Após o almoço com Érica, trabalhei a tarde inteira e voltei para o apartamento com a palavra “tempo” dominando meus pensamentos, mas sem uma conclusão específica. Quando estacionei o carro no meu condomínio, uma pergunta martelou minha mente: “o que eu quero com a Wendy?”. Achei curioso nunca ter me perguntado sobre isso tão claramente quanto naquele momento. Eu agia como se deixasse a vida simplesmente rolar enquanto esperava o tempo tomar as devidas providências para o meu futuro.
O “tempo”, então, pareceu ganhar um novo significado.
Será que Wanda e Érica, por caminhos distintos, perceberam que eu continuava vivendo de forma passiva, reagindo ao que a vida tinha para me oferecer? Será que perceberam que, do jeito que estava, eu poderia estar perdendo qualquer chance de um relacionamento mais profundo com Wendy? Será que quiseram abrir meus olhos? Será… tantos “serás”.
Meu coração acelerou um pouco.
Então, de forma providencial, a doce lembrança da gravidez de Aurora me trouxe um pouco de razão e de sentido, me livrando mais uma vez das paranoias reflexivas que costumavam me derrubar em tempos passados.
Aurora era tudo. E a mãe dela também.
E foi justamente aí que outras lembranças vieram à minha mente. Momentos em que precisei me controlar. Momentos em que Wendy parecia se controlar. Pequenas coisas que, até então, eu havia tratado como acontecimentos isolados, mas que talvez fizessem parte de algo maior.
Na verdade, eu também me preocupava com os sentimentos dela. Eu refletia que não deveria ser fácil cogitar um relacionamento com um cara que teve uma história profunda e complexa com suas duas irmãs. E com Adriana. Eu podia entender o lado dela com certa clareza.
Naquele momento, porém, eu ainda não estava pronto para abordar esse assunto. Eu precisava de tempo para entender como fazer isso. Precisava mostrar a Wendy que ela não estava ocupando o lugar de ninguém.
“Tempo”.
Curiosamente, a mesma palavra que havia me atormentado algumas horas antes agora parecia ser minha maior aliada.
Lembro de ter esboçado um leve sorriso.
Talvez a pergunta já não fosse mais o que eu queria com Wendy. Talvez a pergunta fosse outra: será que, enfim, eu estava dando nome ao que sentia pela mãe da minha filha?
No elevador, eu já estava mais tranquilo. Aquela pequena reflexão tinha sido uma das mais assertivas e reveladoras que eu tivera em toda a minha vida. O curioso era que, pela primeira vez, eu conseguira chegar a uma conclusão tão clara sobre algo que não envolvia investimentos. Isso me trouxe ansiedade para entrar logo em meu – nosso – apartamento e ter novos momentos com Wendy.
Quando entrei, ela estava sentada no chão, escorada no sofá, a barriga saliente à mostra, brilhando sob a luz da sala. Na mesinha de centro, o notebook aberto onde participava de uma chamada de vídeo. Vozes femininas – muitas – ecoavam pelo ambiente. Uma algazarra de felicidade.
Ela me viu e abriu o sorriso.
- Oi, Bruno. Estou conversando com minhas irmãs, as meninas, Érica e Bruna…
Franzi o cenho, fingindo surpresa.
- Turma gigante.
- É, né…
Ela estava genuinamente feliz. Podia ver isso em seu rosto. E isso me trouxe uma espécie de paz que já me permitia entender claramente onde eu deveria estar.
- Vem aqui.
Fez um aceno com a mão, me chamando.
- Senta aqui e dá oi pras meninas.
Relutei por um instante. Talvez por conta de situações antigas que já deveriam ter sido esquecidas. Ou talvez já tivessem sido, mas que ainda restassem alguns resquícios.
- Vem…
Ela estendeu a mão e eu fui. Sentei-me ao lado dela.
Quando apareci, todas me cumprimentaram aos atropelos, umas rindo, outras gargalhando.
- Chegou o papai do ano – disse uma.
- O dono do sorriso da Wendy – disse outra, acho que Andréa.
- Assim vocês vão deixar o papai tímido – foi a vez de Érica, essa eu reconheci fácil.
Eu estava bem envergonhado. Não sabia para onde olhar. Mesmo assim, eu já começava a entender que aquilo era apenas meu estado de espírito se acostumando à nova realidade.
- Oi, meninas.
Respondi realmente tímido. Érica tinha razão. Logo emendei outra pergunta:
- Que vocês estão conversando? Ou aprontando?
Mais risadas.
- Segredo de meninas – disse uma, acho que Elaine.
- Algumas surpresas – dessa vez foi a Ana Cristina.
Wendy fingiu-se de assustada.
- Quê? Que surpresa é essa que estou sabendo agora? Se for presente, eu quero!
- Ela adora um presente – escutei a voz de Wanda.
- Anota essa, Bruno – pontuou Érica, para mais gargalhadas.
- Wendy ganhando presente não quer guerra com ninguém – foi a vez de Camila.
Olhei para a mãe de Aurora e ela não parecia envergonhada. Pelo contrário, adorava toda aquela brincadeira e interação. Ela estava muito leve.
Elas continuaram falando e eu pude observar melhor. Até mesmo Wis Nara parecia sorrir, o que me foi surpreendente. No fim das contas, algo ficou muito claro, antes de qualquer outra coisa: Wendy era muito querida e expansiva.
Ali percebi que a mãe da minha filha tinha muito mais que um mundo a ser descoberto. Era um universo inteiro.
- Bom, meninas – interrompi durante uma pequena pausa. – Muito legal a conversa, mas agora preciso tomar um banho e comer. Adorei conversar… ou melhor dizendo, adorei ver a conversa de vocês. Depois vamos combinar mais vezes. Vou adorar.
Elas foram se despedindo. Umas dando tchauzinho, como Wanda, Bruna e Elaine; outras apenas se despedindo com palavras, como Érica e Wis Nara, esta com seu jeito corporativo de ser:
- Até mais, Bruno. Boa noite!
E pela primeira vez, não pensei nada mais do que simplesmente aceitar que aquele é o jeito da irmã caçula de Wendy.
Enquanto ia para o meu quarto, não pude deixar de me surpreender com o fato de que Wis Nara e Érica estavam no mesmo ambiente e não se estranharam. A vida tinha um jeito estranho de fazer as coisas se acertarem.
Ou talvez a resposta fosse apenas uma: Wendy.
Horas mais tarde, eu bati de leve no quarto dela.
- Pode entrar, Bruno.
A voz saiu de imediato, como se já me esperasse. Ela estava deitada na cama, relaxada e de banho tomado. A barriga mais uma vez à mostra. E do lado, uma bisnaga de creme.
- Eu tava só te esperando pra me ajudar – ela disse e abriu um sorriso fofo, meio sapeca.
- Eu adoraria – respondi também de imediato, sem esconder minha felicidade.
Sentei ao lado dela e comecei a passar o creme devagar, com carinho. Eu me certificava que meus dedos passassem por todos os lugares de sua barriga, sem exceção. E sem pressa também.
De vez em quando, eu a olhava e percebia um meio sorriso, seguido de um olhar que me parecia carregado de significado e desejo. E talvez o meu também estivesse retribuindo do mesmo jeito. Era como se um entendesse o que o outro ainda não conseguia dizer.
Aurora se mexeu pouco, mas cada mexida era recebida com uma alegria imensa.
Wendy, então, pousou a mão sobre a minha e se deixou guiar pela minha mão enquanto acariciava sua barriga. Depois, sua outra mão veio em meu rosto, me dando um carinho silencioso.
Fechei os olhos por um instante. Não havia palavras a dizer, só sentir. Quando abri, ela também estava de olhos fechados, mas claramente arrepiada. E também excitada, como eu.
Posicionei-me para deitar do seu lado. Ela abriu os olhos e ajeitou o corpo para ficarmos mais próximos. Sua cabeça pousou sobre meu braço enquanto minha mão, com o apoio da mão dela, ainda continuava acariciando sua barriga.
Não me preocupei em esconder meu desejo. Muito menos ela. Nossos corpos já denunciavam o que tentávamos controlar: os bicos dos seios dela enrijecidos e minha excitação evidente, meu pau bem duro.
Por um instante, nos olhamos. Não havia hesitação em seus olhos, apenas uma faísca que eu também sentia. Não tinha como negar, muito menos ela quis isso.
Aos poucos, aproximei meu rosto e ela pareceu se inclinar levemente em minha direção. Não havia resistência, apenas uma vontade incontrolável. Então, vi seus olhos fecharem e os meus brilharem.
Nossos lábios se tocaram.
Leve, quente, desejoso e delicioso.
Então, Wendy me afastou com pressa e delicadeza ao mesmo tempo. E onde havia faísca segundos antes, agora seus olhos miravam os meus alternadamente.
O seu tique nervoso.
- Eu não me sinto pronta.
Ela falou num sussurro quase inaudível.
- Eu… eu… eu… – só consegui balbuciar.
- Tudo bem – apressou-se a me tranquilizar.
- Me desculpa, Wendy, eu não queria…
- Tudo bem. Tudo bem. Tudo bem – ela só repetia isso.
Agora estávamos um pouco desconfortáveis. Eu me afastei um pouco dela.
- Eu vou beber água – ela disse, já se levantando.
- Eu pego pra você.
- Não precisa. Eu posso ir lá.
Não consegui reagir. Eu me sentia… inadequado. Talvez percebendo meu semblante, ela parou na porta e falou, querendo transparecer alguma normalidade:
- Eu preciso me exercitar um pouco, né?
Deu um pequeno sorriso e saiu.
Respirei fundo.
“O que foi que eu fiz?”, foi a primeira pergunta que me veio à mente. “Será que antecipei etapas?”. Aquele olhar tinha sido sincero. Eu tinha visto. Ela queria. “Por que me rejeitou?”. As perguntas não paravam de surgir. E havia algo pior: o clima tinha ficado muito estranho.
Não quis ampliar a sensação ruim e resolvi voltar para o meu quarto.
Quando estava na porta, ela apareceu no corredor.
- Onde você vai?
Engoli em seco. Por um momento, não soube o que responder. Eu senti um tipo diferente de aflição, de uma forma que nunca houvera sentido antes. E não eram dúvidas sobre sentimentos.
Ela aproximou-se de mim. Eu permanecia travado. Sua mão pousou sobre a minha e, com suavidade, tirou-a da maçaneta.
- Vem pro meu quarto.
Seus olhos encontraram os meus. Sem hesitação.
- Dorme comigo – sussurrou.
A delicadeza de suas palavras sempre me desmontava.
- Aurora vai gostar.
Olhei para ela.
Procurei em seus olhos a faísca de antes, mas o que encontrei era algo muito mais profundo. Aquilo me estremeceu de um jeito diferente, porque parecia a mesma constatação de algo que eu também ainda não sabia nomear.
Ainda.
Quis perguntar se “só Aurora iria gostar”, mas não reuni coragem suficiente para fazê-la. Ela provavelmente percebeu, pois logo me respondeu:
- E eu também.
Isso pareceu tirar um peso dos meus ombros, peso este tão inexplicável quanto a eletricidade que percorreu todo meu corpo.
Fui acompanhando ela até o quarto. Entrei primeiro, depois ela. Em seguida, ela fechou a porta no trinco.
Sentei-me na cama, ainda inseguro. Ela, por sua vez, se deitou.
- Vem.
Mais uma vez o pedido.
- Deixa eu deitar minha cabeça mais uma vez no seu braço.
Deitei ao seu lado, de frente para ela. Ficamos praticamente na mesma posição de antes. Ela pegou minha mão e levou até sua barriga, como se quisesse me dar coragem. E ficou lá segurando-a como se reforçasse que ali eu já tinha permissão.
Voltamos a nos olhar. E mais uma vez havia firmeza em seus olhos. Uma sustentação que ultrapassava palavras e gestos.
Ela acariciou meu rosto. E de novo. E mais uma vez.
Era o que eu queria fazer. Era ela quem precisava, não eu. Mas não reagi. Ela era a dona do momento. Só me restava esperar pelo dia em que ela estivesse pronta.
“Tempo”.
Aos poucos, meus olhos foram cedendo. Juro que antes de cair em sono profundo, eu pude escutá-la falando:
- Não há lugar no mundo em que eu queira estar que não seja aqui.
Adormeci pouco depois, sob o olhar dela e sentindo o seu carinho em meu rosto.
No dia seguinte, acordei sem a presença de Wendy na cama. Eu escutava sons vindo da cozinha. Sorri de leve. Até imaginava o que ela estava fazendo. Levantei-me e fui até ela.
Wendy preparava o nosso café da manhã enquanto cantava baixinho uma música brasileira, algum sertanejo talvez. Por alguns segundos, apenas fiquei observando. Depois de tudo o que havia acontecido na noite anterior, vê-la tão à vontade me trouxe uma sensação estranha.
Não exatamente alívio. Era outra coisa. Como se alguma coisa tivesse mudado entre nós, embora nada parecesse diferente.
Quando me percebeu, abriu um sorriso:
- Enfim, acordou, seu dorminhoco.
- Wendy, ainda é cedo! – eu a corrigi, mas mais zoando que qualquer outra coisa.
- Eu sei, mas eu acordei primeiro.
Ela parecia ter tudo aquilo muito bem planejado.
- O cheiro está bom? – me perguntou cheia de entusiasmo.
- Sim, mas…
Parei enquanto observava tudo o que havia sido preparado. Ela me olhou com expectativa.
- Sou eu quem deveria estar preparando o nosso café da manhã.
O sorriso voltou ao seu rosto.
- Ah, mas você sempre prepara. Quis fazer diferente dessa vez. Espero que goste. Agora que a fase dos enjoos passou, meu olfato está normal.
Relembrei os dias em que ela sofreu com ânsias e vômitos. Não podia sentir o cheiro de comida. Aqueles dias já estavam no passado. Desta vez, ela parecia muito à vontade na cozinha.
- Vou gostar – respondi, por fim.
Tivemos um momento agradável. Conversamos e comemos bastante. Em dado momento, Wendy colocou mais um pouco no meu prato e ficou me observando comer.
- E então?
- Está muito bom.
- Melhor que o seu?
Sorri.
- Definitivamente sim.
- Ah, então vou começar a fazer mais vezes.
- Não mesmo.
Ela franziu o cenho.
- Por quê?
- Porque aí vou ficar mal-acostumado. E você vai ficar mais cansadinha ainda.
- Mas…
- Nada de “mas”, senhorita. O café da manhã é minha responsabilidade.
Pisquei para ela, que sorriu para mim, “derrotada”.
A verdade era que o café da manhã estava excelente, melhor que o meu. Além disso, o que tinha acontecido na noite anterior, não havia se tornado um peso. Obviamente, eu queria perguntar, mas não iria atrapalhar o que ela fez para mim com tanto carinho.
Então, ela começou a me falar de compras a serem feitas, de provas e disciplinas que ainda precisava concluir, de uma consulta à qual teríamos de ir. Também falou, com bastante ênfase, que deveríamos nos preocupar, desde já, com a mala da maternidade e com os documentos que precisávamos separar.
Eu escutei tudo com atenção, apenas assentindo quando apropriado.
- Mais alguma coisa? – perguntei depois de um tempo.
Ela riu e devolveu a pergunta:
- É muita coisa?
Neguei com a cabeça e ela riu mais ainda.
E continuou explicando o que faltava e o que ainda precisava ser feito. Eu escutava com atenção, tentando conter minha admiração por aquela mulher que parecia ter sempre algo novo para me mostrar.
Eu sempre gostei de observar pessoas fazendo aquilo que dominavam. Talvez por isso gostasse tanto de investimentos. Mas havia algo diferente em observar Wendy falando sobre sua própria vida. Eu queria saber mais. Queria entender seus planos, suas preocupações, até as coisas que pareciam pequenas.
Se ela organizava tão bem e de forma tão metódica algo como uma gravidez, eu só conseguia imaginar quando ela pudesse gerenciar o seu próprio hotel e o espaço para eventos corporativos. Sentia-me um homem de sorte naquele momento, mesmo sem tê-la ainda.
Então, um pequeno silêncio se fez entre nós.
Ficamos nos encarando de leve entre olhares furtivos, sorrisos roubados, uma certa timidez no ar, além de uma eletricidade cada vez mais crescente. Parecia haver um prazer em observar o outro, seja comendo, seja olhando de volta.
Havia uma cumplicidade gostosa que eu estava adorando viver dia após dia. E, aparentemente, ela também. Wendy estendeu a mão por cima da mesa e entrelaçou seus dedos nos meus. Não disse nada. Eu também não. Apenas sorrimos.
Mas tive que interromper o momento.
- Quero te falar uma coisa, Wendy.
Eu precisava, o quanto antes. Ela me olhou curiosa.
- Estamos chegando no último trimestre de gravidez. Aurora virá em menos de três meses. Eu quero te deixar e te buscar na faculdade, nas consultas, para onde você quiser ir. Quero estar presente em tudo.
Wendy me estudou por um instante.
- Mas, Bruno, você trabalha e é tão… ocupado. Não quero te atrapalhar.
- Não vai.
Ainda um pouco relutante por minha causa, ela acabou concordando.
- Se não vai te atrapalhar… eu vou adorar. Admito que estou ficando cada vez mais cansadinha…
Eu tinha estudado as dificuldades do último trimestre de gravidez. Eu também sabia que Wendy tinha uma rede de apoio grande, principalmente com minha mãe e Cecília, que sempre apareciam no meu apartamento para dar suporte a ela. Ainda assim, eu também queria estar presente, mesmo ela praticamente admitindo que entenderia se eu não pudesse estar. Só que eu era o pai de Aurora. Eu não queria ficar longe dessa jornada.
Enquanto estava perdido nesses pensamentos, ela disse:
- Wanda quer estar presente no dia do parto.
Arregalei os olhos.
- Não no parto em si – ela tratou logo de se explicar – mas estar presente com nossos pais na maternidade.
Tinha entendido. Um pensamento carinhoso passou pela minha mente. Nada mais Wanda que isso.
- Claro, Wendy. Nem precisava me perguntar.
Falei no automático. Depois percebi que nenhuma pergunta tinha sido feita.
- Quero que seja importante pra você também, Bruno. Você sabe como é a Wanda. Ela quer ajudar sempre. É da própria natureza dela. E eu amo isso, a ponto de me espelhar também.
Antes que ela continuasse com mais explicações, segurei suas mãos.
- É importante pra mim também, Wendy. Como você mesma disse, ela é parte da nossa família. É tia da Aurora. A presença dela só vai fazer bem a nós três.
Wendy sorriu genuinamente.
- Obrigada.
Outros pequenos assuntos surgiram, mas logo terminamos o café da manhã e fomos nos arrumar. Naquele dia começava uma nova etapa da minha vida. Eu estaria mais perto de Wendy, mas ainda precisava aprender a fazer isso sem ultrapassar os limites que ela própria tinha estabelecido na noite anterior. Talvez esse fosse o meu maior desafio dali em diante.
No final da tarde, eu fui buscar Wendy na USP. Ainda sentia um pouco de nostalgia quando estava ali. Por muito pouco, eu não teria concluído Jornalismo também. A dinâmica tinha mudado. Antigamente, alunos andavam mais devagar e aproveitavam para conversar. Hoje, estão mais solitários, sempre observando alguma coisa nos celulares.
Não demorou muito para Wendy aparecer. Ela vinha acompanhada de três pessoas, incluindo Gabriel. “Será que ele fazia Administração também?” Nunca soube muito dele e me perguntei por um momento se isso não era um erro de minha parte.
Eles conversavam alegremente e a risada da mãe de Aurora parecia preencher o ambiente com leveza e doçura. Eu jurava que podia escutar de onde eu estava aguardando. Quando ela me viu, seu sorriso se ampliou. E o meu também.
Ela fez um leve aceno e aproveitou para se despedir dos colegas. Gabriel foi o último e sempre parecia lembrar de alguma coisa para dizer quando Wendy já começava a vir em minha direção. Logo, ele se deu por vencido. Deram um abraço e ele beijou o topo de sua cabeça. Depois, ela veio em minha direção, olhos fixos nos meus.
- Você veio mesmo.
- Eu disse que viria. E virei todos os dias.
Wendy corou um pouco, mas logo disfarçou.
E essa se tornou nossa rotina nas semanas seguintes. Ela e Aurora se tornaram minha prioridade.
Tive que reajustar minha agenda na PHX, mas isso não foi problema com Trajano e os outros sócios. Bruna também passou a filtrar muitas informações e só vir até mim quando fosse algo realmente importante.
Tive que recusar participação em alguns podcasts e até mesmo uma sessão de fotos para uma revista famosa do mundo dos negócios. Eu estava cada vez com menos cabeça para qualquer outra coisa que não fosse minha filha. Felizmente, Bruna deixou reagendadas essas interações para meses após o nascimento de Aurora.
Nesse tempo, aproveitei para concluir o fundo de investimento para Aurora. Trajano e eu montamos toda a burocracia, regulamentos e registros na CVM. Nós três seríamos cotistas desse fundo. Quando tudo estava pronto, levei para Wendy ler e depois assinar. Ela, porém, quis fazer diferente.
- Você tem uma caneta fácil?
Franzi o cenho.
- O quê? – perguntei surpreso – Já quer assinar? Você nem leu nada ainda.
- Confio em você.
- Não é assim que funciona, Wendy. Você precisa ler, talvez tenha algo que queira mudar…
Ela coçou a cabeça.
- Mas deve ser tudo tão confuso, num linguajar que não estou acostumada, tão… burocrático.
Sorri para ela.
- Pois é. Faz parte dos protocolos que devemos seguir.
Wendy não pareceu muito convencida, mas disse que iria ler. Na manhã seguinte, acordei com mensagens de Wis Nara.
> Wis Nara: por que não me chamou para ser cotista do Fundo de Investimento da Aurora?
> Wis Nara: quero entrar
> Wis Nara: a montagem do fundo ficou excelente
> Wis Nara: aprendi coisa nova
> Wis Nara: mandei minha irmã assinar logo
Quando saí do quarto e encontrei Wendy, ela me olhava com um sorriso de orelha a orelha e o contrato nos braços.
- Pronto. Li tudo. Tirei dúvidas com a Wis Nara. E está devidamente assinado.
Fiquei sem reação.
- Mas eu estava esperando você tirar suas dúvidas comigo…
Reclamei, fingindo frustração.
- Você estava dormindo, ué. E minha irmã estava acordadíssima.
Fez uma pausa.
- Também perguntei pro meu pai se eu podia assinar sem olhar.
- E o que ele disse?
Ela sorriu e disse:
- Ele disse pra confiar mais em você do que nele mesmo.
Só pude rir mesmo.
Vendo agora, tão óbvio que tudo aconteceria desse jeito. E no fim das contas, não apenas Wis Nara se tornou cotista do fundo. Minha mãe, Cecília e Wanda também.
As semanas foram passando e a nova rotina foi se estabelecendo. Continuei levando e buscando Wendy nas aulas, nas consultas, em idas ao shopping e passeios pela cidade. Muitas vezes eram só nós dois. Algumas vezes apareciam seus pais, minha mãe, suas amigas, além de Remo e Érica. Não faltava gente ao redor dela, mas eu fazia questão de estar presente sempre.
Na consulta de rotina com a obstetra Dra Isabelle, mais um alívio ao percebermos que tudo estava bem com nossa filha.
A doutora também falou do parto. Apesar de ser defensora do parto normal, ela entendeu os medos e as preocupações de Wendy por querer uma cesárea. Nos sentimos acolhidos e isso foi muito importante.
- Não importa o que você escolher – eu disse, com calma, depois de tudo bem explicado – Eu estarei com você durante o parto. Passaremos por isso juntos.
Wendy assentiu, satisfeita.
- A presença do pai é crucial – a doutora reforçou. – Os primeiros dias pós-parto são realmente complicados pra mãe, ainda mais por ser uma cesárea.
Aos poucos, a barriga começou a pesar. Wendy passou a ter mais dificuldade para dormir, por não encontrar uma posição confortável na cama. Levantar-se passou a exigir um esforço grande. Cansaço, refluxo, dores nas costas e uma necessidade mais frequente de ir ao banheiro passaram a dar as caras. Apesar de tudo, ela tirava de letra toda essa dificuldade, sem baixar o humor.
- Eu ainda consigo ir pra faculdade, viu? Vai dar pra terminar o semestre.
Ela pontuou, talvez percebendo minha preocupação.
- Eu não disse nada.
- Sua cara disse tudo.
Levantei as mãos.
- Sou um santo.
- Sei.
E riamos disso.
Certa noite, Remo, Érica e Bruna passaram o sábado inteiro no meu apartamento. Enquanto as mulheres tiraram um tempo só pra elas, eu e Remo conversamos na varanda.
- Como tá o coração, amigo?
- Carregado de expectativa. Ansioso pela chegada da Aurora.
- Todos nós, Bruno. Todos nós. Vai dar tudo certo, você vai ver.
- Vai sim.
Pensei até que ele fosse me perguntar sobre meu relacionamento com Wendy, mas não fez nenhuma menção mais direta. Talvez fosse melhor assim. Haveria tempo para isso futuramente.
Minha mãe, Trajano e Cecília passaram a aparecer mais ainda, praticamente todos os dias. O que não faltava era apoio e carinho para nós dois, pais de primeira viagem.
Ela também falava diariamente com suas irmãs e suas amigas, seja por ligação ou chamada de vídeo. Ela não me contava muito de suas conversas, mas era evidente o quanto aquelas interações eram recheadas de amor.
Wanda, por sua vez, sempre me mandava uma mensagem perguntando como eu estava, sobre minhas expectativas, se eu estava dormindo e comendo bem. Curiosamente, perguntas que Wendy também me fazia. E que eu fazia a ela também.
Além de tudo isso, eu praticamente me mudei para o quarto dela. Todas as noites eu passava creme em sua barriga. E nós dormíamos – ou tentávamos – com minha mão em sua barriga. Certa noite, eu praticamente dormi sentado para que ela se escorasse em mim e conseguisse dormir. No outro dia, acordei todo quebrado e Wendy percebeu.
- Me desculpa por isso, Bruno.
Ela não tinha jeito.
- Antes eu quebrado do que você e Aurora.
Procurei dar meu melhor sorriso.
- Vou ficar bem, Wendy. Também sou forte.
Fiz o mesmo gesto com o braço, aquela demonstração de força que ela havia feito para mim meses antes, quando fora visitar Bruna. O sorriso que ela me deu em resposta foi sinal de que se lembrou daquele dia.
Quando o parto foi marcado para duas semanas adiante, eu praticamente tirei uma folga da PHX. Wendy, minha mãe e Cecília disseram que eu não precisava fazer isso, que elas poderiam dar conta de terminar de arrumar o quarto de Aurora, de lavar as roupas da bebê, entre outras coisas. Porém, eu me conhecia bem e não me sentiria bem com esse arranjo. Trajano concordou comigo.
- Daremos conta por aqui – ele me tranquilizou. – Sei que sua cabeça está lá. É sua primeira filha e minha primeira netinha. Eu entendo. Passei por isso antes do nascimento de Wanda.
Na semana seguinte, Wendy concluía o semestre na USP e no SENAC. Ela havia passado em todas as cadeiras. Fui com ela para fazer o trancamento da matrícula em ambas as faculdades pelo período de um ano, pelo menos. Quando voltamos para o carro após concluir tudo, perguntei:
- Sensação de dever cumprido?
- Sim. Nossa… – ela deu um suspiro de alívio – Muito sim. Devo agradecer a você por ter me encorajado e me apoiado quando eu sequer imaginava ser possível conciliar uma gravidez e duas faculdades.
Segurei sua mão, feliz com o reconhecimento, mas eu sabia que o que tinha feito mesmo a diferença foi a força de vontade dela.
- Você é mais forte que imagina, Wendy.
Ela parou por um instante, pensativa.
- Eu sei – respirou um pouco. – Mas é sempre bom quando alguém nos lembra disso diariamente.
Fiquei com sua frase na cabeça. Também lembrei do que Wanda tinha dito um tempo atrás. Wendy adorava presentes. Além disso, a mãe da minha filha era organizada, metódica, sempre com suas anotações em cadernos e post-its espalhados pelo apartamento inteiro.
Comecei a pensar no que poderia dar a ela. Eu queria alguma coisa que tivesse a ver com Wendy, não apenas algo bonito ou caro. Depois de algumas ideias, contei com a ajuda de Bruna para encontrar exatamente o que procurava.
Preparei um pequeno box. Dentro havia um planner executivo de couro e uma caneta-tinteiro metálica, preta, com alguns detalhes discretos em dourado. Os dois tinham o nome dela gravado: Wendy.
Na primeira página do planner, deixei uma dedicatória:
“Para você colocar no papel tudo aquilo que ainda vai conquistar. Bruno.”
Quando entreguei a caixa a Wendy, pouco antes de dormir, sua felicidade era genuína.
- Oba! Eu AMO presentes…
“Bom confirmar na prática”, pensei, sem esconder meu sorriso.
Ela abriu a caixa. Primeiro encontrou o planner. Depois, a caneta. Passou os dedos pelo couro, observou o nome gravado e, em seguida, abriu a primeira página. Leu a dedicatória com atenção. Seus olhos percorreram as palavras mais de uma vez antes de voltar para mim.
- Você escolheu sozinho?
A pergunta saiu carregada de surpresa.
- Claro.
- E como você sabia que eu gostaria?
Dei de ombros.
- Presto atenção em você.
Ela baixou os olhos, um tanto corada. Por alguns segundos, ficou em silêncio, passando novamente os dedos sobre a capa do planner.
- Gostou? – foi minha vez de perguntar.
- Muito – fez uma pausa. – Muito mesmo.
Ela ergueu os olhos novamente.
- Mas… por quê?
- Porque você vive anotando tudo.
Wendy sorriu.
- Você realmente presta atenção em mim, hein?
Sorri de volta.
- Tento.
Ela aproximou o planner do peito por um instante.
- Obrigada, Bruno.
- Espero que ajude.
- Vai ajudar sim.
Pouco depois fomos dormir. Eu podia jurar que Wendy ainda sorria enquanto tentava pegar no sono.
Nos dias que antecederam o parto, Wendy e eu conferimos a mala da maternidade e os documentos necessários trocentas vezes. Eu fui à maternidade algumas vezes também para confirmar o agendamento e o pagamento, além de me certificar com toda equipe médica.
Um dia antes, uma quarta-feira à noite, uma comitiva chegou no meu apartamento: minha mãe, Trajano, Cecília e Wanda, que tinha acabado de chegar de viagem. Ficamos na sala conversando e relembrando bons momentos. Wis Nara também participou por videochamada por um tempo.
Minha mãe trouxe uma foto minha de quando eu era bebê. Cecília, por sua vez, trouxe uma de Wendy. O debate foi saber com quem Aurora mais se pareceria. O resultado foi que todos acharam que ela seria um misto dos dois.
- Eu prefiro que puxe 100% a mãe – eu disse, para gargalhada de todos.
Wendy me confidenciou, muito tempo depois, que esse foi um dos momentos mais dóceis e agradáveis que teve em sua vida. E eu senti o mesmo.
Quando fomos dormir, Wendy me perguntou:
- Tá com medo?
Eu acariciava sua barriga naquele momento.
- Não.
- Eu estou.
Ela fez uma pausa curta antes de continuar.
- Um pouco, mas estou.
Seus olhos lacrimejaram.
- É normal ter medo, Wendy. Não vou invalidar e nem fazer pouco caso do seu sentimento. Só posso garantir o mesmo de sempre: estarei com você em todos os momentos. Estarei com você no parto, segurando sua mão. Você não estará sozinha, meu amor.
Ela arregalou os olhos, surpresa. Naquele momento, não entendi sua reação. Talvez fosse um reflexo por estar com medo. Ela também não fez questão de explicar. Só muito tempo depois eu descobriria o quanto aquele momento havia sido importante para ela.
Dormi sentado mais uma vez, com Wendy escorada em mim, na única posição que ficava minimamente confortável para ela. A rotina da manhã foi a de sempre, exceto que – acredite se quiser – verificamos a mala da maternidade mais algumas vezes.
Por volta de 11h, partimos para a maternidade. Havia chegado o dia de Aurora nascer.
O trajeto até a maternidade pareceu durar horas, mas foram apenas alguns minutos. Eu olhava para Wendy e, de vez em quando, para a barriga que havia acompanhado durante tantos meses. Aurora estava ali dentro. Em poucas horas, minha filha viria ao mundo. Não conseguia pensar em outra coisa.
Quando chegamos, fomos encaminhados para os procedimentos de internação. Como tudo estava previamente agendado, não demorou muito. Wendy foi preparada para a cesárea e, pouco depois, entramos na sala de cirurgia.
A equipe médica fez os últimos preparativos, incluindo a aplicação da anestesia. Ela permanecia acordada e eu fiquei ao seu lado, próximo à sua cabeça, segurando sua mão. Ainda assim, parecia não ser suficiente para acalmá-la. Ela apertava meus dedos com uma força impressionante.
Dra. Isabelle apareceu ao nosso lado.
- Pronta, Wendy?
Ela olhou para a doutora e assentiu, trêmula. Isabelle percebeu o nervosismo.
- Vai dar tudo certo. Pode confiar em mim e na equipe, tá bem?
- Eu confio.
Wendy então olhou para mim, como se quisesse um encorajamento a mais. Apertei sua mão.
- Estou aqui – sussurrei.
Dra. Isabelle sorriu de leve.
- Confie nele também. Ele parece ser o mais confiante aqui.
Sorri, mas a verdade era que eu estava longe de estar tranquilo.
Pouco depois, a cesárea começou.
Eu não conseguia enxergar o que acontecia do outro lado do campo cirúrgico, mas percebia cada movimento de Wendy. Ela não parecia sentir dor, mas vez ou outra fazia uma expressão diferente, como se percebesse os puxões e as pressões do procedimento.
Eu continuava segurando sua mão.
- Está tudo bem? – perguntei.
Ela assentiu.
- Estou com medo.
- Eu sei.
Passei o polegar sobre sua mão.
- Mas eu estou aqui.
Ela respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos. Não sei quanto tempo passou. Talvez poucos minutos. Para mim, pareceu muito mais.
Então ouvi a voz da Dra. Isabelle:
- Bruno, quer ver sua filha nascer?
Meu coração disparou. Olhei para ela sem saber exatamente o que responder.
- Quero – foi tudo o que consegui dizer.
Alguns instantes depois, vi surgir uma pequena criatura, ainda molhada e avermelhada, com sinais do parto.
E então veio o choro. O primeiro de Aurora.
Foi como se todo o resto daquela sala tivesse desaparecido. Eu simplesmente não consegui segurar a emoção. Wendy também chorava.
A equipe fez rapidamente os primeiros cuidados e avaliações, e, percebendo que estava tudo bem com nossa filha, aproximou Aurora de Wendy.
Ela olhou para a nossa filha como se tentasse memorizar cada detalhe daquele rostinho. Depois a beijou. Um beijo delicado, demorado, cheio de lágrimas. Eu me aproximei e também beijei Aurora.
Minha filha.
Nossa filha.
Eu não sabia explicar o que estava sentindo. Era alegria, alívio e amor. Tudo ao mesmo tempo.
Tentei pegar meu celular para tirar uma foto, mas minha mão tremia tanto que mal conseguia segurá-lo. Uma das enfermeiras percebeu minha dificuldade.
- Deixa que eu tiro.
Entreguei o celular a ela.
Ela tirou algumas fotos de nós três.
Depois, olhei para aquela imagem na tela por alguns segundos. Wendy chorando. Aurora nos braços da mãe. E eu ali, ao lado das duas. Aquela fotografia parecia resumir tudo.
Em seguida, Aurora foi levada para os primeiros cuidados enquanto a equipe continuava o procedimento com Wendy. Eu continuei ao lado dela, segurando sua mão.
A cirurgia ainda não havia terminado, mas, para mim, a parte mais importante já tinha acontecido. Nossa filha tinha vindo ao mundo. E Wendy estava bem.
Depois de algum tempo, fomos encaminhados para a recuperação. Permaneci ao lado dela enquanto os profissionais continuavam acompanhando seus sinais e os de Aurora.
Quando finalmente fomos para o quarto, minha mãe, os pais de Wendy e Wanda já nos esperavam. Todos estavam ansiosos. Todos queriam conhecer Aurora.
Não demorou muito para duas enfermeiras aparecerem empurrando o pequeno berço transparente onde nossa filha estava. Uma delas cantarolava baixinho uma música de Roberto Carlos.
🎶 Eu tenho tanto / Pra te falar / Mas com palavras / Não sei dizer / Como é grande / O meu amor / Por você 🎶
Foi o suficiente para que todos chorássemos.
Minha mãe levou as mãos ao rosto. Os pais de Wendy se aproximaram, emocionados. Wanda sorria ao mesmo tempo que lágrimas caíam de seus olhos.
Eu olhei para Wendy. Ela olhou para mim. Nenhum dos dois disse nada. Não era necessário. Aurora estava finalmente entre nós.
No dia seguinte, voltamos para o nosso apartamento. Havia muita felicidade e emoção. Eu via Aurora como uma luz que iluminava nossa vida e nossos corações. Ela chegou tranquila e dorminhoca, com seus cabelinhos pretos e sua pele branca, ainda com muitos tons rosados.
O quarto dela parecia o mesmo, mas já não era. Ela estava deitada no berço, cercada por roupas minúsculas, fraldas, a cadeira de amamentação e uma quantidade absurda de coisas que eu sequer sabia que um bebê precisava.
Minha mãe e Cecília debatiam para saber se minha filha parecia mais comigo ou com Wendy. Havia muitos traços de nós dois, principalmente quando comparávamos com nossas fotos de bebê. Cecília também trouxe fotos de Wanda e de Wis quando eram recém-nascidas. E, curiosamente, achei Aurora a cara de Wis Nara, mas não comentei.
Apesar desse dia de aparente tranquilidade, os primeiros meses de Aurora foram complicadíssimos. Em muitas noites, ninguém dormia. Wendy, mesmo no resguardo, tentava amamentar, mas a bebê parecia sempre insaciável e irritadiça, sem conseguir pegar o peito. Por isso, antecipamos a consulta com a pediatra – Dra Jordana. Ela já havia indicado que Aurora precisaria começar a tomar fórmula. Assim, as mamadeiras preparadas entraram na nossa rotina a cada três horas.
Não foram poucas as vezes em que eu tive que andar pela casa com Aurora no colo enquanto Wendy descansava, muitas vezes exausta e chorosa por tamanha estafa. Nossa sorte foi contar com nossas mães, que quase sempre estavam presentes, muitas vezes passando a noite no nosso apartamento, nos permitindo dormir também.
Minha rotina foi ficando mais pesada, principalmente porque comecei a passar mais tempo no apartamento. Eu queria ser útil, muito embora Wendy e nossas mães sempre tomassem a dianteira. Ainda assim, eu queria acompanhar de perto. Apenas ver Aurora fazia meu dia valer a pena.
Certa vez, Trajano me chamou para almoçar. Acho que foi a pedido das nossas mulheres.
- Você precisa relaxar mais, Bruno. Sei que, no fundo, você não quer deixar tudo nas mãos de Wendy. Sei também que você odeia ser injusto com algo ou com alguém. Mas confie em mim, seu amigo, quando digo que Wendy está feliz. Ela sente que essa é a missão da vida dela. Ela precisa disso.
Assenti, mas baixei os olhos.
Trajano então contou como foi no nascimento de Wanda e que teve sentimentos idênticos aos que eu estava tendo.
- Sabe… – ele continuou – Wendy me lembra a Cecília cuidando da Wanda. Aquela concentração máxima, dedicação… eu também tentava ser útil e nunca achava que estava fazendo o suficiente.
Continuei olhando com atenção.
- O que você precisa entender, Bruno, é que você não está sendo mais pai por tentar controlar tudo.
Ele parou por um instante, como se quisesse que aquilo assentasse em mim. Depois, completou:
- Você já é um pai incrível. O melhor pai que Aurora poderá ter.
Apesar de continuar incomodado, aquela conversa tinha me feito mais bem do que mal. Comecei a dividir melhor meu tempo. Não significava que eu deixaria de estar presente. Apenas percebi que Wendy não precisava que eu estivesse ao lado dela a cada segundo.
Aos poucos, passei a frequentar mais a PHX, apesar de manter o compromisso de, fora do horário comercial, estar sempre com Wendy e Aurora. Disso eu não abria mão.
Nesse período, também acabei me dedicando a um novo hobby. Anos depois, eu surpreenderia Wendy com isso.
Em algumas noites, quando Aurora finalmente dormia, nós dois ficávamos na sala, exaustos demais para fazer qualquer coisa. Às vezes, Wendy tentava estudar enquanto eu trabalhava no notebook. Outras vezes, simplesmente assistíamos a alguma coisa sem realmente prestar muita atenção.
Certa noite, ela apoiou a cabeça no meu ombro. Fazia um tempo que não tínhamos um gesto assim. Eu sequer pensava no que sentia por Wendy. Não havia espaço para isso.
- Bruno?
O sussurro me tirou de uma espécie de transe.
- Hum?
- Você está cansado?
- Muito.
- Eu também.
Ficamos em silêncio. Depois de alguns minutos, ela segurou minha mão.
- Obrigada.
- Pelo quê?
- Por estar aqui.
Eu sorri.
- Onde mais eu estaria?
Ela não respondeu. Apenas apertou minha mão, entrelaçando seus dedos nos meus.
Pouco depois, Aurora começou a chorar no quarto. Nós dois nos levantamos ao mesmo tempo. Wendy riu da nossa sincronia.
- Você vai?
- Você vai? – devolvi a pergunta, meio no automático.
- Vou.
- Então vamos juntos.
E fomos. Não havia cansaço que nos impedisse de cuidar da nossa filha.
Com o passar dos meses, percebi que Wendy também havia começado a organizar a vida pensando em nós três, como uma unidade. Consultas, compromissos, horários de Aurora, minhas reuniões na PHX, as visitas das nossas mães. Aos poucos, aquilo deixou de ser uma agenda dela e uma agenda minha. Era simplesmente a nossa rotina.
Quando Aurora já estava perto de completar seis meses, ela começou a ganhar bastante peso e as cólicas diminuíram, apesar de ainda haver dificuldade para dormir. Ainda assim, isso permitiu que Wendy tivesse mais tempo para cuidar de si.
Ela contratou uma personal trainer e passou a fazer atividade física seis vezes na semana, na academia do nosso condomínio. Também deixou o cabelo crescer, criando um novo visual que me pareceu bastante sedutor. Suas roupas voltaram a servir e sua autoestima estava nas alturas. Aos poucos, ela começava a projetar sua vida para quando Aurora começasse a ir para a creche e, depois, para a escola.
As faculdades. E o seu sonho profissional.
Eu já sabia quais eram os planos dela. Sabia quais disciplinas ela ainda precisava concluir, quais áreas da carreira queria explorar e até quais eram os sonhos mais ambiciosos que ainda guardava para depois. O que ela não sabia é que eu também já começava a me preparar para esses sonhos.
A verdade é que eu ficava feliz por ela, empolgado até, mas também incomodado, porque lembrava de Gabriel presente na faculdade. Torcia para que ele tivesse seguido em frente com a própria vida, avançando nas disciplinas, como se eu soubesse qualquer coisa da vida dele.
Perto de completar um ano, Aurora nos deu um susto tremendo. Ela passou vários dias com febre altíssima, a ponto de precisar ser internada. Eu e Wendy ficamos o tempo todo na emergência, com o coração na mão.
- Ela vai ficar bem, Bruno?
A pergunta veio vacilante, quase sem força.
- Vai sim. Eu tenho certeza.
Mas eu não tinha tanta confiança assim. Ela percebeu e demos as mãos, esperando por notícias melhores.
Alguns dias depois, Aurora recebeu alta. Os médicos confirmaram que foi uma gripe forte, descartando qualquer outro tipo de infecção.
Veio o aniversário de um ano de Aurora e foi uma festa imensa no jardim da casa de Trajano e Cecília. Wendy, para variar, cuidou de tudo e teve ajuda de suas fiéis amigas. Wanda se fez presente com seu namorado Lorenzo Cassano. Wis, por sua vez, não pôde comparecer devido a compromissos estudantis e profissionais nos Estados Unidos. Remo e Érica também apareceram.
- Você parece em paz, apesar de cansado – disse Remo, quando ficamos a sós.
- Tudo tem valido a pena, amigo.
- Tudo ou quase tudo?
A pergunta veio inesperada para mim. Fazia tempo que não pensava a fundo nos meus sentimentos. Cuidar da minha filha ocupava quase todo o meu tempo. E no restante, havia PHX e os sonhos de Wendy.
Eu realmente não sentia falta de nada. Ou pelo menos acreditava nisso. Minha filha estava saudável, Wendy estava feliz e nossa rotina, apesar de cansativa, funcionava.
- Não temos tempo para pensar em romance, cara – pontuei, ainda assim.
- Quem falou de romance?
O sorriso dele não disfarçava a intenção.
- Você vai ver quando tiver um filho com a Érica. Não sobra muito tempo para pensar em outra coisa no primeiro ano.
Vi que o semblante dele mudou um pouco. Uma pequena tensão surgiu em seu rosto, mas logo passou. Não insisti nessa percepção e logo mudamos de assunto.
Nos meses seguintes, porém, outra preocupação começou a surgir.
Começamos a perceber que Aurora não acompanhava exatamente o desenvolvimento esperado para sua idade. Éramos pais de primeira viagem e não tínhamos experiência suficiente para distinguir o que era apenas uma característica dela e o que merecia atenção. Ela demorava mais que outras crianças para andar e balbuciar as primeiras palavras, e isso começou a nos preocupar.
Foram necessárias consultas com a pediatra e muita observação até entendermos que aquele atraso poderia ser apenas uma característica da nossa filha. Não paramos de estimulá-la e, no dia em que Wis Nara veio dos Estados Unidos para conhecer a sobrinha, Aurora andou pela primeira vez e falou sua primeira palavrinha:
“Papá”.
A alegria foi imensa.
Assim como foi surpreendente notar o vínculo instantâneo, profundo e transcendental que existiu entre Aurora e Wis, algo que não existia com mais ninguém, nem mesmo comigo ou com Wendy. Era como se elas já se conhecessem desde sempre. Foi emocionante conhecer uma outra Wis Nara: mais doce, mais derretida e mais amorosa.
Por um instante, achei que Wendy pudesse se incomodar com isso, mas ela ria de orelha a orelha. Lembrei do que sempre achei do vínculo das irmãs. Era maior que qualquer outra coisa, até mesmo eu.
Nos meses seguintes, Aurora continuou avançando na caminhada e na fala. O “mamá” veio tão naturalmente quanto o “papá”. E passou a ser mais frequente também. Porém, isso não me incomodava. Muitas vezes, eu ficava encostado na parede apenas admirando aquela relação entre mãe e filha. Eu sentia algo próximo de realização.
Quando Aurora fez um ano e meio, ela entrou na creche. No primeiro dia, fomos nós três. Ela estava linda, minha mini-aluninha. Quando entramos no local, uma coordenadora veio ao nosso encontro.
- Então essa é a pequena Aurora?
Wendy assentiu, sorridente e cheia de expectativa. A coordenadora continuou:
- Como ela é linda.
Depois olhou para nós.
- Que família linda.
Engoli em seco, mas Wendy pareceu satisfeita com o comentário.
- Quando Aurora vai ganhar um irmãozinho ou uma irmãzinha?
A pergunta saiu sem filtro. Wendy arregalou os olhos, surpresa. Depois olhou para mim, sem reação. Eu simplesmente sorri e respondi:
- Em breve.
Wendy me olhou espantada, mas não pareceu chateada. Pelo contrário.
No carro, depois de deixar Aurora, Wendy perguntou:
- Estava falando sério?
Eu sabia do que ela falava, mas quis me fazer de desentendido.
- Do que?
- Sobre ter outro filho em breve?
Sorri por dentro.
- Sim.
- E quem seria a mãe?
- A mãe da Aurora. Quem mais poderia ser?
Ficou um silêncio no carro. Não era pesado, mas carregado de expectativa não dita.
- E como seria isso?
- Estou vendo o melhor momento.
Ela riu e depois ficou pensativa. Não insisti mais. Eu tinha gostado daquela abertura. Naquele momento, senti que talvez tivesse chegado a hora de começar a pensar seriamente sobre nós dois.
Nesse período, Wendy voltou para as duas faculdades. Ela queria ir dirigindo, mas, nesse momento, eu fiz questão de deixá-la e buscá-la. Nessas ocasiões, uma de nossas mães – ou as duas – ficavam com Aurora.
- Não precisa, Bruno.
Eu nem respondia. Meu sorriso parecia desarmá-la.
No primeiro dia em que fui buscá-la, ela me aguardava, mas desta vez, só ela e… Gabriel. E mais uma vez, a conversa não parecia denunciar nada mais que amizade. Ainda assim, me incomodava.
Quando ela entrou no carro, perguntou:
- Tudo bem?
- Sim.
Mas estava mesmo?
Nas semanas seguintes, acabei sendo vencido pela insistência de Wendy em ir sozinha para as faculdades. Percebi que havia uma ânsia em dirigir seu carro e ter sua própria liberdade e seus momentos sozinha.
Não vou negar que senti receio, ainda mais sabendo que ela poderia estar ou encontrar Gabriel. Na realidade, eu não conseguia entender de onde vinha essa preocupação, já que Wendy sequer demonstrava qualquer sinal de estar interessada em outro homem.
Nós quase sempre estávamos em contato por mensagens. Sempre falávamos sobre Aurora e, cada vez mais, falávamos de nós. Ela sempre perguntava como estava meu dia e aproveitava para contar as aulas que estava tendo e como isso seria importante para os eventos que ela pretendia gerenciar no futuro.
Só me restava confiar e esperar o momento certo para confessar a ela tudo o que sentia.
Nesse tempo, a PHX lançou seu primeiro ETF em renda fixa e o seu primeiro fundo imobiliário focado em logística. O lançamento veio com pompas, num badalado espaço para eventos da cidade. Contratamos uma empresa gestora de eventos e Wendy liderou o processo, sendo o vínculo entre a PHX e a empresa contratada.
Foi um momento importante para a minha empresa. Pela primeira vez, começávamos a ser vistos não apenas como uma empresa de investimentos, mas como uma gestora capaz de criar produtos próprios.
Eu também comecei a participar de podcasts para falar desses novos lançamentos. Minhas redes sociais passaram por uma repaginada, focando mais em investimentos e na minha vida profissional. Passei a ganhar muitos seguidores. Também fui capa de pelo menos duas revistas importantes do mundo dos negócios. Numa delas, eu era chamado de “o cara do momento”.
Certa vez, Wanda me mandou uma mensagem falando sobre isso:
> Wanda: você exala conhecimento e confiança, Bruno
> Wanda: por isso é o cara do momento 😅
Mas enquanto minha vida profissional parecia avançar em uma velocidade impressionante, a vida pessoal de Wanda seguia outro caminho. Ela havia terminado com Lorenzo. Quando perguntei o motivo, ela deu de ombros, sem entrar muito em detalhes.
- Não estava dando mais certo – disse, durante uma chamada de vídeo comigo e Wendy.
Tempos depois, foi noticiado que Adriana e Ricardo estavam se divorciando. Eu nem sabia que eles haviam se casado. Os motivos do término não foram noticiados, mas boatos falam em traição da parte dele e que Adriana havia ganhado muito dinheiro devido a um acordo pré-nupcial. Soube também que ela havia saído da XP e estava sem emprego no momento.
Numa noite, algumas semanas depois, enquanto brincávamos com Aurora, Wendy me contou que Adriana estava indo visitar Wanda, na Itália.
- Espero que elas se acertem.
Foi tudo o que consegui falar.
Não vou negar que pensamentos daquela noite – nós três no meu antigo apartamento – me atravessaram, mas logo os dissipei de minha mente. O sorriso de Aurora veio no mesmo momento para me mostrar o que eu realmente deveria me importar dali para frente.
Enquanto isso, Wis Nara seguia por um caminho completamente diferente. Ela estava prestes a se formar. E entre nós, já não havia aquela barreira do passado. Voltou a ser comum ela tirar dúvidas comigo, principalmente sobre o mercado brasileiro de investimentos. Ela continuava firme e forte com Tyler e estava estagiando na BlackRock, em Nova Iorque.
Remo e Érica continuaram presentes em minha vida, mas havia uma preocupação crescente no semblante do meu amigo. Uma vez o questionei, mas ele tergiversou.
- Problemas no trabalho.
- E você trabalha? – brinquei.
Ele deu um riso sem graça.
- Ser representante do meu pai nem sempre é só vantagem.
Por outro lado, Érica parecia mais carinhosa que nunca com ele.
Fiquei pensando se havia acontecido algum problema ou desentendimento na relação complexa que eles tinham com minha mãe, Trajano e Cecília. Porém, quando estávamos todos juntos, não parecia haver nada de errado.
Uma vez, Érica nos chamou para jantar porque disse que tinha um assunto para nos falar em primeira mão.
No restaurante, ela e Remo nos contaram que iriam se casar. Ambos exibiam, orgulhosos, os anéis de noivado. Wendy e eu não escondemos nossa felicidade.
Voltando para casa, Wendy me perguntou:
- O que você achou do noivado deles?
- Aconteceu no momento certo – respondi, sem pestanejar.
Ela ficou em silêncio por um instante antes de perguntar.
- Há quanto tempo eles namoram?
- Hum… entre ida e vindas, acho que faz uns seis ou sete anos.
- Muito tempo.
A frase saiu mais como um pensamento do que como algo que ela realmente quisesse que eu ouvisse.
- Eles só oficializaram aquilo que já viviam no dia a dia.
- Como assim?
- Às vezes, um pedido de casamento é só uma formalização. Eles já viviam em noivado há muito tempo.
Senti que ela queria me perguntar algo. Percebi sua expectativa. Aguardei, mas ela preferiu voltar para seus próprios pensamentos. Achei melhor assim. Havia algo que eu queria fazer antes de abrir todos os meus sentimentos para ela.
E a verdade era que nós não éramos tão diferentes de Remo e Érica. Eu sabia disso. Provavelmente ela também.
Os próximos dias foram muito intensos na PHX. Com o sucesso do lançamento do nosso ETF e do Fundo Imobiliário, meu nome passou a ser muito mais requisitado. Porém, eu havia me colocado diante de outro objetivo. Algo importante para mim, em todos os níveis da minha vida.
O projeto da minha vida.
Quando comentei com Trajano, ele abriu um sorriso amplo.
- Eu tinha pensado nessa ideia muito tempo atrás, mas… não consegui dar viabilidade.
- Eu consigo.
Respondi prontamente. A satisfação no rosto de Trajano era visível.
- Quero estar presente – ele disse.
- Eu já contava com isso.
Foi fácil combinar com nossos outros dois sócios para que eles absorvessem a demanda crescente que a PHX estava tendo, permitindo que eu e Trajano nos dedicássemos ao novo projeto.
Nos dias seguintes, fizemos diversas reuniões à porta fechada. Analisamos diferentes estruturas para o novo negócio: a estrutura de capital, as alternativas de financiamento, os possíveis parceiros e a composição societária, tanto na constituição quanto na evolução futura do empreendimento.
Não queríamos apenas levantar o capital necessário. Precisávamos construir uma estrutura que pudesse crescer.
Ao final dessas reuniões, constituímos a PHX Hospitality SPE Ltda, uma Sociedade de Propósito Específico criada para desenvolver e deter um novo empreendimento.
Quando terminamos a primeira etapa da estruturação, Trajano recostou-se na cadeira e sorriu:
- Muitos ficarão chateados por não serem sócios dessa SPE.
- Eu sei.
E ele tinha razão.
Apresentamos a estrutura a investidores estratégicos e a instituições relevantes do mercado. A resposta foi rápida. Em pouco tempo, conseguimos reunir os sócios necessários para colocar o projeto de pé. Entre eles, destacavam-se XP e BTG, que, juntas, subscreveram quase 30% do capital da SPE.
A PHX detinha, sozinha, outros 30%.
Os 40% restantes ficaram distribuídos entre os demais investidores estratégicos que haviam acreditado no projeto.
A estrutura estava montada. O capital estava comprometido. Os parceiros estavam definidos entre importantes nomes do mercado de investimentos. Mas o martelo ainda não estava batido.
Faltava uma coisa.
Precisávamos encontrar o imóvel certo. O empreendimento que seria o coração da SPE. E, dessa vez, eu não poderia escolher sozinho. Nem Trajano.
Precisávamos dela.
Wendy.
Precisávamos descobrir o que ela realmente queria. Porque todo esse esforço era por ela. Pelo sonho dela.
Minha ideia era que, sem que ela soubesse o motivo, eu a levasse para conhecer alguns estabelecimentos em São Paulo. Queria ouvir suas impressões, entender o que chamava sua atenção, o que ela mudaria, o que considerava importante e, principalmente, descobrir onde ela conseguia enxergar aquilo que ninguém mais estava vendo.
Depois disso, haveria uma segunda etapa.
Eu pediria que ela colocasse tudo no papel. Só então saberíamos se aquela ideia tinha viabilidade como negócio. E, se tudo desse certo, a PHX Hospitality SPE teria finalmente o que havia sido criada para ter: um empreendimento.
Mas, antes de tudo isso, eu precisava levar Wendy para passear.
Voltando do trabalho, cheguei ao meu condomínio já pensando no que precisava fazer no dia seguinte. Queria combinar uma espécie de “day off” com Wendy. Inclusive, já tinha combinado com minha mãe que ela passaria o dia com Aurora. Aquele tempo só nosso seria importante para entender melhor o tipo de empreendimento que Wendy gostaria de ter.
Ao entrar no apartamento, porém, uma voz masculina dominou o ambiente, falando alguma coisa e depois rindo.
Demorei a me situar.
Então vi Wendy sentada no sofá, com o notebook em seu colo. Ela participava de uma chamada de vídeo.
Antes que eu analisasse mais, ouvi a risada dela – aquela que eu gostava.
- Ah, Gabriel, isso é muito engraçado mesmo…
Engoli em seco, tentando controlar minha frustração e meu ciúme.
Ela me viu e abriu um sorriso.
- Bruno!
Havia entusiasmo na sua fala.
- Oi.
Falei num sussurro.
- Eu só estou terminando uma reunião com o Gabriel, tá? Depois quero falar contigo…
Assenti levemente.
Fui à cozinha, lutando contra uma sensação de derrota que queria me dominar. Abri a geladeira e enchi um copo d’água, mas não consegui beber. Respirei fundo para ver se me ajudava, mas também não obtive resultado.
Também procurei não escutar o que eles falavam, mas não havia como. As vozes chegavam cristalinas aos meus ouvidos. Eles falavam sobre orçamento, recibos e planejamento contábil. E depois uma fala dele me gelou:
- Sua empresa vai ser um sucesso, Wendy.
“Ela tinha compartilhado o sonho com ele?”, me perguntei.
Eu queria sair, ir para o meu quarto, continuar a vida, quando lembrei de Aurora. Onde ela estava? Voltei à sala e perguntei baixinho por ela.
- Está lá embaixo, passeando com minha mãe – ela respondeu.
Fiz um aceno com a cabeça e fui para o meu quarto. Sentei na cama, procurando me acalmar.
Pouco tempo depois, escutei Wendy finalizando sua conversa com Gabriel. Pela forma como falavam, não havia nada além de dois amigos se despedindo. Ainda assim, me incomodava bastante.
Tão logo terminou, ela veio ao meu encontro.
- Bruno? Cadê você?
- Aqui, no meu quarto…
Quando me viu, sua expressão ficou preocupada.
- Aconteceu algo? Sua cara está estranha.
- Ah…
Relutei por um instante.
- Coisas no trabalho.
- Tem certeza?
- Tenho.
Resolvi mudar logo de assunto.
- O que você queria me falar?
- Então…
Ela sentou-se ao meu lado, cheia de expectativa.
- Eu contei pro Gabriel que vou montar uma empresa de gestão de eventos e, como ele está se formando, chamei ele para me ajudar. Claro, eu pagarei pelos serviços dele.
Olhei para ela e não resisti em perguntar.
- Você contou seu sonho pra ele?
- Sonho?
Ela me olhou confusa.
- Do hotel? Do espaço pra eventos? O sonho que envolve meu pai e você?
Fiz que sim com a cabeça.
- Não. Isso não. Isso é um sonho. Não abro meus sonhos para qualquer pessoa. Mas Bruno, para chegar até lá, preciso começar devagarinho, né? Tenho algumas ideias, mas não consigo fazer sozinha. Por isso chamei o Gabriel pra me ajudar, ele…
Interrompi.
- Nós temos contadores próprios na PHX. Eles podem te ajudar…
No momento me arrependi.
- Que foi, Bruno? Não gostou?
A pergunta veio direta, mas não era com irritação. Isso me deixou sem reação. Eu não queria transparecer meu real incômodo.
- Não é isso, Wendy. É só que…
- O quê?
Respirei fundo.
- Tudo bem – forcei um sorriso. – Só deixe que os contadores da PHX também revisem tudo que ele fizer, certo?
- Não confia nele?
Pus a mão em seu ombro e disse:
- Não é nada disso. Só quero te proteger e fazer dar certo. Tá?
Ela assentiu, mas não sei se ficou convencida. E também não deu para conversar mais, pois Aurora havia acabado de chegar com Cecília e atraiu toda nossa atenção.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensativo sobre meu relacionamento com Wendy, a proximidade dela com Gabriel e como isso me afetava mais do que eu gostaria de admitir. Eu sabia, porém, que não poderia esperar muito tempo para confessar meus sentimentos cada vez mais claros por ela. A verdade é que eu precisei nomear exatamente o que acontecia no meu interior: à medida que o tempo passava, mais eu a desejava.
De manhã, acordei cedo e comecei a preparar o café da manhã. Isso era algo que, desde o nascimento de Aurora, eu praticamente não fazia mais. Nesse intervalo, minha mãe chegou e me ajudou na preparação. Quando já estávamos terminando, Wendy acordou junto com Aurora.
- Dona Marluce! Que surpresa boa a senhora por aqui.
Minha mãe me olhou confusa. Eu já tratei de explicar.
- Ainda não falei pra ela, mãe.
Wendy franziu o cenho, também confusa.
- O quê?
- Quero te levar em um passeio. Quero te mostrar umas coisas.
- Que coisas?
- Você vai ver. E gostar, eu acho…
Ela ainda parecia desconfiada e, logo em seguida, adotou um tom de preocupação.
- Bruno, eu tenho aula hoje e…
Todos ficamos em silêncio. Percebi aquele sentimento de derrota voltando até que ela abriu um sorriso.
- Eu topo. Vamos que horas?
- Logo depois do café da manhã – não consegui esconder minha satisfação. – Senta e aproveita. Hoje o café da manhã é por minha conta.
- Mas olha…
Saímos pouco depois de comer.
Iniciamos o passeio pelo Itaim Bibi. Eu não queria apenas entender o tipo de empreendimento que ela gostaria de ter. Queria também que ela pudesse enxergar aquele sonho de perto, como algo real e possível.
- Que tipo de local você imagina?
Perguntei, tomando cuidado com o tom para não assustá-la.
- Ah… eu não espero começar por algo tão grande.
- Por que não?
- Esses prédios são tão… caros.
Sorri.
- Só porque são caros?
- Sim, claro. Não tenho grana pra comprar.
- Muitas vezes não precisamos da grana toda.
- Ou… basta ganhar na mega sena.
Rimos.
- Mas… e se você tivesse o capital para investir?
- Eu compraria um por aqui com toda certeza.
- Sério? Por quê?
- É a área mais valorizada. É onde tem o tipo de eventos que eu gostaria de organizar e gerenciar. Sou fascinada por eventos corporativos, Bruno.
Os olhos dela brilhavam ao falar.
- Eu imagino um hotel que tenha tudo isso, sabe? Um espaço para eventos, além da hospedagem, onde poderíamos receber pessoas do Brasil e do mundo todo.
Ela suspirou antes de finalizar.
- Um dia, quem sabe…
Passamos a manhã vendo diferentes prédios e condomínios. Uns mais luxuosos, outros mais simples, alguns fechados para reformas. Estes últimos pareciam empolgá-la mais com a ideia de transformar em algo completamente novo. Procurei validar essa ideia:
- Você não precisa começar por algo pronto. Pode-se pensar também num local existente que, depois de reformado, fique a sua cara, com seu toque especial.
Ela pareceu gostar desse cenário.
Na hora do almoço, paramos num restaurante para comer. A conversa continuava fluindo e eu conseguia me aprofundar mais ainda no sonho dela. Também falamos de Aurora e tive que, infelizmente, passar alguns minutos resolvendo problemas da PHX por telefone.
Nesse momento, Wendy ficou pensativa, me olhando mais que o normal. Quando a ligação acabou, perguntei:
- Que que foi?
- Por que estamos aqui, Bruno?
A forma direta com que a pergunta saiu me pegou desprevenido. Ela continuou.
- Não quero parecer ingrata, eu juro. Eu estou adorando fazer esse passeio com você. De verdade. Ver que você me leva a sério nesse sonho que muitas vezes acho tão infantil e distante me faz tão… bem. Mas eu preciso perguntar uma coisa…
Nesse momento, Wendy pareceu vacilante, talvez procurando forças para fazer uma pergunta que gostaria de evitar.
- Tudo isso tem a ver com minha conversa com o Gabriel, ontem?
Minha reação deve ter denunciado muita coisa sobre o que eu penso e sinto por ela. Baixei o olhar por um instante, procurando minhas próprias forças para encarar a realidade.
Tentei rir e deve ter sido embaraçoso. Ela percebeu e pareceu desconfortável com a própria pergunta.
Esses pequenos gestos devem ter durado pouquíssimos segundos, mas ainda assim pareceram relevantes para nós dois.
- Não é isso, Wendy. Eu cheguei no apartamento ontem na expectativa de te fazer o convite para o passeio de hoje. E, bem, acabei esquecendo de tocar no assunto e deixei para falar agora pela manhã.
Ela me olhava talvez procurando enxergar verdade no que eu falava.
- Eu confiava que você fosse aceitar. Mudei toda minha agenda por isso. Na realidade…
Fiz uma pausa.
- Eu tinha certeza que você aceitaria esse passeio.
Nessa hora, ela sorriu para mim.
- Você acertou.
Franzi o cenho de leve.
- Eu jamais recusaria um passeio com você. Especialmente com você.
Devo ter corado porque ela riu mais ainda. Depois emendou:
- Queria fazer a mesma pergunta de antes: por que estamos aqui?
- Posso esconder isso como um segredo por mais um tempo?
Wendy me olhou com atenção por um instante. Depois deu de ombros.
- Pode. Confio em você.
No período da tarde, andamos exclusivamente pela Faria Lima. Era nítido, porém, que sua empolgação por um local no Itaim Bibi, mas fora da Faria Lima, era muito maior.
- Não quero competir com os hotéis cinco estrelas – ela disse. – Quero um hotel voltado para o público corporativo, mas que também ofereça uma experiência diferente.
- Quanto custa um hotel como esse?
- Não sei.
- Quantos quartos teria?
- Também não sei.
- Quanto você pretende cobrar por evento?
- Bruno…
- Quanto custa manter um quarto ocupado?
Wendy começou a rir.
- Eu ainda estou na faculdade.
- Eu sei. Por isso estou perguntando.
Apesar das perguntas em sequência, ela não se sentia pressionada. Era um assunto que ela adorava.
Visitamos alguns imóveis. Entramos no saguão e observamos a dinâmica. Ela fez diversas observações, indicando o que gostava, o que não gostava e até mesmo aprendendo quando via serviços que sequer imaginava.
Já anoitecendo, perguntei se ela tinha gostado da experiência.
- Sim – ela respondeu imediatamente. – Vamos fazer mais vezes, pode ser?
- Amanhã.
- Oi?
Neste momento, paramos num sinal de trânsito. Olhei para ela.
- Vamos amanhã de novo e depois de amanhã também.
- Mas…
- Nada de “mas”.
Aproveitei o sinal aberto e liguei para minha mãe usando o que a tecnologia do meu carro tinha de melhor.
- Ok, Google. Ligar para minha mãe.
Quando ela atendeu, já falei:
- Mãe, se prepara para dormir aí nos próximos dias, viu?
- Eu já estava preparada para isso, meu filho.
Do meu lado, Wendy sorria cheia de expectativa.
- Você sempre pensa em tudo, né?
- Não é à toa que sou investidor.
E, sem percebermos, aqueles passeios se transformaram em parte da nossa rotina.
Nos dias seguintes, Wendy se empolgou como nunca. Com minha mãe nos cuidados com Aurora, nós saíamos cada vez mais cedo para visitar prédios e hotéis e voltávamos tarde da noite.
À noite, depois que Aurora dormia, ela passava horas pesquisando no notebook e fazendo anotações no planner e na caneta que presenteei.
Depois de algumas semanas nessa rotina, Wendy se fixou em um prédio específico:
- Gostei desse.
- Percebi. Você tem falado muito dele. Porém, ele tem alguns problemas…
- É justamente por isso que eu gostei dele. Eu daria a minha cara. Quero ter a sorte de, um dia, poder comprar um desses. Espero ganhar na mega para isso.
Ela riu, de forma inocente.
- Se eu pudesse comprá-lo, iria reformá-lo e fazer as pessoas esquecerem o que ele era.
Os olhos dela brilhavam como nunca.
- Me mostra como você faria - desafiei.
- Como assim?
- Um plano, Wendy. Monte um plano.
Ela ficou pensativa.
- Levante dados desse imóvel, metragem, estacionamento, público-alvo, possibilidade de reformas, perfil dos hóspedes, a experiência, preço estimado, mobiliário, equipe, custos operacionais, receita estimada…
Ela arregalou os olhos, assustada.
- Tudo isso?
- É um bom exercício pra você.
Esperei um pouco, dando tempo para que ela assimilasse a ideia.
- Sabe – continuei –, tava olhando suas disciplinas na USP e no SENAC e você já viu tudo isso. Só precisa colocar em prática.
- Isso é tão… profissional. É como se… fosse a vida real num mundo de negócios.
- Eu sei. E você é capaz.
Wendy se dedicou ao desafio. Não existe nada melhor do que você se dedicar a um sonho. Quando estávamos só nós três no apartamento, procurei ficar mais tempo nos cuidados de Aurora para que ela focasse na concepção do plano.
Duas semanas depois, ela mal esperou que eu chegasse da PHX para me entregar o plano.
- Aqui está.
Ela disse, sem esconder a expectativa na voz e nos gestos.
Observei o plano por um instante, folheando com calma.
- Você calculou o retorno?
- Sim.
- E?
- É ruim nos primeiros dois anos.
- Ainda quer fazer?
- Quero.
Depois, percebi que ela não havia colocado o preço de aquisição do imóvel.
- Quanto você acha que custa esse imóvel?
- Uns 80 milhões.
Observei-a por um instante.
- E se eu disser que custa 20% a mais?
- Hum… então não compraria.
A resposta me surpreendeu.
- Por que não?
- Gostei do prédio, mas não o suficiente pra pagar qualquer preço.
Nesse momento, percebi que esse seria o empreendimento da PHX Hospitality SPE.
- Obrigada por isso, Bruno. Saber como é no mundo real me trouxe experiências valiosas.
- Não precisa agradecer.
Eu mal conseguia esperar para ver a reação dela quando descobrisse que eu e Trajano compraríamos aquele prédio. Precisei fazer um esforço imenso para conter minha empolgação nas semanas que se seguiram.
O duro foi lidar com toda a parte chata. Precisávamos ter certeza de que aquele prédio realmente poderia virar o que ela tinha imaginado. Nossa equipe verificou toda a documentação, procurou possíveis problemas com o imóvel, avaliou as condições da estrutura e estudou o que seria necessário para reformá-lo. Ao mesmo tempo, começamos a negociar com o proprietário e a revisar os números.
Levamos algumas semanas até conseguirmos resolver tudo. Quando finalmente tivemos segurança para seguir em frente, a PHX Hospitality SPE fechou a compra. Toda a parte burocrática foi concluída e, depois de tanto trabalho, aquele prédio passou a ser nosso. Ou melhor... passou a ser da SPE.
Agora só faltava contar para Wendy.
Saí no começo da tarde da PHX. Eu queria contar para ela o quanto antes. Sabia que ela estaria no apartamento, pois, curiosamente, não tinha aula naquele dia. No trânsito, eu estava mais rápido que o normal. Até mesmo um tanto irresponsável.
Entrei no apartamento ofegante e tomado de expectativa. Wendy estava no corredor, andando em direção à sala. Ela riu quando viu meu estado.
- Parece que você ganhou um prêmio, Bruno.
Se ela soubesse o motivo da minha empolgação…
- Onde está Aurora?
- Minha mãe está fazendo ela dormir no quarto.
- Ah…
Fui até o sofá, coloquei minha mochila e tirei o contrato da SPE, já assinado, validado e registrado. Virei-me para ela.
- Eu tenho uma notícia pra você.
- Boa?
- Ótima.
Wendy aproximou-se de mim, cheia de curiosidade.
- Me conta.
- Sabe aquele prédio? Aquele que você gostou.
- Sei. Que que tem ele?
Respirei fundo.
- Sabe, nós, investidores, nem sempre precisamos do capital todo pra comprar um imóvel como aquele. Há estruturas que podemos montar que são até mais eficientes do que simplesmente uma pessoa física comprar…
Ela me olhava com atenção, claramente sem entender onde ia chegar.
- Sim, mas… o que isso tem a ver com aquele prédio?
- Então…
Estava difícil me controlar.
- Eu e seu pai montamos uma estrutura eficiente e compramos aquele prédio.
- Compraram?
Wendy arregalou os olhos.
- Pra você, Wendy.
- Depois, posso explicar os detalhes, o que é uma SPE…
Ela me interrompeu com um grito de felicidade.
- Bruno, você não imagina como essa notícia me deixa feliz.
A reação dela me deixou sem… reação. Todo aquele esforço, finalmente, tinha valido a pena.
Ela me olhava com o brilho nos olhos de quem finalmente enxergava um sonho distante se tornar possível.
Não era preciso falar mais nada. E, por um instante, tudo pareceu parar.
Então, quase ao mesmo tempo, avançamos um em direção ao outro. Não houve hesitação. Não houve tempo para pensar.
Wendy veio de uma vez, e eu a puxei para mim.
Nossos lábios se encontraram com uma urgência que parecia estar esperando por aquele momento havia meses.
O beijo foi imediato, intenso, quase desesperado. Nos beijamos com fome, como se todo o desejo que havíamos contido durante tanto tempo finalmente tivesse encontrado uma saída.
Eu mal conseguia respirar. Ela também. Ainda assim, nenhum dos dois queria parar. Era como se estivéssemos tentando recuperar, em alguns segundos, tudo aquilo que passamos meses evitando admitir.
O beijo.
O melhor de todos.
Então, como se a ficha tivesse acabado de cair e finalmente entendêssemos o que estávamos fazendo, acabamos nos afastando, agora assustados.
- Isso não deveria ter acontecido.
Falei e logo me arrependi. Por que falei isso? O que me fez falar isso?
- É… foi o entusiasmo, né?
Wendy tentou melhorar a situação, mas não conseguiu.
- Não… não precisa falar nada, Wendy. Eu entendo.
Ela franziu o cenho.
- Entende?
- Você não está pronta, eu entendo… eu… eu…
Ficamos alguns segundos em silêncio. Ela me olhava aflita e, talvez, eu também. Meu espelho refletido no dela, como em outras vezes.
- Você é muito bonita, Wendy.
“O quê?”, minha mente disparou um alerta imenso. Para minha surpresa, ela respondeu:
- Você também, Bruno. Você é muito atraente.
Ela pareceu estar passando pelos mesmos questionamentos que eu.
- Eu vou pro meu quarto – ela disse, já querendo se afastar.
- Tá… a gente pode sair mais tarde pra jantar?
- Eu adoraria, mas…
Percebi que ela baixou o olhar, hesitante, antes de se virar para mim.
- Eu já combinei com o Gabriel.
Senti a esperança que acabara de nascer dentro de mim desabar.
- Ah… Gabriel.
- É… ele… ele ficou de me apresentar umas pessoas…
Ela baixou o olhar, por um instante.
- Sabe, praquela empresa que estava pensando em montar.
- Entendo.
Foi minha vez de baixar o olhar.
- Gostaria de ir com a gente? – ela perguntou.
- De jeito nenhum – sussurrei.
Wendy assentiu sutilmente. Depois se virou e foi para o seu quarto.
Fiquei sozinho na sala. Toquei meus lábios, ainda tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Nós tínhamos nos beijado. E, pela primeira vez, eu sabia que aquele desejo não existia apenas dentro de mim. Mas bastaram algumas palavras para que toda aquela esperança desaparecesse.
Gabriel.
Depois do beijo, fiquei trancado no meu quarto. A ideia inicial era trazer trabalho para casa, mas minha cabeça estava longe. Não parava de pensar no beijo dela. Eu sentia um misto de entusiasmo e apreensão.
No começo da noite, saí do quarto e fiquei brincando com Aurora na sala. Ela estava bem alegre e elétrica. No sofá, Cecília nos observava com atenção.
- Tá tudo bem, Bruno?
Franzi o cenho, tentando não demonstrar o incômodo.
- Tudo sim, Dona Cecília.
Ela apenas assentiu.
Depois de algum tempo, ela se levantou e foi em direção ao quarto de Wendy. Continuei brincando com Aurora e, por alguns momentos, esqueci de todo o resto.
Quando Cecília voltou, pegou a bolsa.
- Bruno, vou ter que ir pra casa. Apareceu um problema pra resolver. Você consegue ficar sozinho com Aurora?
- Consigo sim. É algum problema que eu possa ajudar a resolver?
- Não.
Não insisti.
Ela se despediu, me dando um beijo no rosto e vários outros em Aurora.
Assim que ela se foi, continuei brincando com Aurora por alguns minutos. Só então ouvi os passos de Wendy vindo pelo corredor.
Ela estava muito bonita. Talvez mais do que de costume. Ou talvez fosse apenas impressão minha depois do que havia acontecido entre nós.
- Vou indo – ela disse com certo cuidado na voz.
- Tá.
Ela assentiu e foi em direção à porta. Estranhei que ela sequer se despedisse da filha, mas não disse nada.
Continuei brincando com Aurora, que pulava, gritava e fazia sons, se divertindo comigo.
Só depois de alguns segundos percebi que Wendy ainda estava na porta. A mão permanecia sobre a maçaneta.
Estranhei novamente.
Ela não se mexia.
Nesse instante, Aurora também se aquietou. Ficou sentada no meu colo e, assim como eu, passou a observar a mãe.
Wendy se virou lentamente e nos deu um sorriso tímido. Depois digitou algo no celular e o guardou dentro da bolsa.
Ela caminhou lentamente em nossa direção e se ajoelhou na nossa frente, alternando o olhar entre mim e Aurora.
- Posso brincar com vocês?
Quis perguntar alguma coisa, mas não consegui.
Minha filha estendeu as mãos e foi em direção à mãe. De repente, Wendy e ela se jogaram no chão, brincando e rindo sem parar. Em poucos segundos, eu também estava no chão com as duas, fazendo aquela algazarra. Eu não conseguia evitar o sorriso.
Quando Aurora começou a ficar com sono, encostei-me no sofá, ainda sentado no chão. Wendy ainda brincava com nossa filha, mas, quando percebeu onde eu estava, veio em minha direção e sentou-se entre minhas pernas, apoiando-se em mim.
Eu… não pensei em nada. Apenas a deixei ficar.
Aurora veio em nossa direção, determinada a gastar o pouco de energia que ainda tinha. Ela subia pelo colo da mãe, tentava passar por cima dela e vir em minha direção, querendo pegar meu rosto.
Nós dois a incentivávamos, rindo, enquanto ela não conseguia esconder o quanto estava feliz por estar com a gente.
Aurora continuou brincando entre nós. De repente, Wendy se virou para pegar alguma coisa e, por alguns segundos, ficamos apenas olhando um para o outro.
Eu pensei que Wendy fosse desviar o olhar. Ela não desviou. Também não consegui desviar.
Por um momento, toda a sensação ruim se esvaiu. Naquele instante, não havia nada que eu quisesse mudar.
Não demorou muito para Aurora querer dormir. Wendy e eu cuidamos dela. Demos banho, preparamos uma mamadeira e ainda fizemos ela arrotar. Depois cantamos uma canção de ninar, fazendo carinho nas costas dela até ela dormir.
Quando ela ficou mais quieta, praticamente pegando no sono, Wendy sorriu.
- Ela é linda, não é, Bruno?
- Linda demais. Puxou a mãe… graças a Deus.
- Bobo.
Ela pôs as duas mãos na altura do meu peito. Eu a envolvi em um abraço.
- Ela também puxou o pai.
- Não sei no quê.
- A cor de cabelo dela. Eu amo. Tem a mesma tonalidade do seu.
Sorri com o elogio.
Silenciosamente, fomos saindo do quarto de Aurora. Fechamos a porta devagar.
- Boa noite, Bruno.
Ela disse baixinho.
Eu fiquei em silêncio, olhando para ela. Seu olhar passou a percorrer os meus olhos. Aproximei-me dela. Hesitante, ela deu um passo para trás, encostando-se na parede. Levantou as duas mãos, e eu as prendi.
Ficamos perigosamente próximos. Pude sentir sua respiração ofegante.
- Pensei que você iria sair com Gabriel – falei, quase num sussurro.
- Posso ir em outra oportunidade.
- Outra oportunidade?
- É…
- Eu também sempre posso adiar reuniões de trabalho.
- Você deveria ir comigo.
- Por quê?
Ela deu um sorriso curto, mordendo o lábio.
- Não troco esse tempo com a Aurora por nada…
Ela fez uma pausa. Aguardei. Ela continuou:
- Não troco nada no mundo por ela.
Quis dizer algo, mas me segurei. Afastei-me um pouco. Havia um desafio em seu olhar, daqueles que nos excitam.
- Vou pro meu quarto – ela disse sem realmente fazer qualquer movimento para ir.
- Espera...
Voltei a me aproximar dela. Seu perfume enebriante.
Ela travou. Olhava-me atentamente, com os olhos fixos nos meus.
Fiquei a centímetros dela. Podia sentir sua respiração.
Nossos olhos se encontraram.
- Sou a mãe da sua filha – ela sussurrou.
- É – respondi.
Encostei meu corpo no dela, passei a mão no seu quadril. Sua mão encontrou meu rosto, depois minha nuca.
- Sou a mãe da sua filha – ela repetiu, ainda sussurrando.
- Você é a mãe da minha filha – confirmei.
Olhei seus lábios, que ela mordia de leve, realçando o desejo explícito que sentia.
- Eu sou… – ela tentou dizer algo, mas parou no meio do caminho.
- Eu quero – a interrompi.
Ela arregalou os olhos, fingindo ou não um espanto.
- Quer? – perguntou, sofregamente.
Não respondi com palavras, mas pressionei ainda mais meu corpo ao dela.
- O que você quer? – ela perguntou novamente.
- O mesmo que você.
- Mas... – balbuciou ela – mas… eu sou só uma mãe pra você.
- Você é...
Olhei bem em seus olhos, aproximei meus lábios do dela e falei:
- Quero você.
- Quer?
Ela perguntou, com nossos lábios ainda em contato. Depois disse:
- Se cruzarmos essa linha, não haverá volta...
- Eu não quero voltar.
O beijo se formava.
- Se eu me entregar, você será meu como nunca foi de outra mulher...
Nos beijamos.
Um beijo doce, delicado, cuidadoso.
Depois, ela me olhou, com uma fragilidade que me desarmou:
- Eu não aguento mais, Bruno. Eu te quero muito. Eu te quero há muito tempo. Eu...
Não deixei que terminasse. Beijei-a novamente.
Voltei a olhá-la. Meu sorriso denunciava minha felicidade.
- Você não é só a mãe da minha filha.
- Não? E o que sou?
- Eu te amo.
Sua expressão ficou mais séria, como se me avaliasse. Havia um peso nessas palavras e nós sabíamos disso. Sustentei meu olhar, tranquilo e aliviado por ter tirado um peso das costas.
Uma lágrima caiu de seu olho, um sorriso tímido brotou em seu rosto...
- Seu... seu... quero te xingar.
Ri também.
Foi a vez dela me puxar para mais perto, me envolvendo em um abraço.
- Eu te amo também, Bruno. Estou completamente apaixonada. Não paro de pensar em você um minuto sequer. E, pra você saber, eu morro de ciúmes de você.
A confissão veio de forma inesperada, mas senti como se eu já soubesse disso. E, mais que isso, eu sentia o mesmo que ela.
A beijei de novo, com a mesma fome do beijo que aconteceu mais cedo.
Fomos em direção ao seu quarto. Rapidamente, tiramos nossas roupas. Meu pau estava duro como pedra. A última vez que tinha transado foi… com a própria Wendy.
Ela deitou-se na cama. Seu olhar estava vidrado no meu membro enrijecido. Deitei por cima dela e logo a penetrei. Entrou facilmente. Ela estava absurdamente molhada. Ainda assim, esperei que ela se acostumasse comigo dentro dela. Enquanto isso, nos beijávamos apaixonadamente.
Não queríamos desgrudar nossas bocas. Suas mãos puxavam minha cabeça, enquanto seus dedos acariciavam e puxavam meu cabelo. Nossas línguas se entrelaçavam em puro prazer.
Então, parei. Olhei para ela, que me aguardava com uma expectativa nada contida. O jeito como ela mordia os lábios…
Comecei a me movimentar. Primeiro, devagar. Depois socando forte. Cada vez mais forte. Com intensidade. Com urgência. Com vontade e profundidade.
Com desejo pela mulher que eu amava antes mesmo de sequer perceber.
Eu não parei de olhá-la.
Ela estava de olhinhos fechados, fazendo uma carinha que misturava dor e prazer. Gemia baixinho, de uma forma deliciosa e excitante para meus ouvidos.
Nossa respiração ficou mais intensa, mais ofegante. Nossos corpos estavam encharcados de suor. O meu prazer era imenso. E, a julgar pelo arrepio em sua pele, o dela também.
Eu estava prestes a gozar. E queria fazer daquela noite a melhor das nossas vidas...
Aurora chorou.
Paramos.
Wendy riu. Eu também.
- Você vai? Ou eu vou? – ela perguntou.
- Nós vamos. Juntos.
Rapidamente nos vestimos e fomos para o quarto de Aurora. Peguei-a no braço e fiquei caminhando pelo apartamento. Enquanto isso, Wendy ficou verificando o berço e a temperatura do ar-condicionado.
Aurora logo se acalmou e não demorou a dormir. Porém, quando a colocamos no berço, ela voltou a chorar.
- Deixa eu ficar um pouco com ela.
Foi a vez da Wendy ficar com nossa filha. Logo, Aurora voltou a dormir.
- Acho que ela está precisando da nossa presença – pontuei.
Wendy concordou.
- Pode ir dormir, Bruno. Você precisa acordar cedo. Eu fico com ela.
- Não.
- Mas, Bruno…
Fui até elas e as envolvi em meus braços.
- Vamos dormir todos juntos. Que tal?
- Como? Onde?
Levei ambas para o quarto de Wendy.
- Lembra das últimas semanas de gravidez, quando você mal conseguia encontrar uma posição para dormir?
Ela abriu um sorriso.
Encostei-me na cabeceira da cama dela. Wendy encostou-se em mim, com Aurora no colo. Colocamos uma proteção de ambos os lados para deixar tudo seguro para nossa filha, que já dormia tranquilamente.
Enquanto o nosso sono não vinha, Wendy e eu trocamos muitos carinhos, selinhos, olhares e sorrisos tímidos. Não chegamos a trocar nenhuma palavra, pois não precisava. A simples presença bastava.
Não lembro quando dormi, mas quando acordei – todo quebrado –, nem Wendy nem Aurora estavam no quarto. Levantei-me e vi minha filha dormindo em seu berço. Na cozinha, Wendy preparava o café da manhã.
- Bom dia, Bruno.
Wendy disse quando me viu.
- Bom dia, Wendy.
Demos um abraço, mas foi fraternal.
Comemos e conversamos sobre Aurora e sobre o dia que se iniciava. Wendy fez algumas perguntas sobre a SPE e disse que ligaria para o pai, para confirmar aquilo em que ela ainda teimava em não acreditar.
Só pude rir mesmo do jeito dela.
Quando estava saindo para a PHX, escutei a voz dela.
- Bruno, espera.
Ela deu uma corridinha em minha direção. Antes que eu pudesse reagir, ela me deu um selinho e um sorriso.
- Bom trabalho.
- Boa aula – respondi.
Na PHX, Bruna percebeu meu entusiasmo e minha energia lá em cima.
- Você está com um sorriso de orelha a orelha, chefe.
- Impressão sua.
Mas era difícil conter minha alegria. Dizem que trabalhar assim é muito melhor, mas eu não conseguia me concentrar tanto. Eu só pensava em Wendy e na noite que tivemos. Desde a tarde anterior, eu tinha vivido uma montanha-russa de sentimentos até nossa entrega completa.
No começo da tarde, disse para Bruna que cancelasse toda minha agenda, pois tinha algo para resolver antes de voltar para o apartamento.
Eu já não tinha mais dúvidas sobre o que realmente queria. Wendy. E eu a queria muito.
Minha mulher.
No finalzinho da tarde, eu voltava para o meu apartamento com algo no bolso da minha calça. Eu estava feliz e em paz com meus próprios sentimentos. E melhor que isso, sentia-me correspondido.
Dirigia calmamente por São Paulo. O engarrafamento que se formou não alterou meu estado de espírito. Ainda assim, cheguei no meu condomínio relativamente cedo.
Ao abrir a porta do apartamento, apareceu diante de mim uma cena que eu realmente não esperava.
Na sala, estavam Wendy e… Gabriel.
Eles estavam em pé, mas não estavam próximos. Gabriel estava de costas para a porta e logo se virou para mim, assustado com minha presença. Por sua vez, Wendy estava serena, segurando um documento em mãos.
- Gabriel.
Falei com a voz firme, marcando posição.
- Ah, opa… Bruno, como vai? – perguntou ele.
Havia hesitação em sua voz.
- Bem! Bem. Só… um pouco surpreso de te ver aqui.
Gabriel estava claramente incomodado. Alternou seu olhar entre eu e Wendy.
- Eu vim trazer uma proposta pra Wendy.
- Ah…
Antes que eu falasse mais, Wendy interrompeu.
- Ele já está de saída.
A decepção era visível nos olhos de Gabriel.
- É… eu já vou indo. Tchau, Wendy.
Ele caminhou até a porta. Quando passou por mim, murmurou:
- Até mais.
- Até.
Quando ele saiu, virei-me para Wendy, com mais curiosidade do que qualquer outra coisa.
- O que ele queria?
Ela olhou para o documento, depois para mim.
- A proposta que ele veio me entregar é verdadeira, mas não foi só isso.
Aguardei.
- Ele também declarou sentimentos por mim.
Fez-se um pequeno silêncio entre nós. Depois perguntei:
- E você?
- Eu disse que tínhamos tido uma história bonita no passado, mas que acabou.
Ela fez uma pausa antes de continuar.
- Disse a ele que meu coração está apontando para outra direção.
Tentei controlar meu sorriso de satisfação. Ela percebeu e sorriu também.
Ficamos alguns segundos assim, cada qual tentando esconder o rosto corado.
Então, lembrei o que precisava fazer.
- Eu tenho algo pra te perguntar.
Wendy franziu o cenho.
- O quê?
A voz dela denunciava uma expectativa repentina, como se percebesse que algo importante estava prestes a acontecer.
Aproximei-me devagar. Coloquei minha mochila no sofá e fiquei em frente a ela.
Ajoelhei-me e, do meu bolso, tirei um pequeno estojo.
Abri com cuidado.
Dentro, duas alianças prateadas e reluzentes se destacavam.
Olhei novamente para Wendy. Ela estava visivelmente espantada.
Respirei fundo e apenas perguntei:
- Wendy, você quer casar comigo?
Continua...
Espero que gostem. Desde já, ficarei grato com qualquer comentário, crítica ou elogio. Próximo capítulo em alguns dias.
Bruno foi impulsivo e apressado no pedido de casamento? O que será que Wendy vai responder? 😱
Agora posso dizer com toda certeza do mundo que faltam apenas dois capítulos. Um capítulo em terceira pessoa para fechar (ou quase isso) a história dos outros personagens. Por fim, o capítulo final e derradeiro na visão de Bruno e a conclusão final do seu destino amoroso.
Sobre o capítulo em terceira pessoa, estou muito tendencioso de dividi-lo em pequenas partes. Aviso de antemão se eu for seguir com essa abordagem. Um pequeno capítulo por personagem é algo que talvez eu venha adotar. Assim, pode sair mais rápido em vez de agrupar tudo em um único capítulo.