Verena abriu os olhos lentamente, a cabeça pesada, o corpo dolorido e marcado por mãos vorazes que apertaram e estapearam sua pele. Eram 10:30 da manhã, o som do vizinho bombando.
Por um momento, ela não entendeu onde estava, aquela sensação estranha de acordar em um local totalmente fora de onde conhece há muitos anos, tipo “quem sou eu, onde estou”. Então, virou a cabeça e viu Marquito ao seu lado, nu, dormindo profundamente. Há alguns metros dos seus pés, Leandro estava deitado de bruços, o rosto virado para o lado. Com a cabeça em cima das costas dele, como se seu dorso fosse um longo travesseiro, estavam as cabeças de Andreza e Jéssica. Todos peladões.
O baque veio como um soco no estômago. Verena sentou-se rapidamente, o coração disparado, a respiração ofegante. As imagens da noite anterior voltaram a toda as mãos, as línguas, as penetrações, os gemidos, a entrega total. Ela tinha transado com todos eles. Todos.
"O que eu fiz?", ela pensou, levando as mãos ao rosto, um sinal do desespero que tomaria conta daquele lugar tão logo os outros despertassem,
O celular estava ao lado. Ela pegou com a mão trêmula e viu a tela: 5 chamadas perdidas de Benício, 2 mensagens de áudio, e uma mensagem de texto que a fez paralisar:
"Ontem eu surtei, foi até melhor eu ter ido embora logo. Como foi a noite depois de mim? Precisamos de muita conversa”
Verena sentiu o chão se abrir sob seus pés. As lágrimas desceram instantaneamente, grossas, escorrendo pelo rosto enquanto ela ouvia as mensagens “aconteceu alguma coisa?” “me ligue” “que diabos está havendo??”... Ele tava preocupado. E ela… não esteve nem aí horas atrás.
- Não... não...
O choro despertou os outros lentamente. Jéssica foi a primeira a se mexer, sentando-se no chão e esfregando os olhos.
Jéssica:Verena? O que foi?
Verena: Você ainda pergunta? Que merda foi aquela ontem???
Marquito: Calma, Verena. É hora da conversa.
Verena, ainda chorosa, comentou
Verena: Conversa? Olha aqui.. Benício… mandou mensagens. Tá preocupado, pedindo pra gente conversar.... ainda chateado!Pior: desconfiado. E eu tava aqui... transando com vocês quatro!
A última frase saiu quase como um grito, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Os quatro trocaram olhares, a tensão tomando conta do ambiente.
Andreza: Verena, calma, vamos respirar.
Verena: Respirar? Como é que eu vou respirar depois disso? Eu traí ele! Traí o único homem que realmente me amou!
Leandro: Sei que não é fácil. Estávamos todos juntos e...
Verena: E o que? Só falta me dizer agora que não houve traição!Foi uma suruba, Leandro!Eu transei com todos vocês! Com Marquito, com você, com Andreza e Jéssica! Como é que isso não é traição?
Leandro: Não é isso que eu quis dizer, é… isso é confuso...
O grupo ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Verena continuou, as palavras saindo como um fluxo incontrolável.
Verena: Eu já tinha sonhado com vocês trepando, já tinha falado pro Benício que tinha curiosidade. Ele ficou desconfortável, e eu continuei alimentando essa ideia. E ontem... ontem eu só me entreguei, sem pensar, sem considerar ele.
Jéssica: Verena, a gente sacou que você tava afim. Quando você ficou no bar e não foi atrás dele, a gente sabia que você queria estar ali. Não foi algo que a gente forçou. Tudo ontem, da maneira que rolou... ficou inevitável. Todos constataram a explosão dele, todos ficamos desnorteados e o que fizemos foi não encerrar aquela noite porque não estávamos sentindo o que ele sentiu!
Verena: Caramba, é justamente isso! A gente não se solidarizou com ele em momento algum! E vocês poderiam ter me parado! Poderiam ter dito "Verena, isso é uma cilada, você vai se arrepender". Mas vocês não fizeram isso. Vocês só queriam me comer! Tudo foi uma sacanagem, em todos os sentidos!
Verena estava gritando já.
Marquito: A gente não te usou, Verena. Tá, a gente pode ter ido longe demais, porém, foi tudo fruto de uma crescente... a gente... eu... senti seu desejo. Desculpe, todos erramos, mas aquilo ontem não... não tínhamos como escapar. Foi forte pra todos, faziamos isso, e você estava conosco desde o início de tudo!
Verena: Porque eu estava louca! Eu nunca tinha vivido aquilo, nunca tinha sentido aquela intensidade. E agora eu tô aqui, olhando pra mensagem do Benício, e sentindo que meu mundo acabou.
Andreza se aproximou, tentando tocar o ombro de Verena, mas ela se afastou.
Verena: Não me toca, Andreza, por favor! Já basta ontem.Nossa, nunca senti nojo de mim mesma... eu não tava preparada...
Jéssica: Você não é nojenta. Você é uma mulher que descobriu um lado que não conhecia. Tente amadurecer isso.
Verena: Não importa o quanto eu tenha gostado ontem, não importa o quanto tenha sido bom... isso não vai mudar o fato de que eu destruí tudo.
O grupo ficou em silêncio, a gravidade da situação finalmente se instalando em todos. Marquito passou a mão no rosto, claramente preocupado. Leandro estava com os olhos fixos no chão. Andreza e Jéssica se entreolharam, a culpa começando a aparecer em seus rostos.
Marquito: Temos que cair na real... a situação é grave
Verena: Como se explica o que houve ontem? Isso... não tem como explicar!
Leandro: Deixa isso com a gente. Você não precisa passar por isso.
Verena: Para de me tratar como garotinha! Tenho minhas responsabilidades que preciso arcar.
Leandro: Só estou propondo uma saída.
Verena:Não tem saída! Eu traí, e ponto. Não tem como voltar atrás. Eu olho pra vocês quatro e só consigo lembrar do que a gente fez, e isso me destrói. Porque foi bom... foi tão bom... que não restará mais nada. Foi uma selvageria, me desconheci completamente. Mas reconheço que… imaginar viver isso estava me enlouquecendo.
Ela colocou as mãos no rosto, os ombros tremendo de tanto chorar. Os quatro ficaram imóveis, sem saber o que fazer, a culpa pesando sobre todos.
Verena: Me sinto como se tivesse contraído um vírus… começando a sentir os sintomas, mas sem medicação, sem vacina pra combater… e pela patologia nova, não tinha… não tinha anticorpos pra enfrentar esse mal… eu fui… uma hospedeira… e sucumbi à doença. Deixei me contaminar… não consegui evitar uma situação totalmente nova pra mim...
Jéssica: Olha, Verena, eu sei que a gente errou. A gente devia ter pensado mais antes de te incluir nisso. Mas a gente não fez por mal. A gente viu você como parte da gente, como alguém que queria estar ali.
Verena: E eu queria. Eu queria muito. Mas agora veio a culpa. A conta vai chegar muito pesada.
Andreza: Você descobriu algo sobre você e isso não é errado. O que foi errado foi a gente não ter pensado nas consequências.
Verena: A consequência é que um namoro legal se esvaiu.Eu perdi o Benício. Não importa o que eu faça, não importa como eu me desculpe. Quando ele souber disso, acabou.
Jéssica: A gente tava muito feliz de estarmos juntos. Com você… só queríamos o desfecho que houve...
O silêncio voltou. Marquito, Leandro, Andreza e Jéssica estavam paralisados, a consciência do estrago que tinham feito finalmente se instalando. Verena olhou para os quatro, sentindo a confusão de sentimentos: desejo, culpa, arrependimento, e uma tristeza profunda.
Verena: Depois da noite de ontem, o preço vai vir, pesado. Pra todo mundo aqui. Tenho quase certeza.
Marquito: Meu Deus... que terrível...
Verena: Vocês conseguem separar as coisas. Pra vocês, tudo parece simples. Vocês vivem assim, são livres, não ficam pensando dez vezes antes de fazer alguma coisa.
Andreza: Talvez você tenha descoberto que também não é tão diferente quanto imaginava.
Leandro: Porra, Andreza, não piora as coisas, olha o estado dela!
A euforia da noite anterior havia desaparecido completamente.
Restava apenas aquela sensação pesada de que uma decisão tomada no calor da madrugada agora teria consequências que nenhum dos cinco conseguia prever.E todos perceberam, ao mesmo tempo, que aquela noite não terminaria simplesmente quando cada um fosse pra casa. A situação era feia. Muito feia.
A noite tinha sido um inferno para Benício. Ele jogou-se na cama assim que chegou em casa, mas o sono não veio fácil. As imagens do bar se repetiam em sua mente - Verena rindo, solta, feliz, entregue àquela alegria que ele raramente via quando estavam juntos. E as palavras de Jéssica ecoavam como um martelo: "Ela ia descobrir o que é uma boa diversão de verdade!"
Ele revirou na cama várias vezes. Por mais que tentasse, não conseguia dormir. A raiva tinha dado lugar a uma angústia profunda, uma sensação de que algo estava errado, de que ele tinha perdido o controle da situação. E refletiu sobre o grupo. Sobre o namoro. Sobre ele mesmo. Alguma coisa tinha se partido, ou se desconectado, ou até mesmo mudado o curso. Ele não sabia. Era tudo incipiente.
Quando o sol finalmente raiou, Benício pegou o celular com a mão trêmula. Tinha mandado mensagens para Verena, mas ela não tinha respondido. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação de volta.
Ele ligou de novo. Nada. Mandou mais uma mensagem: “Verena, que diabos está acontecendo! Você tá puta comigo? Não tô acreditando! Teremos que conversar!”
O coração começou a acelerar com uma sensação ruim, um pressentimento que ele não conseguia ignorar. Ligou para a mãe de Verena, com a voz trêmula.
- Alô, dona Vera? A Verena está aí?
- Não, Benício. Ela não dormiu aqui. Achei que ela estava com você…Aconteceu alguma coisa???
O mundo pareceu parar. Benício sentiu o chão sumir sob seus pés.
- Obrigado, dona Vera. Vou falar com ela, acho que ela dormiu na casa de uma amiga.
Desligou e ficou paralisado por um momento. Onde ela poderia estar? A casa de Andreza. Só podia ser. Lembrou-se de Marquito mencionando o endereço uma vez, quando Andreza se mudou. Ele tinha passado por lá, sabia a rua.
Vestiu-se rapidamente, pegou as chaves do carro e saiu, o coração disparado, a mente fervilhando com possibilidades que ele não queria considerar.
O trajeto até a casa de Andreza foi longo, parecia que ele estava viajando pra outro estado. Benício estacionou em frente à casa. Havia um portãozinho com uma mureta, ele lembrou bem. Tocou a campainha. Nada. Bateu na porta com os punhos.
- Andreza! Verena! Alguém aí!
Silêncio.
Ele puxou o celular e ligou para Andreza.Ela não atendeu, mas ouviu movimentos na casa. Andreza abriu a porta. Seu semblante era de uma pessoa muito preocupada. Olhos vermelhos e inchados, o rosto marcado por lágrimas recentes. Expressão de uma zumbi.
Benício sentiu o coração gelar.
- Andreza… que porra aconteceu?
Andreza abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ela apenas se afastou, deixando a porta aberta, e Benício entrou.
A cena que encontrou o paralisou.
Verena estava sentada no sofá, um lençol cobrindo o corpo, o rosto enterrado nas mãos, os ombros tremendo em soluços silenciosos; Marquito estava em um canto, com uma calça jeans vestida às pressas, o torso nu, o olhar baixo; Leandro, também sem camisa, estava sentado no chão, os braços cruzados, a expressão de culpa estampada no rosto; Jéssica, enrolada num roupão, estava encostada na parede, os olhos marejados.
O ar estava carregado de tensão, as roupas espalhadas pelo chão - sutiãs, calcinhas, camisas, acessórios que contavam uma história que Benício não queria ouvir.
Benício: Que porra aconteceu aqui???
Ninguém respondeu. Verena apenas chorou mais alto, repetindo entre soluços:
- Sinto muito... sinto muito...
Benício sentiu o sangue ferver, a visão ficar turva. Ele olhou para Marquito, que tentou dar um passo à frente.
Marquito: Bené… não temos o que falar...
Benício: QUE PORRA ACONTECEU AQUI, CARALHO??
Jéssica: A gente se perdeu, Benício… e levamos ela junto… a culpa é nossa...
Benício sentiu a frase como um tapa no rosto. Olhou para Verena, que ainda não tinha coragem de encará-lo.
Benício: Você não vai olhar pra mim?? Hein? Vai se acovardar??
Ela levantou o rosto lentamente, os olhos vermelhos, o rosto marcado por lágrimas e culpa.
Verena: Não resta… mais nada… desculpe… eu me perdi de mim… me perdi de mim...
Benício: O quê? O que você fez? Você dormiu com eles? Com todos eles?
Leandro: Bené, a gente...
Benício: Cala a boca que não falei com você!!!!
Verena: Eu não sei… eu não sei o que deu em mim... eu tava tão confusa... e eles me chamaram, e eu...
Benício: Confusa??? Eu virei as costas depois que vocês estavam curtindo sem mim e você ficou confusa???
Verena: Não foi planejado… me senti só,.. eu… me assustei, eles me acolheram… sinto muito, foi…impulsivo!
Benício: Não foi planejado? Você ficou no bar com eles, não foi atrás de mim, e agora tô aqui, vendo você toda marcada por eles. E você quer que eu acredite que não foi planejado??!!
O silêncio foi pesado. Marquito deu um passo à frente.
Marquito: Bené, a gente errou. A gente devia ter pensado, devia ter...
Benício: Ter pensado em mim?? Em como sai irado? Depois de ficar bancando o técnico de informática imbecil por uma hora e meia???? Vá tomar no seu cu, desgraçado!
Leandro: A gente vacilou com você, cara, feio! Fomos covardes sim!
Benício: Parabéns! Vocês conseguiram me transformar num LIXO em pouquíssimas horas! O sonho de vocês foi realizado!! E você, hein, Jéssica? Você que falou tão bonito ontem, que ela ia descobrir o que é diversão de verdade. Agora tá feliz? Conseguiu o que queria? E ainda vem me falar que não foi planejado, sua marmita de merda??!!!
Jéssica não respondeu, as lágrimas escorrendo silenciosamente.
Benício: E você, Andreza? Filha do meu chefe, que eu confiei, que eu ajudei a se enturmar. Você sabia disso? Sabia que isso ia acontecer?
Andreza: O arrependimento é grande, Benício… me desculpa. Perdão...
Benício: Não sou Deus pra perdoar não, caralho! Mas pra vocês, eu era um santo que não fodia!!! Tá na cara!!
As lágrimas desciam no rosto de todos. Depois de uma noite louca vem o enterro dos ossos.
Verena: Fui fraca sim, Benício! Foi muita loucura, não era pra ter acontecido! Eu até falei com você o quanto fiquei curiosa, e acabou nisso! Faltou tato pra todo mundo!
Benício: Você conseguiu se igualar a eles. Agora, vocês vão poder foder a vontade!!!
Ele olhou para os quatro, com o desprezo estampado no rosto.
Benício: Vocês são uns covardes, covardes que só pensam em prazer, sem considerar quem tá do lado. E eu fui o idiota que confiou em vocês.
Jéssica: Não era pra ser desse jeito…
Benício: Você disse que eu era um babaca!! Disse que minha namorada precisava descobrir um mundo que eu não podia oferecer!
Jéssica: Eu… eu não compreendi seu lado, Benício… eu...
Benício: Pouco me importa, tô cagando se foi mal feito ou sei lá que porra!!!!
Benício deu um passo para trás, a raiva e a dor se misturando num nó no peito.
Benício: Vocês morreram!!! Morreram!!! Morram de tanto fuder!!!!
Ele se virou, a respiração ofegante, e caminhou em direção à porta. Quando chegou, parou por um momento, sem olhar para trás.
Benício:Saibam que vocês acabaram de me matar também!
A porta se fechou com um baque, deixando os cinco em silêncio. O barulho do carro de Benício se afastando ecoou por todos os cantos, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Verena caiu de joelhos no chão, o choro agora convulsivo, incontrolável. Os outros quatro ficaram paralisados, a culpa pesando sobre cada um. Marquito berrou inconsolável.
Marquito; A gente destruiu ele!! A gente destruiu tudo!!
Leandro: Temos que conviver com isso! Matamos nosso irmão!.
Jéssica sentou-se no chão, as mãos no rosto. Andreza abraçou Verena, que não parava de chorar.
Jéssica: A ficha caiu… que merda!
A sensação de prazer da noite anterior tinha se transformado em culpa. E a culpa, agora, era a única coisa que restava. Por enquanto...
(continuar...)