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O Futuro Presente em Nosso Passado. Sexto Capítulo: Verena

Um conto erótico de Astrogildo Kabeça
Categoria: Grupal
Contém 3720 palavras
Data: 21/09/2026 18:01:45

Aquela era a semana do teatro de rua, no centro da cidade, com diversos espetáculos de humor, tragédia, drama, fariam parte da paisagem urbana. Lá estava Benício com a família, apreciando alguns espetáculos. O que ele não esperava é que aquele programa artístico se tornasse ainda mais memorável por causa de uma moça que estava na fila da pipoca, esperando a sua vez, mas com um rosto singelo, que manteria o mesmo semblante caso estivesse chovendo canivetes. Ela tinha cabelos castanhos escuros, lisos e brilhantes, caindo sobre os ombros,olhos amendoados, cor de mel. Usava um vestido de mangas curtas e tênis all star, sorriso tímido, uma garota papo firme. Esperando o milho estourar, se apresentou. Seu nome? Verena.

Verena: É a primeira vez que venho nesses eventos de rua, não tenho hábito.Minha amiga me convidou, mas ela teve que cancelar. Aí resolvi vir sozinha mesmo.

Benício: Coragem. Muita gente não tem coragem de fazer programa sozinho.

Verena: Devo presumir então que você não está só?

Benício: Meus pais estão aqui, minha irmã também. mas sou mais independente, então, é como se estivesse com autonomia para estar solitário.

Verena: Bem, pra comer uma pipoca, é melhor estar independente mesmo, rs...

Ele se sentiu imediatamente atraído. Não pela beleza dela apenas, embora fosse inegável, mas pela doçura, pela simplicidade com que falava sobre as coisas. Não havia pose, não havia malícia. Era apenas Verena, uma moça que trabalhava como auxiliar de produção numa farmácia de manipulação, que era filha única, paparicada pelos pais, e que encontrava prazer nas pequenas coisas.

Havia um pequeno intervalo entre peças e eles continuaram no papo, mastigando pipocas crocantes. Ela falou sobre os medicamentos que manipulava, sobre como era paciente e meticulosa; ele contou sobre o trabalho na empresa, sobre os amigos, mas sem se aprofundar muito. Conversa vai, conversa vem, peça começa, peça termina, e Benício cada vez mais determinado a conhecer aquela figura a fundo.

Benício: Verena, eu sei que é meio abrupto, mas... você gostaria de tomar um café comigo? Agora, ali perto, tem uma cafeteria.

Apesar de ter corado, pois sabia o que significava aquele convite, resolveu aceitar.

Verena: Por que não? Eu adoraria, Benício.

O café virou um jantar, que virou um encontro no fim de semana seguinte, e depois outro. Em poucas semanas, eles estavam namorando. Verena era exatamente o oposto de tudo que Benício conhecia no mundo de Marquito e Leandro. Era meiga, carinhosa, gostava de noites tranquilas, filmes antigos e conversas que rendiam papos cabeça. Nunca tinha ido a um baile de rua, nunca tinha se interessado por festas barulhentas, e, até então, não tinha o menor desejo de conhecer.

Verena: Pra mim, sair é ir a um bom restaurante, um cinema, um teatro… Não precisa de muito mais que isso, desde que seja com quem a gente gosta.

E Benício se sentia em paz. Pela primeira vez, não precisava correr atrás de ninguém, não precisava competir com os amigos, não precisava se sentir inadequado, com gente querendo empurrar alguém pra ele passar a noite e mostrar que curtiu pra caralho. Verena era uma tampa que fecharia sua panela, que já estava ficando cheia de noites de gandaia, onde ele teria que provar coisas que ele não tava afim de ficar demonstrando pra ninguém.

Benício:Tô namorando!

Foi assim que ele anunciou, na quinta-feira seguinte, durante um happy hour com Marquito e Leandro no bar de sempre. Os dois ficaram um pouco surpresos

Leandro: Porra, bicho, agora temos a trinca certa pra assaltar diversos locais!

Benício: Devagar com o andor, rapaz. Ela se chama Verena, uma moça incrível, trabalha numa farmácia de manipulação, é doce, é família. Enfim, é o que eu sempre quis.

Marquito: Porra, cara, que felicidade! Parabéns! Quando a gente vai conhecer?

Benício: Breve, breve… deixa a coisa assentar. Mas quero avisar: ela é diferente. Não curte baile, não curte festa barulhenta. Ela é mais de programa calmo, cinema, jantar. Então, pra mim, baile é coisa do passado, tá? Não vou mais nesses rolês de vocês.

Marquito: Porra, mandou sem medo, hein? Bom, cada um tem seu jeito. Se encontrou alguém que te faz feliz, a gente fica feliz por você.

Leandro: é isso aí. Mas as meninas vão querer conhecer, pô. Também não pode se afastar assim.

Benício: Eu sei, rapaziada, tô só pedindo um tempo.

Leandro: Conheceu ela onde?

Benício: Durante um evento de teatro. Ela tava sozinha.

Marquito: Beleza, nós tamo aí, na pista. Quando quiser pintar com ela, tamo junto. Vou ver se marco uma parada lá em casa, coisa maneira mesmo, pra você pintar lá com ela.

Benício sentiu um alívio enorme. Não precisava mais se explicar, não precisava mais justificar sua falta de malícia. Tinha encontrado seu lugar.

Benício: Pra ser sincero, quero distância desse grupo de vocês, tá? Não quero que a Verena tenha contato com esse mundo de festa, de pegação, de coisa doida. Ela não é desse tipo. Quero preservar ela.

Leandro:E tá certo, Bené, cada um com sua rotina. A gente continua amigos, mas cada um no seu quadrado.

Marquito: Eu entendo, cara. A Verena é seu porto seguro, e você quer manter ela longe das ondas. Respeito total.

Os três brindaram, e o papo mudou para assuntos mais leves - trabalho, futebol, as novidades da cidade. Mas Benício não conseguia parar de pensar em Verena, no sorriso doce dela, nos olhos que brilhavam quando falava dos livros que lia ou das receitas que inventava na cozinha.

Naquela noite, ele chegou em casa e ligou para ela.

Benício: Só queria dizer que tô muito feliz, que você é a melhor coisa que me aconteceu.

Verena: Também tô feliz, Benício. Você é meu presente.

Depois de um certo tempo, ela precisou desligar

Verena: Vou assistir uma série com meus pais. Eles estão me aguardando, tão aqui esperando me juntar a eles

Benício: Vai lá, mulher família. Breve, estarei aí também.

Verena: Beijão.

Benício: Beijos

Benício tinha quase certeza que ia entrar em novo estágio, longe de biritas, festas e longas noites tentando encontrar uma alma que o entendesse além do som do pagodão.

Foi no barzinho do Pier, um lugar que não era tão caro, mas também não tinha preços lá muito convidativos, criando um público mais seletivo que Benício marcou com Leandro e Marquito conhecerem Verena. Pra Benício, ela precisava desse ritual de tudo marcado, hora certa, pra nada sair do rumo.

Verena chegou vestindo um vestido leve que combinava com seus olhos castanhos. O cabelo caía solto, e ela trazia um sorriso tímido no rosto. Benício a recebeu com um beijo na testa e sentaram juntos. Marquito e Leandro tavam lá, comendo bolinhos de queijo fritos. Quando viram Verena foram bem cordiais, respeitosos.

Marquito: A famosa Verena, a musa do nosso amigo velho. Bené não para de falar de você. Prazer, sou Marquito.

- E eu sou Leandro. Finalmente conhecemos a rapunzel que jogou as tranças do alto do castelo.

Verena: O prazer é todo meu. Benício fala muito de vocês também. Disse que são amigos de longa data.

Marquito: Quase dez anos de história, né? Desde então, a gente só se larga quando dorme.

O papo começou leve. Verena contou sobre o trabalho na farmácia, sobre os medicamentos que manipulava e como gostava da precisão que a profissão exigia. Marquito e Leandro ouviam com atenção, fazendo perguntas educadas. Benício ficava mais calado, deixando ela interagir com eles, na manha. Notou que os olhos deles percorriam Verena de forma discreta - não com malícia, ou cobiça, mas com aquela curiosidade de quem avaliava uma novata na turma.

A conversa fluía bem. Marquito contou uma história engraçada sobre uma ex-namorada difícil, Leandro falou sobre um acidente quando era pequeno e Verena ria divertida, tava começando a se descontrair mais. Benício relaxou, sentindo que a apresentação estava sendo um sucesso.

Foi quando o celular de Marquito vibrou na mesa. Ele olhou a tela e franziu a testa.

Marquito: Opa, Andrezinha. Tô ocupado agora, gata. Depois a gente se fala.

Do outro lado, a voz de Andreza era audível o suficiente para Verena ouvir.

Andreza: Ocupado com o quê? Tá com o Leandro e Benício?

Marquito: Sim, tô com os dois. E mais uma pessoa. Depois te explico.

Andreza: Onde vocês tão?

Marquito hesitou, olhando para os amigos.

Marquito: Num barzinho, aquele perto do píer

Andreza: Peraí, tô perto! A Jéssica e eu tamos juntas, tenho novidades!

Marquito não teve tempo de responder. A chamada já tinha sido encerrada.

Marquito: Bem, uma figura com quem tô saindo, Verena, tá vindo aí, disse que tá aqui perto. Nem marquei nada com ela hoje. Disse que tem uma boa nova aí.

Benício sentiu o estômago dar um nó. Olhou para Verena, que não pareceu se importar.

Verena: Bem, pelo menos não vai ter eu só de moça, né?

Benício: São amigas do grupo. Você ia conhecê-las qualquer dia mesmo.

Minutos depois, duas jovens esbaforidas viam desabaladas pela calçada. Andreza vinha na frente, com um vestido curtinho e havaianas, cabelo ao vento. Jéssica a acompanhava, com seu andar característico, vestindo um top e shorts jeans, rebolando, tirando a maior onda, com um riso debochado na cara.

Andreza: E aí, pessoal, boa tarde! Que coincidência! A gente tava morrendo de vontade de ver vocês.

Jéssica: Bené, meu amor, quanto tempo! Tá sumido, hein?

Benício: Verena, essas são Andreza e Jéssica, amigas da turma.

Verena: Prazer em conhecê-las. O Benício já tinha comentado de vocês.

Andreza: Olá, seja bem vinda!

Jéssica, por sua vez, olhou Verena de cima a baixo com um sorriso que misturava curiosidade e deboche.

Jéssica: Então você é a tal da Verena… Os meninos já tinham comentado. O Bené acertou em cheio, hein? Lindinha, meiga, cara de quem não faz mal a uma mosca.

Verena riu, não se sentiu aviltada com o comentário.

As duas se sentaram e a mesa ficou mais cheia. Andreza ocupou o lugar ao lado de Marquito, e Jéssica ao lado de Leandro, enquanto Verena e Benício permaneceram juntos do outro lado.

Andreza: Gente, deixa eu contar a novidade… aluguei uma casa aqui perto!É pequena, mas tem uma vista linda do bairro, dá pra ver o pôr do sol da janela! Virei com frequência passar o fim de semana aqui.

Marquito: Ah, pode deixar que serei habitué!

O papo continuou, mas Verena começou a observar e o que ela notou a deixou cada vez mais curiosa. Marquito e Leandro eram exatamente como Benício tinha descrito - mais arrojados, mais falantes. Eles gesticulavam, contavam piadas com naturalidade e dominavam a conversa. Jéssica era expansiva, falava alto, ria com a boca aberta e soltava palavras que Verena não esperava ouvir num primeiro encontro. Andreza, por sua vez, parecia a mais contida das duas, mas ainda assim se encaixava naquela dinâmica com uma facilidade que Verena achou impressionante.

O que chamou mais a atenção de Verena foi a sintonia entre os quatro. Marquito e Andreza trocavam olhares de pura sinergia; Leandro e Jéssica se tocavam o tempo todo, com uma intimidade que já era evidente. Havia uma química ali, uma energia que Verena não percebia com Benício em relação a eles. Benício não ficava desconfortável, nem distante, mas não tinha a malemolência e a malandragem nos gestos que os outros tinham. Verena notava que tinha astúcia nos movimentos deles.

Jéssica contava uma história sobre um vídeo que tinha feito, gesticulando e imitando personagens, e Andreza ria às gargalhadas. Marquito segurava a mão de Andreza por baixo da mesa, e Leandro puxava Jéssica pela cintura, como se fosse o gesto mais natural do mundo.

Era um universo completamente diferente do que ela conhecia.

Foi quando Jéssica, com sua percepção aguçada, notou que Verena estava prestando mais atenção do que parecia.

Jéssica: E aí, Verena… você tá curiosa, né? Olhando a gente, tentando entender como a gente funciona.

Verena: É que vocês são muito... integrados. Parece que se conhecem há anos.

Jéssica: Somos um bando de doido, mas a gente se completa.

Verena começou a falar mais, dizer do que gostava de fazer nas horas vagas, um pouco do trabalho, tentando entremear o conhecimento de medicamentos com fatos da vida. Até que falou que gostava de cozinhar também, o que acabou despertando a Jéssica provocativa.

Jéssica: Que chique. E o Benício já provou sua comida?

Verena: Vai provar sábado. Vou fazer um jantar especial.

Jéssica: Espero que ele se farte.

Jéssica não parou. Começou a fazer perguntas para Verena - sobre a família, hobbies, os amigos dela. Verena respondia com educação, mas com um ar de quem não se deixava intimidar. Aos poucos, ela foi se soltando, contando sobre a infância de filha única, sobre os pais que a paparicavam, sobre como descobriu o amor pela farmácia.

Jéssica: Hum, você tem histórico, hein? Parece uma coisa de filme. Vida tranquila, família amorosa, namorado tranquilão… jogue as mãos pro céu, viu?

Verena: Já vocês parecem ser a cara da agitação. Cada um tem seu jeito, não é?

Jéssica: Olha só, a Verena é mais esperta do que parece. Gostei de você, mocinha.

O papo continuou, mas Verena já estava mais solta. Ela fez perguntas de volta - sobre aquele bairro, sobre os lugares que eles frequentavam, sobre os vídeos de Jéssica. E, para surpresa de Benício, ela se enturmou com uma facilidade que ele não esperava.

Quando chegou próximo às 21 horas o grupo começou a se despedir. Andreza e Jéssica iam voltar para a casa alugada, e Marquito e Leandro resolveram acompanhá-las.

Andreza: Foi um prazer, Verena. Espero ver você mais vezes.

Verena: Ah, sim! Vocês são legais

Andreza: Aparece na minha casa nova, fazermos uma macarronada.

Jéssica: Cuidado, Bené. Essa aí é mais desenrolada do que parece. Não deixa ela escapar

Os quatro se foram, deixando Benício e Verena sozinhos na mesa. O barulho do mar preenchia o silêncio enquanto eles se olhavam.

Benício: Galera meio estabanada, hein?

Verena demorou um pouco para responder, mas quando o fez, havia um brilho diferente em seus olhos.

Verena: Eles são muito diferentes de você, Benício. Muito mais soltos, mais... selvagens, talvez, rs… Mas eu gostei, são autênticos, e a Jéssica, mesmo sendo meio vulgar, é divertida. E a Andreza... ela parece uma pessoa legal, mesmo sendo menos falante.

Benício: Não ficou incomodada?

Verena: Incomodada? Não. Curiosa, talvez. E também fiquei feliz. Porque vi que você é diferente deles, e isso me fez gostar ainda mais de você. Você é meu, e eu sou sua. E não preciso de festa nem de agitação pra ser feliz.

Benício: Foi a frase da noite.

Os dois ficaram ali, vendo o mar escuro e as luzes da cidade, cada vez mais confortáveis um com o outro. E Verena, no fundo, guardou uma pequena chama de curiosidade sobre aquele grupo tão diferente, mas sabia que seu lugar era ao lado de Benício, no mundo calmo e acolhedor que estavam construindo juntos. Entretanto, ficou claro que Verena também não pretendia simplesmente ignorar aquele grupo tão diferente do mundo que ela imaginara encontrar.

Benício levou Verena pra casa dele. Lá jantaram e ficaram no quarto dele conversando. O papo foi sobre o encontro mais cedo.

Benício: Não esperava que a Andreza e a Jéssica aparecessem lá. A Jéssica, principalmente. Ela é um tanto imprevisível.

Verena: Eu percebi. Ela é bem expansiva. Falava alto, soltou uns palavrões que até me assustaram no começo.

Benício: Ela é assim mesmo e pra ser sincero, nunca fui muito com a cara dela. Não que ela seja má, mas acho ela vulgar demais, sem filtro. E esse negócio de influencer, de ficar se filmando o tempo todo... não é minha praia.

Verena:Você é bem crítico com ela, né?

Benício: Acho que, pra angariar novos públicos, às vezes ela faz tipo, até mesmo quando está no meio de pessoas que conhece. Eu, pelo menos, não valorizo nada disso. Mas ela é bem próxima do grupo, então relevo.

Houve um silêncio breve e Verena falou pensativa.

Verena: Os meninos, o Marquito e o Leandro… eles são bem diferentes de você, Benício. Eles tem um jeito atrevido, sem serem arrogantes. Não deixam o papo morrer,comandam a conversa, contam piada, puxam todo mundo pro ritmo deles. E a Andreza e a Jéssica entram nessa sintonia como se fossem parte da mesma engrenagem.

Benício: Acho que você tá certa. Eles são assim mesmo, sempre foram.

Verena: Você já me disse que eles eram mais soltos, mas ver ao vivo é diferente. Eles são muito entrosados, Benício, os quatro. A maneira como se tocam, como se olham... parece que existe uma intimidade ali que vai além de serem dois casais ficantes...

Benício: Você notou isso?

Verena: Sempre fui reservada, e por isso mesmo, observadora, presto atenção nos detalhes. E o detalhe é que eles têm uma química que é quase palpável.

Benício: Nossa, não escapou nenhum detalhe nessa garota!

Verena: E olha que eu não sou acostumada com grupos grandes, ainda mais com uma influencer descolada e sem filtros como a Jéssica. Na minha vida, é tudo mais calmo, mais comedido. Ver pessoas tão à vontade assim, se expressando sem medo, foi... diferente. Mas não desagradável.

Benício: Que bom que você não se sentiu desconfortável. Eu fiquei com um pouco de receio de que você achasse tudo muito pesado.

Verena: Pesado não, intenso, talvez. Mas não pesado. Eles são autênticos, isso é inegável.

Benício: Olha, Verena, eu quero que você saiba que a gente não vai frequentar os mesmos lugares que eles. Eles só vão a baile, a festa de rua, a esses rolês mais agitados. E eu sei que não é sua praia. A gente vai continuar nos nossos programas tranquilos: jantar, teatro, cinema. Do jeito que a gente gosta.

Verena ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos na taça de vinho. Aquele programa mais cedo foi interessante, e talvez não gostar desses programas não era uma questão de gosto pessoal, mas não ter a companhia ideal pra conhecer e curtir.

Verena: Benício… eu não quero que você se afaste dos seus amigos por minha causa.

Benício: Mas...

Verena: Deixa eu terminar… eles são seus amigos há quase dez anos. Isso não se joga fora. E longe de mim ser a namorada chiclete que afasta todo mundo. Sei de namoros em que o casal parece que vai viver no Alasca, pois some da vida de todo mundo.

Benício: Mas você não gosta desses ambientes, Verena. Você mesma disse que prefere coisas mais calmas.

Verena: E prefiro. Mas também não quero que você se sinta preso. A gente pode encontrar um meio-termo, não pode?

Ele não respondeu de pronto. Ficou com uma cara meio interrogativa, deixando ela continuar.

Verena: Ah, e você não mencionou que a Andreza era filha do seu chefe e que trabalham juntos!

Benício: Bom, ela não é beeeeem uma colega de trabalho, longe disso. Ela morava fora, passou a aparecer mais na empresa, um dia conversamos mais, queria conhecer a cidade, e eu me ofereci pra mostrar. Mas aí ela conheceu o Marquito no baile, e... bem, você viu como eles são hoje.

Verena: Ela se encantou por ele, então?

Benício: Aparentemente. Não que eu me importe. Quando nos conhecemos e começamos nossa relação, eles já tinham ficado. Achei que era uma coisa passageira, mas o tempo passou e a coisa parece que tá ficando séria.

Verena mordeu o lábio, processando as informações. E nesse momento, algo mudou dentro dela. Ela olhou para Benício, seu namorado doce, contido, que a tratava como uma princesa, e sentiu um carinho imenso. Mas também uma pontada de inquietação.

"Ele não vai me estimular a conhecer coisas novas", pensou ela, enquanto observava o rosto dele, na penumbra. "Ele quer me proteger, me manter na zona de conforto. Mas será que é isso que eu quero?"

Ela lembrou da noite, da energia do grupo, da forma como Jéssica falava sem medo, como Andreza se jogava nas conversas, como Marquito e Leandro dominavam a cena com uma naturalidade que era quase hipnótica. Não que ela quisesse ser como eles, longe disso, mas, talvez, a companhia deles pudesse quebrar o gelo em situações que ela nunca tinha vivido.

- Benício… eu estava pensando...

- Em quê?

- Talvez a gente pudesse, de vez em quando, ir a algum desses lugares que eles frequentam. Não pra ficar até tarde, não pra beber até cair… mas pra ver como é. Pra ter uma experiência nova. Juntos.

Benício: Você? Num baile de rua? Com música popularesca e multidão?

Verena: Quem sabe? Eu gosto de você exatamente como você é, Benício. Mas eu também, ao seu lado, fico propensa a descobrir coisas novas. E se a gente puder fazer isso com eles, sem perder nossa essência, por que não?

Ele ficou em silêncio, surpreso com aquela virada inesperada. Verena, sua namorada doce e reservada, estava sugerindo exatamente o oposto do que ele imaginava. Ela continuou.

- Talvez eu tenha criado uma ideia sobre mim mesma.

- Como assim?

- Sempre achei que eu fosse simplesmente uma pessoa que não gostava de festas, de lugares cheios, de conhecer gente nova. Talvez eu só nunca tenha encontrado uma companhia que me deixasse confortável nesses ambientes.

Benício pensou um pouco. O que ela parecia dizer é que ela não era essencialmente tranquila, mas alguém que precisava apenas de pessoas que diminuíssem uma provável sensação de estranhamento em relação a programas mais agitados.

- Não precisa ser sempre. Mas, de vez em quando, pode ser divertido. E você não precisa me proteger tanto assim, amor. Eu sou mais forte do que pareço.

Benício sentiu um misto de surpresa e admiração. Ele a puxou para um abraço, apoiando o queixo no topo da cabeça dela.

- Você é uma caixinha de surpresas, Verena.

- Todos somos. Você também é, só falta abrir.

Ficaram ali, abraçados, sentindo o corpo relaxar após um suave vinho. Verena, enquanto sentia o peito de Benício subir e descer no ritmo da respiração, pensava nos quatro amigos, naquela energia tão diferente, e no que poderia aprender com eles.

"Talvez a vida seja mais do que teatro e jantares. Talvez seja sobre se abrir, mesmo que com cautela. Talvez seja sobre se permitir."

E, pela primeira vez, ela sentiu que tinha muito a descobrir — não apenas sobre o mundo, mas sobre si mesma. E a ideia de conviver mais com aquele grupo não era aterrorizante. Era só uma pequena descoberta. Ainda não era… tentação.

(continua...)

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Comentários

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Acho que o Benício acabou de perder a namorada para o grupo de amigos. Ele vai ser mais um a ficar de fora 🤣🤣

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Com esse aparente encantamento de Verena e a vontade de interagir com o grupo, acho que virão situações que não irão agradar muito ao Benicio. Aguardemos os próximos capítulos.

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Beleza, Astrogilldo. Muito boa essa parte com a entrada dessa nova personagem, que se encaixa no conjunto, como elemento de ligação, entre um lado e outro. Sugere que vai provocar o Benício a viver momentos que ele jamais esperou. Muito bom, embora, se fosse eu, teria colocado um momento de intimidade entre os quatro safados, para tornar a parte um pouco mais erótica, e menos como "elemento de ligação na estrutura completa de história" - Entende o que eu digo? Antes do encontro no Pier, os quatro poderiam ter feito algo juntos o que tornaria esta parte, mais picante e apetitosa, ao leitor de um conto erótico. Mas está muito boa a trama. Parabéns. Notei isto: "Verena chegou vestindo um vestido leve que combinava com seus olhos castanhos". (isso é mais poesia do que prosa, não quer dizer nada, nem a cor do vestido, nem a forma do traje. Parece aquelas frases de efeito que não ajudam a vislumbrar, apenas dão a impressão de fazer sentido. E o leitor que fique com a impressão que quiser. Estou adorando essa sua história.

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Fala,Leon,valeu pelo comentário. Minha ideia na parte do vestido era mostrar uma garota meio previsível,combinada,mas que se mostrou mais que isso depois,mais ou menos isso,pode ter passado batido. Um abraço!

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Astrogilldo. Me desculpe se, em meus comentários, possa passar a ideia de criticar para ver defeitos. É exatamente o contrário, minha intenção é contribuir para que fique ainda melhor. Estou gostando muito dessa trama, personagens muito bem construídos, e também não lógicos, não lineares, e sem serem previsíveis. Cada um com seu próprio perfil, e que se encaixa na trama. Em contos eróticos, (e eu estou há tempo muito nessa estrada) aprendi que o segredo é encaixar, em cada parte, um momento de forte erotismo, pois é isso que torna o conto, dividido em partes, sempre apetitoso e excitante. O erotismo a colocar, pode ser, desde a intenção de um personagem, fantasiando algo com outro, enquanto de veste para um encontro, como poderia ser feito com a Verena, em seu quarto, escolhendo uma roupa íntima, sexy, por baixo do vestido comportado, antes de ir ao encontro do Benício. Isso já dava um toque de sensualidade na descrição da roupa e no perfil da personagem. Muitas vezes, preocupados em desenvolver a trama, e o enredo, nos esquecemos de apimentar esses detalhes. Apenas como dica.

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