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Preparada, mas não sabia! - Cap. 23 – Vinte e quatro horas Kelly

Um conto erótico de Cigana CD
Categoria: Crossdresser
Contém 1297 palavras
Data: 03/10/2026 02:02:50

Preparada, mas não sabia! - Cap. 23 – Vinte e quatro horas Kelly!

Herança, Transformação, Mudança sexo, Hormonização, Crossdresser.

(Esta série é uma obra de ficção científica, não contém pedofilia nem crimes. Todos os personagens são adultos e livres. Passagens relacionadas ao passado servem apenas para contextualizar os acontecimentos seguintes.)

Eu sempre achei que férias fossem sinônimo de descanso. Descobri que, às vezes, elas servem para reorganizar uma vida inteira. A ideia não foi minha.

Na verdade, começou numa reunião que eu jurava ser apenas mais uma discussão sobre processos internos. A sala de reuniões estava cheia. Jurídico. Recursos Humanos. Financeiro.

Samantha. Eu. Ale.

Os últimos meses tinham transformado aquelas reuniões em parte da rotina. Depois da morte dos nossos pais, praticamente todas as semanas surgia alguma nova adaptação: procurações, assinaturas, redistribuição de responsabilidades, contratos que antes passavam diretamente pelas mãos deles.

Dessa vez o assunto parecia burocrático. Plano de sucessão. Redistribuição de funções. Treinamentos. Acompanhamento da saúde ocupacional dos diretores. Até que a gerente de Recursos Humanos fechou uma pasta e olhou diretamente para mim.

— Marcos, existe uma recomendação que gostaríamos de fazer.

Assenti.

— Claro.

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Você não tirou férias.

Demorei alguns segundos para entender.

— Faz tempo.

— Quanto tempo?

Ela abriu outra folha.

— Considerando férias vencidas, banco de horas e o período em que permaneceu trabalhando durante o luto… Olhou novamente para mim.

— Você está devendo descanso para a empresa e para você.

Sorri de leve.

— Nunca ouvi essa expressão.

Ela sorriu também.

— Eu gosto dela.

Ale entrou na conversa imediatamente.

— Mas agora? — Justamente agora.

A gerente virou uma página.

— A empresa passou pela fase mais crítica da sucessão. Os processos já estão distribuídos, Samantha assumiu parte da coordenação administrativa, os gestores receberam autonomia maior e vocês dois não precisam mais apagar incêndios todos os dias.

Samantha completou.

— Foi exatamente para isso que reorganizamos as diretorias.

Olhei para ela. Lembrei das noites em que ficamos revisando organogramas. Delegando decisões. Criando fluxos de aprovação. Na época achei que estávamos apenas sobrevivendo. Agora percebia que também estávamos construindo uma empresa capaz de funcionar sem depender de uma única pessoa.

A gerente continuou.

— Empresas familiares costumam cometer um erro muito comum.

Pegou uma caneta. Desenhou um pequeno círculo.

— O sucessor acredita que precisa provar seu valor ficando disponível o tempo todo.

Depois desenhou outro círculo maior.

— Quando isso acontece, ele vira gargalo.

Fiquei olhando o desenho. Ela sorriu.

— Você(s) já fezam o mais difícil. — Sobreviveram.

O silêncio que veio depois pesou mais do que qualquer gráfico. Quando a reunião terminou, Ale me acompanhou até o corredor.

— Então...

— Então.

Ele colocou as mãos nos bolsos.

— Vai aceitar?

Respirei fundo.

— Acho que sim.

Ele sorriu.

— Finalmente.

— Você parece feliz demais.

— Porque eu estava começando a achar que você ia dormir na empresa.

Ri.

— Quase aconteceu algumas vezes.

Ele bateu de leve no meu ombro.

— Descansa.

Depois fez uma careta.

— E corta esse celular um pouco.

Prometi. Naquele momento percebi uma ironia. Eu realmente precisava me afastar da empresa. Só que o motivo mais importante ainda não podia contar para ele.

Na saída encontrei Samantha esperando perto do elevador. Ela levantou uma sobrancelha.

— Então?

— Acho que vou aceitar.

Ela sorriu daquele jeito tranquilo que sempre aparecia quando alguma peça finalmente encaixava.

— Ótimo.

Entramos no elevador. As portas fecharam. Só então ela perguntou baixinho:

— Está pensando no mesmo que eu?

Olhei para ela. Sorri.

— Vinte e quatro horas.

Ela apenas assentiu.

— Finalmente.

Meu coração acelerou. Porque aquela conversa significava uma coisa muito específica. Pela primeira vez desde que Kelly apareceu, eu teria dias inteiros sem precisar alternar entre dois personagens. Naquela noite voltamos para casa em silêncio.

Ou melhor. Para casa. Ainda era estranho perceber que meu pensamento já usava aquela palavra para a casa da Samantha.

Quando entramos, Fernandinha apareceu da cozinha segurando um pano de prato.

— Como foi?

Samantha respondeu primeiro.

— A menina entrou de férias.

Fernandinha abriu um sorriso enorme.

— Então agora começa a bagunça.

Franzi a testa.

— Que bagunça?

Ela apontou para mim.

— A do guarda-roupa.

Ela tinha razão. No dia seguinte começamos exatamente por ali. Abri as duas portas do armário. Pela primeira vez não procurei uma roupa específica. Procurei minha vida inteira. Já havíamos descutido que meus dias ali estavam para acabar, tinha que voltar para minha casa, e uma das preocupações era levar tudo de Kelly para lá, onde me assumiria definitivamente, em duas consultas eu tratei disso com a psicóloga, assumimos reuniões dia sim dia não com ela, sobre futuras mudançasm, depois das primeiras mudanças no corpo, entendemos que eu deveria voltar para casa, onde era muito mais seguro psicologicamente para mim.

Samantha sentou no chão.

Fernandinha apareceu com três caixas de papelão. Escreveu nelas usando uma caneta grossa.

MARCOS. UNISSEX. KELLY.

Fiquei olhando aquelas palavras durante alguns segundos.

— Precisa mesmo?

Samantha respondeu baixinho.

— Não.

— Então por quê?

Ela pegou uma camisa social masculina. Dobrou cuidadosamente. Colocou na primeira caixa.

— Porque organizar não significa abandonar.

Ajoelhei ao lado dela. Peguei uma camiseta antiga. Aquela que usei na faculdade. Passei os dedos pelo tecido. Sorri lembrando do Ale roubando aquela camiseta durante um churrasco anos atrás.

Dobrei. Guardei. Sem culpa. Sem raiva. Sem despedida dramática. Apenas respeito.

Depois peguei uma blusa da Kelly. Macia. Leve. Sorri de outro jeito. Fernandinha observava tudo. Em determinado momento levantou um vestido.

— Esse vai pendurado.

Olhei. Era um dos vestidos deixados pela mamãe. Ainda pouco usado. Assenti. Ela colocou cuidadosamente no cabide. Como quem guardava uma lembrança viva. A reorganização tomou dois dias inteiros. A medida que fechavamos caixas, Samantha ia comigo ate minha casa reagrupar tudo no quarto de mamãe, que assumi.

As roupas de Marcos, deixamos de inicio no meu antigo quarto, sem tirar das caixas, eram apenas algumas de trabalho, toda a vida do Marcos estava ali ainda intacto.

As organizaçãoes não era só roupa. Era penteadeira. Perfumes. Sapatos. Bijuterias. Produtos de pele. Em determinado momento Samantha colocou uma escova de cabelo sobre a cama.

— Essa fica aqui.

Pegou outra.

— Essa vai para a bolsa.

Ri.

— Existe diferença?

Ela fez uma expressão ofendida.

— Claro.

Fernandinha entrou na brincadeira.

— Essa aqui é para sair elegante.

A outra é para sobreviver ao vento. Começamos a rir. Foi uma daquelas risadas leves que pareciam não visitar aquela casa havia muito tempo. No terceiro dia aconteceu uma coisa que eu não esperava.

Acordei. Levantei. Fui ao banheiro. Escovei os dentes. Prendi o cabelo. Passei hidratante. Escolhi uma roupa, das poucas que havíamos deixado, agora era na casa de Samantha que ficava poucas roupas.

Tomei café. Tudo isso vestida como Kelly. Só percebi depois. Sentei à mesa segurando uma caneca. Olhei para Samantha.

— Acabei de descobrir uma coisa.

Ela levantou os olhos do jornal.

— O quê?

— Hoje eu não me transformei.

Ela sorriu.

— Não?

Balancei a cabeça.

— Eu simplesmente acordei.

Ficamos em silêncio alguns segundos. Fernandinha colocou pão quente sobre a mesa.

— Isso acontece quando a rotina para de pedir licença.

A frase ficou flutuando entre nós. Era exatamente isso. Durante semanas eu me preparava para cada roupa. Cada maquiagem. Cada espelho. Agora...

Eu só estava vivendo. Na tarde daquele mesmo dia Samantha apareceu segurando duas chaves. Balançou diante de mim.

— Vamos?

— Para onde?

Ela sorriu.

— Você está esquecendo uma etapa importante das férias.

— Qual?

— Descobrir como é sair sem precisar voltar correndo para ser o Marcos de novo.

Meu coração acelerou. Peguei a bolsa. Respirei fundo. Pela primeira vez eu pisaria na rua sabendo que não existia horário para voltar ao personagem anterior. A porta fechou atrás de nós. Olhei rapidamente meu reflexo no vidro. Sorri. Não porque tudo estivesse pronto.

Mas porque, finalmente, eu tinha tempo suficiente para deixar Kelly ocupar vinte e quatro horas de um mesmo dia. E, talvez pela primeira vez desde o acidente, percebi que descansar também podia significar construir o futuro.

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