Tudo que Sofy falava agora fazia mais sentido para mim. Eu entendia as mudanças de humor da Laura, que as meninas me contaram, mas ainda faltavam algumas peças do quebra-cabeça. Por exemplo, o que fez Laura levar os italianos da festa? Eu já imaginava o motivo, mas provavelmente Sofy iria esclarecer isso. Se não acontecesse, eu iria perguntar depois. Na verdade, eu tinha muitas perguntas para fazer, mas só faria isso depois que ela terminasse de contar tudo. Eu provavelmente não demoraria.
Prestei atenção em tudo que ela disse, mas quando chegou naquela parte, comecei a prestar ainda mais atenção, já que era provavelmente onde ela contaria sobre nosso encontro e como planejou aquilo tudo. Minha maior curiosidade era: por que eu? Entre todas as mulheres envolvidas nessa história, por que ela escolheu a mim para se encontrar?
Minhas dúvidas foram esclarecidas rapidamente:
“**Sofy:**”
Um dos meus maiores tormentos era imaginar o que acontecia dentro daquelas festas, e isso ficava remoendo na minha mente o tempo todo. Além da dor da traição dupla, eu ainda tinha essa curiosidade mórbida. Queria saber o que Laura fazia lá dentro. Eu imaginava muitas coisas, e a que achava mais provável era que rolava todo tipo de putaria. Me desculpem por falar assim, mas eu não sabia a verdade e jurava que algumas ali eram prostitutas. Pensei muitas coisas erradas sobre vocês e, desde já, peço desculpas pelo que vou dizer agora, Camila. Infelizmente, imaginei que você era algo que, só depois, descobri que não era.
Depois de um tempo com esses pensamentos infernizando minha cabeça, resolvi que precisava descobrir a verdade. Pensei em várias possibilidades, até que um dia, olhando a lista de contatos da Laura, tive a ideia de entrar em contato com uma de vocês. Já que colocar alguém dentro da festa ou perguntar diretamente não era viável, decidi marcar um encontro como uma cliente. Porém, desisti, pois, pelas conversas que vi, vocês só faziam esse tipo de trabalho com a Laura.
Foi então que vi a conversa da Laura e do Marcelo sobre a confusão. Não falaram muito, mas Laura estava muito irritada por ter dado tudo errado com os italianos e por quase ter sido agredida por você, Camila. Assim, encontrei meu alvo. Se alguém poderia me contar tudo, era você. Para você ter quase agredido na Laura, era porque ela fez algo errado, e com certeza você não iria mais trabalhar com ela. Imaginei que você prestaria seus serviços de outra forma e, ainda por cima, estava com raiva de Laura. Era a vítima perfeita para meu plano.
Porém, havia um pequeno problema: como eu iria entrar em contato com você do nada? Como arrumaria coragem para fazer isso?
Passei dias pensando, até que tive a ideia de me passar pela Laura. Pensar em como atraí-la para algum lugar onde pudesse te abordar não foi difícil; o problema era você aceitar se encontrar com a Laura e eu ter coragem para fazer isso. Foi complicado criar coragem para entrar em contato com você, Camila. Peguei o notebook e abri a aba de mensagens várias vezes. Eu escrevia o texto da mensagem, mas não consegui enviar. Isso durou alguns dias, até que finalmente criei coragem e enviei. Bom, o resto vocês sabem; o que vocês não sabem é o que passei naquele encontro.
Lembro-me que assim que cheguei, já pedi uma dose de uísque; eu precisava de álcool para criar coragem para falar com você, Camila. Meu plano era abordar naturalmente, como quem não quer nada, e contratar seus serviços. Depois, tentaria arrancar algo de você. Se não desse certo, eu te ofereceria dinheiro para saber o que acontecia nas festas. Eu diria a verdade; tinha certeza de que, por dinheiro e por estar com raiva da Laura, você me contaria tudo.
Porém, meu plano foi por água abaixo quando você reagiu daquela forma ao perguntar se estava esperando um cliente. Ficou claro que eu havia cometido um erro; qual prostituta não entenderia na hora o que eu estava dizendo? Sua reação me quebrou, mas ainda bem que consegui arrumar uma desculpa rápida. Estava morrendo de medo de você brigar comigo. Pelo que a Laura falou sobre a confusão, você parecia ser meio brava. No entanto, você reagiu bem, pareceu acreditar na minha desculpa e ainda me tratou muito bem. Mesmo deixando claro que você não era o que eu pensava, você me pareceu ser alguém sociável. Eu até pensei em tentar continuar conversando com você, mas faltou coragem.
Meus planos foram por água abaixo, então não tinha muito o que fazer. Voltei para o meu canto e pedi mais uma dose. Eu deveria ter voltado para o meu quarto, mas não fui. Desde que você entrou, achei você muito mais bonita do que na foto; na verdade, te achei linda. Fiquei ali te olhando, mesmo que de longe. Não sei por que, mas não conseguia parar de olhar para você. Ainda bem que isso aconteceu, porque se eu tivesse ido embora, teria perdido a chance de viver o que vivemos depois que você resolveu falar comigo.
Conversar com você, ouvir sua história, ver como você cuidou de mim, mudou completamente a visão que eu tinha de você. Mesmo tendo bebido como bebi, lembro de como você foi gentil comigo e de como cuidou de mim sem ter nenhuma obrigação, sem nem me conhecer direito.
Quando você dormiu, fiquei te olhando por muito tempo antes de dormir. Quando acordei, você ainda dormia e seu sono parecia pesado. Sem o efeito do álcool, a coragem de continuar ali ao seu lado sumiu, e entrei em pânico ao lembrar que tinha tentado te beijar. Levantei o mais rápido que pude e liguei para a recepção pedindo outro quarto; eles me arrumaram. Antes de sair, escrevi algumas palavras verdadeiras naquele bilhete. Mesmo que você não as entendesse direito, eu quis deixá-las ali para você. Saí imaginando que nunca mais iria te ver, mas com certeza teria ótimas lembranças de você.
Só voltei para meu quarto à noite. Dormi boa parte do dia e, na parte que não dormi, fiquei pensando em você. Algo que não saía da minha cabeça era que você tinha cuidado de mim, sem nem saber quem eu era. Isso me fez abrir alguns sorrisos durante aquele dia. Pensei muito na sua história e percebi o quanto você era diferente de mim. Você era corajosa, destemida e tinha um coração enorme. Em alguns momentos, desejei ser você, mas eu não era e precisava voltar para minha vida triste.
Tentei fazer isso, mas não parava de pensar em você, na sua história, no quase beijo, no jeito que você cuidou de mim. Pensava em você quase o tempo todo no início, mas depois percebi que pensava mais em você do que nas outras coisas e que a dor da traição da Laura não me machucava mais como antes. Porém a dor da saudade que sentia daqueles momentos com você começou a crescer a cada dia. Não foi difícil aceitar que eu tinha me apaixonado por você, Camila. Porém isso me deu muito medo; na verdade, fiquei apavorada. Tentei tirar você da minha mente, mas não consegui, e o pior: a cada dia, você ocupava mais espaço no meu coração.
No meio disso tudo, Laura tentou reatar várias vezes. Pediu perdão, disse que tinha abandonado as festas, que me amava e queria uma chance. Que ela tinha abandonado as festas eu imaginei, já que tinha excluído sua conta do WhatsApp. Porém, eu sabia que ela abandonou porque praticamente foi expulsa, não por minha causa. Vi as mensagens, os áudios, inclusive os da Raquel. Eles também foram uns dos motivos de eu escolher você como alvo de uma aproximação minha, Camila.
Eu também sabia que ela estava se saindo muito mal na diretoria sem minha ajuda. Fechou poucos negócios, não apresentou nada de novo e ainda perdeu um grande negócio com os italianos. Acho que ela tentou de tudo para fechar o contrato com eles, mas parece que sua tática não deu certo e o tiro saiu pela culatra. Ela não me queria de volta; queria minha ajuda para se manter na empresa, mas isso nunca mais ela terá.
Eu parei de brigar com meu coração; era uma luta que já tinha perdido há muito tempo. Em uma noite sozinha no hotel, resolvi arriscar. Decidi ser um pouco mais corajosa, como você, Camila. Decidi que iria tentar, não me esconderia atrás do meu medo. Porém, precisava saber se ao menos teria alguma chance com você. Por isso, resolvi te ligar e tentar te ver novamente, para saber se teria a chance de te conquistar de alguma forma. Mesmo com medo, te liguei e nos encontramos novamente.
Eu já te admirava muito quando nos reencontramos, mas isso só aumentou com as novas revelações que você fez. Também comecei a ter uma visão totalmente diferente de todas vocês. Eu já sabia que o que pensava antes era um erro, mas ouvir da sua boca sobre as outras aqui me fez perceber que, além de julgar mal, eu tinha uma vida medíocre. Todas vocês são corajosas e decididas, têm uma vida feliz e se divertem. Vocês se apoiam, confiam umas nas outras e são amigas de verdade. Eu nunca tive isso, mas queria ter, queria fazer parte disso.
Além disso, aqueles dias com você foram os melhores da minha vida e, quando saí daquele hotel, estava decidida a fazer de tudo para ficar com você. Queria muito fazer parte da sua vida e da vida de vocês; não viver o que vocês vivem, mas participar, ser incluída. Ter o que vocês têm, mesmo que não seja algo perfeito, vocês estão vivendo, algo que eu nunca fiz direito.
A primeira coisa que fiz foi procurar um apartamento para morar, algo que eu devia ter feito há muito tempo. Porém, antes não fiz isso por ter alguma esperança idiota de voltar com Laura. Parece burrice, mas quando a gente ama alguém, acredita até no impossível. Eu estava esperando um milagre que fizesse tudo que a Laura fez desaparecer como mágica. É triste reconhecer que pensei assim, mas é a verdade.
Agora eu tinha outro objetivo na vida e precisava agir para alcançá-lo. Acabei indo para um apartamento em um prédio alugado pela própria empresa, comprei móveis novos, roupas novas, tudo novo, para começar uma vida nova. Depois de tudo pronto, era só te contar toda a verdade e rezar para você me perdoar. Porém, a falta de coragem tomou conta de mim novamente; o medo de te perder me travou e não tive coragem de te procurar.
Era para eu ter feito isso há alguns dias, mas eu fui covarde e não fiz. Foi quando você me falou da festa, que iria ajudar a Nicole, e eu juro que entendi, mesmo não gostando. Porém, me bateu uma insegurança enorme: você estaria cercada de mulheres lindas, inteligentes e que não tinham uma vida complicada como a minha. O medo de perder você para outra pessoa antes de pelo menos tentar foi maior que o medo de te perder por causa dos meus segredos.
Eu precisava fazer algo e, quando você me contou da reunião, juntei coragem de não sei onde e vim aqui. Não só para confessar tudo a você, mas para me desculpar com você e suas amigas, que eu julguei mal no início. Espero que você me perdoe, mesmo que não seja agora, que leve algum tempo. Posso esperar, mas, por favor, não me exclua da sua vida.
Também queria pedir perdão a todas vocês, de verdade, e talvez seja pedir muito, mas queria ter pelo menos a chance de fazer parte da vida de vocês, se vocês permitirem, claro.
Bom, acho que é isso que tenho a dizer.
{...}
Sofy respirou fundo assim que terminou. Ela parecia ter tirado um peso enorme dos ombros. Eu ainda precisava processar tudo que ela falou; também tinha um monte de perguntas, e provavelmente todas ali tinham. Mas deixaria isso para depois. Primeiro, fiz o que meu coração mandou: puxei Sofy para um abraço. Assim que ela passou os braços ao redor do meu corpo, começou a chorar e pedir perdão. Eu disse várias vezes que estava tudo bem, que ela iria ficar bem. Porém, o choro não passava, então deixei ela chorar à vontade e apenas fiz carinho nela. Quando levantei a cabeça, vi Nicole limpando as lágrimas do rosto e Sandra chorando abraçada a Raquel, que também tinha lágrimas nos olhos.
Sofy com certeza emocionou todas ali, e eu já tinha certeza de que ela tinha ganhado o perdão de todas, inclusive o meu. Nada estava resolvido; ainda havia muita coisa para ser conversada e respondida, mas eu resolveria isso ao lado dela. Eu amava aquela mulher e não iria deixá-la escapar. Sabia que, apesar dos segredos e mentiras, ela também me amava.
Sofy foi diminuindo o choro; ela estava emocionalmente instável e eu não iria deixar que isso piorasse. Falei para Sandra que iria levar Sofy para casa, que sabia que todas ali tinham perguntas, mas que no momento era melhor encerrar aquela conversa. Sandra concordou, e Nicole e Raquel também. Chamei Sofy para irmos embora. Ela fez um sinal positivo e nós nos levantamos. Me despedi das meninas e Sofy foi fazer o mesmo, mas antes de começar, Nicole se aproximou e deu um abraço nela. Sofy não esperava e se assustou, mas logo retribuiu o abraço.
Raquel e Sandra fizeram o mesmo, e pela primeira vez naquela noite, vi um pequeno sorriso aparecer no rosto de Sofy. Saímos dali acompanhadas de Raquel e Sandra, que também resolveram ir para casa. Nos despedimos no estacionamento, e elas foram muito gentis com Sofy, que ainda estava encolhida nos meus braços.
Pela primeira vez, estávamos saindo da casa de uma amiga juntas para ir para casa, mas algo me dizia que aquela era a primeira de muitas vezes que aconteceria no futuro. Porque eu não iria soltar a mão dela, não iria excluí-la ou escondê-la. Eu faria o possível para ensiná-la a viver e ser feliz.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
