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Remanescentes - Capítulo 1

Um conto erótico de Luke
Categoria: Heterossexual
Contém 2193 palavras
Data: 02/10/2026 16:56:48
Assuntos: Heterossexual
🤖 Texto produzido com auxílio de inteligência artificial

Capítulo 1

Eu me chamo Bruna. Hoje completei dezoito anos.

O mundo que eu conheço é pequeno. Depois da Grande Queima Solar de 2147, que fritou a maior parte dos sistemas eletrônicos, envenenou oceanos e matou bilhões em poucos meses, sobrou pouca gente.

Quase toda a humanidade que restou se concentrou no território que foi menos afetado. Além das fronteiras, segundo o que me ensinaram, havia terra morta, zonas radioativas e desertos infestados de tempestades elétricas.

Para impedir nossa extinção, o governo criou o Sistema de Rodízio.

Toda mulher maior de idade muda de casa a cada sete dias. Sem escolha. Sem recusa. Cada homem tem uma residência, e o sistema sorteia para onde vamos. Pode ser um lugar onde te tratam como rainha… ou como nada. Tudo depende da casa, do humor, das regras que cada um impõe dentro das próprias paredes.

O único objetivo oficial é a gravidez. Rápido. Em massa.

Até ontem, eu ainda era tutelada pelo governo. Cresci numa instalação para menores. Ali, as atividades mudavam conforme a nossa idade. Quando era pequena, eu só estudava. Depois, passei a lavar as roupas dos trabalhadores. Mais velha, fui transferida para a cozinha, onde preparava as refeições até chegar a minha vez de entrar no rodízio.

Hoje, no momento em que o relógio marcou meia-noite, uma frase apareceu diante dos meus olhos:

Adulta. Disponível para rodízio.

Não estava escrita na parede nem saía de algum aparelho. Era o implante projetando uma imagem no meu campo de visão. Só eu conseguia enxergá-la. Quando fechei os olhos, as palavras continuaram ali, suspensas no escuro.

Todo mundo recebia o chip no cérebro pouco depois de nascer. Eu tinha crescido com ele, com os avisos de racionamento e os lembretes que apareciam de vez em quando. Nas aulas da instalação, eu tinha aprendido que o governo enviava aquelas informações pela rede e que uma inteligência artificial organizava o que cada pessoa precisava receber.

O sistema também reconhecia rostos. Bastava olhar para alguém por alguns segundos para que, quando a identificação estivesse disponível, um nome surgisse ao lado da pessoa. Às vezes, vinha acompanhado de uma função ou de alguma instrução. Eu nunca soube como ele descobria tudo aquilo.

Até ontem, quase todos os assuntos importantes eram encaminhados aos responsáveis pela instalação.

Agora, a mensagem era para mim.

Outra linha apareceu:

Primeira residência: Casa 47.

Saída obrigatória às 7h.

Fiquei olhando para aquelas palavras até elas desaparecerem. Depois, comecei a arrumar a mochila.

Levei só o essencial: Mudas de roupa e a pequena caixa de suprimentos básicos.

Às sete horas, eu estava na saída da instalação com a mochila no ombro. O funcionário responsável pela minha liberação ficou atrás de mim enquanto eu conferia, pela segunda vez a pouca bagagem

— O caminho aparece quando você sair — ele disse.

Eu queria perguntar mais alguma coisa. Quanto tempo levava. Se podia voltar para visitar quem tinha ficado na instalação. O que aconteceria se o homem da casa não gostasse de mim.

Mas o funcionário já estava com a mão na porta, esperando.

Saí.

Uma linha azul surgiu sobre a calçada, visível só para mim. Na esquina, ela se curvava para a direita. Perto do canto da minha visão, apareceu o tempo estimado da caminhada.

Eu conhecia as ruas em volta da instalação. Já tinha ido buscar ração com os funcionários, acompanhado o grupo nas filas e carregado sacolas pelo mesmo caminho tantas vezes que sabia até onde o cimento estava quebrado. Mas a linha azul me levou para além do posto de distribuição, por uma rua onde eu nunca tinha entrado.

Havia outras mulheres andando com bolsas e mochilas. Uma delas passou por mim com uma sacola apertada contra o peito. Olhei por tempo suficiente para o implante exibir um nome ao lado do rosto dela. Antes que eu terminasse de ler, ela dobrou a esquina e a identificação desapareceu.

Apertei a alça da mochila e continuei.

As casas eram baixas, separadas por muros e portões de metal. Em algumas portas, mulheres esperavam sozinhas. Mais adiante, uma saiu de uma residência ajeitando a bolsa no ombro. Passou por mim sem levantar os olhos.

Eu diminuí o passo.

O implante mostrou a distância que faltava.

Quando cheguei à Casa 47, a linha azul terminou diante do portão e se apagou.

Era uma construção baixa, de concreto cinza, com janelas blindadas e um portão de metal enferrujado. O número 47 piscava no painel. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca.

A porta se abriu sozinha.

Um homem estava do outro lado. Alto, ombros largos, cabelo curto e grisalho nas têmporas. Devia ter uns quarenta e poucos anos. Ele me olhou de cima a baixo sem pressa, como quem avalia uma entrega.

Seu olhar ficou parado no meu rosto por um instante. Imaginei meu nome aparecendo diante dos olhos dele, como os nomes das pessoas apareciam diante dos meus.

— Bruna — disse ele com a voz baixa e sem emoção. — Entra. A semana começa agora.

Dei o primeiro passo para dentro.

A porta se fechou atrás de mim com um clique metálico definitivo.

Fiquei parada ali por alguns segundos, com a mochila ainda pendurada no ombro, olhando em volta com uma curiosidade que mal conseguia disfarçar.

A casa era simples, mas diferente dos alojamentos da instalação. O chão era de cimento liso, as paredes tinham um tom bege desbotado e havia um sofá velho de couro rachado no canto. Uma mesa pequena com duas cadeiras, uma cozinha aberta com poucos utensílios e um corredor que devia levar aos quartos completava o ambiente.

O ar cheirava a cigarro frio e a algo adocicado que eu não sabia identificar.

O homem não falou mais nada. Só se virou, caminhou até a poltrona grande em frente à televisão e se jogou nela como se eu nem existisse. Aumentou o volume. O som de um programa antigo preencheu a sala.

Ele nem olhou para mim de novo.

Comecei a andar devagar, explorando. Meus dedos tocaram a parede e a borda da mesa. Tudo parecia estranho e novo ao mesmo tempo. Eu nunca tinha estado sozinha na casa de um homem desconhecido.

Na instalação, eu tinha aprendido a cozinhar, a limpar, a ser quieta e obediente… mas ninguém me contara como o rodízio funcionava de verdade. Os responsáveis só diziam que eu ia “aprender na prática”.

De repente, um movimento rápido no chão me fez dar um salto para trás.

Um animal pequeno, peludo, de olhos amarelos, saiu de baixo do sofá e parou bem na minha frente.

Meu coração disparou.

Nas aulas da instalação, às vezes falavam de gatos. Diziam que quase todos tinham morrido depois do Colapso, que eram criaturas espertas e silenciosas. Mas ver um de verdade…

— A-ah! — soltei um gritinho, recuando mais um passo.

O gato me olhou com a cabeça inclinada e depois miou baixinho. Era um som que eu não conhecia. Ele se aproximou, cheirou a minha calça e esfregou o corpo nas minhas pernas.

Fiquei parada, tensa no começo. Então me agachei devagar e estendi a mão com cuidado. Ele deixou que eu tocasse nas suas costas.

O pelo era macio. Quentinho.

Sorri sem querer, pela primeira vez desde que a porta tinha se fechado atrás de mim.

— Você é… fofo — sussurrei, ainda meio assustada, mas já encantada.

O homem na poltrona não reagiu. Continuou olhando para a televisão, como se eu e o gato fôssemos só parte da mobília.

Fiquei ali, ajoelhada no chão, fazendo carinho no animal enquanto meu coração desacelerava. Não sabia o que fazer em seguida. Não sabia onde podia sentar, se podia falar, se podia pedir água.

Sentei no chão. O gato se acomodou no meu colo e começou a ronronar.

________________________________________

A semana inteira passou assim.

O homem mal olhava para mim. Acordava, fazia café só para si e saía para trabalhar. Quando voltava, sentava na poltrona, ligava a televisão e ficava ali horas a fio. Quando eu entrava na sala, ele nem virava o rosto. Era como se eu fosse só uma sombra a mais na casa.

Nas primeiras noites, fiquei tensa, esperando que ele me chamasse, que algo acontecesse… mas nada.

Ele dormia no quarto dele, e eu, no sofá. Havia outra porta no corredor, sempre fechada, mas ele nunca me disse o que havia ali. Eu também não perguntei.

O gato era a única companhia de verdade.

Descobri que ele se chamava Cinza na segunda manhã, quando o homem o encontrou deitado na poltrona e disse.

— Sai, Cinza.

Foi tudo o que disse antes de ocupar o lugar.

Eu fazia as tarefas sozinha. Varria o chão, lavava a louça que ele deixava na pia, cozinhava o pouco que havia na despensa e deixava a comida pronta na mesa. Ele comia sem dizer obrigado. Eu comia depois, quieta, sempre com o Cinza enrolado aos meus pés.

No sexto dia, enquanto eu terminava de lavar a louça, um pequeno ponto luminoso apareceu no canto da minha visão. Já conhecia aquele sinal: havia uma mensagem nova.

Fechei a torneira e concentrei o olhar no ponto por um instante. A notificação se abriu, sobreposta à imagem da pia.

Créditos de Rodízio — Semana 1

+120 créditos depositados no perfil pessoal de Bruna Oliveira.

Saldo atual: 120 créditos.

Fiquei lendo sem me mexer, com as mãos ainda molhadas.

Abaixo do saldo, apareceram as opções de uso: serviços básicos de saúde, água e uma quantidade limitada de ração extra.

Eu podia selecionar uma opção mantendo a atenção sobre ela por alguns segundos.

Não abri nenhuma das opções. Tinha medo de gastar sem querer.

Olhei para o saldo mais uma vez.

Cento e vinte.

Era a primeira vez que eu tinha algo só meu. Um númerozinho que pertencia a mim.

No sétimo dia, de manhã cedo, um aviso apareceu antes mesmo de eu me levantar do sofá.

Troca de residência em 2 horas.

Próximo destino: Casa 19.

Percurso disponível.

Fiquei deitada por mais alguns instantes, com o Cinza dormindo junto das minhas pernas. Quando me mexi, ele levantou a cabeça e abriu os olhos devagar.

Limpei o sofá onde tinha dormido, arrumei a mochila e me agachei uma última vez para fazer carinho nele. Cinza ronronou alto e esfregou o focinho na minha mão.

Tive vontade de ficar ali até o aviso aparecer de novo.

O homem nem se levantou da poltrona.

Quando a porta se abriu, eu saí. Atrás de mim, ouvi um miado curto antes do clique da fechadura.

A linha azul apareceu sobre a calçada.

________________________________________

Segui o caminho com a mochila no ombro e uma sensação estranha nas mãos, como se ainda pudesse sentir o pelo do Cinza entre os dedos.

As ruas estavam mais movimentadas do que no dia da minha primeira caminhada. Passei por uma fila no posto de ração, por dois homens empurrando um carrinho de peças e por mulheres que carregavam suas coisas como eu.

Algumas andavam depressa. Outras paravam nas esquinas, olhando para pontos vazios à frente do rosto. Imaginei que estivessem lendo as próprias instruções.

Conforme eu avançava, as casas ficavam mais afastadas umas das outras. Os muros tinham menos rachaduras. Havia luminárias inteiras nos postes e pequenos canteiros protegidos por grades.

Diminuí o passo diante de um deles. Fazia tempo que eu não via tantas folhas verdes juntas.

Na entrada de uma rua larga, um guarda ergueu a mão.

Parei.

Ele olhou para o meu rosto. Uma identificação apareceu no meu campo de visão, com o nome dele e sua função de agente de segurança.

O homem ficou em silêncio por alguns segundos, lendo alguma coisa que eu não podia enxergar. Então baixou a mão e indicou a passagem.

Continuei sem perguntar nada.

Os números nas fachadas diminuíam. As diferenças entre as casas aumentavam. Eu tinha ouvido falar que os endereços mais baixos pertenciam às pessoas mais importantes, mas nunca tinha ido tão longe para ver.

Quando o número 19 apareceu, parei diante do portão.

Não havia ferrugem nas dobradiças. A parede estava pintada, e uma luz permanecia acesa ao lado da entrada, mesmo sendo dia.

O implante apagou a rota e exibiu uma nova mensagem:

Destino alcançado.

Aguarde a abertura da residência.

Ajeitei a mochila no ombro.

A porta da Casa 19 se abriu sem nenhum ranger.

Parei na entrada e senti o ar mudar. Era mais fresco. Respirei fundo antes de entrar.

O chão era de madeira clara, polida, algo que eu só tinha visto em fotos antigas mostradas nas aulas da instalação. Nas paredes, havia prateleiras e mais prateleiras, todas cheias de livros de verdade, de papel, com capas gastas.

Havia uma luminária acesa sobre uma mesa grande. Nenhuma televisão ligada. Ouvi o leve ruído de uma página sendo virada.

Um homem estava sentado numa poltrona alta, perto da mesa. Tinha cabelos brancos e ralos, ombros curvados pelo tempo e óculos de armação fina descansando na ponta do nariz. Segurava um livro grosso, aberto quase ao meio.

Só quando a porta se fechou atrás de mim é que ele levantou o olhar.

Seus olhos eram claros, vivos e atentos. Devia ter passado dos setenta. Ao lado do rosto dele, o implante exibiu uma identificação acompanhada da função: membro do governo.

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