Eu nunca tive vergonha da minha história. Nunca deixei de contar sobre minhas origens, de como minha vida mudou quando Manu apareceu na minha vida do nada, de como a família de Helena me ajudou e foi importante para mim, de como conheci Laura e acabei vindo a trabalhar com ela.
A única coisa que sempre escondi do pessoal que conheci através das festas foi o motivo de eu ter saído da casa de Helena. Não era vergonha ou medo, era para evitar que alguém tomasse alguma providência sem eu saber. Tinha pessoas poderosas ali, pessoas que trabalhavam em cargos importantes. Não era pena de Rogério ou Tânia, era o medo de que aquilo tomasse um caminho que pudesse expor Manu ou a família de Helena a situações ruins. Também não queria que o que Tânia fez chegasse aos ouvidos do seu Geraldo. Algumas coisas eu preferia evitar, e contar essa parte da minha vida era algo que eu evitava.
As únicas pessoas que sabiam dessa parte da minha vida, além de Helena, Tamires e Pedro, que estavam envolvidos desde o início, eram Laura, Sandra, Raquel e Nicole. As três últimas eram pessoas em quem eu confiava e, com o tempo, acabei contando minha história completa.
Eloá parecia ser uma pessoa legal, mas eu a conhecia há poucas horas. Não tinha como saber se ela era confiável, nem se aquele nosso encontro seria apenas algo de uma noite. Mesmo ela morando em São Paulo, preferi me precaver. A essa altura do campeonato, eu já sabia como a vida podia mudar de uma hora para outra.
Por isso, contei minha história a Eloá, mas, na parte em que saí da casa de Helena, disse que havia acontecido um problema grave que me levou a ter que sair meio às escondidas dali. Provavelmente Eloá ficou curiosa, eu pelo menos ficaria se estivesse no lugar dela, porém ela não perguntou nada, e eu continuei contando o restante da minha história.
Resumi muitas coisas, mas contei as partes relevantes, mesmo poupando alguns detalhes.
Eloá estava deitada sobre meu peito, e eu não conseguia ver seu rosto, apenas aqueles cabelos vermelhos ali, próximos ao meu rosto. Eu fazia carinho em seu cabelo e ia falando o que tinha para falar.
Quando terminei, Eloá levantou o rosto e me olhou. Foi aí que percebi que seus olhos estavam marejados. Ela ergueu o corpo, se jogou sobre mim e passou um braço por baixo do meu pescoço. Ela me abraçou de uma forma carinhosa e disse no meu ouvido que eu era uma pessoa incrível.
Eu fiquei sem entender. Apesar de já ter visto algumas pessoas ficarem um pouco emocionadas com minha história e me elogiarem pelas decisões que tomei. Principalmente por ter escolhido ficar com Manu e assumi-la como se fosse minha filha. Porém, sentia que havia algo a mais na reação de Eloá.
E eu estava certa.
Eloá ficou ali abraçada comigo por um tempo. Depois de me soltar, deu um beijo muito carinhoso nos meus lábios e começou a me explicar o motivo de ter reagido daquela forma.
{...}
Eloá— Sua história é linda e tem algumas coisas bem parecidas com a minha. Eu me vi em algumas partes da sua história. Algumas vezes, me vi em situações que você viveu, principalmente na sua adolescência, na sua aparência diferente e nos seus dias no abrigo.
Depois, me vi em algumas partes daquilo que Manu viveu. De formas diferentes, mas que me fizeram lembrar da minha própria história.
Eu também sou órfã e fui adotada por uma família que praticamente salvou minha vida. Tudo o que sou, devo a eles.
Eu fui abandonada na porta de uma igreja. Não sei por quê, nem por quem. Só me contaram que fui encontrada por um senhor que estava indo para o trabalho e que chamou o padre. O padre me levou para a paróquia e chamou as autoridades.
Fui encaminhada para o Conselho Tutelar, que me levou para um hospital porque eu estava doente. Eu estava com o início de uma tuberculose. Fiquei vários dias no hospital, mas conseguiram me salvar. Dali, fui encaminhada para um orfanato, já que a polícia não conseguiu encontrar meus pais ou descobrir algum parente.
Isso tudo aconteceu em uma cidade do interior, e eu só soube disso depois de mais velha. Não me lembro de nada daquela época. Minhas lembranças já são de quando eu era uma criança no orfanato.
Fiquei ali até os sete anos, porque ninguém queria me adotar. Eu era uma criança muito feia e estranha. Tinha os cabelos vermelhos, meio desbotados. Hoje tenho orgulho do cabelo que tenho, porque ele é bem cuidado, mas naquela época era horrível. Era muito seco e vivia despenteado, porque não permanecia penteado depois que secava.
Meu rosto e a parte de cima do meu tronco eram cobertos de sardas. Eu parecia um pequeno monstrinho.
Eu sofria bullying o tempo todo. Por mais que os adultos que trabalhavam no orfanato tentassem me defender e se esforçassem para que eu tivesse uma vida normal, eu nunca tive. Por causa das outras crianças e adolescentes, que viviam implicando com minha aparência, fui me isolando e passei praticamente a viver sozinha. As únicas pessoas com quem eu conversava eram os adultos.
Isso me deixava muito triste. Eu não tinha nem um amiguinho para brincar comigo, então brincava sozinha em algum canto para que as outras crianças não implicassem comigo e com minha aparência. Porém, por causa de uma reportagem de uma TV regional, tudo mudou.
Esse canal fez algumas reportagens sobre crianças abandonadas que viviam em orfanatos das cidades da região. Algumas dessas reportagens acabaram ganhando destaque e foram exibidas em um famoso jornal noturno. Uma mulher que viria a ser minha salvadora viu aquela reportagem.
Eu me lembro de que, no dia em que a reportagem foi feita no orfanato onde eu vivia, eu não queria aparecer de jeito nenhum. Mas a repórter que estava fazendo a matéria me convenceu a dar uma pequena entrevista. Ela insistiu por causa da minha história de ter sido abandonada doente na porta de uma igreja. Bom, eu mal consegui falar direito e só respondia com o mínimo de palavras possível sobre minha vida ali no orfanato. No fim, quando a repórter perguntou qual era o meu maior sonho, eu disse que queria que alguém me tirasse daquele lugar.
Bom, dias depois, me chamaram para conhecer um casal que estava interessado em me adotar. Eu fui. Era minha chance de sair dali, e tudo deu certo.
Conheci o casal, eles gostaram de mim e resolveram me adotar. Levou algum tempo para que tudo fosse resolvido, mas fui adotada e levada para um novo lar. Fui bem tratada, mas ainda sofria bastante na escola. Porém, minha mãe adotiva me ajudava muito e me dava muito amor e carinho.
O tempo foi passando. Eu fui crescendo, minhas sardas diminuindo, meu corpo começou a ganhar formas e meu cabelo agora era bem cuidado. Tornei-me uma adolescente bonita e passei a chamar a atenção pela minha beleza. Aquilo foi aumentando minha autoestima e, claro, comecei a fazer amigos.
Meus pais eram incríveis e ainda são, mas minha mãe, em especial, me ajudou muito no início da minha vida com eles. Ela era psicóloga, e acho que isso a ajudou muito a me criar. Era ela quem me dava força e apoio para eu levantar todos os dias e ir estudar quando eu ainda sofria bullying na escola. Eu nunca vou poder agradecer a ela o suficiente pelo que fez por mim e ainda faz.
Porém, quando me tornei adolescente e comecei a entender mais a vida, fiquei curiosa para saber por que ela havia me escolhido. Meus pais são de família rica, principalmente meu pai. A família dele é uma das mais ricas da região onde ele nasceu. Mas minha mãe também vem de uma família com uma boa situação financeira.
Um dia, cheguei em casa do colégio e minha mãe estava no sofá lendo um livro. Fui até ela, dei um abraço e um beijo nela. Sentei ao seu lado e perguntei por que ela havia me escolhido, sendo que poderia ter escolhido qualquer outra criança. Uma mais bonita, por exemplo. Não fazia sentido ela ter escolhido a mim, que era tão feia e estranha.
Minha mãe sorriu e disse que eu não era feia nem estranha. Eu era apenas diferente, assim como ela havia sido até o fim da adolescência.
Naquela hora, olhei de cima a baixo para minha mãe. Ela era perfeita, não tinha nada de errado com ela. Naquele momento, não entendi o que ela quis dizer. Então ela sorriu e apontou com o dedo para o lábio superior.
Eu já tinha visto que minha mãe tinha uma pequena cicatriz que ia do lábio até o início do nariz, mas era quase imperceptível. Quando estava maquiada, era impossível ver. Com o rosto limpo, até dava para notar, mas somente se prestasse muita atenção. Eu já havia percebido por viver grudada nela, mas era algo tão sem importância que nunca tive curiosidade de perguntar o motivo daquela pequena cicatriz.
Minha mãe me explicou que nasceu com uma má-formação no lábio superior e no céu da boca. Ela nasceu com uma fissura no céu da boca e nos lábios. Os médicos chamavam aquilo de lábio leporino e fenda palatina.
Ela disse que passou pelas primeiras cirurgias ainda bebê. Porém, ficou uma cicatriz feia e seus dentes não nasceram direito. Conforme foi crescendo, passou por outras cirurgias e, mesmo assim, não ficou bom. Seu lábio superior era estranho e, ainda por cima, tinha uma cicatriz. Isso foi motivo de piadas das outras crianças. Ela acabou sofrendo muito na escola e depois no colégio. Aquilo acabou com sua autoestima.
No final da adolescência, a cicatriz já não era tão feia. Ela já havia passado por outras cirurgias e seu lábio era praticamente normal. Porém, tudo o que sofreu desde criança acabou se transformando em uma crise de ansiedade. Ela disse que passou a fazer tratamento e tomar medicamentos, mas, mesmo assim, era complicado para ela até o simples fato de existir. Vivia isolada e, por fim, nem ao colégio ia mais. Porém, seus pais contrataram uma psicóloga especialista em casos assim e, quando completou dezoito anos, ela passou por mais uma cirurgia. Essa praticamente a livrou da cicatriz.
Com o tratamento e o sucesso da última cirurgia, as coisas foram melhorando. Com o tempo, voltou a estudar, fez amigos, arrumou um namorado e se casou. Sua vida estava perfeita, até ela descobrir que não podia ter filhos. Foi mais um baque em sua vida, mas ela e seu marido, no caso, meu pai, resolveram adotar.
Ela me disse que foi nessa época que viu a reportagem na TV e me viu. Quando me viu, disse que enxergou no meu olhar a mesma tristeza que carregou por anos e, naquele momento, resolveu que eu era a escolhida. Ela faria de tudo para não deixar que eu passasse pelo que ela passou.
Foi ali que entendi.
Minha mãe não escolheu me adotar. Ela escolheu me salvar de uma vida triste que ela mesma havia vivido. Depois daquela conversa, passei a amar ainda mais minha mãe e resolvi aproveitar mais ainda a chance que ela havia me dado.
Bom, tornei-me uma mulher bonita, conheci Ítalo, casei-me e sou muito feliz.
Acho que deu para você entender por que fiquei emocionada com sua história.
{...}
Camila: Sim, eu entendi...
Eu não consegui falar muita coisa. A história dela também me emocionou, e fiz o que ela havia feito há pouco tempo antes. Eu a abracei e disse no seu ouvido que ela também era uma mulher incrível, assim como sua mãe. Ficamos ali abraçadas por um tempo, mas a soltei quando ouvi o som de uma boca se abrindo em um bocejo.
Eu sorri e disse que era melhor a gente dormir e, no outro dia, continuaríamos a conversa. Ela concordou. A coitada provavelmente estava caindo de sono e, na verdade, eu também estava. Dormimos rápido e só fui acordar no outro dia com o barulho da porta.
Era Nicole, que tinha acabado de chegar.
Eu não sabia que horas eram, mas, pelo brilho na janela, o sol já estava alto no céu. Eloá ainda dormia ao meu lado. Nicole nos viu, deu um sorriso e foi direto para o banheiro. Antes de ela voltar, senti Eloá se mover. Quando olhei para baixo, vi que ela levantou o rosto, sorriu e me deu bom-dia. Respondi e disse que Nicole tinha acabado de chegar e estava no banheiro.
Ela disse que provavelmente deveria ir para o quarto dela. Eu disse que não estava expulsando-a, apenas avisando que Nicole havia chegado, mas que ela poderia ficar o tempo que quisesse. Ela sorriu e disse que tinha entendido, mas, mesmo assim, começou a se levantar.
Eloá estava calçando os sapatos quando Nicole apareceu. Achei que ficaria um clima meio estranho, mas me enganei redondamente. Assim que a viu, Eloá deu bom-dia e perguntou como havia sido a noite.
Nicole disse que tinha sido incrível, que o marido dela era um amante excepcional. Eloá sorriu e disse que era mesmo, mas que eu não ficava atrás, que eu também era incrível. Nicole disse que sabia disso, que eu realmente era uma delícia.
Eloá me olhou e depois olhou para Nicole.
Eloá— Vocês são duas safadas.
Nicole— Somos mesmo, assim como você.
As duas estavam só sorrisos, e eu acabei rindo daquela conversa desinibida entre as duas.Nicole sentou na cama e já foi tirando a roupa, ficando apenas de calcinha. Eloá se despediu de nós duas e disse que poderíamos nos encontrar mais tarde na piscina. Nicole disse que, se ela levasse o marido, ela topava, e caiu na risada.
Eloá disse que levaria, sim, mas que, dessa vez, não era para emprestá-lo para Nicole.
Nicole fez um bico e disse que ela deveria deixar que ela namorasse o marido no final de semana. Assim, ela poderia me namorar e todo mundo ficaria feliz.
Eloá fez uma cara de quem estava pensando em algo. Depois, disse que até que seria uma boa ideia. Nicole sorriu e disse que era para ela dar a resposta mais tarde. Eloá concordou, despediu-se de nós e se foi.
Eu fui dormir mais um pouco, e Nicole também. Pelo jeito, aquele final de semana iria ser bem interessante, bem mais do que eu esperava.
Continua...
Criação: Forrest_Gump
Revisão: Whisper
