Acordei quase meio-dia. Por alguns segundos, fiquei olhando pro teto sem entender direito onde estava. O quarto estava claro, o ar-condicionado continuava ligado, apesar da cortina estar aberta. Virei o rosto e vi Arthur dormindo do meu lado.
Foi só quando olhei pra ele que lembrei de tudo.
Fiquei alguns segundos quieto, sem saber muito bem o que pensar. Eu tinha transado com Arthur.
Não era uma coisa que eu tinha imaginado que fosse acontecer. Na verdade, eu nunca tinha sequer pensado nele dessa maneira. Arthur sempre tinha sido só o Arthur. Um colega da minha sala, alguém que eu conhecia a muito tempo, mas com quem nunca tive muita proximidade.
E agora eu tinha passado a noite com ele.
Além disso, tinha sido a minha primeira vez transando com alguém. Eu já tinha ficado com caras antes. Beijado, saído, essas coisas. Só nunca tinha chegado a transar com ninguém.
Então, além de ter sido a minha primeira vez, tinha sido com alguém que eu nunca tinha imaginado que poderia ficar.
Eu não sabia exatamente como deveria me sentir com isso, era um sentimento novo. Estava feliz, isso eu sabia. Tinha sido muito bom e eu não me arrependia de nada. Mas também estava meio confuso porque ainda parecia estranho pensar que tinha sido justamente o Arthur.
Ele começou a se mexer na cama e abriu os olhos.
— Bom dia.
Olhei pro relógio.
— Bom dia nada. Já é quase meio-dia.
Arthur olhou também.
— Caralho.
Comecei a rir.
— Você dorme muito.
— Você também.
— Eu tava cansado.
— Eu também.
Ele voltou a deitar por alguns segundos e fechou os olhos.
— Não vai levantar?
— Daqui a pouco.
— Arthur.
Ele abriu um dos olhos e sorriu.
— Tô com sono.
— Já é meio-dia.
— Então ainda dá tempo de dormir mais um pouco.
— Você é muito preguiçoso.
— E você tá com pressa por quê?
— Porque eu tô com fome.
Ele riu e finalmente levantou da cama.
— Então vamos comer.
Coloquei o resto da minha roupa que encontrei do lado da cama e fui com ele até a cozinha.
A casa ainda estava com a cara da festa. Tinha copo em cima de algumas mesas, garrafas espalhadas e algumas coisas que tinham sido deixadas na cozinha.
Arthur abriu a geladeira e ficou olhando lá dentro.
— Tem pão.
— Ótimo.
— Queijo.
— Oba.
— Suco.
— Perfeito!
— Você é fácil assim de agradar?
— Eu tô com fome!
Ele pegou o pão e o queijo, colocou tudo em cima da mesa e começou a preparar um sanduíche.
Sentei na frente dele.
Por alguns minutos, ficamos só comendo. Arthur parecia completamente tranquilo. Conversava comigo como se nada tivesse mudado entre a gente. Perguntava coisas sobre São Paulo, falava da festa e reclamava da quantidade de gente que tinha ido embora sem ajudar a arrumar.
Eu, por outro lado, ainda estava tentando entender o que tinha acontecido.
Fiquei alguns segundos mexendo no copo antes de falar.
— Sobre ontem...
Arthur levantou os olhos pra mim.
— O que tem?
— Você fica com caras também?
Ele ficou me olhando por um segundo e depois sorriu.
— Se você for um cara...
— Idiota! — disse rindo.
— Faz muito tempo?
— Acho que já faz uns dois anos, mais ou menos.
— Oi? Sério?
— Aham.
Ele deu uma mordida no sanduíche e continuou:
— Eu comecei a perceber a uns 3 ou 4 anos atrás. No começo eu achei que era só uma fase, aquela coisa de descobertas, mas depois ficou meio difícil continuar fingindo que não era.
— E seus amigos sabem?
— Os mais próximos, sim. Alguns descobriram porque eu contei, outros porque eu simplesmente fui ficando com caras e uma hora ficou meio óbvio.
Comecei a rir.
— Como assim ficou óbvio?
— Ah, sei lá. Você acha que dá pra esconder tudo dos seus amigos?
— Acho que não.
— Pois é.
Ele tomou um pouco do suco.
— Mas eu nunca falei pra mais gente que isso.
— Por quê?
Arthur apoiou o braço na mesa, deu uma mordida maior no pão e começou a falar de boca cheia:
— Acho que principalmente por causa dos meus pais. Eles são conhecidos demais aqui. Você sabe como é cidade pequena, qualquer coisa vira assunto.
— É verdade.
— E eles são meio conservadores. Não acho que seria o fim do mundo, mas também não queria descobrir na prática como eles iam reagir.
— Então você preferiu não falar.
— É. E também não vejo muito motivo pra sair contando pra todo mundo. Se eu tô ficando com alguém, meus amigos próximos sabem. O resto não precisa saber da minha vida.
— É, até que faz sentido.
— Às vezes eu até acho engraçado. Tem gente que provavelmente ainda acha que eu sou o cara mais hétero do mundo.
Comecei a rir.
— Eu achava.
— Eu sei.
— Como você sabe?
— Porque você nunca tinha falado comigo desse jeito antes.
— Que jeito?
— Você sabe.
— Não sei, não.
Arthur sorriu.
— Sabe sim.
Disse enquanto vinha pro meu lado da mesa.
— Mas eu realmente nunca tinha imaginado.
— Confesso que eu já tinha me imaginado ficando com você, só nunca tive a oportunidade...
— Meu Deus, Arthur, como assim?
Ele riu.
— Ah, digamos que é difícil resistir ao seu jeitinho meio nerd...
Disse isso enquanto ia para trás de mim e colocava seu rosto perto da minha orelha.
— Ainda mais quando te vi ontem todo arrumadinho entrando na minha casa...
Sussurrou no meu ouvido, o que provocou quase que instantaneamente uns arrepios pelo meu corpo e me fez virar pra ele.
— Ei, assim você me deixa arrepiado — disse rindo.
— Hahaha! E se eu fizer isso?
E logo em seguida guiou meu queixo para cima, em direção a sua boca.
Naquele beijo consegui sentir o gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, do pão, do queijo, da manteiga, do suco. Mas o que me arrepiou de verdade foi quando senti o gosto da noite passada, dos toques dele, da sua língua que enquanto dançava na minha boca me fazia lembrar de todos os cantos do meu corpo que ela passou ontem.
Foi um beijo diferente, mais calmo, carinhoso. O Arthur não deixou de fazer carinho com os dedos no meu rosto em nenhum momento.
Resolvi tomar um pouco a frente da situação e me virei pra ele, passando meus braços pelo seu corpo em um abraço e um beijo mais forte, mostrando toda minha vontade de reviver a noite passada.
Como eu estava sentado na banqueta da cozinha, estava com meu rosto na altura do seu ombro, o que me fez sentir que seu pau estava começando a ficar duro na minha barriga.
Nesse momento o Arthur enquanto se afastava foi deixando o beijo mais lento e compassado, e disse:
— Também quero muito, mas preciso arrumar essa casa urgentemente, e você precisa avisar a seus pais que já acordou — disse rindo.
Concordei meio rindo e voltamos a comer.
Peguei meu celular e primeiro abri o grupo que tinha com Marta e Fernanda.
Eu: Acordei kkkkk
Marta: Finalmente.
Fernanda: Bom dia, desaparecido.
Eu: Já tomei café também. Vou só ajudar o Arthur a arrumar as coisas e depois volto pra casa.
Marta: “Ajudar a arrumar as coisas” 👀
Fernanda: Kkkkkkkkk
Eu: Vocês são muito idiotas.
Marta: Eu não falei nada.
Fernanda: Nem eu.
Revirei os olhos e abri o outro grupo, que tinha só eu e meus pais.
Eu: Oi, oi! Já acordei e tomei café, vou só ajudar o Arthur a arrumar as coisas aqui e volto pra casa no final da tarde. Beijos!
Guardei o celular.
Arthur olhou pra mim enquanto pegava outro pedaço de pão.
— Tudo certo?
— Tudo. Agora eles sabem que eu tô vivo.
Ele riu.
— Ótimo.
Fiquei alguns segundos pensando.
— É estranho.
— O quê?
— Você.
— Eu?
— É. Eu te conheço faz anos e nunca tinha pensado em você desse jeito.
— Desse jeito como?
— Como alguém que eu poderia ficar.
Arthur sorriu.
— E agora?
Olhei pra ele.
— Agora eu acho meio óbvio.
Ele começou a rir.
— Ainda bem.
— Mas é sério. Eu nunca tinha olhado pra você assim.
— Eu também não tinha olhado pra você assim até pouco tempo atrás.
— Mentira.
— Juro.
— Então o que mudou?
Arthur deu de ombros.
— Não sei. Acho que ontem eu só comecei a reparar.
— Na festa?
— É.
— Quando?
— Quando você foi tirar a roupa pra entrar na piscina.
Comecei a rir.
— Ah, então foi meu corpo.
— Foi uma parte importante.
— Idiota.
— Tô mentindo?
— Não.
Ele riu.
Ficamos alguns segundos em silêncio, mas dessa vez não foi estranho. Eu ainda estava tentando entender como tudo aquilo tinha acontecido tão rápido.
Depois do café, começamos a arrumar a casa.
Já passava das três da tarde quando conseguimos deixar a maior parte da sala organizada. Arthur recolhia as garrafas enquanto eu juntava os copos e levava tudo pra cozinha. Depois fomos até a área da piscina pegar algumas coisas que tinham ficado espalhadas.
O sol estava forte e eu já estava pensando em ir embora.
— Acho que vou indo.
Arthur olhou pra mim.
— Já?
— Já são três e pouco.
— É verdade.
Ele terminou de guardar algumas coisas e veio até mim.
— Valeu por ajudar.
— Não fiz nada demais.
— Fez sim. Se dependesse dos meus amigos, iam deixar essa casa assim até segunda.
— Então eu salvei você.
— Exatamente.
Fiquei rindo.
Arthur me olhou por alguns segundos.
— Eu curti muito ontem.
Sorri.
— Eu também.
Ele chegou mais perto e me beijou.
Dessa vez não foi como na noite anterior, quando tudo ainda era novidade e a gente parecia estar tentando descobrir o que estava fazendo. O beijo foi mais tranquilo.
Ficamos ali por alguns minutos, entre beijos e abraços, antes de eu lembrar que realmente precisava ir embora.
— Agora eu tenho que ir.
— Tá.
— A gente se fala.
— Vê se não some e só aparece em São Paulo!
Dei outro beijo nele antes de sair.
Quando cheguei em casa, meus pais estavam na sala. Minha mãe olhou pra mim e sorriu, já querendo saber como tinha sido a festa. Eu contei por alto que tinha sido boa, que tinha muita gente, que a gente tinha ficado até tarde e entrado na piscina. Quando ela perguntou onde eu tinha dormido, respondi que tinha sido na casa do Arthur.
Ela ficou surpresa por alguns segundos e comentou, quase rindo, que nunca teria imaginado que Arthur não fosse hétero. Eu ri e concordei, porque eu também nunca tinha imaginado.
A conversa seguiu de um jeito bem natural. Meu pai achou graça da situação e minha mãe comentou como era engraçado morar em cidade pequena e achar que conhecia todo mundo. Eu lembrei do que Arthur tinha me contado naquela manhã e pedi que eles não comentassem com ninguém. Ele não queria que aquilo virasse assunto na cidade, principalmente por causa dos pais dele.
Os dois entenderam na hora. Minha mãe só disse que não tinha por que sair contando a vida dos outros, e meu pai concordou. Depois minha mãe ainda tentou descobrir como tinha sido a noite mais especificamente, mas eu mandei ela parar de fazer perguntas e subi pro quarto rindo.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem pra Arthur.
Eu: Oie, cheguei.
Ele respondeu pouco depois.
Arthur: Beleza.
Depois de alguns segundos veio outra.
Arthur: Gostei de você aqui.
Fiquei olhando pra mensagem e sorri.
Eu: Eu também gostei. 😝
Ele respondeu com um emoji sorrindo.
Já era noite quando peguei o celular de novo. Como sempre depois de uma festa, fui confirmar no grupo com Marta e Fernanda se a gente ia ter nosso encontro pós-festa de sempre, pra fofocar sobre tudo que tinha rolado.
Eu: Oiii
Marta: Oieee
Fernanda: Oii, Leo
Marta: Tá fazendo o quê?
Eu: Nada, tô no quarto.
Fernanda: Milagre, você quieto uma hora dessas.
Comecei a rir.
Eu: E aí, fofocas de ontem? Perdi alguma coisa depois que eu sumi?
Marta: Teve umas coisas, mas nada que você não possa esperar até amanhã kkkkk
Fernanda: Eu tenho algumas pra contar.
Eu: Aí vocês vão me deixar curioso de propósito.
Marta: Óbvio.
Eu: Mas e vocês? Curtiram a festa?
Fernanda: Eu sim. Só achei que ficou meio caótica no final.
Marta: Normal. O pessoal tava impossível.
Eu: Teve alguma fofoca boa?
Marta: Algumas.
Fernanda: Várias, na verdade.
Eu: Então amanhã vocês me contam tudo.
Marta: E você conta onde se meteu.
Eu: Fechado kkkkk.
Eu: Vêm aqui depois do almoço?
Fernanda: Pode ser.
Marta: blzz!
Eu: Então tá. Quero saber de tudo.
Eu: Boa noiteee
Marta: Boa noite ❤️
Fernanda: Boa noiteee
Guardei o celular sorrindo.
Fiquei alguns segundos olhando pro teto. Mas, em vez de pensar nas fofocas do dia seguinte, minha cabeça voltou direto pra noite anterior.
Lembrei do Arthur chegando perto de mim, do jeito como ele tinha me olhado e, principalmente, da sensação de ter o corpo dele tão perto do meu. A lembrança veio inteira de uma vez, e senti um arrepio percorrer meu corpo.
Mordi o canto da boca.
Eu estava com tesão de novo.
Não tinha nada de complicado naquilo. Eu só queria o Arthur. Queria beijá-lo outra vez, sentir aquelas mãos em mim e voltar praquela cama onde tudo tinha começado.
Fechei os olhos e deixei a memória continuar.
Quanto mais eu lembrava dos beijos, dos toques e da forma como ele tinha me provocado naquela manhã, mais quente eu me sentia e mais pra baixo minha mão ia, em direção ao meu pau. Meu corpo parecia lembrar de tudo sozinho, mesmo quando eu tentava pensar em outra coisa.
Quando agarrei meu pau por cima do short de dormir, a lembrança de nós dois no box do banheiro da casa dele veio de uma só vez. Das mãos dele tão firmes mas ao mesmo tempo tão cuidadosas. Uma no meu pescoço. A outra no meu pau. De repente me vi com as minhas mãos nesses mesmos lugares, batendo uma pensando no Arthur.
Não demorou muito para lembrança dele me penetrando meio sem querer vir a mente, e naquele mesmo momento que lembrei de quando ele gozou dentro de mim, comecei a gozar na minha barriga.
Virei de lado e enfiei o rosto no travesseiro, soltando uma risada baixa.
— Puta que pariu, Arthur...
Fiquei ali, inquieto, sentindo aquela vontade crescer enquanto imaginava quando seria a próxima vez.
E o pior era que eu ainda tinha quase um mês inteiro antes de ir embora.
Um mês parecia pouco tempo e tempo demais ao mesmo tempo.