Quanto mais Sofy falava, mais eu ficava espantada com a maldade que fizeram com ela. Aquela mulher, ali na minha frente, tinha passado por um inferno. Uma mãe que não dava a mínima para ela, usando-a apenas para ganhar dinheiro. A esposa que ela amava a traiu repetidamente ao longo de anos, e seu melhor amigo foi um dos que a esposa ficou . Eu não sabia de onde ela ainda tirava forças para estar ali, tentando se manter de pé; acho que eu não suportaria passar por isso sem surtar e fazer uma besteira enorme. As pessoas que deveriam amá-la e cuidar dela fizeram exatamente o contrário.
Eu ainda segurava sua mão enquanto ela falava, e sentia-a apertar a minha com mais força em alguns pontos da história. Naquele momento, eu já não tinha dúvidas: acreditava em cada palavra de Sofy. Mesmo faltando algumas peças do quebra-cabeça, eu tinha certeza de que a perdoaria. Até ali, não ouvi nada que me fizesse sentir qualquer rancor por ela. No entanto, ela provavelmente entraria na parte da história que me envolvia diretamente, e tudo poderia mudar. Mas eu torcia para que não, porque, depois de tudo o que ouvi, eu só queria poder cuidar dela.
{...}
'Sofy:'
Antes de contar como foi o momento em que joguei tudo na cara deles, preciso esclarecer algumas coisas. Eu não sabia o que realmente acontecia nas festas que Laura organizava; sabia apenas que existiam e como funcionavam, mas o que ocorria lá dentro eu não sabia com certeza: apenas imaginava, e, sinceramente, imaginei errado. Também achei que as garotas pagas, como Camila, Nicole e as outras, eram prostitutas. Muita coisa que agora entendo, na época, compreendi de forma equivocada.
O detetive tinha o endereço e os nomes de todas as meninas, assim como o endereço de algumas casas que Laura frequentava. Eu tinha fotos de todas essas pessoas e os números de telefone; mesmo os que o detetive não sabia, eu tinha, pois estavam na lista de contatos da Laura. Muita coisa o detetive descobriu, mas, sinceramente, descobri muito mais nas conversas de Laura no WhatsApp. Eu poderia ter feito um escândalo enorme com o que descobri, porém sabia o tamanho do estrago que isso causaria. Também sabia que muitos convidados das festas eram poderosos, e isso poderia prejudicar a mim e à empresa.
Eu não fiquei com raiva das pessoas envolvidas. Não entendia o motivo de fazerem parte daquilo, mas sabia que muitos ali eram trabalhadores, honestos e tinham família. Fazer um escândalo ou envolver todo mundo nunca passou pela minha cabeça, até porque ninguém ali tinha feito algo de mal diretamente contra mim. Eu já imaginava que ninguém ali sabia da minha existência, e isso ficou claro no futuro.
Resumindo, eu tinha um problema para resolver, mas com Laura e Marcelo, não com as outras pessoas. Então, resolvi agir. A primeira coisa que fiz foi ligar para todas as filiais e falar com os presidentes. Eu já sabia que Laura não fazia todas as viagens que deveria, mas ela me falava das supostas conversas com os diretores. Nessas ligações, descobri que Laura nunca visitou as filiais após a inauguração; ela fazia apenas conferências por vídeo. Falei com todos e pedi para que não mencionassem minha ligação para ninguém.
Depois que descobri o que Laura fez, comecei a desconfiar de tudo, inclusive de que ela poderia estar roubando a empresa. Foi aí que decidi contratar uma empresa especializada em auditoria e fazer uma auditoria contábil completa na empresa, mas em segredo. Isso levaria de dois a seis meses, mas como eu ajudaria e tinha acesso a todos os documentos, eles finalizariam em três meses, no máximo. Vi-me em uma encruzilhada: teria que fingir não saber de nada por três meses. Eu queria ter todas as provas do que Laura fez de errado; se eu falasse antes, ela poderia esconder coisas que eu ainda não sabia. Sabia que seria difícil, mas resolvi esperar.
Porém, não deu tempo. Cometi um erro ao ligar diretamente para os presidentes das outras filiais, porque um deles me traiu. Descobri isso uns vinte dias depois de começar a fingir que estava tudo bem. Eu nunca parei de monitorar o WhatsApp da Laura, e foi em um áudio dela para Marcelo que descobri a traição. Laura contou a ele que recebeu uma ligação do Carlos, que revelou que eu tinha ligado perguntando sobre as visitas dela. Laura disse a Marcelo que, de alguma forma, eu tinha descoberto algo, mas ela ainda não sabia o quê, e o mais estranho é que eu não tinha dito nada a ela.
Marcelo tentou acalmá-la, dizendo que poderia não ser nada, mas Laura insistiu que não tinha como não ser. Ela disse que eles precisavam inventar uma desculpa, ou tudo iria por água abaixo. Que eu não podia nem sonhar em saber a verdade. Marcelo disse que pensaria em algo e que se encontrariam no dia seguinte. Bom, não sei o que falaram, nem se conseguiram planejar uma desculpa; se conseguiram, nem tentaram, porque eu acabei explodindo com Laura uma semana depois.
Laura mal ficava perto de mim e, quando ficava, eu percebia que ela estava diferente: nervosa e arredia. Ela saía cedo de casa, bem antes de mim, e chegava tarde. Mal falava comigo e eu fingia não perceber, mas percebia. Na verdade, eu estava dando graças a Deus; assim, ficaria mais fácil aguentar o tempo que faltava para a auditoria. Porém, no sábado, pareceu que ela tinha arrumado um jeito de resolver seus problemas. Não sei o que passou pela cabeça dela, mas acho que ela achou que poderia fazer tudo desaparecer usando o que ela tinha de mais poderoso: o meu amor por ela.
Eu trabalhei até as 20 horas naquele sábado. Nunca trabalhava aos sábados para poder ficar com ela, mas, depois que descobri as traições, comecei a inventar trabalho para ficar o máximo de tempo possível longe dela. Quando cheguei, fui surpreendida com um jantar romântico, com direito a buquê de flores e pétalas de rosas no chão. Fiquei paralisada no meio da sala sem saber como reagir, olhando para Laura, que segurava um buquê de rosas brancas, as que mais gosto. Achei melhor entrar na farsa e dei um sorriso amarelo antes de pegar as flores. A mesa estava posta com velas e uma garrafa de vinho caro, cercada por talheres de prata. Sentei-me e fingi que estava amando tudo, mas, no fundo, eu queria vomitar de nojo.
Consegui agir o mais naturalmente possível até quando ela resolveu me levar para o quarto. Ela tinha caprichado: tinha pétalas de rosa por toda parte, até mesmo em cima da cama. O quarto estava com a luz baixa e tinha várias velas aromáticas acessas em lugares estratégicos. Estava lindo, mas comecei a sentir cada vez mais raiva e nojo. Quando ela me abraçou e disse que me amava mais que tudo, eu queria gritar que ela era uma mentirosa, mas juro que tentei sorrir e aguentar. Porém, quando ela me beijou: um beijo de verdade, não os selinhos dos últimos dias, eu simplesmente não aguentei. Lembrei-me das outras mulheres e, pior, dos homens. Eu a empurrei e disse para nunca mais tocar em mim. Ela se assustou, e eu acabei falando o que não devia, pelo menos não naquele momento.
Falei que sabia de tudo: das festas, das viagens falsas, das traições, do Marcelo... Disse que não aguentava mais fingir e que queria distância dela. Falei um monte, chamei-a de falsa, mentirosa, traidora e mais um monte de coisas. De início, ela não falou nada; acho que se assustou com tudo o que eu sabia. Depois, começou a perguntar do que eu estava falando, fazendo-se de desentendida. Aí perdi a paciência e falei das prostitutas que ela contratava, das transas com várias pessoas, algumas junto com Marcelo. Disse que não adiantava negar.
Ela então mudou de tática e começou a fingir chorar, mas eu não vi uma lágrima sequer em seus olhos. Ela pedia perdão, dizia que estava arrependida e que nunca mais faria aquilo. Chegou a se ajoelhar, mas eu não caí na dela. Fui direto para o guarda-roupa e comecei a fazer minhas malas. Ela tentou impedir, mas eu a ameacei: disse que, se não me deixasse sair dali, eu contaria para todo mundo sobre as festinhas dela e de seus amigos. Ela travou, não falou mais nada e saiu do quarto. Antes de ir, vi que, pela primeira vez, ela derramou lágrimas de verdade. Mas eu não dei a mínima; só queria sair dali.
Arrumei duas malas com o essencial, peguei minha bolsa com todos os documentos e meu notebook. Quando passei pela sala, Laura estava sentada no sofá com as mãos no rosto. Ela ouviu meus passos, levantou o rosto e disse que precisávamos conversar antes de eu ir. Respondi que conversaríamos na segunda-feira, na empresa, e que depois eu pediria para alguém buscar o resto das minhas coisas. Joguei a chave na mesa de centro e saí para nunca mais voltar.
Chamei um táxi e fui para um hotel bem longe dali. Foi lá que vivi nos últimos dias e onde conheci a Camila. Mas, antes disso, aconteceram algumas coisas que mudaram totalmente o rumo que eu achava que minha vida seguiria.
No domingo, chorei muito, mas isso serviu para aliviar um pouco da dor que me consumia. À tarde, consegui pensar com calma no que faria. Com certeza, eu demitiria Marcelo como meu motorista particular, mas não da empresa. Como profissional, ele nunca fez nada de errado durante o horário de trabalho: ou, se fez, eu não sabia. Porém, ele continuaria trabalhando apenas para a empresa; para mim, nunca mais. O mesmo servia para Laura: ela não tinha feito nada de errado na empresa, então eu não poderia demiti-la por algo pessoal. Se ela tivesse usado verba da empresa para suas viagens falsas, aí seria outra história. Se estivesse desviando dinheiro, além de despedida, seria processada e, provavelmente, presa. Se Marcelo ou outra pessoa estivesse envolvida, o mesmo se aplicaria a eles.
Laura não tentou entrar em contato comigo, nem Marcelo. Pedi algumas cervejas à noite, bebi até dormir e, na segunda-feira, além da raiva, eu ainda estava de ressaca. Mesmo assim, fui para a empresa e a primeira coisa que fiz foi chamar Laura e Marcelo em minha sala. Laura chegou com uma cara péssima, e Marcelo parecia um pouco triste, mas podia ser só impressão minha.
Os dois se sentaram e não falaram nada. Eu comecei a falar assim que eles se acomodaram. Anunciei a demissão de Marcelo como meu motorista, mas disse que eles poderiam continuar trabalhando na empresa se fosse o desejo deles. Se não fosse, era só passarem no RH e apresentarem suas demissões. Laura disse um "obrigado" que me pareceu sincero; Marcelo não falou nada. Avisei a Laura que a tinha removido de todos os meus projetos e que, daquele dia em diante, ela seria responsável por seus próprios projetos, com deveres e obrigações, como o resto dos diretores. Deixei claro que, se ela não mostrasse resultado, voltaria para seu cargo original. Ela fez uma cara de quem não gostou, mas não falou nada. Disse que era tudo e que poderiam ir.
Marcelo se levantou, olhou nos meus olhos e pediu desculpas, mas não esperou minha resposta; virou as costas e saiu. Laura perguntou se eu faria algo contra ela, e eu disse que não, que agora éramos apenas patroa e empregada. Que eu não tinha direito de me meter na vida pessoal dela, nem ela na minha. Disse que ela podia continuar sua vida normalmente. Antes que ela saísse, tirei a aliança do dedo e devolvi a ela. Ela pegou e, antes de ir, perguntou como eu descobri tudo. Disse que contratei um detetive particular no momento em que vi que ela não tinha marca de aliança no dedo. Ela olhou para a própria mão, deu um sorriso amarelo, virou as costas e saiu.
Eu planejava começar uma vida nova, mas as coisas para mim nunca parecem ser fáceis. O amor que eu sentia por Laura não passou, e ele me fazia sofrer e chorar todos os dias. O pior é que eu não apaguei o WhatsApp da Laura; toda noite eu ficava me torturando, lendo suas mensagens com outras mulheres e homens. Não era só isso: eu não entendia por que mulheres como vocês faziam parte de algo que, ao meu ver, era nojento. Não entrava na minha cabeça que mulheres tão lindas, algumas com ótimos trabalhos e donas dos seus próprios negócios, como você, Nicole, vendiam o corpo. Eu pensava naquilo durante boa parte do dia.
Bom, um dia, olhando as conversas da Laura, vi uma troca de mensagens com Marcelo sobre o problema com os italianos e vocês. Foi lendo aquela conversa que tive uma ideia. Eu só não sabia que aquela ideia seria a melhor que já tive na vida.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
