A porta do quarto mal tinha fechado quando Patrícia largou a bolsa no chão.
Ficamos nos olhando.
No bar ela tinha sido falante, debochada, cheia de respostas.
Ali, por alguns segundos, ficou diferente.
Nervosa.
— Que foi? — perguntei.
— Nada.
— Patrícia.
Ela respirou fundo.
— Quinze anos, Sandro.
— De quê?
— Quinze anos transando com o mesmo homem.
Deu uma risada nervosa.
— Agora estou num quarto com um cara que conheci hoje. Me dá uns dez segundos para processar a merda que estou fazendo.
Não avancei.
Foi Patrícia quem diminuiu a distância.
— Pronto. Processei.
— Rápido.
— Cala a boca.
Ela me beijou.
E aquela hesitação desapareceu.
Patrícia tinha desejo acumulado. Não era delicadeza ensaiada nem performance. Era vontade.
Beijava forte, agarrava minha camisa, ria quando nossos movimentos ficavam desajeitados.
Quando finalmente começamos a tirar a roupa um do outro, ela tentou esconder a barriga instintivamente.
Segurei sua mão.
— Não.
— Não o quê?
— Não esconde.
Ela ficou séria.
— Depois de dois filhos, a barriga não é exatamente minha parte favorita.
— A minha opinião é diferente.
— Você fala isso porque quer transar comigo.
— Também.
Ela caiu na gargalhada.
— Pelo menos admite, safado.
Beijei seu pescoço.
Patrícia fechou os olhos.
Foi naquele momento que ela começou realmente a relaxar.
Sem pressa, fomos descobrindo um ao outro.
Quando Patrícia decidiu me provocar com a boca, desapareceu qualquer vestígio daquela mulher insegura que havia entrado no quarto.
Ela gostava de perceber minhas reações.
Parava só para olhar para mim.
— Está gostando?
— Você ainda pergunta?
Ela abriu aquele sorriso malicioso.
— Quero ouvir.
E continuou até me deixar praticamente incapaz de responder qualquer provocação.
Depois inverti o jogo.
Patrícia ainda tentou manter a pose.
Durou pouco.
A mesma mulher que alguns minutos antes mandava em mim começou a perder completamente a capacidade de formular frases.
— Sandro...
Parei.
— Que foi?
Ela abriu os olhos.
— Não para, seu filho da puta.
Sorri.
— Agora quem está mandando?
— Vai tomar no cu.
E começou a rir.
Continuei.
A risada não durou muito.
Quando finalmente transamos, não houve nada daquela perfeição coreografada de filme.
Foi melhor.
Foi real.
Mudávamos de posição, parávamos para rir, voltávamos a nos beijar, experimentávamos outro jeito.
Patrícia dizia quando gostava.
Dizia quando queria diferente.
E principalmente dizia quando queria mais.
Depois de algum tempo, estávamos deitados tentando recuperar o fôlego quando ela falou:
— Posso te contar uma coisa?
— Outra confissão?
— Uma coisa que nunca fiz.
Olhei para ela.
Patrícia ficou alguns segundos em silêncio.
Então contou.
Sexo anal.
Nunca.
Nem com o marido.
— E por que está me contando isso?
Ela puxou o lençol sobre o corpo.
— Porque sempre tive curiosidade.
— Curiosidade não significa que precisa fazer hoje.
— Eu sei.
Ela olhou para mim.
— Mas quero.
Dessa vez não havia álcool falando por ela, nem raiva do marido.
Ficamos conversando.
Patrícia perguntou coisas.
Eu respondi.
Ela mudou de ideia duas vezes.
Na terceira, respirou fundo e decidiu.
— Quero tentar.
— Se não gostar, acabou.
— Eu sei.
— Se quiser parar...
— Sandro.
— O quê?
Ela sorriu.
— Você fala demais.
A primeira experiência dela foi cuidadosa e lenta.
Bem diferente da intensidade que tínhamos tido antes.
Patrícia ficou tensa no começo e reclamou.
Paramos.
Tentamos novamente somente quando ela pediu.
Até que, pouco a pouco, seu rosto mudou.
— Espera...
Parei imediatamente.
— Está doendo?
Ela ficou quieta.
— Patrícia?
Então veio um sorriso.
— Não.
— Quer parar?
Ela balançou a cabeça.
— Continua.
E foi assim.
No ritmo dela.
Quando percebeu que estava confortável, foi Patrícia quem começou a ficar mais ousada.
— Então era isso?
— Isso o quê?
Ela riu.
— A coisa que eu passei quarenta anos com medo de experimentar.
— E?
Patrícia pensou alguns segundos.
— Ainda estou decidindo.
Minutos depois, porém, ela mesma pediu novamente.
— Achei que estava decidindo.
— Cala a boca, Sandro.
A madrugada avançou.
Ainda transamos outras vezes, de maneiras diferentes, intercalando desejo com conversa, água, risadas e provocações.
Em determinado momento, Patrícia estava completamente descabelada, sentada na cama e procurando a própria calcinha.
— Onde está essa porra?
— Não faço ideia.
— Você tirou.
— Você praticamente arrancou.
Ela jogou um travesseiro em mim.
— Mentiroso.
Encontrou finalmente perto da porta.
Olhou para o relógio.
O sorriso desapareceu por alguns segundos.
A realidade estava voltando.
Marido.
Filhos.
Casa.
Vida.
Patrícia vestiu a blusa silenciosamente.
— Arrependida? — perguntei.
Ela pensou.
— De ter traído meu marido?
— É.
— Amanhã talvez.
Colocou a calça.
— Hoje não.
Pegou a aliança dentro da bolsa.
Ficou olhando para ela.
Então colocou novamente no dedo.
Aquilo foi estranho.
Era como se a Patrícia que entrara naquele quarto estivesse voltando.
Mas não exatamente igual.
Antes de sair, veio até mim.
— Sandro.
— Oi.
Ela me deu um beijo.
Curto dessa vez.
— Obrigada por uma coisa.
— Pelo quê?
— Por não transformar minha primeira vez em uma merda.
Sorri.
— Então gostou?
Ela abriu a porta.
— Não exagera.
— Patrícia.
Ela olhou para trás.
— Você pediu duas vezes.
Aquela mulher ficou vermelha.
— Vai se foder, Sandro.
Comecei a rir.
Ela também.
Então Patrícia levantou o dedo do meio para mim e saiu pelo corredor.
Nunca descobri exatamente o que aconteceu quando chegou em casa naquela madrugada.
Mas algumas semanas depois, numa terça-feira, às 22h17, meu celular recebeu uma mensagem.
Era Patrícia.
Apenas quatro palavras:
**“Está fazendo alguma coisa?”**
Olhei para a tela e comecei a rir.
Aparentemente, ela já tinha terminado de decidir.