## Capítulo 4 — O presente
Acordei no dia seguinte mais tarde do que o habitual. Normalmente, isso seria um problema, mas sexta-feira era um dia mais tranquilo na faculdade: eu só teria aulas à tarde.
Ainda sentia o corpo dolorido por causa do dia anterior. Quando tentei me preparar para ir ao banheiro, percebi que o dispositivo colocado por Júlia já estava interferindo na minha rotina.
A partir daquele dia, eu teria que me sentar sempre que precisasse usar o banheiro. Era a primeira mudança concreta na minha liberdade cotidiana, e eu sabia que outras poderiam surgir a partir dali.
Na hora de me trocar, encontrei outro problema: precisava escolher uma calça que não deixasse o dispositivo visível. Depois de algum tempo procurando, finalmente me arrumei.
Por volta das dez horas, fui para a faculdade. Como havia saído mais tarde do que de costume, acabei não encontrando Júlia no ônibus.
Ainda aproveitando o tempo livre antes do almoço, sentei-me em uma das mesas próximas ao IB e fiquei perdido nos meus pensamentos.
— Oi, Roma. Que coincidência encontrar você por aqui.
Era Priscila. Pelo estado em que eu me encontrava, conversar com ela certamente ajudaria a melhorar meu humor.
— Oi, Pri. Eu estava aqui pensando na vida.
— E então? Deu certo o seu compromisso ontem?
Só de ouvir a pergunta, senti um frio no estômago.
— Deu, sim. Cheguei um pouco atrasado, mas acabou tudo bem.
Passamos algum tempo conversando, e admito que a presença de Priscila me ajudou a esquecer um pouco o desconforto que estava sentindo.
Até que outra voz surgiu atrás de mim:
— Oi, Roma. Tudo bem?
Um frio percorreu minha espinha. A sensação era parecida com a de um cachorro sendo pego fazendo alguma travessura.
— Oi, Júlia.
Olhei para as duas e fiz as apresentações:
— Júlia, esta é a Priscila. Pri, esta é a Júlia.
Apresentei-as enquanto tentava disfarçar minha apreensão. Eu ainda não sabia como Júlia reagiria, já que, na noite anterior, não havíamos conversado muito e alguns detalhes ainda precisavam ser discutidos.
— Oi, Priscila. Sou a Júlia, amiga do Roma. Tudo bem?
— Oi, tudo.
Notei imediatamente a apreensão de Priscila e também seu aparente alívio ao ouvir Júlia se apresentar apenas como minha amiga.
— Posso me sentar com vocês?
— Claro — respondeu Priscila.
Júlia se sentou ao nosso lado, e começamos a conversar sobre a faculdade e as dificuldades daquele primeiro semestre. Para minha surpresa, foi apenas uma conversa normal.
Não houve provocações, indiretas ou qualquer demonstração de ciúme.
O que mais me impressionou foi a maneira como Júlia conduzia o diálogo. Ela sabia fazer perguntas, manter o assunto e deixar as pessoas à vontade. Em pouco tempo, as duas pareciam estar se dando bem.
Elas chegaram até a trocar números de telefone.
Aquilo se tornou mais um motivo para eu me preocupar.
Quando o horário do almoço se aproximou, Júlia olhou para nós duas.
— Vocês já sabem onde vão almoçar? Eu conheço um lugar aqui perto. Poderíamos ir juntos.
Priscila pareceu hesitar.
— Eu adoraria, mas preciso resolver algumas coisas antes da aula. Hoje não vou conseguir.
— Tudo bem — respondeu Júlia. — Fica para a próxima.
Priscila se despediu pouco depois e deixou o campus. Assim que ficamos sozinhos, Júlia se virou para mim com aquele sorriso difícil de interpretar.
— Então, Roma… agora podemos conversar com calma.
Eu queria perguntar sobre o que havia acabado de acontecer, mas me faltava coragem — ou talvez determinação.
Percebendo meu conflito, aquele sorriso malicioso voltou ao rosto dela.
— Não se preocupe, meu escravinho. Eu nunca disse que você não poderia ver outras mulheres. É claro que precisa da minha permissão, mas, desde que se lembre a quem pertence e a quem deve priorizar, não vejo problema.
Enquanto falava, Júlia balançou uma chave diante de mim.
Eu a reconheci imediatamente. Era a chave do dispositivo que ela havia colocado em mim, agora pendurada em seu pescoço como se fosse um colar.
— Então você não ficou com ciúmes? — perguntei.
Júlia soltou uma risada.
— Ciúmes? oque você poderia fazer com esse pau trancado?
Percebendo minha vergonha, ela continuou:
— Acho que eu e Priscila ainda podemos nos tornar grandes amigas. Quem sabe não deixo você transar com ela, está na cara que ela gosta de você, imagina a cena ela descobrindo que você tem o pau preso por outra mulher com certeza ia ser engraçado.
— Por favor, minha senhora. Não faça isso. Eu só tenho olhos para você.
— Que fofo.
Ela guardou a chave junto ao peito e se levantou.
— Mas vamos para outro lugar. Tem muita gente por aqui, e eu ainda preciso entregar o seu presente.
Confesso que tinha esquecido completamente do presente. Quando Júlia mencionou o assunto, minha ansiedade voltou com força.
Segui-a pela faculdade carregando sua bolsa, como um adolescente obediente. Ela me conduziu até uma grande pedra sob uma árvore, um pouco afastada do movimento dos estudantes.
Ao chegarmos, coloquei minha bolsa no chão e deixei a bolsa dela por cima.
— Sente-se no chão — pediu Júlia.
Obedeci.
Ela se sentou sobre a pedra e estendeu uma das pernas.
— Seu presente está aqui, meu escravo.
Naquele dia, ela usava uma calça jeans e uma sapatilha rosa, estilo Melissa. Quando levantou o pé, a parte de trás da sapatilha se soltou, deixando-a presa apenas pelos dedos.
Só então percebi que havia algo dentro do calçado.
Retirei a sapatilha com cuidado e dei um beijo nos pés da minha deusa.
Dentro dela havia dois pães de queijo, um em cada sapatilha.
A excitação bateu forte contra as grades, e Júlia percebeu imediatamente a minha reação.
— Pode comer, mas sem usar as mãos.
O cheiro, o tesão e o lugar tornavam tudo aquilo quase um sonho para alguém com o meu fascínio por pés. Não foi fácil cumprir a tarefa, mas comer o pão de queijo que havia sido pressionado pela sapatilha da minha dona pareceu valer cada esforço.
Sempre que me abaixava, agradecia a Júlia pela oportunidade. Pela expressão em seu rosto, era evidente que aquilo a agradava. Talvez fosse a imagem de um homem de 1,90 m curvado diante dela; talvez fosse apenas a satisfação de perceber que eu estava disposto a obedecer.
Ou talvez fosse a própria presença de Júlia. Ela tinha um brilho difícil de explicar.
Ali, mesmo em um lugar público e relativamente afastado, tudo pareceu se transformar em um templo dedicado à minha deusa.
Depois que terminei, limpei cuidadosamente as migalhas da sapatilha e me certifiquei de limpar aqueles lindos pezinhos 36,foi como ter uma sobremesa após um bom banquete. Júlia observou em silêncio até decidir que já era suficiente.
— O que achou do presente? Gostou?
— Adorei, senhora. Eu faria qualquer coisa para agradá-la.
— Bom menino. Continue assim e talvez eu recompense você de outras formas — disse ela, com um sorriso encantador.
Depois de alguns segundos, ela mudou de assunto:
— Foi difícil se acostumar com o dispositivo?
— Está sendo um pouco complicado, principalmente na hora de usar o banheiro. Também preciso ter cuidado com as roupas, para que nada fique visível.
— Tadinho, com o tempo você se acostuma, inclusive depois de um tempo você vai até mesmo conseguir gozar com ela.
Eu já tinha ouvido falar sobre aquilo, mas, no meu caso, ainda parecia algo muito improvável.
Júlia calçou a sapatilha e se levantou.
— Vamos indo. Eu ainda tenho que almoçar. Na volta, talvez possamos brincar um pouco mais.
Ela saiu como se nada tivesse acontecido.
Fiquei sentado, encostado na pedra, tentando assimilar tudo até chegar o horário da minha aula.
***
Na volta para casa, Júlia se sentou comigo no fundo do ônibus e, como sempre, colocou os pés no meu colo, pedindo uma massagem.
Confesso que eu sempre aproveitava aqueles momentos. Que escravo não gostaria de fazer uma massagem nos pés da própria dona? Fiz o possível para dar o meu melhor até estarmos quase chegando ao ponto em que ela costumava descer.
— Eu preciso que você volte comigo para a minha casa hoje — disse Júlia, sem tirar os olhos do celular.
Só pude concordar com o pedido.
Quando chegamos ao ponto, peguei a bolsa dela e a segui até sua casa. Assim que abriu a porta, Júlia se virou para mim, rindo.
— Tire a roupa e deixe tudo aí ao lado da porta. Quero que entre nu.
Eu estava constrangido e preocupado com a possibilidade de alguma das amigas dela estar em casa. Mesmo assim, fiz o que ela ordenou e me ajoelhei imediatamente.
— Bom garoto. Eu gosto assim, de escravos espertos. Agora venha comigo.
Ela não precisou repetir. Segui-a pelo corredor de quatro até o quarto que parecia ser dela. Pelo que eu sabia, cada uma das garotas tinha seu próprio quarto.
Ao chegarmos, Júlia apontou para uma pilha de roupas dentro de um cesto.
— Pode lavar as roupas. Os sapatos estão ali. Quando terminar, pode ir para casa.
Finalmente entendi por que ela havia me levado até ali. Concordei imediatamente, logo pensando nas partes boas daquela tarefa.
— Pode ir. Se demorar muito, coloco você para limpar o vaso sanitário com a língua.
Imediatamente voltei à realidade e comecei a trabalhar.
Júlia entrou no banheiro e começou a tomar banho. Ao ouvir o som da água, várias ideias passaram pela minha cabeça, porém todas foram embora com o lembrete doloroso que vinha de baixo.
Enquanto lavava as roupas e limpava os sapatos, Júlia me chamou ao quarto.
Quando cheguei lá, ela estava terminando de se arrumar. Usava um vestido curto azul-marinho e um batom vermelho vibrante. Por alguns segundos, quase não consegui piscar ao vê-la.
Ela não estava apenas bonita. Estava deslumbrante.
Era claro que havia se arrumado para sair.
— Escravo, vou sair com as minhas amigas. Quando acabar o que eu te passei, pode limpar o banheiro antes de ir embora. E lembre-se de terminar rápido. Não sei a que horas minhas colegas vão chegar em casa.
Júlia calçou uma bota de cano médio, com solas vermelhas, pegou suas coisas e saiu.
Fiquei sozinho naquela casa.
Somente quando percebi que realmente estava sozinho entendi a urgência da situação. Se as colegas dela voltassem antes que eu terminasse, poderiam me encontrar no meio daquela tarefa.
Voltei correndo ao trabalho, determinado a terminar tudo antes que alguém aparecesse.
Terminei o mais rápido que pude. É claro que a tarefa levou um tempo considerável, mas, felizmente, ninguém apareceu para me encontrar naquela situação.
Antes de sair, escrevi um bilhete agradecendo pelo dia e deixei junto o chocolate que havia comprado mais cedo. Depois, peguei minhas roupas, me vesti e fui embora.
Quando já estava na esquina, vi um carro parar em frente à casa. Uma mulher desceu e entrou, mas eu não a reconheci. Com certeza, não era Júlia.
Só consegui agradecer por ter terminado tudo a tempo.