Eu estava sentindo um turbilhão de emoções sentada ali naquele sofá. A história que Sofy estava contando realmente prendeu a atenção de todas na sala. Eu só ouvia, e sentia vários tipos de sentimentos se misturando no meu peito. Por mais que aquela história fosse surreal, eu acreditava em cada palavra que saía da boca de Sofy. Eu duvidava que ela poderia ter inventado aquilo tudo, pois dava para ver sua expressão mudando a cada parte que contava. Ou Sofy era uma atriz e autora digna do oscar, ou eu estava certa: sua história era real.
Percebi que Sofy tinha dificuldades em falar em alguns momentos, mas ela apenas bebia um pouco de água, respirava fundo e retomava o relato. Ninguém a interrompeu em momento algum, e ela continuou sua narrativa.
{...}
"Sofy:"
Depois daquele primeiro beijo ali no cômodo, vieram outros, e dessa vez eu aproveitei mais. Também vieram os primeiros toques de Laura no meu corpo; não eram muito abusados, mas o suficiente para me deixar doida por algo mais íntimo. Porém, ali não era o lugar nem o momento, então voltamos para a festa como se nada tivesse acontecido.
Quando voltei para casa, eu mal consegui dormir naquela noite e não parava de pensar em Laura nem um minuto sequer. Ela tomou conta dos meus pensamentos e do meu coração, e eu estava ansiosa para vê-la novamente.
Durante as férias de fim de ano, eu não pude sair de casa. Minha mãe não deixou, pois eu precisava me preparar para assumir a empresa no ano seguinte. Eu falava com Laura todo dia por telefone, sempre escondida da minha mãe, que não poderia nem sonhar que eu tinha beijado uma mulher. Laura se dizia louca por mim, fazia juras de amor e me provocava por ligação.
No início do ano, assumi a presidência. Eu já conhecia cada detalhe da empresa e todos os negócios que aconteciam ali. Porém, minha timidez me atrapalhava muito, principalmente nas reuniões e quando precisava falar diretamente com algum cliente ou funcionário. Foi aí que Laura se aproveitou; na época, achei que ela estava me ajudando. Hoje, vejo que só fui usada como um brinquedo nas mãos dela.
Assim que assumi a empresa, eu e Laura começamos a nos ver todos os dias no meu escritório. Como era um local bem reservado, aproveitamos para trocar beijos e algumas carícias mais ousadas. Até que um dia ficamos até mais tarde, fingindo estar resolvendo um problema de um cliente. Depois que todos se foram, aproveitamos nosso momento a sós. Foi minha primeira vez, e achei que foi a melhor coisa da minha vida. Hoje vejo que foi o maior erro.
A partir dali, nos encontrávamos sempre que podíamos. Laura passou a ser praticamente minha assistente pessoal e, claro, ela percebeu minhas dificuldades e aproveitou disso. Começou a me dar conselhos, pediu para apresentar alguns projetos em reuniões e falar com alguns clientes. Eu era o cérebro, e ela, a voz. Na época em que resolvi mudar o foco da empresa, ela praticamente explicou todos os detalhes para a diretoria e os clientes mais importantes.
Com o negócio expandindo, começamos a ter lucros bem acima da média. Minha mãe estava feliz e já conhecia Laura. Como Laura me ajudava muito e era muito elogiada pela diretoria, minha mãe passou a simpatizar com ela e, assim, Laura começou a ir à minha casa em algumas ocasiões. Ela se tornou amiga de Marcelo, meu motorista e o único que sabia do nosso envolvimento. O tempo passou, e depois de dois anos na presidência, minha mãe decidiu viajar pelo mundo, deixando a responsabilidade da empresa em minhas mãos.
A partir daí, eu e Laura nos unimos ainda mais. Quando fui procurar um lugar para morar, ela me levou para viver com ela em seu apartamento. Vivíamos uma lua de mel, e eu estava imensamente feliz por estar com ela. Minha mãe aprovou e ainda agradeceu a Laura por me receber. Para ela, éramos apenas funcionárias e amigas morando juntas; ela não fazia ideia de que vivíamos como um casal.
Depois de um ano, promovi Laura para a diretoria, e ela passou a ser a cara de todos os meus projetos. Eu fazia tudo, deixava mastigado para ela apresentar à diretoria ou a clientes em potencial. Eu vivia de casa para o trabalho e do trabalho para casa; qualquer coisa que tivesse que resolver fora da empresa, Laura ia me representar. Marcelo passou a ser mais motorista dela do que meu, já que eu só precisava dele para ir e voltar para o apartamento.
No terceiro ano à frente da empresa, decidimos abrir filiais em São Paulo, depois em Minas, e por último no Rio Grande do Sul. Fora duas que abrimos aqui mesmo no RJ. Laura viajava sempre para resolver questões relacionadas a isso; eu deixava tudo nas mãos dela, já que corria de reuniões e jantares com outras pessoas. Essas viagens eram normais, pelo menos uma vez por mês, já que Laura dizia que era bom verificar cada filial de tempos em tempos. "Às vezes os gráficos escondem problemas; é bom ver com os próprios olhos", ela dizia. Eu concordava, na verdade, concordava com tudo que ela dizia. Por exemplo, quando pediu que Marcelo a acompanhasse nessas viagens, já que ele era da nossa confiança e viajar sozinha era perigoso. Eu assinei embaixo, e Marcelo começou a viajar com ela.
Bom, para resumir, foram mais de dez anos assim, e eu confiava nela cegamente. Nos finais de semana, a executiva se transformava na melhor namorada do mundo; ou melhor, esposa. Era assim que nós nos tratávamos quando estávamos a sós. Tudo porque, logo no primeiro ano que morávamos juntas, ela me fez uma proposta que, na época, achei linda.
Laura comprou duas alianças; não eram iguais e serviam em nosso dedo indicador. A minha era de ouro puro, e a dela, de prata. Ambas eram decoradas com brilhantes e tinham alguns desenhos em relevo. Não pareciam alianças de compromisso comum, e como ninguém sabia, as pessoas as veriam como acessórios normais que muitas mulheres usam.
Laura me entregou a minha durante um jantar romântico que preparou. Disse que, mesmo sem poder nos assumir, queria que usássemos como prova do nosso compromisso; que, mesmo sem poder nos casar oficialmente, queria que eu fosse sua esposa para a vida toda. Nossa, eu chorei. Para mim, na época, foi o dia mais feliz da minha vida.
Passaram-se meses, anos, e tudo parecia perfeito na medida do possível. Eu tinha feito a empresa crescer de uma forma que ninguém esperava; mesmo Laura sendo o rosto, todos na diretoria sabiam que eu era o cérebro de tudo. Tinha um relacionamento perfeito; não havia brigas, e Laura era a esposa perfeita. Nunca desconfiei dela; ela nunca deu motivos, ou, se deu, eu, cega de amor, não vi. Mas por uma coisa boba, aquele castelo de areia desmoronou.
Laura e eu temos o mesmo tom de pele, mas a dela fica mais escura porque pega sol com frequência, enquanto eu pego sol muito pouco. Estou dizendo isso porque foi assim que acabei descobrindo tudo. Uma simples marca na pele; ou melhor, a falta dela. Eu amava aquele pequeno pedaço de ouro no meu dedo. Só à tirava para limpar ou em algum momento que ela atrapalhava, e pelo que imaginava, Laura também.
Até que um dia, depois do meu banho, saí e vi Laura passando seus cremes sentada em uma poltrona no nosso quarto. Ela sempre fazia isso e, como sempre, tirava a aliança para não entrar creme por baixo. Algo que eu também fazia, mas, naquele dia, notei algo que nunca tinha percebido nas outras tantas vezes que vi aquela cena. Laura não tinha marca de aliança no dedo; isso não fazia sentido. Eu tinha, e era para ela ter uma mais visível que a minha. Apesar de cega de amor, não era burra; foi só ligar os pontos.
Eu quase perguntei, mas minha garganta travou. Senti algumas lágrimas se formando nos meus olhos e, antes que ela falasse algo ou me visse chorando, me virei e voltei para o banheiro. Acho que ela nem me viu, ou, se viu, não disse nada. No banheiro, eu tentava arrumar uma explicação para a falta da marca de aliança no dedo dela, eu não queria acreditar no óbvio. Mas só havia uma explicação: ela não usava a aliança o tempo todo; provavelmente a usava bem pouco. Pensei em confrontá-la, mas, por medo de ouvir a verdade, não fiz. Fiquei ali no banheiro chorando por um bom tempo, e ela não sentiu minha falta. Quando consegui parar de chorar, lavei o rosto e voltei para o quarto. Laura já tinha deitado e dormido. Fiquei olhando-a, agora já com a aliança colocada em seu dedo. Fiquei ali de pé, pensando no que fazer, e tomei uma decisão.
Eu iria descobrir a verdade e ter provas antes de confrontá-la. Eu nem dormi, passei a noite toda relembrando momentos que poderiam provar que ela estava me enganando, mas nada veio à minha mente. Foi então que lembrei das viagens e do tempo que ela passava fora da empresa. Nos últimos anos, ela ficava mais fora do que dentro da empresa. Foi aí que outra coisa fez meu coração doer: Marcelo sempre estava com ela. Um dos motivos de eu nunca desconfiar dela foi justamente porque meu melhor amigo sempre estava com ela.
Passei a noite pensando em um jeito de tirar essa história a limpo e fiz isso no dia seguinte. Quando Laura acordou, disse que não estava me sentindo bem e que não iria para a empresa. Comentei que senti um pouco de febre à noite e iria ao médico antes do almoço. Ela disse que eu realmente estava com uma cara horrível e se ofereceu para ir comigo. Eu disse que não precisava, que chamaria um táxi e que ela poderia ir com Marcelo, pois talvez precisasse ir a algum lugar. Pedi que avisasse os outros diretores, e ela aceitou fazer o que pedi. Se arrumou e foi trabalhar; eu fui atrás de um investigador particular.
Eu não sabia em quem confiar, então fiz algumas buscas e acabei indo parar em um escritório no centro da cidade. O local era bem localizado e fui muito bem atendida pelo responsável. Quando expliquei o que queria, ele disse que ele e sua equipe poderiam fazer o trabalho, mas ficaria caro. Perguntei o preço, e quando ele disse e explicou a forma de pagamento, contratei seus serviços. Paguei a metade do valor e pagaria a outra metade depois de trinta dias.
Foram trinta dias em que tive que fingir que estava tudo bem. Usei minha doença falsa para evitar muito contato com Laura. Mesmo assim, vivíamos na mesma casa e dormíamos juntas, mas como estava me recuperando de uma inflamação nos rins, estava sempre indisposta para ter relações. Laura parecia acreditar na minha mentira e nem insistiu muito para termos relações. Comprei alguns anti-inflamatórios e analgésicos, mas só para fingir que estava tomando remédio. Fiquei quinze dias sem ir trabalhar, e Laura cuidou de tudo para mim.
O investigador me passava um relatório todo dia durante à noite. Eu recebia fotos e áudios dele me explicando tudo. Quanto mais eu via, mais intrigada ficava. Eu não conhecia a maioria das pessoas das fotos: todas aqui apareciam em várias, menos você, Camila; você não apareceu em nenhuma. Mas durante esses dias, descobri outra coisa.
Como parei de confiar em Laura, comecei a fazer minha própria investigação. A primeira coisa que fiz foi algo que jamais tinha feito: olhar as conversas dela no celular. Na primeira chance que tive, fiz isso, mas não achei nada. Seu celular estava limpo. Um dia, ela foi tomar banho e fui vasculhar sua bolsa em busca de algo; foi aí que achei o outro celular dela. Laura provavelmente parou de tomar cuidado com certas coisas, já que eu nunca questionei ou perguntei nada sobre mulheres ou demonstrei ciúmes; ela estava confortável e achou que tinha tudo sob controle, ou não daria um mole desse.
O problema era que o celular tinha senha de seis dígitos e eu não sabia qual era. Tentei desbloquear algumas vezes, mas não deu certo. Para não travar o aparelho, tentei quatro senhas e parei. Devolvi o celular para sua bolsa e a partir daí, toda vez que tinha a chance, que era quando ela ia para o banho, tentava desbloquear o celular. Falei com o detetive e ele disse que conseguia burlar a senha, mas precisaria de tempo e não conseguiria colocar a mesma senha de volta, então desisti. Resolvi eu mesma continuar tentando e na quinta vez que tentei, consegui; a senha era a data de aniversário dela, porém de trás para frente.
Quando consegui, fui direto ao WhatsApp e não tinha muitas conversas, nem tive tempo de ler as que tinha; seria muito arriscado. Travei o celular e devolvi para a bolsa. À noite, quando ela dormiu, peguei o celular e li todas as conversas. Não demorou, pelo jeito ela apagava as conversas todo dia. Não tinha nada que pudesse provar algo, mas a lista de contatos era praticamente só de mulheres, e a maioria, muito bonitas.
Falei com o detetive novamente, e ele me ensinou a clonar o WhatsApp dela para um computador. Foi o que fiz na primeira chance que tive, clonei o aplicativo no meu notebook. Agora eu podia monitorar suas conversas, e ela não tinha ideia de que eu estava fazendo isso. Foi aí que descobri a maioria das coisas, principalmente os encontros dela. No final do mês, o detetive, já com as novas informações que passei, me entregou um dossiê da vida secreta de Laura.
Nessas descobertas todas, o que mais me doeu foi saber que Marcelo estava envolvido, e o pior: ele estava envolvido com Laura também. Eu já tinha quase certeza disso, mas ver as conversas deles foi uma tortura que eu jamais vou esquecer.
Agora eu tinha todas as provas na mão; era hora de jogar tudo na cara de Laura e de Marcelo. Meu mundo de fantasia havia desmoronado; dez anos da minha vida jogados no lixo como se não fossem nada. Eu me sentia a pior pessoa do mundo, mas mesmo assim decidi que não iria desmoronar. Eu iria até o fim daquela história.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
