Antes de começar, é sempre bom relembrar.
Os Filhos da Floresta é uma história sobre sofrimento, decadência humana e sobrevivência. Sobre pessoas presas em um lugar que não deveria existir, tentando sobreviver em meio ao medo, à exaustão e à ausência de uma saída. Algumas precisarão escolher entre aquilo que consideram certo e aquilo que precisam fazer para continuar vivas. Algumas resistirão, outras quebrarão. E algumas descobrirão que sobreviver pode ser apenas outra forma de morrer aos poucos.
Nem sempre as decisões dos personagens serão certas, heroicas ou justificáveis. Pessoas exaustas, desesperadas e encurraladas não agem como agiriam em condições normais, principalmente quando estão tentando fugir, perseguidas por algo que não entendem.
Respeite a floresta.
Tenha foco.
Guarde cada detalhe.
Siga em frente por sua conta e risco.
E, acima de tudo... aproveite a leitura!
*
Os filhos da floresta - Capítulo 6: O dia em que o vazio queimou.
Ato I
Entrei novamente na cabana da Bruxa. Tudo parecia diferente agora, sem a presença dela, restando apenas o silêncio.
Olhei ao redor até encontrar o abafador, estava sobre a mesa. Coloquei-os sobre a cabeça e ajustei as laterais, o isolamento do som foi imediato, não ouvi nada além do meu próprio coração batendo e do sangue correndo dentro dos meus ouvidos.
Era estranho, mas funcionou. Na mesa havia uma caixa de fósforos e um galão pequeno de gasolina. Peguei tudo e coloquei na bolsa. Então saí da cabana.
A Raiz Negra me aguardava.
Segui pela floresta em direção aquela massa de carne. Quanto mais avançava, mais difícil era distinguir uma trilha das outras. As árvores pareciam se fechar ao meu redor dificultando a entrada da luz, mas continuei andando. Depois de algum tempo, encontrei um cadáver.
Estava caído próximo às árvores, a decomposição já estava avançada. A pele havia escurecido e partes do corpo praticamente desaparecido.
O cadáver estava abraçado a uma bolsa, segurei a alça e puxei. Abri e havia apenas um diário. Estava completamente deteriorado pelo tempo. A capa estava úmida e deformada. Algumas páginas haviam sido rasgadas, outras estavam cobertas por manchas que tornavam boa parte das palavras ilegíveis.
Comecei a folhear, a maioria das páginas não fazia sentido. Até encontrar uma anotação.
“Aquela árvore desgraçada não pega fogo.”
Continuei folheando.
“Não tem como.”
“Não dá para sair...”
“...gastamos... litros de gasolina, mas aque... merda não queim...”
Havia várias folhas com trechos completamente rasurados, continuei passando as páginas. Em determinado momento encontrei outra frase, escrita de maneira irregular.
“...não dá, não dá, não dá...”
Virei a página.
“n... dá...”
“A árvore começou a emitir um som, parece que ela está nos chamando para c...sa...”
Tinha algumas páginas rasgadas, na última folha ainda tinha algumas anotações.
“Alguma coisa aconteceu com os outros dois que estavam comigo, eles começaram a reclamar de uma coceira e...”
...
“Eu sei que eu vou morrer em breve também, s... alguém ler este diário...”
Depois disso, estava tudo borrado e havia mais páginas rasgadas. A última anotação legível ocupava apenas uma pequena parte da folha.
O restante estava destruído, fechei o diário. Fiquei alguns segundos olhando para a capa, depois olhei ao redor. Foi quando percebi alguma coisa entre as árvores.
Uma estrutura metálica, era um helicóptero militar. Estava caído entre as árvores, completamente tomado pela vegetação. Raízes cobriam boa parte dele, os galhos haviam atravessado as janelas. Algumas raízes entravam pela cabine e desapareciam lá dentro
Parei diante dos destroços, havia objetos espalhados pelo chão. Me aproximei de algumas fotografias, passei uma por uma entre os dedos.
Pessoas e lugares. Momentos que eu não reconhecia, mas ao mesmo tempo, tão familiares. Fiquei alguns segundos olhando para aquelas fotografias antes de guardá-las junto ao diário.
Continuei caminhando.
A Raiz Negra estava cada vez mais perto.
Ato II
Continuei seguindo pela floresta quando ouvi os gritos, começaram antes mesmo que eu conseguisse enxergar a árvore. No início eram apenas sons distantes, quase abafados pela própria floresta. Conforme avancei, foram ficando mais claros.
Gritos, choros, eram vozes humanas. Algumas pareciam pedir ajuda. Outras apenas gritavam sem formar palavras.
Meu corpo começou a coçar, passei as mãos pelos braços. A sensação aumentava conforme eu me aproximava.
Retirei o abafador de ouvidos da mochila e os coloquei sobre a cabeça, os gritos desapareceram imediatamente. A coceira passou assim como uma sensação desconfortável que eu nem sabia que estava sentindo.
Continuei andando até a Raiz Negra surgir entre as árvores. Era ainda maior de perto, mais sinistra do que eu havia imaginado. O tronco parecia ocupar uma parte inteira da floresta. As raízes se espalhavam pelo chão em todas as direções, algumas tão grossas quanto as árvores comuns.
E aquelas pessoas presas ao tronco principal. Dezenas, talvez centenas. Alguns estavam parcialmente enterrados na madeira. Outros tinham raízes atravessando o corpo, entrando pelo peito, pelas costas, pelos braços.
Vi pernas saindo do tronco, braços, rostos. Alguns corpos estavam tão fundidos à árvore que já era impossível dizer onde terminava a pessoa e começava a madeira.
Eles se moviam freneticamente, mas ao me notarem ali, o comportamento deles mudou. Um homem preso até a cintura ergueu os braços na minha direção. Uma mulher tentou puxar o próprio corpo para fora do tronco. Outro corpo abriu a boca. Não ouvi nada por causa do abafador, mas fiz a leitura labial. Eles pediam por socorro.
Eles pareciam estar tentando chegar até mim.
“Aquela árvore desgraçada não pega fogo.”
Eu não tinha gasolina suficiente para cobrir uma árvore daquele tamanho. Se eu simplesmente jogasse tudo sobre o tronco, provavelmente não serviria para nada. Precisaria de litros e litros de gasolina para atear fogo em algo daquela imensidão. E pelo relato no diário, também seria em vão.
Eu precisava encontrar outra maneira.
...
As vozes do rádio voltaram à minha cabeça como uma lembrança tão vívida.
“Passagem.”
“Negra.”
“Raiz.”
“Lado.”
“Túnel.”
Comecei a caminhar ao redor da árvore. Passei por um grupo de raízes enormes que saíam do chão e desapareciam novamente dentro do tronco. Foram inúmeras voltas do lado esquerdo e do lado direito, indo e voltando inúmeras vezes até conseguir achar uma porta de metal no chão. Estava quase completamente escondida pela terra. Havia raízes cobrindo as laterais e uma camada grossa de ferrugem sobre a superfície.
Me abaixei e encontrei uma alça, puxei com toda a força que tinha para fazer aquela porta se abrir. Abaixo dela havia uma escada, peguei a lanterna e comecei a descer. O ar ficou mais frio. Continuei descendo até chegar ao fundo, havia um túnel.
— Quem está aí? — uma voz ecoou na minha mente. — O que você quer?
Ignorei a voz, precisava ignorar qualquer distração.
As paredes eram feitas de terra compactada, a floresta havia crescido sobre aquilo, mas, por algum motivo, não havia conseguido destruir o túnel. Comecei a caminhar, a luz da lanterna percorria as paredes. Tinha alguma coisa dentro delas, continuei passando a lanterna até encontrar uma mão enterrada. Havia pessoas dentro das paredes.
— O que acha que está fazendo aqui? — a voz ficou baixa. — Se perdeu?
Algumas dessas pessoas na parede estavam quase completamente enterradas, outras ainda tinham partes do corpo expostas, assim como o homem de costas. Ele estava sem camisa. Havia um brasão tatuado nas costas, e logo abaixo, uma palavra, Kiev. Não conseguia ver o rosto, a cabeça, braços e pernas já haviam sido engolidas pela terra.
— Pobre criança... — a voz ressurgiu um pouco mais alta. — Você não deveria estar aqui...
Kiev, o famoso Kiev. O herói, o homem que havia tentado destruir a Raiz Negra. Ele tinha chegado longe, muito mais longe do que eu imaginava. Continuei andando, as raízes começaram a aparecer nas paredes. Primeiro eram finas, mas ficaram mais grossas. Uma delas atravessava a parede inteira.
— Você não consegue me ouvir? — a voz ficou baixa novamente. — Ainda está me procurando?
Aproximei a lanterna, ela se moveu, aquela raiz pulsava, como uma artéria. As raízes ficavam cada vez maiores. A pulsação delas foi aumentando conforme eu avançava. Cheguei a uma pequena sala onde uma raiz enorme ocupava quase todo o espaço. Ela estava enrolada ao redor de alguma coisa.
Era um coração, ou algo que se parecia com um. Era deformado, preto, marrom, cinza, uma mistura de cores sem vida e sem esperança. Pulsava lentamente dentro das raízes.
Será que aquilo era... o coração da floresta?
O catalisador disso tudo? De todas essas merdas que estavam acontecendo?
— Eu não quero ficar aqui — a voz era de uma criança. — Queima ela...
Olhei para o galão, era pouco, mas o suficiente. Sem perder tempo, despejei toda a gasolina sobre as raízes e sobre o coração. Peguei a caixa de fósforos e risquei, a pequena chama surgiu, por um instante, fiquei olhando para ela.
Então joguei, o fogo foi imediato. As chamas envolveram as raízes. O coração começou a pulsar violentamente. As raízes se contraíram. Um grito atravessou o túnel. Levei as mãos aos ouvidos. Mesmo com o abafador eu conseguia ouvir. Era um grito agudo, alto demais. As raízes começaram a pulsar cada vez mais rápido.
— Está doendo — a voz agonizava na minha cabeça. — Por favor, faz parar!
A terra tremeu, aquele túnel parecia estar por um fio para desabar. Eu precisava sair dali. Virei e corri, atravessei todo o caminho, subi as escadas e continuei correndo. Não olhei para trás, só parei quando já estava longe o suficiente.
Me virei e tirei o abafador, consegui escutar o estalo do fogo. A Raiz Negra estava queimando, as chamas surgiam através do tronco, entre as raízes, dentro da madeira, dentro daqueles corpos que agora agonizavam mais do que nunca.
A árvore estava queimando de dentro para fora. O fogo funcionou, mas estava avançando lentamente. A luz do sol já estava diminuindo, e a noite estava chegando.
Eu ri quando me lembrei da regra do Velho, nunca sair à noite.
Comecei a correr de volta para a cabana e me preparar, se Deus quiser, para a última noite nesse lugar maldito.
Ato III
Cheguei à cabana quando o sol já havia desaparecido completamente.
Antes de entrar, olhei para trás. A Raiz Negra queimava ao longe. As chamas subiam muito acima das árvores, iluminando a floresta inteira com uma luz alaranjada. Por alguns instantes, tive a impressão de que o sol ainda estava no céu, como se a noite tivesse sido impedida de chegar àquela parte da floresta.
Peguei a luneta, ajustei o foco e mirei na árvore. Havia movimento por todos os lados. Selvagens saíam de dentro da floresta e caminhavam em direção às chamas. Alguns avançavam lentamente, quase arrastando os pés. Outros corriam desesperados tropeçando no chão. Vi criaturas deformadas surgindo entre as árvores.
Algumas tinham formas que eu já conhecia. Outras eram diferentes, coisas que eu nunca havia visto antes. Todas estavam indo para o mesmo lugar, o fogo. Uma das criaturas chegou perto demais das chamas e foi imediatamente consumida.
Nenhuma parecia tentar fugir. Os gritos continuavam. Mesmo daquela distância, eu conseguia ouvi-los. Havia gritos agudos, rosnados, choros e sons que eu não conseguia identificar. Tudo se misturava ao som distante das árvores queimando.
Abaixei a luneta, não queria mais olhar. Entrei na cabana e fechei a porta, encostei as costas contra ela por alguns segundos. Os gritos continuavam do lado de fora, respirei fundo e me virei.
Só queria descansar.
Foi então que percebi o rádio no chão, não lembrava de ter visto aquilo ali antes. Assim que cheguei perto, a estática começou, um chiado forte preencheu a cabana, o rádio ligou sozinho.
Era dali que vinha todas aquelas vozes que escutei durante as noites?
Por alguns segundos, ouvi apenas pequenos ruídos, então uma voz surgiu entre eles. Uma voz masculina, feminina, de criança, adultos e idosos, tudo junto, misturado, dando um tom desagradável. E todos pareciam chorar.
— ...po...r...por...q...quê...v...voc...f...f...fez...so...isso?
A voz desapareceu novamente em meio ao chiado.
— ...p...por...q...quê...n...nos...q...queim...queimou?
A voz chorava. Não era um choro distante ou abafado. Parecia alguém desesperado, alguém que estava sofrendo.
— ...p...por...q...quê...f...fez...i...isso?
O aparelho começou a falhar, o chiado aumentou. Estalos começaram a surgir dentro dele, aproximei a mão. Então o rádio deu um curto, uma pequena chama surgiu dentro do aparelho.
Me levantei, a chama cresceu. Tentei apagá-la com as mãos, mas ela aumentou ainda mais. Tentei abafar com os pés, não adiantou. O fogo cresceu no lugar onde o rádio estava. As chamas começaram a se espalhar pelo chão.
Tentei apagar, mas nada funcionava. Procurei alguma coisa para jogar água sobre aquilo, mas antes que encontrasse, percebi que havia alguma coisa errada. O fogo não estava mais se espalhando. As chamas permaneciam concentradas no centro da cabana., não alcançavam as paredes, não subiam pelo teto. Era como se houvesse alguma coisa impedindo que avançassem.
Então alguma coisa se moveu dentro do fogo, dei um passo para trás. Uma mão surgiu entre as chamas, a pele estava completamente carbonizada. Um corpo começou a sair do meio do fogo, era humano. Ou pelo menos tinha sido.
Ele caiu de joelhos, apoiou as mãos no chão e começou a rastejar, levantei o machado. O corpo ergueu a cabeça, não havia olhos, apenas duas cavidades escuras. Ele abriu a boca e tentou emitir algum som.
O machado atingiu sua cabeça, o corpo caiu. Então outro surgiu, um após o outro. Eles saíam das chamas como se estivessem sendo expulsos de algum lugar. Alguns estavam completamente carbonizados. Outros tinham partes do corpo cobertas por uma espécie de matéria escura. Alguns ainda possuíam pedaços de pele.
Todos rastejavam na minha direção. Segurei o machado com as duas mãos, os afastei, acertei eles na cabeça. Recuei alguns passos e usei o espaço da cabana para impedir que os corpos chegassem todos ao mesmo tempo.
O fogo continuava queimando no centro, as chamas não aumentavam, não diminuíam. Apenas continuavam ali e os corpos continuavam surgindo. Por algum motivo, eles não pareciam completamente mortos. Alguns se arrastavam mesmo depois de terem sido atingidos.
A noite avançava, eu não sabia quanto tempo havia passado, minutos pareciam horas. Às vezes, o fogo permanecia inerte por vários minutos. Eu ficava parado, esperando mais algum corpo carbonizado surgir só para eu mandá-lo de volta para o fogo do qual ele saiu.
Em intervalos irregulares, um outro outro aparecia. Eu precisava lutar novamente. Em determinado momento, três apareceram quase ao mesmo tempo.
Recuar.
Esperar.
Atacar.
Não podia deixar que me cercassem.
Continuei acertando eles, um atrás do outro. Sem entender de onde vinham. Sem entender o que eram. Sem entender por que estavam ali.
Eu já estava cansado, todo o meu corpo doía.
Mas eu continuei esperando, imóvel segurando o machado, preparado para o próximo ataque. Então percebi uma pequena mudança na escuridão do lado de fora, a noite estava acabando. Uma luz fraca começou a surgir pelas frestas da cabana.
Pisquei.
Olhei novamente para o centro do cômodo, o fogo havia desaparecido. Não havia mais nada.
Nem fogo.
Nem corpos.
Nem rádio.
O chão estava limpo, sem sangue, sem marcas de luta, sem corpos. Olhei para minhas mãos, estavam completamente limpas. Passei os olhos pelo machado, também estava intacto. Fiquei alguns segundos tentando entender o que havia acontecido. Eu tinha passado a noite inteira lutando, eu sabia disso.
Sentia o cansaço no corpo, mas não havia absolutamente nenhuma prova.
Abri a porta lentamente e saí, a floresta estava silenciosa. A Raiz Negra ainda queimava ao longe. Uma coluna de fumaça escura subia acima das copas.
Não havia qualquer sinal de que alguma coisa tivesse acontecido durante aquela noite.
Como se eu tivesse passado horas lutando contra algo que nunca existiu.
Ato IV
Voltei até a Raiz Negra.
Eu estava fisicamente exausto. A noite inteira lutando na cabana com algo imaginário havia cobrado seu preço, mesmo que meu corpo ainda parecesse funcionar normalmente. Segurei o machado com força e comecei a caminhar pela floresta.
Permaneci alerta durante todo o percurso, esperava encontrar alguma coisa que me impedisse no caminho. Depois de tudo o que havia acontecido, parecia impossível atravessar aquela região sem ser atacado por alguma coisa. Olhava entre as árvores, observava o chão, prestava atenção a qualquer movimento.
Nenhuma criatura apareceu. A floresta estava estranhamente silenciosa.
Não era o silêncio habitual daquele lugar. Até os pequenos sons que eu havia aprendido a reconhecer haviam desaparecido.
Não havia passos, gritos, rosnados, até o vento desapareceu. As folhas permaneciam completamente imóveis.
Continuei avançando. Até chegar na árvore queimada. Grande parte do tronco estava carbonizada. As raízes, antes grossas e vivas, agora se desfaziam lentamente. Partes inteiras da árvore se soltavam e caíam no chão, transformando-se em cinzas antes mesmo de parar de se mover.
Os corpos presos ao tronco também desapareciam, alguns se desfaziam junto com a madeira, engolidos pelas raízes que se desfaziam ao redor deles.
A Raiz Negra estava se desintegrando lentamente.
Entre as raízes havia uma abertura, me abaixei e entrei. O espaço era apertado. Precisei passar de lado em alguns pontos, depois rastejar para conseguir avançar. As raízes formavam uma espécie de túnel ao meu redor. Rastejei mais alguns metros e depois consegui me levantar parcialmente. Foi então que senti alguma coisa diferente sob meus pés.
Era asfalto.
Passei completamente pelas raízes e parei do outro lado...
Finalmente...
Eu estava fora da floresta.
Pela primeira vez desde que havia acordado naquele lugar, vi árvores normais.
Eram menores, estavam afastadas umas das outras.
Não havia raízes atravessando o chão, não havia nenhum cadáver, não havia monstros horríveis prontos para me matar. Não havia gritos distantes.
Existia apenas a imensidão de uma estrada normal, comecei a caminhar. Depois de alguns metros, encontrei uma placa, o nome da cidade estava rasurado, mas estava há vinte e cinco quilômetros.
Sorri, eu caminharia com muito prazer por vinte e cinco quilômetros por uma estrada normal.
Continuei o caminho. Estava tão cansado que simplesmente seguia em frente. Não sentia necessidade de olhar para os lados. Pela primeira vez, não precisava me preocupar com o que poderia estar escondido entre as árvores.
Apenas caminhei. Depois de algum tempo, olhei para trás. A floresta estava distante, só então consegui enxergar sua verdadeira dimensão. As árvores estavam tão próximas umas das outras que pareciam formar uma única massa de troncos. De longe, a floresta parecia uma enorme cúpula sobre o terreno.
Então voltei a caminhar. Depois de alguns minutos, comecei a encontrar os primeiros sinais de civilização. Um poste de luz normal surgiu entre as árvores normais, os fios se estendiam pela rede elétrica que fui acompanhando com os olhos, até surgir a cidade.
Continuei andando até chegar às primeiras construções. Observei tudo em silêncio.
Era estranho. Depois de tanto tempo cercado por coisas que eram impossíveis de existir, aquelas ruas pareciam quase irreais, eram tão normais.
Havia uma mulher sentada em um banco, alimentando alguns pássaros.
— Bom dia — falei enquanto passava por ela.
— Bom dia — ela respondeu sem levantar os olhos, jogando mais sementes para os pássaros.
De longe, avistei um prédio. Eu conhecia aquele lugar, me aproximei em passos lentos e entrei.
O interior era familiar, era o prédio onde eu morava.
Subi as escadas até o terceiro andar.
Continuei até chegar diante de uma porta.
Eu conhecia aquela porta, coloquei a mão na maçaneta e abri.
Entrei na minha casa.
Deixei a mochila cair no chão.
Fiquei parado por alguns segundos, apenas olhando ao redor.
Toquei alguns objetos, reconheci os móveis.
Tudo estava exatamente onde deveria estar.
Então ouvi passos rápidos, um cachorro surgiu vindo da sala. Era o Snoop, meu cachorro. Ele veio até mim e começou a pular, abanando o rabo com emoção.
Me abaixei, ele colocou as patas sobre minhas pernas e começou a me lamber o rosto.
Passei a mão pela cabeça dele, fiquei alguns segundos acariciando-o. Ele parecia feliz em me ver.
Entrei no quarto.
Tirei as roupas sujas e deixei tudo no chão.
Depois entrei no banheiro e abri o chuveiro.
A água quente caiu sobre minha cabeça, fiquei ali por não sei quanto tempo enquanto assistia uma poça de sujeira de formar nos meus pés.
Não pensei em nada, apenas fiquei ali, deixando a água quente levar toda a sujeira embora para o ralo.
Quando saí, abri o armário. Havia roupas limpas. Peguei algumas e me vesti.
Voltei para a cozinha, foi então que percebi que estava com fome.
Abri a geladeira, havia uma panela com sopa. Peguei a panela e esquentei a comida.
Me sentei à mesa, comecei a comer lentamente.
Terminei de comer e me levantei, voltei para o quarto.
A cama estava arrumada, a minha esposa estava ali.
— Meu amor, você voltou. Finalmente — ela me olhou, sorrindo.
Ato V
Ela se levantou, ficando de joelhos no centro da cama. O vestido branco combinava com o seu sorriso, aquele sorriso que senti tanta falta de apreciar. O cabelo escuro caía solto pelos ombros, e seus olhos cor de mel sempre me desarmavam, eles brilharam em meio ao quarto escuro.
Eu me aproximei, ela abriu os braços e me recebeu com ternura. Suas mãos encontraram meu rosto, dedos quentes passaram pelas minhas bochechas, percorreram minha pele até encontrar a minha nuca e então, me puxou para si.
Nossos lábios se encontraram, um toque leve que senti a eletricidade irradiar pela pele sensível. A boca se abriu, a língua dela serpenteando com a minha, brigando por espaço na boca alheia. O gosto dela era de vinho branco que adorava apreciar durante os dias de folga.
Deslizei uma mão na cintura dela, puxando seu corpo contra o meu, e senti o calor que irradiava através do vestido. Passei a mão por dentro do vestido branco. O tecido era fino demais, tanto que ela só o usava quando previa um momento quente entre nós.
Meus dedos subiram pela lateral de sua coxa, encontrando a pele macia, levemente úmida de suor. Não havia calcinha, só a pele nua, quente, e o contorno do quadril que se curvava sob meu toque. Ela soltou um som baixo contra minha boca, um gemido abafado, e seus dedos apertaram nos meus ombros. Continuei subindo, arrastando o tecido consigo, expondo a barriga, a cintura, até que puxei o vestido por cima da cabeça dela e o joguei no chão.
Dei um passo para trás para apreciar a beleza da mulher que eu havia casado. Nua, a pele dourada pela luz do abajur velho no criado-mudo ao lado. A barriga lisa descendo até o tufo de pelos escuros entre as coxas. Encostei a boca no pescoço dela, descendo pela clavícula, mordiscando a pele salgada. Minha mão desceu entre suas pernas e encontrei sua intimidade, quente, melada, pronta para mim. Os lábios da buceta já inchados e abertos. Passei os dedos pela fenda, sentindo o clitóris duro sob a polpa, e ela estremeceu, as pernas cedendo levemente.
Empurrei-a para trás, deitando-a na cama, e abri suas pernas. O cheiro dela subiu até mim, e enterrei o rosto entre suas coxas. Minha língua encontrou a entrada primeiro, lambendo de baixo para cima, recolhendo o líquido que escorria dela. Ela arqueou as costas, as mãos agarrando os lençóis, soltou um gemido alto que ecoou pelo quarto. Fiz círculos com a língua ao redor do clitóris, depois suguei, suguei com força, puxando a carne sensível entre os lábios, e ela gritou, as coxas apertando minha cabeça.
Não parei. Minha língua trabalhava sem descanso, ora rápida, ora lenta, ora penetrando a entrada tão extremamente convidativa, ora voltando ao clitóris sensível. Os dedos dela se enterraram no meu cabelo, puxando, e os quadris dela se moviam sozinhos, esfregando-se contra a minha boca. O som era obsceno, molhado, rítmico, os pequenos sons de sucção se misturando aos gemidos descontrolados. Senti os músculos internos dela se contraírem, tremores involuntários, aumentei o ritmo, sugando com mais força, lambendo com mais pressão, até que ela gozou.
O orgasmo a percorreu como uma onda. As coxas apertaram minha cabeça, o corpo inteiro enrijeceu. Seu grito estridente percorreu todo o apartamento, seus dedos cravados no meu couro cabeludo. Continuei lambendo, mais devagar agora, recolhendo cada gota do seu prazer, sentindo os tremores diminuírem aos poucos até que ela se afundou no colchão com a respiração ofegante e com as pernas ainda abertas.
Me levantei e me joguei por cima dela, agarrando as coxas não com violência, mas com firmeza. Uma de minhas mãos percorreram seu abdômen até chegar em um de seus peitos, a empurrei um pouco contra o colchão. Ela abriu as pernas sem que eu pedisse. A buceta ainda brilhava de saliva e gozo, os lábios inchados e vermelhos. Posicionei meu pau na entrada, a cabeça espalhou os lábios internos para os lados e então, meti fundo em uma só estocada.
O calor me engoliu. Apertado, molhado, pulsante, a buceta dela se ajustou ao meu pau como se tivesse sido feita para isso. Ela soltou um som gutural, meio gemido, meio suspiro, e as unhas dela se cravaram nos meus braços. Comecei a meter devagar no início, puxando até quase sair e voltando até o fundo, sentindo cada centímetro daquela compressão quente. Os sons molhados enchiam o quarto e o corpo dela se movia a cada estocada, os seios balançando, a boca aberta com um gemido engasgado em sua garganta.
Ficamos naquela posição não sei por quanto tempo, meu corpo pesava a cada segundo que passava dentro dela, a cada minuto que passava em cima daquela cama. Mas as pernas dela sempre permaneciam abertas. O ritmo aumentou, metia cada vez mais rápido, mais fundo, as bolas batendo contra a bunda dela a cada investida. Ela gemia sem parar, palavras soltas e sem sentido escapando de seus lábios, e eu continuei metendo, observando o pau entrar e sair, vendo a buceta agarrar meu pau a cada retirada, como se não quisesse me deixar ir.
As pernas dela se cruzaram contra a minha cintura e me puxavam a cada movimento. Eu a beijava, seus doces lábios eram tão convidativos, meu desejo por ela aumentava a cada gemido que ela dava contra a minha boca.
Senti tanta falta disso, senti tanta falta da minha esposa.
Peguei as pernas dela e as coloquei nos meus ombros. A bunda dela subiu me possibilitando ir mais fundo, sentia a cabeça do meu pau batendo no fundo da buceta, e ela gritou, as mãos agarrando os lençóis. Continuei metendo sem parar, as pernas dela tremendo nos meus ombros, o suor escorrendo pelo meu peito e caindo sobre a sua barriga. A buceta estava mais apertada naquele ângulo, e cada estocada arrancava um gemido diferente de sua boca, às vezes mais agudo, outro mais grave, mas sempre desesperada por mais.
Então ela cruzou as pernas na minha cintura novamente. Os tornozelos se travaram atrás das minhas costas, e ela me puxou, puxou com força, usando as pernas para me cravar mais fundo dentro dela. O pau afundou até a base, e eu senti o fundo da buceta ceder, me engolindo completamente. Ela me puxava a cada estocada, me forçando a entrar mais fundo do que eu achava ser possível.
Então eu gozei, afundei tudo o que tinha dentro dela e jorrei toda a minha porra dentro de sua buceta. Ela gemia enquanto as últimas gotas ainda a preenchiam. Ela olhou para onde nossos sexos se uniam, retirei meu pau aos poucos até deixar o esperma escorrer de dentro dela, formando uma pequena poça no lençol.
Ela sorriu, um sorriso lento, satisfeita, os olhos pesados de prazer.
As pernas dela cederam em descanso, agora relaxadas.
O corpo todo tremia em pequenos espasmos residuais.
Caí de lado na cama, meu corpo finalmente relaxou.
Senti as pernas doloridas.
Meu corpo se tornava cada vez mais letárgico.
Como se tudo o que havia passado estivesse esmagando cada fibra do meu ser.
Fechei os olhos.
Eu tinha voltado para casa.
Foi uma jornada difícil...
Foram dias?
Semanas?
Eu nem me lembrava há quanto tempo eu estava naquele lugar.
Mas a única coisa que importava...
Era que eu tinha voltado.
Eu havia conseguido sair daquele lugar maldito.
Consegui sair daquela floresta.
Esmaguei todas as formigas que tentaram me impedir.
Mas eu finalmente estava em casa... casa... casa... c-casa...
— ...durma...
A estática de rádio surgiu, em algum lugar na minha mente.
...
Tinha algo de errado.
