Quando Umbrifer desceu das montanhas, o ar já cheirava a pedra cortada. O som das picaretas se espalhava pelos vales, onde os arquitetos começavam a marcar o terreno para a futura capital do reino unificado. A guerra havia terminado. Os generais comemoravam a vitória, os nobres bebiam em memória dos vencidos e os escribas começavam a registrar os acontecimentos que, dentro de alguns anos, seriam apresentados como a grande conquista de seu imperador. Umbrifer, porém, não conseguia descansar.
Era imperador, estrategista, órfão e vencedor. Tinha passado anos lutando para chegar até ali e, agora que finalmente possuía tudo o que havia perseguido, sentia necessidade de desaparecer.
Vestiu a mesma capa que usava na juventude, quando ainda exilado, atravessou a floresta para se abrigar em um reino aliado. Preparou uma pequena bolsa de couro: Colocou dentro meia dúzia de frutos pequenos e alongados, de casca marrom e enrugada. A polpa era firme, escura e muito doce, escondendo um caroço comprido no centro, um único fruto bastava para trazer saciedade por todo o dia. E, além dos frutos, apenas uma pedra para produzir faíscas, e sua adaga magnética. Não avisou ninguém. Não levou soldados, criados ou conselheiros. Estava, finalmente, sozinho.
Depois de alguns dias de viagem, chegou a um pequeno vilarejo costeiro. O sol refletia sobre o mar, e os barcos descansavam na areia enquanto os pescadores terminavam o trabalho do dia. Umbrifer pagou a um deles para levá-lo até uma ilha que conhecia apenas pelos mapas do império. O homem não fez perguntas e, assim, a travessia foi silenciosa.
A ilha era uma tapeçaria de abundância. Os dois montes eram cobertos de mata densa, rodeados por faixas de areia tão branca que feriam os olhos ao meio-dia. O mar raso, quente, e de um azul estonteante. Pequenos crustáceos de abdome reduzido espiavam com olhos salientes das tocas; Árvores altas e de tronco estreito cresciam próximas umas das outras, com folhas longas concentradas no topo. Entre elas pendiam frutos grandes, arredondados, de casca fibrosa que guardava água fresca e adocicada. Algumas das árvores se inclinavam sobre a praia, movidas pelo vento constante que vinha do mar, e pareciam se curvar como para abençoar sua solidão.
Umbrifer caminhou por horas antes de escolher onde ficaria.
Encontrou abrigo entre algumas formações de pedra arredondadas pela água e descobriu uma nascente escondida entre as raízes das árvores. A água era fria e limpa. Mais adiante, havia uma área onde a mata se abria para uma faixa de areia, protegida do vento e próxima do mar.
Seria suficiente.
Nos primeiros dias, viveu do que encontrava.
Aprendeu quais frutos podia comer, quais deixavam a boca amarga e quais precisavam ser abertos antes que sua polpa pudesse ser retirada. Pescava usando um arpão improvisado e passava as mãos pela lama das áreas alagadas à procura de pequenos animais de carapaça dura e achatada, de abdômen reduzido, que se escondiam em buracos quando ele se aproximava.
Não havia homens esperando suas ordens quando acordava. Não havia mapas sobre uma mesa, mensageiros trazendo notícias de fronteiras ou generais esperando decisões. Ninguém lhe perguntava o que fazer com um território conquistado ou quanto tempo deveria permanecer em determinada cidade.
À noite, acendia uma fogueira, assava o que havia conseguido e dormia sozinho.
A vida era simples.
E justamente por isso começou a gostar dela.
Foi também durante aqueles primeiros dias que começou a perceber que havia alguma coisa diferente naquela parte da ilha. Algumas vezes, enquanto caminhava pela mata, ouvia um ruído entre as folhas e, ao olhar para trás, não encontrava nada. Em outras, percebia que pequenos animais que costumavam permanecer próximos dele desapareciam por alguns instantes e só retornavam depois que Umbrifer se afastava. Certa manhã, encontrou marcas pequenas na terra úmida junto à nascente. Não conseguiu identificar a criatura que as havia deixado.
Não se preocupou. Afinal, ele ainda conhecia pouco da ilha, mesmo que fosse pequena. Poderia haver dezenas de animais que nunca tinha visto.
Continuou explorando.
No quinto dia, enquanto seguia uma área mais fechada da mata, ouviu o som de água caindo. O ruído vinha de algum ponto entre os dois montes e parecia aumentar à medida que avançava. A vegetação ficou mais úmida e fechada. Cipós desciam dos galhos, raízes atravessavam o caminho e pequenas correntes de água corriam pelo chão antes de desaparecerem novamente entre as pedras.
Depois de algum tempo, encontrou o rio.
A água era escura, mas limpa, parecia lavar o metal das rochas e levá-lo consigo até o mar. Corria por uma depressão natural entre as árvores e, mais adiante, descia por pequenas quedas antes de continuar em direção à praia.
E ali, como um marco na margem, estava a árvore.
Frondosa e imponente. O tronco se dividia em vários galhos grossos e tortuosos, e a casca lisa apresentava diferentes tons de cinza, marrom e avermelhado, com manchas irregulares nas partes mais antigas. O que mais chamava atenção, porém, eram os frutos. Eles surgiam diretamente do tronco e dos galhos, presos à madeira em pequenos grupos, alguns ainda verdes e outros já maduros, de casca escura, quase negra, lisa e brilhante. Alguns estavam rompidos, deixando à mostra a polpa clara e úmida que envolvia as sementes.
Umbrifer aproximou-se para observar.
Foi então que percebeu a mulher sobre os galhos.
Ela estava sentada em um dos ramos mais baixos, observando-o.
Era magra, de corpo esguio, com a pele coberta por pequenas manchas que lembravam as marcas do tronco. Seus cabelos eram espessos e ondulados, caindo pelos ombros e pelas costas até se confundirem com os galhos da árvore. Os olhos eram negros, sem qualquer tonalidade perceptível ao redor das pupilas.
Estava nua.
Umbrifer permaneceu parado, olhando para ela. A mulher também não se moveu. Não demonstrava vergonha, medo ou qualquer intenção de esconder o corpo. Parecia simplesmente não compreender por que deveria fazê-lo.
Depois de alguns instantes, ela passou uma das mãos pelo tronco e desceu da árvore, deslizando com uma leveza de quem não era puxada para a terra como todo o resto do mundo. Seus pés tocaram a terra úmida e ela se aproximou, diante dele ergueu a mão e, por fim os dedos tocaram seu rosto. Primeiro a bochecha, depois o queixo marcado, por fim, os cabelos. Ela parecia examiná-lo com curiosidade, como se estivesse tentando compreender o que havia surgido dentro de seu território.
Sua mão desceu até o peito de Umbrifer. Ela sentiu o coração dele bater, acelerado pelo seu toque. Os olhos dela permaneceram fixos nos seus, igualmente curiosos. Novamente, com a delicadeza das mãos manchadas, puxou o seu queixo e o beijou com tanta ternuma que o fez sorrir, enquanto as línguas se tocavam.
O toque das línguas tornou-se um ritual, todos os dias sob a sombra da árvore. E rapidamente evoluiu para que a nudez de ambos se tornasse apenas um idioma antigo que a guerra esquecera de silenciar.
Ela nunca perguntou quem ele era.
Umbrifer também não perguntou seu nome.
A diferença entre os dois não parecia importar.
Aproveitavam também da água fria e escura. Às vezes seguiam o rio, remando em troncos, até alcançar a linha onde o doce encontrava o salgado, e ali, entre os botos e cardumes faiscantes, celebravam o dia como se tivessem sido os primeiros a nascer na criação.
Ali, ele se perdia.
Aos pés da árvore, deitavam-se após a exaustão.
Ela acariciava seus cabelos como se penteasse uma fera adormecida.
Ele a olhava como quem não acreditava que o mundo ainda podia conter algo que não fosse conquista, emboscada ou vingança.
A tarde se deitava quente sobre a praia onde o rio de águas escuras encontrava o mar. A correnteza era lenta ali, preguiçosa como os corpos entrelaçados sobre a areia branca, manchada de cascas de frutos e pegadas apagadas pela maré.
A dríade conhecia o próprio corpo sem o constrangimento e, quando ficava sobre ele, apoiava os pés na terra úmida como raízes jovens e movia os quadris que floriam em movimentos ritmados. Seus olhos escuros, como dois frutos maduros e doces, olhavam fundo nos de Umbrifer, que ali, sob ela, não era rei, não era general, não era sombra: era apenas homem.
Quando assim, Umbrifer gostava de observá-la. As manchas que cobriam sua pele pareciam ainda mais visíveis quando estavam cobertas de suor, repetindo os mesmos padrões irregulares da casca da árvore sob a qual haviam escolhido ficar. Gostava da maneira como ela se aproximava, do cheiro de terra e fruta madura que permanecia em sua pele e da intimidade que havia se estabelecido entre os dois sem que precisassem explicar nada. A umidade que escorria era generosa, e ele a sorvia com a fome de quem nunca havia se alimentado de outra coisa senão poder. Língua e dedos dançavam entre os sulcos de sua carne como se procurassem a origem do mundo. A cada espasmo que ela vertia contra sua boca, ele agradecia, como um penitente acolhido de volta pela terra.
Entre o prazer e o riso, assavam um peixe envolto em folhas sobre a brasa, enquanto o sol escorria lentamente do céu. Ela ensinou-lhe a sentir o fundo da lama com os dedos nus, assim como ele fazia com ela. Ele riu como uma criança.
Umbrifer jamais havia sentido isso. A leveza. A entrega. A fome não de conquista, mas de permanência. Era fim de tarde. O sol já estava baixo, e a luz atravessava a copa das árvores antes de desaparecer atrás do horizonte o céu pintado de laranja e rosa. Os dois estavam sobre a areia, próximos do ponto onde o rio encontrava o mar. A dríade estava sobre ele, e as mãos de Umbrifer seguravam sua cintura enquanto ela se inclinava para trás, apoiando uma das mãos na areia para sustentar o corpo, de olhos fechados, conectados como nunca.
E então veio o som.
O estalo do mundo partindo. Um ruído cortante, como os dentes de algo que jamais deveria ter deixado o fundo do mar.
A driade foi perfurada de súbito por um tridente que lhe atravessou o ventre e a espinha. A arma atravessou o ventre da dríade e saiu pelas costas com violência. O impacto arrancou seu corpo de cima dele e a fez tombar contra suas pernas. A mão que estava apoiada na areia perdeu a força, os dedos se fecharam sobre os grãos e um som curto escapou de sua garganta.Um jorro quente escorreu-lhe pelo umbigo, manchando o ventre do próprio Umbrifer. Seus olhos, antes negros e vivos, perderam o brilho, e pareciam agora como frutos esmagados contra a pedra.
— Não… — Negou ainda segurando-a pela cintura, enquanto procurava de onde havia vindo o ataque.
Nas águas rasas viu do que se tratava: uma sereia alta, de pele esverdeada e escamas que cobriam a cauda e parte do torso. Seus olhos eram claros, quase translúcidos, e a boca tinha dentes pequenos e numerosos. Algas negras estavam presas ao redor do pescoço.
Umbrifer deitou o corpo dela na areia, com a mesma ternura com que sempre a conduziu. E gritou, como o estalo de uma corda rompida, com a mesma ira que tinha no campo de batalha. E ouviu também o grito, quase debochado, da criatura que interrompeu seu último momento de paz. Encheu os pulmões de ar, enquanto se erguia ainda nu, e manchado pelo sangue daquela paixão. O olhar leve de admiração que tinha ao ver a dríade sobre si havia sumido, e havia ali novamente a face do conquistador.
A sereia desviou com agilidade, mas antes que pudesse avançar, Umbrifer abriu a mão e a adaga, obediente, voltou em curva. Entrou-lhe pelas costas, perfurando-lhe o coração. O grito dela não foi humano, era uma canção em agonia. O sangue marinho tingiu a junção das águas, entre o rio e o oceano.
Ela tombou, e o mar pareceu recuar. A aura do imperador se manifestou e até mesmo o sol terminou de se esconder. Umbrifer caminhou para olhá-la nos olhos, enquanto ela se debatia como um peixe recém decapitado. Naquele instante, sua paz terminou, quando ele soube, quando seus olhos encontraram os dela, e neles ele viu a verdade: ela não viera por ódio, mas por ordem.
