Eu não tinha saído de casa naquela noite procurando mulher.
Muito menos imaginando que terminaria transando dentro do carro.
Era sábado, pouco depois das onze, quando me despedi dos amigos e saí do restaurante. A chuva começava a engrossar e meu único plano era ir para casa, tomar um banho e dormir.
Foi quando vi Patrícia debaixo da marquise.
Eu a conhecia havia quase dois anos. Amigos em comum, aniversários, alguns jantares, conversas e brincadeiras. Ela era bonita, isso eu sempre soube. Mas nunca tinha acontecido nada entre nós.
Naquela noite, porém, olhei diferente.
O vestido acompanhava suas curvas e deixava as pernas à mostra. Patrícia estava concentrada no celular, claramente irritada.
— Problemas?
Ela levantou os olhos.
— Segundo motorista que cancela essa merda.
— Onde você mora mesmo?
Ela disse o bairro.
— Eu te levo.
— Vai mesmo?
— Vou.
Patrícia guardou o celular e abriu um sorriso.
— Depois não reclama.
— Por que eu reclamaria?
— Sei lá. Vai que se arrepende de me colocar dentro do seu carro.
Ri.
— Agora fiquei preocupado.
— Deveria.
Fui buscar o carro.
Quando parei diante do restaurante, ela correu pela chuva e entrou rapidamente.
— Caralho, está piorando!
Patrícia fechou a porta, passou as mãos pelos cabelos molhados e ajeitou o vestido.
Olhei.
Ela percebeu.
— Gostou?
— Do quê?
— Não se faça de idiota.
— Você entrou no meu carro há dez segundos e já está arrumando confusão.
— E você já está olhando para minhas pernas.
— Eu estava olhando o banco.
— Claro.
Ela colocou o cinto sorrindo.
Saí com o carro.
Poucos minutos depois, entreguei meu celular.
— Coloca alguma música.
— Posso escolher qualquer coisa?
— Dentro do razoável.
— Então não devia ter me dado o celular.
Patrícia colocou uma música mais lenta.
— Essa?
— Quer me fazer dormir?
— Talvez eu queira te deixar relaxado.
— Isso parece ameaça.
Ela riu.
— Medroso.
Seguimos conversando.
Só que comecei a perceber que Patrícia estava diferente.
Ela cruzava as pernas e pegava meu olhar.
Encostava no meu braço para falar alguma coisa e demorava para tirar a mão.
Quando ria, inclinava o corpo na minha direção.
Até que resolvi provocar também.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Isso o quê?
— Você sabe.
— Não faço a menor ideia.
— Safada.
Patrícia arregalou os olhos, fingindo indignação.
— Olha como fala comigo.
— Acertei?
Ela aproximou o rosto.
— Talvez.
Comecei a rir.
— Eu sabia.
— Não sabe porra nenhuma.
Alguns minutos depois, ela abaixou o volume.
— Posso perguntar uma coisa?
— Lá vem.
— Por que você nunca me chamou para sair?
Olhei rapidamente para ela.
— Você queria?
— Responde primeiro.
— Porque nunca soube se você estava me dando mole ou simplesmente me sacaneando.
Patrícia começou a rir.
— Não acredito.
— O quê?
— Você é lerdo mesmo.
— Então estava me dando mole?
— Algumas vezes.
— Algumas?
— Muitas.
— Puta merda.
— Pois é.
Parei no sinal.
Olhei para ela.
— E você nunca podia ter facilitado?
Patrícia aproximou o rosto.
— Mais?
— Mais?
— Quantas vezes eu sentei do seu lado? Quantas vezes puxei conversa? Quantas vezes fiquei te provocando?
— Achei que você fosse assim com todo mundo.
Ela fez uma expressão ofendida.
— Vai se foder.
Comecei a rir.
— Agora ficou brava?
— Não. Só estou descobrindo que desperdicei muito tempo.
O sinal abriu.
— Ainda dá para recuperar.
— Olha só...
Ela sorriu.
— Finalmente apareceu alguma coragem.
Continuamos.
Pouco depois, senti sua mão pousar sobre minha coxa.
Olhei.
— Dirige — disse ela.
— Patrícia...
— Que foi?
Sua mão permaneceu ali.
— Você está querendo arrumar merda.
— Talvez.
Os dedos se moveram lentamente.
— Você é safada mesmo.
Ela olhou pela janela como se não estivesse fazendo absolutamente nada.
— Presta atenção na rua.
— Fácil falar.
— Está nervoso?
— Não.
Ela apertou minha perna.
— Mentiroso.
***
Quando entramos no bairro dela, já não havia mais dúvida de que alguma coisa estava acontecendo.
Patrícia me orientou até a rua.
— Meu prédio fica depois da esquina.
Diminuí.
— Pode parar aqui.
Olhei para ela.
— Aqui?
— Aqui.
— Mas seu prédio...
— Eu sei onde moro.
Estacionei alguns metros antes da rua do apartamento.
Desliguei o motor.
Ela soltou o cinto.
Mas não saiu.
— Chegamos — falei.
— Percebi.
— Vai subir?
Patrícia olhou para mim.
— Está querendo se livrar de mim?
— Depois de você passar metade do caminho me provocando?
— Eu não fiz nada.
— Ah, não?
— Nada.
— Ficou mostrando essas pernas, passando a mão em mim...
Ela começou a rir.
— E você odiou.
— Pra caralho.
O sorriso dela mudou.
— Finalmente admitiu.
— Era isso que você queria?
Patrícia se aproximou.
— Eu queria descobrir até quando você ia conseguir fingir.
— Fingir o quê?
Seus olhos desceram pelo meu corpo.
— Que não estava morrendo de vontade.
Fiquei olhando para ela.
— Você gosta de brincar com fogo.
— E você fala demais.
— Então faz alguma coisa.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Está me desafiando?
— Talvez.
Patrícia chegou mais perto.
— Cuidado com o que pede.
— Por quê?
— Porque eu posso fazer.
Foi quando a beijei.
O primeiro beijo começou lento, mas a delicadeza durou pouco.
Ela segurou minha camisa e me puxou.
Minha mão encontrou sua cintura.
Patrícia interrompeu o beijo.
— Dois anos.
— O quê?
— Dois anos para você fazer isso.
— Poderia ter feito também.
— Eu sou uma dama.
Olhei para ela.
— Uma dama?
— Algum problema?
— Depois do que você fez dentro desse carro?
Ela mordeu o lábio tentando não rir.
— Vai tomar no cu.
— Bela dama.
Ela me beijou novamente.
Dessa vez com mais vontade.
Minha boca passou pelo seu pescoço e desceu pelo colo. Patrícia inclinou a cabeça e fechou os olhos.
— Assim...
Minhas mãos percorreram seu corpo.
Ela voltou a me beijar e sua mão desceu pelo meu peito até minha cintura.
Então começou a me provocar sobre a calça.
Parei o beijo.
— Patrícia...
— Hum?
Ela continuou.
— Filha da puta.
— Está reclamando?
— Nem fodendo.
Ela riu contra minha boca.
— Eu sabia.
O pouco de compostura que ainda existia foi embora.
Beijos.
Mãos.
Respiração pesada.
O vestido saindo do lugar.
Minha camisa aberta.
Até que ela olhou para o banco.
— Reclina isso.
— Você está mandando?
— Reclina essa merda.
Abaixei o encosto.
Patrícia começou a rir.
— Obediente.
— Não se acostuma.
— Cala a boca.
Ela me beijou novamente.
Pouco depois, Patrícia se afastou dos meus lábios.
Olhou para mim.
Depois começou a descer lentamente pelo banco reclinado.
Entendi imediatamente.
— Patrícia...
Ela levantou os olhos.
— Agora fica quieto.
E tomou a iniciativa.
Minha mão encontrou seus cabelos enquanto sua boca me fazia perder qualquer capacidade de continuar bancando o engraçadinho. Patrícia parecia gostar principalmente das minhas reações e de saber que, naquele momento, era ela quem comandava tudo.
Quando tornou a olhar para mim, havia um sorriso descaradamente safado em seu rosto.
— Ainda estou falando demais?
— Vem aqui.
Puxei-a de volta.
Ela veio rindo.
— Acabou minha vez?
— Acabou.
— Que pena.
— Agora é a minha.
Beijei sua boca, depois seu pescoço.
Fui descendo.
Patrícia reclinou o corpo no banco enquanto minha boca percorria seu colo. Quando cheguei aos seus seios, ela segurou meus cabelos e me manteve junto dela.
— Isso... não para.
Continuei.
Patrícia fechou os olhos e deixou escapar meu nome.
— Alessandro...
Parei apenas para olhar para ela.
— Por que parou?
— Gostei de ouvir.
— Filho da puta.
— Fala de novo.
Ela me puxou pelos cabelos.
— Vem aqui, seu safado.
Voltei a beijá-la.
O banco estava reclinado.
Os vidros já completamente embaçados.
As roupas desarrumadas.
E o apartamento dela, a poucos metros dali, tinha deixado de importar.
Ainda parei por um instante.
— Tem certeza?
Patrícia olhou diretamente para mim.
— Tenho.
Passou os braços pelo meu pescoço.
— E você?
— Desde o restaurante.
Ela sorriu.
— Então para de enrolar.
E foi exatamente o que fizemos.
Transamos ali mesmo.
Dentro do carro.
Sem planejamento, sem romantismo ensaiado e sem aquela mentira de que ainda estávamos apenas conversando. O espaço era apertado, tivemos que ajeitar os bancos mais de uma vez e em determinado momento Patrícia bateu o joelho no console e começou a rir.
— Caralho!
— Quer parar?
Ela imediatamente me puxou de volta.
— Nem fodendo.
E continuamos.
A chuva batia no teto enquanto os vidros embaçados nos escondiam da rua. Entre beijos, provocações e momentos em que precisávamos conter a voz, fomos até o fim daquela vontade que passáramos o caminho inteiro alimentando.
Quando acabou, ficamos alguns segundos apenas respirando.
Patrícia foi a primeira a falar.
— Puta merda...
Comecei a rir.
— O quê?
— Olha esse vidro.
O para-brisa estava completamente embaçado.
— Discreto.
— Muito.
Ela abriu o espelho.
— Caralho, olha meu cabelo!
— Está bonito.
Patrícia virou-se.
— Mentiroso.
— Está sexy.
— Isso é diferente.
Tentou ajeitá-lo com os dedos.
Depois puxou o vestido de volta para o lugar.
— Se alguém estiver acordado lá em casa, estou fodida.
— Tecnicamente...
Ela me encarou.
— Não termina essa frase.
Comecei a rir.
Ela também.
— O que vai falar se perguntarem por que demorou?
Patrícia pensou.
— Trânsito.
Olhei para a rua vazia.
— Muito trânsito.
— Chuva.
— Melhor.
— O motorista se perdeu.
— Aí você me ofendeu.
Ela aproximou o rosto.
— O motorista se perdeu mesmo.
— Onde?
Patrícia sorriu.
— Em mim.
— Isso foi péssimo.
Ela me deu um tapa.
— Vai se foder.
Puxei-a para outro beijo.
Dessa vez mais lento.
Quando nos afastamos, Patrícia permaneceu olhando para mim.
— Sabe o pior?
— O quê?
— Amanhã, quando encontrar você de novo, vou ter que fingir que sou uma mulher séria.
— Depois de hoje?
— Ninguém precisa saber.
— Nosso segredo?
Ela chegou perto do meu ouvido.
— Nosso segredo.
Abriu a porta.
— Boa noite, motorista.
— Boa noite, passageira safada.
Ela colocou uma perna para fora.
Parou.
Virou-se novamente.
— Alessandro?
— Oi.
— Na próxima vez...
— Tem próxima?
Ela balançou a cabeça.
— Você continua sendo lerdo pra caralho.
— Então fala.
Patrícia sorriu.
— Na próxima vez, a gente vai para um lugar com uma cama.
Fechou a porta.
Fiquei observando enquanto caminhava até o prédio.
Antes de entrar, ela virou.
Olhou para o carro.
Sorriu.
E desapareceu pela portaria.
Dei partida.
Eu tinha saído de casa para jantar com alguns amigos.
Patrícia só precisava chegar em casa.
Dois motoristas cancelaram sua corrida e eu resolvi oferecer uma carona.
No fim das contas, ela chegou ao destino.
Só demoramos um pouco mais do que o previsto.