- Você tem certeza mesmo de que vai fazer isso?
- Isso o quê!?
- Uai! Se mudar para São Paulo. O que mais?... - insistiu o pai de Fabinho, enquanto ainda o assistia fazendo as malas. - Morar lá não é como morar aqui não, menino! Lá, o risco é muito maior de…
- De eu ser assaltado? - interrompeu Fabinho. - Eu sei. Já pensei em tudo. Tem o risco, mas também tem uma chance muito maior de eu crescer na minha profissão.
- Eu sei, mas… - o homem se sentou na beirada da cama, abatido. - A gente conhece tanta gente por aqui. Eu posso conseguir algo para você trabalhar. Talvez no escritório do Tinoco…
- Dr. Tinoco!? Aquele senhorzinho do final da rua, atrás da padaria do Zé Doce, filho da Dona Francisca? Pelo amor de Deus, né, papai! Aquele senhorzinho vive na década passada. Aliás, ele já passou da hora de aposentar.
- Mas ele conhece uns velhinhos. Não falta causa para ele…
- Papai, relaxa! Eu já pesei os prós e contras. Já arrumei um emprego. Já aluguei um flat. Vou começar devagar, mas vou crescer. E não vou ficar dando bandeira na rua ou em lugar perigoso. Deixa comigo que eu me garanto, seu Bastião, e…
Ouviram um lamento vindo da cozinha e Fabinho já imaginou ser a mãe, inconformada com a partida do filho único:
- Melhor o senhor ir acalmar a mamãe antes que ela passe mal. Eu preciso ir embora ainda hoje para me ajeitar e começar no trabalho amanhã. Tudo o que não preciso é que ela tenha um piripaque e me atrapalhe.
O pai se levantou e foi para a cozinha. Fabinho não conseguia entender o que conversavam, mas a chegada do homem foi o suficiente para fazê-la parar com aquele chororô.
Ele continuou encaixotando as coisas... O restante delas, pois boa parte já havia enviado num fretado, além de outras tantas que já estavam no carro. Quando terminou, saiu do quarto com duas malas apenas e viu a mãe começar a chorar novamente:
- Pelo amor de Deus!… De novo!?
Ela parou de chorar rápido e veio tentar pegar uma das malas. Fabinho pensou que ela quisesse segurá-lo à força, mas era o contrário.
- Eu ajudo a levar… - disse ela com a voz sofrida.
- Está pesada, mamãe. Deixa que eu levo.
Ela soltou a mala, mas olhou de uma forma para o marido que o fez vir correndo em auxílio. Acostumado à lida na roça, o pai pegou as duas malas como se fossem meia e já saiu andando daquele jeito divertido dele para fora, na direção do carro. Fabinho não conseguiu alcançá-lo, pois a mãe se agarrou nele:
- Tem certeza?
- Tenho, dona Chica da Mariana. Já passou da hora de eu sair do ninho.
- Espero que ocê não esteja fazendo isso só por causa de namorada bonita…
O pai já vinha entrando, certamente porque o carro ainda estava trancado - e ouviu parte da conversa:
- Claro que não somente por causa dela, mas é claro que ela é boa parte da motivação. Afinal, morenona bonita, formosa que nem aquela…
Ele nem completou a frase, calado por um simples olhar da mulher. Fabinho precisava falar algo ou vinha discussão daquelas:
- Mãe… Mamãe… A Sonnynha não é o motivo pelo qual estou indo. Mas é muito bom saber que não estarei sozinho lá, não concorda?
- Ocês são só namorados, Fabinho! E se não der certo?
- Uai! Se não der certo com ela, arranjo outra? Mulher não deve faltar lá em São Paulo. Né, não, seu Bastião?
- É… - concordou o pai, coçando o queixo, só para se enrolar. - Né… Não sei. Sei não. Conheço muita gente daquelas banda não. Eu… Melhor ir guardar as malas no carro. Cadê as chaves?
Fabinho jogou as chaves para ele, que saiu ligeiro, fugindo de um olhar inquisitório da mãe. Aliás, os dois foram logo atrás, abraçados, grudados. Ficaram observando o homem entuchar as malas no porta-malas do Uninho. Quando ele finalmente fechou o porta-malas, veio em direção aos dois, balançando as chaves:
- Certeza mesmo? Ainda dá pra gente levar tudo para dentro…
- Eu vou. Já decidi.
- Ah, mas não vai mesmo, não sem tomar um cafezinho com bolo de milho verde que eu tirei do forno “agorin mes”. - retrucou a mãe.
- Bolo de milho… verde? - perguntou Fabinho, olhando para ela. - Daquele “cremosin” por dentro?
- Esse! E o café lá do Nhô Lau… - complementou o pai.
- Isso é sacanagem! Cês vão me atrasar…
- Atrasa nada, menino! E ocê não vai fazer uma desfeita dessa para os seus pais, vai? - insistiu a mãe.
Vencido, Fabinho entrou em casa. O que era meia hora, ou uma inteira de atraso, se ele pudesse acalentar um pouco mais os corações dos seus combalidos pais.
[...]
Longe dali, na metrópole de São Paulo, uma garoa insistente não parava de cair desde o início da manhã, denunciando que seria outro dia úmido na vida de Sonnynha.
Ela havia acabado de entrar no hospital universitário, onde iniciaria outra jornada de seu estágio no curso de Enfermagem. Já estava toda paramentada, vestida, pronta para o início, quando ouviu um assobio dentro da sala de descanso, contígua ao vestiário masculino e feminino. Olhou na direção e viu Maurício, um médico novato que não lhe dava paz.
Ela fez um bico de inconformismo e negou ir em sua direção, mesmo com o insistente dedo dele a chamando. Não aguentou muito e se aproximou:
- O que você quer?
- Oras... Só um bom dia. – Disse ele, sorrindo: - Meu dia nunca é bom sem um sorriso seu.
- Maurício, a gente tá dando muita bandeira. Daqui a pouco alguém pega a gente e vamos nos ferrar!
- Pega nada. – Ele a olhou de cima a baixo e sorriu ainda mais: - Se bem que a ideia de pegar é realmente tentadora.
- Nem vem! Tenho estágio e um tanto de relatório para preencher hoje.
- Só um beijinho...
- Tá louco!?
- Só um, Sonnynha. Caramba!...
- Não.
- Ah...
- Tá bom. Rapidinho.
Sonnynha lhe deu um selinho que não foi tão rápido porque ele a puxou pela cintura e enfiou a língua dentro da boca dela. Ela se assustou e deu alguns tapas em seu ombro, fazendo ele a largar. Olharam em volta e não viram ninguém. Ela se ajeitou e saiu andando, praticamente rebolando. Maurício não conseguiu desgrudar os olhos daquelas ancas redondas e durinhas enquanto elas se afastavam. E Sonnynha viu. E sorriu.
Como ela dissera, foi um dia especialmente tenso, trabalhoso e chato. Muitos relatórios do estágio para preencher, atendimentos para auxiliar, médicos ranzinzas para suportar. Já na hora do almoço, ela mal podia esperar para ir embora. Coincidiu de sua tia, Mercedes, a chefe das enfermeiras, estar no refeitório no mesmo horário. Sentaram na mesma mesa, bem na hora em que Maurício entrou, se aproximou, cumprimentou ambas e acariciou discretamente o ombro de Sonnynha. Não foi tão discreto assim, tanto que, assim que se afastou, ela foi direta:
- Você não está namorando?
- Ué!? Tô tia. Você sabe...
- E o que foi isso então?
- Isso... o quê?
- Sério que você vai tentar jogar essa para cima de mim, Sonnynha. Eu vi! Desembucha.
Sonnynha olhou rapidamente para o seu prato, mas sabia que não conseguiria comer em paz enquanto não falasse:
- Não é nada, tia. O Maurício encarnou em mim. Tá me paquerando direto. Só isso...
- Só... isso... Só isso!? Só isso, o caramba, Sonnynha! – Mercedes elevou o tom e baixou o rosto em seguida para não chamar ainda mais a atenção: - Isso é assédio! Se ele está tentando algo contra a sua vontade, é claro.
- É claro... – Concordou Sonnynha.
Mercedes aguardou. Aguardou... Aguardou... E nada da Sonnynha falar:
- E então!? É isso ou não é isso?
- O quê?
- O assédio, caramba! Ele está te assediando?
Sonnynha olhou rapidamente em volta, não na direção do Maurício. Então, balançou a cabeça negativamente. As forças do destino pareceram transferir a mesma força cinética para a cabeça de Mercedes que começou a balançar negativamente a sua:
- Você está traindo o Fabinho?
- Não, tia, eu... não...
- So... ninha! O Fabinho é primo do teu tio. Foi a gente que apresentou vocês dois. Como você me faz uma dessas, menina?
- Tia, a gente não tem nada...
- Você não tem nada com o Fabinho? – Mercedes se surpreendeu: - Como não tem nada!? Vocês estão namorando.
- Nããão! Eu disse que não tenho nada com o Maurício...
Mercedes suspirou profundamente. Não tinha motivos para duvidar da sobrinha, mas também não tinha para acreditar apenas em suas palavras. Terminaram o almoço ainda falando sobre o namoro. Depois, falaram sobre um caso específico previsto para a tarde.
Na saída do refeitório, Maurício se aproximou:
- A galera vai no Teodoro’s hoje, Sonnynha. Topa?
- Obrigada, Maurício, mas não dá. Eu tô namorando... Lembra? – Disse olhando rapidamente na direção da tia.
- É! Ela tá namorando, sabe? – Mercedes insistiu.
- Ué! Mas... amigos também não podem sair, conversar, se divertir? – Disse Maurício, tentando despistar, jogando um charme para Mercedes.
Mas Mercedes já era mulher madura, vivida, casada e suficientemente esperta para ler através dos sinais. E o que ela viu não lhe agradou nada:
- Mulher comprometida não tem amigo homem. – Disse, olhando de Maurício para Sonnynha, e novamente para ele: - E homem de verdade, não dá em cima de mulher comprometida.
O som do sistema interno chamou pelo nome de Maurício que acabou se despedindo e saindo sem conseguir falar a sós com Sonnynha. Assim que ele sumiu no corredor, Mercedes foi clara:
- Não me envergonha... Não envergonha a nossa família! Se você está de casinho com esse Mauricinho aí, termina com o Fabinho. Melhor seria nem ter começado. Isso é coisa de gente covarde...
- Credo, tia! Não tenho nada com o Maurício. Já disse...
- Então se afasta dele, porque ele pensa diferente.
[...]
A meio caminho de São Paulo, um fumegante Uninho conseguia entrar num posto de abastecimento. Melhor seria dizer que se arrastava. Fabinho parou num canto e abriu a tampa do motor de onde a fumaça se multiplicava. Um frentista se aproximou:
- Ferveu aí, amigo?
- Esse carro é meio complicado... Tava bonzinho hoje de manhã e agora está parecendo uma Maria Fumaça.
O frentista olhou rapidamente no motor, mexeu em algumas partes e diagnosticou:
- A mangueira de alimentação do radiador furou. Tem líquido caindo no motor, por isso esse fumação. Sorte sua que Uno é o novo Fusca: Basta um rolo de arame e um alicate, que se conserta quase tudo.
- Então não é sério?
- Sério nada... Tá vendo ali, ó... – Indicou uma mangueira: - Tá gotejando. Eu não tenho ela para trocar, mas acho que tem um pedaço de borracha. Vou pingar uma cola no buraco, dar umas voltas de mangueira nela, e acho que resolve a sua situação. Pelo menos até a próxima cidade. Tá indo para onde?
- São Paulo...
- Acho que aguenta. Espera aí que já volto.
Ele foi e voltou rapidamente. E como disse, ele fez. Enquanto isso, Fabinho observava:
- Qual seu nome, cara?
- Vicente. Os amigos me chamam de Vicentavo...
- Vicentavo?
- É... Coisa de infância. – Ele apertou duas voltas de arame, sobre a borracha amarrada: - Você usa água ou liquido de arrefecimento?
Fabinho deu de ombros, pois não entendia nada do que ele falava, fazendo Vicentavo riu:
- Tá com água. Então, vamos com... água?
- Faz o que achar melhor, Vicente. Se o certo é esse tão líquido, pode ser também.
- Joia!
Vicente foi e voltou com dois litros de um líquido avermelhado. Encheu o reservatório:
- Dá partida lá, patrão. Vamos ver se resolveu.
Fabinho ligou o Uno e saiu para observar o motor. Nenhuma gota caiu. Ficaram minutos observando, quase 5 minutos, e nada. Vicente havia salvado o dia.
Fabinho fechou a tampa do motor e levou o Uno para abastecer. Depois, ainda dei uma boa gorjeta para o Vicente, agradecendo bastante sua ajuda:
- Foi nada, irmão. Quem tem carro velho, tem que se ajudar.
Fabinho riu da sua piada e lhe deu um cartão de visita. Despediram-se e ele seguiu viagem.
Uma hora depois, Fabinho entrava em São Paulo. Em sua face, um sorriso sincero. Foi direto para seu flat, onde finalizou os procedimentos e recebeu as chaves. Descarregou o Uno em minutos, pois queria tentar fazer uma surpresa para Sonnynha no hospital, afinal, ela ainda não sabia que ele se mudaria para São Paulo. O fretado só chegaria em dois dias, mas assim que ele saísse do hospital com ela, compraria alguns mantimentos. O resto, organizaria com os dias.
Tomou uma ducha rápida e vestiu uma roupa social. Afinal, se era advogado, precisava se apresentar acima da média. Colocou uma calça social azul marinho, uma camisa azul bebê, gravata de listra em tons de azul, sapatos pretos brilhantes e um perfume discreto, mas perceptível. Sorriu para sua própria imagem e saiu.
Na rua, o bom senso gritou. Abriu a tampa do motor só para confirmar que o trabalho de Vicente estava lá, firme, funcionando direito. Seguiu para o hospital, mas parou numa floricultura no caminho. Uma jovem de cabelos ruivos o atendeu:
- Procurando algo especial?
- Eu queria um buquê. Nada muito grande, mas também não pequeno. É uma surpresa que vou fazer no trabalho dela.
- Namorada, noiva ou esposa?
- Namorada. Coisa séria...
- Então, vamos de rosas vermelhas. Paixão é tudo no começo.
Rapidamente ela escolheu uma dúzia de lindos botões de rosa, mais algumas outras secas... Enfim, montou um lindo buquê. Fabinho saiu de lá feliz da vida, imaginando a cara de Sonnynha com sua chegada.
Ele chegou ao hospital e estacionou meio longe da entrada principal. Foi andando debaixo de garoa até acessar o prédio. Não queriam deixa-lo entrar. Mas o poder da gravata, garantiu acesso. Ainda assim, teve que fazer a identificação na portaria e pegar um crachá de visitante:
- Sei não quem é ela, doutor. Mas vários funcionários estão em horário de café. Talvez o refeitório seja um bom primeiro local para o senhor a procurar. – Disse o segurança quando Fabinho perguntou onde poderia encontrar Sonnynha: - Senão terá que perguntar na sala dos enfermeiros.
Indicada a direção, Fabinho começou a andar. E andou. Muito. Quando chegou na porta do refeitório, começou a olhar para dentro, procurando um rosto conhecido. E viu. Ao longe, Sonnynha conversava animadamente com duas outras moças, segurando um copo descartável.
Fabinho sentiu o coração acelerar. Ele quase podia sentir o cheiro gostoso daquele xampu que ela usava nos longos cabelos cacheados. Quando estava para entrar, um grupo de três homens entrou, esbarrando nele:
- Foi mal aí, irmão. – Disse um deles.
Outro olhou em sua mão e viu o buquê. Sorriu, mas nada disse. O grupo seguiu até uma garrafa de café, se serviu e foi na direção de Sonnynha e das amigas. Logo, o grupo se aproximou e começou a interagir um com o outro. Mais do que isso. A mão de um deles segurou na cintura de Sonnynha, não de forma ostensiva, mas... carinhosa. Fabinho, que havia dado um passo para dentro do refeitório, recuou, e observou.
O rapaz que alisava a cintura de Sonnynha disse algo em seu ouvido, baixo certamente para outros não ouvirem, mas alto o suficiente para chamar a atenção dela, que o encarou com aqueles lindos olhos negros arregalados. Fabinho não sabia o que ele havia falado, mas foi o suficiente para fazê-la aceitar um beijo na boca. Não foi um selinho, mas também não foi um beijo íntimo. Foi só... um beijo. Nem rápido o bastante, nem lento o suficiente.
Fabinho esperou que um tapa voasse da mão de Sonnynha no rosto daquele abusado. E assim que ela o fizesse, ele entraria e o esfregaria no chão do refeitório. Mas, o tapa não veio. Ao invés disso, veio um sorriso e uma reclamação seguida de uma expressão que ele interpretou como uma “dura”. Fabinho recuou outro passo e viu uma lixeira redonda ao seu lado. Não pensou duas vezes e colocou o buquê ali, saindo pelo mesmo corredor por onde havia entrado.
Uma enfermeira que vinha na direção contrária naturalmente estranhou aquele objeto lindo na lixeira. Olhou rapidamente para Fabinho que se afastava a passos largos e depois pegou o buquê do lixo. Nele, um bilhetinho. Neste, um nome: Sonnynha. Ela já imaginou de imediato o que havia acontecido, mesmo assim levou o buquê para dentro do refeitório:
- UHUUUUU! – Alguém gritou.
Todos se viraram para ela com o buquê nas mãos e aplaudiram. Ela sorriu, mas logo ficou séria novamente:
- Tem alguma Soninha aqui?
Quatro moças levantaram as mãos e a encararam, surpresas, duas até mesmo assustadas:
- Quantas tem dois “n” e “y” no nome?
Apenas uma levantou a mão e todos... simplesmente todos... a encararam. A enfermeira levantou o buquê na direção dela. Sonnynha encarou Maurício que já se adiantou:
- Não fui eu!
Sonnynha se aproximou e a enfermeira falou:
- Acho que é pra você. – Indicou o cartão.
Sonnynha pegou e leu uma mensagem bonita... inesperadamente bonita:
“Que hoje seja o meio mais bonito de algo que se iniciou há meses, mas que, para mim, durará uma eternidade.”
Ela não reconheceu de imediato a letra. Mas uma impressão a incomodou. Mais do que isso, a assustou:
- Mas quem?
- Não conheço, mas acabou de sair por ali. Um moreno, mais alto que você, cabelo curtinho, rosto liso, vestido de roupa social e gravata.
A cada palavra... A cada descrição... A surpresa no rosto de Sonnynha aumentava cada vez mais. Maurício se aproximou e leu o bilhete por sobre o ombro dela:
- Então... Quem é o meu concorrente?
Sonnynha sabia, mas não acreditava. Afinal, seu namorado morava há vários quilômetros de distância. Ela empurrou o buquê no peito de Maurício, pegou a enfermeira pela mão e a arrastou junto de si, pedindo mais detalhes, orientações, uma direção, talvez uma certeza de que era um engano.
Ela seguiram pelo corredor, mas este logo se bifurcou em três. Pediram informações, mas ninguém havia visto nada. Mercedes vinha com uma pasta na mão e viu o horror estampado no rosto da sobrinha:
- O que foi? Parece que viu um fantasma...
- Fabinho...
- O que tem ele? Aconteceu alguma coisa?
- Ele... estava aqui.
- Aqui!? Impossível...
A enfermeira que auxiliava Sonnynha viu tratar-se de assunto familiar e se despediu, saindo de lado. Sonnynha então explicou tudo, o buquê, o bilhete, que mostrou para Mercedes, e principalmente onde a enfermeira disse que o encontrou:
- E... por que ele faria isso, vir aqui com um buquê e jogá-lo na lixeira?
- Maurício... Ele...
Mercedes bufou e bateu a mão na própria anca, como um tapa, como se o som pudesse despertar a sobrinha:
- Eu falei que esse Maurício queria algo. O que ele fez agora?
- Nada! Ele... A gente estava num grupo, conversando, e ele me deu um beijo na bochecha. Só isso.
- Só... isso... – Mercedes respirou profundamente: - A sua sorte é que eu acho quase impossível ser o Fábio. Afinal, ele mora e trabalha longe, e... Por que você não liga para ele?
[...]
Pouco minutos antes, Fabinho saía de forma afobada do hospital, entrava em seu Uno e batia com força no volante:
- Não acredito... – Sorriu sarcasticamente para si mesmo: - Mudo pra cá, só para descobrir que estou sendo traído. Que maravilha!...
Deu partida em seu “bólido” e arrancou pela avenidas e ruas. Logo, uma ligação chegava em seu celular. Ele olhou a tela apenas para ver que seu buquê provavelmente já havia sido encontrado, pois o nome era familiar até demais: Sonnynha! Se bem que nenhum dos amigos, parentes, nem mesmo ela sabia de sua mudança repentina. Era um segredo. Era uma surpresa para ela. Algo para eles comemorarem juntos.
Ele ignorou a chamada e continuou dirigindo. Outra veio logo após. E outra. Depois, uma mensagem que o aplicativo leu em voz alta para ele:
“Fabinho, sou eu. Me liga assim que puder. Preciso falar com você.”
Em vinte minutos, Fabinho entrava novamente em seu flat. Mas ele não ligou. Ao invés disso, colocou o celular no mudo e foi se deitar. Minutos depois se levantou, dando uma dura em si mesmo:
- Foda-se! Mudei, não mudei? Vou fazer dar certo, mesmo que seja sozinho.
Ele começou a organizar suas coisas, roupas, livros, notebook. Também desceu e foi comer um lanche num bar meio suspeito não muito longe de seu flat. Lembrou-se do conselho de um antigo professor: “Sempre que estiver num lugar novo, seja amigo dos bons, mas nunca inimigo dos maus. Se possível, seja amigo deles também.” Foi assim que, ali naquele bar, comendo uma coxinha de urubu, como brincou o comerciante, conheceu alguns fregueses de nomes estranhos: Valdão, Nico, Pé Preto, Madeira e Vintão.
Não conhecia ninguém, mas quando pediu sua coxinha e uma cerveja, vendo que eles o observavam, ofereceu uma rodada por sua conta. Foi o suficiente para eles o chamarem para perto e começarem a especular. Uma rodada se transformou em duas. Logo, alternavam os pagadores. A coxinha virou uma porção de torresmo. O torresmo virou uma carne de panela com batatas. E o dia se transformou em noite.
Durante as conversas, acabou confidenciando para aqueles estranhos que havia acabado de descobrir um chifre. O melhor dos conselhos veio do Nico que recebeu: Esquece a vadia, mulher é o que não falta. Se quiser afogar as mágoas, conheço umas primas que vão te levar até o céu. Mas vai sem carteira, ou elas te arrastam para o inferno. O pior veio do Vintão: Se me pagar vintão, eu apago a vadia e o talarico. Só me dar a fita, que eu faço o resto.
Claro que o Fabinho recusou ambas as propostas, mas não dispensou as primas. Talvez num outro dia... Ele voltou para o flat quando já eram quase 21:00. Não estava bêbado, mas estava longe de estar sóbrio. No final, até mesmo ele havia ganhado um apelido ali entre aqueles personagens insólitos. Agora ele era o Doutorzinho.
Ele mal entrou no apartamento, jogou-se na cama e apagou.
No dia seguinte, acordou com uma baita ressaca. A cabeça parecia prestes a explodir. Mas ele tinha que se virar, afinal, era o seu primeiro dia no trabalho novo.
Tomou um banho frio. Se vestiu rapidamente, pegou o celular, as chaves e saiu sem café. Encontrou uma padaria próxima onde tomou um pingado e comeu um pão com manteiga na chapa às pressas. Enquanto fazia, olhou para o celular e viu que tinha mais de cinquenta chamadas não atendidas, além de quase cem mensagens não respondidas. Tinha da Sonnynha, do Romualdo, seu primo casado com Mercedes, de seus pais, de seu escritório... Mas uma mensagem chamou sua atenção, a de um número desconhecido:
“Lamento que tenha descoberto desse jeito. Mas é a vida. Os melhores sempre vencem. Agora, segue teu rumo que a Sonnynha já escolheu a mim.”
Fabinho sorriu. Riu depois. E ainda gargalhou. Então digitou uma resposta rápida:
Fabinho – “Faça bom proveito. Você não roubou minha mulher. Você me aliviou de um problema.”
Bloqueou o número e tomou seu café. Aproveitou para ligar para seus pais e os tranquilizar, dizendo a verdade, que havia bebido um pouco a mais e apagado:
- A Mercedes ligou aqui perguntando de você. Eu... não contei da sua mudança, porque você disse que queria fazer uma surpresa. Ainda não encontrou a Sonnynha?
- Não, papai, ainda não a encontrei. – Disse uma meia verdade: - Estava ocupado com a mudança e estou indo para o escritório daqui a pouco.
- Aconteceu alguma coisa aí, Fábio?
Fabinho não queria dar o braço a torcer:
- Sempre acontece alguma coisa em São Paulo, seu Bastião. Mas fica tranquilo: Eu estou bem!
- Tá... – Seu pai ficou em silêncio por um instante, mas logo soltou: - A Sonnynha também ligou... O que eu falo para ela se ela ligar novamente?
- Diga... – Fabinho pensou, mas nenhuma resposta surgiu: - Diga que eu ligo pra ela. É o melhor...
Fabinho terminou seu café da manhã e partiu para o centro, onde começara a trabalhar na suntuosa bancada do Alírio Filho e Neto Advogados. Estacionou mais longe do prédio, afinal, seu carro não era tão digno. Mas tão logo entrou, foi recebido enormemente bem. Sentia-se até deslocado com a forma cordial e curiosa com que lhe tratavam, mais ainda quando o próprio Alírio Sandoval Sampaio Alves Filho, o grande chefe, veio recebe-lo pessoalmente:
- Tu vens muito bem indicado por teu professor, caro doutor Fábio Silva.
- Só tenho a agradecer pela oportunidade, doutor. Espero não decepcionar.
- E não vai. – Outra voz surgiu no corredor, estridente, mas conhecida: - Fala aí, Fabinho. Então, decidiu mesmo vir?
Era Netinho, filho do dono do escritório, atualmente um dos sócios, seu ex colega de faculdade:
- Uai! Você falou que eu poderia vir, não falou?
- Falei... Demais até. – Ele abraçou Fabinho e depois o encarou: - Vamos lá. Vou te levar até sua sala. Posso, pai?
- Deve. – Concordou o doutor Alírio Filho: - Avisa-o que almoçaremos juntos. Doze horas está bom para ti, doutor Silva?
- Eu... é... cla-claro.
- Bendito! Vemo-nos logo mais.
Assim que o doutor Alírio Filho se afastou, o filho agarrou o pescoço de Fabinho, rindo:
- E aí, cachorrão? Junto novamente, hein? Caralho! Vai ser da hora... Sua sala fica ao lado da minha. Então, se tiver alguma dúvida ou dificuldade, entra lá que eu te ajudo. Aliás, melhor me passar um fio porque vai que você entra e me pega com uma das secretárias... Hein, hein!?
Logo, chegaram até a sala onde Fabinho trabalharia. Não era nenhum espetáculo midiático, mas era, sem dúvidas, melhor do que o escritório inteiro do doutor Tinoco. Nem bem ligou o computador e Netinho entrou novamente, trazendo uma pilha de pastas:
- Para esquentar... – Disse assim que as jogou sobre a mesa de Fabinho: - Não faz essa cara. Não é nada demais mesmo. Só preciso que dê uma lida e tente achar alguma incoerência entre os depoimentos das testemunhas de acusação na delegacia e em juízo. Estou fazendo as alegações finais e qualquer coisinha me ajudaria.
Fabinho se debruçou no trabalho. Jogar, ele não jogava e como parecia não ter sorte no amor, talvez o trabalho fosse o seu caminho. Talvez...
OS NOMES UTILIZADOS NESTE CONTO SÃO FICTÍCIOS E OS FATOS MENCIONADOS E EVENTUAIS SEMELHANÇAS COM A VIDA REAL SÃO MERA COINCIDÊNCIA.
FICA PROIBIDA A CÓPIA, REPRODUÇÃO E/OU EXIBIÇÃO FORA DO “CASA DOS CONTOS” SEM A EXPRESSA PERMISSÃO DO AUTOR, SOB AS PENAS DA LEI.
