As Minhas Aventuras - 7º Capítulo - ​O Altar e o Abismo

Um conto erótico de Fernando
Categoria: Gay
Contém 8316 palavras
Data: 24/01/2026 21:37:43

Eu estava ali no chão, sentindo o impacto do tombo latejar na bunda, quando a sombra do Natan cobriu meu corpo inteiro. De baixo, ele parecia um monumento de músculos e calma. A regata branca estava esticada no peito largo, e o cheiro de perfume amadeirado misturado com o calor da pele dele invadiu meu nariz. Ele estendeu aquela mão que parecia uma pá, com os dedos grossos e a palma áspera de quem já segurou muita lata de spray e muito ferro na academia.

​— Calma, garoto. A escada não vai fugir de você — a voz dele saiu grave, ressonante.

— Valeu... — segurei a mão dele e senti um choque quando ele me puxou com uma facilidade absurda. — Eu estava meio distraído.

— Distraído ou fugindo de alguma coisa? — ele perguntou, sem soltar minha mão de imediato.

— Um pouco dos dois. Acabei de ter um papo torto ali no campo.

— Eu vi da janela. Você enquadrando o Jonas foi a melhor cena do dia.

— Você não muda, né, Natan? Sempre de olho em tudo.

— É o hábito. Mas e aí, a bunda tá doendo muito?

— Um pouco, mas o susto foi maior. Você parece uma parede.

— (Ele riu baixo) É o que dizem. Mas faz tempo que você não esbarra em mim assim, né, Fernando?

— Faz. Desde a época da escola, quando você ficava repetindo de ano e a gente te via no corredor.

— Eu era o terror dos professores, confessa — ele disse, com um brilho malicioso no olhar.

— Você era o terror de todo mundo. Principalmente quando pegavam você pichando o muro da quadra.

— Bons tempos. Minha marca estava em cada canto desse CDHU e daquela escola.

— Você ainda picha? Ou a vida de segurança te deixou certinho?

— A gente nunca deixa de ser o que é, Fernando. Eu só mudei as ferramentas. Agora picho com os olhos.

— Como assim?

— Eu vejo as coisas e guardo na mente. Como aquele flagra da calcinha vermelha que a Dona Marli gritou pro bloco todo.

— (Fiquei vermelho na hora) Até você, Natan? Você estudou comigo, achei que tinha mais consideração.

— E tenho. Por isso não saí espalhando. Só achei interessante.

— Interessante? O prédio inteiro me chamando de piranha?

— O prédio é cheio de hipócrita. O Jonas é o primeiro da lista.

— Por que você diz isso? Você sabe de alguma coisa dele daquela época?

— Eu sei de tudo, garoto. Eu via o Jonas te seguindo no recreio com aquele olhar de cachorro magro.

— Ele sempre foi um babaca. Mas agora ele passou dos limites.

— E você deu o troco. Gostei de ver. Você não era tão bravo na escola.

— A gente cresce, né? Ou você acha que eu ia ser o "bonequinho" pra sempre?

— Eu nunca te achei bonequinho. Eu te achava... desperdiçado.

— Desperdiçado com quem? Com o Jonas?

— Com qualquer um que não soubesse o que fazer com você.

— E você saberia o que fazer, Natan? — perguntei, sentindo um frio na barriga pela audácia.

— (Ele se aproximou mais um passo, quase me prensando no corrimão) Eu tenho algumas ideias.

— Você sempre foi metido, desde que pichava "Natan Rei" no muro do banheiro.

— E eu mentia? Eu mandava naquele pedaço.

— Mandava porque era o mais forte e o que mais repetia. Todo mundo tinha medo.

— Você tinha medo de mim?

— Eu tinha... receio. Você era muito bicho solto.

— E agora? Ainda tem receio?

— Agora eu tenho curiosidade. Você sumiu, ficou uns meses fora e voltou desse jeito.

— Voltei pra ocupar meu espaço. E meu apê tá bem mais calmo que o pátio.

— Imagino. Deve estar cheio de tinta de spray ainda.

— (Ele riu alto dessa vez) Não, tá limpo. Só tem café e silêncio.

— Você mora sozinho mesmo? Nenhuma namorada daquela época?

— Nenhuma. Mulher dá muito trabalho e fala demais. Gosto de coisa mais... prática.

— Prática tipo o quê?

— Tipo um café com um vizinho que não tem medo de encarar o Jonas no campo.

— Você tá me convidando mesmo? Ou é só pra rir da minha cara depois?

— Eu não perco meu tempo rindo da cara de ninguém, Fernando. Eu quero é aproveitar o tempo.

— O convite é pra agora?

— Se você aguentar subir os degraus sem cair de novo... é pra agora.

— Então vamos. Mas se você tiver pichado meu nome na sua parede, eu vou embora na hora!

​Subimos as escadas e eu observei a nuca dele, lembrando de cada detalhe daquela época.

​— Você ainda tem aquela cicatriz no supercílio, Natan?

— Tenho. Lembrança daquela briga atrás do ginásio, na oitava série. Lembra?

— Como não lembrar? O prédio inteiro parou pra ver você e o Robson se matarem.

— O Robson era outro que falava demais. Mas aquele dia ele aprendeu a lição.

— Você sempre foi o cara das lições, né? O juiz do pátio.

— Alguém tinha que colocar ordem. Os inspetores não davam conta da gente.

— E você se achava o dono da escola só porque era dois anos mais velho que todo mundo da sala?

— (Ele parou no degrau e olhou pra trás) Eu não me achava, Fernando. Eu era. A idade era só um detalhe.

— Modesto como sempre.

— Modéstia não enche barriga. Mas me diz uma coisa... por que você nunca falou comigo naquela época?

— Eu? Você era o Natan! Eu era só o moleque que tentava não ser notado pra não apanhar.

— Você nunca apanharia de mim. Eu sabia quem era quem.

— Sabia nada. Você passava pelos corredores parecendo um trator, nem olhava pro lado.

— Eu olhava. Mas você estava sempre cercado daquela molecada barulhenta do futebol. O Jonas inclusive.

— É, o Jonas. Ele era o seu carrapato. Já era chato desde pequeno.

— Ele mudou muito pouco. Só ficou mais alto e mais cínico.

— E você ficou mais... interessante. Perdeu aquela cara de choro.

— (Chegamos no andar dele) Cara de choro? Eu nunca fui de chorar!

— Não? E aquela vez que roubaram sua mochila e jogaram no telhado da caixa d'água?

— Aquilo foi raiva, Natan! Não foi choro!

— Sei... — ele tirou a chave do bolso, o metal brilhando na mão imensa. — Entra aí.

— (Entrei no apartamento e olhei em volta) Nossa... é bem diferente do que eu imaginei.

— O que você imaginou? Paredes pichadas e colchão no chão?

— Honestamente? Sim. Conhecendo seu histórico...

— A gente cresce, Fernando. A pichação agora é hobby, não estilo de vida.

— Você ainda tem as latas?

— Tenho algumas guardadas ali naquele armário. Quer ver?

— Depois. Agora eu quero entender como o pichador virou segurança de clube granfino.

— Sobrevivência. O clube paga bem e o meu tamanho intimida sem eu precisar falar nada.

— É, disso eu não tenho dúvida. Você intimida até parado.

— Mas você parece bem à vontade pra quem está intimidado.

— É porque eu te conheço. Ou pelo menos conheço o Natan que pulava o muro da escola.

— Aquele Natan era um moleque. Esse aqui é outro papo. Aceita o café agora?

— Aceito. Mas faz fraco, que meu coração já tá batendo rápido demais.

— (Ele foi pra cozinha e eu fiquei na sala) Por que o coração tá rápido? Ainda é o susto do Jonas?

— Talvez. Ou talvez seja o fato de eu estar no apê do cara mais temido do bloco.

— (Voz vindo da cozinha) Não teme o que você pode dominar, Fernando.

— O que você quer dizer com isso?

— (Ele voltou com duas canecas pretas) Quero dizer que você tem um jeito de conseguir o que quer das pessoas.

— Eu não consegui nada de você ainda.

— Será que não? Você está aqui, não está? No meu sofá.

— Você que me convidou. Eu só aceitei pra não ser mal-educado.

— Mentira. Você aceitou porque queria saber se eu era tudo aquilo que falavam no recreio.

— E você é?

— (Ele sentou no sofá, deixando um espaço entre nós) Depende do que falavam.

— Falavam que você era bicho solto. Que não se apegava a nada nem a ninguém.

— Isso é verdade. Gosto da minha liberdade.

— E aquela pichação no muro do mercado? "N e F"? Era você?

— (Ele parou com a caneca na boca e me olhou fixo) Você viu aquilo?

— Todo mundo viu. Ficou lá por meses. Quem era o F?

— Não era o Fernando, se é isso que você quer saber.

— Ah... entendi.

— Era a Fernanda. Uma menina do outro bloco. Coisa de moleque de 16 anos.

— E o que aconteceu com ela?

— Casou com um cara da igreja e mudou pra outra cidade. A vida segue.

— A vida segue e você continua aqui. Por que voltou pro CDHU?

— Herança. Esse apê era da minha tia. Quando ela morreu, não tive muita escolha.

— Mas você gosta daqui?

— Gosto do movimento. Gosto de ver quem sobe e quem desce. Tipo você.

— Você é muito observador pro meu gosto, Natan.

— É o meu trabalho. Se eu não observar, alguém se machuca.

— E você acha que eu vou me machucar?

— Com o Jonas? Não. Ele é pequeno demais pra você.

— E com o Son?

— (O semblante dele ficou sério) O Son é perigoso. Ele não tem nada a perder. Você devia tomar cuidado.

— Eu sei me cuidar. Já te disse que não sou mais o bonequinho da escola.

— Eu sei que sabe. Mas até os fortes precisam de um descanso às vezes.

— Você está se oferecendo pra ser meu descanso?

— Estou me oferecendo pra ser seu aliado. Aqui no bloco é bom ter um.

— E o que você ganha com isso?

— A sua companhia. Já é um pagamento e tanto.

— Você sempre foi bom de lábia, né? Aposto que usava isso pra convencer os moleques a picharem pra você.

— Eu pichava sozinho. Não gostava de rastro.

— E agora? Gosta de rastro?

— Gosto de marcas. Mas marcas que só eu sei onde estão.

— (O clima pesou de novo) Esse café tá muito bom, Natan.

— É café mineiro. Trouxe de uma viagem que fiz pro interior.

— Você viaja muito?

— Quando dá. Gosto de estrada, de moto. Tenho uma preta na garagem. Nunca viu?

— Não... eu quase não desço na garagem. É escuro e fedia a urina até pouco tempo.

— Eu dei um jeito nisso. Falei com o zelador. Agora tá limpo.

— Você realmente manda nesse bloco, né?

— Eu só exijo o mínimo de respeito pelo lugar onde moro.

— Você mudou muito, Natan. Na escola você era o cara que chutava as lixeiras.

— A gente cansa de quebrar as coisas. Começa a querer construir algo.

— E o que você está construindo aqui?

— A minha paz. E quem sabe uma amizade... ou uma história que não precise ser pichada em muro pra ser real.

— Você está sendo muito filosófico pra um segurança.

— (Ele deu um riso largo) É o café. Ele me deixa falante.

— Então me fala... por que você nunca repetiu de novo depois que saiu daquela escola?

— Porque eu descobri que a vida fora era muito mais difícil. Tive que virar homem rápido.

— Seu pai te apertou?

— Meu pai nem me conheceu. Foi minha mãe e a rua que me criaram.

— Sinto muito.

— Não sinta. Me fez ser quem eu sou hoje. Sem frescura.

— É, frescura é uma coisa que você não tem.

— E você? O que te fez ser assim? Tão... inquieto?

— Acho que foi esse lugar. Ter que esconder quem eu sou pra não ser alvo.

— Mas agora você não está escondendo mais.

— Não. O Jonas tirou essa opção de mim quando me expôs pro bloco.

— Às vezes ser exposto é a melhor coisa que pode acontecer. Te liberta.

— Me libertou pra ser o assunto do domingo.

— Deixa que falem. Enquanto eles falam, você vive. Eles têm inveja da sua coragem.

— Inveja de quê? De eu ter sido flagrado de calcinha?

— Inveja de você ser quem é. Muitos ali queriam estar no seu lugar sentindo prazer.

— O Jonas é o maior exemplo.

— Com certeza. Ele é frustrado. E frustração gera ódio.

— Por isso ele tentou me quebrar.

— Mas ele não conseguiu. Você saiu de lá maior que ele moralmente.

— Você é um cara legal, Natan. Bem diferente do que eu pensava.

— O que você pensava? Que eu ia te bater?

— Pensei que você ia ser grosso. Que ia me ignorar.

— Eu nunca ignoraria você. Porque você é a pichação mais bonita que eu já vi nesse bloco.

— (Fiquei sem ar por um segundo) Você não para, né?

— Estou falando a verdade. Gosto das suas cores.

— Minhas cores são meio bagunçadas agora.

— Bagunça é bom. Significa que tem vida acontecendo.

— Você também é meio bagunçado por dentro?

— Sou um caos completo. Mas aprendi a esconder bem embaixo dessa farda.

— Queria aprender a esconder assim.

— Não aprenda. Seja transparente. É mais bonito de ver.

— Você realmente me acha bonito? Ou é papo de pichador?

— (Ele colocou a caneca na mesa e virou o corpo todo pra mim) Eu não preciso de papo pra ganhar confiança, Fernando. Eu te acho a coisa mais interessante desse CDHU desde que pisei aqui.

— E olha que aqui tem muita coisa interessante...

— Nada que se compare a você subindo essas escadas com esse jeito de quem é dono do mundo.

— Eu não sou dono de nada. Só desse tênis velho.

— Você é dono de si mesmo agora. E isso é muita coisa.

— Obrigado, Natan. De verdade.

— Pelo café ou pelo papo?

— Pelos dois. Estava precisando de um pouco de calma.

— Quando precisar, sabe onde é o meu muro.

— (Ri alto) Vou lembrar disso.

— Agora termina esse café antes que esfrie. A gente tem muito tempo pra se conhecer melhor.

Saí do apartamento do Natan pisando em nuvens, mas com a cabeça a mil. O cheiro do café dele ainda estava no meu nariz, e as palavras sobre ser "a pichação mais bonita" martelavam na minha mente. Desci os degraus tentando processar como o cara mais temido da escola tinha virado aquele porto seguro. Mas, assim que abri a porta de casa, o encanto quebrou. Minha mãe estava na sala, com uma cara preocupada, segurando o telefone sem fio.

​— Fernando! Onde você estava? Seu pai ligou três vezes. Ele disse que é urgente e que quer falar com você agora.

​Senti um gelo subir pela espinha. Peguei o telefone e fui para o quarto, fechando a porta.

​— Oi, pai. A mãe disse que você ligou.

— Demorou, hein, Fernando? Estava onde? Vagabundeando pelo pátio?

— Estava na casa de um vizinho, pai. Só conversando.

— Vizinho? Espero que não seja aquela molecada desocupada. Olha aqui, as notícias correm. Me falaram que você anda muito "estranho" por aí. Muito amiguinho de homem, sem aparecer com uma namorada. Eu não criei filho pra ser florzinha. Você tem que dar exemplo pro seu irmão!

— Meu irmão tem 10 anos menos que eu, pai! Ele é uma criança!

— Tem que ele te olha como herói, e eu não quero meu filho crescendo vendo o mais velho rebolando no pátio!

— Eu não rebolo no pátio, pai.

— Me falaram que você está muito "delicado". Roupas apertadas... Toma vergonha, rapaz. Vira homem pra esse menino ter em quem se espelhar! Ser homem é postura! É não deixar vizinho nenhum pensar que você gosta de levar ferro por trás.

— Ninguém pensa isso.

— Pensa sim! Se estão falando, é porque tem fumaça. Gay na minha família não tem vez. É uma doença, uma vergonha que eu não vou carregar.

— O mundo não é mais assim, pai...

— Pro seu pai é! Se eu descobrir que você anda se engraçando com homem, a coisa fica feia. Eu não vou aceitar ser piada por causa de filho mal resolvido.

— O senhor se preocupa mais com a fofoca do que comigo.

— Eu me preocupo com a honra! Você enfrenteu o Jonas hoje? Se não quebrou os dentes dele por ele te chamar de bicha, não adiantou nada.

— Eu resolvi na conversa. Não preciso ser bicho igual ao senhor!

— "Bicho"? Eu sou macho! Me prova que você também é. Arruma uma mulher de verdade. Seu irmão, com 10 anos, já tem mais pegada de macho que você!

— (Senti uma lágrima de raiva descer) O senhor está me comparando com uma criança?

— Estou comparando a natureza! Ele é bruto, você é todo cheio de dedinho. Jeito de piranha de condomínio. Eu tenho o direito de cobrar que meu filho seja homem! Homem de caráter não usa calcinha vermelha, Fernando!

— (O silêncio no quarto ficou ensurdecedor. Ele sabia de cada detalhe do flagra).

— O que foi? A vergonha bateu agora? É verdade ou não é? RESPONDE, CARALHO! Você estava de calcinha no quarto daquele moleque?

— Não, pai! Claro que não! Foi uma invenção da mãe dele pra me queimar!

— (Menti sentindo minha alma secar).

— Acho bom ser mentira. Porque se for verdade, eu te apago da minha história. Prefiro um filho morto. Morto tem dignidade. Viado não tem nada. Entendeu bem?

— Entendi, pai. Entendi perfeitamente quem o senhor é.

— Eu sou o homem que te deu a vida. Arruma uma mulher e para de andar com esse tal de Natan. Segurança de zona, só se for.

— O Natan é mais homem que muita gente que o senhor conhece!

— Defendendo marmanjo? É, a coisa está pior do que eu pensei.

— Eu só não gosto de injustiça.

— Justiça quem faz é Deus. E Ele não gosta de gente invertida. Se eu estivesse aí, você ia aprender a respeitar o pai no couro. Aja como tal. Honre o nome da família pro seu irmão não ter vergonha de você.

— Eu sou homem, pai. E eu curto mulher, tá legal? Satisfeito agora?

— Curte? Então prova. No Natal quero ver você com uma namorada do lado. Quero um sim ou um não.

— Sim, pai. Eu vou aparecer com alguém.

— Bom. Espero que seja uma moça de família. Não me faça passar vergonha na frente do seu irmão.

— Tchau, pai.

— Tchau. E lembra do Natal.

Depois que o som do telefone mudo ecoou no meu ouvido, o silêncio do quarto pareceu pesar toneladas. Eu não conseguia levantar da cama. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo e meu peito ardia, como se as palavras do meu pai tivessem deixado marcas físicas, cicatrizes invisíveis que queimavam sob a pele.

​— "Vou provar pra ele..." — repeti sozinho, mas minha voz saiu embargada, fraca, sem convicção nenhuma.

​Minha mãe bateu na porta de leve, a voz mansa transparecendo a preocupação que ela sempre carregava.

— Fernando? Você está bem, filho? O que seu pai queria de tão importante?

​— Nada, mãe. Só as mesmas cobranças de sempre. Eu vou tomar um banho e deitar, estou com uma dor de cabeça que não passa.

​Levantei-me e fui direto para o banheiro. Tranquei a porta e liguei o chuveiro no máximo, deixando o barulho da água abafar qualquer som que pudesse escapar. Deixei a água quente cair sobre a minha nuca, tentando lavar os tapa do SON, o toque doce do Marcos e a segurança que o Natan me passou. Mas o que não saía era a voz do meu pai me chamando de "doença" e de "piranha". Encostei a testa no azulejo frio e, finalmente, desabei.

​O choro veio ruidoso, doído, rasgando a garganta. Eu soluçava tanto que me faltava o ar, sentindo o peso de uma vida inteira de repressão explodir naquele momento. Eu odiava meu pai por me fazer sentir um lixo, e me odiava ainda mais por ainda me importar tanto com o que ele pensava.

​Saí do banho com os olhos inchados e vermelhos. Vesti uma camiseta larga e me enfiei debaixo das cobertas, mesmo com o calor que fazia naquela noite de outubro. Passei a noite inteira em claro, olhando para o teto, vendo as sombras das árvores do pátio dançarem na parede. Cada vez que eu fechava os olhos, via o rosto do meu irmãozinho de apenas 10 anos e imaginava meu pai o ensinando a me odiar, a me ver como um estranho, um "morto". Chorei até que não houvesse mais lágrimas, até que meus olhos ardessem e minha cabeça latejasse. Só apaguei quando o céu começou a clarear, um sono pesado de quem estava exausto de lutar contra si mesmo.

Acordei com o sol batendo na minha cara por volta das dez da manhã. Minha cabeça parecia que ia explodir, mas meu coração estava gelado. A tristeza da noite anterior tinha se transformado em uma determinação desesperada e amarga.

​— "Ele quer um homem? Ele vai ter um homem" — pensei, sentando na cama com os dentes cerrados.

​Eu precisava de uma namorada. Uma namorada "de família", como ele disse. Alguém que servisse de escudo contra o mundo e contra as línguas pretas do condomínio. Fui até o espelho e encarei meu reflexo. O rosto estava pálido, mas o olhar era decidido, quase frio. Saí do quarto e encontrei minha mãe na cozinha passando café.

​— Bom dia, filho. Você dormiu muito, estava preocupada com seu estado ontem.

— Bom dia, mãe. Eu estava exausto. Vou descer pro pátio um pouco, pegar um ar.

​Saí de casa decidido. Eu ia caçar uma namorada no condomínio, nem que fosse a última coisa que eu fizesse. Assim que pisei no pátio, vi a movimentação de sempre: as crianças correndo, os caras mexendo nos carros e as fofoqueiras de plantão. Avistei a Letícia sentada perto da quadra. Ela era irmã de um dos caras do futebol, uma menina bonita, evangélica, de saia jeans e postura impecável.

​— "É ela" — pensei. — "O tipo perfeito que meu pai aprovaria no Natal".

​Comecei a caminhar em direção a ela, tentando engrossar a voz e mudar meu jeito de andar, deixando o corpo mais rígido, mais "macho", sufocando qualquer trejeito que pudesse me denunciar. Mas, enquanto eu atravessava o pátio, meus olhos bateram involuntariamente na janela do terceiro andar.

​O Natan estava lá, sem camisa, debruçado no parapeito. Senti um frio na barriga. Ele me viu. Ele levantou a mão e fez um sinal de "joinha", com aquele sorriso de lado que sempre me desmontava. Desviei o olhar rapidamente. Eu não podia olhar pro Natan agora. O Natan era a verdade, e eu precisava viver uma mentira para sobreviver.

​Cheguei perto da Letícia e dei o meu melhor sorriso ensaiado.

— Oi, Letícia. Tudo bem?

— Oi, Fernando! Nossa, que milagre você vir falar comigo. Tudo certo, e com você?

— Tudo ótimo. Estava aqui pensando... faz tempo que a gente não conversa de verdade, né?

— Verdade. Você anda muito sumido, só quer saber de confusão.

— Pois é, cansei dessa vida. Queria algo mais tranquilo. Tipo sair pra tomar um sorvete hoje à tarde. Você topa?

​Ela arregalou os olhos, claramente surpresa.

— Topo! Claro que topo. Você mudou, Fernando. Está mais... direto. Gostei.

— É a maturidade, Letícia. Me busca às cinco?

​Saí de perto dela sentindo um peso enorme sair das minhas costas, mas um vazio ainda maior se abrir no peito. Eu tinha conseguido. Tinha um encontro com a "moça de família". Mas, enquanto eu voltava para o bloco, olhei para cima de novo. O Natan ainda estava lá. Mas ele não estava mais sorrindo. Ele me olhava com uma expressão séria, profunda, como se estivesse vendo através de toda a minha encenação.

​Abaixei a cabeça e entrei no corredor, sentindo que, para salvar minha vida com meu pai, eu estava prestes a destruir a minha alma.

​O relógio parecia não andar, mas às cinco horas em ponto, eu estava lá. Troquei meu short por uma calça jeans, coloquei uma camisa polo que minha mãe adorava e penteei o cabelo de um jeito bem comportado. Quando a Letícia saiu do bloco dela, o pátio inteiro parou para olhar. Ela estava com um vestido claro, bíblia na mão e um sorriso que iluminava o corredor.

​— Pontual, hein, Fernando? — ela disse, chegando perto. — Achei que ia me dar o cano.

— Jamais. Quando eu dou minha palavra, eu cumpro, Letícia.

​Começamos a caminhar em direção à saída do condomínio. Eu sentia os olhares das vizinhas pesando nas minhas costas. Dona Marli estava no portão e quase derrubou a sacola de pão quando nos viu juntos. Eu estufei o peito e segurei na mão da Letícia, sentindo a palma dela suada.

​— Para onde vamos? — ela perguntou, parecendo lisonjeada com o gesto.

— Vamos naquela sorveteria nova, perto da praça. Quero um lugar calmo pra gente conversar.

— Nossa, você está tão diferente hoje. O que aconteceu com aquele Fernando que vivia correndo de um lado para o outro?

— Acho que cansei de correr, Letícia. Agora eu quero caminhar do lado de quem vale a pena.

— Que lindo você falar isso. Fico feliz. Sabe, lá na igreja a gente fala muito sobre propósito.

— É mesmo? Me conta mais sobre isso.

— Ah, propósito é quando Deus coloca um caminho na nossa frente e a gente decide seguir.

— E você acha que eu posso ter um propósito também?

— Todo mundo tem. Até quem parece mais perdido.

— Eu me sinto meio assim às vezes. Perdido.

— Mas agora você está aqui, não está?

— Estou. E quero saber mais de você. Como é o seu dia a dia?

— Ah, eu ajudo na escola bíblica, cuido da minha avó e trabalho naquela loja de tecidos no centro.

— Trabalho duro, né?

— É cansativo, mas é honesto. E você? Como está no seu serviço?

— Indo bem. Me esforçando pra crescer. Meu pai cobra muito, sabe?

— Pai é assim mesmo. O meu também era rígido. Ele dizia que o caráter de um homem se vê nas pequenas coisas.

— O meu pai diz que se vê na postura. Ele é meio... antigo.

— Antigo não, Fernando. Ele deve ser um homem de princípios.

— É... princípios. Ele quer que eu seja o orgulho da família. Especialmente por causa do meu irmãozinho.

— Que fofo! Quantos anos ele tem mesmo?

— Tem 10 anos menos que eu. É um moleque de ouro. Não quero que ele aprenda nada errado.

— Você é um bom irmão. Isso conta muito para uma mulher.

— Sério?

— Com certeza. Homem que cuida da família é homem de verdade.

— (Aquelas palavras da Letícia eram como música para os ouvidos do meu pai, mas um ruído estranho para os meus).

— Letícia, eu estava pensando... será que eu podia ir com você no culto qualquer dia?

— (Ela parou de caminhar e me olhou, os olhos brilhando) Você faria isso?

— Faria. Quero conhecer o seu mundo. Quero ver o que te faz ser tão calma.

— Ai, Fernando! Eu ia amar. Tem culto na quarta-feira, você quer ir?

— Quero. Pode anotar aí. Eu vou com você.

— O pessoal da mocidade vai ficar doido. Ninguém nunca te viu por lá.

— Pois vão passar a ver. Quero mudar minha imagem no bloco.

— Aquela história da calcinha... foi muito maldosa, né?

— (Senti um nó na garganta) Foi. Uma mentira que inventaram pra me derrubar.

— Eu sabia! Eu falei pra minha mãe: "O Fernando é um menino de família, ele nunca faria uma coisa dessas".

— Obrigado por acreditar em mim, Letícia. Significa muito.

— Imagina. A gente sabe quem é quem. E o Jonas nunca foi flor que se cheire.

— Ele é um invejoso. Mas deixa pra lá. Vamos falar de coisa boa.

.

​— Você gosta de música gospel ou prefere as que tocam na rádio? — ela perguntou, enquanto a gente caminhava devagar.

— Eu sou eclético. Mas confesso que não conheço muito o que vocês ouvem lá na igreja.

— Ah, eu tenho uns CDs maravilhosos em casa. Se você quiser, eu te empresto um do Diante do Trono ou da Cassiane. Você tem rádio com CD no seu quarto?

— Tenho sim, um da Sony que ganhei no meu aniversário.

— Então pronto! Vou te emprestar o meu favorito. Tem umas letras que falam direto com o coração de quem está querendo mudar de vida.

— Vou querer sim. Quero entrar no clima pra quarta-feira.

— Você é tão atencioso... diferente de todos os meninos do CDHU. Eles só querem saber de funk e de aparecer.

— É que eu não sou como eles, Letícia. Eu busco algo mais profundo agora.

​Eu estava mentindo tanto que sentia minha língua pesada, mas o resultado estava vindo. Cada palavra minha era um tijolo na parede que eu estava construindo pra me proteger do meu pai.

​— Chegamos na sorveteria. O que você vai querer? — perguntei, tirando uma nota de dez reais amassada do bolso.

— Um de baunilha, por favor.

— Dois de baunilha, então. — Paguei os sorvetes e fomos sentar em uma mesinha no fundo, longe da calçada.

— Porque você esta com essa carinha ? Aconteceu alguma coisa ?

- Meu pai me ligou ontem ! E acabou mechendo comigo.

​— Fernando, o que o seu pai disse pra você ontem no telefone? Você parecia tão abalado quando desceu hoje... vi você de longe e parecia que tinha carregado o mundo nas costas.

— Ah... ele cobrou o de sempre. Sabe como ele é, né? Mora longe, mas quer mandar em tudo. Disse que eu precisava criar juízo, que homem de verdade não vira assunto de fofoca.

— E ele falou isso por causa daquela maldade que o Jonas e a mãe dele fizeram?

— Sim. Ele ficou com vergonha. E eu não quero que meu pai tenha vergonha de mim, Letícia. Ele tem o temperamento forte, se ele desconfia de algo, ele me apaga da vida dele.

— Mas você não tem que fazer as coisas só por medo dele. Tem que fazer por você.

— Eu sei. Mas as duas coisas agora são uma só. Eu quero ser o homem que ele espera. E ele espera que eu tenha uma mulher boa do lado. Alguém como você, que todo mundo respeita.

— (Ela ficou vermelha na hora, mexendo na colherinha de plástico) Você não perde tempo, hein? Na escola você era tão calado.

— A vida é curta. E eu já perdi tempo demais com amizades que não prestam.

— Você fala do Son e Jonas e do pessoal do seu bloco ?

— De todo mundo. Não quero meu nome envolvido com gente que não tem futuro.

— Fez bem. A Bíblia diz que as más companhias corrompem os bons costumes. Meu pastor fala isso todo culto.

— Exatamente o que meu pai diz. Ele sempre teve razão, eu que era teimoso.

— E o Natal? Você vai passar com ele?

— Ele quer que eu vá pra lá. E ele me desafiou a levar uma namorada. Alguém que ele olhe e sinta orgulho.

— (Ela deu um sorriso tímido, os olhos brilhando atrás da franja) E você já tem alguém em mente?

— Tenho. Se essa pessoa aceitar ir na igreja comigo na quarta e a gente se entender... quem sabe?

— A vida é curta, Letícia. E eu já perdi tempo demais com amizades que não me levavam a lugar nenhum.

— Você fala do Marcos?

— Do Marcos, do Son... de todo mundo que só quer saber de bagunça.

— O Son dá medo. Ele é muito perigoso.

— É, eu me afastei. Não quero meu nome envolvido com gente desse tipo.

— Fez bem. Lá na igreja a gente diz que "as más companhias corrompem os bons costumes".

— Exatamente o que meu pai diz. Ele sempre teve razão.

— Você é muito apegado a ele, né?

— Mais do que eu gostaria. Mas ele é meu sangue.

— Sangue é sagrado. Por isso que eu admiro sua vontade de mudar.

— Pois é. E na quarta eu vou estar lá, no primeiro banco.

— Vou te apresentar pro pastor Silas. Ele é uma bênção.

— Combinado. E depois do culto, a gente pode comer uma pizza?

— Pizza? Com a minha família?

— Se eles deixarem, eu adoraria. Quero que eles saibam que minhas intenções com você são as melhores.

— Nossa... você está falando sério mesmo, né?

— Seríssimo. Quero começar o ano com a vida organizada.

— O Natal está chegando... você vai passar onde?

— Meu pai quer que eu vá pra lá. E ele pediu pra eu levar uma namorada.

— (Ela deu um gritinho baixo de empolgação) Fernando! Você está me pedindo em namoro?

— (O chão sumiu, mas eu respirei fundo) Ainda é cedo, mas... se tudo der certo até lá, você aceitaria ir comigo?

— Aceitaria! Seria uma honra conhecer seu pai.

— Ele vai adorar você. Você é tudo que ele sempre sonhou pra mim.

— E o que você sonha pra você?

— (Pensei no Natan. Pensei nos pichadores. Pensei no beijo doce que eu nunca daria na Letícia) Eu sonho em ter paz. Só isso.

— Com Deus você vai achar essa paz. Tenho certeza.

— Tomara, Letícia. Tomara.

— Sabe, eu sempre achei você bonito, mas achava que você era "areia demais pro meu caminhão".

— Por que? Eu sou um cara simples.

— Porque você é muito visado. Todas as meninas olham pra você.

— Eu não olho pra nenhuma. Meu foco agora é outro.

— Que bom ouvir isso. Me sinto especial.

— E você é. Muito especial.

— Vamos caminhar mais um pouco? O sol está se pondo, a vista da praça é linda.

— Vamos. — Saímos da sorveteria e eu passei o braço pelos ombros dela.

— Seus amigos vão ver a gente... não tem problema?

— Problema nenhum. Quero que todo mundo veja.

— (Na verdade, eu queria que o Jonas visse. Que o Son visse. Que o bloco inteiro visse o "novo Fernando").

— Olha aquele pôr do sol, Fernando. Deus caprichou hoje, né?

— Caprichou. É uma pintura.

— Você gosta de artes?

— Gosto. Eu... eu costumava observar umas pichações por aí.

— Ai, pichação é coisa de marginal, né? Suja a cidade toda.

— (Lembrei do Natan falando das marcas dele) É... tem gente que acha que é arte, mas eu entendo o que você diz.

— Sujar o patrimônio não pode ser arte. Arte é o que edifica.

— Verdade. Você tem razão.

— O pastor diz que a nossa vida é um templo. Temos que manter limpa.

— Vou tentar limpar a minha.

— Eu te ajudo. A gente se ajuda.

— Você é um anjo, Letícia.

— Sou só uma serva. Mas uma serva bem feliz hoje.

— Eu também estou... aliviado.

— (Aliviado por ter uma mentira tão bem construída que até eu estava começando a acreditar).

— Vamos voltar? Daqui a pouco escurece e sua mãe fica preocupada.

— Vamos. Não quero dar motivo pra ninguém falar nada de errado.

— Você é um cavalheiro.

— Tentando ser, Letícia. Tentando ser.

​Caminhamos de volta para o CDHU sob a luz dos postes que começavam a acender. Quando entramos no portão principal, a movimentação estava no auge. O pessoal do futebol estava saindo da quadra, suado e rindo. O Jonas estava no meio deles. Quando ele me viu abraçado com a Letícia, o riso dele morreu na hora. Ele parou, com a bola debaixo do braço, e ficou encarando a gente com uma cara de quem não estava entendendo nada. Eu não desviei o olhar. Dei um aceno de cabeça seco, como um homem sério faria, e continuei andando.

​Mas, ao passar pelo bloco B, olhei para cima por puro instinto. A janela do Natan estava fechada, mas a luz estava acesa. Eu sabia que ele estava lá atrás, vendo o "Fernando Vagabunda" ser substituído pelo "Fernando da igreja". Meu peito apertou tanto que quase perdi o passo, mas a Letícia apertou minha mão e eu segui em frente, em direção à porta de casa, em direção ao Natal, em direção ao que meu pai chamava de vida.

Depois do sorvete, a Letícia me puxou para o bloco dela. "Meus pais precisam saber disso, Fernando! Eles vão ficar tão felizes". Meu estômago deu um nó, mas eu mantive a postura. Entramos no apartamento, que cheirava a desinfetante de lavanda e bolo de fubá. O pai dela, Seu Antenor, estava sentado na poltrona lendo um jornal, e a mãe, Dona Célia, estava na cozinha.

​— Pai, olha quem veio me trazer em casa! O Fernando, filho da Dona Sônia. — Letícia disse, radiante.

​Antenor baixou o jornal e me olhou por cima dos óculos. O silêncio foi tenso.

​— Boa noite, Seu Antenor. Boa noite, Dona Célia. — eu disse, com a voz firme.

— Boa noite, rapaz. Senta aí. — Antenor apontou para o sofá de napa.

— O Fernando quer ir no culto com a gente na quarta, pai! — Letícia disparou.

— É mesmo? — Dona Célia apareceu na porta da cozinha, limpando as mãos no avental.

— Que coisa boa, Fernando. Sua mãe sempre foi uma mulher de fé, fico feliz que você esteja seguindo o caminho.

— Pois é, Dona Célia. Eu andei meio perdido, mas sinto que agora é o momento de mudar.

— O mundo está perigoso, rapaz. Muita tentação no pátio desse CDHU. — Antenor comentou, fechando o jornal.

— Eu sei disso, Seu Antenor. Por isso eu queria pedir uma coisa pro senhor.

— Pode falar.

— Eu tenho muito respeito pela Letícia. E eu gostaria que a gente começasse do jeito certo.

— Do jeito certo como?

— Eu queria saber se o senhor permite que a gente ore juntos. Quero pedir a Deus que direcione o que eu sinto por ela.

— (Letícia soltou um suspiro audível de surpresa e emoção).

— Orar? Você quer orar com a minha filha antes de qualquer coisa? — Antenor parecia desarmado agora.

— Sim. Quero que nosso relacionamento, se for da vontade de Deus, tenha uma base forte.

— Isso é raro hoje em dia, Fernando. — Dona Célia disse, emocionada.

— Os rapazes hoje só querem saber de "ficar".

— Eu não sou como os outros rapazes. Eu tenho planos. Quero honrar minha família.

— Seu pai sabe disso? — Antenor perguntou.

— Sabe. Ele foi quem mais me cobrou postura. Ele quer me ver com uma moça de família.

— Pois bem. Se a intenção é orar, eu não posso negar. Vamos fazer isso agora.

— Agora? — Letícia perguntou, ficando vermelha.

— Sim. Vamos formar uma corrente aqui na sala.

​Nos levantamos. Segurei a mão da Letícia e a mão calejada do Seu Antenor. Fechei os olhos, mas por dentro eu sentia um grito de socorro. Ouvir o Seu Antenor orar por "esse novo casal" e pedir proteção para o meu "caráter" me fez sentir o maior pecador do mundo. Eu estava usando a fé deles como escudo, e a culpa pesava mais que a calcinha vermelha no bolso.

​— Amém! — todos disseram juntos.

— Que coisa linda, Fernando. — Letícia me abraçou rápido na frente dos pais.

— Quarta-feira te busco às sete, então?

— Estarei pronta! — ela disse, me acompanhando até a porta.

— Vai com Deus, rapaz. — Antenor deu um aperto de mão forte. — Juízo no caminho.

​Saí de lá abafado. O ar do apartamento parecia pouco. Decidi dar a volta pelo estacionamento para chegar no meu bloco, tentando evitar o pátio central. Mas, para minha sorte — ou azar —, lá estava ele. O Natan estava debruçado sobre o capô de um Gol quadrado preto, limpando o motor com uma flanela. Ele estava sem camisa, e o suor brilhava nos músculos das costas.

​Tentei apertar o passo, baixei a cabeça e fui passando reto, rente aos outros carros.

​— Já acabou o teatro ou ainda tem o segundo ato? — a voz grave dele ecoou no estacionamento vazio.

​Parei na hora. Meu sangue ferveu. Olhei para ele, que agora estava encostado no carro, me olhando de cima a baixo com um sorriso cínico.

​— Não sei do que você está falando, Natan.

— Não sabe? Eu vi você lá de cima, Fernando. Segurando a mão da "irmãzinha" como se fosse um santo.

— Eu estou tentando mudar de vida, não pode?

— Mudar de vida ou mudar de máscara? — ele deu um passo em minha direção, a flanela suja de graxa na mão.

— Você não me conhece, Natan. Não sabe o que eu estou passando.

— Eu te conheço desde o recreio, lembra? Eu vi você ontem aqui no meu sofá sendo real. E hoje vejo esse boneco de cera aí.

— O que eu fiz ontem foi um erro. Eu tenho um pai, eu tenho uma família pra honrar.

— E você honra eles mentindo pra uma menina que acredita em anjo?

— Não é mentira! Eu gosto da Letícia. Ela é boa pra mim.

— Ela é o seu esconderijo, isso sim. Você está usando a garota pra se esconder do seu velho.

— Cala a boca, Natan! Você não manda em mim.

— Eu não mando, mas eu vejo. E dói ver você se matando por dentro pra agradar um cara que nem mora aqui.

— (Me aproximei dele, com raiva) O que você quer, hein? Quer que eu vire o pichador marginal igual a você?

— Eu prefiro um marginal verdadeiro do que um crente de fachada. Pelo menos eu sei quem eu sou quando olho no espelho.

— Eu sei quem eu sou!

— Sabe? — ele chegou bem perto, o cheiro de óleo e suor invadindo meus sentidos. — Então me olha no olho e diz que você não queria estar lá em cima comigo agora.

— (Desviei o olho, sentindo minhas pernas tremerem) Eu não queria. Aquilo foi um momento de fraqueza, eu nem fiz nada apenas conversamos!

— Fraqueza é o que você está fazendo agora. Fugindo.

— Eu não estou fugindo, estou evoluindo. Vou pra igreja, vou ser o filho que meu pai quer

.

— E quando você estiver na cama com ela, vai pensar no seu pai também pra conseguir funcionar?

— (Levantei a mão pra dar um soco, mas ele segurou meu pulso com uma facilidade absurda)

— Calma, pichador. Não gasta sua energia comigo. Guarda pra quarta-feira, você vai precisar de fôlego pra cantar os hinos.

— Me solta!

— Eu solto. Mas lembra de uma coisa: a tinta da pichação a gente limpa com solvente. Mas a mentira... essa aí gruda na alma e não sai mais.

— Some da minha frente, Natan.

— Eu não vou a lugar nenhum. Eu moro aqui, lembra? Vou estar na janela assistindo seu show.

​Ele voltou a limpar o carro como se eu não existisse mais. Saí de lá tremendo, com o pulso doendo onde ele apertou e o coração em frangalhos. Ele tinha razão e eu odiava ele por isso.

​Cheguei em casa e bati a porta com força. Minha mãe estava na sala vendo a novela das oito. Ela me olhou e abriu um sorriso enorme quando viu minha roupa comportada.

​— Fernando! Que lindo você está, meu filho. Onde foi assim tão arrumado?

— Fui na sorveteria com a Letícia, mãe. E depois conheci os pais dela.

— Da Letícia? Aquela moça da igreja? — ela se levantou, empolgada. — Ah, eu não acredito! Que benção, meu filho!

— É, mãe. A gente orou junto lá na sala dela. Com o Seu Antenor e tudo.

— Orou? Meu Deus, eu vou ligar pra sua tia agora mesmo! Isso é um milagre!

— Não precisa exagerar, mãe. Eu só cansei de confusão. Quero paz.

— Você não sabe como eu fico feliz. Eu sempre rezei pra você achar uma moça assim, que te levasse pro bom caminho.

— O pai ligou de novo?

— Não ligou, mas eu vou ligar pra ele amanhã pra contar. Ele vai ficar tão orgulhoso...

— Não conta ainda, mãe. Deixa as coisas ficarem mais firmes.

— Por que, filho? Ele estava tão preocupado com você...

— Eu sei, mas eu quero fazer uma surpresa no Natal. Quero chegar lá com ela e mostrar que eu mudei de verdade.

— Você está certo. Ele vai cair para trás. Mas me conta, você gosta mesmo dela?

— Gosto... ela é uma menina muito boa, mãe. Atenciosa, respeitosa.

— É isso que importa. Beleza acaba, mas o caráter fica. E ela é uma santa.

— É... uma santa.

— E aquele pessoal que você andava? O Natan, o tal do segurança novo... você se afastou?

— Me afastei. O Natan é meio estranho, não quero me misturar. E o Jonas é muito moleque.

— Graças a Deus! Eu sentia que aquele Natan tinha uma energia pesada. Muito homem, muito bruto...

— (Senti uma pontada no peito ao ouvir ela falar dele) É, ele é meio grosso mesmo. Encontrei ele no estacionamento agora e ele foi super ignorante.

— Tá vendo? Gente assim não serve pra você. Você é delicado, é educado. Precisa de alguém suave como a Letícia.

— Eu vou tentar ser o melhor pra ela, mãe.

— Você vai conseguir. E na quarta eu vou preparar sua melhor camisa pra você ir pro culto.

— Valeu, mãe. Vou pro quarto, estou com muita dor de cabeça.

— Vai lá, meu anjo. Descansa. Deus está no controle agora.

​Entrei no meu quarto e fechei a porta. Olhei para o rádio Sony no criado-mudo. O silêncio da casa parecia estar gritando comigo. Eu tinha a aprovação da Letícia, dos pais dela, da minha mãe e, em breve, do meu pai. Eu tinha tudo o que um "homem de verdade" deveria ter , Mas quando deitei na cama e fechei os olhos, a única coisa que eu conseguia sentir era o aperto do Natan no meu pulso e o cheiro de graxa e liberdade que ele exalava. Eu estava salvo pelo mundo, mas estava condenado por mim mesmo.

A quarta-feira chegou com um peso diferente. O dia todo no trabalho eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser na noite que teria pela frente. Minha mãe separou minha melhor camisa polo, uma azul-marinho que me deixava com cara de bom moço, e calça jeans nova. Tomei um banho demorado, me perfumei e encarei o espelho. Eu não via o Fernando ali; via um personagem que meu pai aplaudiria.

​Passei no bloco da Letícia às sete em ponto. Ela desceu radiante, com uma saia longa preta, uma blusa branca impecável e o cabelo preso num coque elegante. Ela segurava o CD que tinha me prometido e a Bíblia contra o peito.

​— Você está lindo, Fernando! — ela disse, me dando um beijo casto no rosto. — Parece um príncipe.

— Você que está maravilhosa, Letícia. Vamos?

​Caminhamos até a igreja, que ficava a poucas quadras do CDHU. Durante o culto, eu tentei prestar atenção, mas minha mente era um turbilhão. Eu levantava a mão quando todos levantavam, fechava os olhos quando o pastor Silas pedia, mas por dentro eu me sentia um impostor. A cada hino que a Letícia cantava com aquela voz doce, uma parte de mim morria de culpa. Na hora da oração final, o pastor pediu bençãos para os "jovens que estão iniciando uma caminhada de santidade", e eu senti o olhar da Letícia queimando em mim, cheio de esperança.

​Na volta, o caminho foi silencioso e tranquilo. Deixei ela na porta do bloco dela.

— Foi o melhor culto da minha vida, Fernando. Ver você ali... eu tive a confirmação que Deus está no negócio.

— Que bom, Lelê. Eu também senti algo diferente.

— Amanhã a gente se fala?

— Com certeza. Descansa.

​Esperei ela entrar e suspirei fundo, soltando o ar que parecia preso desde o início do culto. Comecei a caminhar em direção ao meu bloco, mas quando entrei no corredor escuro que dava acesso às escadas, senti um vulto. O coração disparou.

​— O crente finalmente chegou em casa — a voz do Natan veio do escuro, encostado na parede do primeiro lance de degraus.

​Eu gelei. Tentei passar reto, mas ele se desencostou da parede e bloqueou o caminho.

Ele estava com aquela jaqueta de couro preta e o cheiro de cigarro e mistério.

​— Sai da frente, Natan. Eu estou cansado.

— Cansado de fingir? — ele deu um passo pra frente, me prensando levemente contra o corrimão de ferro. — Vi você passando com ela. Camisa passada, cabelo lambido... o figurino tá perfeito, Fernando.

— É o que eu preciso fazer. Você mesmo disse, a mentira gruda na alma, mas é ela que me mantém vivo pro meu pai.

— E o que te mantém vivo pra você mesmo? — ele perguntou, a voz agora num sussurro perigoso, muito perto do meu ouvido.

— Eu não sei mais...

— Eu sei.

​Antes que eu pudesse responder, o Natan avançou. Não foi um movimento brusco, foi inevitável. Ele segurou minha nuca com aquela mão enorme e áspera de quem picha muros e domina o mundo, e me puxou pra ele. O beijo não foi calmo; foi uma explosão de tudo o que estava reprimido. Tinha gosto de urgência, de verdade proibida.

​Foi o melhor beijo do mundo. A boca dele era quente, firme, e a língua dele explorava a minha com uma autoridade que me fazia perder os sentidos. Eu esqueci a Letícia, esqueci meu pai, esqueci a igreja. Ali, na penumbra da escada, a única coisa real era a pegada dele na minha cintura, os dedos dele se enterrando no meu cabelo.

​— Natan... a gente não pode... — eu tentei dizer entre um fôlego e outro, mas minhas mãos já estavam por dentro da jaqueta dele, sentindo o calor do seu corpo.

— Cala a boca, Fernando. Para de pensar por um segundo.

​Ele me impulsionou contra a parede da escada, e o barulho dos nossos corpos batendo no concreto ecoou no corredor vazio. Ele me segurou com força, uma pegada bruta, mas cheia de desejo, me suspendendo levemente. Eu sentia cada músculo dele contra o meu. Era um contraste absurdo: eu vestido de "crente" e ele me despindo com os olhos e com as mãos ali mesmo, no meio do caminho.

​— Você é um vício maldito — ele sussurrou contra o meu pescoço, me fazendo arrepiar inteiro. — Pode ir pra igreja o quanto quiser, mas é aqui, no escuro, que você se encontra

.

— Você me odeia por isso, não odeia? — perguntei, ofegante.

— Eu odeio o fato de você tentar se apagar. Mas eu picho a verdade em você toda vez que te toco.

​Ele me deu mais um beijo, mais profundo, mais lento, como se estivesse marcando o território dele na minha alma. Quando ele finalmente me soltou, eu estava trêmulo, com os lábios inchados e o coração saindo pela boca.

​— Sobe agora, "bom moço" — ele disse, voltando para a sombra com um sorriso cínico. — Sua mãe deve estar esperando o filho santo.

— Natan... isso não muda nada.

— Muda tudo, Fernando. Você só é covarde demais pra admitir.

​Subi os degraus tropeçando nas próprias pernas. Quando entrei em casa, minha mãe estava na cozinha lavando a louça.

— Chegou, meu filho! Como foi? A Letícia gostou?

— Foi... foi maravilhoso, mãe. A Letícia está muito feliz.

— E você? Por que está tão pálido e ofegante?

— A escada, mãe... subi correndo pra ver se você ainda estava acordada. Vou pro banho, tá?

— Vai lá, meu anjo. Que Deus te abençoe.

​Entrei no banheiro e encostei a porta. Olhei no espelho e vi meus lábios vermelhos e meu olhar perdido. Eu tinha acabado de sair de um altar e caído direto nos braços do meu "pecado" favorito. A mentira para o mundo estava cada vez mais perfeita, mas a verdade com o Natan estava se tornando um incêndio que eu não sabia mais como apagar.

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