Capítulo XXXIX — Um último adeus!
Caio narrando...
Acordei antes do despertador tocar. Não foi porque dormi bem. Foi porque o corpo sabia que aquele dia não era comum. Havia algo diferente no ar, uma tensão silenciosa que parecia ter passado a noite inteira sentada na beira da cama, me observando.
Abri os olhos devagar.
A luz da manhã entrava tímida pelas frestas da cortina, desenhando faixas claras na parede. Por um segundo, fiquei imóvel, apenas respirando, tentando entender o que eu estava sentindo. Não era exatamente medo. Nem só ansiedade. Era... expectativa misturada com um tipo de dor antiga que eu nunca soube nomear direito.
Virei o rosto.
Rafa ainda dormia ao meu lado. O rosto dele estava sereno, os cílios projetando sombras leves na pele. O peito subia e descia num ritmo tranquilo, e a mão estava aberta sobre o lençol, quase tocando a minha.
Fiquei olhando para ele por um tempo que eu não sei medir.
Pensei em tudo o que a gente já tinha atravessado. Em como eu nunca imaginei que seria com ele que eu estaria vivendo esse momento. O mais difícil da minha vida. E, ao mesmo tempo, o mais necessário.
Levantei com cuidado para não acordá-lo. Fui até a janela e abri a cortina por completo. Belo Horizonte se estendia lá fora, viva, em tons de cinza e azul, com os prédios recortando o céu. A cidade parecia normal demais para o que eu sentia por dentro.
— É hoje… — murmurei para mim mesmo.
No banheiro, joguei água fria no rosto. A pele ardeu, mas ajudou a me manter presente. Encarei meu reflexo no espelho.
— Você vai conseguir — falei em voz baixa. — Você já sobreviveu a coisa pior.
Quando voltei para o quarto, Rafa já estava sentado na cama, me observando.
— Bom dia… — ele disse, com a voz rouca de sono.
— Bom dia.
Ele me olhou com atenção.
— Você acordou com cara de quem estava conversando com o próprio coração.
Sorri de leve.
— Ele fala demais.
Rafa se aproximou, estendendo a mão.
— Então deixa eu ouvir um pouco também.
Sentei ao lado dele. Entrelaçamos os dedos.
— Hoje é o dia — eu disse. — O dia de olhar pra alguém que eu esperei a vida inteira… e que, ao mesmo tempo, me fez sentir sozinho por essa mesma vida inteira.
Rafa respirou fundo.
— Você não precisa resolver tudo hoje.
— Eu sei. Mas talvez eu precise, pelo menos, começar.
Ele assentiu.
— E você vai. No seu tempo. Do seu jeito.
Tomamos café no quarto. O cheiro de pão quente e café passado na hora parecia quase ofensivo diante da tensão que eu sentia. Mesmo assim, comi um pouco. Rafa também.
— Você quer que eu fale alguma coisa lá? — ele perguntou.
— Não. Quer dizer… só se eu travar. Se eu não conseguir dizer tudo o que preciso.
Rafa segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você vai conseguir. E se não conseguir, eu fico ali, respirando por você.
Depois nos arrumamos em silêncio. Camisa passada, perfume, relógio. Tudo feito devagar demais, como se eu quisesse atrasar o momento.
Chamamos um Uber. No carro, fiquei olhando pela janela. As ruas passavam, as pessoas iam para seus trabalhos, suas vidas normais. Eu me sentia deslocado daquele mundo.
Rafa segurou minha mão.
— Em que você está pensando? — ele perguntou.
— Em como é estranho… todo mundo seguindo a rotina… enquanto eu vou encontrar alguém que pode estar nos últimos dias de vida.
— O mundo não para por nossas dores — ele respondeu. — Mas ele também não apaga o que elas significam.
Quando o hospital apareceu, senti o estômago apertar.
Descemos do carro. Olhei para aquele prédio gigantesco. Não sabia o que me esperava, mas agora não dava mais para voltar atrás. Rafa me deu as mãos.
— Vamos? Juntos!
Ele sorriu e me beijou. Quando adentramos no corredor, a mulher do meu pai nos esperava perto do balcão.
— Caio… — ela disse, com os olhos já marejados. — Obrigada por ter vindo.
— Como ele está? — perguntei.
Ela respirou fundo antes de falar:
— O câncer está avançado, muito agressivo. Já atingiu vários órgãos, infelizmente. Os médicos estão controlando a dor com medicação forte. Por isso… — a voz dela tremeu — ele passa a maior parte do tempo dormindo. Anestesiado. Ele já está desenganado.
Meu coração afundou.
— Mas hoje ele acordou bem — ela continuou. — Lúcido. Perguntou por você logo cedo. Disse que precisava te ver.
Fechei os olhos por um segundo.
— Posso entrar?
— Claro.
O corredor parecia mais longo do que realmente era. Cada passo soava alto demais no chão. Andamos por uns cinco minutos entre salas, consultórios e pessoas que iam e vinham. Quando chegamos, ela abriu a porta.
E então eu o vi. Meu pai. Frágil. Magro. A pele pálida demais. Mas… ali.
Ele abriu os olhos quando me viu.
— Caio…
A voz saiu fraca, mas clara.
Fiquei parado por alguns segundos. Meu corpo não sabia se queria correr até ele ou fugir.
— Oi… pai.
Ele começou a chorar antes mesmo de falar direito.
— Eu errei… — disse, com dificuldade. — Errei com você… com sua mãe… Eu fui covarde. Fugi. Abandonei vocês quando mais precisavam de mim. Eu me arrependo de cada umas das escolhas que fiz.
Aproximei-me e segurei a mão dele.
— Eu devia ter ficado. Devia ter sido pai. Devia ter te visto crescer… — ele respirava com esforço — te ensinado a andar de bicicleta, a defender quem você ama… Eu perdi tudo isso.
As lágrimas escorriam pelo rosto dele.
— Agora é tarde demais. Eu estou… à beira da morte, Caio, mas ainda posso me redimir.
Meu peito ardia.
— Eu só queria que você soubesse… — ele continuou — que eu te amo. Que tenho orgulho de você. Do homem que você se tornou. Você é forte, é bonito por dentro… e eu… eu não fiz parte disso. Sua mãe me disse sobre quem você se tornou e eu sei que você é alguém de caráter.
Engoli em seco.
— Eu esperei por essas palavras a vida inteira — respondi. — Esperei sem saber se um dia ouviria.
Ele apertou minha mão.
— Você me perdoa?
Respirei fundo.
— Eu lhe perdoo, pai. Não porque foi fácil. Mas porque eu não quero mais carregar esse peso comigo.
Ele chorou em silêncio.
— Obrigado…
Rafa se aproximou.
Meu pai olhou para ele.
— Você é o Rafael…?
— Sou.
— Cuida do meu filho… — ele disse, com dificuldade. — Cuida melhor do que eu cuidei.
Rafa assentiu.
— Eu cuido. Prometo. Todos os dias. Caio é minha vida, meu lar, ele é o melhor dos meus dias, eu jamais deixarei que nada aconteça com ele.
Rafa então olhou para mim e disse:
— Caio… você é o homem da minha vida. O sentido de tudo pra mim. Eu não existo sem você.
Olhei pra ele com os olhos cheios de lágrimas.
— E eu não existo sem você.
Ali, naquele quarto, entre dor, perdão e amor, eu entendi: Algumas histórias não se consertam. Mas podem, finalmente, se reconciliar.
Rafael apertou minha mão antes de sair.
— Eu vou deixar vocês conversarem… — ele sussurrou no meu ouvido. — Estarei ali fora.
Assenti. Meu coração estava tão acelerado que parecia querer sair pela boca. Quando a porta se fechou atrás dele, o quarto ficou em silêncio. Um silêncio pesado. Denso. Vivo.
Meu pai… José… estava deitado na cama, mais magro do que eu imaginava, com a pele pálida e os olhos fundos. Mas quando me olhou, houve ali algo que não era doença. Era… humanidade.
Ele respirou fundo.
— Como… como está sua mãe?
Demorei um pouco pra responder. Não por não saber, mas porque aquela pergunta vinha tarde demais… e ainda assim doía.
— Ela está bem. Dá aulas de artesanato numa ONG. Ainda mora no interior de São Paulo… — engoli em seco. — Ela é forte. Sempre foi. E cuidou de mim todos esses anos, nada me faltou, pai.
Ele sorriu fraco.
— Sempre admirei isso nela. Tenho certeza que ela cumpriu sua missão como mãe.
O silêncio voltou por alguns segundos. Depois ele respirou com dificuldade.
— E você… o que faz da vida, Caio?
— Eu… dou aulas de surf. — Sorri de leve. — Sou professor numa escola de praia. Moro perto do mar… e foi lá que conheci o Rafael.
Os olhos dele se iluminaram um pouco.
— O Rafael é… seu companheiro?
— É. — Minha voz saiu firme. — O amor da minha vida.
José ficou em silêncio. Depois falou, com esforço, mas com verdade:
— Eu tenho orgulho de você.
Aquilo me atravessou.
— Orgulho?
— Sim. — Ele engoliu em seco. — Não importa se você não namorou uma mulher. O caráter de alguém não se mede pela orientação sexual… se mede pelo que a pessoa é. E você… você é um homem bom, Caio. Eu vi nos olhos de Rafael como ele te ama, algo difícil de se ver hoje em dia. Não sei o que já enfrentaram, mas eu vejo em cada detalhe dele como o amor que tem por você é sincero e real.
Meus olhos arderam.
— Eu sinto muito… — ele continuou. — Sinto muito por não ter acompanhado você. Por não ter sido pai. Por não ter estado perto. Isso é uma culpa que eu vou levar comigo… mas pelo lhe pedindo perdão isso me serve de bálsamo.
— Você tem mais filhos? — perguntei, tentando me manter firme.
Ele negou com a cabeça.
— Não. Só você. Sou casado com a Luísa… a mulher que você viu na recepção. Foi ela quem cuidou de mim todos esses anos. Minha saúde foi piorando… e eu esperei a vida toda por esse momento. Pra te ver. Pra pedir perdão. Pra… morrer em paz.
Minha mão foi até a dele.
— Eu te perdoo, pai. A vida tem sua forma de levar as pessoas pra longe, e também tem suas maneiras inesperadas de conectar as pessoas novamente, afinal, aqui estamos nós.
Ele chorou. Chorou como um homem que só agora entende o que perdeu.
Pouco depois, Dona Luísa entrou no quarto. Ela me olhou com carinho.
— Ele precisa descansar… Ele conversou muito. Nos últimos dias, ele quase não falou nada, me surpreende como ele estava lúcido. Eu diria que Deus preparou tudo.
Na despedida, ela me entregou um envelope.
— Isso é pra você. Mas… só leia quando sentir que é o momento certo. E, Caio, eu agradeço por ter vindo, isso fez toda diferença para o seu pai. Acho que ele poderá ir em paz agora. Muito obrigada por isso.
— Não precisa me agradecer Dona Luísa. Isso foi de extrema importância para mim também. Sinto que agora minha história está completa. Até mais!
Nos despedimos com um abraço.
Saí do hospital com as pernas bambas. Não era fraqueza física. Era outra coisa. Era como se o chão tivesse mudado de textura de repente, como se o mundo que eu conhecia até ontem não fosse mais o mesmo depois de ter encarado o rosto do homem que me colocou no mundo… e que eu só revi agora, quando já estava à beira de sair dele.
Rafael caminhava ao meu lado em silêncio. Não dizia nada. Não precisava. Ele segurava minha mão com firmeza, como se dissesse sem palavras: “Eu estou aqui. Você não vai atravessar isso sozinho.”
Entramos no elevador. As portas se fecharam devagar demais. O hospital tinha aquele cheiro estranho de álcool, metal e tristeza antiga. Um cheiro que não sai da roupa. Nem da memória.
— Você tá bem? — Rafa perguntou baixo, quando o elevador começou a descer.
Demorei a responder.
— Eu não sei o que eu tô… — falei. — Não é raiva. Não é alívio. Não é paz. É… tudo junto.
Ele apertou mais a minha mão.
— E tudo isso é válido.
Quando as portas se abriram no térreo, eu senti como se estivesse deixando uma parte de mim lá em cima. No quarto 312. Junto de um homem chamado José. Meu pai.
Pegamos um táxi até o hotel. O caminho foi em silêncio. Belo Horizonte passava pela janela como um filme distante. Pessoas andando. Carros buzinando. A vida acontecendo normalmente… enquanto dentro de mim tudo estava suspenso.
No quarto do hotel, larguei o casaco sobre a cadeira e sentei na beira da cama. Rafa foi até a janela. Abriu um pouco a cortina. A luz do fim da tarde entrou devagar.
— Quer falar? — ele perguntou.
Eu respirei fundo.
— Quando eu olhei pra ele… — comecei — eu vi o meu rosto no dele. O mesmo formato de nariz. A mesma linha na testa. E eu pensei: “caramba… eu vim daqui.”
Rafa sentou ao meu lado.
— E como foi?
— Foi estranho. Bonito. Triste. Tarde demais. Tudo ao mesmo tempo. — Engoli seco. — Ele tava tão frágil… tão pequeno dentro daquela cama. E ainda assim… tão importante.
Ficamos em silêncio um tempo.
Depois eu disse:
— Ele me pediu perdão.
Rafa virou o rosto pra mim.
— E você?
— Eu perdoei.
A palavra saiu simples. Mas o peso dela ficou no ar.
— Eu acho… — continuei — que a vida dele tava esperando esse momento. Não pra se justificar. Mas pra descansar.
Rafa passou o braço por trás de mim e me puxou pra perto.
— Você deu isso a ele, Caio. E isso não é pouco. Perdoar é um ato nobre, você e eu somos a prova viva disso não somos?
— Somos. Nosso amor sobreviveu graças ao perdão. Eu te amo, Rafa.
Ele sentou-se ao meu lado e me beijou carinhosamente.
— Te amar é pouco pro que sinto, Caio. Você é tudo para mim.
Ele sorriu e tocou meu rosto.
A noite caiu devagar. Pedimos comida. Comemos pouco. O corpo não tinha fome. Só a alma. Depois tomamos banho, cada um no seu tempo. Deitamos.
Rafa apagou a luz. Eu fiquei olhando o teto. O som da respiração dele me ancorava no presente. Quando eu finalmente dormi… o telefone tocou. Era madrugada.
O som cortou o quarto como uma lâmina. Rafa se mexeu na cama e olhou pra mim quando paguei o celular.
— Alô?
Eu já sabia antes mesmo de atender.
— Caio…? — a voz da Dona Luísa veio do outro lado. Baixa. Cansada. — É… é a Luísa.
Meu coração começou a bater errado.
— Seu pai… — ela respirou fundo — ele partiu agora há pouco.
O mundo caiu dentro de mim.
— O quê…?
— Ele dormiu… e não acordou mais.
O telefone escorregou da minha mão. Eu comecei a chorar. Não foi bonito. Não foi silencioso. Foi feio. Alto. Descontrolado.
Rafa sentou na cama num pulo e me puxou pra ele.
— Caio… Caio, olha pra mim… — ele disse, segurando meu rosto.
— Ele morreu… — eu soluçava. — Ele morreu… e agora… agora…
— Agora você respira comigo.
Ele encostou a testa na minha.
— Inspira… expira…
Eu tremia inteiro.
— Rafa… eu não tive tempo…
— Teve. — Ele falou firme. — Teve o tempo certo. O tempo que precisava.
Eu chorei mais.
— Ele só tava vivo ainda pra isso… — Rafa continuou. — Pra te ver. Pra pedir perdão. Pra morrer em paz. E você deu isso pra ele. Deus lhes deu uma oportunidade, só uma, amor.
Eu me agarrei nele como uma criança.
— Deus deu tempo, Caio. — ele sussurrou. — E tempo é a coisa mais rara que existe.
Não houve velório. Dona Luísa disse que o José não queria. Que queria algo simples. Direto. Sem cerimônia longa. Só o enterro. O cemitério era silencioso demais.
O céu estava cinza. O caixão desceu devagar. Eu fiquei parado. Sem saber se chorava mais. Sem saber se rezava. Sem saber se agradecia ou se gritava.
Dona Luísa ficou ao meu lado.
— Ele falou muito de você nesses últimos dias — ela disse. — Falava com orgulho.
Olhei pra ela.
— Obrigado… por cuidar dele.
Ela segurou minha mão.
— Eu cuidei… porque amei. E porque vi que ele precisava terminar a vida em paz. E, graças a Deus, ele terminou. Seu pai sofreu muito com o câncer, mas sofreu muito mais por carregar a culpa de não ter sido alguém presente. Mas ele finalmente descansou em paz. Uma paz que só você poderia ter trazido. Obrigada, Caio.
— Não há o que agradecer Dona Luísa.
Depois, antes de irmos embora, ela tirou um envelope da bolsa.
— Ele escreveu isso pra você, além daquela carta que já tinha te entregado.
— Quando?
— Escreveu um pouco depois que você deixou o hospital, eu redigi, na verdade, mas as palavras são dele.
— Leia quando estiver pronto. Adeus, Caio!
— Adeus!
Eu guardei no bolso.
A volta do cemitério foi silenciosa. Não aquele silêncio confortável, mas o outro, o pesado, que se instala quando já não há mais o que dizer. Eu fiquei olhando pela janela do carro sem prestar atenção em nada. As ruas passavam, os faróis, as pessoas, mas dentro de mim tudo estava parado no instante exato em que a terra tocou o caixão do meu pai.
Rafa não falou nada. Também não precisava. O ombro dele encostava no meu de vez em quando, como se o corpo dele estivesse ali só pra me lembrar que eu ainda estava vivo.
Quando chegamos ao hotel, eu demorei pra descer. As pernas estavam fracas, como se tivessem desaprendido o movimento. Subimos em silêncio. O quarto nos recebeu com aquele cheiro neutro de hotel, limpo demais pra um dia tão sujo por dentro.
Tirei o sapato. Joguei o paletó na cadeira. Me sentei na beira da cama.
Rafa passou a mão no rosto, respirou fundo.
— Vou tomar um banho rápido… já volto.
Assenti. A porta do banheiro fechou, e o quarto ficou grande demais pra mim. Foi então que vi os envelopes.
Dois. O primeiro, que Dona Luísa tinha me entregado no hospital, no dia anterior.
O segundo, no cemitério. Peguei o primeiro. O papel era fino. Frágil. Como se a própria carta já soubesse que não devia durar.
Abri.
“Meu filho,
Você tem os meus olhos.
Verdes como o mar que você sempre amou.
Eu lembro de você pequeno, bem pequeno, correndo em direção às ondas.
Eu sempre tive medo delas.
Você nunca.
Talvez por isso você tenha sido mais corajoso do que eu.
Errei quando fui embora.
Errei quando não voltei.
Pensei em você todos os dias.
Mesmo sem saber ser pai.
Com amor que chegou tarde,
José.”
Minha garganta fechou.
Eu respirei fundo e peguei o segundo envelope.
“Meu filho,
Agora eu escrevo sabendo que não vou te ver de novo.
Mas eu te vi.
E isso foi tudo.
Saber que você virou professor de surf me fez sorrir.
Você virou exatamente quem sempre foi:
alguém que pertence ao mar.
Não estive lá pra te ver crescer.
Isso é a minha maior falha.
Mas vou em paz porque você me perdoou.
Porque segurou minha mão.
Porque me chamou de pai.
Ninguém é definido por quem ama.
A gente é definido por como ama.
E o jeito que você olha pro Rafael e ele pra você
é o jeito mais bonito de olhar que eu já vi em duas pessoas.
Viva, Caio.
Ame.
Seja inteiro.
Seu pai,
José.”
A primeira lágrima caiu no papel. Depois a segunda.
Depois eu já não conseguia mais parar. Meu peito doía de um jeito surdo, constante, como se alguém tivesse colocado um peso ali dentro e esquecido.
Eu nem percebi quando o chuveiro parou. Só percebi o Rafa quando senti que não estava mais sozinho no quarto. Ele ficou parado na porta por alguns segundos, me observando. Eu devia estar uma cena feia: sentado na cama, cartas na mão, rosto molhado, todo desmontado por dentro.
Ele veio devagar.
Sem pressa.
Sem palavra.
Ajoelhou na minha frente.
— Ei… — falou baixo.
Minha voz não saiu. Só um som preso. Ele tirou as cartas da minha mão com cuidado e me puxou pra ele. Eu fui. Encostei o rosto no pescoço dele como quem se agarra numa coisa sólida depois de quase afundar.
— Eu tô aqui, Caio… — ele murmurou. — Sempre.
Eu respirei fundo, tentando não me perder.
— Eu nem sei o que eu tô sentindo…
— Não precisa saber agora — ele respondeu. — Só sentir.
Ficamos assim um tempo longo. Sem medir. Sem contar.
— Ele te amava — Rafa disse depois. — Do jeito que soube. Do jeito que deu.
— Eu sei… — respondi. — Só dói.
— Dói porque foi real.
Eu fechei os olhos.
— Eu perdoei ele.
— E isso libertou vocês dois.
A gente deitou depois.
Rafa me puxou pra perto. Meu rosto no peito dele. O braço dele firme em volta de mim.
— Dorme… — ele sussurrou. — Amanhã a gente segue.
E eu dormi. Não porque estava bem. Mas porque estava amparado.
A manhã entrou no quarto devagar. Não foi aquela luz invasiva que acorda de uma vez. Foi uma claridade tímida, quase respeitosa, como se o dia soubesse que eu ainda estava quebrado por dentro e não quisesse me assustar.
Abri os olhos sem saber ao certo há quanto tempo estava acordado. O teto do hotel parecia o mesmo de ontem, mas tudo em mim era outro. O ar tinha mudado. O silêncio tinha outro peso. O mundo tinha perdido uma presença que eu mal tinha acabado de ganhar.
Rafa ainda dormia ao meu lado. Deitado de lado, de frente pra mim, o corpo relaxado, as duas mãos me encomendou em um abraço forte. A respiração dele era lenta, profunda, daquele tipo que dá vontade de acompanhar só pra se sentir seguro também.
Fiquei observando. E me soltei devagar de seus braços fortes. O jeito como o cabelo caía na testa. A curva tranquila da boca. A paz que ele parecia carregar mesmo depois de tudo.
E pensei, com uma clareza que quase doeu: Ele ficou. Quando tudo balançou, ele ficou.
Devagar, sem fazer barulho, me levantei da cama. As pernas ainda estavam meio fracas, como se o corpo não tivesse entendido direito que eu precisava seguir funcionando.
Fui até a janela.
A cidade acordava lá embaixo. Carros passando, gente indo trabalhar, o mundo inteiro continuando exatamente como sempre continuou, mesmo depois que o meu tinha perdido um pedaço.
Encostei a testa no vidro.
— Pai… — murmurei, sem som.
Não como quem chama. Mas como quem testa a palavra pela primeira vez.
Voltei pra cama.
Rafa se mexeu.
— Caio…?
— Tô aqui.
Ele abriu os olhos, meio perdido ainda no sono, e quando me viu, o rosto suavizou.
— Que horas são?
— Cedo.
Ele esticou o braço e me puxou pra perto.
— Vem cá…
Deitei de novo, com o corpo encaixando no dele como se fosse o único lugar possível. O peito dele subia e descia devagar, e eu fiquei ali, só respirando junto, sem falar nada.
— Você dormiu? — ele perguntou.
— Um pouco.
— Sonhou?
Pensei antes de responder.
— Sonhei que eu era criança… e tava na praia. Meu pai tava de longe. Eu não conseguia ouvir o que ele dizia.
Rafa passou a mão no meu cabelo.
— Às vezes a gente não precisa mais ouvir.
— Como assim?
— Às vezes só saber que ele tava ali… já basta.
Fechei os olhos.
Talvez fosse verdade.
Depois do banho, nos arrumamos devagar. Sem pressa. Sem roteiro. Cada gesto parecia carregado de uma importância estranha: calçar o tênis, dobrar a roupa, fechar a mala.
Nada mais era automático.
— A gente vai voltar hoje — Rafa disse, enquanto dobrava uma camisa.
— É, acho que tá na hora.
— Quer ficar mais?
— Não… — respondi depois de alguns segundos. — Meu lugar é lá.
— Lá com quem?
Olhei pra ele.
— Com você.
Ele sorriu pequeno.
— Então, vamos.
No café da manhã, eu quase não comi. Mexia no pão, no café, mas o estômago parecia fechado, como se estivesse de luto também.
Rafa percebeu.
— Tenta pelo menos um pouco…
— Daqui a pouco.
— Tá…
Ele não insistiu.
A gente conversou sobre coisas pequenas. O voo. O horário. A mala. O caminho até o aeroporto. Mas por dentro, eu só pensava numa coisa: ele morreu.
A frase ficava girando na minha cabeça, seca, objetiva, impossível de suavizar.
Meu pai morreu.
E eu tinha acabado de conhecê-lo.
No caminho até o aeroporto, o silêncio voltou. Fomos de Uber. Eu olhava pela janela.
A cidade se afastando, os prédios ficando menores, o céu abrindo mais.
— Quer falar? — ele perguntou.
— Ainda não sei o que dizer.
— Então só sente.
Respirei fundo.
— Eu achei que ia sentir raiva.
— E sentiu?
— Não… — balancei a cabeça. — Eu senti… pena.
— Dele?
— De nós dois.
Rafa ficou quieto.
— A gente perdeu muito tempo — continuei. — Mas também ganhou algo.
— O quê?
— Verdade.
Ele respirou fundo.
— Nem todo mundo tem isso no final.
No aeroporto, o mundo estava barulhento demais. Gente andando rápido, vozes, malas, anúncios. Tudo me parecia fora de lugar dentro do que eu estava vivendo.
Rafa segurou minha mão.
— Vem…
Seguimos. Esperamos. Sentamos. Levantamos. Embarcamos.
Quando o avião começou a andar pela pista, senti uma coisa estranha no peito. Não era medo. Era como se eu estivesse deixando alguém pra trás de novo, só que dessa vez, não por escolha.
— Caio… — Rafa falou, baixo.
— Oi.
— Ele não ficou pra trás.
— Como assim?
— Ele veio com você.
Encostei a cabeça no ombro dele.
— Tomara.
Durante o voo, peguei de novo as cartas. Li mais uma vez. Devagar. Cada frase parecia ganhar outro peso agora.
Chorei em silêncio. Rafa não falou nada. Só segurou minha mão. E ali, entre nuvens e passado, eu entendi: Meu pai não fez parte da minha vida, mas fez parte da minha verdade.
Quando aterrissamos, São Paulo nos recebeu com aquele caos familiar. Barulho. Pressa. Gente demais.
Mas, pela primeira vez em dias, eu senti algo parecido com chão.
Era aqui que eu tinha construído quem eu era.
Era aqui que minha vida continuava.
Já em casa, o apartamento parecia o mesmo, mas eu não era. Tirei o tênis. Sentei no sofá. Fiquei olhando pro nada.
Rafa foi até a cozinha, pegou água, voltou e me entregou.
— Bebe.
Bebi.
— Quer ficar sozinho um pouco?
— Não…
— Então eu fico.
Ele sentou ao meu lado. Não encostou. Só ficou ali.
— Rafa…
— Fala.
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Por não ir embora quando tudo ficou pesado.
Ele me olhou sério.
— Eu não te amo só quando é fácil.
Meu peito apertou.
— Eu sei.
— E você não precisa ser forte comigo.
Respirei fundo.
— Ainda bem.
À noite, deitados, eu fiquei encarando o teto.
— Rafa…
— Oi.
— Você acha que ele morreu em paz?
Ele virou de lado, de frente pra mim.
— Acho que sim.
— Por quê?
— Porque ele te viu. Porque você o perdoou. Porque ele conseguiu dizer o que precisava.
Engoli em seco.
— Então eu fiz a coisa certa?
— Fez.
— Mesmo depois de tudo?
— Justamente por causa de tudo.
Fechei os olhos.
— Eu ainda sinto falta…
— Vai sentir.
— Por muito tempo?
— Talvez pra sempre. Mas vai mudar de forma.
— Como?
— Um dia não vai doer tanto. Vai virar silêncio.
— E o silêncio dói menos?
— Dói diferente.
Aproximei mais meu corpo do dele.
— Fica comigo?
— Sempre.
O sono veio depois, lento, mas veio. E enquanto eu dormia, pela primeira vez, não sonhei com ausência. Sonhei com mar.
