Preparada, mas não sabia! - Cap 20 – Primeira semana!
Herança, Transformação, Mudança sexo, Hormonização, Crossdresser.
(Esta série é uma obra de ficção científica, não contém pedofilia nem crimes. Todos os personagens são adultos e livres. Passagens relacionadas ao passado servem apenas para contextualizar os acontecimentos seguintes.)
Nunca imaginei que o começo de uma nova vida pudesse caber dentro de um comprimido tão pequeno.
Depois de tantas cartas, tantos documentos, tantos exames e tantas conversas que pareciam pesar toneladas, era quase engraçado olhar para aquele comprimido branco repousando na palma da minha mão. Ele parecia insignificante. Se estivesse sobre qualquer mesa, alguém diria que era uma vitamina. Um analgésico. Qualquer coisa.
Só eu sabia que ali estavam vinte e três anos de perguntas. Fiquei olhando para ele tempo suficiente para o café começar a esfriar.
Samantha, que fingia ler algumas mensagens no celular enquanto mexia distraidamente a colher na xícara, levantou os olhos quando percebeu que eu continuava imóvel.
— Está esperando ele falar alguma coisa?
Sorri sem graça.
— Acho que sim.
Ela apoiou o cotovelo sobre a mesa.
— E se ele não falar?
Olhei novamente para o comprimido.
— Então acho que sou eu quem preciso responder.
Peguei o copo d'água. O comprimido desceu sem dificuldade. Nenhuma luz acendeu. Nenhuma música começou a tocar. Nenhum calor percorreu meu corpo. Nada. Mesmo assim permaneci segurando o copo vazio por alguns segundos. Porque alguma coisa havia mudado.
Talvez ainda não dentro do meu corpo. Mas certamente na direção que ele começava a seguir. Os primeiros dias me ensinaram uma coisa curiosa. A gente passa anos imaginando como será a transformação. Depois descobre que a maior novidade da primeira semana é colocar despertador para lembrar do horário do remédio.
Samantha levou aquilo mais a sério do que eu. Criou um alarme no meu celular. Outro no dela. Um quadro preso com ímã na geladeira. Uma planilha. E, para completar, um calendário onde ela fazia um pequeno círculo verde toda vez que eu tomava a medicação.
— Você transformou meus hormônios em projeto de engenharia.
Ela deu de ombros.
— Se dependesse de você, esqueceria no terceiro dia.
— Não esqueceria.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ontem você esqueceu onde deixou o óculos.
Pensei alguns segundos.
— É verdade.
Ela sorriu satisfeita.
— Minha planilha continua aprovada.
Acabei rindo também. Percebi que aquele cuidado não era controle. Era medo. Medo de que, depois de tudo que aconteceu, alguma coisa desse errado. Talvez fosse exatamente o mesmo medo que eu carregava. Só que ela organizava o medo em planilhas.
Eu organizava olhando para espelhos. Três dias depois voltamos à endocrinologista. Quando entrei na sala ela sorriu ao me reconhecer.
— Como está minha paciente mais ansiosa?
Olhei imediatamente para Samantha.
— Ela contou?
— Não precisei contar.
A médica apontou para minhas mãos.
— Você está apertando os dedos desde que entrou.
Olhei. Era verdade. Soltei as mãos devagar.
— Desculpa.
— Não peça desculpas.
Ela fechou meu prontuário antes mesmo de começar.
— Hoje não vim procurar mudanças físicas.
— Ainda bem.
Ela sorriu.
— Vim procurar você.
Gostei daquela frase. Ela começou pelas perguntas mais simples. Como estava dormindo. Se havia sentido náusea. Dor de cabeça. Alterações no apetite. Sensibilidade.
Respirei fundo.
— Acho que chorei vendo uma propaganda de margarina.
Ela deu uma risada discreta.
— E a propaganda era triste?
Pensei.
— Não.
— Então talvez você só tenha deixado algumas emoções passarem sem tanto filtro.
Aquilo fez sentido. Nos últimos dias eu vinha chorando com uma facilidade estranha. Não eram crises desesperadas. Eram lágrimas rápidas. Como se alguma represa antiga tivesse aprendido a abrir pequenas comportas.
Ela pegou uma folha. Desenhou uma linha.
— Imagine que seu organismo é uma orquestra.
— Tá.
— Durante vinte e três anos um instrumento tocou mais alto.
Fez uma pequena pausa.
— Agora outro começou a entrar.
— Então ainda está desafinado?
Ela sorriu.
— Não.
— Está aprendendo uma música nova.
Nunca pensei que ouviria uma explicação hormonal usando metáforas musicais. Mas gostei. Ela continuou.
— Não compare sua evolução com vídeos da internet.
— Ela já proibiu metade deles.
A médica olhou para Samantha.
— Metade?
— Estou tentando chegar nos cem por cento.
As duas riram. Eu também. Pela primeira vez uma consulta médica não parecia um interrogatório. Parecia uma conversa. Antes de sairmos ela fez uma recomendação.
— Fotografe seu rosto uma vez por dia, em um tratamento antigo seria uma por semana, a 2 anos atras seria 1 vez por mês, mas as técnicas e os produtos que estamos utilizando, são muito mais rápidos do que os anteriores..
Franzi a testa.
— Todo dia?
— Sim.
— Para procurar diferenças?
Ela balançou a cabeça.
— Justamente para não procurar grandes mudanças e sim pequenas e siginificativas, todos os dias.
Peguei o celular. Na saída da clínica Samantha já levantou a câmera.
— Encosta aqui.
— Agora?
— Agora.
— Estou horrível.
— Excelente.
— Como assim excelente?
Ela enquadrou meu rosto.
— Porque daqui seis meses você vai querer lembrar quem estava aqui hoje.
Clique. Olhei a foto. Sem maquiagem. Cabelo preso. Olhos cansados. Mas havia alguma tranquilidade nova.
Criei uma pasta.
"Mês Um. Dia 1"
Aquela foi a primeira fotografia oficial da Kelly. No dia seguinte conheci a nutricionista.
Entrei preparada para ouvir uma lista enorme de proibições. Açúcar. Pão. Pizza. Felicidade. Em vez disso ela começou perguntando:
— Você cozinha?
Olhei para Samantha.
— Faço café.
— Queima?
— Às vezes.
Ela anotou alguma coisa.
— Excelente.
Ri.
— Excelente?
— Quem admite que queima café costuma ser honesto na consulta.
Gostei dela imediatamente. Ela desenhou um corpo numa folha. Foi apontando cada parte.
— Hormônios conversam com o organismo que você já tem.
Explicou sobre proteína. Sono. Cálcio. Vitamina D. Hidratação. Depois perguntou meu peso. Minha rotina. Meu horário de trabalho.
Em determinado momento criei coragem.
— Preciso emagrecer para ficar mais feminina?
Ela pousou a caneta. Olhou diretamente para mim.
— Quem colocou essa ideia na sua cabeça?
— Acho que... internet.
Ela respirou fundo.
— A internet tem uma mania curiosa de ensinar mulheres a desaparecerem para caberem em algum padrão.
Fiquei em silêncio. Ela continuou.
— Kelly...
Ainda me assustava ouvir aquele nome vindo de profissionais que acabaram de me conhecer.
— Seu objetivo não é ocupar menos espaço.
— Então qual é?
Ela sorriu.
— Habitar seu próprio corpo.
Aquela frase me acompanhou o resto da semana. Habitar. Não esconder. Não consertar. Habitar. Era uma diferença enorme.
A psicóloga ficou para sexta-feira. Curiosamente foi a consulta que mais me deixou nervosa. Com médicos existem exames. Com nutricionistas existem cardápios. Com psicólogas… Existe silêncio. E silêncio sempre me intimidou.
O consultório era pequeno. Tinha plantas. Livros. Uma poltrona azul absurdamente confortável. Ela esperou eu sentar. Não pegou nenhuma pasta imediatamente. Nenhum laudo. Nenhum exame. Apenas um caderno. Sorriu.
— Kelly?
Respirei.
— Ainda estranho quando me chamam assim.
— Quer que eu use Marcos?
Pensei bastante.
— Não.
Ela apenas assentiu.
— Então vamos respeitar esse estranhamento também.
A primeira pergunta foi simples. Ou parecia.
— Quando você diz "eu", quem está falando?
Ri de nervoso.
— Depende do dia.
Ela escreveu alguma coisa.
— Hoje?
Olhei minhas mãos.
— Hoje acho que nós dois estamos aqui.
Ela não demonstrou surpresa. Nem preocupação.
— Ótimo.
Levantei a cabeça.
— Ótimo?
— Sim.
— Achei que você fosse dizer que isso era um problema.
Ela cruzou as pernas.
— Só seria um problema se vocês não conseguissem conversar.
Contei sobre o espelho. Sobre as cartas. Sobre o quarto. Sobre mamãe. Sobre papai. Sobre Alexandre. Sobre a empresa. Em determinado momento fiz a pergunta que vinha carregando desde aquela manhã diante do espelho.
— Você acha que preciso matar o Marcos?
Ela respondeu sem hesitar.
— Não.
Esperei. Ela continuou.
— Marcos sobreviveu ao acidente. — Sobreviveu ao luto. — Carregou a empresa. — Encontrou Kelly.
Fez uma pequena pausa.
— Ele não é seu inimigo.
Senti um nó na garganta. Ela fechou o caderno.
— Acho que o trabalho de vocês dois agora é aprender a dividir a mesma história.
Saí diferente daquela consulta. Não porque tivesse respostas. Mas porque, pela primeira vez, alguém tratava meu conflito como uma negociação. Não como uma guerra.
O restante da semana passou de um jeito curioso. Tirava uma foto logo cedo, sem nada, e ira para a empresa, na volta, me transformava e tirava outra foto.
Eu comecei a reparar em pequenas coisas. Passei hidratante no rosto sem achar estranho. Escovei o cabelo por mais tempo. Demorei alguns minutos escolhendo uma camiseta para dormir. Não porque alguém fosse me ver. Mas porque eu mesma iria.
Samantha percebeu antes de mim. Entrou no banheiro enquanto eu desembaraçava o cabelo. Ficou parada na porta.
— Posso fazer uma observação?
Olhei pelo espelho.
— Lá vem.
— Você está fazendo carinho no próprio cabelo.
Parei imediatamente.
— Estou?
Ela riu.
— Faz uns dois minutos.
Senti vergonha.
— Que ridículo.
Ela aproximou-se. Pegou delicadamente uma mecha.
— Ridículo seria passar vinte e três anos sem deixar ninguém cuidar disso.
Olhei nosso reflexo juntos. Pensei na mamãe. Ultimamente quase tudo me levava até ela. Naquela noite, antes de dormir, abri novamente a pasta "Mês Um". Havia muitas fotografias.
A primeira. Nenhuma mudança visível. O mesmo rosto. Os mesmos olhos. Mesmo assim parecia outra pessoa. Ou talvez fosse exatamente a mesma pessoa. Só que, pela primeira vez, eu sabia o nome dela antes mesmo de abrir a câmera. Olhando as outras senti o que significava pequenas mudanças e o que cada uma significava, algumas delas era simplesmente meu olhar
Apaguei a luz. Deitei de lado. Instintivamente protegi o peito com o braço ao me virar. Sorri sozinha. Fazia apenas uma semana. Meu corpo ainda mal tinha começado a mudar.
Mas minha rotina já havia aprendido um segredo que passei vinte e três anos tentando esconder de mim mesma.
A transformação mais difícil nunca foi tomar o primeiro comprimido.
Foi acordar todos os dias e permitir que Kelly continuasse existindo quando ninguém mais estava olhando, apresentar a empresa Marcos sabendo que era apenas uma farsa enquanto meu corpo gritava algo muito maior.
