Era domingo de manhã. Caminhávamos pela Avenida GV, tradicional na cidade, justamente no dia em que a via é fechada para os carros e se abre para as pessoas. Ao meu lado, ela seguia com o cabelo ainda mais liso do que de costume, já é liso, mas a luz do sol parecia acariciá-lo, deixando-o suave, brilhante, como se fosse uma extensão da própria manhã.
Ao nosso redor, famílias inteiras aproveitavam o espaço: crianças em bicicletas pequenas, corredores ritmados com seus fones de ouvido, casais de mãos dadas, grupos de amigos conversando alto.
As árvores alinhadas ao longo da avenida projetavam sombras frescas sobre o asfalto, e mais adiante uma quadra de areia reunia jovens jogando vôlei, rindo alto a cada ponto.
No meio desse cenário de lazer e movimento, o silêncio entre nós parecia destoar. Não era apenas o silêncio de agora. Era o mesmo silêncio do bosque, da livraria. Cada passo que dávamos se misturava com lembranças de outros encontros, como se o tempo tivesse deixado de existir.
As risadas da quadra atravessaram o ar e, de repente, já não eram apenas risos de jovens se divertindo. Tornaram-se ecos da livraria, vozes escondidas atrás das estantes.
Eu os imaginava como amigos invisíveis, observando minha esposa com os mamilos grandes e endurecidos, tão salientes que chamavam a atenção de qualquer olhar. O vestido parecia incapaz de esconder a excitação, colado ao corpo como se revelasse mais do que ocultasse.
E lá estava ela, acariciando o abdômen de um love boy qualquer, enquanto os risos atrás das estantes se misturavam ao som da quadra, zombando de mim, lembrando que nada é segredo.
Não havia quadra, não havia avenida, não havia domingo. Havia apenas testemunhas ocultas, sempre rindo, sempre olhando, sempre me lembrando que nada é segredo.
O tempo se dissolveu, e eu estava novamente preso na dúvida, se aquilo acontecia diante de mim ou apenas dentro de mim.
Seguimos caminhando. As vitrines das lojas se sucediam ao longo da avenida, exibindo móveis, roupas, objetos que pareciam brilhar sob a luz da manhã.
Foi então que me deparei com meu próprio reflexo no vidro.
Por um instante, não vi apenas o homem que caminhava ao lado dela. Vi a noite, o carro, meu olhar fixo no retrovisor, tentando decifrar o que acontecia atrás de mim.
Dentro da vitrine, um sofá exposto chamou minha atenção. Mas não era apenas um sofá. Era o banco traseiro do carro, onde eu via minha esposa sendo fodida pelo professor.
Os sons da rua se misturavam ao som daquela noite, gemidos abafados, respirações pesadas.
Pelo reflexo, eu me via observando, mas só conseguia fixar o olhar nas bolas do colega, balançando, enquanto a pica dele estava toda enterrada dentro da xotinha dela.
O sofá, o reflexo, o retrovisor, tudo se misturava. Não havia avenida, não havia domingo. Havia apenas a repetição das imagens, sempre voltadas para ela, sempre me lembrando que nada é segredo.
O silêncio entre nós seguia intacto, mas dentro de mim o tempo já não existia. Eu estava preso na dúvida, entre o que via, o que lembrava e o que temia.
Preciso relaxar. Preciso me acalmar.
Falo comigo mesmo, tentando convencer minha mente: tudo isso não mudou a minha vida. O que aconteceu ou o que eu penso que aconteceu, está lá, guardado, distante.
Não me destruiu, não me transformo.
Está tudo lá. No bosque, na livraria, no carro, na avenida.
Cada cena permanece como se fosse um arquivo que se abre sozinho, sem que eu queira. Mas eu sigo caminhando. Eu sigo ao lado dela.
Repito em silêncio: preciso relaxar, preciso acalmar. Talvez seja apenas isso que me resta — aceitar que as imagens não desaparecem, mas também não me levam embora. Elas estão lá. Sempre estarão.
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