O galpão pareceu menor quando o pai de Cristiano entrou. Talvez fosse impressão minha, o lugar continuava enorme, com o teto alto demais, as vigas cobertas de poeira, o cheiro de óleo velho misturado ao de borracha aquecida e o rádio de alguém tocando uma música sertaneja tão baixa que parecia vir de outro mundo. Ainda assim, quando ele atravessou a porta, senti como se todas aquelas toneladas de ferro tivessem se aproximado alguns centímetros umas das outras.
A primeira reação de Cristiano foi ficar de costas. Ele segurava uma chave inglesa e fingiu estar ocupado com uma peça que já devia ter sido desmontada três vezes naquela manhã. Eu vi primeiro a mão dele parar, só a mão. Depois o ombro endureceu, fiquei com medo dele usar a ferramenta como uma arma (ataque ou defesa?).
— Cristiano.
A voz do homem não era alta, isso era pior. Agradeci quando Cristiano abaixou devagar a ferramenta.
— Pai.
Nenhum dos dois se aproximou. Sandra apareceu na porta do escritório, percebeu o silêncio e entendeu imediatamente que aquilo não era assunto de trabalho. Ela conhecia por alto o passado de Cristiano, não sabia todos os detalhes, mas sabia o suficiente para reconhecer a tensão no modo como ele segurava a ferramenta, no jeito como evitava olhar diretamente para o pai e na distância cuidadosa que se mantinha entre os dois. Ela ficou perto da entrada do escritório, fingindo organizar alguns papéis enquanto acompanhava a situação pelo reflexo do vidro. Ela mantinha os olhos baixos, mas continuava atenta.
Luquinhas, que conhecia a história de Cristiano melhor do que ela, também percebeu o risco antes que qualquer palavra mais dura fosse dita. Ele largou o que estava fazendo e se posicionou discretamente ao lado de uma das colunas, perto o bastante para intervir caso a conversa saísse do controle, mas sem transformar sua presença em uma provocação. Ele cruzou os braços e observou o pai de Cristiano com uma expressão fechada.
Eu deveria desaparecer dali, mas fiquei estático, no mesmo lugar, sem saber se era melhor ficar e dar a impressão de que estava me intrometendo em uma conversa particular, ou se saía, lhes dando espaço e privacidade.
A segunda opção me pareceu pior, como se eu estivesse desertando e abandonando Cristiano. Ele me olhou por uma fração de segundo. Foi um olhar rápido, quase irritado, como se dissesse que eu não deveria estar ali, depois voltou para o homem.
O pai dele era mais velho do que eu supunha. Não velho, exatamente, apenas gasto, feio. Usava uma camisa social amarrotada, sapatos cobertos de poeira, uma barriga que avançava um pouco sobre o cinto. Segurava um capacete de moto debaixo do braço e olhava ao redor como se ainda esperasse encontrar ali o menino que costumava obedecer antes mesmo de ouvir a ordem.
— Você não atende o telefone.
— Meu telefone quebrou – Cristiano respondeu, o que não era verdade.
— Faz dois meses sem notícias suas.
Cristiano passou a língua pelo canto da boca.
— Então você contou o tempo?
— Sua mãe contou.
Cristiano riu pelo nariz.
— Claro.
A palavra ficou suspensa. Eu conhecia aquele "claro", era o mesmo que ele usava quando estava prestes a transformar uma pergunta simples numa briga. Mas, dessa vez, havia outra coisa por baixo, um cuidado antigo. O tipo de cautela que não nasce de respeito, e sim de sobrevivência.
O pai olhou para mim, sem dizer nada, como se estivesse me enxotando. Cristiano, automaticamente, se colocou um pouco mais à frente, entre nós dois.
— Ele trabalha aqui.
O pai olhou para mim por um instante, depois voltou os olhos para Cristiano.
— Eu estou vendo.
— Então pronto.
Não me mexi de onde estava. O pai pareceu se incomodar com a minha presença, como se esperasse que eu entendesse sozinho que aquela conversa não era para mim, mas não arredei um pé. Cristiano percebeu o meu posicionamento e finalmente aceitou.
O pai apertou o capacete contra o corpo, Cristiano ergueu as sobrancelhas e o silêncio que se seguiu foi pesado. O pai olhou novamente para mim, dessa vez com uma irritação mal disfarçada. Mas não disse nada, apenas desviou o rosto e voltou a encarar o filho.
— Você vai continuar falando comigo assim?
— Assim como?
— Como se eu fosse um estranho.
Por um instante, Cristiano pareceu não encontrar resposta. Foi quase imperceptível, um músculo se contraiu na mandíbula. A mão que segurava a chave inglesa se fechou em torno dela, embora não houvesse nada para apertar.
— Você apareceu no meu trabalho, sem avisar.
— Porque você sumiu.
— Eu saí de casa.
— Eu sei disso.
— Então não sumi.
O pai deu um passo, Cristiano recuou meio passo. Foi tão pequeno que talvez ninguém mais percebesse. Eu percebi, o homem também. Por um segundo, seus olhos desceram até os pés de Cristiano, como se notasse que o filho ainda recuava, mesmo que ligeiramente, diante dele. A expressão mudou, mas não para arrependimento, para irritação. Como se o medo de Cristiano fosse uma acusação que ele não soubesse responder.
— Sua mãe está preocupada.
— Ela sempre está.
— Seu irmão perguntou por você ontem.
A expressão de Cristiano mudou, pouco, mas mudou.
— Ele está bem?
— Está.
— E a escola?
— Tudo bem.
Cristiano assentiu.
— E você? – Cristiano hesitou, como se a pergunta lhe custasse mais do que gostaria de admitir.
O homem pareceu surpreso.
— Eu?
— Você está bem?
A pergunta saiu sem carinho, mas também não havia ironia. Era apenas uma preocupação seca, quase automática, como se Cristiano ainda não tivesse aprendido a deixar de se importar completamente. O pai demorou a responder.
— Não sei.
Cristiano ergueu os olhos.
— Eu também não.
Foi a primeira coisa verdadeiramente honesta que eles disseram. O pai parecia não saber o que fazer com aquilo, talvez porque estivesse acostumado a perguntas que exigiam obediência, não respostas. Talvez porque, durante anos, tenha confundido o silêncio do filho com respeito. Cristiano finalmente colocou a chave inglesa sobre a bancada.
— O que você quer?
— Que você volte para casa.
Cristiano riu, não era uma risada divertida.
— Eu sabia.
— Você não pode viver sozinho daquele jeito.
— Estou vivendo.
— Isso não é viver.
Cristiano passou a mão pelos cabelos loiros, os empurrando para trás.
— Engraçado. Quando eu estava lá, também não era.
O pai ficou vermelho.
— Você acha que eu queria aquilo?
Cristiano não respondeu imediatamente. A pergunta parecia absurda demais para caber entre os dois.
— Você não queria que eu tivesse medo de você? – Cristiano questionou, irritado.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Mas foi isso que aconteceu.
O homem apertou o maxilar.
— Eu trabalhava o dia inteiro. Chegava em casa e você só fazia merda.
— Eu só tinha treze anos.
— Você me enfrentava.
— Eu só tava existindo.
O pai deu outro passo, dessa vez, Cristiano não recuou, nem um centímetro. Mas eu vi o esforço, vi o modo como ele prendeu os braços junto ao corpo para não levantar as mãos, como se ainda esperasse o golpe antes que ele viesse. O corpo dele se lembrou de coisas que a boca nunca contou.
— Você acha que foi fácil? — perguntou o pai.
— Não sei.
— Você acha que eu não carregava nada?
— Não sei.
— Então para de falar como se soubesse de tudo.
Cristiano olhou para ele.
— Você nunca conversou, nunca me contou nada, pai. Esse é justamente o problema.
A voz dele quebrou um pouco na última palavra. Não chegou a ser choro, Cristiano não parecia conhecer esse caminho. Durante anos, aprendeu a engolir o choro antes que ele pudesse ser usado contra ele, aprendeu a esconder a dor, a pedir desculpas rápido, a reconhecer o humor do pai pelo som da chave girando na fechadura.
Ele engoliu seco e olhou para mim, mas, dessa vez, não era mais um pedido para eu ir embora. Era quase o contrário, como se a minha presença fosse a única coisa mantendo aquela conversa presa ao chão. O pai percebeu o olhar.
— Você vai voltar comigo?
Cristiano demorou.
— Não.
— Nem para conversar?
— Não.
— Nem para ver sua mãe?
Cristiano fechou os olhos por um instante.
— Não hoje.
— Ela não tem culpa do que aconteceu.
Cristiano abriu os olhos.
— É claro que não tem.
— Então por que tá punindo ela?
— Eu não estou punindo ninguém.
— Está se escondendo.
— Estou me protegendo.
A frase saiu baixa, sem raiva, por isso pareceu mais forte. O pai balançou a cabeça.
— Você está diferente.
Cristiano soltou uma risada baixa.
— Eu sei.
O homem olhou para ele por alguns segundos. Então perguntou:
— Você tem alguém?
Cristiano ficou imóvel, meu estômago se contraiu. O rádio continuava tocando qualquer coisa sobre saudade e estrada, completamente alheio à possibilidade de destruir três vidas em três minutos. Cristiano olhou diretamente para o pai.
— Tenho muita coisa.
O pai estreitou os olhos.
— Não estou perguntando isso.
Silêncio.
— Cristiano...
— Não.
A resposta foi imediata.
— Você nem sabe o que eu ia perguntar.
— Sei.
O pai respirou fundo.
— Você acha que eu não percebo?
Cristiano passou a mão pelo rosto.
— Percebe o quê?
O pai abriu a boca, mas não respondeu imediatamente. Talvez nem soubesse o que queria dizer, talvez tivesse vindo até ali apenas porque alguém lhe disse que Cristiano não atendia mais o telefone, e isso foi suficiente para o fazer atravessar a cidade.
— Que você está diferente — disse por fim.
Cristiano soltou uma risada curta.
— Você não me conhece.
O homem franziu a testa.
— Eu sou seu pai.
— Isso não significa que você me conheça.
O pai não pareceu ofendido, pareceu apenas sem saber como continuar.
— Eu não sei o que está acontecendo com você.
— Nunca soube.
A frase saiu baixa, quase sem força. O pai olhou para ele, esperando talvez uma explicação que Cristiano não ofereceu. Não havia nada no rosto dele que permitia alguém entender o que ele pensava, nem o pai, nem eu.
Ninguém se mexeu. Meu coração batia tão forte que tive a impressão absurda de que o homem conseguia ouvir. Cristiano olhou para mim, não havia vergonha naquele olhar, havia receio. E, talvez pela primeira vez, eu entendi a diferença. O pai acompanhou o olhar dele, mas não disse nada. Cristiano endireitou o corpo.
— Ele não tem nada a ver com isso.
A frase me atingiu de uma maneira estranha, não porque fosse romântica, mas justamente porque não era. Cristiano estava tentando me proteger, do jeito torto que sabia. O pai deu um sorriso sem humor.
— Você sempre foi bom em proteger os outros.
Cristiano empalideceu.
— Não começa.
— Eu só estou dizendo.
— Não. Você está fazendo o que sempre faz.
— O quê?
— Pegando algo importante para mim e transformando em ameaça.
O homem ficou em silêncio, Cristiano respirava com dificuldade, mas não baixou os olhos.
— Eu não vim aqui para brigar — disse o pai.
— Então por que veio?
O homem colocou o capacete sobre a bancada, do lado da chave inglesa.
— Porque você é meu filho.
Cristiano baixou os olhos, aquela frase parecia ter encontrado nele um lugar que nenhuma acusação conseguiu alcançar. Não um lugar de perdão, um lugar mais antigo, mais doloroso. O lugar da criança que esperou durante anos que o pai dissesse aquilo sem que viesse acompanhado de uma ordem, de um tapa ou de uma cobrança. O pai continuou:
— E eu não sei fazer isso direito.
Cristiano respirou fundo.
— Você sabe fazer muita coisa direito.
— Não isso.
— Não. Isso você fez muito mal.
O homem fechou a mão ao lado do corpo, por um instante, achei que ele fosse avançar. Cristiano também achou, o corpo dele se preparou antes que a mente conseguisse impedir: ombros tensos, queixo erguido, pés firmes no chão. Não era coragem, era o reflexo de quem aprendeu que correr nem sempre era possível. Mas o pai não bateu. Ele olhou para a própria mão, depois para o filho.
— Eu bati em você.
Cristiano não se mexeu.
— Bateu.
— Mais de uma vez.
— Muitas.
— Eu dizia coisas...
— Dizia.
— Eu não sabia parar.
Cristiano riu sem humor.
— Você sabia. Só não queria.
A frase atravessou o galpão. O pai pareceu envelhecer ainda mais diante de nós.
— Talvez.
Cristiano piscou, talvez fosse a primeira vez que o homem não tentava negar. Só que isso não consertava nada. Não apagava os quartos trancados, os empurrões, os hematomas escondidos sob mangas compridas, as noites em que Cristiano dormia vestido porque não sabia se precisaria sair de casa depressa. Não apagava as palavras repetidas até parecerem verdade: inútil, ingrato, fraco, problema. Mas fez o silêncio mudar de forma.
— Eu não vim pedir que você esqueça — disse o pai.
Cristiano olhou para ele.
— Então o que você veio pedir?
O homem demorou.
— Que você não me odeie.
Cristiano pareceu quase ofendido.
— Você quer que eu faça o quê com o que você fez?
— Eu não sei.
— Eu também não.
— Mas estou tentando.
Cristiano olhou para ele durante alguns segundos.
— Está?
— Estou.
— Então começa não mandando em mim.
O pai assentiu.
— E não aparecendo sem avisar. Minha vida não é mais assunto seu.
— Não é?
Cristiano apertou a mandíbula.
— Você sabe o que eu quis dizer.
— Sei que você está mudado.
— Porque eu fui embora.
O homem respirou fundo.
— Você saiu sem dizer para onde... Sua mãe achou que você estava morto.
Cristiano fechou os olhos.
— Eu não queria que ela sofresse.
— Podia ter falado com ela.
— Eu tentei falar. Não adiantou.
— Eu também tentei.
Cristiano soltou uma risada curta.
— Tarde demais.
O pai ficou em silêncio.
— Eu não sei como falar com você — disse depois.
— Talvez esse seja o problema.
Cristiano ergueu os olhos. O homem pegou o capacete.
— Sua mãe quer que você ligue.
— Eu ligo quando puder.
— Ela não sabe se pode esperar.
Cristiano apertou os lábios.
O pai se dirigiu à porta, mas parou antes de sair.
— Ela quer que você vá em casa domingo.
Cristiano pensou.
— Talvez.
— Ela vai querer uma resposta.
— Quando eu tiver uma, eu dou.
O homem não insistiu.
— Cristiano.
— O quê?
Cristiano permaneceu imóvel.
—Se um dia você quiser falar, eu escuto.
— Não promete o que não sabe se consegue cumprir.
O pai baixou os olhos e foi embora. Cristiano permaneceu parado, olhando para a porta do galpão. Eu não disse nada. Depois de alguns segundos, ele falou:
— Não era para ele ter vindo.
— Tá tudo bem – respondi.
— Não, você não sabe.
Cristiano respirou fundo.
— Essa conversa não tem nada ver com você.
Ele olhou para mim, cansado.
— Tem a ver com o que aconteceu antes de eu ir embora de casa.
Cristiano desviou o rosto. Dessa vez, não pareceu aliviado, só exausto.
— Mas obrigado por ficar do meu lado.
— Não precisa agradecer.
Ficamos em silêncio. O barulho da rua entrou por alguns segundos, depois desapareceu. Cristiano continuou parado, eu esperei. Ele não olhou para mim.
— Não fala nada com ninguém.
— Não vou falar.
Eu tentei sorrir, mas ele não. Os olhos azuis estavam vermelhos.
— Puta merda... você viu tudo isso. Que vergonha.
Cristiano passou a mão pelo braço esquerdo, apertando o próprio cotovelo.
— Eu fiquei com medo. Eu odeio que ele ainda consiga fazer isso. Eu já saí de casa.
— Sair não apaga o que aconteceu.
Cristiano fechou os olhos.
— Às vezes eu acho que deveria ter sido mais forte.
— Você foi forte o bastante.
— Eu devia ter revidado antes.
— Você saiu quando conseguiu.
Ele respirou fundo, mas o ar pareceu não chegar até o fim.
— Ele pediu para eu não odiar ele.
— Você não precisa decidir sobre isso agora, é um processo longo, mas, se me permite dizer, o ódio também não ajuda com muita coisa.
— Eu não sei se odeio ele – Cristiano afirmou, com uma bruta maturidade.
— Você não precisa definir isso agora, é muita coisa para processar.
— Eu sinto falta da minha mãe. Do meu irmão. Até da casa.
— Sentir falta não significa que você precisa voltar para o lugar onde se machucou.
Cristiano olhou para mim.
— E se ele mudar?
— Bem, a mudança dele não pode depender de você se colocar em perigo.
Ele ficou em silêncio. Fiquei ao lado dele, sem o tocar, embora quisesse muito o abraçar com todas as minhas forças. Me contive. Depois de alguns segundos, encostei o ombro no dele, só isso. Cristiano não se afastou.
— Mateus?
— Hum?
— Se eu voltar lá um dia...
Esperei.
— Você ainda vai estar aqui?
A pergunta não parecia ser sobre o galpão e nós dois sabíamos disso. Eu olhei para as motocicletas estacionadas do outro lado da porta, para o céu branco de calor sobre a cidade, para aquela tarde que ainda não decidiu se iria chover.
— A gente descobre — disse — juntos.
Cristiano baixou a cabeça.
— E se eu não voltar?
— A gente descobre também.
Ele soltou o ar devagar.
— Você não vai tentar me convencer?
— De quê?
— Sei lá, fazer um discurso que família é importante?
— Família não é uma desculpa para alguém machucar você.
Cristiano fechou os olhos, uma lágrima finalmente escapou antes que ele conseguisse impedir. Ele a limpou depressa, quase com raiva. Eu não comentei mais nada, não tentei o abraçar, embora quisesse muito. Não transformei a dor dele em uma cena bonita, apenas permaneci ali.
Depois de alguns segundos, Cristiano encostou a cabeça no meu ombro. O gesto foi pequeno, mas, vindo dele, pareceu uma porta se abrindo. E, pela primeira vez desde que o conheci, ele não pareceu interessado em saber como escapar, pareceu apenas tentando descobrir se existia algum lugar onde pudesse ficar sem precisar se defender.
__________
Antes de qualquer coisa, peço desculpas pela demora em continuar o conto. Eu sei que passou bastante tempo desde a última publicação e achei que devia uma explicação a quem continua acompanhando Mateus e Cristiano.
A verdade é que estou lidando, ao mesmo tempo, com três situações que têm consumido bastante da minha cabeça. Tenho um projeto pessoal que vem exigindo muito planejamento e atenção; no trabalho, estou envolvido na implementação de um projeto que tem me levado a fazer muitas horas extras e trabalhar frequentemente além do expediente; e, para completar, existe o próprio desafio dessa história.
Por causa disso, tenho ficado mentalmente esgotado e, em vários momentos, simplesmente sem ânimo para escrever.
Confesso também que empaquei. Mas não exatamente por falta de ideias ou por bloqueio criativo. Acho que, desta vez, o problema foi a própria plataforma.
Como já falei algumas vezes por aqui, tenho a sensação de que certas histórias ganham vida própria. A gente começa achando que sabe para onde elas vão e, de repente, os personagens tomam decisões, os conflitos aparecem e a trama começa a se aprofundar por caminhos que nem estavam planejados.
Foi o que aconteceu com Mateus e Cristiano.
Em algum momento, eu cismei de colocar no passado do Cristiano um contexto de abuso e violência doméstica. E, no último conto publicado, resolvi o colocar cara a cara com o pai. A partir daí, a história ficou muito mais profunda e muito mais difícil de escrever.
O texto desse confronto estava pronto há algum tempo. Mesmo assim, eu editei, reescrevi, cortei, acrescentei e reeditei tantas vezes que perdi a conta. Foi, sem dúvida, o conto mais difícil de desenvolver até agora.
E existe uma coisa curiosa nisso tudo: felizmente, não tenho histórico de abuso ou violência física. Mas acredito que, em maior ou menor grau, todos nós carregamos traumas, ecos, silêncios e ressonâncias das nossas próprias experiências familiares. Talvez alguma coisa da minha própria vivência tenha transbordado, de maneira inconsciente, para esses diálogos entre Cristiano e o pai. Talvez seja justamente por isso que eu tenha sentido tanta dificuldade em encontrar a forma certa de os escrever.
Cheguei, inclusive, a pensar em simplesmente pular essa parte. Fingir que ela nunca existiu e levar a história de volta para um terreno mais leve. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que aquele conflito fazia parte do personagem e que, gostando ou não, ele precisava ser enfrentado.
O problema é que a narrativa acabou ficando muito mais densa do que eu imaginava. E também comecei a me perguntar se esse era realmente o lugar certo para contar uma história assim. Afinal, esta é uma casa de contos eróticos, e a história de Mateus e Cristiano acabou, pelo menos por enquanto, descambando para um drama familiar bastante intenso.
Somando tudo isso ao cansaço que já vinha acumulando, decidi simplesmente dar um tempo. Não foi abandono, foi uma pausa para conseguir voltar a escrever sem transformar uma história que gosto tanto em mais uma obrigação na minha cabeça.
Então, obrigado a quem continuou por aqui. E um agradecimento especial ao leitor Jota, que me incentivou a voltar a postar e acabou me dando aquele empurrão que estava faltando.
Agora, aos poucos, estou voltando. E espero que vocês tenham paciência comigo e com essa história, porque, aparentemente, Mateus e Cristiano ainda não terminaram de contar tudo o que têm para contar.
Um grande abraço!
