Capítulo XXXIX
— Não vai adiantar nada você ficar virando o rosto para mim — dizia Epona com uma voz fofa —, ou, agora que passou por quase tudo, vai querer abrir mão da sua Ártemis?
O sangue de Notau em cima do meu corpo parecia queimar... ainda assim, Ártemis era meu objetivo. Respirei fundo, levantei o rosto e olhei para a Górgona. Mas não havia Górgona; havia Epona com um jaleco, sentada em sua cadeira e gesticulando para que eu me sentasse de costas para ela.
— Isso, bem melhor assim. Não foi um ferimento tão profundo, mas é um pouco extenso; preciso limpar e dar uns pontinhos...
Tentava não tremer, mas, ao ouvi-la atrás de mim falando sobre costurar minha carne, descontrolei-me...
— Ai, Potro, como você tira o prazer da gente! Estou tão feliz, consegui fazer você passar por todas as Domas, estou perto de entregar o que Ártemis me pediu, e você age como um chato!
Epona limpava minhas costas.
— Para de tremer, que eu preciso fechar essa ferida! Lembra da sua Deusa... — tentava parar, tentava lembrar do que poderia acontecer se eu não parasse, mas, justamente por lembrar disso, por tudo estar tão fresco em minha cabeça, não conseguia. — ...olha, se você tivesse se revoltado como eu tinha previsto lá atrás e, na hora em que aquele merdinha montou em mim, o tivesse golpeado na cabeça, tudo já estaria resolvido... duas Domas no mesmo dia! E tem mais: você não disse que eu podia fazer o que fosse preciso para transformá-lo em Cavalo?
Virei-me furioso...
— Ai, Potro, que merda, me sujou com seu sangue...
Queria gritar, queria bater, queria fazê-la pagar pelo que havia me feito fazer...
— ...não estou entendendo seu olhar, Potro... ainda tem homenzinho aí dentro? É isso? Já foi, bicho burro; se você fosse fazer algo contra sua Senhora, você já teria feito, você já matou...
— Eu não matei Notau, você o matou!
Epona riu como se minha acusação fosse a punchline de uma piada.
— ...Ai, Potro, você é muito bobinho... mas tá bom, com você tudo tem que seguir a lógica do baby steps... tá bom, fui eu que matei esse aí, obrigada por me ajudar! Quer agora um pirulito para me deixar fazer o curativo?
— ...Mas se eu não o matasse, você iria nos matar! — as lágrimas se juntaram à tremedeira.
Epona suspirou como se meus sofrimentos não fossem nada além de um estorvo... parecia que ela esperava algum agradecimento ou reconhecimento pelo que ela havia me feito fazer...
— Depende, Potro. Eu ia matá-lo, sim, mas não ia matar você a princípio!
— Para de mentir, Epona! Eu havia combinado com o Notau de matar você!
— Você falou isso para ele? OK, pode até ser, mas não muda o fato: você não faria nada contra sua Senhora, e você sabe disso... das presas, Potro, você não é nem das que correm no susto, você trava... — Epona tentava me fazer virar de volta com suas mãos.
Impunha alguma resistência a ela, mas não o suficiente; aos poucos, girava no mocho para lhe dar novamente as costas.
— O outro Potro ainda tinha alguma fagulha de resistência... mas você não, você é como a maioria das pessoas com quem viveu a vida toda. Sobrevive, adapta-se ao meio, encontra comodidade no desconforto, vai seguindo vivo para não morrer...
Epona voltava a me limpar; minhas interrupções e movimentos haviam me sujado novamente.
— ...você só é mais “resiliente” hahaha... — fiz como se fosse me virar de novo. — ...ora, Potro, você veio aqui com Ártemis, e aí acordou num cubículo minúsculo, passou a comer num pote, perdeu o privilégio ao banheiro, e cada coisa que eu ia tirando de você, você parecia ir se adaptando... nunca tinha visto tanta vontade de sobreviver, uma espécie de apego doentio à vida.
Desisti de reagir. Na época, achava que Epona estava me humilhando, mas era fato que estava ferido e que, se, em dois, não tínhamos tido chance contra nossa Senhora, naquelas condições é que eu não conseguiria fazer nada. Resmunguei baixo, mais para mim do que para ela, no entanto, enquanto ela começava a sutura...
— Mas Ártemis disse que meu pau era grosso...
— É verdade, Potro, fica quietinho que preciso trabalhar. Mas é verdade, viu? Você tem qualidades que fazem você não ser uma pessoa genérica...
Ao menos Epona admitia algo; afinal, ela não poderia negar sua chefa.
— ...mas eu não posso lhe dar essa resposta, você precisa perguntar isso para a própria Ártemis. — Ouvi o clique das tesouras cortando a linha.
Sim, Ártemis revelaria por que tinha me escolhido, reconheceria meus méritos e validaria minha jornada.
— Só que, para eu lhe levar para Ártemis, você tem que provar que consegue incorporar as três Domas juntas, entende? A gente trabalhou tudo separado para você conseguir ir entendendo o que precisava fazer e ser, mas o desejo de uma Predadora não é estático; você precisa entregar tudo o que ela precisar conjuntamente...
Voltei a tremer... teria que ser violado de novo? Teria que matar outra pessoa?
— Hahahaha, calma, Potrinho, hoje é um dia feliz, temos que comemorar que, mais uma vez, eu vou conseguir entregar um bom relatório para Ártemis e falar do seu progresso. Estamos avançando, deixa que eu cuido de você. Era isso que você buscava quando entrou no carro, sua verdade íntima: você não é homem!
