[Fiquei um tempo sem postar por conta que achei que a maioria havia parado de acompanhar este conto kk, as leituras caíram um pouco. Mas nessa última semana algumas pessoas comentaram no último ep, então é importante vocês comentarem pra eu saber o que estão achando, deixem suas críticas, elogios, etc... Me faz ter ânimo pra postar novamente kk]
(CONTINUANDO)
Resumo - Após passar tempo com Morales...
O domingo à noite chegou rápido demais, trazendo consigo o peso sufocante do retorno ao Batalhão. O trajeto de volta no carro do Morales foi feito em quase total silêncio. A atmosfera entre nós tinha mudado; a lembrança do que aconteceu no sofá da sala dele ainda pairava no ar, mas a realidade nua e crua do quartel rapidamente engoliu qualquer resquício daquele alívio momentâneo.
Assim que cruzamos o portão das armas, ficou claro que o clima era de guerra.
A guarda não era composta apenas pelos recrutas habituais: viaturas brancas da Polícia do Exército estavam estacionadas logo na entrada, com giroflex desligados, mas lançando uma sombra intimidadora sobre o pátio.
Cada recruta que entrava passava por uma revista rigorosa. Armários foram vistoriados, mochilas revistadas e até os celulares estavam sendo inspecionados para verificar chamadas e arquivos recentes.
— Calma... respira — murmurei para o Morales ao meu lado, vendo a cor sumir do rosto dele conforme nos aproximávamos da fila de revista.
— Se eles olharem o meu histórico... — Morales sussurrou, trincando os dentes.
— O Valente disse que limpou a área. Mantém a cara de paisagem e não fala nada — cortei seco, ajustando o beret na cabeça.
Conseguimos passar pela revista da PE sem levantar alarmes diretos, mas o cerco no alojamento era sufocante. Emiliano já estava lá, com a farda surrada pela maratona de faxina do fim de semana e olheiras profundas. Quando nossos olhares se cruzaram no meio da fileira de beliches, ele deu um leve aceno de cabeça — o sinal discreto de que tínhamos problemas maiores pela frente.
Tarde da noite, quando as luzes do alojamento finalmente se apagaram e restou apenas o ronco abafado da tropa exausta, o meu celular vibrou no bolso do calção, protegido debaixo do travesseiro.
Puxei a tela com o brilho no mínimo. Era mais uma mensagem criptografada do ex-comandante Valente.
Valente: O Brito continua estável no hospital, mas a PE tá pressionando para fechar o cerco dentro do quartel.
Valente: O Sargento Mello é o elo fraco da corrente. Ele que gerenciava as assinaturas falsas na pasta A-10 junto com o Brito. Ele tá apavorado achando que o próximo a cair é ele.
Valente: Amanhã à tarde, na escala de manutenção do almoxarifado, você vai abordar o Mello a sós. Mostre a ele a foto da página 4 do dossiê no seu celular. Diga que se ele não aliviar a pressão da investigação sobre os recrutas e não nos entregar a chave do depósito B, a cópia completa vai parar direto na mesa do Comando Geral em Brasília.
Valente: Não fraqueje, Michel. O Mello é um covarde com divisa no braço. Faça ele dobrar os joelhos antes que o Brito acorde de vez.
Guardei o aparelho, sentindo um frio gélido percorrer a minha espinha. Chantajear um Sargento de carreira dentro do próprio Batalhão, com a Polícia do Exército rondando os corredores, era o equivalente a caminhar num campo minado usando botas de chumbo.
Se desse errado, não haveria apadrinhamento do Valente que me salvasse da cela do presídio militar.
A poeira da segunda-feira parecia pesada demais. O ar no Batalhão estava denso, carregado com a presença constante da Polícia do Exército rondando os corredores e a sombra implacável do Sargento Rocha inspecionando cada canto. Cada passo que eu dava no concreto parecia ressoar como um alarme, e o peso do celular no meu bolso parecia uma granada sem pino.
O medo devorava meu estômago. Eu não era um espião experiente ou um soldado treinado para chantagem; eu era só a porra de um recruta que tinha entrado no fogo cruzado de uma guerra de oficiais. Minhas mãos tremiam levemente, e precisei cravá-las nos bolsos da calça para que ninguém notasse.
A oportunidade surgiu perto do horário do almoço. Vi o Sargento Mello se afastar do alojamento dos oficiais, ajeitando o tático na cintura e entrando no banheiro masculino do bloco secundário — um local afastado, mal iluminado e sem movimentação àquela hora.
Olhei para os lados, engoli em seco, sentindo o coração martelar nas minhas costelas, e entrei.
O som da porta de madeira batendo e o trinco rangendo fez o Sargento Mello se virar rapidamente perto das pias. Ele estava sem a gandola, apenas com a camisa camuflada justa, e o rosto dele exalava o mesmo pavor paranóico que tomava conta do quartel. Quando viu que era apenas eu, o choque inicial deu lugar a uma careta de puro desprezo.
— Que porra é essa, recruta? — Mello rosnou, ajeitando a postura e dando um passo na minha direção. — Ficou maluco? Sai daqui antes que eu te mande pra cela por insubordinação.
Eu estava apavorado. Minhas pernas pareciam feitas de gelo, mas forcei minha espinha a ficar ereta. Puxei o celular do bolso com o indicador trêmulo e destravei a tela, virando o visor direto para o rosto dele. Era a foto da página 4 do dossiê da Pasta A-10 — a folha com a assinatura rasurada dele e a discriminação dos desvios de munição.
— O senhor vai querer olhar isso aqui antes de me mandar pra cela, Sargento — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, embora a adrenalina estivesse me sufocando. — A Pasta A-10. Toda a rota do dinheiro do senhor e do Brito.
O impacto no rosto de Mello foi imediato. Os olhos dele se arregalaram por uma fração de segundo, a cor sumindo de suas bochechas. Mas o choque durou pouco. A reação de um oficial corrupto acuado é a violência bruta.
Antes que eu pudesse recuar um milímetro, Mello avançou como um bicho. A mão pesada e calejada dele se fechou no meu pescoço com uma força esmagadora.
— SEU VIADO DESGRAÇADO! — ele urrou, me erguendo levemente e me prensando com um impacto violento contra os azulejos frios da parede do banheiro.
A dor na minha nuca foi cega, e o ar foi cortado instantaneamente da minha garganta. Tentei segurar o pulso dele, mas a pegada de Mello era uma prensa de ferro. O rosto dele colou no meu, os dentes trincados, cuspindo a cada palavra, exalando um ódio puro e preconceituoso.
— Você tá achando o quê, seu merdinha?! — Mello sibilou na minha cara, os olhos injetados de raiva. — Você chegou nessa porra desse Batalhão sendo uma bixinha medrosa, chorando pelos cantos, um nada que não aguentava o peso de uma mochila... e agora acha que criou culhão pra me pressionar?! Quer me chantagear, seu viadinho de merda?! Você acha que eu tenho medo de um bosta como você?!
Eu me contorcia contra a parede, a vista começando a escurecer pela falta de oxigênio, a dor no pescoço me queimando por dentro. O pânico de morrer sufocado ali mesmo quase me fez fraquejar, mas a lembrança do aviso do Valente e o desespero de sobrevivência falaram mais alto.
Com um movimento brusco, Mello arrancou o celular da minha mão e jogou o aparelho no chão de cimento. Sem hesitar, ele desceu o coturno pesado com toda a força no vidro, esmagando a tela.
CRACK.
O estalo do visor despedaçando ecoou pelo banheiro. Mello pisou de novo e de novo, reduzindo meu telefone a um emaranhado inútil de plástico, circuito e cacos de vidro.
Ele aliviou a pressão no meu pescoço só o suficiente para que eu descesse o corpo, tossindo e buscando o ar em desespero, apoiando as mãos nos joelhos enquanto ele chutava os restos do aparelho para debaixo da pia.
— Pronto, seu bicha imbecil! — Mello limpou a boca com as costas da mão, rindo com um desprezo doentio enquanto ajeitava o cinto. — Acabou a sua chantagenzinha de merda. Agora limpa esse chão e reza pra eu não te moer na porrada aqui mesmo e dizer que você me atacou.
Ainda ofegante, com a garganta queimando e o pescoço doendo onde os dedos dele ficaram marcados, levantei o rosto devagar. Minha visão voltou ao foco. Olhei para o chão destruído e depois fixei meus olhos diretamente nos dele.
Forcei um sorriso fraco, quase quebrado, engolindo o gosto de sangue na boca.
— O senhor pode quebrar quantos celulares quiser, Mello... — murmurei, a voz rouca por causa do estrangulamento, mas carregada de uma frieza que nem eu sabia que tinha. — Essa merda não tá salva no aparelho. É tudo sincronizado na nuvem. Toda a Pasta A-10 tá numa pasta criptografada.
Mello travou no lugar. O sorriso debochado no rosto dele desmoronou no mesmo segundo.
— O senhor tem até o fim do dia para aliviar a Polícia do Exército da cola dos recrutas e nos dar o acesso ao depósito B — continuei, dando um passo à frente, ignorando a dor no pescoço. — Se o senhor não fizer isso, a nuvem spamma essa cópia completa direto no e-mail do Comando Geral em Brasília e na Corregedoria. E aí não vai ser o Brito que vai pro hospital... vai ser o senhor caindo direto na tranca de Tremembé.
O silêncio no banheiro do bloco secundário ficou tão denso que dava para ouvir o gotejar lento de uma torneira mal fechada. O Sargento Mello continuava parado perto das pias, o peito subindo e descendo descontrolado. O choque da chantagem tinha passado, dando lugar ao raciocínio frio de um criminoso acuado que sabe que não tem mais nada a perder.
Ele deu um passo na minha direção, o coturno pisando nos cacos do meu celular esmagado. A expressão dele mudou de puro ódio para algo muito mais perigoso: cálculo.
— Você acha mesmo que eu vou te entregar a chave da porra do Depósito B pra vocês me usarem de bode expiatório depois, seu merdinha? — Mello sibilou, a voz baixa e rasgada, inclinando o corpo na minha direção. — Se eu cair, a casa cai pra todo mundo. Porém eu posso fazer umas exigências para a gente mudar essa situação!
Engoli em seco, sentindo a pele do meu pescoço queimar onde os dedos dele tinham deixado marcas vermelhas. A dor física ainda me tontava, mas precisei sustentar o olhar dele.
— O senhor não tá em posição de fazer exigências, Mello — respondi, tentando manter a voz firme, embora a saliva parecesse bile na minha garganta. — Mas o Valente não quer a sua cabeça. O alvo dele sempre foi o Brito. O senhor é só um dano colateral se continuar no caminho.
Mello semicerrou os olhos escuros, analisando cada milímetro do meu rosto, procurando a menor brecha de mentira. Ele limpou o suor da testa com as costas da mão calejada e soltou uma risada curta e sem humor.
— Então vamos fazer um negócio, recruta... porque burro eu não sou — Mello disse, dando um passo a mais e parando a centímetros de mim, exalando a ameaça em cada palavra. — Eu tiro a Polícia do Exército da cola dos recrutas. Vou falar com o investigador da PE agora e dizer que a perícia apontou falha na tranca da secretaria, sem indícios de invasão de praças. Limpo a barra de vocês. E mais: hoje, às três da manhã, durante a troca de guarda da guarita leste, eu deixo a porta do Depósito B destrancada por exatamente quinze minutos.
Eu prendi a respiração. Era exatamente o que precisávamos. Mas a gola da minha farda continuava torta pelo puxão dele, e eu sabia que o preço viria alto.
— E qual é a sua parte, Sargento? — perguntei.
— Em troca, você vai alterar os arquivos dessa porra de nuvem — Mello cravou o dedo indicador no meu peito com força, pontuando cada exigência. — Você vai deletar meu nome e a minha assinatura de cada planilha da Pasta A-10. Vai jogar cem por cento dos desvios de munição e das assinaturas falsas nas costas do Brito. Ele já tá no hospital mesmo... que pague o pato sozinho.
Ele fez uma pausa, os olhos queimando de um desespero sombrio.
— E assim que você sair do Depósito B com o que quer que o Valente mandou buscar, você me entrega a chave de acesso dessa nuvem ou apaga essa pasta na minha frente — continuou Mello, entredentes. — Se o meu nome aparecer numa investigação em Brasília, Michel... eu juro por Deus que eu coloco uma bala na sua cabeça antes que a PE me algema. É pegar ou largar.
O ar no meu peito parecia chumbo. Era uma armadilha, uma falsa ilusão de controle que o Mello tentava criar para salvar o próprio pescoço. Eu sabia que o Valente nunca aceitaria adulterar o dossiê para poupar um sargento corrupto, mas eu não tinha escolha. Se eu recusasse ali, Mello me moeria na porrada e daria o alarme geral.
Engoli o orgulho e o pavor, mantendo os olhos fixos nos dele.
— Quinze minutos às três da manhã — murmurei, sustentando o tom frio. — O senhor altera o relatório da PE e libera o depósito. Quando a gente confirmar que a área tá limpa, o seu nome some da pasta.
Mello me encarou por mais três segundos intermináveis. Por fim, ele recuou um passo, ajeitou a dólmã na cintura com um golpe seco e olhou para os restos do meu celular no chão.
— Três da manhã em ponto, recruta — Mello rosnou, passando por mim em direção à porta do banheiro. — Se passar um segundo dos quinze minutos, eu mesmo tranco aquela porta e dou o alarme de invasão. E aí você vai ver o que é o inferno de verdade.
A porta de madeira bateu com força, ecoando pelo banheiro vazio. Soltei o ar que estava prendendo, caindo de joelhos no chão de cimento, com o corpo inteiro tremendo enquanto a ficha daquela barganha perigosa finalmente caía.
Horas se passou.
A atmosfera no alojamento estava pesada, sufocante pelo calor abafado da noite e pelo cheiro de suor e graxa que parecia impregnated nas paredes de concreto. As poucas lâmpadas amarelas já tinham sido apagadas, restando apenas a luz fraca dos refletores do pátio cortando as frestas das janelas basculantes.
Eu estava sentado na borda do beliche inferior, encarando o chão, com as mãos cruzadas entre as pernas. A dor no meu pescoço pulsava a cada batida do coração, o local onde os dedos do Sargento Mello tinham se cravado ainda queimava.
O som do trinco da porta de entrada fez meu corpo travar por um segundo. Era o Emiliano. Ele entrou em silêncio, ajeitando a farda amarrotada da maratona de faxina, e caminhou devagar pelo corredor central até o nosso canto. Ele me olhou de cima a baixo, os olhos estreitados fixando-se imediatamente na mancha avermelhada e arroxeada no meu pescoço e na gola levemente rasgada da minha camisa.
— O que aconteceu com o seu pescoço, Michel? — Emiliano murmurou, a voz grave e baixa, sentando-se no beliche da frente e se inclinando na minha direção.
— O Mello... — engoli em seco, sentindo a garganta arranhar. — Eu encurralei ele no banheiro com a foto da página 4.
Emiliano arregalou os olhos por uma fração de segundo, soltando um palavrão abafado entre os dentes.
— Você ficou maluco, porra?! Você foi pra cima de um Sargento sozinho?!
— Eu não tinha escolha, Emiliano! O Valente mandou... e funcionou. Ou quase — suspirei, passando a mão pelo rosto. — O Mello surtou. Me prensou na parede, arrancou o celular da minha mão e pisou em cima até virar caco. Mas eu disse que as provas estavam na nuvem e que, se ele não ajudasse, o dossiê ia direto pra Brasília.
Emiliano passou as mãos pela cabeça, puxando o próprio cabelo, nitidamente tenso.
— Caralho... você jogou pesado demais. E o que o Mello fez?
— Fez uma barganha — respondi, aproximando meu rosto do dele para garantir que ninguém ao redor ouvisse. — Ele aceitou. Disse que vai aliviar a Polícia do Exército, mandar um relatório dizendo que a invasão foi falha de segurança sem participação de recrutas, e vai liberar 15 minutos de acesso ao Depósito B hoje... às três da manhã.
Emiliano travou no lugar, me encarando em choque.
— Três da manhã? Mas o que ele pediu em troca? Um cara como o Mello não entrega o Depósito B de graça nem fudendo.
— Ele quer o nome dele fora da Pasta A-10 — soltei de uma vez. — Quer que a gente edite os arquivos na nuvem pra jogar cem por cento da culpa no Brito. Ele disse que, se o nome dele aparecer em Brasília, ele mata a mim antes de ser preso. E quer que eu entregue a senha da nuvem assim que sairmos do depósito.
Emiliano deu um riso seco e sem humor, balançando a cabeça em negação.
— E você prometeu isso pra ele? Michel, o Valente nunca vai aceitar cortar o Mello do dossiê! O Mello é peça chave do esquema! Você deu uma garantia que não pode cumprir pra um psicopata armado!
— Eu prometi o que precisava prometer pra gente ter acesso àquele depósito! — rebati num sussurro desesperado, encarando Emiliano nos olhos. — Se eu não fingisse aceitar, ele tinha me matado ali mesmo no banheiro ou me jogado na cela! Agora a gente tem a porta aberta às três da manhã. A questão é: o que diabos o Valente quer tanto lá dentro?
Antes que Emiliano pudesse responder, o som de passos firmes e coturnos pesados ecoou no corredor do alojamento.
A porta de ferro bateu contra a parede com um estrondo violento, e a luz branca do corredor principal foi acesa de golpe, cegando todo mundo por um instante.
— TODO MUNDO DE PÉ! AGORA! — a voz metálica e implacável do Sargento Rocha cortou o silêncio do alojamento como uma lâmina.
Os recrutas começaram a se levantar em pavor, tropeçando nas botas e ajeitando a farda às pressas.
Rocha caminhou pelo corredor central acompanhado por dois cabos da Polícia do Exército. Os olhos dele, afiados e desconfiados, passeavam por cada beliche até pararem exatamente em mim e no Emiliano.
Rocha deu três passos lentos na nossa direção, parando a um metro de distância. Ele olhou para a minha gola torta, fixou os olhos nas marcas vermelhas no meu pescoço e depois desceu o olhar para as minhas mãos trêmulas.
— Tudo calmo por aqui, recrutas? — Rocha perguntou, com um tom de voz manso, mas carregado de uma venenosidade mortal. — Vocês dois parecem estar tendo uma conversa muito interessante no escuro.