trabalho de interpretar. As terras que os Shaw acreditavam estar adquirindo eram descritas por marcos deliberadamente ambíguos: cursos d’água já desviados, árvores inexistentes, cercas removidas há décadas. Em contrapartida, as terras Devante surgiam nos documentos como garantias temporárias — jamais como objeto de transferência definitiva.
Para garantir a assinatura, organizou o encontro fora da cidade, longe de advogados modernos e testemunhas inconvenientes. Levou-os a crer que se tratava de discrição mútua, um pacto entre famílias tradicionais que não desejavam expor sua decadência ao olhar público – no caso dos Devante. Quando perguntei a Crowley se aquilo não poderia ser desfeito, ele sorriu — um sorriso curto, quase piedoso — e explicou que, no momento em que as assinaturas secassem, as terras já não pertenceriam a ninguém em termos humanos. Os Shaw acreditariam estar comprando o futuro, quando, na verdade, estariam hipotecando o presente. Bastaria o primeiro inadimplemento — que ele mesmo se encarregaria de provocar — para que todas as posses retornassem aos Devante, agora purificadas pelo erro alheio.
“Eles não perderão nada de imediato”, disse-me. “É assim que se mantém a esperança viva o suficiente para que a queda doa mais.”
Só depois compreendi que o plano não visava apenas as terras. O contrato era a antecâmara do sacrifício. A fraude, apenas o ritual preliminar. E eu, ao permitir que meu nome figurasse como parte interessada, já havia me tornado cúmplice antes mesmo que o primeiro grito ecoasse fora da cidade.
No dia seguinte, após uma noite sem dormir, permaneci nos meus aposentos a maior parte do tempo, saindo apenas para me alimentar. Quando a noite começava a engolir a luz do dia, me preparei para encontrar-me com os Shaw. Quando o sol se pôs por completo, Crowley apareceu em meus aposentos sem usar as portas, me beijou, e me conduziu ao local combinado.
O encontro fora marcado fora da cidade, sob o pretexto de discrição, como disse antes. Uma mesa improvisada no alpendre de uma casa abandonada, iluminada por lampiões. Crowley me entregou, discretamente, uma adaga. O metal era frio demais, pesado demais, como se não me pertencesse. Não havia em mim qualquer destreza para aquele objeto — jamais empunhara lâmina alguma que não fosse para cortar pão ou cana. Minha primeira reação foi devolvê-la. No entanto, eu a guardei no bolso do paletó.
No mesmo instante, senti uma vertigem, e quando recuperei os sentidos, comecei a falar com uma eloquência e calma que jamais tive. Comecei pela história dos nossos antepassados e de como os Devante foram enganados e perderam metade das terras para os Shaw. Os três homens começaram a rir sarcasticamente, e Bernard Shaw então me disse que agora eles estavam levando a outra metade, mas desta vez legalmente e por vontade própria minha. Tão logo os documentos foram postos sobre a mesa, Bernard Shaw, tomado por uma mistura de soberba e desespero, assinou sem ler com atenção. Seus filhos, ávidos por herdar algo que julgavam conquistado, seguiram-lhe o gesto com risos sarcásticos, certos de que estavam tirando proveito da minha fragilidade.
Crowley então recolheu os papéis com delicadeza excessiva, como quem guarda relíquias, dobrou-os uma única vez e os colocou em uma pasta.
“Está feito”, disse ele, olhando-me de relance. “Agora é só esperar que o mundo siga seu curso.”
Então senti. Não um comando falado, mas algo pior: uma pressão invisível atrás dos olhos, um aperto no peito, como se o ar tivesse sido retirado do mundo. Crowley não tocou em mim; ainda assim, seus olhos me atravessaram. O medo que senti não era apenas de matar — era de perceber que eu já não estava inteiro dentro de mim.
“Mas não vamos esperar coisa alguma, não é mesmo, Louis?” – Crowley continuou.
“Louis”, disse Bernard, rindo, sem entender nada. “O que é isso agora?”
William e Patrick se entreolharam, mas ainda com sarcasmo no rosto. Nenhum deles percebeu o momento exato em que minha vontade foi dobrada. Meu braço moveu-se contra mim. Coloquei a mão no bolso e tirei a adaga.
O primeiro golpe foi desajeitado, quase ridículo — a lâmina não encontrou de imediato o lugar certo. William gritou, não de dor plena, mas de surpresa, e esse som quase me devolveu o controle. Quase. Tentei soltar a adaga. Não consegui. Meus dedos estavam rígidos, presos como os de um cadáver recente. Senti Crowley atrás de mim. Não o vi, mas soube. O mundo escureceu nas bordas, e algo dentro da minha mente sussurrou — não em palavras, mas em urgência.
O segundo golpe foi certeiro e mais profundo — bem no coração. William caiu, e o impacto do corpo contra o chão fez um barulho enorme aos meus ouvidos. Patrick tentou correr. Eu chorei enquanto o perseguia — chorei de terror, de vergonha, de uma súplica muda que ninguém ouviu. Quando o alcancei, minhas pernas mal me sustentavam. A adaga tremia tanto que pensei que cairia de minhas mãos. Mas não caiu. Cravei-a nas suas costas com muita precisão, depois em seu peito.
Bernard gritava os nomes dos filhos, gritava maldições, gritava ameaças. Tentou avançar, mas Crowley segurou-o com facilidade desumana. Aproximou-o da mesa improvisada e abriu os contratos diante de seus olhos.
“Veja”, murmurou o vampiro, com uma calma quase terna. “Veja o que vocês assinaram.”
A tinta ainda brilhava. Bernard chorou quando entendeu o que havia assinado. Implorou e gritou maldições novamente. E então Crowley, transformou-se na frente dele — seus dentes cresceram, seus olhos ficaram vermelhos e sua feição mudou para um aspecto diabólico. E em um movimento rápido demais, inclinou, imobilizou o velho Shaw, inclinou-lhe a cabeça e bebeu-lhe o sangue até onde pode.
Coube a mim enterrar os corpos em minhas terras, no lugar do memorial do meu bisavô. Cada pá de terra era uma acusação. Minhas mãos, ainda manchadas, mal respondiam aos comandos mais simples. Quando tudo terminou, Crowley pousou a mão em meu ombro. Não houve conforto naquele gesto. Apenas a confirmação de que, a partir daquela noite, eu não poderia mais afirmar — nem mesmo a mim — onde terminava minha vontade e onde começava a dele.
Retornamos à minha casa e Crowley me tomou na sala como forma de comemoração. Ele me despiu completamente, e colocou meu membro em sua boca até que senti a glande em sua garganta. Sua língua serpenteava ao redor da glande e sua boca parecia querer sugar-me. Não resisti e cheguei ao ápice rapidamente. Crowley então me beijou com a boca ainda cheia do meu sêmen. Meu membro ainda permaneceu ereto. A seguir, ele me deitou no tapete e, pela primeira vez, nossos papéis foram trocados. O vampiro se ajeitou e sentou sobre meu pênis, que se introduziu lentamente até o fim. Possuído de um desejo incontrolável, eu o segurei na cintura e o “golpeei” com força, sem me importar com os sons das nossas partes se chocando. Meu pênis deslizava dentro dele com facilidade e, ao mesmo tempo, sentia seu orifício me apertar deliciosamente.
Mudamos de posição, e o coloquei deitado sobre a poltrona e me introduzi a ele de frente, olhando em seus olhos vermelhos segurando em seus ombros e manuseando seu pênis enorme e rígido. Novamente, não resisti mais e me derramei dentro dele enquanto ele também se banhava de sêmen sem se tocar.
Eu ainda estava ofegante e dentro dele, quando tive a nítida impressão de ver meu pai à porta, imóvel, observando-nos. Seus olhos expressavam fúria e ao mesmo tempo um espanto profundo e acusatório. Pisquei, e ele não estava mais ali. Ainda assim, a sensação de julgamento permaneceu, cravada em mim como um espinho invisível.
Levantamos e fomos para meus aposentos. Estranhamente, dormi rápido demais. Tive um pesadelo horrível em que Bernard Shaw e seus filhos saíam da terra para me matar. Eu fugia deles, mas onde eu ia, algum deles já me esperava. Seus rostos estavam corroídos, em estado de decomposição, suas vestes completamente sujas de sangue e como trapos. Eu gritava por socorro enquanto Crowley ria sarcasticamente assistindo ao meu desespero. Acordei banhado de suor e ele não estava mais ao meu lado.
No dia seguinte, não ousei sair de casa. Durante três dias permaneci recolhido, como um animal ferido que pressente o laço. Cada ruído além das janelas me parecia um prenúncio de algemas; cada passo no corredor, um julgamento iminente. Dormi pouco, com o corpo exausto e a mente em vigília constante. Dei ordens aos empregados para que observassem discretamente a mansão dos Shaw, sob o pretexto de curiosidade banal. Pedi-lhes notícias como quem pede absolvição.
Elas vieram em fragmentos inquietantes. Falava-se do desaparecimento dos três homens. Primeiro como rumor, depois como suspeita grave. Diziam que Bernard não fora visto desde a noite anterior, que os filhos haviam sumido sem deixar rastro. Comentava-se o desespero da viúva, suas idas repetidas à cidade, suas súplicas ignoradas pelas autoridades, que pareciam não saber onde procurar — ou talvez não quisessem. Cada relato chegava a mim como um golpe lento, não de surpresa, mas de confirmação.
Na terceira noite, quando já começava a acreditar que enlouqueceria dentro da própria casa, Crowley apareceu. Não bateu. Apenas estava ali. Disse-me que era hora de concluir o que fora iniciado. Tocou-me no braço, e o mundo pareceu ceder. Quando dei por mim, estávamos diante da viúva Shaw. Ela nos recebeu com olhos fundos, o rosto envelhecido em poucos dias. Crowley falou por mim. Apresentou-lhe os documentos — legítimos, irrefutáveis — nos quais constava meu nome como proprietário de todas as terras. Observei quando ele a olhou nos olhos enquanto falava e sua resistência se dissolvia não pelo argumento, mas pela ação invisível da sua vontade sendo dobrada. Seus ombros relaxaram. A voz perdeu o tremor. Falou em partir até o final daquela semana para outro estado, levando consigo apenas o que fosse necessário. Disse — como se fosse ideia própria — que sua família decidira recomeçar longe dali.
Quando saímos, senti-me mais vazio do que aliviado.
Nos dias que se seguiram, algo impossível começou a acontecer. O canavial, que eu não mandara plantar, começou a brotar. Pequenos talos verdes surgiram da terra como dedos silenciosos, e a cidade tem comentado. Uns falam em milagre, outros em maldição, ligando isso com a partida da família Shaw. Havia quem murmurasse meu nome com respeito renovado — e quem o fizesse com temor.
Quanto a mim, Philip, não sei o que pensar desses boatos. Caminho entre eles como um espectro, incapaz de reivindicar o mérito do que nasce, mas igualmente incapaz de negar o sangue que o precedeu. Se a terra responde, não é a mim que ela reconhece — é ao pacto que fiz, ainda que jamais o tenha assinado com tinta.
Teu amigo sempre,
Louis M. Devante