“Diga-me, por que você está tão desconfiado quando você vê buracos negros nos meus olhos?”
Eles me deixaram sozinha na nave.
Não sabia quanto tempo havia passado. O cronômetro da missão continuava funcionando, mas eu já não confiava naquilo que ele marcava. As horas haviam perdido qualquer significado.
Os outros tripulantes desapareceram um por um. Antes disso, todos enlouqueceram.
No início, atribuímos as alterações comportamentais ao isolamento prolongado, à privação sensorial e ao estresse psicológico de uma missão daquela magnitude. Depois começaram as alucinações, os episódios de paranoia e as alterações na percepção temporal.
Um por um, eles deixaram de confiar nos próprios sentidos.
Um por um, eles desapareceram.
Eu ainda tentava reconstruir a sequência dos acontecimentos. Revisei registros de telemetria, comunicações internas, leituras biométricas e todas as imagens captadas pelos instrumentos da nave.
Tudo me levava ao mesmo ponto.
Aderes.
Eu ainda me lembrava do momento em que a detectamos.
Inicialmente, nossos sensores identificaram uma fonte estelar sem correspondência nos catálogos conhecidos. Sua assinatura espectral não coincidia com nenhuma estrela registrada naquela região do espaço.
Não era uma anomalia instrumental.
Nós recalibramos os sensores, repetimos as medições, alteramos os filtros, Aderes continuava ali. Uma estrela que não constava em nenhum mapa, uma estrela que, de acordo com todos os nossos modelos, não deveria existir.
“Se houver um Senhor lá fora, ele é apenas um convidado”
Aderes emitia uma radiação completamente diferente de qualquer coisa que já tínhamos estudado. Os instrumentos identificaram ondas semelhantes às emissões solares, mas não apresentavam comportamento térmico convencional. Não produziam calor nem frio.
Quando essa radiação atingiu a nave, meu corpo reagiu. Meu cérebro começou a pulsar em êxtase, como se todos os meus neurônios fossem ativados simultaneamente.
Minha percepção ficou absurdamente aguçada. Pensamentos que normalmente levariam minutos pareciam acontecer ao mesmo tempo. Eu conseguia acompanhar cada variação nos monitores, interpretar os dados e formular hipóteses quase instantaneamente.
Ao mesmo tempo, uma tranquilidade profunda tomou conta do meu corpo. Minha frequência cardíaca diminuiu. Minha respiração se tornou lenta e regular. Toda a tensão acumulada durante a missão pareceu desaparecer em poucos segundos.
Era uma sensação de relaxamento tão intensa que nenhum spa premium seria capaz de proporcionar.
“Não interrompa esta expedição, quando ficar preso no horizonte de eventos dos meus olhos!”
Antes, eu havia tentado fugir. Acionei os propulsores e tentei alterar a trajetória da nave para retornar à Terra. Tentei estabelecer comunicação com o controle da missão, mas nenhuma mensagem foi transmitida. Nenhuma resposta chegou.
Os sistemas de comunicação permaneciam operacionais. As antenas estavam alinhadas. Os protocolos de transmissão funcionavam normalmente.
Ainda assim, não havia comunicação. A nave continuava parada no mesmo ponto do espaço. Estava presa na imensidão cósmica do universo, em algum ponto onde distância e tempo pareciam ter perdido seus significados.
Presa à celestialidade daquela estrela.
“Venha e junte-se a mim na minha rotação”
Aderes começou a me chamar.
Não conseguia identificar a origem daquelas ondas. Não havia qualquer alteração nos canais de comunicação, nenhuma frequência detectável, nenhuma oscilação nos sistemas de áudio da nave.
A voz simplesmente surgiu dentro da minha própria mente.
Tentei atribuí-la a uma interferência neurológica provocada pela radiação. Analisei meus sinais vitais, revisei os registros dos sensores e procurei qualquer alteração que pudesse justificar aquela percepção.
Não encontrei nada, mas a voz se tornou cada vez mais nítida, cada vez mais íntima.
Ela parecia conhecer meus desejos, meus medos e minhas lembranças. Mencionava coisas que jamais haviam sido registradas nos computadores da nave, memórias que pertenciam exclusivamente a mim.
Quanto mais tempo passava ouvindo Aderes, mais difícil se tornava resistir à sua presença.
A mesma radiação que havia alterado minha percepção agora parecia intensificar cada palavra. A sensação de êxtase e relaxamento aumentava sempre que ela me chamava.
Aos poucos, comecei a desejar me aproximar dela.
“Nosso encontro foi marcado como celestial no exato momento em que as estrelas nos batizaram”
Aderes intensificou a emissão de radiação.
Aquela sensação percorreu meu corpo novamente, mas dessa vez foi diferente. A resposta neurológica veio quase instantaneamente, espalhando-se por cada parte de mim como uma onda silenciosa.
A voz deixou de parecer uma transmissão, passou a soar como um sussurro dentro da minha própria mente. Não havia frequência. Não havia origem identificável. Apenas aquela presença, cada vez mais próxima.
Senti uma atração inexplicavelmente cósmica tomando todo o meu ser.
Era como se meu próprio corpo reconhecesse algo que minha mente ainda não conseguia compreender. Minha respiração desacelerou. Meu coração acompanhou o ritmo da radiação. Cada sentido parecia ser estimulado ao mesmo tempo, enquanto uma tranquilidade absoluta eliminava qualquer resistência.
A luz de Aderes atravessou as janelas da cabine e envolveu meu corpo.
Eu fechei os olhos. Por alguns segundos, tive a sensação de estar flutuando, embora meus pés ainda estivessem apoiados no chão metálico.
Aderes começou a me mostrar imagens, a magnificência de estrelas nascendo, o lúgubre fim de centenas de mundos, extinguindo vidas que jamais pudemos tomar conhecimento. Galáxias inteiras girando ao redor de algo que eu não conseguia enxergar.
Aquilo simplesmente aparecia dentro da minha mente, acompanhado por uma sensação de proximidade que tornava cada imagem quase física.
Quanto mais eu observava, mais íntima aquela presença parecia. Sentia que Aderes estava olhando através de mim. Como se meus olhos, meus pensamentos e minhas próprias lembranças fossem apenas instrumentos para que ela pudesse enxergar.
Eu quis me aproximar, e foi naquele instante que percebi que talvez aquele desejo nunca tivesse sido realmente meu.
“Matéria escura é tão deliciosa”
Eu flutuava. Não havia peso, nem direção, apenas o vácuo infinito e o silêncio que não era silêncio, mas a ausência total de som.
Meu cabelo esvoaçava em torno da minha cabeça como uma aurora escura, meu corpo nu era a única coisa sólida num oceano de escuridão pontilhada por distantes nebulosas de cores sem nome.
Eu não respirava, meus pulmões não ansiavam por oxigênio. Meu coração não batia, mas eu sentia uma pulsação, um ritmo lento e profundo que vinha de fora, de tudo ao meu redor.
Foi então que Aderes se aproximou, numa forma física semelhante à minha. O calor que emanava dela não era o calor de um fogo, era o calor da vida, da criação, uma onda de energia que banhou minha pele, fazendo cada célula do meu corpo vibrar em uma frequência nova e desconhecida.
A luz da estrela agora me envolvia como uma amante. Me tocou com partículas de pura energia, minúsculas centelhas que dançavam na minha pele. Cada toque era uma descarga elétrica de prazer, um estremecimento que percorria meu sistema nervoso fantasma.
Fechei os olhos, ou o que seriam meus olhos, e me entreguei à sensação. As partículas tornaram-se mais ousadas. Elas não pairavam mais na superfície, elas penetravam. Senti-as entrar nos meus poros, uma chuva fina e dourada que se infiltrava na minha carne.
Uma corrente de energia mais concentrada, mais densa, se formou a partir do corpo de Aderes. Era um feixe de luz coeso, brilhante e pulsante. Eu vi se aproximar, uma lança divina destinada ao meu centro. O feixe tocou o meio das minhas pernas e eu já nem sabia se o que eu tinha era um pau ou uma buceta.
A penetração foi indescritível. A energia de Aderes espalhou-se por dentro de mim, preenchendo cada molécula da minha carne.
O toque daquela entidade era como receber uma descarga elétrica, a eletricidade se chocando contra o meu externo e interno como se fossem mil sóis. Cada pulso era uma onda de prazer que me atirava mais fundo no vácuo. Meu corpo arqueou-se, uma ponte de carne ansiando por mais daquela força divina. Um grito escapou dos meus lábios, um som que não era ar, mas pura energia, um eco do próprio prazer de Aderes.
E eu recebi. A intensidade aumentou. A energia dentro de mim começou a pulsar mais rápido, um tambor de guerra cósmico que batia no meu sistema nervoso, um feixe de luz focado que me martelava sem piedade. Meu corpo todo se tornou um epicentro de orgasmo. Não era uma série de picos de prazer, mas um estado contínuo, uma explosão que não tinha fim.
A cada orgasmo eu me desintegrava e me recompunha em algo mais.
Eu era o centro de uma estrela em colapso, presa no momento perfeito antes da supernova. As chamas cósmicas lamberam minha pele, não queimando, mas me marcando com a sua essência. Os meus limites dissolveram-se na luz. O prazer era uma dor tão doce, uma tensão tão perfeita que eu achei que ia partir em pedaços de êxtase infinito, um ciclo sem fim de sensação crescente. Meu corpo espectral tremia, sacudido por espasmos que vinham da minha alma.
Num último infinito momento de clímax, a estrela de prazer que nos tornávamos, explodiu. Uma onda de luz e energia pura varreu o vácuo.
“Depois de vinte e oito anos-luz, minha pesquisa deve acabar, de alguma forma”
Aos poucos, minha trajetória deixou de ser controlada por mim. Percebi que não estava mais tentando alcançar Aderes. Eu estava sendo capturada.
Meu corpo começou a se mover pelo espaço, lentamente, obedecendo à atração gravitacional daquela estrela.
Então tudo ficou silencioso, eu estava orbitando-a.
Continuei consciente enquanto meu corpo completava sua primeira volta ao redor da estrela. A cada passagem, eu sentia menos necessidade de resistir.
Eu era apenas um corpo celeste. Mais um objeto capturado pela gravidade de Aderes. Pensar em permanecer ali não me causou medo.
Pensar em Aderes não era mais algo terrível. Era uma necessidade que crescia dentro de mim assim como era o oxigênio para os meus pulmões.
Eu não queria voltar para onde fosse o lugar de minha origem.
Eu queria continuar orbitando Aderes.
Queria permanecer para sempre naquela órbita.
Como se aquele fosse, desde o princípio, o lugar para o qual eu havia sido criada.
