Eu olhei aquela mensagem mais umas duas vezes, cheguei a contar os zeros para ver se não tinha visto errado. Mas não, eu enxerguei muito bem desde a primeira olhada. O valor estava ali, e era maior do que eu tinha ganhado no último ano trabalhando para Laura. Aquilo não fazia sentido. Olhei novamente o nome da empresa e, realmente, não reconhecia aquele nome.
Minha cara de espanto foi tão grande que Tamires percebeu e perguntou o que estava acontecendo. Eu mostrei a mensagem a ela e sua reação foi igual à minha. Vi seus olhos se arregalarem enquanto ela conferia a mensagem.
Tamires— Quem te mandou esse dinheiro? Laura?
Camila— Eu não sei, não faço ideia de que empresa é essa, mas acho que Laura não foi. Porém, não conheço ninguém que poderia fazer isso.
Tamires— Como assim? Tem certeza de que não sabe de quem é essa empresa?
Camila— Tenho certeza absoluta, nunca vi esse nome na minha vida. Será que alguém fez um depósito errado?
Tamires— Duvido muito que tenha sido errado, mas podemos procurar saber mais sobre essa empresa. Provavelmente tem algo sobre ela na Internet. Vamos pesquisar.
Tamires já pegou seu celular e começou a pesquisar, e eu fiz o mesmo. Eu realmente estava curiosa, e a ideia de Tamires era muito boa. Talvez encontrássemos alguma coisa. Tamires fez isso muito rápido; ela tinha muito mais prática que eu com o celular. O que ela descobriu respondeu à maioria das minhas perguntas, mas também gerou novas dúvidas.
Tamires— Essa empresa é de SP. Você conhece alguém de lá?
Camila— Conheci um casal de lá neste final de semana.
Tamires— Então provavelmente foram eles que te mandaram essa grana.
Camila— Condições eles têm, mas não têm nem o número do meu telefone, imagina o número da minha conta do banco.
Tamires— O casal é esse aqui?
Ela me mostrou a tela do celular e havia a foto de um casal que eu conhecia muito bem: Eloá e Ítalo. Não havia mais dúvidas; foram eles que me mandaram aquela quantidade enorme de dinheiro. Porém, eu ainda não sabia como. Foi aí que me lembrei de Laura. Eles eram amigos e ela tinha o número da minha conta; provavelmente pediram a ela. Eu iria perguntar a Laura, mas antes perguntei a Tamires como ela achou aquela foto. Tamires explicou que era do Instagram da empresa e, logo nas primeiras fotos, viu a imagem do casal fixada, além de várias outras com eles e outras pessoas ao redor. Como eles sempre estavam no centro, imaginou que eram os donos da empresa. Tamires me passou o celular e falou para eu olhar.
Realmente, ela tinha razão. Havia várias fotos e o casal estava na maioria delas. Algumas imagens eram de lugares dentro da empresa. Dava para ver que Ítalo realmente era muito rico, pois só havia fotos de lugares luxuosos. Eu não sabia se o prédio que aparecia em algumas fotos era dele, mas provavelmente era, já que Eloá disse que ele era dono de uma rede de hotéis. Se isso fosse verdade, Ítalo provavelmente era milionário, ou melhor, bilionário. Bom, isso não importava nada para mim, mas fiquei mais aliviada de ter recebido aquela quantia deles; com certeza era algo que não faria falta para eles.
Saí dos meus pensamentos com uma notificação de mensagem no celular. Era outra do meu banco: outro depósito, mas dessa vez eu sabia quem era, e o montante era bem menor. Laura tinha me mandado meu pagamento, e o valor era o dobro que eu ganhava para ir em uma noite de encontros. Era para eu estar feliz por receber aquele dinheiro, mas parece que o casal estragou um pouco minha felicidade em ter recebido aquele montante de Laura. Antes que eu saísse do menu de mensagens, recebi uma de Laura no WhatsApp. Ela dizia que tinha me enviado meu pagamento e que Eloá havia pedido o número da minha conta para me mandar uma pequena gorjeta. Laura disse que passou, já que eles eram confiáveis, e que, se eu recebesse algum depósito diferente, era por isso. Ela também me mandou um número de telefone, disse que era de Eloá e que ela pediu para eu entrar em contato com ela quando fosse possível.
Agradeci a Laura e disse que não tinha problema ela ter passado o número da minha conta. Não falei que já tinha recebido a "pequena" gorjeta. Salvei o número da Eloá; com certeza, eu entraria em contato com ela ainda naquele dia. Expliquei para Tamires o que tinha acontecido, e ela, toda curiosa, quis saber a minha história com o casal. Contei para ela, e era muito engraçado ver as caras e bocas que ela fazia em algumas partes da história.
Voltei para meu apartamento sozinha; Helena sequestrou Manu para dormir com ela. Assim que cheguei, fui ver se Eloá tinha WhatsApp, e ela tinha. Mandei uma mensagem dando boa noite, me identificando, e pedindo para ela salvar meu número. Não demorou nem cinco minutos e ela me ligou. Conversamos por um bom tempo e tentei explicar que o dinheiro que ela mandou era exagerado, mas ela não parecia entender ou não quis dar atenção à minha conversa. Porém, disse que o dinheiro não era só para mim. Que era metade para mim e metade para Manu. Eu fiquei muito feliz de ouvir aquilo e disse que só 10% para mim estava bom, que o restante eu guardaria para investir na educação da Manu.
Eu realmente iria fazer aquilo. O dinheiro daria para eu bancar os estudos de Manu por um bom tempo. Se juntasse com o que eu já tinha guardado e o que Helena tinha, os estudos da Manu provavelmente já estavam garantidos até ela se formar. Com isso, decidi investir um pouco em coisas para mim. Meu sonho era comprar um carro e, quem sabe, num futuro mais distante, comprar uma casa ou meu próprio apartamento. Foi aí que me lembrei que os apartamentos ali podiam ser comprados.
Liguei para a imobiliária e perguntei exatamente como funcionava a opção de compra. Praticamente, eu iria pagar o mesmo valor que pagava de aluguel. Fiz umas contas e resolvi arriscar. Eu iria comprar o apartamento. O preço era bem salgado, mas as condições de pagamento eram boas. Eu gostava dali e Manu também. Preferi investir em um lugar para eu viver com Manu do que comprar um carro. Eu continuaria trabalhando com Laura até me formar; depois, aceitaria a ajuda dela ou da Sandra para arrumar um emprego. Eu já não era mais uma garota; o trabalho com Laura não me dava segurança, e eu precisava disso, porque tinha alguém que amava muito e que dependia de mim.
A vida seguiu; Eloá agora fazia parte dos meus dias com frequência, não fisicamente, mas por ligações e chamadas de vídeo. Às vezes, ela passava horas no celular, não só comigo, mas com Manu também. Manu agora tinha uma tia de cabelos vermelhos que ela adorava. Ítalo também me ligou; conversamos algumas vezes e ele, como sempre, era muito simpático e educado comigo.
Dias depois de receber aquela quantia em dinheiro, descobri que Nicole também recebeu uma boa grana do casal. Ela me contou em uma visita que fez ao meu apartamento. Pelo que ela me contou, era a metade do que ganhei. Provavelmente, Eloá realmente mandou metade do dinheiro para mim e metade para Manu, já que Nicole só ganhou metade do que eu ganhei. Comentei isso com Nicole, ela disse que fazia sentido e ficou feliz por saber que eu tinha ganhado o dinheiro. Não havia inveja ou coisas assim entre nós; nós duas ficávamos felizes pelas conquistas uma da outra. Talvez por isso eu e ela éramos bem unidas. Já com as outras garotas, não tinha aquela conexão. Nós nos dávamos bem; havia uma certa amizade, mas era diferente da minha com a Nicole. A gente era realmente daquelas amigas que torcem uma pela outra, que convivem o máximo de tempo possível e se divertem muito juntas.
Minhas férias acabaram e eu voltei aos estudos. Tamires estava muito triste nos primeiros dias de aula. O seu namoro não deu certo e ela estava bem triste; parecia que ela gostava muito do ex, mas não queria prolongar algo que ela dizia que não tinha futuro. Seu ex com o tempo, acabou se mostrando muito ciumento e meio machista. Tamires disse que não queria aquilo para a vida dela e terminou o namoro. Eu nunca tinha percebido isso em Andrei, mas nem sempre a gente enxerga o que realmente acontece em um relacionamento olhando de fora. Eu dei meu ombro e meu apoio para minha amiga/irmã, e pouco a pouco ela foi voltando a ser á garota animada e de bem com a vida.
Os meses foram passando e minha vida seguia sem muitas novidades, mas no fim do ano aconteceram duas coisas bastante relevantes para mim. Primeiro, ganhei um carro de presente de Natal. Eu estava no meu apartamento quando o interfone tocou. Fui atender e era o porteiro dizendo que tinha uma entrega para mim e que eu precisava assinar uns documentos. Ele alertou para eu trazer meu CPF e minha identidade. Falei que já estava indo e desliguei. Eu não tinha pedido nada e nem feito compras; provavelmente era algum presente de alguma das meninas, já que era véspera de Natal.
Quando saí do corredor e vi a entrada do prédio, quase caí para trás. Havia um caminhão guincho parado na porta do prédio, com um carro em cima, e por cima do carro, um laço vermelho. Fui andando na direção da portaria sem entender o que estava acontecendo. O porteiro estava conversando com um homem que tinha uma prancheta em uma das mãos e usava um uniforme azul com detalhes em verde. Me aproximei e o porteiro apontou em minha direção. O homem sorriu e disse que tinha uma entrega para mim. Pediu meus documentos e eu entreguei para ele. Ele conferiu algo na prancheta, anotou algumas coisas e pediu para eu assinar um documento de entrega. Eu assinei; ele colocou a mão no bolso e me entregou uma chave, dizendo que eu precisava ir à concessionária para eles me encaminharem para um despachante para eu fazer o emplacamento do carro. Eu disse que tudo bem, mas aquilo saiu meio no automático.
Eu estava meio aérea; aquilo não estava fazendo sentido. Mas, mesmo antes do homem sair para descer o carro, vi Raquel estacionar o carro do outro lado da rua. Ela desceu com um sorriso no rosto. Naquele momento, as coisas começaram a fazer sentido. Raquel perguntou se eu tinha gostado do presente. Eu disse que tinha amado, mas que era demais, que não podia aceitar. Raquel disse que nem era para eu começar com isso, ou ela ficaria muito chateada, e Sandra também. Eu não sabia o que falar ou fazer; ainda estava meio em choque com aquela situação.
Raquel veio até mim e me abraçou, dizendo que eu merecia e que era de coração. Eu não tinha como recusar e agradeci a Raquel pelo presente. Ela desfez o abraço e disse que era um carro simples, mas que pelo menos poderia me levar onde eu quisesse. Eu disse que, pelo jeito, ela e Sandra tinham se cansado de me dar carona. Falei isso sorrindo, para deixar claro que era brincadeira. Raquel sorriu e disse que não era por isso, que elas ainda iriam me dar carona, mas agora eu poderia ir onde quisesse, sem depender delas.
O carro era um Gol 1.6 quatro portas, com uma cor azul bem escuro. Eu realmente amei o presente, ainda mais vindo de duas pessoas que eu gostava muito.
Raquel me disse que ela e Sandra decidiram me dar o carro porque viram que era algo que eu precisava, algo que ajudaria a mim e a Manu. Elas decidiram isso depois que comentei com elas que tinha decidido comprar o apartamento e que continuaria pedindo carona para elas, já que o sonho de comprar um carro teria que ser adiado. Raquel disse que queria comprar um carro melhor, mas Sandra não deixou, por achar que isso iria causar mais gastos. Então escolheram um mais simples, porém que me traria menos gastos. Sandra tinha razão; mesmo com uma boa quantia guardada, eu não queria ficar gastando dinheiro à toa. Eu queria economizar para meu futuro e não tinha nada garantido ainda. Era melhor manter os pés no chão.
Outra coisa que aconteceu, que eu amei, foi que fui convidada a passar uma semana em SP com Eloá. Ela me ligou e disse que precisava da minha ajuda. Eu fiquei sem entender, mas falei que, se pudesse, com certeza ajudaria ela sempre que precisasse. Ela disse que Ítalo iria viajar para o sul do Brasil para passar uma semana de férias lá, e que ela ficaria em São Paulo sozinha. Então, pediu para eu ir passar uma semana com ela e levar Manu para ela conhecer. Ela pagaria as passagens de avião.
Achei aquela proposta meio estranha, mas ficou pior e aí eu entendi o plano do casal.
Antes mesmo de eu dar uma resposta, ela disse que precisava de outro favor: era para eu levar Nicole comigo, pois Ítalo não queria viajar sozinho e pensou nela para acompanhá-lo. Nessa hora, não aguentei e comecei a rir. Eloá deu uma gargalhada do outro lado da linha e perguntou se a história ficou convincente. Eu disse que nem um pouco.
Ela falou que estava brincando, mas que realmente queria que eu e Manu fôssemos à sua casa. Que Ítalo iria mesmo viajar e queria levar Nicole com ele. Perguntou se eu topava. Eu disse que amei a proposta, mas teria que ver com Nicole e se eu poderia levar Manu, já que talvez Helena tivesse feito algum plano envolvendo ela. Eloá disse para eu resolver tudo e, depois, ligar para ela. Mesmo se eu não pudesse levar Manu, ela queria muito que eu fosse. Eu disse que queria muito ir e faria o possível para que isso acontecesse.
No fim, deu tudo certo. Nicole topou sem pensar duas vezes. Manu poderia ir, e dias depois estávamos no aeroporto embarcando para nossa viagem para SP. Eu mal podia esperar para reencontrar Eloá. Com certeza, essa viagem prometia.
Continua…
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
