Capítulo 2
Endireitei as costas sem perceber.
— Bruna Oliveira — ele disse, com uma voz baixa e precisa. — Segunda semana no sistema, não é?
Eu só consegui assentir, ainda parada perto da porta.
Meu nome e o tempo que eu estava no rodízio deviam aparecer para ele. Fiquei imaginando o que mais ele conseguia ler.
Ele fechou o livro devagar, colocou-o sobre a mesa e se levantou com alguma dificuldade. Não era alto nem imponente fisicamente, mas acompanhei cada movimento dele sem saber onde deixar as mãos.
— Pode deixar a mochila ali. O quarto de hóspedes fica no corredor à esquerda. Tem banho quente. Use se quiser. A água demora um pouco para esquentar, mas esquenta.
Banho quente.
Senti o peito apertar só de ouvir as palavras.
Nos banheiros da instalação, a água era sempre fria. Na Casa 47, também. Eu sabia que antigamente as pessoas tomavam banhos quentes todos os dias, mas aquilo parecia tão distante quanto os oceanos limpos das histórias.
Eu nunca tinha sentido aquilo na pele.
— Obrigada — respondi.
Ele fez um pequeno movimento com a cabeça e voltou a se sentar. Antes que eu pegasse a mochila, já estava com o livro aberto outra vez.
Caminhei devagar pela sala, os olhos saltando de prateleira em prateleira. Tantos livros… Alguns tinham títulos compridos, com palavras que eu não entendia. Outros estavam escritos em línguas que eu nem reconhecia. Havia folhas cobertas de anotações sobre a mesa e uma xícara ao lado da luminária.
O ar cheirava a papel velho e a algo diferente, talvez chá.
Pela primeira vez desde que entrei no rodízio, alguém tinha me recebido com instruções que eu conseguia entender. Eu sabia onde deixar minhas coisas. Sabia onde dormir.
Mesmo assim, ainda sentia o peso daquele olhar. Fiquei imaginando quanto mais ele sabia sobre mim.
Será que o implante também tinha contado que eu passara a semana inteira conversando com um gato?
O quarto que ele indicou era pequeno, mas limpo. A cama estava arrumada, com lençóis claros e um travesseiro que não parecia afundado no meio. Havia um armário estreito e uma porta que dava para o banheiro.
Deixei a mochila junto da cama e fui olhar.
O chuveiro tinha dois registros. Aproximei o rosto para examinar as marcas: uma azul, outra vermelha.
Abri o primeiro, e a água caiu com um barulho que me fez olhar para a porta. Esperei por alguma reclamação. A casa continuou em silêncio.
Girei o registro vermelho devagar.
Por alguns segundos, nada mudou. Mantive os dedos debaixo do jato, esperando.
Então a água começou a esquentar.
Recolhi a mão por reflexo e depois a estendi de novo. Deixei a água correr sobre os dedos, a palma, o pulso.
Era só água quente.
Fiquei ali por um longo tempo, com o coração batendo mais rápido do que deveria.
* * *
Entrei debaixo do chuveiro e fechei os olhos. A água quente escorreu pelas costas, soltando uma tensão que eu nem sabia que carregava. Demorei para sair. Mesmo depois de me secar, ainda sentia o calor na pele.
À noite, preparei arroz, cenouras e uma salada com os tomates da geladeira. Nunca tinha cozinhado com tantos ingredientes frescos ao mesmo tempo. Provei um pedaço de tomate enquanto cortava e precisei me conter para não comer outro.
O homem trouxe uma garrafa de vinho para a mesa.
— Já experimentou?
Neguei com a cabeça. Ele serviu um pouco no meu copo.
O primeiro gole me fez franzir o rosto. Ele riu, e eu também. Com a comida, o gosto ficou menos estranho.
Bebemos mais enquanto conversávamos. Meu rosto esquentou, minhas respostas ficaram mais compridas. Ele começou a repetir partes de uma história e derramou um pouco de vinho ao se servir.
Olhei para a geladeira, depois para a luz sobre a mesa.
— Se a Grande Queima destruiu os sistemas eletrônicos, como ainda temos tudo isso? E os implantes?
— Algumas instalações foram preservadas. Ainda fabricamos e mantemos equipamentos.
— Mas temos chips no cérebro e falta tanta coisa nas casas.
— Saber fabricar é uma coisa. Decidir quem recebe é outra.
Ele bebeu antes de continuar:
— A rede dos implantes, por exemplo, nunca deixou de funcionar.
— Nem durante a Queima?
O copo parou perto da boca dele.
— Os sistemas protegidos continuaram — respondeu, pousando-o na mesa.
Fiquei olhando para seu rosto. Nenhuma identificação aparecia. Com ele, eu precisava perguntar até as coisas mais simples.
— Existem registros daquela época?
— Existem.
— Eu poderia ver?
— Você tem acesso ao material de ensino.
— Mas existem outros?
Ele hesitou.
— Há muita coisa nos arquivos. A rede seleciona o que fica disponível para cada pessoa.
— A inteligência artificial?
— Sim.
Puxou a jarra e colocou água nos nossos copos.
— Coma mais um pouco, Bruna. Bebemos depressa demais.
Voltei ao prato. Ele perguntou como eu tinha preparado as cenouras, e a conversa ficou nisso.
Na manhã seguinte, acordei com uma claridade fina atravessando a cortina. Por alguns segundos, fiquei olhando para o teto, sem reconhecer o quarto. Então movi os pés debaixo do lençol e me lembrei de onde estava.
Continuei deitada, escutando. Na Casa 47, o som da televisão costumava me acordar. Ali, ouvi apenas um ruído distante de louça.
Sentei na beirada da cama e procurei a mochila com os olhos. Estava onde eu a tinha deixado, encostada no armário. Tirei uma muda de roupa, me vesti e estiquei o lençol, alisando com a mão as marcas do meu corpo.
Antes de sair, lavei o rosto no banheiro. Girei só o registro azul. A água fria me despertou, e fiquei um instante olhando para o outro registro antes de secar as mãos.
Abri a porta do quarto devagar.
O cheiro de pão chegou até mim no corredor. Caminhei na direção dele, passando pela sala vazia. O livro da noite anterior estava fechado sobre a mesa.
Na cozinha, o homem cortava uma fatia de pão. Havia outra sobre um prato, do lado vazio da mesa.
Parei junto à entrada. Eu ainda não sabia a que horas ele costumava comer, nem se esperava que o café estivesse pronto quando se levantasse.
— Bom dia — falei. — Eu podia ter preparado.
Ele ergueu os olhos.
— O chá ainda está quente.
Apontou com a faca para a cadeira diante do outro prato. Só então me aproximei e sentei.
Comi devagar, recolhendo com a ponta do dedo as migalhas que caíam no prato. Queria voltar às perguntas da noite anterior, mas ele terminou o café e levou o livro para a sala.
Passei a manhã cuidando da cozinha e das roupas. À tarde, ele me deixou tirar um livro da prateleira mais baixa. Escolhi um com desenhos de plantas e fiquei tentando reconhecer as folhas que tinha visto nos canteiros da rua.
Quando escureceu, marquei a página com um pedaço de papel. Ainda faltava quase o livro inteiro.
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No outro dia, eu guardava a louça do almoço quando o ponto luminoso apareceu no canto da minha visão.
Sequei as mãos e abri a mensagem. Havia um curso a poucos metros daquela casa e ele começaria naquela tarde. Li a descrição até encontrar o valor, depois consultei meu saldo.
Cento e vinte créditos.
— Algum aviso de transferência?
Virei o rosto. O homem estava perto da mesa, segurando a xícara.
— Não. Um curso.
— Sobre o quê?
— Cultivo em espaços pequenos. Pensei que podia aprender a cuidar de uma horta.
Ele olhou para mim por um instante.
— É pago?
Assenti.
— Quanto você tem?
Hesitei antes de responder. Ainda parecia estranho dizer aquele número em voz alta, como se alguém pudesse tomá-lo de mim só de saber.
— Cento e vinte.
Ele pousou a xícara.
— Guarde o que puder, Bruna.
Fechei a mensagem sem selecionar o curso.
— Para a próxima casa?
— Para as próximas. Tome cuidado com os números altos.
Olhei para ele, esperando que continuasse.
— Quanto mais alto o número, menos recursos costumam chegar à residência — disse. — E maior a chance de você ser maltratada.
Pensei no sofá da Casa 47, na comida deixada sobre a mesa e no Cinza dormindo junto dos meus pés.
— Eu vim da quarenta e sete.
— Há números muito acima desse.
Passei o pano num prato que já estava seco.
— Mas eles precisam dar comida para a gente, não precisam?
Ele puxou uma cadeira e se sentou.
— Precisam.
Esperei.
— Isso não significa que vão dar.
Baixei os olhos para o prato.
— E o que eu faço se acontecer?
— Use seus créditos para conseguir ração extra. Atendimento, se precisar. Remédios. Nas casas de número alto, talvez seja isso que mantenha você viva.
A palavra me fez levantar o rosto.
Ele não tentou corrigir o que tinha dito.
Pensei nas opções que apareciam abaixo do saldo. Eu tinha gostado de saber que podia escolher alguma coisa. Um curso, um pouco mais de comida. Não tinha entendido que talvez precisasse daquele dinheiro para comer.
— Cento e vinte dá?
O homem passou o polegar pela borda da xícara.
— Depende do que você precisar. Tente não chegar lá sem nada.
Guardei o prato no armário com as duas mãos.
Ainda faltavam alguns dias naquela casa. Haveria jantar, uma cama arrumada e água quente no banheiro. Mesmo assim, abri o saldo outra vez.
— O senhor já esteve nessas casas? — perguntei.
O homem pegou a xícara.
— Em quais?
— Nas de número alto.
Ele olhou para o fundo da xícara e se levantou sem responder e disse.
— O chá esfriou. Vou fazer mais.
Acompanhei seus movimentos até o fogão.
— Mas alguém verifica se as mulheres estão sendo alimentadas?
— Bruna, guarde o resto da louça, por favor.
Ainda havia dois copos sobre a pia. Virei para pegá-los, embora tivesse vontade de continuar perguntando. Quando terminei, ele já estava a caminho da sala.
Nos dias seguintes, tentei perguntar em outros momentos. Durante o café, quis saber quem decidia os destinos. À tarde, vendo-o separar alguns papéis, perguntei se o trabalho dele tinha alguma relação com o rodízio.
Ele sempre encontrava alguma coisa que precisava fazer. Procurava os óculos, voltava a uma página, dizia que estava ocupado, mas nunca respondia as perguntas.
Depois disso, fui perguntando menos.
Os dias passaram tranquilos. Aprendi a esperar a água esquentar sem deixar o chuveiro tão aberto. Descobri onde ele guardava os panos limpos e quanto chá costumava beber pela manhã. Depois do almoço, quando a cozinha estava arrumada, eu voltava ao livro de plantas.
Ele às vezes parava perto da minha cadeira e olhava a página aberta. Dizia o nome de uma folha ou apontava uma espécie que já tinha cultivado. Sobre essas coisas, conversava sem dificuldade.
Na penúltima noite, terminamos de jantar, e fiquei sentada enquanto ele descascava uma fruta. Eu esperava que afastasse o prato para começar a recolher a mesa.
— Bruna.
Levantei os olhos.
A faca ficou parada na mão dele.
— Você ainda é virgem?
Senti meu rosto esquentar. Até ali, ele nunca tinha perguntado nada parecido.
— Sou — respondi.
Ele pousou a faca ao lado da casca.
— Não aconteceu nada na primeira residência?
Balancei a cabeça negativamente.
Por um instante, ele pareceu prestes a dizer alguma coisa. Depois baixou os olhos, e a expressão dele mudou. Reconheci a pena antes que falasse.
Apertei as mãos no colo.
— Eu sinto muito — disse. — Pelo que pode encontrar depois daqui.
Não sabia o que responder, nem se ele esperava alguma resposta.
— Queria poder ajudar você — continuou. — Mas, na minha idade, meu pênis já não funciona como deveria.
Fiquei imóvel. Entendi o que ele queria dizer, mas não conseguia imaginar aquela conversa acontecendo comigo. Baixei o rosto para esconder o calor nas bochechas.
Ele soltou o ar devagar e afastou o prato.
Esperei mais um pouco, achando que acrescentaria alguma coisa. Quando não acrescentou, me levantei para recolher a louça.
Na manhã da troca, acordei antes de ouvir qualquer ruído na cozinha.
Fiquei deitada por alguns instantes, olhando a claridade na cortina. A mochila estava pronta junto da porta. Eu tinha arrumado tudo na noite anterior, dobrando as roupas devagar para ocupar o tempo.
O aviso apareceu quando me sentei na beirada da cama.
Troca de residência em 2 horas.
Próximo destino: Casa 1286.
Percurso disponível.
Li o número outra vez.
Mil duzentos e oitenta e seis!!!
