CAPÍTULO 5
GUSTAVO
Depois de mais de uma semana olhando para as mesmas quatro paredes, voltar para a faculdade deveria ser apenas uma coisa normal. Eu já estava melhor, a febre tinha ido embora fazia alguns dias e, apesar de ainda sentir o corpo um pouco mais cansado do que antes, finalmente podia retomar minha rotina. Mesmo assim, naquela manhã, acordei com uma ansiedade que não fazia muito sentido. Talvez fosse a saudade da faculdade, talvez a vontade de rever Carla e Lucas. Ou talvez eu soubesse exatamente o motivo e estivesse tentando encontrar qualquer outra explicação.
Durante aquela semana, eu não tinha ficado completamente afastado de tudo. Carla continuava me mandando mensagens, Lucas praticamente fazia um plantão no meu WhatsApp e Léo... bom, Léo tinha se tornado uma presença inesperadamente constante.
No começo, nossas conversas eram simples. Ele perguntava se eu estava melhor, se a febre tinha baixado, se eu estava descansando e quando pretendia voltar. Depois, sem que eu percebesse exatamente quando aconteceu, os assuntos começaram a mudar. Falávamos sobre coisas completamente aleatórias: música, faculdade, professores, lugares que queríamos conhecer e, principalmente, futebol.
Descobri que Léo era flamenguista.
Ele descobriu que eu era vascaíno.
A partir daí, nossa conversa deixou de ser apenas uma conversa e virou praticamente uma guerra particular. Ele dizia que eu tinha escolhido o time errado na vida. Eu respondia que pelo menos não precisava viver do passado para justificar minhas glórias. Ele mandava algum vídeo de torcida do Flamengo e eu respondia com alguma provocação sobre o Vasco. Em determinado momento, chegou a dizer que eu precisava urgentemente de ajuda profissional para corrigir meu gosto esportivo.
Eu ri sozinho olhando para a tela.
Era estranho. Muito estranho.
Eu conhecia Léo havia pouquíssimo tempo, mas conversar com ele parecia fácil. Não existia aquela necessidade de pensar demais antes de responder. Eu simplesmente pegava o celular e falava. Às vezes, passávamos horas conversando sem perceber. Em outras, ficávamos alguns minutos sem responder e depois retomávamos o assunto como se a conversa nunca tivesse parado.
E eu comecei a esperar pelas mensagens dele.
Esse talvez fosse o detalhe que eu mais tentava ignorar.
Naquela manhã, enquanto me arrumava, peguei o celular antes mesmo de sair do quarto. Havia uma mensagem dele enviada alguns minutos antes.
— Sobreviveu à dengue ou ainda está planejando faltar mais uma semana?
Sorri.
— Bom dia pra você também.
A resposta veio quase imediatamente.
— Bom dia. Então está vivo?
— Infelizmente pra você, sim.
— Ótimo. Já estava começando a sentir falta de te carregar.
Revirei os olhos, embora ele não pudesse ver.
— Você só me segurou duas vezes.
— Duas vezes no mesmo dia. Estatisticamente, é preocupante.
— Eu não vou cair de novo.
— Espero que não. Minha coluna agradece.
Eu ri sozinho outra vez.
Foi nesse momento que percebi que estava sorrindo para o celular feito um idiota. Apaguei o sorriso do rosto e coloquei o aparelho no bolso.
Não fazia sentido.
Era só uma conversa.
Só isso.
Quando cheguei à faculdade, a sensação foi estranha. O lugar parecia exatamente igual, mas eu tinha a impressão de que alguma coisa tinha mudado. Talvez eu mesmo tivesse mudado um pouco durante aquela semana.
Lucas estava me esperando próximo à entrada. Assim que me viu, veio na minha direção com aquela expressão preocupada que eu já conhecia muito bem.
— Você tem certeza de que está bem?
— Estou.
— Sem febre?
— Sem febre.
— Fraqueza?
— Um pouco.
Ele colocou a mão no meu ombro e me analisou por alguns segundos.
— Então você não devia ter vindo.
— Bom dia para você também.
Ele riu.
— Eu estou falando sério. Se você passar mal, me avisa.
— Eu aviso.
— Promete?
— Prometo.
Lucas sempre fazia isso. Cuidava de mim como se fosse responsabilidade dele garantir que eu não quebrasse nenhuma parte do meu corpo. Durante a semana em que fiquei doente, esteve praticamente todos os dias comigo. Levava comida, perguntava se eu tinha tomado os remédios e verificava se eu estava melhor. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de que ele estava mais preocupado do que eu.
— Alguém precisa cuidar de você — ele disse, enquanto começávamos a caminhar pelo corredor.
Sorri.
— Obrigado.
Seguimos juntos e, por alguns minutos, tudo pareceu voltar ao normal. Até eu ouvir a voz de Carla atrás de mim.
— Finalmente!
Ela praticamente apareceu do nada e me abraçou com força, mas logo se afastou ao lembrar que eu ainda estava me recuperando.
— Você está melhor mesmo.
— Estou.
— Ótimo. Porque eu já estava cansada de ter que ouvir o Lucas falando de você.
Lucas lançou um olhar para ela.
— Eu não falei tanto assim.
Carla riu.
— Falou bastante.
Eu olhei para os dois, divertido.
— Vocês estavam falando de mim?
— Claro — ela respondeu. — Você é nosso entretenimento.
— Obrigado pela consideração.
Foi então que o olhar dela passou por cima do meu ombro. Eu nem precisei perguntar o que ela estava olhando. Segui seu olhar e encontrei Léo.
Ele estava um pouco mais afastado, conversando com dois colegas do time. Usava uma camiseta escura e tinha aquela expressão tranquila que parecia nunca abandonar o rosto. Por alguns segundos, fiquei parado.
Era ridículo.
Eu tinha falado com ele praticamente todos os dias naquela semana. Tinha recebido mensagens dele pela manhã, à tarde e, em algumas noites, até depois da meia-noite. Sabia que ele gostava de futebol, sabia que era flamenguista, conhecia algumas das coisas que gostava de fazer e até já conhecia algumas das piadas ruins que ele insistia em contar.
Mas vê-lo pessoalmente era diferente.
Muito diferente.
Léo levantou os olhos e me encontrou olhando para ele.
O sorriso apareceu imediatamente.
Ele se despediu dos colegas e veio na nossa direção.
— Olha só quem resolveu voltar.
— Eu disse que voltaria.
— Eu estava começando a achar que você estava gostando de ficar longe daqui.
— De você, nunca.
A frase escapou antes que eu pudesse pensar.
Carla arregalou os olhos.
Lucas ficou em silêncio.
E eu senti meu rosto esquentar.
Léo, por outro lado, apenas sorriu.
— Então você sentiu minha falta?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Foi exatamente isso que você disse.
— Você entendeu errado.
— Claro.
Ele parecia se divertir com meu constrangimento. Carla olhou para mim com uma expressão que dizia claramente que tinha percebido alguma coisa. Lucas, ao contrário, permaneceu quieto.
Léo então estendeu a mão.
— Minha jaqueta.
Olhei para ele, fingindo não entender.
— Que jaqueta?
— Aquela que você roubou.
— Eu não roubei.
— Está com você há mais de uma semana.
— Porque você deixou comigo.
— Então você admite que está com ela?
— Talvez.
Ele riu.
— Eu sabia.
Abri a mochila e tirei a jaqueta dobrada. Eu tinha levado justamente para devolver naquele dia.
— Pronto.
Ele pegou a peça e olhou para mim.
— Você lavou?
— Claro.
— Então posso considerar que ela voltou melhor do que foi.
— Não exagera.
— Estou falando sério.
Por algum motivo, aquilo me deixou sem jeito. Talvez porque eu ainda lembrasse perfeitamente do dia em que ele colocou aquela jaqueta sobre mim. Do jeito como me segurou quando eu quase caí. Da preocupação na voz dele.
Léo colocou a jaqueta sobre o braço e voltou a me olhar.
— E aí, está se sentindo bem mesmo?
— Estou.
— Sem tontura?
— Sem tontura.
— Febre?
— Não.
Ele assentiu, satisfeito.
— Que bom. Não estou a fim de te carregar de novo.
— Mentira.
— Talvez.
Carla soltou uma risada.
— Vocês dois são inacreditáveis.
— Ele que começou — falei.
— Eu só perguntei se ele estava bem — Léo respondeu.
— E continua perguntando.
Ele me olhou por alguns segundos.
— Porque eu quero saber.
Foi uma frase simples, mas alguma coisa nela me atingiu de um jeito que eu não soube explicar.
Talvez porque, durante aquela semana, eu tivesse percebido que ele realmente perguntava. Não era apenas uma mensagem por educação. Ele queria saber como eu estava. Queria saber se eu tinha comido, se tinha dormido, se a febre tinha voltado. Às vezes, eu dizia que estava melhor e, algumas horas depois, ele perguntava de novo.
E eu gostava disso.
Gostava mais do que deveria.
— Eu estou bem — respondi, dessa vez mais baixo.
Ele sorriu.
— Que bom.
Lucas pigarreou ao nosso lado.
— Vocês vão ficar conversando aqui o dia inteiro?
Olhei para ele.
— Não.
Carla imediatamente respondeu:
— Pelo jeito, sim.
Lucas sorriu, mas não parecia estar achando graça.
Eu não entendi.
Talvez estivesse apenas preocupado comigo.
Afinal, era Lucas.
Ele sempre se preocupava comigo.
A aula começou alguns minutos depois. Eu me sentei ao lado de Carla, enquanto Léo ficou em outra parte da sala. Mesmo assim, não demorou muito para o celular vibrar.
Olhei para a tela.
— Está prestando atenção?
Levantei os olhos e encontrei Léo do outro lado da sala, fingindo prestar atenção no professor.
Respondi:
— Estou.
A resposta chegou quase imediatamente.
— Mentiroso.
— Olha quem fala.
— Você está olhando para o celular.
— Você também.
— Eu tenho uma desculpa.
— Qual?
— Estou falando com você.
Não consegui evitar o sorriso.
— Então estamos os dois errados.
— Pelo menos erramos juntos.
Bloqueei o celular e tentei prestar atenção na aula.
Não consegui.
E, pela primeira vez, comecei a perceber que talvez aquela semana de conversas tivesse mudado alguma coisa entre nós.
Ainda não sabia o quê.
Só sabia que, quando entrei naquela faculdade naquela manhã, a primeira pessoa que procurei não tinha sido Carla.
Nem Lucas.
Tinha sido Léo.
E isso deveria ter me preocupado muito mais do que preocupou.
A aula terminou pouco antes do intervalo, e eu percebi que estava muito mais cansado do que gostaria de admitir. Ainda não estava completamente recuperado, mas pelo menos já conseguia acompanhar a rotina sem sentir que meu corpo estava pedindo para voltar para a cama. Carla saiu com alguns colegas e Lucas foi resolver alguma coisa na secretaria, então acabei ficando sozinho por alguns minutos.
Léo apareceu pouco depois, encostando na parede ao meu lado.
— Então, sobre aquela mensagem...
Olhei para ele.
— Que mensagem?
— A que você ignorou.
— Eu não ignorei.
— Ignorou sim.
— Eu estava prestando atenção na aula.
Ele soltou uma risada.
— Claro. E eu sou vascaíno.
— Ainda bem que você sabe que seria impossível.
Ele balançou a cabeça, sorrindo.
— Você é insuportável.
— Engraçado. Você passou a semana inteira falando comigo.
— Talvez eu goste de sofrer.
Sorri, e por alguns segundos ficamos ali conversando sobre absolutamente nada. Era curioso como isso acontecia com Léo. Não precisávamos de um assunto importante. Uma coisa levava à outra e, quando percebíamos, já estávamos discutindo futebol, faculdade ou alguma besteira qualquer. Eu estava começando a gostar daquela facilidade.
Foi no meio de uma dessas conversas que o celular dele tocou.
Léo olhou para a tela e seu rosto mudou imediatamente.
Não foi uma mudança exagerada. Foi pequena, quase imperceptível. Mas eu percebi. O sorriso desapareceu e, por um instante, ele pareceu não saber exatamente o que fazer.
— Preciso atender.
Ele se afastou alguns passos e levou o celular ao ouvido.
— Alô?
Fiquei onde estava, sem prestar muita atenção na conversa. Só que, conforme os segundos passavam, comecei a perceber que alguma coisa estava errada. A expressão dele ficou cada vez mais tensa. Ele passou a mão pelos cabelos e começou a andar de um lado para o outro.
— Como assim ela caiu? ... Não, eu estou indo. Estou indo agora. Só me diz onde ela está.
Meu estômago apertou.
Ele encerrou a ligação e ficou alguns segundos parado, olhando para o celular.
— Léo?
Ele levantou os olhos.
— Eu preciso ir.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu tenho que chegar em um lugar rápido.
Ele já estava pegando a mochila quando perguntei:
— Mas onde?
Léo hesitou.
— Eu preciso resolver uma coisa.
— Você está bem?
— Eu estou. Só preciso ir.
Ele começou a caminhar pelo corredor e eu fui atrás.
— Léo, espera.
Ele parou, visivelmente impaciente, mas não comigo. Era como se estivesse tentando controlar a própria ansiedade.
— O que aconteceu?
Ele respirou fundo.
— Minha irmã se machucou na escola.
Fiquei em silêncio por um instante.
— Sua irmã?
Ele assentiu.
— Eu preciso buscar ela. Eu que cuido dela.
Aquela frase me pegou de surpresa. Eu sabia tão pouco sobre a vida de Léo fora da faculdade que sequer imaginava que ele tivesse uma irmã.
— Ela está muito machucada?
— Eu não sei. Me ligaram dizendo que ela caiu. Só isso. Eu preciso chegar lá.
Ele voltou a andar.
— Você vai de ônibus?
— Vou pegar um Uber.
Olhei para a entrada da faculdade e depois para ele.
— Não precisa.
— O quê?
— Meu motorista está ali.
Apontei para o carro parado próximo ao portão.
— Ele pode levar você.
Léo ficou parado.
— Não.
— Por quê?
— Porque não precisa.
— Léo, você acabou de receber uma ligação dizendo que sua irmã se machucou. Para de perder tempo discutindo comigo.
Ele me encarou.
— Gustavo...
— Vamos.
Eu já estava caminhando em direção ao carro quando ouvi seus passos atrás de mim.
Léo parecia dividido. Eu conseguia perceber. Talvez não quisesse aceitar minha ajuda. Talvez não quisesse que eu me envolvesse. Mas, naquele momento, parecia estar mais preocupado com a irmã do que com qualquer outra coisa.
Quando chegamos ao carro, abri a porta.
— Entra.
Ele ficou alguns segundos parado antes de finalmente entrar.
Sentei ao lado dele.
— Para onde?
Léo informou o endereço ao motorista e encostou a cabeça no banco.
Pela primeira vez desde que eu o conhecia, não havia aquele meio sorriso no rosto. Ele parecia completamente diferente. Mais jovem, talvez. Mais vulnerável.
— Ela é pequena? — perguntei.
Ele olhou para mim.
— Tem seis anos.
— Seis?
Ele assentiu.
— Ela é tudo que eu tenho.
Não soube o que responder.
A frase ficou entre nós enquanto o carro começava a andar.
Olhei para Léo e, naquele momento, percebi que havia uma parte inteira da vida dele que eu desconhecia.
Uma parte que ele nunca tinha mencionado.
E, pela primeira vez, tive a sensação de que talvez eu estivesse prestes a conhecer algo que Léo não queria me mostrar.
Não sabia ainda o quê.
Só sabia que, enquanto o carro seguia pelas ruas do Rio, eu estava indo ao encontro de uma menina que, sem que nenhum de nós soubesse, mudaria completamente a história das nossas vidas.
---xxx---
Esse capítulo foi curto mas já adianto que o próximo capítulo está gigante e com muitos acontecimentos! Se preparem hahaha