— Tudo calmo por aqui, recrutas? — a voz do Sargento Rocha reverberou pelas paredes frias do alojamento, mansa e perigosa. — Vocês dois parecem estar tendo uma conversa muito interessante no escuro.
O silêncio na sala era absoluto. Ninguém ousava mover um músculo. Os dois cabos da Polícia do Exército postados logo atrás de Rocha mantinham as mãos estrategicamente apoiadas nos coldres.
Rocha deu mais dois passos, parando a centímetros do meu beliche. Os olhos escuros e obstinados dele desceram diretamente para o meu pescoço, cravando-se nas marcas arroxeadas e nos arranhões vermelhos que o Sargento Mello tinha deixado poucas horas antes.
— Que marca é essa no seu pescoço, Michel? — Rocha inclinou o rosto, a voz baixando para um tom quase confidencial, mas que cortava a sala como uma lâmina. — E essa gola rasgada?
Senti a saliva travar na minha garganta. Ao meu lado, percebi a postura rígida de Emiliano, pronto para intervir, mas fiz um gesto quase imperceptível para que ele ficasse quieto.
— Foi na faxina do almoxarifado, Sargento — forcei a voz a sair firme, engolindo a dor. — Um engradado de madeira raspou quando eu tava descarregando. O tecido prendeu no prego.
Rocha deu um riso seco, sem o menor traço de humor, balançando a cabeça devagar. Ele claramente não acreditava em uma única palavra, mas não tinha como provar o contrário ali. Em vez de discutir, ele deu meia-volta e caminhou até o centro do alojamento.
— Atenção, tropa! — o brado de Rocha fez os recrutas se sobressaltarem. — Por ordens da investigação do Comando, todos os recrutas vão pegar seus aparelhos celulares agora. Quero todos os telefones colocados sobre a mesa central. A Polícia do Exército vai fazer a checagem dos registros de chamadas e arquivos das últimas vinte e quatro horas.
O pânico silencioso tomou conta do recinto. O barulho de zíperes de mochilas e gavetas abrindo começou a ecoar enquanto os recrutas formavam uma fila indiana para depositar seus telefones sobre a mesa de madeira.
Meu coração martelava contra as costelas de forma ensurdecedora. O meu celular tinha sido esmagado pelo coturno de Mello no banheiro e chutado para debaixo da pia. Eu estava completamente de mãos vazias.
Emiliano colocou o aparelho principal dele na mesa e me encarou de soslaio, os olhos arregalados. Fiquei por último na fila, o suor frio escorrendo pelas minhas costas enquanto a mesa ficava cheia de telefones.
— Falta o seu, recruta Michel — um dos cabos da PE disse, conferindo a lista de chamada e olhando para mim.
— O meu celular... sumiu, senhor — respondi, mantendo o olhar fixo no cabo, sentindo a presença de Rocha se aproximar pelas minhas costas como uma sombra.
— Sumiu? — Rocha sibilou, parando ao meu lado. — Como assim "sumiu", recruta? Um aparelho celular não cria pernas e sai andando dentro de um Batalhão sob estado de sítio.
— Eu devo ter perdido durante o serviço de faxina da tarde, Sargento — menti, sentindo a pressão esmagadora do olhar dele. — Procurei pelo setor todo e não achei.
Rocha se aproximou tanto que pude sentir o cheiro de café e cigarro na farda dele. Ele me encarou por longos e angustiantes segundos, avaliando a minha palidez, as marcas no meu pescoço e a ausência do aparelho. A desconfiança nele era palpável, quase física.
— Coincidência do caralho, não acha? — Rocha murmurou, a voz carregada de veneno. — O Tenente é espancado, a segurança é violada, você aparece machucado e o seu celular simplesmente 'some'. Se eu descobrir que você descartou esse aparelho pra esconder alguma coisa, Michel... você tá fodido na minha mão.
Ele não me prendeu, mas o recado estava dado. A investigação não estava apenas rondando; o cerco tinha se fechado no meu pescoço.
Mais tarde naquela mesma noite, após o término de mais uma etapa da faxina corretiva no bloco secundário, esgueirei-me pelos corredores escuros e mal iluminados perto dos depósitos. O Batalhão dormia sob o peso da vigilância, mas eu precisava alinhar os passos para a madrugada.
Avistei a silhueta de Morales encostada na parede de concreto, no breu de um corredor desativado. Me aproximei rápido, mas assim que ele me viu, deu um passo para trás, erguendo as mãos em sinal de defesa.
— Morales, finalmente... a gente precisa conversar — sussurrei, a voz afobada. — Consegui a janela com o Mello. É hoje, às três da manhã, no Depósito B.
— Não — Morales cortou seco, a voz trêmula, mas irredutível.
— Como assim "não"? — me aproximei mais, tentando segurar o braço dele, mas ele se esquivou bruscamente.
— Eu disse não, Michel! — ele sibilou entredentes, os olhos arregalados de puro pavor refletindo a pouca luz do corredor. — Eu quase fui preso no pátio! Eu rachei a cabeça do Brito! Você tem noção do milagre que foi a gente ter saído ileso até agora?!
— Mas o Mello garantiu os quinze minutos, Morales! A gente só precisa entrar, pegar as provas do dossiê físico que estão lá e sair! É a nossa garantia de vida!
— Não, é a sua loucura! — Morales encostou a cabeça na parede, respirando fundo, o rosto pálido. — Eu passei o fim de semana inteiro sem dormir, achando que a polícia ia arrombar a minha porta. Eu me entreguei pra você na minha casa porque achei que aquela desgraça tinha acabado... mas você não para! Você quer voltar pro olho do furacão!
— Se a gente não pegar o que tá no Depósito B, o Valente não vai proteger a gente quando o Brito acordar de vez! — insisti, o desespero me corroendo. — Eu preciso de você nessa, Morales.
— Esquece, Michel — Morales balançou a cabeça, me encarando com uma mistura de decepção e medo. — Eu não vou pisar naquele depósito. Se você quiser se suicidar, vai sozinho. Me deixa fora disso.
Ele deu meia-volta e sumiu na escuridão do corredor, me deixando sozinho com o eco do meu próprio desespero.
Às 02:50 da manhã, o silêncio do Batalhão era quase sepulcral. Sem Morales, restava apenas a mim e ao Emiliano. Nos esgueiramos pelas sombras do pátio interno, desviando dos refletores até alcançar a estrutura metálica e fria do Depósito B.
Conforme o prometido na barganha do banheiro, a pesada porta de ferro estava encostada, com o cadeado aberto pendurado na tranca.
Entramos rapidamente. Emiliano fechou a porta quase por completo, deixando apenas uma fresta mínima. O ar lá dentro cheirava a mofo, poeira e graxa militar.
Foi então que vi o Emiliano puxar do bolso da calça um aparelho antigo, pequeno e com a tela trincada — um celular reserva desativado que ele mantinha escondido na farda para emergências, já que o seu Smartphone principal tinha sido recolhido pela PE na mesa do alojamento. Iluminando o espaço apenas com o brilho fraco daquela tela, começamos a revistar as prateleiras do fundo.
Atrás de caixas de munição desativadas, encontrei o inventário físico original da Pasta A-10: uma pasta de couro preta, lacrada, contendo as notas fiscais autênticas e os relatórios com as assinaturas originais de Brito e Mello.
— Achei! — murmurei, puxando a pasta.
— Me dá aqui! — Emiliano pegou o material. Ele conectou o celular reserva no sinal da rede criptografada que tínhamos configurado anteriormente, abriu o aplicativo e começou a fotografar página por página com precisão tática, anexando as imagens diretamente na conversa com o ex-comandante Valente.
Enviado. O sinal verde piscou na tela fraca do aparelho reserva de Emiliano. Tínhamos conseguido.
Mas o alívio durou menos de um segundo.
O som de passos pesados ecoou no corredor de concreto do lado de fora.
Clac... clac... clac.
Congelamos no lugar. Emiliano desligou a tela do celular instantaneamente, imergindo o depósito na escuridão total. A minha respiração travou na garganta; o pavor era tanto que parecia que o som do meu coração iria nos entregar.
Os passos pararam exatamente do lado de fora da porta do Depósito B. A luz de uma lanterna cortou a fresta da porta, passeando pelo chão.
— É, meu amor... a escala de hoje tá uma desgraça — a voz do Sargento Rocha ecoou alto do outro lado da parede, a poucos centímetros de onde estávamos encolhidos atrás das caixas. Ele estava ao telefone, conversando com a esposa. — Essa investigação do Brito tá me tirando do sério. Ninguém fala nada, os recrutas tão assustados... Mas fica tranquila, assim que eu dobrar o turno da manhã eu vou pra casa.
O som da maçaneta de ferro rangendo levemente me fez fechar os olhos, esperando o pior. Se ele empurrasse a porta, estávamos mortos.
— Tá bom, tá bom... Beijo, te amo — Rocha concluiu a ligação. Ouvimos o som do suspirar dele, seguido pelo barulho de seus passos voltando a se afastar pelo corredor, o som dos coturnos diminuindo até desaparecer na distância.
Soltei o ar dos pulmões em um tremor incontrolável. Emiliano limpou o suor da testa com o antebraço, me encarando no escuro. Tínhamos escapado por um fio de cabelo.
A manhã de terça-feira nasceu cinzenta e gélida. O cansaço da madrugada pesava nos meus ossos, mas a sensação de dever cumprido durou pouco.
Logo após a alvorada, o burburinho correu rápido pelo alojamento: uma mulher elegante, de expressão severa e olhos vermelhos de choro, tinha acabou de passar pela guarda e entrado no prédio do Comando. Era Sandra, a esposa do Tenente Brito.
Eu estava terminando de ajeitar o coturno quando um cabo da Polícia do Exército bateu na porta do alojamento.
— Recruta Michel! Apresente-se imediatamente na sala de reuniões do bloco A. Agora!
O estômago despencou. Olhei para Emiliano, que apenas apertou os lábios, impotente.
Caminhei a passos lentos até a sala indicada. Ao abrir a porta, o clima frio do ar-condicionado me atingiu como um golpe. Sandra estava sentada em uma das cadeiras de couro, segurando um lenço de papel. Do outro lado da mesa, em pé, o Sargento Rocha mantinha os braços cruzados, a postura rígida como aço.
— Com licença, senhor... Recruta Michel se apresentando — disse, batendo uma continência trêmula.
Sandra ergueu os olhos inchados e me encarou da cabeça aos pés. A voz dela saiu embargada, mas cheia de uma cobrança desesperada:
— É ele... — Sandra disse, apontando o dedo na minha direção e olhando para Rocha. — Sargento, o meu marido acordou hoje cedo no hospital. Ele ainda tá confuso, os médicos disseram que a memória dele tá uma névoa por causa do trauma na cabeça... mas desde que abriu os olhos, ele não para de repetir esse nome.
Ela se levantou, dando um passo na minha direção com o rosto contorcido.
— Por que o meu marido acordou chamando pelo seu nome, recruta?! "Michel... Michel..." Ele repetiu isso dez vezes antes de voltar a dormir! O que você fez com o Brito?!
A informação caiu como uma bomba na sala. O Tenente estava recuperando a consciência.
No mesmo instante, o Sargento Rocha deu dois passos largos para a frente, se projetando sobre mim com toda a sua estatura. Ele cravou a mão no meu ombro, me encurralando contra o batente da porta, os olhos injetados de fúria e triunfo.
— Então o Tenente acordou chamando por você, é? — Rocha sibilou no meu rosto, a voz grave e ameaçadora fazendo cada fio de cabelo do meu corpo se arrepelar. — As marcas no seu pescoço... o celular que sumiu... e agora o oficial agredido chama pelo seu nome no hospital.
Rocha se aproximou ainda mais, colando o peito no meu, a pegada no meu ombro se fechando como um alicate.
— Acabou a palhaçada, Michel — Rocha rosnou entredentes, os olhos queimando de certeza. — Você vai abrir a sua boca agora e me contar exatamente o que aconteceu naquela secretaria... ou eu te coloco em uma cela da PE antes que o sol chegue ao meio-dia!
Rocha levantou o rosto, a mandíbula travada, e encarou a esposa do Tenente Brito com uma frieza cirúrgica.
— Dona Sandra, com todo o respeito... a senhora precisa aguardar lá fora — a voz de Rocha saiu seca, num tom que não admitia contestação. — O que vai acontecer aqui dentro agora é assunto estritamente militar e de investigação do Batalhão. Por favor.
Sandra engoliu o choro, indignada, mas a autoridade do sargento a fez recuar. Ela olhou para mim com puro desprezo e saiu, batendo a porta de madeira pesada.
Rocha fez um sinal discreto para o cabo da Polícia do Exército que estava postado no canto da sala. O cabo bateu em retirada e fechou a porta, deixando apenas o som do ar-condicionado zumbindo no silêncio mortal da sala.
Rocha caminhou até a porta, girou a chave no trinco com um clique metálico e puxou as persianas da janela, escurecendo o ambiente.
Quando se virou para mim, a postura mansa de investigador tinha desaparecido por completo. Ele deu três passos largos, avançando como um predador, e desferiu um empurrão violento no meu peito. Meu corpo colou contra a parede fria do fundo da sala, e a mão pesada dele se cravou na minha gola, torcendo o tecido até me faltar o ar.
— Agora a gente tá a sós, seu viadinho de merda — Rocha rosnou, a centímetros do meu rosto, cuspindo a cada palavra. Os olhos dele queimavam de um ódio cru e nojo. — Você achou mesmo que ia enganar a mim e à PE com essa historinha de prego e celular perdido? Eu conheço o seu tipo, Michel. Você chegou nessa porra desse exército achando que ia ser protegido, com essa sua carinha de bicha assustada, e agora tá metido em agressão de oficial?
Ele apertou a gola ainda mais, forçando minha cabeça contra o concreto.
— Fala, seu merdinha! O que você tava fazendo no gabinete do Brito?! Você tava dando pra ele, é isso?! Ou o Brito descobriu a viadagem que você apronta nos corredores com aquele seu amiguinho Emiliano e resolveu te enquadrar?! Me fala por que a porra do Tenente acorda no hospital chamando pelo seu nome, antes que eu arrebente essa sua cara no chão dessa sala!
A humilhação, a dor no meu pescoço já machucado, a privação de sono e o pavor acumulado de dias e dias de perseguição simplesmente explodiram dentro de mim. Toda a prudência, todos os avisos de segurança e a minha própria trava de autopreservação ruíram de uma vez.
Um riso rasgado e histérico saiu da minha garganta. Eu empurrei o braço dele com toda a força que me restava, fazendo a mão dele soltar a minha gola.
— VOCÊ NÃOS SABE DE PORRA NENHUMA, ROCHA! — gritei, a voz ecoando pelas paredes abafadas da sala, meus olhos queimando de raiva enquanto eu dava um passo na direção dele, encarando-o de frente. — Quer saber por que o Brito tá chamando meu nome?! Quer mesmo saber a verdade, seu alienado de merda?!
Rocha franziu o cenho, surpreso pela minha reação, mas levou a mão instintivamente ao coldre da pistola na cintura.
— Eu não fiz nada com o Brito por causa de viadagem nenhuma! O Brito tá naquele hospital porque ele e o Sargento Mello são dois ladrões desgraçados! — desabafei, cuspindo as palavras, o peito subindo e descendo descontrolado. — A Pasta A-10! O desvio sistemático de munição, os lotes adulterados, as assinaturas falsas que estão rodando esse Batalhão há anos! O Brito tomou aquele golpe na cabeça porque ia me matar quando descobriu que eu tinha as fotos do dossiê completo!
Rocha congelou. A mão dele travou sobre o cabo da arma, a expressão de deboche homofóbico desmoronando em questão de segundos.
— O Mello quebrou o meu celular no banheiro ontem porque tá apavorado! — continuei, a voz trêmula de adrenalina, sem me importar mais com as consequências. — Ele me deu quinze minutos de janela no Depósito B de madrugada em troca de eu sumir com a assinatura dele das provas! Toda a podridão deste quartel tá documentada, registrada e salva em um lugar seguro, O Brito e o Mello tavam vendendo armamento e cobrindo o buraco nas planilhas do Batalhão!
O silêncio caiu sobre a sala como uma tonelada de chumbo. Rocha me encarava, o rosto pálido, absorvendo o peso e os detalhes de cada acusação. Ele sabia dos boatos sobre os furos no inventário, mas ouvir que a prova física existia e que envolvia oficiais da alta escala mudava tudo.
— E quem tá por trás de você, Michel? — Rocha perguntou, a voz subitamente baixa, desprovida de qualquer deboche ou agressividade anterior. Ele deu um passo lento na minha direção. — Um recruta não junta um dossiê desse nível sozinho. Quem tá orquestrando isso?
Respirei fundo, sentindo o gosto amargo da traição final na minha boca, e soltei o último nome.
— O ex-comandante Valente.
Ao ouvir aquele nome, o corpo de Rocha travou por completo. A postura ereta dele pareceu vacilar por uma fração de segundo. Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, os olhos passeando pela sala enquanto a mente dele calculava todas as implicações políticas e militares do nome de Valente no jogo.
Toda a fúria e o preconceito de minutos atrás evaporaram. Rocha ajeitou o cinto tático, deu meia-volta, caminhou até a mesa e se encostou nela. Ele me olhou de cima a baixo com uma calma fria, quase respeitosa, totalmente diferente do monstro de antes.
— Valente... — Rocha murmurou, balançando a cabeça devagar. — Então o velho finalmente resolveu cobrar a conta.
Ele cruzou os braços e encarou meus olhos fixamente.
— Escuta aqui, Michel. A investigação da PE morre aqui na minha mão. Eu vou abafar esse papo do Brito no hospital.
Ele se desencostou da mesa e deu um passo lento na minha direção, o tom de voz agora calculista e mortal:
— Mas você vai fazer uma coisa por mim. Eu quero um encontro com o Valente. Direto, sem intermediários. E quero você junto na mesa.